Seis horas da manhã. Normalmente esta rotina estaria pronta mas me levanto um pouco mais cedo e me preparo para acessar o iTunes e sincronizar as músicas que preciso ouvir esta semana. Por diversão, por ofício ou por vício. Normalmente essa rotina se estabelecerá na segunda-feira e se estenderá até sexta onde o playlist renovar-se-á para próxima semana.
O parágrafo acima pode ser replicado na vida de milhões de pessoas no mundo. Variando os gostos, os dias, os motivos. Quando não ocupadas com os serviços de streaming (que ainda capenga no Brasil em função do território não ser “cortado” por redes wi-fi ou por ausência de 3G decentes, como acontece nos Estados Unidos, por exemplo), o i-listener (permitam-me o neologismo) faz sua rádio pessoal e cria sua trilha sonora para semana.
Por conta disso, espanta a notícia no G1 de que comerciantes estão lucrando horrores com a venda de LPs, alguns com lucros de 60, 70 e 80%. E não é só isso: nunca se vendeu tantos toca-discos desde que trabalho nesta indústria vital. Para entender clique aqui.
Os fetichistas do preto com um buraco no meio são sagazes quando o assunto é argumento. Lembro-me de discutir amigavelmente com um companheiro de trabalho que fazia questão de louvar as qualidades sonoras que o long play possui. Discussões técnicas à parte, óbvio que a moldura do LP é muito mais interessante do que aquela quadradinha em acrílico. Lá pela década de 80 eram até mais interessantes uma vez que a capa sempre foi parte do conceito do disco. Jamais passou pela cabeça do Sr. Steve Harris (baixista bastante contestado) que qualquer disco do Iron as canções não tivessem nenhuma relação com as capas. Aliás, diga-se de passagem, Derek Riggs talvez seja um dos artistas mais emblemáticos quando o assunto é emoldurar vinis com classe, bom humor e espirituosidade.
No entanto nada justifica que alguns comerciantes estejam lucrando os tubos com a “volta” do vinil se não pelo saudosismo de resgatar uma prática (muito saudável) de se comprar Lps. Com todo o romantismo atrelado ao produto, não existe nada tão anti-prático do que comprar discos, com todos os cuidados que eles demandam, e não são poucos. Ainda é preciso que se diga que não existem tantos criativos “Riggs” que investem seus talentos na busca de expressões geniais na hora do lançamento de um disco. Pelo contrário. Capas não são tão veneradas como antes, a ponto de algumas vezes serem homenagens a outras capas que um dia foram clássicas. Exemplo: Sonic Boom.
Paradoxalmente o mercado dá muitos passos à efetivação da compra de música. Legalizando a prática “ilegal” (ok, it never ends) nas lojas do iTunes, por exemplo. Aliás, o legado industrial de Steve Jobs tem ENORMES serviços prestados ao mundo do entretenimento já que faz a roda da fortuna girar sem deixar artistas em geral, produtores gráficos, designers, criadores de jogos, músicos, sem ferramentas de publicidade e venda de produtos. Ou seja: cada dia está mais fácil manter as coisas nos lugares para fazer do seu iTreco um open device para entretenimento de todo tipo, tudo dentro da legalidade.
A matéria ainda confirma a tese do fetiche com o saudosismo quando salienta que a maioria dos produtos à disposição dos consumidores é usado, ou seja, a demanda justificada baseia-se no que já se produziu e não no que se produz. Conseguem imaginar uma loja de carros fabricados em 1983 vendendo mais do que os fabricados este ano? Pois é assim que se comporta o mercado discográfico de vinil, por assim dizer.
Isso pode gerar um colapso econômico ou um novo convívio de tendências mercadológicas. Brechós vendendo mais que lojas de grife. Sebos literários obtendo mais lucro do que grandes livrarias. Dada às devidas proporções e tirando todo o exagero do contexto, isso se estabelecerá no mundo restrito, profundo e bastante conhecido dos colecionadores. Assunto para outro tempo.
Os smartphones tornaram-se em pouco mais de 3 anos de consolidação no mercado, um dos principais objetos de fomentação da indústria tecnológica. Traz a reboque investimentos do entretenimento, que se disseminam facilmente na sociedade, especialmente no target mais jovem. Canais de esporte como a ESPN, investem na transmissão de programas em dispositivos móveis, Netflix e o Hulu (serviços de TV por streaming) confiam no mercado, não apenas exibindo produtos mas assumindo investimentos na área de produção de séries, grandes empresas ganham licitações públicas para tirarem bairros e municípios da era medieval das fiações telefônicas do tempo da vovó, para, oferecerem com alguma (ou nenhuma, depende do caso) competência a mais alta tecnologia e no fim você vai até à esquina e traz o Creatures of The Night debaixo do braço.
Antes que algum idiota ou boçal possa tratar o texto como uma afronta àqueles que desfrutam do prazer de ouvirem suas canções de maneira muito elegante, não, este não é um debate que se abre contra a tendência apontada na matéria e nem uma defesa aberta apenas às facilidades criadas pela tecnologia. É uma base textual para pensarmos o quanto as relações de mercado foram alteradas a partir dos sentimentos que permeiam o homem. O passado jamais foi tão apontado como tendência como nos dias de hoje. O futuro está mais calibrado de nostalgia que se possa imaginar.
As grandes bandas de rock talvez não consigam lançar discos tão nobres e dignos de repetidas audições e, talvez por isso, não são poucas as notícias de que bandas, aqui e ali, saem em turnês mundiais para comemorarem 20, 25, 30 anos de um lançamento do que já foi. Como assim cara pálida?
Uma banda lança seu último trabalho, acredita piamente que aquele é o melhor que ele poderia fazer naquele momento e no entanto você dá uma olhada no set list e não tem QUATRO músicas do disco da tour… Pode ser que isso não aconteça em 100% das vezes em que uma banda de rock sai para estrada, mas não é nenhum absurdo.
O maior investimento da categoria “compre o novo” é uma exaltação “ao usado”, com fotos inéditas, demos irretocáveis (a antítese da antítese), entrevistas de promoção do álbum de 19xx e, pasmem, até músicas inéditas da época. Será que se não tivéssemos downloads, discos vendendo absurdos (na casa de milhões como acontecia há 30 anos), estaríamos reverenciando o que já foi devidamente homenageado? Haveria lugar para o passado se o presente fosse tão glorioso? Já que o passado transformar-se-á em ótimo no futuro, por que não tê-lo como bom hoje?
Para gente não ficar restrito à categoria música, para quem acompanha o mundo do cinema ou das séries de TV, o que mais temos hoje são remakes de clássicos cinematográficos/seriados. Só se fala de re-criações, referências, citações de produções e que acabam não tendo o retorno que os investidores estão esperando. Um dos maiores absurdos (pra mim) é a produção do clássico oitentista “Um Tira Na Pesada” transformado em roteiro para TV com Eddie Murphy. Será que somente as coisas ruins merecem um fim? A eternidade do belo não está justamente na sua finitude, na perpetuação da glória na mente e no coração de quem foi cativado por ela?
Em síntese: a insatisfação é uma marca presente no peito de uma geração que parece não fazer mais distinção entre épocas. Por fim: não vejo mal nenhum em curtir um filme antigo, botar o LP pra tocar, matar a saudade dos livros já lidos, tirar a poeira dos clássicos pessoais, mas quando o ontem vira produto mais valorizado que o hoje, uma inversão de paradigmas se aproxima da gente. Para quem vivemos?
Viva Axel Foley!
See U!
Daniel Junior




















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