Discografia Van Halen – [PRÓLOGO] – Parte I

Parte I – A família Van Halen.

Assim como as histórias de outros grandes americanos, tais como Henry Ford ou Walt Disney, a saga da família Van Halen começa em uma terra muito distante dos Estados Unidos e Brasil.

Nota histórica:

Desde a Idade Média, os nobres se identificavam pelo local, feudo ou província de onde vinham. Já os não nobres se identificavam por sua profissão. Se em uma aldeia, por exemplo, existissem dois “Johns”, para se distinguirem, um seria o John SMITH (ferreiro, em inglês) e o outro seria John Van Riga (John nascido na cidade/região de Riga). Com o passar do tempo, estes nomes foram incorporados como sobrenomes de famílias.

“Van” entre os holandeses é indicativo de origem nobre. Equivale ao “Von” (na Alemanha), o “Mac” – abreviado Mc – (na Escócia), o O’ (na Irlanda) e o De (Portugal, Espanha e França).

E por sua vez, Halen é uma cidade da Bélgica, localizada na província de Limburgo, região dos Flandres (norte do país). Nesta parte é falado o neerlandês, conhecido popularmente por holandês, porém cuja modalidade local é conhecida como flamengo. Seus falantes são os designados flamengos.

Holanda, 1920.

Em meio aos moinhos, tulipas e sapatinhos de madeira de Amsterdam, na Holanda, vivia um dedicado músico chamado Jan van Halen.

Nascido em 1920, o Sr. Van Halen desde os vinte anos de idade ganhava a vida tocando saxofone e clarineta nos mais variados lugares, desde eventos políticos a tendas circenses.

Durante a II Guerra Mundial, fora convocado a lutar contra os Nazistas pelo exército de seu país, forçando-o a cessar durante alguns anos sua profissão como músico.

Em uma de suas batalhas, van Halen foi capturado pelo inimigo e enviado para a Alemanha como prisioneiro de guerra. Aportando em Berlim, percebeu que deveria se mostrar útil ao regime para tentar aumentar suas chances de sobrevivência, principalmente após presenciar que alguns amigos de armas também capturados estavam embarcando em suspeitos trens de madeira para regiões remotas da Alemanha.

Exibindo seus dotes musicais, foi prontamente obrigado a percorrer as terras alemãs tocando músicas-propaganda para o nacionalmente venerado Terceiro Reich. Em meio a estas viagens, acabou por pernoitar em alguns vilarejos próximos aos campos de concentração, onde pode concluir facilmente o destino dos diversos amigos que anos atrás embarcaram em diversos Trens-da-Morte.

Em 1945, com a Alemanha capitulando Jan foi libertado e tornou-se novamente um cidadão livre. Como a Europa estava completamente destruída nos dias do pós-guerra, decidiu então rumar para a Indonésia, destino que sempre teve vontade de conhecer e não sofria dos mesmos males que o Velho Continente. Como a Indonésia fora colonizada pela Holanda, este sempre foi um destino muito presente nas viagens marítimas entre os países desde a Idade Média, sendo reforçado pelas necessidades militares da metrópole em relação à colônia.

Retornando à sua paixão, foi tocando saxofone e clarineta que financiou sua viagem para lá, sendo que ao chegar apaixonou-se por uma bela indonésia chamada Eugenia van Beers.

Apesar de mais velha, Eugenia, nascida em 1914 casou-se com Jan lá mesmo e retornou a Amsterdam, especificamente para Michelangelostraat (rua Michelangelo, em holandês).

Holanda, 1953.

E foi aqui mesmo, na rua Michelangelo que em 08 de Maio de 1953 nasceu o primogênito da família: Alexander Arthur van Halen. O senhor van Halen fazia o possível e o impossível, mas a vida de um músico continuava a ser inconstante e nômade.

Logo após o nascimento do segundo filho do casal, Edward Lodwijk van Halen, em 26 de Janeiro de 1955, a jovem família mudou-se para Rozemarijnstraat em Nijmegen, Holanda.

O maior desejo do orgulhoso pai era de que seus filhos algum dia se tornassem músicos famosos, e por isso deu o nome ao seu segundo filho de Edward Lodwijk, clara menção ao grande compositor Ludwig van Beethoven.

Alguns anos após chegarem a Nijmegen, Jan ingressou na banda da Força Aérea Holandesa, onde diversas vezes seus dois filhos desfilaram dentro de casa para um pai entusiasmado tocando marchas militares. Ele também costumava tocar junto com discos de música clássica, em casa, para o deleite de toda a família. A casa dos van Halen vivia de música.

Como Jan não dispunha de paciência nem tempo para ensinar música para seus filhos, enviou-os para lições de piano. Aos seis anos de idade, Edward já estudava piano com um rígido professor russo de setenta e dois anos de idade. Ele e seu irmão Alex continuaram a fazer lições, praticando Beethoven e Tchaikovsky por mais quase dez anos.

Quando os irmãos já estavam crescidos o suficiente, juntaram-se ao pai para as empreitadas musicais em diversos locais e ocasiões. Atingindo o topo de sua forma, Jan van Halen se juntou ao Ton Wijkamp Quintet, que levou o primeiro prêmio do apreciado Loosdrecht Jazz Festival em 1960.

Durante as constantes viagens dentro do território Holandês e às vezes ultrapassando a fronteira com a Alemanha, os meninos puderam presenciar os aspectos práticos de uma carreira musical em primeira mão. Em uma das noites mais rústicas até então, Alex perdeu sua virgindade aos nove anos de idade (sic) após uma exibição ao vivo de seu pai Jan.

Cartas de alguns parentes de Eugenia sempre mencionavam oportunidades de uma vida melhor nos Estados Unidos, e aos poucos conquistaram os van Halens a tentarem a sorte no Novo Mundo.

Ao término do inverno de 1962, Jan e Eugenia junto com seus dois filhos e um piano Rippen holandês embarcaram em uma viagem de nove dias pelo Atlântico, contando com pouco mais de setente a cinco florins holandeses (antiga moeda nacional, vigente até a adoção do Euro em 1999) nos bolsos.

Em sentido horário: Eugenia, Edward, Alex e Jan van Halen

Jan tocava junto à banda do navio durante a viagem para conseguir pagar pela expedição, enquanto Eddie e Alex exibiam seus dons no piano, passando o chapéu ao público presente para angariar contribuições. E assim os moleques musicais chegaram finalmente às terras do Tio Sam, todos prontos e dispostos a trabalhar muito.

Novo Mundo

De maneira comum a diversas histórias de imigrantes, o primeiro passo de fé dado por Jan ao chegarem em Nova York, Estados Unidos, foi americanizar seu sobrenome, atualizando o antigo “van Halen” para o engenhoso “Van Halen”, simbolicamente iniciando sua vida como um novo homem.

Após rápida parada na já grande cidade de Nova York, o novo clã Van Halen embarcou em uma viagem de trem que perduraria quatro dias com destino à California, em um dos cantos onde o sonho americano ainda se encontrava vivo.

Encontraram uma pequena casa em Pasadena, onde se instalaram e viveriam juntos, como uma clássica e tradicional família, por mais quase vinte anos.

Alex e o pequeno Edward estavam vivendo na California porém sem falarem uma palavra sequer de inglês, na verdade apenas sorriam e diziam “Yes” (sim, em inglês) para qualquer coisa.

Edward era muito tímido e praticamente só interagia com o irmão, nas horas em que não estavam nas classes, tentando compreender as lições. O novo idioma estava se tornando um problema. Lentamente, as duas crianças holandesas começaram a se enturmar com os vizinhos, sendo chamados para andar de bicicleta, subir nas casas nas árvores do bairro e etc.

Papai Van Halen continuava a tocar em bandas de casamento à noite mas também trabalhava em diversas atividades diárias. Foi zelador do Arcadia Methodist Hospital, onde também fez bico lavando pratos na cozinha do próprio hospital. Para poder manter um padrão mínimo de conforto na família, todo e qualquer esforço era válido, inclusive andar à pé um percurso de dezesseis quilômetros para ir e voltar ao hospital.

Aos finais de semana, os Van Halen se reuniam para tocar música todos juntos, com Eugenia no comando de um enorme órgão elétrico. Apesar de levar as crianças para as aulas de música, ela odiava a idéia de que eles poderiam eventualmente tornarem-se músicos. Em sua rígida educação, era comum a mamãe Van Halen disparar algo como “vocês serão um nada (músicos), assim como o seu pai!”. A natureza introspectiva de Edward em muito se devia ao comportamento singular de sua mãe.

Pentes Quebrados

Quando estavam na quarta e quinta série, em 1965, os irmãos Van Halen começaram a imitar trechos de Beatles e Dave Clark Five. O ritmo despertou em Edward o gosto por um novo tipo de música. Estas bandas foram as primeiras a despontar no gosto popular principalmente por ser apreciada por garotos em idade escolar. A diferença é que Edward e Alex apesar de garotos já eram capazes inclusive de tocar as músicas!

Os irmãos formaram então, na Hamilton Elementary School, a primeira banda: Broken Combs (pentes quebrados). A formação tinha: Alex no saxofone (tal como seu pai), Edward no piano e diversos amigos de classe: Brian Hill na bateria, Kevin Hill na guitarra (feita de plástico) e Don Ferris no segundo saxofone.

Tocando musicas originais denominadas “Rumpus” e “Boogie Booger” em locais procurados tais como o refeitório escolar, Alex e Edward começaram a adaptação aos padrões americanos e principalmente, começaram a deixar a timidez de lado. E mais do que isso, já tornavam-se garotos especiais e conhecidos por todos.

Quando Edward tinha doze anos de idade, foi atacado e mordido por um pastor alemão em uma viagem familiar, alguns quilômetros da casa dos Van Halen. Para aliviar a dor e distrair o menino, Jan Van Halen receitou uma boa dose de vodka e um cigarro Pall Mall – mal saberia que estaria apresentando ao garoto dois hábitos que o acompanhariam durante toda a vida.

 

Anos mais tarde, os irmãos Van Halen já estavam tocando violino, com Alex tendo domínio suficiente para fazer parte da orquestra da cidade. Ficava evidente o dom musical ao serem ouvidos tocando o tema de Peter Gunn (com o próprio instrumento) diante da televisão. Os garotos não simpatizavam muito com a música clássica. Na verdade, este gênero era muito batido para eles, queriam algo novo, diferente e motivante.

Procurando manter o progresso musical de Alex, seus pais lhe presentearam com uma guitarra e o mandaram para aulas de flamenco.

Enquanto isso, Edward começou a trabalho como entregador de jornal. Alguns meses depois de muito esforço, comprou com suas economias uma bateria (por U$ 125) e começou a estudar a praticar músicas do Dave Clark Five.

Mudança de Planos

O aprendizado de Alex na guitarra era muito lento. Chegou a trocar sua guitarra por uma elétrica, em conjunto com um amplificador, mas permanecia frustrado por seu progresso ínfimo. Um dia, enquanto Edward estava fora entregando jornal, Alex se sentou a postos na bateria de seu irmão e começou a copiar trechos de Buddy Rich, Wipe Out e outros sucessos da época.

Edward voltando para casa já ouvia a bateria em um desempenho invejável, muito superior à sua e ao perceber que seu irmão era o responsável, ficou deveras desapontado. Para jogar limpo, passou a tocar a guitarra de Alex primeiramente escondido, impressionando seu irmão mais velho ao aprender e tocar “Blues Theme” dos The Arrows.

A ordem verdadeira e natural dos eventos rapidamente se tornou óbvia.

Aos doze anos de idade, Edward comprou uma guitarra elétrica na Sears para praticar à exaustão músicas instrumentais tal como Walk Don’t Run dos Ventures. Seu primeiro amplificador foi construído por um amigo de seu pai, mas não podia ser utilizado por muitas horas a fio pois esquentava demais e corria o risco de queimar.

As maiores influências musicais, entretanto, foram Eric Clapton, Jeff Beck e Jimi Hendrix. Sua maior falha era não conseguir evitar seu próprio estilo, mesmo quando tocando músicas dos grandes mestres. E quanto à improvisação de Hendrix, como era auxiliada por pedaleiras e outros acessórios, o pequeno Van Halen não tinha condições de comprá-las.

Sempre que Edward saía da linha ou negligenciava suas aulas de piano, Eugenia Van Halen trancava sua guitarra no armário durante uma semana. Esta era a punição máxima ao garoto! Como não podia deixar de lado o piano, a motivação para tocá-lo parecia inevitável e sob a batuta de um professor de piano lituano chamado Staf Kalvitis, Edward venceu o concurso de piano da juventude, em Long Beach City College durante três anos consecutivos, ainda que na primeira ocasião não tenha recebido o prêmio no palco, sob os olhares de toda a platéia pois ficou petrificado em seu assento ao ouvir pronunciarem seu nome como vencedor. Sim, a timidez ainda não estava vencida por completo.

Como o lar dos Van Halen era muito pequeno para abrigar ensaios de banda, os irmãos então começaram a se juntar com os garotos locais cujas casas possuíam garagens. Eles formaram uma banda chamada Revolver, e progrediram dos Ventures para covers mais pesados, com “power trios” centrados em guitarras e bateria.

Aos treze anos, Alex começou a tocar bateria na banda de seu pai, em festas de casamento, também aproveitando para participações com clarinete e acordeão em ritmos de jazz e salsa. Edward geralmente participava tocando baixo.

Na primeira noite em que tocaram com seu pai, os garotos passaram um chapéu entre os casais que dançavam e coletaram ao todo vinte e dois dólares. Jan Van Halen deu a cada um deles cinco dólares e disse:

“Bem vindos ao negócio musical, rapazes!”

[ ]’s

Julio, com colaboração inestimável de Denis Fernandes.



Categories: Artistas, Covers / Tributos, Curiosidades, Discografias, Jimi Hendrix, Músicas, Off-topic / Misc, Resenhas, The Beatles, Van Halen

12 replies

  1. Como conheço e converso com o Julio de vez em quando, as vezes consigo certas “informações privilegiadas” no que tange às ideias que acabarão sendo publicadas aqui no Minuto HM.

    Confesso que esperava algo muito legal no prólogo, mas não imaginava que você, Julio, e você, Denis, entregariam um material tão rico, tão contextualizado, “amarrado” historicamente e ao mesmo tempo, e muito importante, super agradável de ser lido e admirado.

    Aprendi bastante com este post e de novo, é sempre muito legal ver os fatos sendo devidamente inseridos no âmbito histórico.

    Fico muito feliz e orgulhoso em ver um material tão legal por aqui e posso garantir que este post já foi para minha lista de preferidos daqui do blog (e olha que já estamos chegando a 600 posts)!

    Deixo registrado aqui minha admiração pelo trabalho magnífico de vocês e estou “babando” pela(s) próxima(s) parte(s) do prólogo e pelo desenvolvimento da discografia!

    [ ] ‘ s e, novamente, parabéns!

    Eduardo.

    Like

  2. O que dizer deste prólogo – impecável – aguardo com muita expectativa o proximo capitulo
    Abraços e sucesso a BIODISCOgrafia VH.

    Like

  3. Sensacional! Parabens Julio!

    Confesso que não esperava um texto tão aprofundando na história da banda, desde o surgimento da família Van Halen. Achei que fosse algo mais como discografia comentada e tal…
    Ótima surpresa!!! 🙂
    Aguardando ansiosa a continuação.

    Like

  4. Sim, já não é mais surpresa a grande qualidade de tudo que o Julio nos traz, mas reconheço que esta sequência trazendo o Van Halen incrivelmente começou ainda melhor do que a que ele fez com o Scorpions.É incrível por que a discografia do Scorpions é excelente…,mas desta vez ele se superou, sensacional !

    Like

  5. E parabéns para EdwardLodwijk van Halen, aniversariante do dia 🙂

    Like

  6. Pessoal,
    Não tenho palavras para expressar minha alegria ao saber que pude e ainda posso contribuir com pequenos, ínfimos detalhes no conhecimento até mesmo de vocês, verdadeiras autoridades no assunto HM.
    Claro também que isso só me anima a melhorar e aprofundar cada vez mais os posts!

    um grande abraço
    Julio.

    Like

Trackbacks

  1. Discografia Van Halen – [PRÓLOGO] – Parte III « Minuto HM
  2. Discografia Van Halen – [CAPÍTULO 1] « Minuto HM
  3. Novo álbum do Van Halen tem data divulgada « Minuto HM

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: