
Sem o nome Frehley’s Comet, algo que decorreu da pouca repercussão do segundo trabalho do grupo em 1988, e sem o talentoso Tod Howarth, que não se encaixou em um papel mais coadjuvante, estratégia traçada por interferência direta da gravadora, Ace inicia sua parte de carreira que é considerada realmente solo a partir do álbum de 1989, “Trouble Walkin’”. No lugar de Howarth, volta Richie Scarlet, que começou o projeto solo de Ace após a saída no KISS, antes do lançamento do primeiro álbum. Scarlet ajudou Ace a escrever boa parte do novo trabalho e também canta na faixa “2 Young 2 Die”. De volta estavam também o amigo e baterista Anton Fig, que não esteve na tour anterior, e o produtor Eddie Kramer. A ideia, em “Trouble Walkin’” era, sem dúvida, em fazer um trabalho mais pesado que os anteriores. O álbum também trouxe como convidado ilustre Peter Criss em alguns backing-vocals, mas a participação é quase imperceptível.

ÁLBUM: Trouble Walkin’
Lado A
1-Shot Full of Rock– 4:47
2-Do Ya – 3:47
3- Five Card Stud– 4:01
4- Hide Your Heart – 4:33
5- Lost in Limbo – 4:10
Lado B
6- Trouble Walkin’ – 4:10
7- 2 Young 2 Die – 4:29
8 – Back To School– 3:43
9 – Remember Me – 5:01
10 – Fractured III – 6:48
– Integrantes: Ace Frehley, Anton Fig, John Regan e Richie Scarlet
– Lançamento: 13/10/1989
– Produtores: Eddie Kramer, Ace Frehley, John Reagan.
– O álbum não chegou ao top 100 da parada Billboard.
A tour se deu em 1990 e mostrou uma banda com bastante disposição nos palcos, porém o álbum não teve a repercussão merecida. Anton Fig não seguiu em turnê, sendo substituído por Sandy Slavin. Entre 1992 e 1995 Ace fez um bom punhado de shows (1991 foi um ano sabático para o Space Man). Foram cerca de 150 apresentações no período e Ace também apareceu no álbum de Peter Criss chamado “Criss Cat#1”, fazendo alguns solos de guitarra. Os dois ex-KISS acabaram se juntando em 1995 para a intitulada Bad Boys of KISS tour, que teve 37 shows. No repertório, clássicos do KISS (alguns que Ace inclusive não cantava quando estava no grupo, como “Watchin’ You”), misturados aos melhores momentos da carreira e eventuais participações do ex-colega do KISS em algumas canções.
E que linhas eu posso traçar sobre este terceiro trabalho de Ace entre a saída e a volta dele em 1996 para o KISS? Em minha opinião o álbum é bem mais consistente que o último álbum no Frehley’s Comet e não cansa, até pelo menos a faixa “Back to School”, que traz o convidado/fã Sebastian Bach. Aliás, Rachel Bolan e Dave Sabo, também do Skid Row, aparecem também nos backings. Coisa de fã, é claro. O álbum é também bem consistente por trazer apenas uma mudança na formação clássica do melhor do Frehley’s Comet. Assim, ali estão o ótimo Anton Fig (que já mostra suas habilidades na primeira faixa, a competente “Shot Full Of Rock”) e o discreto e seguro John Regan no baixo. Richie Scarlett é muito entrosado com Ace, sem dúvida traz mais peso para a pegada da banda e divide bem alguns solos com Frehley, ou seja, foi uma boa sacada tê-lo de volta.
Mais uma vez mostrando sua ótima categoria em gravar covers, a versão do “Do Ya” da banda The Move, que se tornou o single do álbum, é talvez até superior a original. Na parte lenta, perto de um minuto e meio, dá até para acreditar que a canção sempre foi de Ace, tal confortável podemos perceber que Frehley ficou, recheando o trecho com violões de 12 cordas, ou seja ele praticamente tomou a canção para si.
O lado A segue com “Five Card Stud”, uma canção coescrita com Marc Ferrari, do Keel, que não compromete. Dali segue a versão de “Hide Your Heart”, que saiu naquele mesmo ano no álbum do KISS, “Hot In The Shade”. A música já fazia parte do universo KISS desde o álbum anterior, “Crazy Nights”, de 1987, foi gravada por Bonnie Tyler, Robin Beck e o Molly Hatchet, sem muita repercussão, mas Gene Simmons alertou Ace que eles iriam lançá-la como single. O fato é que a diferença de lançamento dos álbuns é de menos de 1 semana e o KISS trouxe a canção como o seu primeiro destaque, matando qualquer repercussão acerca da boa (mas não tão boa) versão de Ace. “Lost in Limbo” tem um bom refrão e fecha o lado A de forma apropriada.

O lado B começa forte com a faixa-título, segue muito bem com uma das faixas mais pesadas, “2 Young 2 Die”, a que traz os vocais de Scarlett, e somente ali cai um pouco com a já citada “Back To School”. Mas o blues disfarçado de live em “Remember Me”, é outro dos destaques, com os duelos de licks entre Ace e Ritchie e “Fractured III”, cumprindo a tradição das faixas instrumentais na carreira do guitarrista espacial, para fechar o álbum, bem melhor que sua antecessora (no álbum “Second Sighting” ), “The Accord is Spinning”, reforçam o conceito que trago ao afirmar que “Trouble Walkin’”, se não consegue o nível do ótimo álbum no KISS de 78 ou mesmo do primeiro solo no “Frehley’s Comet”, é pelo menos bem mais consistente que o álbum anterior e vale uma conferida, em especial para os fãs do guitarrista. Ele pode até não considerado melhor que o segundo trabalho, mas provavelmente essa opinião é algo que vai de encontro a aqueles que sentiram falta da pegada mais hard californiana que Tod Howarth sempre imprimiu como sua marca na banda.

Em 1996 Ace retorna ao KISS, história já contada neste blog, e lá fica até o início de 2002. Sua saída do grupo o levou também a lidar com os velhos problemas de abuso de bebidas e drogas, passando por períodos em clínicas de reabilitação em 2003. Neste período, dentro e fora do KISS, Ace precisou “pagar” os álbuns que estava devendo à Megaforce Records, já que o contrato inicial previa 6 álbuns. Em 1997 e 1998 ele lançou duas coletâneas, “12 picks” e “Loaded Deck”. Na primeira coletânea, Ace lança mão dos singles que fizeram parte do período no “Frehley’s Comet” e no álbum “Trouble Walkin’”, incluindo a sua versão de “Hide Your Heart” e complementa o material com as gravações do Ep “Live +1” e do áudio do VHS “Live + 4”, ambos lançados em 1988. A novidade é a inclusão de duas faixas ao vivo, uma boa rendição de “Calling To You”, do álbum de 1987 e uma das preferidas de Ace no KISS, “Deuce”.

ÁLBUM: 12 PICKS
Track List: “Into the Night”, “Words Are Not Enough”, “Insane”, “Hide Your Heart”,”Trouble Walkin’, “Rock Soldiers”, “Rip It Out” (Live), “Breakout” (Live), “Cold Gin” (Live), “Shock Me” (Live),”Rocket Ride” (Live), “Deuce” (Live),”Calling to You” (Live – bonus track da versão japonesa).
Já em “Loaded Deck”, Ace repete a dose, misturando músicas ao vivo com faixas com potencial mais forte comercialmente de seus álbuns de estúdio. As novidades ficam por conta de duas faixas inéditas em estúdio (“One Plus One” e “Give To Me Anyway”), e outras duas faixas ao vivo, não lançadas anteriormente: “Separate” e uma versão de mais de 9 minutos com solo de guitarra de “Shock Me”, gravada no Japão.

ALBUM: LOADED DECK
Track List: “One Plus One”,”Give It to Me Anyway”,”Do Ya”,”It’s Over Now”,”Shot Full of Rock”,”Stranger in a Strange Land” (Live),”Separate” (Live),”New York Groove” (Live),”Rock Soldiers” (Live),”Remember Me (Live)”,”Fractured Too”,”Fractured III”, “Shock Me” (Live – bonus track da versão japonesa)
Em 2006 Frehley, ja fora do KISS e pensando em seu futuro artístico, “paga a última prestação” à Megaforce, com uma nova coletânea chamada “Greatest Hits Live”, que é simplesmente uma compilação das duas outras coletâneas, trazendo as faixas inéditas do álbum “Loaded Deck”, entre as versões ao vivo já conhecidas até 1998.

ÁLBUM: GREATEST HITS LIVE
Track List: “Rip It Out (Live)”,”Breakout (Live)”,”Cold Gin (Live)”,”Shock Me (Live)”,”Rocket Ride (Live)”, “Deuce(Live)”,”Stranger in a Strange Land (Live)”,”Separate (Live)”,”New York Groove (Live)”,”Rock Soldiers (Live)”,”One Plus One”, “Give It to Me Anyway”.
Essas coletâneas servem em especial para quem não tem o EP “Live + 1” ou mesmo os registros do VHS “Live + 4”, pois as faixas inéditas lançadas em “Loaded Deck” não são lá muito inspiradas, apenas “Give It to Me Anyway” tem, como curiosidade, Richie Scarlet cantando pela segunda e última vez na discografia de Frehley. A melhor das faixas de estúdio que não saiu nos álbuns entre 1987 e 1989 é, sem dúvida “Words Are Not Enough”, que havia sido lançada anteriormente no Ep “Live + 1” e está também em “12 Picks”. Todas essas coletâneas valem, em especial, pelas versões ao vivo, que já haviam sido lançadas em VHS ou no Ep, em 1988.
Em 2007, findado o compromisso com a Megaforce, Ace resolveu retomar a carreira, começando a compor novas canções. Um novo álbum estava nos planos, que inicialmente iria se chamar “Pax Eternal (“Paz Eterna”), mas este título recebeu muitas críticas daqueles que estavam perto do guitarrista. Em 2008 a ‘Rocket Ride Tour’ trouxe Ace de volta aos palcos, para mais de 50 shows, ele enfim estava pronto para retomar a carreira também nos estúdios.

“Anomaly”, o rebatizado novo álbum, que foi lançado quase 20 anos depois de “Trouble Walkin’” em setembro de 2009, é o novo passo na carreira de Ace. O formato preparado pela capa traz o inusitado da mesma poder se transformar em uma espécie de pirâmide de papelão e desta vez Ace produziu o álbum praticamente sozinho, teve apenas o auxílio de Marti Frederiksen no single “Fox on The Run”. Marti, produtor renomado, havia iniciado a carreira junto ao Aerosmith compondo canções em parceria nos anos 90. Ace dedicou o álbum a alguns dos amigos que haviam falecido desde “Trouble Walkin’”, entre eles Dimebag Darrelll e Eric Carr.

ÁLBUM: Anomaly
1- Foxy & Free -3:43
2- Outer Space – 3:48
3- Pain In The Neck – 4:18
4- Fox On The Run- 3:34
5- Genghis Khan – 6:08
6- Too Many Faces – 4:22
7- Change The World- 4:11
8- Space Bear – 5:24
9- A Little Below The Angels – 4:17
10- Sister – 4:48
11- It’s A Great Life – 4:00
12- Fractured Quantum – 6:19
Faixas bônus: The Return of Space Bear, Hard For Neck, Pain in The Neck (versão lenta)
– Lançamento: 15/09/2009
– Produtores: Ace Frehley, Frank Munoz, Marti Frederiksen
– O álbum não obteve repercussão significativa.

Ace sai em tour para menos de 30 shows, promovendo “Anomaly”, ainda em 2009, pelos EUA. O set list é recheado de músicas antigas, no KISS ou mesmo do período dos anos 80 depois que saiu da banda. Do novo álbum Ace toca basicamente duas canções: “Sister” e “Outer Space”.
Em minha opinião o primeiro álbum de faixas inéditas após a nova saída no KISS peca pela irregularidade que tanto marcou a carreira do guitarrista. O álbum poderia também ser melhor se fosse menor. Ainda que Ace viesse fazendo composições desde 2007, não havia necessidade de encher o álbum com 12 canções. O álbum até começa com uma faixa forte, “Foxy & Free”, mas vai perdendo o fôlego, principalmente após a ótima cover de “Fox On The Run”, a quarta faixa, que foi originalmente gravada pelo grupo Sweet em 1974.

Há até mais uma boa faixa mais próxima ao fim do álbum, “Too Many Faces”, mas esta canção acaba se perdendo em outros momentos até constrangedores do ponto de vista de composição, como “Change The World”, “A Little Below The Angels” e “Genghis Khan”. A faixa “Space Bear” é totalmente descartável, pois já há uma outra boa faixa instrumental, da sequência “Fractured”, intitulada “Fractured Quantum”. “Space Bear” só não é pior que a sua pretensa versão bônus, rebatizada de “The Return of The Space Bear”, que traz algumas citações que Ace fez na célebre entrevista com Tom Sawyer, em 1979. “Hard For The Neck”, outra faixa bônus, é na verdade “Foxy & Free” com letras modificadas. Portanto “Anomaly” não entrega um conjunto de canções consistentes e se torna, facilmente, até aquele momento, o pior momento do guitarrista em sua carreira solo, independente dos bons músicos que o acompanham no álbum. Brian Tichy e amigo Anton Fig dividem alguns dos tracks de bateria com o igualmente competente Steve Luongo, assim como Marti Frederiksen contribui em diversos papéis, no baixo, nos teclados e algumas adições de guitarra. O resultado final, no entanto, decepciona. O material gráfico, que montado se transforma em uma pirâmide, não funciona também para quem pretende ter um pouco mais de cuidado com o cd, ou seja, alguns caminhos foram definitivamente mal traçados neste “Anomaly”.

Entre 2010 e 2013, Frehley entra em um período bem menos produtivo, limitando-se a fazer shows esporádicos na Austrália (5 datas em 2010), entre outros em sua terra natal, mas mal completa outras 30 apresentações em cerca de quatro anos. Em 2014 Frehley resolve apostar em novo trabalho solo e desta vez realmente o produz sozinho.

ÁLBUM: Space Invader
1- Space Invader -4:17
2- Gimme a Fellin’ – 4:05
3- I Wanna Hold You – 3:32
4- Change – 4:08
5- Toys – 4:09
6- Immortal Pleasures – 5:05
7- Inside The Vortex – 4:40
8- What Every Girl Wants – 3:46
9- Past The Milky Way – 5:31
10- Reckless – 4:12
11- The Joker – 3:35
12- Starship – 7:03
A versão deluxe traz versões radio edit de “Gimme a Feelin’” e “Space Invader”
Logo após a formação original do KISS ser incluída no Hall da Fama do Rock and Roll, ainda em 2014, Frehley lança “Space Invader”, e nele Ace toca todas as guitarras e o baixo (com das faixas “What Every Girl Wants” e “Starship”, a cargo de Chris Wyse), enquanto na bateria Matt Starr faz um trabalho extremamente competente. Ace trouxe Ken Kelly conhecido por fazer as capas de “Destroyer” e “Love Gun” para arte final do álbum e investiu pesado em letras baseadas em seu personagem espacial.

A faixa-título abre bem o álbum, mas não é o maior destaque em “Space Invader”. Na sequência Frehley entrega melhores canções, no meu entendimento: “Gimme a Feelin’’’ tem um inegável potencial comercial, “I Wanna Hold You” traz estrofes monocórdicas, mas acerta bem no refrão e tanto “Change” e quanto “Toys” apostam no peso, mantendo a consistência neste início de álbum. Infelizmente, novamente ele erra na quantidade de faixas e não mantém o ritmo ao longo das 12 faixas, mas o resultado é inegavelmente mais consistente que o trabalho anterior, “Anomaly”. Há ainda uma ótima faixa mais ao fim do álbum, “Past The Milky Way”, cuja qualidade a faria figurar muito bem em qualquer momento da carreira do guitarrista espacial, mas, de fato, o restante do álbum cai um pouco e mesmo a faixa instrumental que fecha o álbum, “Starship”, ou a faixa cover “The Joker”, gravada originalmente pela Steve Miller Band poderiam ser mais inspiradas. Esta talvez uma das poucas covers que Ace escolheu que não acrescenta nem ao trabalho lançado, nem a uma sequência confortável de boas sacadas que Frehley traz normalmente nos covers. Ainda assim, “Space Invader” pode ser facilmente considerado o melhor trabalho de faixas inéditas de Ace Frehley a partir dos anos 2000.
A turnê que promoveu “Space Invader” também foi calcada nas conhecidas músicas mais antigas, tanto do KISS quanto no período antes dos anos 1990, mas Frehley acrescentou três novas faixas no repertório: “Toys”, “Gimme Feelin’” e “Change”. O guitarrista e banda fizeram cerca de 57 shows durante 2014 e 2015.

Opa, vamos dar uma parada nessa jornada solo espacial de Frehley agora. É hora de dar uma pausa, recarregar as baterias, e à frente trazer o capítulo derradeiro. No fim de 2015, Ace vivia um momento em que os dois novos trabalhos depois de sua saída do KISS em 2002, além de irregulares, em especial o primeiro, “Anomaly”, não conseguiram uma repercussão além do nicho mais seleto de fãs do KISS. Assim, Ace resolve dar uma cartada diferente na carreira, apostando em algo que sempre fez muito bem. No próximo capítulo, veremos Ace se revezando entre dois álbuns de covers e também os dois últimos álbuns de faixas inéditas em sua carreira.
Nos vemos em breve!
Alexandre Bside
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8º Podcast Minuto HM – 29/maio/2012
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