007 é Bond… James Bond x Beatles: 1962, 1964, 1965, a resposta final em 1974 com Live And Let Die e a rendição de 1998

Estamos em 1962. Mais precisamente no dia 05 de outubro. O que aconteceu neste dia no mundo de importante? O que o Reino Unido daria ao mundo a partir desta data?

Se você está pensando em apenas um evento, você está indo pelo caminho errado. No mínimo, foram 2 eventos que devem ser considerados: um deles ajudaria a elevar o cinema a outros patamares, especialmente na década de 60. O outro representaria o início da maior banda de todos os tempos da história da música.

Nesta data, “Dr. No”, estrelando Sean Connery no papel de Bond… James Bond, faria sua estreia. Seria o primeiro da série do mais famoso agente britânico de todos os tempos, 007. Baseado na obra de Ian Fleming de 1958 de mesmo nome e produzido por Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, uma parceria que duraria até 1975 (e, consequentemente, afetando o período completo da história deste post).

Lançado com orçamento para lá de modesto ($ 1.1 milhão de investimento), o filme acabou se tornando um sucesso financeiro gigantesco ($59,5 milhões de bilheteria), garantindo a continuidade da série e deixando todos bem endinheirados logo de cara. Mais que isso, a película foi responsável praticamente pelo nascimento formal de uma categoria, a de agentes secretos, que foi explorada nos anos 60. Ah, e ainda teria a primeira Bond Girl, Ursula Andress, na clássica cena saindo do mar, cena que seria repetida com Halle Berry em Die Another Day (2002), e o nascimento da SPecial Executive for Counter-intellingence, Terrorism, Revenge, and Extortion (SPECTRE), a organização que voltará no vindouro filme de 2015. O filme também traria 2 spin-offs, um sendo um gibi e outro a trilha sonora. Era, claro, apenas o nascimento do fenômeno 007.

Não longe dali, a novata e desconhecida dupla Lennon-McCartney entregaria ao mundo seu primeiro single, Love Me Do (com P.S. I Love You no Lado B). Macca tinha a estrutura da música escrita desde 1958, 1959, e Lennon ajudaria a finalizar a versão que se tornou o primeiro hit da banda. O baterista do single britânico (e futuramente americano) é Andy White (ou seja, não é Pete Best e Ringo fez o tamborim nesta versão), mas isso é história para outro momento. O baixo de Paul McCartney já mostraria ao mundo que dali viria muito mais…

Com a beatlemania explodindo, do lado do cinema, 007 retornaria com From Russia With Love, em 1963, e traria um verdadeiro masterpiece da série em 1964, com Goldfinger. Sean Connery, então, soltaria uma mais que polêmica frase neste filme, quando estava na cama com Jill Masterson e percebeu que outro clássico do filme, sua bebida predileta da época Dom Perignon, havia esquentado. E então veio a comparação que abalaria a todos: “my dear girl, there are some things that just aren’t done, such as drinking Dom Perignon ’53 above the temperature of 38 degrees Fahrenheit. That’s just as bad as listening to the Beatles without earmuffs!”

Enquanto muitos consideram um dos piores momentos de James Bond (“earmuffs”, apenas traduzindo rapidamente, são protetores de ouvido) – metido, esnobe, antipático, etc., há várias outras interpretações para a frase, e mostram, sem dúvidas, como os Beatles estavam mudando realmente o mundo com algo que nem todos estavam ainda prontos para entender, e como aquilo era diferente. James Bond mostraria ainda, para alguns, que ele estava ficando velho para aceitar o novo. Enfim, é polêmico e o importante é dar contexto à frase e à época.

Com os Beatles invadindo à América e ganhando literalmente o mundo através do maior fenômeno musical que se há notícia – conhecido como “beatlemania” – logo a banda ganharia seu segundo filme (o primeiro foi A Hard Day’s Night) em 1965, Help! (homônimo ao multiplatinado álbum do mesmo ano). O filme, gravado em lugares exóticos do mundo assim como são os filmes de Bond e o primeiro filme da banda colorido, é dirigido por Richard Lester, conta com os Fab Four e é uma mistura de aventura com comédia do grupo contra um culto do mal. É uma clara sátira ao que os filmes do 007, e é curioso observar ainda que a distribuidora do filme, United Artists, também tinha os direitos da série de James Bond. Isso se confirmaria como sátira mesmo depois na trilha sonora do filme, com a intro da música tema do filme antes da faixa-título, um arranjo que não é dos Beatles / George Martin, mas sim de da Ken Thorne Orchestra. O álbum com a George Martin Orchestra (George Martin And His Orchestra Play Help!) é outro e não está associado com o filme Help!.

Os anos se passaram, os Beatles acabariam transformando o mundo de uma vez e a banda acabaria, sendo que cada membro seguiria com suas carreiras-solo. Já os filmes de 007 continuariam. Procurado para repetir o papel, Sean Connery disse aos produtores que era hora deles procurarem outro ator para ser James Bond. Client Eastwood seria convidado, mas ele também recusaria o papel. Entre outros nomes, Roger Moore seria o nome eleito ao papel, até pela insistência em ser um ator britânico.

O tema escolhido novamente seria uma obra de Ian Fleming, na verdade o segundo livro dele, Live And Let Die (1954). Para a trilha sonora, John Barry, que havia trabalho na série para as últimas 5 trilhas sonoras (além de ser o responsável pela orquestração do próprio tema do filme, James Bond Theme) não estava disponível durante a produção do filme. Assim, Broccoli e Saltzman convidaram Paul McCartney para gravar a música-tema do filme. De quebra, tal convite marcaria uma nova reunião de George Martin com o ex-Beatle Macca, para a produção da música e o arranjo da orquestra.

Live_and_Let_Die-_UK_cinema_poster

 

Macca só concordaria se a música fosse executada pelos Wings nos créditos de abertura do filme. Saltzman, que havia rejeitado produzir o filme “A Hard Day’s Night”, resolveu não errar mais uma vez e concordou.

Paul McCartney - Live And Let Die_I Lie AroundMcCartney leria o livro e a música seria escrita em uma tarde (!), com Linda, e a gravação ficaria pronta dentro da própria semana, em 1972, no meio das gravações do álbum Red Rose Speedway. A música seria um single do “Paul McCartney and Wings” (com o Lado B contando com I Lie Around) e seria considerada como a primeira música rock and roll a abrir um filme de James Bond. O filme sairia em junho de 1973 e as duas partes – filme e Wings – teriam enormes reconhecimentos e suce$$o – e Macca ainda a toca ao vivo, sendo sempre um dos auges com muita pirotecnia em seus shows. Há ainda, como curiosidade adicional, uma discussão sobre um possível erro gramatical na letra da música, uma redundância, com “this ever changing world in which we live in” ou “this ever changing world in which we’re living”. A redundância está em “in which we live in”, onde Macca respondeu que não se lembra, mas que ele acha que era “in which we’re living”. Bom, Paul, melhor tirar uma “licença poética” como os Beatles em “she don’t care” de Ticket To Ride, vai…

Live And Let Die garantiria a primeira música da história do filme a ser nominada para o Academic Award for Best Original Song (a segunda nomeação de Macca à premiação e a primeira de Linda), ainda que no final a trilha perdesse para o tema The Way We Were (a famosa e excelente versão do Guns N’ Roses, de 1991, também seria nomeada como Best Hard Rock Performance). O Guns a lançou como single e também em seu Use Your Illusion I e, assim como Macca, usa e abusa da execução dela ao vivo desde então.

E aos que assistem ao filme e se perguntam se há alguma versão da música que não é tocada por Macca – a resposta é sim. Uma segunda versão da música, com B. J. Arnau, também aparece. Essa versão, que também está presente no soundtrack do filme, é um medley que também possui as mãos de George Martin no instrumental, composições conhecidas como “Fillet of Soul – New Orleans” and “Fillet of Soul – Harlem”.

Muitos consideram Live And Let Die a resposta definitiva ao comentário lá de 1962. Outros entendem como uma “revanche”. Já outros enxergam como um “pedido de desculpas” do 007. Já sendo mais frio e de acordo com o próprio Macca, era só mais um trabalho a ser feito para ambos lados.

Sendo o que for, a verdade é que ainda temos muito a curtir destes 2 insubstituíveis patrimônios britânicos… até Sean Connery, que mesmo com a afirmação é meu 007 predileto, deve concordar… George Martin e esse disco de 1998 que nos respondam: Sean Connery, tantos anos depois, faria seu tributo em forma narrativa na faixa-título do também CD-tributo, que contaria ainda com outros grandes nomes da música e cinema, como Jeff Beck (A Day In The Life), I Am The Walrus (Jim Carrey), entre outros.

[ ] ‘ s,

Eduardo.



Categories: Artistas, Covers / Tributos, Curiosidades, Guns N' Roses, Letras, Músicas, The Beatles, Trilhas Sonoras

5 replies

  1. Fala Eduardo.

    Comentar sobre a qualidade do post do mhm é pleonasmo vicioso. Por isso, sei que outros farão melhor do que eu nos comentários. Excelente post.

    Os pontos abordados por você garantem um “lead” de qualquer matéria jornalística de cultura moderna porque envolve dois ícones mundiais oriundos da terra da rainha.

    O primeiro, a saber, revolucionou a linguagem cinematográfica para os filmes de espionagem. Diga-se de passagem, fica difícil restringir o double zero seven a apenas um filme de espiões, de ação, de aventura… Um ponto marcante no cinema britânico, a ponto de produções voltadas para este formato serem uma antes de 007 e outra após 007.

    A relevância da obra de Fleming é tão grande que a franquia tem seus truques de re-invenção sem enganar seus fãs mais ardorosos. Mesmo com atores que não honraram a camisa (o que falar de Timothy Dalton?), a série não perdeu o respeito, a grandiosidade e ‘majestade’ gerações após gerações.

    Parênteses: volta e meia lembro do papo que temos aqui – quase ad eternaum – sobre a continuidade da arte e o surgimento de novos ídolos. E neste caso, o personagem é MUITO maior do que os atores que dele se vestiram.

    Por outro lado, não existe trilha mais esperada que a do agente secreto da Rainha. Adele, mesmo com carreira meteórica no mundo após seu surgimento em 2012/2013, ganhou a honra de cantar o belo tema do filme protagonizado por Daniel Craig.

    Não me lembro – e de fato, podemos ter algum exemplo aqui ou ali – de temas cantados que sejam clássicos quase instantâneos como os que tem origem nos filmes de 007. Até o tema principal composto genialmente por John Barry (compôs a trilha com a qual entrei na igreja no casamento, “Midnight Cowboy”) é tão simples e insubstituível, que tudo que faça conotação a suspense e espionagem, leva as notas mínimas do tema sensacional criado pelo inglês.

    McCartney não precisa de maiores comentários meus. Até 1975, junto de Elton John e outros grandes compositores, compunham não só a trilha sonora das nossas vidas, mas acho que o OST do “mundo”.

    Voltando aos aspectos cinematográficos, a franquia tem uma assinatura tão forte, que uma só menção de novas produções, mexe com as colunas do metiér mundial, sem que caia na canastrice, se levando a sério (na medida do possível), cuidando das suas referências e se mantendo como um ótimo exemplo de que a obra pode ser respeitada sem sacanear seus maiores fãs. O séquito é imenso.

    Abraço,

    Meu nome é Daniel.

    Daniel Junior.

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    • Daniel, agradeço demais pelas palavras e o comentário é um apêndice excelente ao texto, sem dúvidas.

      E também sem dúvidas que as trilhas sonoras dos filmes são destaques mesmos da série, entre tantos outros elementos. Macca trouxe mesmo um estilo mais admirado por nós pela primeira vez, mas o que dizer de tantos e tantos clássicos anteriores à ele até? Como não cantar Goldfinger ou Diamonds Are Forever quando as escutamos? E depois de Macca, coisas como For Your Eyes Only (sinônimo de beleza)?

      O Reino Unido tem o privilégio de ser uma terra fértil para o entretenimento, mesmo… esperemos que, como estamos mesmo falando, que tenhamos mais sequências, nem que seja “mais do mesmo”… aliás, o novo do 007 para 2015, SPECTRE, já traz no nome o resgate de mais elementos clássicos ainda, espero eu que em termos de qualidade, eles sejam respeitados…

      Aliás, não temos ainda (pelo menos publicamente) trilha sonora confirmada para SPECTRE… Macca está aí… que tal um replay, mais de 4 décadas depois?

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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  2. Excelente o texto, assim como os comentários do cinéfilo de plantão Daniel.
    Eu acompanho a série, reconheço estar um pouco distante nos últimos anos, particularmente deve ter sido um desinteresse pessoal. O certo é que as fases com o Pierce e também com o o Craig para mim são ok. Nada mais.
    Muito legal os detalhes envolvendo esses dois ícones incontestes da terra da rainha. Como eles foram se envolvendo , no início em lados até opostos, para acabarem trilhando ( literalmente) um super sucesso da carreira de Paul.
    Vai aqui só uma curiosidade acerca da minha escolha entre os James Bonds : Tirando Sean Connery, O 007 de todos os tempos , pra mim , com sobras, o segundo ator que mais me agradou foi justamente o Dalton, em especial pelo segundo filme, Licence to Kill. Será que eu justifico o meu apelido também nesta outra arte ? O que não dá pra aturar de jeito nenhum é o George Lazenby.

    Saudações,

    Alexandre

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  3. Não conhecia esta coincidência de datas entre 007 e The Beatles. Será que temos outro dia na história da cultura popular tão marcante e impactante como este? Difícil.
    Quanto a frase do 007 (e não do Sean Connery que apenas estava interpretando um papel e uma fala redigida pelos produtores/roteirista/diretor da película) penso que ela só deixa mais claro como que, em seu nascimento, a banda de Liverpool tinha um caráter rebelde. Ainda que sob controle, havia uma faceta mais rompedora de padrões naqueles cabelinhos “cogumelo” e nos agudos disparados pelo quarteto em suas músicas. É claro que, em comparação com os Stones, … er…, bem, não dá pra comparar o nível de rebeldia entre os dois grupos. Mas, mesmo assim, o Status Quo, o “establishment” considerava os Beatles fora dos padrões aceitáveis para a sociedade, ainda mais pela penetração (sem gracejo) junto as moças das famílias tradicionais britânicas e logo, mundiais.

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  4. [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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