Discografia Rush – Parte 18 – álbum: Presto – 1989

If I could wave my magic wand, I’d make everything all right – Neil Peart – “Presto”

Em maio de 1988, o Rush encerrou a turnê do álbum anterior da banda, “Hold Your Fire” (1987), e lançou o terceiro trabalho ao vivo da banda, “A Show of Hands”, no início de 1989. Em seguida o grupo decidiu não renovar o contrato com a Mercury Records para distribuição internacional. Havia, segundo o grupo e seu empresário, uma defasagem muito grande entre o que o grupo entendia ser plausível para eles, naquele cenário de sucesso, com vendagens muito expressivas, e o que a gravadora sugeria. Sim, após 15 anos, o grupo deixava a Mercury, mas a ruptura do contrato fez com o que o trio, pela primeira vez, se desse ao quase luxo de experimentar um momento livre de prazos e obrigações. Ainda em dezembro de 1988, um pouco antes do lançamento de “A Show of Hands”, o grupo havia se reunido na casa de Neil Peart para discutir o próximo passo e concordou em começar um novo álbum de estúdio apenas após buscar uma desejada pausa de 6 meses.

Depois do tão sonhado e inédito hiato, o conjunto começou “limpar as teias de aranha”, enquanto negociava um novo contrato. A questão foi resolvida brevemente, pois a Atlantic Records, com o executivo Doug Morris, já queria assinar com o grupo há vários anos, e assim fez uma oferta muito atraente. O trio se lembra de ter chegado ao novo projeto, “Presto” muito mais entusiasmados com o trabalho, revigorados e a todo vapor.

Peter Collins, que havia trabalhado em “Power Windows” e “Hold Your Fire”, recusou relutantemente a oferta para trabalhar em “Presto”, pois desejava produzir outras bandas, assim ele seguiu em frente com outros artistas. O produtor mais à frente confessou ao grupo a sua decepção por não ter dado ao trio o status de platina nos EUA com as vendas de “Hold Your Fire”, interrompendo uma sequência de muitos trabalhos com o reconhecimento platinado em solo norte-americano. O grupo, portanto, buscou alguém com quem tentou trabalhar em “Grace Under Pressure”, Rupert Hine, e desta vez as agendas se alinharam. O trio tinha como referência a produção de Hine em vários dos seus discos favoritos com Brand X, U.K., Bill Bruford e Peter Gabriel. Como parte do acordo com Rupert, a banda concordou em mixar o álbum em Londres. “Presto” foi gravado de junho a agosto de 1989, com Rush alugando inicialmente um estúdio no interior do Canadá para compor e ensaiar novo material, o Chalet Studio. Eles adotaram o método usual: Lifeson e Lee trabalhando na música, enquanto Peart trabalhava sozinho nas letras. Peart escreveu: “O trio Rush trabalhava no estúdio durante a semana e voltava para casa nos fins de semana”.

Eles passaram este período de pré-produção sem qualquer maior intercorrência, assistidos por Everett Ravenstein. O grupo entendia que estavam preparando um álbum para entrar nos anos 90, e esse fator foi mais um catalisador, trouxe efervescência para o trio. Para as gravações, a ideia foi construir a produção sobre uma base sólida — uma sala de bateria com ótimo som — mas em Toronto, naquele momento, o grupo não encontrava as instalações adequadas, que rivalizassem com a espetacular sonoridade do teto alto de pedra do The Manor, estúdio na Inglaterra onde eles gravaram os basic-tracks dos dois álbuns de estúdio anteriores. A opção foi então por voltar para o cenário conhecido e que tinha tanta história para o trio. Eles retornaram ao Le Studio em Morin-Heights, Quebec, com aquela linda janela panorâmica dando para o lago.

N.R.: O Le Studio havia sido vendido e naquela época tinha o nome de Morin-Heights Studio, simplesmente. Em virtude da história do grupo com o local e o icônico logotipo Le Studio em azul fazer parte da memória como uma das grandes marcas associadas a um período fabuloso da banda, vamos, como “licença poética” manter a icônica marca em todos os álbuns que o estúdio, ainda que com outro nome, foi utilizado pela banda.

Voltando às gravações e antes do previsto, o trio seguiu para o McClear Place, Toronto, Ontario, que havia usado nos dois álbuns anteriores, para terminar os detalhes do álbum, gravando os solos e vocais. “Presto” foi concluído cerca de quatro semanas antes do previsto.

Em setembro o álbum foi mixado no estúdio Metropolis, em Londres e as masterizações, como de hábito, foram feitas por Bob Ludwig, desta vez no Masterdisck Studios, em Nova Iorque. O álbum foi enfim lançado no dia 17/11/1989.

É em “Presto” que a banda começa paulatinamente a desviar do estilo musical dos anos 80, em especial por deixar de privilegiar os sons de teclado dos últimos dois álbuns. A banda optou por arranjos que foram notavelmente mais centrados na guitarra. Apesar dos sintetizadores ainda serem usados ​​em muitas músicas, o instrumento não era mais o foco de composições da banda. Inesperadamente esse caminho surgiu também pelas sugestões de Rupert Hine, apelidado pela banda de Roop, que tinha sua origem sendo um tecladista. Roop argumentava que, no último disco, os sintetizadores tinham desviado o Rush do caminho. Segundo o produtor: “Parece absolutamente louco para mim que um dos poucos trios remanescentes no planeta, com guitarra, baixo e bateria, esteja sendo sufocado pelos teclados”. Rupert, portanto, queria um retorno ao som básico de trio e usar os teclados principalmente como aprimoramentos girando em torno daquele núcleo sólido. Geddy não entendia que eles tinham se desviado tanto (enquanto o Alex claramente sentia), mas ao mesmo tempo se mostrava um pouco cansado da dinâmica que tantos sintetizadores exigiam, chamando esse efeito de “estresse digital”.

O retorno ao tão propalado som mais sólido como construção básica dos arranjos não iria vir de uma hora para a outra. A abordagem do Rupert ao som da guitarra era um pouco mais leve do que Alex queria. O guitarrista afirmou, no entanto, que isso foi em parte culpa dele, que ainda usava muito as Signature, guitarras que claramente não produziam o som encorpado dos modelos anteriores, as Gibsons e mesmo os modelos Stratocaster com captadores duplos próximos às pontes. Ainda assim, o resultado trouxe algo muito mais satisfatório para Lifeson, que se sentia limitado ao tocar guitarra desde que os sintetizadores começaram a desempenhar um papel mais dominante na composição. O Rush queria que “Presto” também trouxesse um maior enfoque nos vocais, os arranjos musicalmente dando suporte às estrofes e aos refrões cantados. De certo modo, este álbum também foi uma verdadeira reação não tão pensada contra a tecnologia, em certo sentido. Houve um certo esforço para ficar longe de cordas, pianos e órgãos, longe da tecnologia digital. No final, a tal reação não era algo tão categórica, assim o grupo não resistiu em usar alguns teclados para dar cor aos arranjos.

O álbum não contém um tema lírico geral, Peart o descreveu prioritariamente por ter mensagens líricas “pesadas”. O título do álbum foi uma ideia que o Rush considerou usar em “A Show of Hands”, mas quando Peart começou a escrever a música intitulada “Presto”, o conceito tomou de fato um formato fechado, e assim foi usado como título do álbum. O álbum volta a usar uma faixa como título, algo feito algo feito antes em “Fly By Night” (1975), “2112” (1976), “A Farewell To Kings” (1977) e “Hemispheres” (1978), ou seja, um formato que não era usado havia mais de dez anos.

Para as gravações de “Presto”, Geddy manteve-se usando os baixos da marca Wal, estreando um novo modelo na cor vermelha. Entre os inúmeros teclados, havia um Korg Wavestation, um Korg M1, um Ensoniq SD1, o Synclavier II e até um Hammond B3. As fontes não são precisas, mas tudo nos leva a crer que multi-instrumentista mantinha o Yamaha DX7 e o Roland D50 nos palcos da turnê, e Alex manteve-se com as guitarras Signature Aurora, mas foi substituindo-as por novíssimos modelos da Paul Reed Smith. Entre esses, Lifeson possuía um na cor Gray Black (preto acinzentado).

Um outro modelo foi incorporado do meio da turnê para o fim, o modelo CE 3 Tobbaco Black Sunburst. Para este modelo da PRS, que veio com o braço em jacarandá brasileiro, o chamado Brazilian Rosewood, Alex pediu que fosse instalado um captador original das Signature Aurora próximo a ponte, ummodelo Evan E-1 Eliminators, com um “pré amp” ativo, para proporcionar a Alex o som característico de músicas como “Time Stand Still”. O guitarrista usava vários amplificadores, entre eles novos modelos da Carvin e da Roland e um pedalboard Bradshaw conectado a vários racks de efeitos situados no fundo do palco, na turnê. A bateria de Neil foi pintada de uma cor que mistura o roxo com o preto. Para a parte eletrônica Peart começou a usar os D-Drums no lugar do kit Simmons. Peart trouxe exclusivamente para as gravações do álbum outras duas caixas para o seu kit, sem abrir mão da “old faithful Slingerland”; uma delas era uma picolo, mais estreita, da marca Solid, com madeira sul-americana. A outra era uma Tama Camco Snare.

A capa bem-humorada de Presto traz apenas uma tênue conexão entre o título e os coelhinhos flutuantes que a povoam. Hugh Syme idealizou um desenho em preto e branco representando um chapéu de mágico levitando em uma colina ao fundo, mais ao alto, com um coelho emergindo dele. Em primeiro plano havia muitos coelhos. Para montar o cenário, Hugh conseguiu um pano de fundo que ilustrava um céu inteiro, na MGM Studios. Ele também comprou algumas esteiras de grama e por fim trouxe os coelhos, que evidentemente, fizeram uma grande bagunça no chão do estúdio do fotógrafo John Scarpati, por cerca de 4 horas. O resultado nos mostra uma das capas mais divertidas da carreira da banda.

Geddy Lee: Baixo, sintetizadores, vocais
Alex Lifeson – Guitarras e Violões.
Neil Peart – Bateria e Percussão eletrônica.

Rupert Hine – teclados adicionais e backing vocals.

Jason Sniderman – teclados adicionais

Produzido e arranjado por: Rupert Hine e Rush

Engenheiros de som: Stephen W. Tayler.

Gravado no McClear Place, Toronto, assistidos por by Rick Andersen e no Studio Morin Heights, Quebec, assistidos por Simon Pressey e Jacques Deveau.

Mixado no: Guil Metropolis Studio, London, assistidos por Matt Howe

Préprodução no El Chalet Studio com engenharia de som por: Lerxst (Alex Lifeson), assistido por Everett Ravenstein.
Masterizado no: Masterdisk NYC, Nova Iorque, EUA, por Bob Ludwig.

Direção artística: Hugh Syme

Fotografia: John Scarpati

Produção Executiva: Moon Records, Val Azzoli and Liam Birt

Empresariamento: Ray Danniels, SRO Productions, Inc., Toronto

© 1989 Atlantic Records © 1989 Anthem Entertainmen

Créditos adicionais:

Technical support from Liam Birt, Jack Secret, Jim Johnson, Larry Allen, and Jim Burgess, with continuing thanks to Herns, Skip, Nick, Whitey, Schatzie…and the rest.
Wrabit Wrangler: Mark Demont, Fins, Feathers, and Furs
Portraits by Andrew MacNaughtan

A wave of the wind to: At Chalet Studio–David, Chad Everett C. Koop, Camille, Charles, Röb, Pâül, Chester Sight and Sound, Chop Joneson’s Body Shop, Tomek, Scoozball, and the Psychedelic Shack. At Le Studio–Richard, Simon, Jacques, Ginette, Linda, Richard Raccoon, Volleyball, The Mighty Gubus, The Whingies, and the Smitty Family. At McClear Place–Bob, Rick, Robert Hinge, Stats Dooey, Ohe 2he. At Metropolis–Karen, mini-Matt, Mark, Catherine, and all the hospitable staff and management. At SRO–Ray, Sheila, Pegi, Kim, and Evelyn (A Farewell To Val).


We also offer a tip of the magical hat to Natasha and Kingsley, Red and the 2-Bar, Doug Morris and Atlantic Records, Mike Roberts for the acorn of “Superconductor,” and a very special thank you to the Flemings: Peter, Jenny, Joe, and Alex, for their hospitality in London.
Brought to you buy the letter “D.”

We appreciate technical contributions from Saved By Technology, Wal Basses, Signature Guitars, Ludwig Drums, Avedis Zildjian Cymbals, Solid Percussion, and–The Omega Concern.

Lado A

Show Don’t Tell (05:01)

Chain Lightning (04:33)         

The Pass (04:51)        

War Paint (05:24)         

 Scars (04:07) 

 Presto (05:45)  

Lado B

Superconductor (04:47)           

Anagram (for Mongo) (04:00)            

Red Tide (04:29)

Hand over Fist (04:11)

Available Light (05:03)            

“Presto” foi lançado em 21 de novembro de 1989 e não obteve boa repercussão nas paradas canadenses (49º lugar) e repercussão moderada na Billboard americana (16º lugar). O álbum repetiu a performance de vendas do seu antecessor em estúdio, ou seja, obtendo disco de platina apenas no Canadá. Nos EUA chegou também às 500 mil cópias, com status de disco de ouro em 11 de janeiro de 1990. “Presto”, por fim, atingiu o disco de prata na Inglaterra, por 60 mil discos vendidos.

“Show Don’t Tell”foi o primeiro single do álbum, lançado em novembro de 1989 em versão editada no Canadá, acompanhada de “Red Tide” e “Force Ten” em versão ao vivo. Nos EUA, o single saiu na versão completa, sem nenhuma canção adicional e atingiu o primeiro lugar na parada de rock da Billboard, a U.S. Hot Mainstream Rock Tracks Charts. Não foi nada fácil achar o vídeo na internet, já que no YouTube para o Brasil a versão existente está bloqueada. É interessante ver Geddy e Alex com instrumentos vintage, usados até a época do “Moving Pictures”, na filmagem.

Em março de 1990, o grupo lançou o segundo single, “The Pass”, produzindo também um videoclipe para a canção. O single foi lançado com a faixa título, e atingiu o 15º lugar na parada de rock da Billboard. O vídeo é até então, pelo menos, um dos melhores trabalhos já criados pela banda nesse formato, bastante obscuro e descritivo. Totalmente em preto e branco, ele mostra um adolescente vagando sem destino por sua escola e à beira de tentar o suicídio no alto de um prédio. No fim da canção, o protagonista joga sua mochila e fones de ouvido do alto e vê o aparelho se espatifar. Ainda há tempo de voltar atrás, mas naquele momento ele não sabe o que fazer e é o único que pode tomar a decisão. O final do vídeo é aberto, apontando que o fim ou um recomeço estão unicamente nas mãos dele. As imagens conceituais se revezam com a banda tocando a canção e um dos fatos bem interessantes deste ótimo clip é que as imagens no encarte foram feitas nessa produção, ou seja, o videoclipe foi feito muito antes de sua divulgação. O Rush trabalhava pela primeira vez com a gravadora Atlantic, e era importante a produção de imagens que celebrassem o primeiro grande momento com a nova parceria.

Para a divulgação de “Presto”, o grupo ainda fez um videoclipe para a música “Superconductor”, que pouco veiculou na programação das emissoras especializadas ou mesmo na MTV. O vídeo traz Geddy do lado esquerdo palco e Alex no lado direito, o oposto do que sempre é visto pela plateia. As imagens da banda tocando se revezam com as imagens de uma figura circense e de um casal de bailarinos, entre outros, mostrando a sua arte no mesmo palco. A plateia se mostra um tanto confusa, mas um senhor engravatado tenta escolher a melhor atração para estar naquele palco, tentando escolher outra atração que não seja o Rush. Definitivamente não está entre as melhores produções da banda.

As críticas especializadas em geral avaliam o álbum de forma mediana, mesmo a Rolling Stone Magazine conceituou o álbum com 3/5 estrelas. A All Music tem opiniões divergentes entre seus críticos. Mackenzie Wilson considera o álbum quase perfeito (4,5/5 estrelas), entendendo que a guinada rumo aos anos 1990 que a banda fez foi impecável. Já Gregory Heaney considerou o álbum apenas mediano (2,5/5), entendendo que o grupo não trazia mais a criatividade do passado.

1 – “Show Don’t Tell”

A abertura de “Presto” traz alguns segundos com uma linha tênue percussiva bem sutil, e volume bem baixo, sons sintetizados bem leves. Para quem acompanhava o grupo, e estava ouvindo o disco pela primeira vez, o trecho leva a crer que o estilo sintetizado dos últimos discos continuaria. Essa impressão cai imediatamente a seguir, quando o riff bizarramente sincopado, com toques funk, salta aos nossos ouvidos, em 0:17. A guitarra de Lifeson está cortante, a bateria de Peart muito mais pesada e o baixo de Lee bastante suingado. O riff bastante complexo tocado em uníssono pelos membros da banda se tornou, sem dúvida, um marco na carreira da banda. Alex ainda citava à ocasião que o trecho era muito mais pesado na versão da pré-produção, e que gostaria de que o álbum soasse mais “parrudo”, mas atribuiu a si mesmo um pouco dessa sonoridade não tão pesada quanto o desejado, pois usou os captadores cristalinos single coils das Signature Auroras. A sonoridade naqueles primeiros instantes cresce em agressividade de forma inconteste, quando comparada aos trabalhos anteriores. Em 0:42 Geddy começa a cantar a melodia bem trabalhada do verso, enquanto Lifeson alterna entre sons modulados na guitarra e violões. Aos 1:14, o riff da introdução volta em forma de pré-refrão, e o título da faixa é cantado pela primeira vez numa melodia aguda e com efeitos de delay. Em 1:33 surge o primeiro refrão da canção, com os backings ao fundo em contraponto ao vocal principal, uma nova tendência na banda, e o baixo dá lugar aos teclados, com linhas agudas sutis e graves contínuos e pesados substituindo o baixo. Há um vocal grave bem ao fundo, feito por Neil, nas linhas “I will be the judge / Give the jury direction” em 2:14. A música segue revezando todos os trechos, mas em 3:03 chega ao pedaço intermediário, com espaço para teclados e viradas síncronas de baixo e bateria, enquanto o baixo em 3:34 entrega um solo espetacular. Em 3:49 começa o solo de Lifeson cheio de efeito de eco, sutilmente mixado sob os vocais e sem interromper o trecho virtuoso do baixo de Geddy.  A música termina com o grupo reforçando o refrão, dessa vez adicionando o baixo com frases dando ênfase à parte rítmica, com o título da canção e mais backing vocals, seguindo para um fade-out. “Show Don’t Tell” é uma excelente canção para abrir “Presto”.

A primeira faixa do álbum também traz uma grande letra, baseada em uma importante reflexão. O tema nos leva a pensar na dificuldade de saber se devemos confiar em alguém, em um mundo conturbado pelo despreparo, displicência, enganos, superficialidades e traições. Obviamente, todos nós precisamos de pessoas de confiança que nos apoiem em momentos de dificuldades. Porém, existem os aproveitadores, aqueles que conseguem manipular situações para obter vantagens e para prejudicar outras pessoas. Esse eterno dilema está nas frases “…Who can you believe? It’s hard to play it safe, but apart from a few good friends, we don’t take anything on faith…”, algo como: “em quem você pode acreditar? É difícil confiar, tirando alguns bons amigos, não acreditamos em nada…”

A frase imperativa do título (“Mostre, Não Fale”) nos aconselha a duvidar e pôr à prova falas e promessas vazias. Ou seja, não confiar em palavras, a não ser que elas venham acompanhadas de elementos e atitudes que certifiquem sua veracidade. É a materialização do antigo ditado: “Uma ação vale mais que mil palavras”. Durante o refrão, Neil Peart ilustra um cenário de tribunal, utilizando imagens e movimentos de um julgamento como a solução para um protagonista enganado e cético, que decide assumir os papéis de juiz e júri para avaliar profundamente o que lhe é apresentado. O álbum começa com uma faixa única, na qual letra e música têm qualidade para colocá-la em um lugar de destaque na discografia do trio.

“Show, Don’t Tell” também tem origem em uma técnica aplicável à várias outras artes, como cinema e escrita. No cinema, faz o expectador refletir sobre as ações que vê, em detrimento aos diálogos. Na escrita, utiliza técnicas como criar sensação de ambientação, usar diálogos na estrutura do texto, descrever a linguagem corporal e descrever em detalhes a ação vista.

2- “Chain Lightning”

Baseada primordialmente em momentos compartilhados com sua primeira filha Selena, Neil Peart mostra em “Chain Lightning” como é ainda mais incrível compartilhar juntos uma experiência relacionada à fenômenos naturais e bastante vibrantes do ponto de vista visual. O baterista afirmou que “…Celebrei em ‘Chain Lightning’ o fenômeno dos Parélios em um céu de inverno e a chuva de meteoros Perseidas de agosto, conectando-os a luz que vi nos olhos da minha filha quando compartilhamos esses acontecimentos…”“…Assistir uma chuva de meteoros, por exemplo, fica muito mais especial se você estiver com alguém ao seu lado…” A música traz o trecho “Reflected in another pair of eyes” – “refletida em outro par de olhos” – para justificar o quão potencializada tais experiências se tornam quando há pessoas em volta.


O Parélio, que nos faz ver dois outros sóis além do original, faz parte de um conjunto de fenômenos óptico-meteorológicos luminosos que surgem quando o céu está claro e cristalino durante o inverno, no pôr do sol.  Já as Perseidas são uma chuva de meteoros associada ao cometa Swift-Tuttle, denominadas devido ao ponto do céu de onde parecem vir, próximo à constelação de Perseus.

“Presto” prossegue com uma faixa bastante intensa, com a apresentação de “Chain Lightning” que se inicia com uma ótima virada de bateria, acrescida de algumas texturas sintéticas de sintetizadores que rapidamente dão lugar a riffs potentes de guitarra em 0:15. Em 0:29, Geddy começa a cantar mais uma melodia muito bem trabalhada que casa perfeitamente com a letra, e percebe-se que a sonoridade do álbum realmente não deverá ficar com os teclados dominando a cena. Aqui temos uma harmonia clássica do Rush, recheada de meio tons que dão a tensão necessária à proposta da faixa. Em 1:07, o refrão traz mais guitarras, mas em sequência a ponte traz de volta um pouco dos teclados. Novamente ouvimos o som do baixo, que em momentos acompanha a melodia do vocal, bastante presente na mixagem e uma bateria menos plástica, mais orgânica e contundente. Temos novamente a adição de diversos backing vocals nos refrões, que será uma das características mais marcantes do álbum e na continuidade da discografia. Em 2:25 vem um notável solo cortante e com um efeito “reverso” de Lifeson, com muito uso das alavancas. Neil e Geddy estão no fundo, em performances igualmente incríveis. Depois do solo, o refrão é reforçado duas vezes, com viradas super aceleradas na caixa por Neil. A música segue para o seu final, com mais teclados e um trecho mais melódico. O final traz o riff do refrão com várias paradas na caixa de Neil e antecipa o uso de uma voz grave, que ouviríamos de forma mais pronunciada na faixa título do próximo álbum.

3- The Pass”

A terceira faixa de “Presto” é, e sempre será, uma das melhores e mais poderosas letras que Neil Peart escreveu.  A canção trata de uma questão muito difícil, o suicídio entre adolescentes, mas encoraja cada um a não desistir da vida.   O tema nasceu de uma preocupação cotidiana, a incidência crescente de suicídios entre os jovens, muitas vezes causados por adolescências muito turbulentas. A letra expõe as frustrações dos jovens em frases como “…Nothing’s what you thought it would be…” – “Nada é o que você pensou que seria”. Livros, palavras, conselhos e proximidade podem trazer conforto nos momentos mais difíceis, mas a verdadeira mudança e decisão nascem no indivíduo.

O narrador, interpretado pelo vocal de Geddy Lee, tenta ser a voz da razão na letra, que apela para que o jovem não desista, no poderoso refrão que diz “…Turn around and turn around and turn around, turn around and walk the razor’s edge, don’t turn your back and slam the door on me…”, algo como “Vire-se, ande no fio da navalha, mas não vire as costas e bata a porta na minha cara”.Neil afirma que todos passam por dificuldades, mas é possível superá-las, usando os sonhadores como elementos que estão sempre vendo algo de bom nos momentos mais difíceis, através de frases como: “…All of us get lost in the darkness, dreamers learn to steer by the stars. All of us do time in the gutter, dreamers turn to look at the cars” que pode significar: “todos nós nos perdemos na escuridão, mas os sonhadores aprendem a se guiar pelas estrelas. Todos nós penamos na sarjeta, já os sonhadores se viram para olhar os carros”.

Esse trecho da letra foi diretamente inspirado pela frase “We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars ” ou seja, “Estamos todos na sarjeta, mas alguns nós estão olhando para as estrelas”, que está em O Leque de Lady Windermere ou “Lady Windermere’s Fan”, uma peça em quatro atos de Oscar Wilde, escrita em 1892. Wilde sempre foi um dos autores favoritos de Peart. O livro traz a história de uma nobre inglesa, Lady Windermere, que se decepciona com o marido depois de acreditar que ele a está traindo com outra mulher. Há pelo menos uma adaptação para o cinema, que você pode assistir aqui, se dominar a língua inglesa.

“The Pass”, basicamente, traz uma declaração bem geral que afirma que desistir não é algo nobre.Neil passou muito tempo pesquisando a fundo casos de suicídios que aconteceram na adolescência, tentando entender o que para ele não fazia o menor sentido. O baterista se opôs radicalmente aos princípios dos samurais japoneses atrelados a isso, considerando a atitude como a de um guerreiro. Não há nada nobre em se matar.  A frase final de “The Pass”, “Christ, what have you done?” – “Cristo, o que você fez?”- tem pelo menos duas explicações, pois o final da canção é aberto, não encerra a história desenvolvida.  Ou a frase expressa uma reação de espanto pela possibilidade da atitude drástica tomada pelo personagem ao término da canção ou se dirige ao próprio Jesus Cristo, o exemplo de mártir mais conhecido e que se sacrificou pelos homens, hipoteticamente o indagando o porquê de perder a vida e que não há nada de glorioso em sofrer ou se matar. Peart afirma que o suicídio não traz o fim de um herói. Não é um triunfo, nem para ele, nem para seus entes próximos que ficam. É uma tragédia.

A linda canção, independente da competência habitual do trio em seus instrumentos, traz um novo foco, algo que estava nas pretensões da banda como desenvolvimento nas composições. “The Pass” é um nítido exemplo de busca em privilegiar melodias vocais trabalhando em prol da canção. Mesmo Peart tinha esse formato na cabeça, ao escrever as letras, buscando enfatizar as frases de maneira a permitir melodias vocais marcantes. A canção desacelera o álbum, e sendo uma bela balada, tem mais espaço para os sons atmosféricos de teclados. Assim como em “Force Ten” do álbum anterior, Geddy usa acordes no baixo para conduzir as primeiras estrofes, e as guitarras estão suaves, deixando bastante espaço para o baixo brilhar intensamente. Peart também está mais contido, com viradas simples, mas bastante específicas em momentos chaves da faixa,  havendo também espaço para boas e pontuais intervenções. Em 3:18 temos mais um exemplo cristalino do que é privilegiar as melodias. O solo de Lifeson é simples, delicado, cirurgicamente trabalhado pelo guitarrista,tanto nas frases como no timbre, para encaixar na proposta melancólica da canção. Abaixo trazemos mais detalhado o solo de “The Pass”.

Em 4:09 a banda para completamente e Geddy canta a icônica frase,”Christ, what have you done?”, aumentando a carga emocional da canção que também termina de forma contundente, em mais uma parada total da banda, com a frase “Don’t turn your back and slam the door on me” e um longo reverb de muito bom gosto no vocal.

4 – War Paint” 

Com “War Paint”, o trio observa algumas atitudes, sentimentos e consequências com relação à vaidade, tanto no âmbito feminino quanto no masculino. Preocupações excessivas com a vaidade podem diagnosticar impasses e desiquilíbrios da nossa própria essência. A letra trabalha com bastante jogos de palavras. Um exemplo está no trecho que ilustra uma mulher tentando consertar seus olhos – “Tries to fix her eyes”, ou seja, se maquiando, não exatamente buscando consultar um oftalmologista.  A masculina frase “And the charger in the garage” confunde o verdadeiro significado, pois a princípio seria uma referência a um cavalo que usa com sua armadura lustrada, algo que está na frase anterior – “Polishes his armor” – “Lustra sua armadura”, mas certamente Peart está se referindo a um Dodge Charger, um carro modelo esportivo que é sonho de consumo de muitos.  

O título da canção vem das pessoas com baixa estima que precisam de disfarces, as chamadas “pinturas de guerra”. Naturalmente, a composição nos remete ao mito grego de Narciso, ao sugerir que todos devem pintar seus espelhos de preto – “Boys and girls together, Let’s paint the mirror black” para fugir do culto exagerado à nossas próprias figuras. 

A canção começa com um riff pesado, porém traz espaço para os teclados sequenciados, assim que Geddy canta as primeiras frases da primeira estrofe. Algumas frases são reforçadas com novas vozes, ”Presto” definitivamente mostra o grupo preocupado em mergulhar na área dos backing vocals e melodias acessíveis, dando uma característica mais pop às faixas. Alex já estava muito presente nas turnês, colaborando com Geddy nos refrões e outros trechos de várias canções, certamente teria bastante espaço ao vivo para ajudar o baixista. “War Paint” foi uma das únicas faixas de “Presto” que seria tocada na “Presto” tour. Em 3:05 Neil nos entrega uma virada daquelas, preparando para o trecho mais energético da canção. O solo, acrescido de harmonizações divididas em estéreo, vem em 3:37. Em 3:55 a volta do solo diminui um pouco a dinâmica da canção que traz um clima otimista. Aos 4:05 e 4:21, temos duas excelentes convenções de baixo e bateria, demonstrando o total entrosamento dos dois instrumentistas, consequência clara de mais de uma década tocando e compondo juntos. Em 4:30 um coro bastante forte leva a canção para o final em fade out, com as frases mais marcantes da canção (“Boys and Girls together paint the mirror black”, revezando com “Girls and Boys together, paint the mirror black”) sendo repetidas diversas e diversas vezes enquanto Lee devolve com a frase “The Mirror Always Lies”.

5- “Scars

Peart utiliza as cicatrizes de “Scars” para mostrar que a humanidade está deixando marcas muito ruins em atitudes tidas como inteligentes. Assim, as florestas se transformam em fábricas, enquanto crianças morrem de fome. Podem até ser cicatrizes de prazer, mas também são de dor. A letra traz um tom bastante crítico. No entanto, é prioritariamente no aspecto musical que a canção se estabelece.

Apresentando similaridades musicais sutis com faixas como “Mystic Rhythms” (de “Power Windows”, 1985), Peart decide trazer para “Scars” padrões de bateria que utilizam uma grande variedade de tambores acústicos e eletrônicos. Quando Geddy e Alex fizeram a versão demo, eles colocaram todos os tipos de percussão na faixa, incluindo congas, timbales e bongôs. A ideia inicial era trazer um percussionista para tocar e Neil concordou, sugerindo o nome de Alex Acuna (Weather Report, Elvis Presley, Diana Ross), mas então a dupla perguntou se Neil não conseguiria fazer sozinho usando pads eletrônicos? A ideia do padrão rítmico que está nos primeiros segundos da composição foi também derivada de um ritmo tribal experienciado pelo baterista em sua longa viagem de bicicleta feita pela África Ocidental, em 1988 (posteriormente narrado em seu primeiro livro, “The Masked Rider: Cycling in West Africa”).

Tecnicamente, a parte das mãos não pode ser tocado sem paradiddles, que é um rudimento de bateria que consiste em um padrão de quatro notas, porque é preciso ter as mãos acentuando em certos lugares. Sem saber como fazer um paradiddle, não há como fazer o padrão. Neil fez um sample de sua própria caixa para tocá-la com o pé.  Não há um overdub sequer, para descrédito de Rupert, que não esperava ver Peart reproduzindo tudo aquilo ao vivo. A maioria dos ouvintes pode provavelmente pensar que há diversos bateristas ao mesmo tempo, quando ouvirem a música. São oito pads diferentes com as mãos em um padrão, enquanto as partes de caixa e bumbo são tocadas com os pés. Neil teve de organizar os diferentes sons nos pads corretamente para que eles caíssem na ordem, perdendo mais de um dia de trabalho antes de tocar algo.  O resultado foi muito gratificante, pois o padrão ultrapassou as fronteiras da própria canção. A canção foi tocada naquela turnê, já o padrão rítmico ficou dali em diante eternizado nos solos de bateria ao vivo.

E a experimentação não para por aí. Podemos afirmar que, harmonicamente, é a música mais simples de toda a discografia da banda, mantendo-se em Fá menor em toda sua extensão. Enquanto Lifeson usa e abusa de camadas atmosféricas de guitarra, flutuando em volta da base rítmica complexa, o também intrincado e hipnotizante padrão mântrico de baixo de “Scars” é acionado por um sequenciador, porém toda sua extensão foi preparada por Geddy, sendo a primeira vez que Lee utilizou um sequenciador de baixo ao longo de uma canção. “Scars” é intensamente dominada pela incrível condução de Peart, desde seu início. Em 2:58 praticamente só se ouve a bateria e o vocal de Lee recheado de delay entoando o refrão. Aos 3:28, Alex dobra a frase do baixo na guitarra, dando a dinâmica necessária para chegar ao final da faixa. Os vocais também se complementam em várias vozes, novamente atuando unicamente sob a bateria no final. Ao vivo, Geddy sequer usou um baixo durante a turnê, ele permaneceu unicamente nos teclados e voz.

6 – Presto”  

O termo “Presto” é utilizado por alguns mágicos como algo próximo à palavra mística “abracadabra”. E, sem dúvida, é assim que a letra da faixa título começa. A primeira frase nos leva a pensar na possibilidade de alguém possuir e realmente utilizar uma varinha mágica. A palavra quase foi utilizada pelo Rush em um trabalho anterior, “Presto” seria o título do álbum ao vivo “A Show Of Hands”.

A canção mostra uma jornada espirituosa, utilizando imagens poéticas para pensar sobre os inúmeros problemas e dificuldades enfrentadas pelas pessoas, reconhecendo, mas não nos culpando pela incapacidade, como indivíduos, de resolver todas as complexas questões do mundo. Ao contrário, o tema se desenvolve em tom esperançoso, um exercício de pensar sempre no bem de todos. É uma demonstração sincera à empatia, compaixão e racionalidade, já que todos temos limites. O trecho “I am made from the dust of the stars”, ou seja, “Eu sou feito do pó das estrelas” vem claramente da afirmação do renomado astrônomo norte-americano Carl Sagan de que “somos feitos de matéria estelar”. Neil tenta, então, logo no início da letra, dizer que temos em nosso DNA algo extraordinário, pois os oceanos e a poeira das estrelas nos moldaram. O baterista, ainda assim, gostaria de recorrer a uma varinha mágica para resolver tudo que nós não conseguimos, embora sinceramente quiséssemos.

“Presto”, a faixa-título, traz de volta violões, já em 0:08 para frente, como víamos no início de canções como “Making Memories” e “Closer To The Heart”. O instrumento acaba propondo um direcionamento levemente folk, fato que reflete claramente a mudança das intenções da banda e algo que encontraria espaço na discografia da banda dali em diante. De certa forma, a faixa título é uma pioneira desta nova forma de compor canções pela banda. A bateria e o baixo acompanham Lifeson, que se mantém nos violões. Em 1:04, no refrão, surge uma guitarra com o timbre de single coil (captador simples) muito usado por Steve Rothery do Marillion, com os teclados ao fundo, um trecho bem suave e melodioso, com as harmonizações vocais que se tornariam o padrão no restante da discografia. Os violões voltam em todas as estrofes. Em 3:04, a tonalidade da música é alterada trecho a trecho, demonstrando novamente a evolução harmônica das composições da banda nessa linha mais pop. O solo de guitarra aparece em 3:30 e também segue uma linha bem lenta e melodiosa, com teclados no fundo. A mixagem nos deixa ouvir baixo e bateria de forma bem clara, e ambos os músicos procuram trazer algumas linhas e viradas para acrescentar na canção, mas a faixa título é quase uma balada, com os vocais, backings e violões dominando a cena. 

7 – Superconductor”  

Estamos, nesta 7ª faixa de “Presto” novamente vendo Peart criticar o aspecto eminentemente comercial dos meios de comunicação. O baterista já havia feito isso, de forma brilhante, na letra de “The Spirit of Radio”, mas lá concentrou quase todo o conteúdo no que se passava então pelas ondas do dial.  Na física, a propriedade chamada supercondutividade se traduz pela capacidade de certos materiais, quando resfriados intensamente, em conduzirem corrente elétrica sem resistência ou perdas. O supercondutor de “Presto” tem estes poderes quase sobrenaturais. Ele traz uma incrível capacidade de espalhar sua teia de forma muito rápida e abrangente, enganando todos do show business em sua filosofia manipuladora. A sua supercondução não tem resistência dos espectadores, que estão passivos e engolindo tudo que os donos do mercado artístico propõem.

A canção lida com a superficialidade da música pop e como os novos ícones são criados visando mercados, orquestrando ilusões, incitando reações descabidas por parte do público e desaparecendo cada vez mais rápidos, substituídos como massa de manobra na mão dos supercondutores.

A canção já se inicia com o riff hard rock em uníssono na guitarra e baixo que serve de base para as estrofes. É um trecho em compasso 7/4. A banda procurava na ocasião fazer essas mudanças de compasso mais sutis, e assim tornarem as canções mais palatáveis para o apreciador não tão atento as questões mais técnicas. Todas as estrofes seguem esse padrão ímpar de compasso. A canção traz pré-refrões e refrões marcantes em um compasso mais padrão, em um estilo que se tornaria recorrente nos próximos álbuns da banda, com “Superconductor” sendo cantado e repetido com o uso de efeito de eco. A canção é uma das mais aceleradas do álbum, abria o lado B do vinil e seguiu com eles na turnê. Em 2:20, temos uma seção instrumental que substitui um tradicional solo de guitarra, com uma acalmada na dinâmica do baixo e bateria e frases de strings tocadas por Alex no teclado, que deixa a guitarra de lado nesse momento, assim como em “Time Stand Still” de “Hold Your Fire”. Em 3:34, o grupo traz um truque pop comum, mas que o trio não quase não utilizava, que é manter-se no refrão várias vezes, alterando apenas os tons da música, similar ao que fizeram na faixa título, reforçando a intenção do grupo em manter-se dentro de uma proposta pop. Em 4:12 a música chega ao clímax com a banda toda tocando energicamente até o final. A música é talvez uma das mais diretas do álbum.

8 – “Anagram (for Mongo)”

A oitava faixa de “Presto”, como o próprio título indica, é totalmente composta por anagramas, assim a canção inteira é muito mais pensada em, a cada frase, montar jogos de palavras. Anagramas são isso, brincadeiras que se utilizam da rearrumação de cada consoante ou vogal de cada palavra com o intuito de formar novas palavras.  A canção não traz o propósito de um conceito lírico único, uma ideia que se desenvolva através da progressão da letra.  As frases estão soltas, não há uma amarração específica entre elas, são impressões, imagens e uma lógica interna em cada frase, ou cada verso.   

Peart colocou Mongo no título da canção baseando-se em um personagem criado de Mel Brooks no filme Blazing Saddles (Banzé do Oeste), de 1974.   O baterista afirmou que: “Em uma de suas cenas, o xerife Bart entrega uma bomba para ele dizendo, “Candygram for Mongo!” ou seja “doces para Mongo!..”,assim Neil simplesmente substitui Candygram por Anagram, fazendo um outro jogo de palavras no seu título.

Não é só no título que há referências: o trecho “stab at the beast”, que está no refrão e significa punhalada na besta, foi nitidamente inspirada na famosa canção “Hotel California”, dos Eagles, mais precisamente no trecho “And in the master’s chamber, they gather for the feast. They stab it with their steely knives, but they just can’t kill the beast”, que vem exatamente antes do espetacular solo final que é revezado entre Don Felder e Joe Walsh.

Na canção há anagramas perfeitos, como HEART – EARTH, entre vários “imperfeitos”, como por exemplo HEART – wEATHeR. No apêndice D desta discografia, traremos detalhadamente o máximo de anagramas que conseguimos desvendar nesta canção.

Após a introdução, com o predomínio de teclados, Geddy começa a se virar com os muitos anagramas, enquanto guitarras e baixo dominam a base e a bateria vai crescendo progressivamente. O primeiro refrão, em 0:46, é suavizado por uma linha sublinhada de sintetizadores, sequenciados em uníssono com a guitarra em estéreo. Em 1:17 as estrofes recebem mais uma camada sutil de teclados, por trás da base de baixo e guitarra. Peart está mais contido nas frases, exceto por uma ou outra virada de bateria mais acelerada, como por exemplo em 3:32, mostrando novamente que o foco da banda é nas composições ao invés de virtuosismos exacerbados. Em 2:18 um piano é o maior responsável por trazer as linhas intermediárias da canção. O refrão após o trecho com pianos traz Peart alternando um pouco na condução. Quase ao fim, Geddy entrega uma virada de baixo incrível em perfeita sincronia com a bateria, mais uma vez mostrando o entrosamento absurdo da cozinha da banda.

9 – “Red Tide”

O título da nona canção de “Presto” refere-se ao fenômeno Maré Vermelha, provocado por um desequilíbrio ecológico resultante da excessiva proliferação da população de certas algas tóxicas no mar.  A música também se refere a outros problemas ecológicos, como a redução da camada de ozônio, o efeito estufa, a poluição e o desmatamento, em frases que afirmam ver um céu cheio de veneno e uma atmosfera muito rarefeita.

Peart também mostra as ironias do suposto progresso trazido pelos homens, ao mostrar as consequências do cotidiano dos amantes causada pela preocupação com a AIDS. Em “Lovers pausing at the bedroom door to find an open store”, o baterista mostra que os amantes desprevenidos precisavam ir a uma farmácia antes de consumarem qualquer ato carnal. Vale lembrar que quando “Presto” foi lançado, a doença causava muitas vítimas, estávamos engatinhando na busca por tratamento. Entre 1982 e 1989, a sobrevida dos pacientes maiores de 12 anos portadores de AIDS era de apenas 5,1 meses.

A letra de Peart é forte e tem um gancho pegajoso que se destaca ao unir perfeitamente letra e música no emblemático trecho “this is not a false alarm, this is not a test” – esse não é um alarme falso, isso não é um teste.

Musicalmente, “Red Tides” começa muito vibrante, com um piano na introdução que é acompanhado por toda a banda e uma linha forte de sintetizadores, mas em 0:21, a música diminui totalmente o clima para Geddy começar a cantar as primeiras frases da primeira estrofe com o piano fazendo exclusivamente a harmonia. Em seguida a canção cresce novamente, até trazer as suas frases mais marcantes, citadas acima – “this is not a false alarm, this is not a test” – para novamente manter-se alternando entre trechos calmos nas estrofes, e outros mais vibrantes na ponte e no refrão. Em 2:18, o trio repete o trecho inicial da canção, com pianos, teclados e efeitos especiais, seguindo para novos trechos vibrantes, antes do solo. O solo é 3:07 é bastante intenso e rápido, mas bem curto. Novamente temos os vocais dobrados com diversos backings, no padrão das demais faixas do álbum. Do meio da canção para frente, os sintetizadores trazem uma nova sonoridade, mais “vintage”, timbres de órgão. Em 3:50 o trecho em piano retorna, enquanto Geddy canta “And the red tide kisses the shore”. Os teclados sintetizados voltam bem alto na mixagem, mas é possível ouvir Geddy em uma altura bem mais contida da mixagem repetindo essas frases finais e em 4:14 temos novamente o climático “truque pop” da subida de tom culminando no final da canção.   

10 – Hand over Fist” 

“Hand Over Fist” é a penúltima canção do álbum “Presto” e utiliza a figura de um famoso jogo universal para questionar o afastamento entre as pessoas. Peart usou o simbolismo que o jogo de mãos “pedra, papel, tesoura” representa. “Pedra, Papel e Tesoura” é um jogo de mãos geralmente disputado por duas pessoas, onde os adversários mostram, simultaneamente, uma das três formas possíveis de mãos estendidas: a “pedra” é representada pelo punho fechado, a “tesoura” por dois dedos esticados e separados e o “papel” pela mão aberta com os dedos esticados. O objetivo é escolher algo para derrotar o adversário, já que cada um dos elementos é capaz de derrotar um, mas é derrotado também por um outro, da seguinte forma: a “pedra” quebra a “tesoura”, a “tesoura” corta o “papel” e o “papel” cobre a “pedra”. A imagem do “Pedra, Papel e Tesoura” foi utilizada nos bumbos da Ludwig de Peart, durante toda a turnê do álbum.

As interpretações são amplas, porém, naturalmente, os punhos fechados simbolizam sentimentos como a raiva, ressentimentos e combatividade, que é associada ao mencionado jogo. Outro ponto na canção são as discordâncias que, inevitavelmente, surgirão nos mais variados âmbitos e momentos. Tal reflexão se mostra clara no trecho “…How can we ever agree? like the rest of the world we grow farther apart, I swear you don’t listen to me…”  ou seja, “como podemos concordar? Pois, como o resto do mundo, nós também estamos nos distanciamos mais. Eu juro que você não me escuta…” Sempre iremos nos deparar com opiniões diferentes sobre grande variedade de assuntos. Também ressalta que as falhas de comunicação em nossas relações já estabelecidas, podem atrapalhar o caminhar ao lado de outras pessoas. Em “I thought I could run alone” ou “Eu pensei que poderia caminhar sozinho”, Peart tenta provar que é essencial o relacionamento entre pessoas que devem renunciar à autossuficiência para dar lugar à interdependência.

Um fato curioso é que “Hand Over Fist” seria a primeira canção instrumental do Rush desde “YYZ”, de “Moving Pictures”. Lifeson já tinha um riff que é feito nos captadores do braço e a levada suingada de guitarra para desenvolverem na instrumental. Durante as reuniões para composições, na pré-produção, no entanto, Neil continuava a trazer letras e uma delas acabou encaixando nos riffs e ideias inicialmente tratadas para trazer uma nova canção instrumental. O grupo então percebeu que as letras eram muito adequadas para aquela embrionária composição, e assim mudaram de ideia. A parte suingada tornou-se a base do refrão, como podemos ver em já em 0:11. A primeira estrofe é cantada numa dinâmica bem baixa sobre um riff interessante de guitarra. O solo surge em 2:05, em cima desta guitarra suingada, é um solo discreto, bem pontual, dramático e melódico no melhor estilo Lifeson. A faixa segue com uma estrofe intermediária diferente mostrando novamente a evolução das composições neste álbum. Em 2:46 Lifeson toca o riff de forma bem mais abafada e discreta na mixagem, enquanto o refrão retorna e riff e trecho suingado da guitarra se juntam no arranjo. Em 3:33, temos mais uma convenção em perfeita sincronia do baixo e da bateria, dando a deixa para a entrada do segundo solo de guitarra, que também é bastante melódico, sob os vocais que repetem o refrão até o final em fade-out.

 11“Available Light” 

A última canção de “Presto” explica o poder das possibilidades do mundo e de como simples elementos como o vento e a luz podem nos transmitir sensações variadas, baseada no conceito do filósofo Aristóteles que diz: “Nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos”. A fonte do conhecimento, portanto, está nas informações captadas pelos sentidos, assim “Available Light” reflete sobre o empirismo, que nos leva a entender que, embora as pessoas nasçam com a capacidade de aprendizagem, é preciso passar por experiências ao longo da vida para desenvolver-se mais profundamente. O título traz o termo luz disponível (ou luz ambiente), amplamente utilizado na fotografia ou na cinematografia profissional. Ele se refere a qualquer fonte de luz não artificial.

A canção que encerra o álbum “Presto” o faz de forma muito elegante.  Com preponderância introspectiva, notadamente adornada por alguns sintetizadores e preenchimentos suaves e marcantes de piano, “Available Light”, em seu primeiro momento, apresenta nuances jazzísticas, conduzidas também por Neil numa levada de bateria que lembra a de “Tom Sawyer”, só que mais lenta. O baixo e a guitarra só aparecem de forma mais marcante em 0:48, quando Geddy canta pela primeira vez o ótimo refrão e as guitarras limpas fazem lindos arpejos em consonância com os teclados sequenciados. Em 1:18, Neil, no terceiro momento da canção, se destaca com ótimas viradas que culminam no momento em que a banda para completamente e Geddy canta de forma espetacular o título da canção. A música retorna para o trecho inicial, em 1:40, mas aqui Lifeson acrescenta algumas linhas bem “bluesy”, que trazem ainda mais elegância ao trecho e a bateria é tocada de forma mais vigorosa do que na primeira estrofe. “Available Light” se desenvolve entre os três trechos, alternadamente, que se complementam perfeitamente e entregam uma canção de qualidade bastante coesa, todo o arranjo beira à perfeição, característica composicional que se seguiria no decorrer da discografia. O solo de guitarra aos 3:11 é mais uma aula de bom gosto com ótima escolha de notas melódicas e dramáticas. Ao final, um fade-out que nos permite ouvir mais viradas de bateria, enquanto Lee canta o refrão e o trecho final do solo de guitarra é repetido ao fundo.  

“Presto” teve reações divergentes ao ser lançado e não é um álbum tão bem recebidopor uma parte dos fãs, mesmo com uma desejada volta aos tempos em que os teclados não se sobressaíam tanto. E mesmo assim, esse retorno ao som mais básico mostrou em “Presto” apenas um primeiro, mas importante passo desta caminhada. Há ainda espaço para os teclados e eles estão no álbum, apenas perderam o protagonismo absoluto. “Show Don’t Tell” e “The Pass” brilharam bastante no álbum e se mantiveram durante os anos a seguir na carreira da banda, nos shows, nas turnês. A faixa de abertura ainda trouxe um atestado de que o grupo tinha plena propriedade para voltar a um som mais carregado de drives e menos orientado aos teclados, bastava confirmar de vez este propósito. A faixa título aponta para um outro caminho, pois é uma espécie de revival neste estilo que traz de volta de um passado muito distante o folk dos violões para a banda. “Superconductor”, faixa acelerada, se coloca bem apropriada para abrir o lado B do vinil, com um potencial comercial que infelizmente não se traduziu na prática. “Scars” deixou de legado a incrível condução de Peart, que o baterista levou para seus solos desde então. “War Paint” até seguiu na turnê com o trio, mas não teve fôlego para ser digna de outros set-lists mais à frente. O grupo acabou por não divulgar as demais canções, que trazem vários momentos dignos de elogios, sejam pelas letras, sejam pelo instrumental, e assim o restante do lado B, talvez junto com “Chain Lightning”, ficou meio à margem dentro do conteúdo do álbum, sendo preciso uma procura mais atenta por parte dos fãs para destacar determinada canção. 

Eu, Alexandre, considero que o álbum diminui o ritmo no seu final, ainda que considere “Available Light” uma faixa incrível, única, ousada e muito elegante. “Red Tide” tem uma ótima letra e uma parte musical também muito boa, mas a seriedade do tema não combina, pra mim, com o conteúdo musical que tem um clima até alegre. Os destaques vão para os dois principais singles. “Show, Don’t Tell” é uma senhora canção, com o virtuosismo e peso que se espera ouvir na banda. “The Pass” é o completo oposto, faixa linda, letra impressionante, musicalidade à flor da pele. Acho que “Scars”, que cresce muito nas versões ao vivo da época, cumpre bem o papel do experimentalismo no álbum, muito melhor até que faixas na mesma linha de álbuns anteriores, como por exemplo “Tai Shain”. “Presto”, a faixa-título, é de fato uma boa canção, com o retorno dos violões folk meio abandonado em músicas de mais de uma década antes, como “Lessons” do “2112” ou “Making Memories”, do “Fly By Night”, mas para ser o título do álbum eu esperaria uma canção mais forte.  “Anagram (for Mongo)” até surpreende pelo jogo de palavras, mas a parte musical está um pouco abaixo da ideia genial que formou a letra. “Superconductor” é uma faixa que atende o propósito mais comercial, no exato oposto ao que a letra entrega, mas não chega próximo ao que o grupo fez em “The Spirit of Radio”, que tem mais ou menos a mesma temática. As demais canções trazem trechos bons entre outros não tão inspirados, alguns deles até um pouco piegas. Dentre elas eu ainda prefiro “Chain Lighting”, pois “War Paint” e principalmente “Hands Over Fist” pecam em maior inspiração. Não há álbum ruim na discografia da banda, em “Presto” há vários momentos simplesmente brilhantes, mas o álbum perde um pouco de fôlego no total do seu conteúdo.

Já eu, Abilio, que vinha acompanhando a discografia da banda em tempo real na época e já era um ávido fã do pop rock/new wave dos anos 80, lembro que fui mais uma vez surpreendido com a sonoridade do álbum, bem superior ao anterior, e a qualidade das composições e performances, especialmente com a adição das várias camadas de backing vocals e os solos de guitarra pontuais, assim como os trechos instrumentais diferenciados. Portanto, dado o valor sentimental (vivi meus primeiros e felizes anos de faculdade ouvindo sem parar esse disco com meus amigos), fica difícil analisar o álbum de forma mais crítica hoje em dia, mas devo ressaltar que “Show Don’t Tell”, “The Pass” (que me fez literalmente chorar no show em São Paulo em 2002) e “Available Light” se destacam das demais faixas do álbum, assim como “Anagram (for Mongo)” pela incrível letra e melodias vocais que perfeitamente se encaixam.

Para a turnê de divulgação de “Presto”, novamente a banda manteve-se restrita a reduzir paulatinamente a quantidade de datas, assim eles tocaram por 64 noites, essencialmente nos EUA e Canadá, atingindo um público total estimado em 600 mil pessoas. Pela primeira vez o grupo tocou menos de 50% do material novo nos shows de promoção de um álbum em sua carreira, fruto de todo um legado anterior de composições quase que obrigatórias e também pelo fato da banda estar gravando mais músicas para seus novos trabalhos. Também é o primeiro álbum com 11 faixas da banda e delas o Rush tocava 5 na turnê. Os shows começaram em Greenville, na Carolina do Sul, em 17 de fevereiro de 1990, terminando em 29 de junho daquele ano, em Irvine, Califórnia.

Os shows eram abertos por bandas como Chalk, os compatriotas Voivod e o Mr. Big, na época excursionando com o seu primeiro e homônimo álbum. No show de Mountain View, em São Francisco, penúltima data da turnê no dia 27/03/90, todo o Mr. Big juntou-se ao Rush para tocar a última canção, “In The Mood”. O interessante é que o solo foi feito por Paul Gilbert, enquanto Alex Lifeson usou emprestado a furadeira que Paul usava nos shows de abertura para fazer a base para Gilbert solar. O repertório trazia do novo álbum as faixas “The Pass”, “Show Don’t Tell”  “Superconductor” em sequência no bloco intermediário (com Lifeson tocando teclados de “Superconductor” como solo da canção) , e a dupla “Scars”/”War Paint” após o solo de bateria, mais ao fim do repertório principal. As novas músicas eram intercaladas com algumas faixas mais recentes, sendo 3 de cada um dos dois álbuns anteriores. Novamente a banda optou por trazer a faixa de abertura do álbum anterior, para começar os shows. Para a turnê de “Hold Your Fire” o grupo iniciava os shows com “The Big Money”. Na turnê de “Presto”, a escolha foi por “Force Ten”. Obviamente o grupo trouxe alguns dos clássicos, como “Closer To The Heart” e “Tom Sawyer”, e resgatou algumas faixas que há tempos não tocavam, em especial “Xanadu”, mas sem o uso dos instrumentos doublenecks, em versão editada que emendava em “YYZ” e o solo de Peart. O bis iniciava-se em um revezamento entre “The Spirit of Radio”, tocada em cerca de 1/3 da turnê, com “The Big Money”, presente em 42 datas. Ao fim do medley que encerrava os shows, Peart e Lee improvisavam um hit da surf music: “Wipe Out”, do conjunto “The Surfaris”.

A turnê foi marcada por um grande investimento da banda na estrutura que mostrava vários com elementos da arte da capa do Presto, como dois coelhos infláveis ​​gigantes que apareciam em “War Paint” e “Tom Sawyer”, nesta última manipulados de forma a tentarem “dançar” no ritmo da música, além de lasers iluminando em especial a bateria no trecho em que Neil solava sozinho no palco. O som apresentou um efeito quadrifônico através de dois conjuntos de alto-falantes de PA na extremidade traseira do chão do palco. O telão exibia sequências de vídeo e filmes retrô durante toda a apresentação e foi considerado, naquele ano, um dos maiores, mais brilhantes e impressionantes espetáculos de rock. Com o advento das câmeras portáteis e melhoria na tecnologia de filmagem e captação de áudio a partir da metade da década de 1980, tornou-se mais recentemente possível encontrar shows na íntegra com razoável ou até boa qualidade de fontes não oficiais nos streamings, material que durante os anos 1980 e 1990 era comercializado intensamente de forma extraoficial. A penúltima data da turnê, em São Francisco, pode ser facilmente encontrada no YouTube e, desconsiderando alguns trechos com problemas técnicos na captura das imagens, traz um belo retrato do que era a turnê de “Presto”, em 1990.

Abaixo temos um exemplo do set list da turnê:

Em meados de julho, o trio havia encerrado a turnê de “Presto” e ficado bastante satisfeito com o resultado dos shows com a parceria de Rupert Hine, porém se queixava um pouco da relativa diminuição de vendas dos álbuns. No próximo capítulo veremos o trio recuperar o patamar de alguns anos anteriores, até lá!

Keep bloggin’,

Abilio Abreu e Alexandre B-side



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