Consultoria do Rock – Melhores de Todos os Tempos – Aqueles que Faltaram: por Ronaldo Rodrigues, com participação do Minuto HM

Vamos a mais um capítulo (d)”Aqueles que Faltaram“, da série “Melhores de Todos os Tempos“, idealizada pelo pessoal do Consultoria do Rock e que conta com a participação “geminal e genial” do B-Side e do Remote.

Em uma primeira análise, parece ser uma lista interessante e, como sempre, o aprendizado é grande.

Boa leitura a todos.

[ ] ‘ s,

Eduardo.


A MULTINACIONAL MAHAVISHNU ORCHESTRA: JERRY GOODMAN, JAN HAMMER, JOHN MCLAUGHLIN, BILLY COBHAM E RICK LAIRD

É novo por aqui e quer saber como funciona essa extensão da série “Melhores de Todos os Tempos”? Confira a primeira edição clicando neste link.

Por Ronaldo Rodrigues

Edição de Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, André Kaminski, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Flavio Pontes, Mairon Machado e Ulisses Macedo

Ao ver tantas pessoas expressando luto por grandes músicos que partiram nos últimos anos, me convenci ainda mais de duas coisas. A primeira é de que precisamos (enquanto público ouvinte e críticos) ajudar a fomentar uma nova geração para o rock em todas as suas vertentes. A segunda é a de que devemos render homenagem especialmente aos que ainda estão vivos (acho que, na lista de discos abaixo, quase todos os músicos envolvidos ainda estão vivos). Quanto à segunda premissa, esta lista busca manifestar meu apreço por grandes músicos e fantásticas obras que moldaram, ainda que de forma não tão conhecida e referenciada, a história do rock. Além de cobrir aquilo que considero como lacunas em listas de apenas dez discos por ano, de grandes trabalhos que não figuraram dentro da série estabelecida por votação aqui na Consultoria do Rock. Quanto ao período escolhido, bem… Vocês sabem o quanto eu sou parcial nesse quesito.


Jeff Beck – Truth (1968)

Ronaldo: Jeff Beck sintetizou, junto com o Led Zeppelin, a fórmula que sedimentaria o rock pesado – uma sólida e intensa estrutura rítmica, vocais rasgantes e agudos, muitos riffs de guitarra baseados no blues e tocados a todo volume. Contando com um grande time de músicos, o grupo que o acompanha neste trabalho entrega ao ouvinte uma antecipação do hard rock setentista. A faixa mais memorável e marcante da assinatura do álbum é “Shapes of Things”, uma metamorfose elétrica para o som sessentista dos Yardbirds. Creio que o disco não teve um impacto similar ao da estreia do Led Zeppelin (lançada alguns meses depois) por não contar com uma produção muito esmerada e pelo método pouco ortodoxo de Jeff Beck executar seus solos de guitarra, que esculpiria sua reputação como um dos mais originais guitarristas da história.

Alexandre: Um disco entre mais clássicos desta lista. Certamente encontraria lugar entre os finalistas de 1968. Um álbum com um som de guitarra que poucos conseguiram fazer naquele tempo. Solos com imensa categoria, ótimo uso de efeitos wah-wah na última faixa, “I Ain’t Supertitious”. E Rod Stewart soando como deveria sempre soar. Uma senhora interpretação vocal carregada de emoção durante todo o álbum. A versão de “Shapes of Things” dá uma surra na original, do Yardbirds. De certa forma, Truth, por ser anterior, ajudou a iluminar o caminho que o Led Zeppelin começaria a percorrer logo depois com tanto reconhecimento, em especial nos dois primeiros álbuns. A referência é tão clara que ambas as bandas resolveram gravar uma versão de “You Shook Me”. A contida aqui é comparável à excelente versão de Led Zeppelin (1969), apenas carregando um pouco mais nos teclados. Os demais covers, disfarçadamente creditados à dupla Beck e Stewart (Jeffrey Rod), são também ótimas versões, mas fica a questão da desfaçatez de creditar uma canção ligeiramente alterada como sua (“Rock My Plimsoul”, por exemplo, é “Rock Me Baby”, gravada por B.B. King), coisa que seu ex-parceiro Page também fez no Led Zeppelin. Como senão, gostaria de ver canções da autoria dos membros do projeto, não há uma. Isso não desabona o álbum, que é excelente. Ah… Tem Ron Wood também (no baixo). Isso passa até batido face à interpretação da dupla Beck e Stewart.

André: O álbum que mais ouvi de Beck é o mais recente Who Else! (1999), que já me deixava impressionado com a grande qualidade do guitarrista. Mas este velho disco do cara me impressionou demais. Que guitarras desconcertantes, que voz marcante de Stewart, que composições pesadas! Várias faixas do álbum foram compostas por lendas do blues, e esses britânicos dão um belo trato nessas músicas com a guitarra de Beck simplesmente “cantando” junto de Stewart e belas participações de Keith Moon e Jimmy Page em “Beck’s Bolero”. O disco todo vale a audição, um belo registro que poderia sim estar na edição dedicada a 1968 com sobras.

Bernardo: Nunca acho ruim, mas nunca se destaca muito aos meus ouvidos.

Christiano: Lembro de quando comecei a conhecer música e fiquei confuso ao descobrir que Rod Stewart – que para mim era só um cantor brega da década de 1980 – havia gravado um disco com Jeff Beck. Além disso, o tal álbum contava com a colaboração de um time respeitável: John Paul Jones, Jimmy Page, Keith Moon etc. Depois de algum tempo, notei que Truth era uma espécie de irmão mais velho de Led Zeppelin, ambos filhos do Yardbirds. Deixando a genealogia de lado, só posso dizer que Truth é um ótimo disco, que não fica devendo nada para o primeiro do Led. Um fato curioso é que nenhuma música do álbum foi composta por Jeff Beck ou mesmo por seus companheiros de banda. No entanto, todas as versões são fantásticas. Inclusive a de “You Shook Me”, de Willie Dixon, que também foi registrada pelo Led Zeppelin em seu primeiro disco.

Davi: Este eu conheço. Simplesmente fantástico!! O cara trouxe um timaço para acompanhá-lo (Rod Stewart nos vocais, Ronnie Wood no baixo e Micky Waller na bateria) e um repertório escolhido a dedo. Falar das qualidades de Jeff Beck na guitarra é chover no molhado. Musico de primeiríssimo time. Este disco pode ser uma bela porta de entrada para quem não tem familiaridade com sua obra. Não é um álbum exibicionista e não é repleto de faixas instrumentais. Ou seja, não é um disco voltado para músicos. É um álbum de rock ‘n’ roll. O cara começa o LP relembrando seus tempos de Yardbirds na releitura de “Shapes of Things”, resgata Willie Dixon em “You Shook Me” (sim, a que o Led Zeppelin regravou) e “I Ain’t Superstitious”, homenageia B.B. King em “Rock My Plimsoul” (inegável a inspiração em “Rock Me Baby”), além de trazer um time ainda mais estelar na instrumental “Beck’s Bolero”; ninguém mais, ninguém menos que Jimmy Page, John Paul Jones e Keith Moon. Indispensável!

Diogo: Qualquer pessoa com um pouco mais de conhecimento sobre sua carreira sabe que Jeff Beck é muito melhor guitarrista do que compositor. Para a felicidade dele (e nossa), ele é tão bom, mas tão bom nas seis cordas, que isso se torna um pequeno detalhe, tão maravilhosas são suas interpretações de canções alheias e aquelas compostas ao lado de seus companheiros de empreitadas musicais. Não apenas Beck é muito bom: na época em que Truth foi lançado, ele era o melhor. Em sua totalidade, a produção não faz jus aos timbres por ele extraídos e muito menos à sua performance, que coloca a guitarra como protagonista sem deixar o restante como mero acompanhamento. Se na atualidade Truth já soa como algo que adiantou a sonoridade da década seguinte, imagino como não deve ter ficado a cabeça dos jovens guitarristas da época. Para não dizer que acho todas as faixas excelentes, não morro de amores por “Blues Deluxe”, que soa bem mais convencional em relação ao restante do álbum. De resto, é pedrada atrás de pedrada, com destaque para “Shapes of Things”, “Let Me Love You”, “Morning Dew” e, obviamente, “Beck’s Bolero”. Das dez menções feitas pelo Ronaldo, esta é a única que cheguei a incluir em uma lista minha, então obrigado a ele pela lembrança.

Fernando: Podemos falar que Jimmy Page é sim um cara diferente. Afinal, ele teve a capacidade e a autonomia de fazer um teste de sonoridade e estilo de um trabalho pessoal em um disco de outro artista. E não era qualquer outro artista, já que Jeff Beck era também um dos heróis da guitarra nessa época. E o mais curioso é que “Beck’s Bolero”, talvez a faixa mais importante do disco, tem o nome do próprio guitarrista, mas foi composta por Page. Rod Stewart participa, assim como Ron Wood, e juntos estariam depois no Faces. Ou seja, Truth, não foi somente um primeiro voo solo de um dos gênios da guitarra, mas também foi o embrião da sonoridade do Led Zeppelin e serviu de embrião para outra banda clássica. Isso diz sobre a importância do disco e explica a necessidade de estar em uma lista como esta.

Flavio: Começamos voltando 49 anos no tempo e não vamos avançar muito aos tempos atuais. Por isso, já de cara relevo o padrão de gravação, ou melhor, tento me transportar para a época das bolachas. Vejo em Truth um bom exemplo de paradoxo musical. Ao mesmo tempo em que a influência clássica do blues norte-americano permeia o álbum – e é tão predominante que chega a permitir uma regravação de “You Shook Me” (Willie Dixon) e da linda “Ol’ Man River” –, por outro lado vejo pontos que apontam para frente, com passos na direção firme do hard rock, que tanto fez sucesso na década seguinte. Afirmar que ouvir Truth é ouvir uma parte do que o Led Zeppelin faria é meio óbvio, já que Jimmy Page claramente trouxe a influência de Jeff Beck para sua banda, na época iniciando a carreira. Dito isso, desfilo elogios para a bolacha toda, que traz Rod Stewart cantando com vigor, longe das suavidades enfadonhas para as quais iria migrar mais à frente na sua carreira, e o trabalho irrepreensível de Beck. A pontuar comparativamente em valor menor, não na muitas novidades na execução da bateria, que não desponta. No mais, o disco tem vários destaques, como “Beck’s Bolero”, “Shapes of Things” e “Morning Dew”, e não tem pontos fracos. No meio disso tudo, ainda descobri que o genial John Paul Jones “aparece” em três das dez canções…

Mairon: Truth é considerado por muitos o melhor disco da carreira de Beck. Sendo seu primeiro álbum solo, depois de uma breve mas eterna passagem pelos Yardbirds, Beck montou uma banda foderosa e rivalizou com seu amigo Jimmy Page para ver quem iria revolucionar o rock e abrir caminho para os anos 1970. Truth foi lançado um ano antes de Led Zeppelin e há diversas similaridades entre os dois álbuns que não vou detalhar aqui. Mas o fato é que Truth abre em alto nível com uma releitura psicodélica da ótima “Shapes of Things”, clássico dos Yardbirds que surge apresentando o baixão de Ron Wood (sim, ele mesmo, o hoje guitarrista dos Stones), o vozeirão rouco de Rod Stewart (acho que é o artista que mais desceu de nível em sua carreira solo, ao lado de Phil Collins) e a guitarra repleta de virtuosismo que Beck já exibia nos tempos dos Birds. Beck assume o baixo na linda “Ol’ Man River”, com a presença de John Paul Jones no órgão e Keith Moon explorando o tímpano, substituindo o talentosíssimo baterista Micky Waller, que é responsável pelo solo final na excelente releitura de “I Ain’t Superstitious”, com um show de wah-wah por parte de Beck, wah-wah esse que também está presente com força em “Morning Dew”. Falei em releitura e não posso deixar de citar que o álbum contém apenas três composições próprias da banda, todas por Jeffrey Rod (a dupla Beck e Rod), que são a embalada “Let Me Love You”, que sempre me lembra “Emmaretta” (Deep Purple), “Rock My Plimsoul”, que para mim é bem mais uma releitura de “Rock Me Baby” (B. B. King e tantos outros), e o embriagante blues de “Blues Deluxe”, realmente um blues de luxo guiado pelo baixo de Wood, a sensacional apresentação de Rod e o piano fundamental de Nicky Hopkins, sobre a qual estou devendo uma matéria aqui na Consultoria há muito tempo (e não, ela não foi gravada ao vivo, como sugere a audição). Outra “original” é “Beck’s Bolero”, uma criação de Jimmy Page em cima do Bolero de Ravel, com a participação do próprio no violão de 12 cordas, John Paul Jones no baixo e Keith Moon na bateria, apesar de nenhum deles ser citado na contracapa do disco. Além disso, é interessante ver Beck dedilhando o violão em “Greensleeves”, uma das primeiras canções com violão que tirei em minha vida. A grande polêmica ficou por conta da gravação de “You Shook Me”, que, segundo Page, Beck roubou de sua escrivaninha, enquanto o segundo afirma que a música é uma criação em conjunto, e às vezes as ideias acabam aparecendo “inspiradas” nas de amigos. Mais gritante é saber que ambas as versões trazem um duelo entre guitarra e vocal, com a presença de um piano elétrico na de Beck (a cargo de Nicky Hopkins), e com a diferença principal na duração das canções (a de Beck é bem mais curta). O fato é que Truth não é um disco no qual Beck se aventura como o centro das atenções, mas um álbum fantástico de uma banda fantástica, que ainda faria o também fantástico Beck-Ola (1969), reformular-se pouco depois e continuar sendo fantástica. Parabéns, Ronaldo. Entraria fácil no lugar do Velvet Underground, e, apesar de eu não tê-lo citado na minha lista, tinha certeza que entraria.

Ulisses: Para um disco importantíssimo de seu estilo, embora não tenha me impressionado tanto, Truth tem seus méritos. Mistura covers de clássicos do blues, instrumentais e autorais, sempre destacando a ótima guitarra de Beck e o efetivo Rod Stewart (vejam só!) nos vocais, além da presença de pesos-pesado, como Keith Moon, Jimmy Page e John Paul Jones. Nenhuma faixa em particular me cativou, mas as performances são sólidas o suficiente para dar vida a uma boa audição.


The Pretty Things – S.F. Sorrow (1968)

Ronaldo: O Pretty Things deveria gozar de grande mérito pelo seu pioneirismo em álbuns conceituais, como se pode atestar por S.F. Sorrow. Não só por fazer música embalando uma história, mas por fazê-lo tão bem e com tanta ousadia musical. Paralelamente aos Beatles e ao The Who, o Pretty Things experimentava com cítaras, teclados, instrumentos de sopro, tudo regado a muita lisergia. S.F. Sorrow é uma das coisas mais representativas do ano de 1968, uma espécie de ressaca monocromática da psicodelia, regada a uma música mais agressiva e menos devaneante.

Alexandre: Nunca havia ouvido falar da banda, minha iniciação musical é de um pouco depois. Então, sobretudo, vale o aprendizado. A referência ao álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles, foi praticamente imediata, na primeira canção, “S.F. Sorrow is Born”. O uso de metais e violões, o vocal meio anasalado que me lembrou dos timbres e do sotaque carregado no inglês britânico de John Lennon. O restante do álbum segue esse estilo britânico, mostrando claramente e conforme as demais canções são executadas mais elementos da época, como os vocais em coro e o uso de cítaras e percussão de influência indiana em “Bracelets of Fingers”. Como é exatamente essa a fase dos Beatles que eu mais aprecio, as audições se deram de forma tranquila, me agradaram. Vale referendar o álbum, pela pesquisa rasa que fiz, por ser tido como um dos precursores no gênero ópera rock. Hoje eu o entendo muito mais como influenciado diretamente pelo álbum mais famoso do Fab Four do que com esse predicado, mas pode ser uma análise pouco aprofundada. Um bom trabalho, mas não sei se merecedor de ser citado na edição dedicada a 1968.

André: Já havia ouvido falar, mas confesso que nunca ouvi o The Pretty Things. Só sabia que era uma das primeiras bandas de Keith Richards e Mick Jagger antes dos Rolling Stones. Quando fui pesquisar pelo álbum, veio a polêmica de que esta seria a primeira rock ópera, antes do famoso Tommy (1969), do The Who, dar as caras. Então ‘bora ouvir: baixo muito bem colocado, mellotron dando uma atmosfera épica, vocais de vários membros dando aquela veia meio melancólico-reflexiva, mas também psicodélica quando a canção pede, enfim… Poderia enumerar muitas outras qualidades deste ótimo disco que adorei conhecer. Não destaco nenhuma canção em particular porque são todas de alto nível.

Bernardo: Uma das bandas mais esquecidas dos anos 1960, injustamente. Um momento singular do rock psicodélico, com harmonias deliciosas, falando de temas relevantes à época em forma de ópera rock.

Christiano: Um disco psicodélico conceitual, lançado em 1968. Uma espécie de ópera rock que pode ter influenciado o The Who na concepção de Tommy. Pode parecer só uma informação banal, mas isso é muita coisa. S.F. Sorrow é uma obra-prima musicalmente muito rica, inovadora para a época e, indiscutivelmente, um disco de beleza rara. Como nem sempre a história é justa, é uma preciosidade que ficou restrita a um nicho específico de aficionados por rock dos anos 1960 e 1970, não obtendo a repercussão que merecia. Por ser um álbum conceitual, deve ser escutado em sua totalidade para que possa soar da melhor maneira. Mas isso não me impede de destacar pérolas como “Bracelets of Fingers” (que recebeu uma bela versão do Ulver), “Trust” e “I See You”.

Davi: Conheço algumas coisas da banda, mas ainda não havia escutado este disco. Bem bacaninha… Aquela sonoridade pop/rock dos anos 1960 com uma boa dose de psicodelia. “S.F. Sorrow Is Born”, “She Says Good Morning”, “Trust” e “Walking Through My Dreams” são meus momentos prediletos. Aliás, a já citada “Trust” tem um arranjo vocal que deve ter deixado a dupla Lennon/McCartney sorrindo de orelha a orelha.

Diogo: Ciente da importância deste disco, escutei-o antes de elaborar minha lista para a edição da série dedicada a 1968. O trabalho não chegou a me impressionar a ponto de incluí-lo, mas mostrou suas qualidades. Com a audição mais amadurecida, essas qualidades aparecem melhor agora, destacando a coesão instrumental digna dos grandes álbuns conceituais. Há sim algumas canções de destaque, como “S.F. Sorrow Is Born”, “Bracelets of Fingers”, “Baloon Burning” (pesada e com o baixo comandando tudo) e “I See You”, mas o álbum é muito homogêneo. S.F. Sorrow me lembra muito Odessey and Oracle (1968), obra-prima do The Zombies e um dos melhores álbuns da década de 1960, mas sem o mesmo esmero vocal e o tino para composições que beiram a perfeição que os zumbis exibiram. Odessey and Oracle tem envelhecido cada vez melhor e subido no meu conceito. Quem sabe o destino reserva a mesma sorte a S.F. Sorrow.

Fernando: Boas músicas, mas aos meus ouvidos tudo muito parecido com os Beatles. Essa impressão me atrapalhou muito durante a audição. O curioso é que eu tinha certeza de que conhecia a banda e o disco, mas nada me pareceu familiar. Estranho! Achei “Baron Saturday” bem chatinha, me parecendo que o disco estava girando com o toca discos travado.

Flavio: Outra ótima escolha do Ronaldo. Trata-se de um dos pioneiros da ópera rock ou disco temático, tão característico das bandas de rock progressivo que abundariam no início dos anos 1970. É fácil perceber que em S.F. Sorrow está presente a tônica dos perturbados anos 1960, principalmente seu fim. Rock psicodélico na veia com muita influência daqueles “tais” The Beatles. Encontra-se boa semelhança na voz de Phil May e nos coros que permeiam a bolacha toda. Além disso, vários outros instrumentos utilizados podem ser encontrados nos discos da época do Fab Four, tais como cítaras, mellotrons e a bateria percussiva (chocalhos, por exemplo). Em alguns momentos percebe-se um pouco mais de peso nas guitarras distorcidas de Dick Taylor, como na ótima “Old Man Going”. Esquecendo a tal semelhança, o que temos é um álbum muito agradável, que realmente nos transporta para o momento turbulento de 1968. Gosto da maioria das músicas e apenas torço um pouco o nariz para as depressivas “Death” e “Well of Destiny”. Destaques: “S.F. Sorrow Is Born”, “Baron Saturday”, “Trust” e “Loneliest Person”. Falar o que do Oasis se já temos o Pretty Things 200 anos atrás explorando a influência dos patrões com tão maior propriedade?

Mairon: Uma das primeiras obras conceituais da história do rock. A história de Sebastian Sorrow é contada em um clima de muita psicodelia, criada pelo vocalista Phil May. A própria capa é bastante diferente do que se fazia na época e traz toda a sensação musical do fim dos anos 1960. O que mais me chamou atenção é a presença do mellotron. No geral, achei o disco uma interessante mistura entre Moody Blues, Beach Boys e Jefferson Airplane, além do que, para mim, fica um forte cheiro de concepção de Tommy surgindo daqui. É difícil destacar uma canção em especial, já que a história desenvolve-se com muitos instrumentos e variações, mas admiro os violões, o tímpano e a cítara em “Bracelets of Fingers”, o magnífico delírio de “I See You”, o dedilhado de violão e a flauta da marcha de guerra “Private Sorrow”, a sensacional combinação de vozes e violões em “The Journey” (e dê-lhe viagens instrumentais), as vocalizações de “S.F. Sorrow Is Born” e o peso absurdo de “Old Man Going”, uma canção para os metaleiros sacudirem a cabeça sem piedade, junto da alucinante “Baloon Burning”, uma gema metálica criada em 1968 para acabar com isso de que o heavy metal surgiu com “Helter Skelter”. Há faixas mais acessíveis, como “She Says Good Morning”, “Trust”, “Loneliest Person” e “Baron Saturday”, que faz uma interessante experimentação percussiva, outras estranhas (“Death”, com a cítara sendo o principal instrumento, e a instrumental “Well of Destiny”, que parece a trilha de um desenho de terror). É um disco bastante experimental. Certamente foi um choque ouvi-lo em 1968, principalmente para as fãs do blues suave de “The Road Runner” e “She’s Fine, She’s Mine”. Não sei se deveria ter entrado na edição abordando 1968 (se Truth não fosse escolhido pelo Ronaldo, ok, pegava fácil a vaga do Velvet Underground, principalmente pelas inovações sonoras feitas na época), mas precisa ser ouvido ao menos uma vez por aqueles que apreciam e querem conhecer a história da música.

Ulisses: Embora eu falhe em reconhecer uma única composição que valha destacar das demais, deu pra perceber desde o começo que há uma boa coesão de ideias e melodias bem sacadas. Não está nada longe da típica psicodelia da época, mas tem suas ocasionais rasgadas pesadas, vide “Old Man Going”. O pioneirismo de ópera rock dos caras casa muito bem com a produção, a diversidade de instrumentos e as experimentações. Trata-se realmente de uma boa escolha para 1968.


Crosby, Stills & Nash – Crosby, Stills & Nash (1969)

Ronaldo: Mais um trabalho que antecipou os anos 1970, dessa vez na vertente folk/country rock. Belíssimas composições, interpretação irretocável e um trabalho vocal embasbacante. A junção de David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash mostrou-se um baile de gala de titãs. Um feliz caso de potencialização de talentos. Abusando dos violões, mas os combinando de forma requintada com instrumentos elétricos, a base instrumental é um show à parte. Um disco histórico, com qualidades magnas em todos os quesitos.

Alexandre: Talvez o mais bem sucedido comercialmente da lista, outro merecedor de estar entre os melhores de seu ano. Muito mais pela qualidade, na verdade, até porque tenho ótimos exemplos na memória de álbuns que não venderam tão bem e são excelentes. Em uma lista de ótimos cantores, os três chegam à completa maestria vocal. Algumas faixas são de tirar o fôlego, face à maravilha das linhas que cada um entrega. É um exercício interessante tentar ouvir em separado cada um, em especial nas faixas em que há poucos instrumentos a construí-las. Pelo menos metade das canções ficaram para a posteridade. Entre elas, tenho as minhas favoritas: “Long Time Gone”, “Suite: Judy Blue Eyes” e, principalmente, “Helplessly Hoping”. Um pouco de James Taylor, um pouco de Simon & Garfunkel, gosto de tudo isso. E em um álbum no qual os vocais dão as cartas, também dá pra destacar a participação instrumental de Stills, já que quase todos os instrumentos foram gravados por ele. Há boas linhas de baixo, ótimos violões. E pra não deixar de ser um chato, tem uma notinha no solo de guitarra de “Wooden Ships” que vou cometer a ousadia de achar que ficou meio estranha, quase um erro, um pouco depois de três minutos da canção. Não, não deve ser um erro, é uma “improvisação jazzística”… É uma guitarra propondo um tema de jazz, então “cabe”… ótima indicação, Ronaldo!

André: É estranho pensar no fim melancólico desse trio. Normalmente, os membros das bandas quebram o pau entre si devido a egos inflados e ao direcionamento musical que a banda deve tomar quando jovens. Mas Graham Nash soltou os cachorros em cima de Crosby que, segundo ele, o tratava feito lixo nos últimos anos antes de a banda encerrar atividades. Antes disso, Crosby já havia falado merd* sobre Daryl Hannah, a atriz e nova esposa de Neil Young, o que por razões óbvias despertou a ira do canadense, que jurou nunca mais se juntar ao trio. Pelo jeito, o bigodudo não foi abençoado com a “sabedoria da idade”… Independentemente disso, eu curto muito este primeiro disco do CSN, também o que mais ouvi deles. Suas vozes se harmonizam perfeitamente. Conheço apenas o Eagles em algo similar com tantos vocalistas. Sem contar que eles cantam sempre juntos, com poucos momentos solo. O estilo folk norte-americano, as belas guitarras e violões e as composições para se ouvir deitado na rede de um sítio apenas sentindo o cheiro da carne assando no fogo fazem com que Crosby, Stills & Nash seja o disco perfeito para você.

Bernardo: Prefiro Déjà Vu (1970), junto com Neil Young, mas alguns dos clássicos contidos aqui serviram para mudar o panorama do rock à época, movendo o rock psicodélico do mainstream e instaurando por alguns anos o reinado do folk.

Christiano: Desnecessário tecer elogios a nomes como David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash. O fato é que temos um disco maravilhoso, bonito e cativante. Desde a abertura, com “Suite: Judy Blue Eyes”, passando por “Wooden Ships” e “49 Bye-Byes”, somos agraciados com um desfile de harmonias vocais impecáveis, instrumental executado com muito bom gosto e composições invejáveis. Um clássico.

Davi: O meu disco favorito deles ainda é Déja Vù (como Crosby, Stills, Nash & Young), com a presença das belíssimas “Helpless” e “Woodstock”, mas o álbum de estreia dos rapazes (sem a presença de Neil Young) é quase tão boa quanto. Para quem nunca ouviu nada deles, não se trata de um grupo pesado, pelo contrário. É bem calmo, priorizando as melodias vocais, com bastante presença de violões. Apostavam no folk rock, mas também tinham um pezinho no blues e até mesmo no jazz. Neste debut, temos algumas de suas músicas mais famosas, como “Marrakesh Express” e “Wooden Ships”, mas meus momentos favoritos ficam por conta de “You Don’t Have to Cry” e “Long Time Gone”. Bom álbum…

Diogo: Este disco foi um dos principais responsáveis por uma mudança de cenário que colocou o folk rock, o country rock e, por conseguinte, o soft rock em grande evidência na primeira metade da década de 1970, mantendo ainda muita força na segunda metade. Muitos dos meus artistas favoritos encaixam-se nesse contexto, mas, mesmo assim, o CSN não chega a fazer parte dessa lista. Veja bem, o álbum é excelente, mas confesso que prefiro o lado mais country dessa revolução musical ao lado mais folk. O trabalho feito pelos ex-colegas de David Crosby no The Byrds e fora dele, por exemplo, como em Sweetheart of the Rodeo (1968) e nas carreiras de Gene Clark, Gram Parsons e Chris Hillman, isso sim virou minha cabeça do avesso. Não à toa, quem executa o melhor trabalho neste disco é Stephen Stills, que já vinha com um embrião dessa sonoridade no Buffalo Springfield, ao lado de Neil Young e Richie Furay, e também faria um trabalho sensacional com o Manassas. “Suite: Judy Blue Eyes”, “You Don’t Have to Cry”, “Wooden Ships” e “Helplessly Hoping”, todas escritas ou coescritas por Stills, estão entre as melhores faixas. Acrescento a essas “Guinnevere”, uma das grandes obras de Crosby, que julgo ser um músico um pouco superestimado. Belo disco, sem dúvida alguma, influente idem. Apenas digno de uma ou outra crítica.

Fernando: Até agora, depois desta que é a terceira edição individual, este é o único que entraria na minha lista. Sei da tradição dos conjuntos vocais daquela época, mas o que esses três fizeram é fantástico. Lindas melodias que transmitem um sentimento de paz e felicidade que podem levantar seu astral até naqueles piores dias.

Flavio: A estreia homônima do Crosby, Stills & Nash é incontavelmente influente. Um clássico do folk rock, no qual predomina o violão elétrico e os vocais dobrados, às vezes triplicados em harmonia. Em alguns momentos há perda de ritmo nas músicas mais calmas, e acabo por gostar mais da bolacha quando há uma mistura, trazendo um pouco mais de vigor, como em “Pre-Road Downs” e “Long Time Gone”. O resultado, no geral, é bem agradável, como vemos também no folk/blues de “Wooden Ships” e mesmo nas mais lentas. Fica clara a qualidade dos seus músicos. Enfim, mais uma boa escolha do Ronaldo.

Mairon: Nunca fui muito com a cara do CSN, mas não posso negar que o trio construiu uma importante sonoridade, seja pelos trabalhados arranjos vocais – quantas bandas foram inflenciadas por isso?? –, seja por explorar canções acústicas como poucos, ampliando os horizontes musicais que Simon & Garfunkel já haviam expandido antes. Perto de Déjà-Vú, este disco é uma obra-prima. Adorei ouvir “Guinnevere”, para mim uma das melhores do disco, com seu climão soturno, e também fiquei satisfeito ao apreciar faixas como a alegre “You Don’t Have to Cry” e o emocionante vocal de “Helplessly Hoping”. Quando a guitarra aparece, já não fiquei tão faceiro assim. Portanto, “Marrakesh Express”, “Pre-Road Downs” e “49 Bye-Byes” não me causaram nenhum efeito positivo, assim como “Lady of the Island”. Pelo jeito, Graham Nash não é para mim. Quanto à guitarra, exceção deve ser feita à linda “Wooden Ships”, aqui na sua versão original, com guitarras e órgão ganhando muito espaço. Muito bela, mas não tanto quanto a sensacional versão que o Jefferson Airplane gravou meses depois. Outra exceção é “Long Time Gone”, na qual David Crosby solta sua voz. Poderia ter entrado no lugar do disco do Neil Young, mas, mesmo assim, acho que não mereceria estar na edição dedicada a 1969.

Ulisses: Belíssimas harmonias vocais, arranjos de bom gosto e exibições técnicas calibradas. Não houve dúvida de que eu estava diante de um álbum acima da média. Não nego que uma parcela considerável do registro tem como característica não ser realmente cativante e memorável, resistindo mesmo a audições repetidas, sobrando para algumas outras canções, melhor trabalhadas, a tarefa de sobreviver ao teste dos ouvidos, em especial “Suite: Judy Blue Eyes”, que abre o disco em grande estilo, a sublime “Guinnevere”, a épica “Wooden Ships” e a sorridente “Marrakesh Express”, minha favorita.


Leslie West – Mountain (1969)

Ronaldo: Considerado como o primeiro álbum do Mountain, mas lançado como um disco solo do guitar hero Leslie West, até hoje não se sabe por que Mountain não consta do rol de pedras fundamentais do hard rock. Algo tão pesado e intenso quanto Led Zeppelin, Jeff Beck Group e Jimi Hendrix na mesma época, o álbum conta com um diferencial, que é a presença fortíssima do baixo de Felix Pappalardi, dialogando de igual pra igual com a guitarra. O disco é tão divertido quanto denso, atinado na garganta quente de Leslie West. O som tem um quê de hippie rock e, não à toa, fez a banda ser presença frequente em festivais ao ar livre nos EUA. Um álbum que merece ser cada vez mais resgatado e ouvido.

Alexandre: Em uma lista na qual não há disco ruim, este talvez seja o de que menos gostei. Entendo que é um embrionário do som mais pesado que a década seguinte desenvolveria, cria do Cream, com um ótimo vocalista (mais uma vez, uma constante na lista), bem feito, mas um pouco comum. Achei as guitarras meio baixas na mixagem e os vocais (que já são poderosos pela força da garganta do próprio Leslie) um pouco altos demais, chegando a incomodar ligeiramente. Por isso, em completa discordância com a maioria dos consultores, acredito que serei um dos poucos a indicar como melhores faixas justamente as mais calmas, “Storyteller Man” e, principalmente, a serenidade dos violões de “Because You Are My Friend.” Ainda assim, um bom disco.

André: A primeira faixa parece muito com o estilo de hard rock que encontraríamos no fim dos anos 1970, mas a segunda já dá uma “psicodelizada” mais ao estilo sessentista. Música bacana e agradável, principalmente aquele som tão distinto de hammond, como em “Long Red”. Conheço pouca coisa do Mountain (já ouvi o disco Man’s World, de 1996, mas não ficou nada marcante na memória) e conheço ainda menos da carreira solo de West, mas este álbum caiu muito bem aos meus ouvidos e despertou o interesse em ouvir mais deles.

Bernardo: Blues rock e hard rock típico da época, que depois seria regravado por bandas stoner como o Clutch e o Spiritual Beggars. Passou batido.

Christiano: Sempre achei o Mountain uma banda subestimada, mesmo quando comparada ao Cream. Neste primeiro disco, ainda sem Corky Laing, já fica muito claro que tinham uma identidade própria, transitando com maestria entre momentos mais pesados e diretos, como “Blood of the Sun”, “Dreams of Milk and Honey” e “This Wheel’s on Fire”, ao mesmo tempo em que mostravam uma certa melancolia e arranjos mais polidos em canções como “Look to the Wind” e “Because You Are My Friend”. Leslie West, além de grande (no bom sentido) guitarrista, é também um ótimo vocalista. Estranhamente, não costuma ser citado entre os medalhões do instrumento. Felix A. Pappalardi, por sua vez, é um dos maiores baixistas de seu tempo, e faz um de seus melhores trabalhos. Disco imperdível.

Davi: Debut do líder do Mountain, gravado antes do álbum de estreia da banda (o clássico Climbing!, de 1970), já contando com a presença do baixista Felix Pappalardi. O disco traz muitas similaridades com o primeiro da banda que o tornou famoso. Conta com aquela sonoridade blues rock com dois pés no hard. Leslie se destaca com seus vocais cortantes e seu ótimo trabalho de guitarra, conforme esperado. As faixas são boas, para não dizer ótimas, e certamente agradarão aos fãs do gênero. Ah, sim, preste atenção na releitura de “This Wheel’s on Fire” (Bob Dylan). Ficou mortal! Também vale destacar “Storyteller Man”, “Long Red” e “Blood of the Sun”.

Diogo: Essa fase de transição do blues rock para o hard rock que seria grande na década seguinte revelou muita gente boa, entre elas Leslie West e Felix Pappalardi. Quando apostam no lado mais convencional dessa metamorfose, o resultado é bom. Quando mesclam mais melodia às faixas, se saem ainda melhor. Isso pode ser percebido em “Long Red”, que foge do estilo mais bruto do instrumental e rasgado da voz de Leslie, “Baby, I’m Down”, dona de uma progressão belíssima, “Look to the Wind” e “Because You Are My Friend”. Claro, headbenze que sou, também gostei muito de “Blood of the Sun” e “Southbound Train”, mas a real é que todo o disco é muito agradável. Comparado com quase todos os integrantes desta lista, Mountain soa menos surpreendente, mas isso não é necessariamente um demérito.

Fernando: Duvido que alguém guarde este disco longe dos outros do Mountain, afinal, é um disco da banda na minha opinião. Só falta o Corky aí, não? Eu só fui gostar do Mountain depois que fiquei fã do Cream. Na época, eu ainda não me interessava pelos primórdios do rock ‘n’ roll e o blues não me agradava. E o Mountain foi exatamente a banda seguinte nessa linha blues rock que eu ouvi e gostei.

Flavio: Continuando com os influenciadores do meu estilo predileto (hard rock/heavy metal), encontramos Leslie West lançando seu primeiro disco solo, juntamente com os músicos que formariam a banda homônima. Na abertura da bolacha vem um rock incendiário, que combina com o vocal rasgado de Leslie, que criaria a tônica temática de Mountain. Alterna momentos mais vigorosos com mais melodiosos e suaves, com o uso de instrumentos semiacústicos. As composições são bem coesas e funcionam facilmente. O som do disco carece de mais brilho, principalmente a bateria, mas se entende perfeitamente que é devido a limitações impostas pela tecnologia da época. Destaco a pauleira mesmo, então descem muito bem a faixa de abertura, o blues “Blind Man”, “Baby, I’m Down” e “Dreams of Milk and Honey”, entre outras. Ótima pedida, Ronaldo!

Mairon: Um dos grandes discos do hard setentista, Mountain é a estreia do gordinho Leslie West em carreira solo. Trata-se de uma sequência natural do que o Cream havia feito anos antes. Méritos para a produção e o baixão de Felix Pappalardi (ex-produtor do Cream), além do batera N.D. Smart também dar sua contribuição. Há faixas que poderiam ser estrelas em Disraeli Gears (1967), como “Blood of the Sun”, “Dreams of Milk and Honey” e, principalmente, “Baby, I’m Down”, filhinha prodígia de “Tales of Brave Ulysees”. “Southbound Train” me lembra bastante o que o Grand Funk veio a fazer anos depois, seja pela presença dos teclados, seja pela cadência grudenta do riff de baixo e guitarra. Mas nem tudo é hard pesado em Mountain. Temos o embalo de “Better Watch Out” e cordas na sessentista “Look to the Wind”. A voz rouca e poderosa de West assume tons mais amenos e ele até se aventura na bonita balada acústica “Because You Are My Friend”, com sua voz acompanhada apenas pelo violão, que também está presente na flower power “Long Red”, com a participação do hammond de Pappalardi, que é o centro das atenções na suave “Storyteller Man”. Destaque para o blues enérgico de “Blind Man”, na qual o baixo parece que lhe dará um soco no estômago a qualquer momento, e a porradaria na versão emblemática para “This Wheel’s on Fire”, de Bob Dylan, outra com marcante presença do hammond. Não creio que deveria entrar na edição abordando 1969, até porque muitas outras bandas fizeram algo similar, mas que é um baita disco, com certeza é.

Ulisses: Caramba, o som do baixo é uma delícia! Contribui bastante para o peso do álbum, em conjunto com a guitarra de Leslie West, que também é conhecidamente dono de uma imponente voz. O power trio pratica um som que lembra um Cream mais pesado, com composições bem decentes e que não ficam devendo em nenhum momento. Vale apontar a boa presença do órgão em algumas faixas, pintando um clima mais ácido, e que faz o ouvinte imaginar como seria se o álbum inteiro tivesse sua aparição.


Colosseum – Valentyne Suite (1969)

Ronaldo: Dentre tantos discos revolucionários lançados em 1969, há de se destinar um espaço para esta pérola da banda capitaneada pelo genial baterista Jon Hiseman. Reproduzo aqui o que escrevi sobre o disco em outra publicação da Consultoria do Rock: “A banda foi essencialmente um grupo fusion, pelas suas aventuras portentosas nos territórios do blues, do jazz e do nascente rock pesado, dando espaço e protagonismo para o saxofone de Dick Heckstall-Smith e os teclados de Greenslade, e, obviamente, com a bateria em primeiro plano. O lado B contém a suíte que dá nome ao disco, “Valentyne Suite”, uma faixa extremamente envolvente e complexa, que merece dignamente ser rotulada como progressiva e pioneira nessa denominação para o rock”.

Alexandre: Outro conjunto do qual não tinha conhecimento, me pareceu na verdade dois projetos em um só. A primeira parte, cantada, é mais voltada ao som rock/pop feito nos anos 1960. Principalmente a primeira canção, bem diferente das demais, que aos poucos até vão indo em direção ao restante do álbum, na parte final. Aliás, é preciso reforçar que a lista do Ronaldo tem, via de regra, ótimas performances vocais. Nesse caso, não é que seja ruim, mas considerei o vocal do também guitarrista James Litherland abaixo da qualidade instrumental. Um vocal mais frágil, que não incomoda, mas está longe dos demais representantes desta lista. A parte inicial não me chamou tanta atenção, em especial a primeira faixa, um tanto datada e carregada da sonoridade meio hippie/psicodélica da época. Não é ruim, apenas não me soou nada de mais. O álbum cresce muito em sua parte final, nas três canções que compõem a suíte “Valentyne”. Essa parte inteiramente instrumental, com muita harmonia carregada pelo uso de diversos timbres de teclados (me pareceu haver um xilofone na faixa 5) e do saxofone é o ponto alto do disco, no qual destaco, dentro da suíte divida em três, a parte “February’s Valentyne” (faixa 6). O solo de saxofone é de muita sensibilidade. Um bom disco, boa indicação, ainda mais para quem não o conhecia, como eu.

André: O único Colosseum que conhecia era a banda finlandesa de doom metal mais recente. Vim sem conhecer essa banda britânica progressiva/psicodélica e, apesar de não os achar tão grandiosos quanto vários de seus contemporâneos prog, apresenta um disco consistente e variado. Destaco o “prog-blues” bacana de “Butty’s Blues” e a boa e longa “Valentyne Suite”, um prog muito mais ao meu estilo e cheio de solos por todos os lados. O vocal de James Litherland é apenas mediano e, apesar dos músicos terem uma baita técnica, sinto falta de algumas composições mais interessantes, ficando praticamente naquele “jeito classudo” que me passa a impressão de estarem tocando todos de terno em uma festa de alta classe. Longe de ser um disco ruim, talvez seja eu que não esteja na época de apreciá-lo. É aquela situação em que apenas falta encaixe entre seu som e meus ouvidos, já que apresentam vários elementos que eu adoro no progressivo.

Bernardo: Sou lá muito fã no estilo não, com raras exceções. Bem executado, mas pouco memorável.

Christiano: O Colosseum é uma banda difícil de ser classificada, e isso não é um problema, mas um elogio. Seja quando se arriscam por caminhos mais jazzísticos, progressivos ou psicodélicos, fazem isso de forma muito natural e criativa. Muito disso é devido à criatividade de gente como o tecladista Dave Greenslade e o batera Jon Hiseman, virtuosos em seus instrumentos. Dessa primeira fase da banda, Valentyne Suite é sempre referência obrigatória. Por ser um álbum que explora muitas sonoridades e ser um pouco experimental, pode espantar o ouvinte de primeira viagem. Mas, com um pouco de boa vontade, vai sendo assimilado e crescendo a cada audição. Ótimo disco.

Davi: Não conhecia essa banda. Conhecia Dave Greenslade e Tony Reeves por conta do Greenslade. Tenho um LP deles. Quanto o disco em questão, não me chamou muita atenção. Conforme era de se esperar, os músicos são excelentes, e vale destacar o belíssimo solo de teclado de Dave em “Valentyne Suite”, na qual senti um quê de Keith Emerson, mas falando de construção de músicas mesmo, nenhuma que tenha me emocionado. A que achei mais bacaninha foi “Butty’s Blues”.

Diogo: O lado A de Valentyne Suite é bom, mas constitui apenas um aquecimento para aquilo que o quinteto entrega no lado B, que consiste somente na suíte que dá nome ao disco. Acho que a maneira mais resumida de defini-la é imaginar o que aconteceria se o Chicago, que havia lançado seu debut sete meses antes, tivesse um background mais britânico e centrasse sua sonoridade mais nas teclas do que nos sopros. Fez sentido pra vocês? Eu, que adoro a estreia do Chicago, gostei muito desse lado B, e um dos bons motivos para isso é o fato de ser totalmente instrumental, não apenas dando espaço para que os instrumentistas alcem voos altíssimos, mas deixando de lado o ponto mais fraco do grupo, que é o vocal do guitarrista James Litherland. Nas seis cordas o cara manda bem, mas sua voz é pouco memorável. Sobre o trabalho de Jon Hiseman (bateria) e Dave Greenslade (teclas em geral) não há nada que possa ser dito além de elogios. Com todo respeito aos outros músicos, mas o fino do álbum a eles pertence.

Fernando: Não lembro de ter ouvido este disco, mas o nome do Colosseum já me apareceu várias vezes. Estou certo de que já ouvi a banda. Não tenho certeza, mas acho que o que escutei é o anterior a este, Those Who Are About to Die Salute You (1969). A mistura de progressivo com hard rock já rendeu muitos bons frutos, mas não sei se o que eu ouvi é algo tão marcante para entrar nessa série dos esquecidos. Algumas passagens, principalmente aquelas que contêm metais, me lembraram até de Frank Zappa. Posso voltar à banda e em especial a este disco.

Flavio: O lisérgico segundo disco do Colosseum abre com um “rock doideira só”, me fazendo visualizar como era livre o movimento musical, bem ilustrado, por exemplo, no miscigenado festival de Woodstock, do mesmo ano. A seguir, em “Elegy” e “Butty’s Blues”, há uma misturada com blues, jazz rock e até um pouco de soul, com presença de saxofone, orgãos (hammond) e ótima presença do baixo de Tony Reeves. Cabe ressaltar que o vocal de James Litherland também é um dos destaques da banda. Em “The Machine Demands a Sacrifice”, o elemento percussivo e o estilo musical me fazem lembrar o som do Santana. Novamente uma ótima canção. No fim, a faixa-título se divide em três partes, nas quais rola até xilofone, em uma viagem musical que às vezes remete aos estilos orquestrais temáticos de abertura de seriados ou filmes da época ou até aos momentos mais improvisados do Deep Purple no início de sua carreira. Há espaço para solos de todos os instrumentos, inclusive (como já mencionado) do marcante baixo de Reeves. Enfim, diria que Valentyne Suite não é de apreciação tão fácil quanto os discos comentados acima, mas me agradou em cheio.

Mairon: A obra-prima de Dave Greenslade fez muita falta na lista dedicada a 1969. Fui ouvir este álbum com atenção depois que a lista foi apresentada e, cara, me caiu os butiá dos bolso. Que sonzeira desgramada de boa. O quinteto inglês solta a mão logo de cara, com o guitarrista e vocalista James Litherland pisoteando o wah-wah sem piedade em um hardzão fantástico. “Elegy” faz o saxofone de Dick Heckstall-Smith ser um dos personagens centrais, assim como o vozeirão de Litherland. Não delirar com a introdução de “Butty’s Blues”, o andamento à la “Whipping Post” (The Allman Brothers Band) e o arrepiante solo de Heckstall-Smith é tarefa impossível, que música sensacional, ainda mais com uns drinques a mais na cachola. As linhas bluesy continuam durante a piradaça “The Machine Demands a Sacrifice”, com solo arregaçador de Greenslade, mostrando uma magnificência ousada para a época. Mas toda essa magnificência ouvida no lado A deste álbum cai por terra quando a agulha pousa no início do lado B e somos levados aos hipnotizantes 17 minutos da faixa-título. Poderosa, impactante, desbundante, absurda, Sylvia Saint do progressivo, essa música já recebeu diversos adjetivos de amigos meus para qualificá-la positivamente, só que é difícil de dizer em palavras o que exala das caixas de som. Que música incrível!! Maravilha prog não detalhada por mim. Desde a entrada do hammond de Greenslade, o surgimento feroz da bateria e do saxofone, aquele riff chocante, baixão na cara, vibrafone arrepiando a medula, a guitarra jazzy, tudo se encaixando soberanamente, explodindo ouvidos sem piedade, o ouvinte debatendo-se sem sucesso sobre o sofá, e isso apenas nos primeiros dois minutos. Depois, meu caro, ah, depois é uma aula de criatividade e composição como poucas vezes vista na história da música. Aquele coral com o saxofone viajando ao fundo é digno de estudo. Inspirando-me em uma frase que rolou no Facebook, “camarão frito, churrasco na brasa, cerveja gelada e ‘Valentyne Suite’ são algumas das provas de que Deus existe. Um a menos na minha lista, Ronaldo, e este entraria fácil no top 5 de 1969, principalmente na vaga do sem graça do Neil Young.

Ulisses: Esse batera é uma coisa de outro mundo. A banda não fica para trás, entregando um empolgante e enérgico rock progressivo recheado de jazz. A tal suíte, que ocupa o lado B inteiro, é realmente a melhor parte da bolacha, prendendo integralmente a atenção do ouvinte com sua fluida exuberância virtuosa. Disco recomendadíssimo.


The Mahavishnu Orchestra – The Inner Mounting Flame (1971)

Ronaldo: Em uma visão bastante particular de minha parte, aponto que este disco equivale para o fusion/jazz rock o mesmo que a estreia do Led Zeppelin e do Black Sabbath equivaleram para o rock pesado. Não significa que ele tenha inventado o estilo, mas foi a síntese mais bem acabada de todas as experiências anteriores dos cruzamentos do jazz elétrico com o rock, naquilo que se costuma chamar de divisor de águas. Uma bateria descomunalmente pesada e frenética de Billy Cobham, a guitarra e os teclados em destaque e intervenções de violino deram ao estilo nascente todas suas características mais apreciadas – virtuosismo, intensidade, um certo toque exótico e um instrumental de primeira grandeza.

Alexandre: Um olimpo de qualidade instrumental, destilado por autênticos gênios em suas posições. De quais planetas esses caras vieram? Deixando as brincadeiras de lado, normalmente não tenho tanta motivação em ouvir um álbum inteiramente instrumental, embora aprecie várias das faixas gravadas sem vocais. Prefiro quando as músicas instrumentais se complementam a um trabalho tradicional. Aqui são oito faixas e quase todas me agradaram, mas é importante ressaltar que quando o grupo se junta inicialmente para um projeto é mais do que natural que as ideias sejam prolíferas e brotem naturalmente. Este é o primeiro trabalho do grupo, o primeiro a juntar os cincos extraterrestres que aqui aparecem. Em alguns momentos, quando ficam apenas guitarra e bateria, eu achei que eles passaram um pouco do ponto, como, por exemplo, no início de “The Noonward Race”, faixa da qual até gostei, em especial da brincadeira com a inserção gradual de mais compassos nos riffs. Assim, considerando que são pouquíssimos esses momentos meio ininteligíveis (pra mim), avalio o material como de excelência quase na totalidade. Há momentos muito belos, como os violões e teclados de “A Lotus on Irish Streams”, mas a faixa que mais me agradou foi “The Dance of Maya”, cadenciada e ligeiramente soturna no seu início, podendo também destacar “Meeting of the Spirits” e “Dawn”.

André: Com um time de músicos de primeira categoria, todos com um domínio absurdo de seus instrumentos, aliados a performances bombásticas, este disco do Mahavishnu Orchestra é simplesmente divino. Guitarra, piano, violino, baterista animadíssimo e baixo segurando essa maçaroca de instrumentos solando para todo o lado em um ambiente que parece caótico, mas faz todo o sentido dentro do jazz fusion/progressivo deste álbum. Mas não pense que é só velocidade, há belos momentos de calmaria e reflexão. É disco que parece ter sido feito para músicos, mas até quem nem sabe tocar caixinha de fósforo vai se impressionar com “Dawn”, “Vital Transformation” e “You Know You Know”. Ouça que vale muito a pena.

Bernardo: Discaço de jazz fusion e rock progressivo. O Mahavishnu Orchestra ergueu uma das atmosferas mais complexas e oníricas dos anos 1970. Para ficar maravilhado com a audição.

Christiano: Um disco de jazz fusion, todo instrumental, pode parecer um desafio para quem está acostumado a escutar somente bandas de rock mais tradicional. Mas The Inner Mounting Flame merece atenção, pois, além de contar com ótimos músicos, dentre eles John McLaughlin e Billy Cobham, traz composições que expandem muito os limites musicais de sua época. E não estou falando somente de execução técnica, mas principalmente de ousadia e criatividade: seja pela complexidade de “Meeting of the Spirits” ou a delicadeza de “You Know You Know”, uma musicalidade invejável dá as caras por todo o disco. Um clássico.

Davi: Já havia lido muito a respeito, mas ainda não tinha parado para ouvir e, vergonhosamente, devo admitir que não fui cativado. Os caras praticam um jazz rock com uma pegada fusion e são, indiscutivelmente, grandes instrumentistas. De boa, quem criticar John McLaughlin, Billy Cobham e Jan Hammer não sabe do que está falando (sim, conheço e gosto muito de outros trabalhos desses caras). Contudo, apesar da altíssima qualidade, achei as composições chatinhas. Vou buscar outro álbum do grupo para ver se mudo de opinião…

Diogo: Chamem de jazz rock, fusion, rock progressivo… Para mim, o que se apresenta em The Inner Mounting Flame é a mais legítima música progressiva e desafiadora made in USA, daquela que não precisa se curvar aos pioneiros britânicos. Sim, seus integrantes são todos de nacionalidades diferentes e seu líder é inglês, mas somente nos Estados Unidos uma reunião como essas, com um background desses, poderia ser concretizada. Todos os músicos são de talento absurdo, mas não posso deixar de mencionar a insanidade que toca Billy Cobham, que sabe se manter ocupadíssimo sem se sobrepor ao que a música pede, algo tantas vezes muito difícil. John McLaughlin, então, talvez seja o pioneiro-mor dos fritadores, e não falo isso como demérito. Ouçam “The Noonward Race” e “Awakening” e percebam o trabalho de músicos levando seus talentos (e sua capacidade física) ao limite, mesmo assim oferecendo canções de altíssima qualidade. Como evolução melódica e interação entre os instrumentos, “Meeting of the Spirits” é o destaque-mor, mas momentos de maior singeleza (se é que isso pode ser dito em relação à Mahavishnu), como “Dawn” e “A Lotus on Irish Streams”, também empolgam. Considerando que álbuns como este ficaram mal representados na série, que destacou muito mais aquilo que foi feito em solo britânico, The Inner Mounting Flame é presença das mais bem vindas.

Fernando: Nunca tive intimidade com o som do Mahavishnu Orchestra. Ouvi vários discos ao longo dos anos e não tenho ideia, ou bagagem, para analisá-los individualmente. Sei que sempre gostei do que ouvi e fiquei impressionado com a técnica dos instrumentistas em todas as vezes. Porém, tenho que admitir que é difícil um ouvinte se prender no emaranhado de escalas e velocidade de algumas músicas, a não ser que seja um músico. Lembro-me que a grande maioria das situações em que ouvi a banda foi trabalhando e sempre foi agradável, porém em casa, tomando uma cerveja, eu procuraria outro tipo de música. Só eu fiquei com a impressão de que a qualquer momento entraria a melodia de “Over the Rainbow” em “A Lotus on Irish Streams”?

Flavio: Vou soltar uma boa mea culpa: eu já conhecia a banda, de forma muito sutil, e nunca tive interesse em aprofundar o conhecimento, uma falha grave minha. Agradeço ao Ronaldo e ao Diogo por terem “imposto” a audição mais cuidadosa dela. Em The Inner Mounting Flame, identifico uma série de elementos que vão influenciar o jazz rock e o prog rock de uma forma geral pela frente, em especial a guitarra de McLaughlin, muito bem acompanhada por todos os outros integrantes. A alternância livre de ritmos e a mistura de estilos está presente no disco todo, que às vezes parece ter sido gravado ao vivo ou “live in the studio”. Percebe-se uns pequeníssimos errinhos de execução aqui e ali, mas imagino que faça parte da vontade de colocar espontaneidade na gravação, o que pra mim é ganho e não perda. Gosto muito dos timbres do teclado, principalmente quando há o uso do piano e do piano elétrico (Fender Rhodes?), lindíssimo em “A Lotus on Irish Streams”, e das dobras guitarra/teclado, guitarra/violino. Fora isso tudo, uma cozinha que não se nega a ousar durante toda a execução do disco, também sensacional. Ao escutar a última música, a doida “Awakening”, ficou a vontade de ouvir mais. Enfim, altamente recomendado. Vou conferir o restante da discografia do grupo.

Mairon: Estreia de uma das mais poderosas dream bands da história. A Mahavishnu é uma banda que uniu diversos países, com o guitarrista britânico John McLaughlin ao lado do panamenho Billy Cobham (bateria), o irlandês Rick Laird (baixo), o tcheco Jan Hammer (teclados) e o norte-americano Jerry Goodman (violino), para tornar o jazz fusion mais um dos estilos que os apreciadores de música passariam a colecionar. É uma barbaridade o que ele e Cobham fazem em todo o disco, principalmente durante a avassaladora “The Noonward Race”. Não foi à toa que Miles Davis os convidou anos antes para fazer parte de sua banda, os caras são sobrenaturais. Hammer também não fica atrás em termos de poderes extraplanetários, principalmente em “Awakening”, mais uma homenagem de McLaughlin ao seu líder espiritual, Sri Chinmoy, responsável por batizá-lo como Mahavishnu. O violino de Goodman quase pega fogo com a velocidade do atrito do arco e Cobham soca sua bateria como um elefante em luta contra leões, e na estonteante “Vital Transformation”, na qual este trio está infernal. E putz, que baixão esse Laird tinha em mãos.”Meeting of the Spirits”, faixa que abre o trabalho, já é uma prova de força do grupo contra os ouvidos e mentes despreparados, que faz a cabeça pesar de tanto você balançá-la com seu ritmo indescritível e com os solos mais rápidos que The Flash feitos por McLaughlin. Temos então um perfeito atestado do que o fusion representa ao mundo através de faixas mais amenas, que são “Dawn” e “You Know You Know”, além de uma interessante e experimental rendição ao blues durante “The Dance of Maya”, na qual Goodman pisoteia o wah-wah do violino sem piedade. Porém, escondidos entre a densa camada de fusion, elementos progressivos fazem-se presentes, principalmente na bela “A Lotus on Irish Streams”, trazendo o violino, o violão e o piano como únicos e arrepiantes destaques. Gosto mais da segunda fase do grupo, quando realmente viraram uma orquestra com mais de dez membros, mas essa época inicial é incrível. O ano de 1971 foi ótimo, mas como Blue (Joni Mitchell) entrou aos 52 do segundo tempo no lugar do Flying (UFO) e manchou bastante aquela linda lista, acho que ela ficaria muito mais bela com a estreia da Mahavishnu.

Ulisses: Discos com foco em virtuosismo tendem a me deixar perdido na audição e, por mais que algumas pessoas atribuam a esse tipo de som técnico e improvisado um aspecto desejavelmente autêntico, espontâneo e impactante, não significa que possa escapar de ser algo igualmente vazio e desprovido de alma, como poderia-se acusar de outros gêneros musicais muito mais contidos. Felizmente, não é o caso de Mounting Flame, em que cada composição parece se tratar de um monumento distinto e especial, ora dotado de intensidade cavalar (“The Noonward Race”, “Vital Transformation”), ora de beleza singela (“You Know You Know”, “Awakening” e especialmente a linda “A Lotus on Irish Streams”), mas sempre demandando – e recompensando – a atenção do ouvinte com igual retorno. Os instrumentistas trabalham em conjunto eficientemente, também tendo seus momentos próprios para exibir melhor a perícia no instrumento, mas destaco em especial o baterista Billy Cobham, que mais parece um cavalo-do-cão nas faixas agitadas. Belo resgate do Ronaldo.


Grand Funk Railroad – E Pluribus Funk (1971)

Ronaldo: Rock, rock e muito rock. Um valioso disco com o fino do rock setentista – pesado, vibrante, bem composto, bem tocado e cantado. Dentre outros trabalhos daquele período 1970-73, pode até soar ligeiramente ordinário; contudo, mostra que nada é mais apreciável do que ouvir uma boa banda no período de seu ápice. E de muitas grandes bandas que estavam em seu ápice na mesma época, o GFR era das mais populares (ao menos nos EUA). Não virou o mundo do avesso, mas fez e continua fazendo a cabeça de muita gente.

Alexandre: Ótima escolha do Ronaldo, um álbum muito coeso desse até então power trio de muito talento. Difícil destacar alguém entre os músicos, mas os vocais divididos entre Mark Farner e Don Brewer saltam aos olhos (e ouvidos), uma característica marcante do Grand Funk Railroad na sua fase mais conhecida. O instrumental é muito bem “azeitado”, músicos que sabem muito bem o que fazem, mas o fato de Mark se dividir entre teclados e guitarras com igual competência pra mim o eleva um pouco em relação aos demais. É até complicado fazer este destaque, considerando que os outros dois também arregaçam durante todo o álbum. Uma mistura de blues, funk, hard rock de gente grande. Também é uma tarefa árdua separar as melhores canções entre as sete que compõe E Pluribus Funk, mas vou me esforçar para citar “Footstoompin’ Music”, “People, Let’s Stop the War” e “No Lies”. Preciso citar a linda adição do instrumental com cordas no final do álbum como outro destaque. Excelente disco! Eu o colocaria na edição abordando 1971 com certa facilidade.

André: Banda extremamente subestimada (termo em inglês: underrated), perante tantas outras de sucesso nessa mesma época. Vários de seus discos são obras primas e E Pluribus Funk é um dos melhores. Ótimo hard rock blueseado e funkeado, com guitarras em destaque e bateria variadíssima. Temos uma obra excelente do hard setentista. “Upsetter” (com um belo solo de gaita de boca) e “No Lies” com certeza farão seu dia mais feliz.

Bernardo: Era uma banda competente, mas nunca consegui gostar de muita coisa além dos hits.

Christiano: O famoso “disco da moeda”. Falar de Mark Farner é chover no molhado, mas sempre é bom, e justo, elogiar Mel Schacher, um baixista peculiar. Quer uma prova disso? Escute “People, Let’s Stop the War” e perceba o que é um baixista de verdade. As linhas que esse sujeito criou e executou são dignas de menção honrosa na história do rock, tamanha sua invejável grosseria. Como o Grand Funk é uma banda fabulosa, seus discos não são exclusivamente baseados em peso e energia. Prova disso é a última faixa “Loneliness”, uma semibalada que encerra o disco de forma encantadora. Coisa fina.

Davi: Discão! Um dos meus álbuns favoritos do Grand Funk. Por incrível que pareça, já vi muita gente descer a lenha neste disco. Vai entender… Três caras apenas no estúdio, e que put* som. O trabalho de bateria de Don Brewer em “I Come Tumblin’” é invejável. Mark Farner estava endiabrado. Mel Schacher fez belíssimas linhas de baixo. A produção de Terry Knight foi mais uma vez certeira, mantendo a energia e a espontaneidade dos músicos. “Save the Land”, “People, Let’s Stop The War” e “Footstompin’ Music” se destacam.

Diogo: Este disco não é meu favorito do Grand Funk, mas representa muito bem o grupo por aqui. Tem um delicioso clima de jam e parece ter sido gravado quase 100% ao vivo no estúdio, tamanha é a espontaneidade que brota de suas sete faixas. Ao mesmo tempo em que exibe aquela crueza típica das bandas originárias da região de Detroit, mostra um esmero melódico em meio à sua simplicidade coesa e eficiente. Mel Schacher, em especial, impressiona pelo volume e pela ignorância de suas linhas, algo que fica especialmente evidente na minha favorita, “I Come Tumblin’”, uma quebração de pau que deve ter sido sensacional acompanhar ao vivo. As letras são um pouco simplórias, mas em se tratando do Grand Funk eu quero mais é diversão, e isso o grupo sabia proporcionar muito bem. Tirando “No Lies”, que está um pouco abaixo das demais, todo o restante do álbum é muito bom. Um detalhe: “Loneliness” é uma bela canção e sei que é tida em alta conta pelos fãs, mas acho que o final extremamente apoteótico poderia ser mais contido. Ficou parecendo que a banda queria reproduzir o que foi feito em “I’m Your Captain (Closer to Home)”, algo que jamais aconteceria, pois ela é única em sua perfeição.

Fernando: Foi o disco através do qual conheci o Grand Funk e o álbum de que mais gosto até hoje. Para uma banda que tem uma carreira quase impecável, isso é muita coisa. Inicia com a festeira “Footstompin’ Music”, com seu baixo gordo, passa pelo hino antiguerra “People, Let’s Stop the War” e finaliza com a viajandona “Loneliness”, que fecha o disco fazendo a adrenalina baixar depois de pancada seguida de pancada. Disco fundamental e um ótimo cartão de visitas para qualquer um que queira conhecer essa banda, que bateu recordes que nem mesmo o Led Zeppelin conseguiu superar nos EUA, mas é relegada ao segundo escalão pela mídia aqui no Brasil.

Flavio: O quinto disco da banda mantém o estilo marcante hard rock ou blues rock e transparece o que é a tônica do grupo, seu vigor e entusiasmo. Sete músicas bem coesas, com ótima performance vocal e também instrumental. Tentando se transportar para época, diria que o Grand Funk estava bem ajustado e trazia um material de fácil encaixe (tematicamente explorando ainda a questão da guerra do Vietnã) mas sem muita novidade. A bolacha tem apenas 36 minutos que se passam facilmente. Destaco as harmonias vocais, que sempre é muito bem feita, e também a última faixa, “Loneliness”, um pouco diferente do restante do álbum, mais lenta e longa, com uso de teclados de forma mais acentuada e com um final apoteótico bem interessante.

Mairon: Este é um discaço do início ao fim e, ao mesmo tempo, um choque nos ouvidos dos fãs. A introdução da primeira faixa, “Footstompin’ Music”, com Mark Farner detonando no órgão e um embalo dançante, em nada nos remete aos quatro álbuns anteriores, dando indícios de que o trio estava mudando de direção na sonoridade. Isso realmente veio a acontecer no ano seguinte, com a adição de Craig Frost nos teclados, mas existem faixas que parecem paridas de Survival (1971) ou Closer to Home (1970), como “Upsetter”, “I Come Tumblin’” (com espaço para Mel Schacher solar) e “No Lies”. As letras religiosas e pacifistas de Farner ganham mais destaque, na ótima “People, Let’s Stop the War”, com um banho de wah-wah e o baixo delirante de Schacher, presente também em “Save the Land”, que, apesar da letra cristã de Farner, é cantada pelo batera Don Brewer. Para fechar, a mais bela canção da carreira do trio, “Loneliness”, uma obra-prima de nove minutos com inclusão de orquestra e um feeling absurdamente maravilhoso por parte do vocal de Farner. Que baita disco, que baita banda, e mesmo não tendo votado nele para figurar na edição dedicada a 1971, entraria fácil no lugar de Blue.

Ulisses: Do GFR eu nunca consigo destacar nenhuma faixa sequer em particular, em nenhum disco, e nunca consegui me afeiçoar à banda. Mas nunca reclamo de uma audição deles, pois entregam um hard rock dos bons e cheio de gingado, do começo ao fim, sempre com bastante empolgação. Em especial a última faixa, “Loneliness”, se destaca por seu aspecto mais pomposo.


Stevie Wonder – Music of My Mind (1972)

Ronaldo: No caso de Stevie Wonder, a concorrência entre seus próprios discos é autofágica. Mas nada me impressiona mais do que Music of My Mind, considerado um álbum de ruptura (o primeiro do cantor/compositor longe da Motown) e uma desbaratada exibição do sumo de seu talento. Tocando praticamente todos os instrumentos, compondo tudo e inclusive fazendo backing vocals para sua própria voz, Stevie Wonder não economizou um centavo sequer de sua musicalidade neste disco. Suas soluções harmônicas são surpreendentes e tiram o ouvinte do lugar comum; como os grandes mestres, faz o complexo soar simples e prontamente apreciável. Uma eclosão de ritmos sempre guiados por seu indefectível Fender Rhodes e experimentos arriscados com sintetizadores, tudo a serviço de composições deliciosas.

Alexandre: Sempre adorei Stevie Wonder, mas conheço poucos discos de estúdio, provavelmente os mais clássicos, como o badalado duplo Songs in the Key of Life (1976) e Innervisions (1973). Considerando o restante da carreira do gênio, eu não citaria este álbum para 1972, até porque já há um citado nesse mesmo ano, o que se sucedeu a este (Talking Book), que tem “You Are the Sunshine of My Life”, “Superstition” e “You and I”. Ainda assim, Music of My Mind é um belo álbum, com duas faixas iniciais que me agradam demais, em especial “Superwoman”. Acho que o grande mérito deste álbum é estar inserido na fase de Stevie na Motown, em que ele teve liberdade criativa para criar álbuns considerando todo o espectro da obra e não simplesmente canções isoladas, como era mote da gravadora nos anos 1960. Invejável o uso do clavinet em “Happier than the Morning Sun” e inacreditável saber que, novamente, quase tudo é o próprio Stevie sozinho que fez. Isolando Music of My Mind da escolha pelos dez melhores, trata-se de uma ótima citação. Considerando a votação em si, eu manteria Talking Book e pensaria em outros álbuns de Wonder que não entraram nos anos subsequentes. Mas jamais criticaria a escolha do Ronaldo, que trouxe mais um bom exemplo na sua excelente lista.

André: Não posso dizer que Wonder faz parte de meu repertório musical, mas tenho a mais ampla admiração pelo pianista. Posso dizer que este talvez seja o meu ponto de partida na carreira do soulman e vejo o quanto eu perdi por deixá-lo de lado. A voz de Stevie é linda e cristalina, e tanto seu talento no piano quanto nos outros instrumentos tocados com tanta maestria o fazem, merecidamente, um dos melhores artistas de todos os tempos. Belo registro e agradeço ao Ronaldo por dar o pontapé para que o conhecesse.

Bernardo: O início da grande fase de Wonder, na qual, disco após disco, seria um dos nomes definidores do soul setentista. Não chega a bater obras-primas que lançaria mais tarde, mas já é um disco de altíssimo nível.

Christiano: Este é um disco pouco comentado. Talvez por anteceder o grande Talking Book, um dos pontos mais altos da carreira de Stevie Wonder. Isso não tira seu brilho, visto que Music of My Mind, lançado também em 1972, é tão bom quanto seu sucessor. Na verdade, é estranho pensar que Stevie tocou todos os instrumentos do disco, fato corriqueiro em seus lançamentos futuros. Como pode uma só pessoa conseguir executar tantos instrumentos com tamanha fluidez? O álbum, como um todo, é muito coeso, merecendo destaque faixas como “Superwoman”, “Evil” e “Love Having You Around”.

Davi: Grande Stevie Wonder!!! Gosto desse cara. Grande músico e ótimo cantor. “Love Having You Around” começa o álbum de maneira animada e vibrante. Considero o roquinho “Sweet Little Girl”, massacrado por muitos fãs mais conservadores, um dos grandes momentos do LP. As baladas “Superwoman” e “I Love Every Little Thing About You” são deliciosas. Considero o lado B um pouco menos inspirado; mesmo assim, temos ótimos momentos como “Keep on Runnin’”. O cara gravou o disco praticamente sozinho e a qualidade do material é incrível. Para quem gosta de soul music, um prato cheio. Bela recordação!

Diogo: Não costumo fazer questionamentos quando meus colegas me enviam suas listas. Uma das exceções ocorreu quando o Ronaldo me enviou a sua para esta publicação. Por que este e não Songs in the Key of Life? Veja bem, acho que todos os discos que Stevie Wonder lançou entre Music of My Mind e Songs são dignos de figurar por aqui, talvez Innervisions mais que todos. Ronaldo citou sua “veia de tecladista” e, ao reescutar o disco, entendi sua posição, uma vez que Music of My Mind é bastante centrado nos sintetizadores, em especial o piano Fender Rhodes e o Moog Bass. O mais fino do álbum encontra-se nas duas primeiras e nas duas últimas faixas. “Love Having You Around” é uma prévia de muito que Stevie estava por fazer naquela década, um soul/funk maduro porém descontraído. “Superwoman” é uma de suas melhores baladas, trazendo belas evoluções de andamento e uma interpretação indefectível. “Keep on Running” é mais cheia e acelerada, enquanto a melancólica “Evil” traz mais uma interpretação certeira. Além delas, “Happier than the Morning Sun” e “Girl Blue” também merecem menção, mas o disco é bom em sua totalidade. Acho que Stevie faria ainda melhor posteriormente, mas isso não impede Music of My Mind de ser um dos melhores álbuns citados nesta edição.

Fernando: Interessante notar que a longa carreira de Stevie Wonder parece ter amadurecido e gerado álbuns de alto nível apenas depois de muitos anos. Não tenho familiaridade com sua carreira e ouvi algumas vezes apenas aqueles discos da primeira metade da década de 1970 e muito provavelmente qualquer fã dificilmente citaria algum de fora desse período como o principal da carreira do cantor, compositor e multi-instrumentista. 

Flavio: Genial, extraordinário, sensacional, enfim: Stevie Wonder! O melhor adjetivo que descreve o disco é esse.

Mairon: Para mim, a melhor fase de Wonder já havia terminado em 1970, com o lançamento de Signed, Sealed & Delivered (1970). Na época deste álbum, ele decidiu largar o piano e mergulhar nos sintetizadores, fazendo um funk motowniano à la Family Stone ou até Herbie Hancock, mas bem abaixo desses monstros. Não consigo curtir este álbum. Até o ouço, mas ele e seu irmão de data, Talking Book, simbolizam para mim o declínio da carreira de Wonder. Talking ainda ficou entre os dez mais de 1972, tirando jóias como 666 (Aphrodite’s Child) ou Foxtrot (Genesis). Portanto, não deveria estar lá, assim como este, que é o único disco da lista do Ronaldo que não fez minha cabeça. Desculpe-me, meu amigo, mas aqui você falhou.

Ulisses: Bela escolha do Ronaldo. Soul e R&B do bom, com interpretações à flor da pele e várias boas canções. O álbum gosta de esticar as pernas e de espaço para respirar, utilizando-se do uso diverso de texturas de sintetizadores para mesmerizar o ouvinte. Há alguns momentos em que se perde um pouco o foco, mas nada que tire muito o brilho. “Superwoman” e “Evil” são as melhores.


Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina (1972)

Ronaldo: Me dá até uma certa preguiça escrever sobre este disco, porque uma fila imensa de gente mais talentosa do que eu já usou todos os adjetivos possíveis para louvar este clássico da música brasileira (reconhecido por muitos também amplamente no contexto global). Lirismo incomparável e musicalidade ímpar, nos transporta para uma lúdica viagem pelas estradas do umbigo de nosso País; a alegoria perfeita de uma música interiorana, introspectiva até o osso. Para ouvir e reouvir sem se cansar. Colocá-lo nesta lista é meramente uma questão de justiça.

Alexandre: Uma história incrível de 1972 através da qual uma constelação de artistas se junta depois do convite de Milton Nascimento a Lô Borges para fazer um dos considerados melhores álbuns de todos os tempos da MPB. E olha que em 1972 havia um outro álbum brasileiro lindamente cantado que poderia perfeitamente estar nesta relação… Quem sabe alguém lembra dele até o fim da série… Voltando à constelação, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Robertinho Silva, Marcio Borges, letras de Ronaldo Bastos, Fernando Brant, o que dizer deste álbum? Só posso considerar inquestionável a escolha, mesmo sendo duplo, o que pode cansar o ouvinte menos afeito ao movimento. Movimento sim, porque aqui se encontra uma mistura de jazz com bossa nova com música rural com Beatles com música latina e por aí vai… Posso dizer que aprecio quase todas as canções: emociono-me ao ouvir o fim de “Cais”, com o piano de Wagner Tiso martelando os acordes enquanto vai mudando os baixos no instrumento, o momento mais belo do álbum, que é repetido no fim de “Um Gosto de Sol”, o vocal de Lô Borges em “O Trem Azul” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, os falsetes de Milton em “San Vicente”, o instrumental acompanhando o mesmo falsete em “Clube da Esquina nº 2”, a mistura de samba cadenciado e jazz cantado por Alaíde Costa e Milton em “Me Deixa em Paz”, os exemplos são inúmeros. Várias faixas viraram clássicos da música do nosso País, como, além de algumas das já citadas, “Paisagem da Janela” e “Nada Será Como Antes”. Eu ouço isso tudo e lembro que moro na cidade que vem sendo assolada pelo funk carioca. Aí baste a tristeza… Deixemos isso pra lá , foi ótimo revisitar este disco… Parabéns pela escolha, Ronaldo!

André: Minha admiração a esses dois grandes músicos brasileiros. Só mesmo uma questão de gosto que nunca nutri pela MPB não me faz ouvi-lo e conhecê-lo mais. Mas se tem algo que curti foi que Milton sai bastante daquela atmosfera mais lenta pela qual ficou conhecido e que me afasta um tanto de gostar de suas composições. Lô Borges também tem uma bela voz, que fique registrado.

Bernardo: Um dos maiores, se não o maior pecado da série, foi omitir Clube da Esquina. Nos resta agradecer ao Ronaldo. Emotivo, lírico, extremamente brasileiro e profundamente internacional ao mesmo tempo. “Paisagem da Janela”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, Tudo o que Você Podia Ser”… Hino atrás de hino. Obra-prima absoluta.

Christiano: Se tem uma coisa que aprendi participando da série é que, quanto melhor o disco, mais difícil é fazer algum tipo de comentário mais elaborado. O que eu posso dizer de um dos melhores álbuns já produzidos no País? Milton Nascimento já tinha uma carreira invejável quando resolveu investir na colaboração com o jovem Lô Borges. O resultado foi um álbum histórico, que traz coisas sublimes como “Nada Será Como Antes”, “Nuvem Cigana”, “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do seu Cabelo” etc. Enfim, maravilhoso de ponta a ponta.

Davi: Além de Milton Nascimento e Lô Borges, este disco também conta com a participação de Wagner Tiso, Tavinho Moura e Flavio Venturini. Com um time desses, não tem como fazer feio. Sem dúvidas, um clássico da música brasileira. Misturam aqui bossa nova, jazz, choro, rock progressivo, além de uma pegada beatle. Dentre as mais de 20 canções presentes, destacam-se “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, além de “Nada Será Como Antes”, que foi imortalizada depois por Elis Regina.

Diogo: Entre os discos aqui presentes, este é aquele cujo estilo menos “conversa” comigo. Não há nada errado nisso, ainda mais que estamos diante de uma obra maiúscula do cancioneiro nacional, cujo lirismo é essencialmente brasileiro, sem cair em clichês. É algo que, creio eu, só poderia ter nascido mesmo no mais brasileiro dos Estados, Minas Gerais. Há experimentalismos e intersecções com gêneros transnacionais (até umas guitarras cheias de fuzz em “Trem de Doido”), mas isso vem com grande naturalidade. Um aspecto muito positivo em Clube da Esquina é o fato de apresentar uma obra que, por mais que soe como um produto do interior brasileiro, não cai nas garras do tradicionalismo nem daquilo que as capitais esperam vir do interior. É meio óbvio dizer que a interpretação de Milton é um dos grandes destaques do trabalho, mas seria sacanagem não mencionar que Lô Borges se sai com grande desenvoltura, especialmente em “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” e “Paisagem da Janela”, três das melhores faixas de Clube da Esquina. Além delas, ressalto quão boas são “Tudo que Você Podia Ser” e “Nada Será Como Antes”. Mais um detalhe: gostei muito dos ecos de The Byrds nas duas partes de “Saídas e Bandeiras”.

Fernando: Eu tenho um pouco de ranço com esses artistas como Milton Nascimento, Djavan e outros que acabaram sendo colocados nessa MPB oitentista. Sei que aqui o rock é mais presente do que naquilo que caracterizou seu trabalho mais conhecido, mas é inegável que este é muito mais um disco de música brasileira do que de rock. A voz de Milton é super agradável, gostei de várias coisas, dá para perceber esmero em melodias e tudo mais, mas o saldo do que gostei e do que não gostei foi negativo e não consegui superar o ranço.

Flavio: Um dos discos brasileiros mais consagrados de todos os tempos e que estranhamente ficou fora da sua respectiva edição. Ronaldo tem boa dose de razão em resgatar o trabalho dos mineiros. Eu já conhecia bem o álbum e ao ouvi-lo novamente mantenho a minha impressão estabelecida anteriormente. Há ótimos momentos e outros nem tanto, mas o disco realmente tem importância inquestionável. Destaco a faixa de abertura, “O Trem Azul”, “San Vicente”, “Clube da Esquina nº 2”, “Paisagem da Janela” e “Nada Será Como Antes”, entre outras, todas muito presentes e definitivamente marcadas na carreira de Milton e Lô Borges dali em diante, e delineadoras da música popular brasileira. Para quem é afeito ao movimento, um disco arrebatador, inquestionável. Para os que, como eu, apreciam com alguma distância, um álbum para certos momentos.

Mairon: Considero este álbum bastante superestimado, mesmo o adorando em sua quase totalidade. O disco mostrou ao mundo não só Milton Nascimento e Lô Borges, mas também Toninho Horta, Beto Guedes, Flávio Venturini e Ronaldo Bastos, entre outros. Lô e Milton compartilham os vocais de “Cravo e Canela”, faixa tradicional do cancioneiro dos mineiros, dividindo as demais canções em 15 para Milton e cinco para Lô. Particularmente, prefiro as canções de Lô, mais alegres, com sua voz peculiar em “Paisagem da Janela”, e as melhores do disco, “O Trem Azul” (que Elis Regina regravou anos depois, em um âmbito muito mais tocante), “Trem de Doido” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”. Milton também faz boas interpretações para “Dos Cruces”, “Cais”, “Pelo Amor de Deus” e “Nada Será Como Antes”, mas essas três últimas canções também ganharam muito mais vida quando Elis as regravou, ficando aí sim incríveis (impossível não se arrepiar com a versão de “Cais” que Elis gravou no seu disco de 1972). Exclusivamente de Milton, considero as melhores “Tudo que Você Podia Ser”, “Clube da Esquina nº 2” e “Nuvem Cigana”, essa última principalmente pelo arranjo orquestral. Considero desnecessárias quase todas as faixas do Lado C e “Ao que Vai Nascer”. Acho que o trabalho teria muito mais valor se fosse simples, já que as 21 canções que o constituem acabam tornando-se cansativas, ainda mais “Saídas e Bandeiras nº 1”, “Estrelas” e “Lilia”. Belos arranjos, boas músicas, mas não o suficiente para entrar na edição da série abordando 1972, a não ser para substituir um disco de Stevie Wonder.

Ulisses: Disco riquíssimo em termos musicais. A gama de estilos que o álbum comporta é vasta, abarcando MPB, rock, psicodelia e jazz com facilidade. Por ser duplo, tem lá suas faixas irregulares, mas felizmente a maior parte do material é ao menos minimamente interessante aos ouvidos, com destaque para “Clube da Esquina nº 2”. Vale destacar o aspecto bucólico da maioria das letras.


Steve Hillage – Fish Rising (1975)

Ronaldo: Trabalho clássico do inventivo guitarrista inglês Steve Hillage, este disco é de virar a cabeça. Em uma esmerada psicodelia prog, Steve Hillage abusa de efeitos sonoros com uma banda das mais competentes que era possível montar naquela Inglaterra setentista. O disco é um passaporte para uma terra de loucuras sonoras. Melodioso e experimental na medida, constitui-se um trabalho equilibrado e de um inteligente virtuosismo para o rock. O álbum tem profundidade, sem deixar de ser irreverente. Steve é um craque das seis cordas e também um bom vocalista; egresso do Gong, sua carreira solo é um bem sucedido passeio pelos terrenos do space rock.

Alexandre: Outro álbum de refinado apuro instrumental, que é a tônica de grande parte desta lista, dessa vez trata-se de uma escolha carregada de influências progressivas. Eu gosto de rock progressivo, em especial das bandas mais cultuadas dos anos 1970, como Yes, Genesis e Pink Floyd, mas nunca me aprofundei demais no gênero. O tema lírico do trabalho (peixe???) já me soou meio estranho, aquela “viagem além do corpo”, presente principalmente na curta “Fish”. Para complementar, achei a guitarra exageradamente carregada nos efeitos, em especial no uso do eco. Entendi que boa parte da banda que acompanha Hillage já o fazia no grupo anterior do músico (Gong), o que deve ter facilitado a empreitada. Apesar da “viagem” do guitarrista ter ido um pouco além da minha compreensão, o trabalho é tecnicamente muito bom, não posso questionar. Apenas não consegui me conectar com ele. As audições podem ter sido insuficientes face à complexidade do trabalho. Ainda assim, um pouco menos de delay seria bem vindo para o meu gosto, pois as linhas de guitarras “entram e saem” o tempo inteiro enquanto a banda vai mantendo uma base de bastante competência. O maior exemplo é a faixa final. Sem o delay ela teria metade da duração. Respeito a escolha, mas pra mim foi um pouco demais.

André: Bom que o Ronaldo deu espaço ao rock espacial também. Ótima guitarra de Hillage, teclados espaciais finos e aquela sonoridade típica de Canterbury próxima do Caravan e do Gong (Steve foi guitarrista lá por muitos anos). Destaco a longa “Solar Musick Suite”, “Meditation of the Snake” e a também longa “Aftaglid” e seus vários minutos de guitarras e teclados solando e “espaciando”.

Bernardo: Não conhecia, mas entendo a razão do fascínio pelo space rock, breve tendência que misturava psicodelia, krautrock e ambient para criar um som extremamente distinto, que leva o ouvinte para outra dimensão. Mas ainda prefiro outros exemplares do gênero.

Christiano: Sinceramente, esta lista é de cair o queixo. Para fechar com chave de ouro, mais um disco maravilhoso. Steve Hillage é um guitarrista genial. E não digo isso por falta de expressão melhor. O cara possui uma musicalidade rara. Basta encarar os quase 17 minutos de “Solar Musick Suite”, primeira faixa do álbum, para entender o que estou dizendo. Além de os solos sempre quebrarem as expectativas do ouvinte, a sensação de surpresa a cada evolução da música é indescritível. Como se isso não fosse suficiente, ainda temos pérolas como “The Salmon Song” e “Aftaglid”. Disco maravilhoso.

Davi: Belo disco! Progressivo com belíssimos arranjos e ótimos músicos. Não sou um especialista na obra de Steve Hillage nem do Gong, então não vou ficar fazendo comparações. Este é, coincidentemente, o único álbum dele que tenho em minha coleção, que acabei pegando por indicação do nosso amigo Marco Gaspari. O LP traz muitas passagens experimentais. Não é um disco de fácil audição, mas quem se aventurar encontrará ótimos momentos, principalmente nas belíssimas “Solar Musick Suite” e “The Salmon Song”. Já “Fish”, que o traz brincando com a Big Bolha do Gugu, é dispensável.

Diogo: Não conheço a história de Steve Hillage no Gong e, para ser honesto, ouvi pouquíssima coisa relacionada à cena de Canterbury. Falha minha. Acabei de conhecer este disco e, felizmente, gostei dele de cara. Steve é um guitarrista muito peculiar, que trabalha seu instrumento na criação de texturas que constroem e decoram suas canções pouco convencionais. A instrumental “Meditation of the Snake” é um ótimo exemplo disso, ornamentada com guitarras que parecem formar um aquário ao redor do tema principal. Das cinco faixas, três são longas e todas são boas. Quem quer ver Steve em ação mais próxima do habitual precisa ouvir os solos que se sobrepõem ao fim de “The Salmon Song”, um dos grandes momentos do disco. “Solar Musick Suite e “Aftaglid”, que juntas somam mais de meia hora, mostram uma banda que experimenta, mas sem cair nas raias da estranheza, ao menos para aqueles acostumados com o que a psicodelia e o progressivo trouxeram desde o fim da década de 1960. Destaque ainda para os tecladistas Tim Blake e Miquette Giraudy, que complementam o trabalho de Hillage com muito estilo. Em se tratando de surpreender, este é, sem dúvida o trabalho mais exitoso desta lista.

Fernando: Ouvir este disco me fez voltar uns 15 anos no tempo, época em que eu comecei a ouvir progressivo, baixava os discos através do Kazaa, do Soulseek ou de blogs de downloads. Bateu uma saudade de quando eu estava conhecendo um monte daquelas bandas de progressivo que não faziam parte do primeiro escalão do estilo. Estou passando por uma fase que parece interminável em que estou procurando e ouvindo quase só heavy metal e preciso voltar a escutar esses discos. Sobre o álbum: na minha opinião, é melhor que quase todos os discos do Gong, pau a pau com Flying Teapot (1973), e espero que ninguém venha brigar comigo por conta disso.

Flavio: O caçula da lista vai fazer 42 anos em breve, será que o Ronaldo não perdoa a tônica do que vem sendo lançado depois dos anos 1970 e, principalmente, hoje em dia? Ou faltaram mais cem discos para a sua lista? Os mais novos? Seja como for, este eu não conhecia mesmo. Um pouco etéreo demais para o meu gosto, o álbum traz bons momentos em um “prog jazz rock natureza e seus bichos diversos”. Além de ser às vezes um pouco lento (muito etéreo), o que não deu para gostar foi do blablablá de “Fish” e, no geral, o vocal precisaria ter melhor nível. Um dos discos mais fracos da lista, mas com bons momentos e longe de ser desagradável.

Mairon: A estreia de Steve Hillage pós-Gong é um disco chapante, que nos mostra – mais uma vez – como os anos 1970 foram bons. O guitarrista conseguiu aumentar seu espaço musical, soltando distorção e fazendo bons experimentos acompanhado de um timaço. Há três longas faixas: “Solar Musick Suite”, a maior delas, com um extenso trecho instrumental em que os solos de Hillage e da tecladista Miquette Giraudy, além da cozinha sempre poderosa de Pierre Moerlen e Mike Howlett, a colocariam facilmente em minha coluna “Maravilhas do Mundo Prog”; “The Salmon Song”, deliciosa viagem pelos efeitos sonoros nela criados; e “Aftaglid”, a mais experimental e também aquela em que Hillage solta mais peso em suas seis cordas, ao mesmo tempo em que nos entrega um dedilhado de violão alucinante. Também temos duas faixas curtinhas: “Fish”, uma vinheta no melhor estilo Gong, e “Meditation of the Snake”, peça que explora as habilidades guitarrísticas de Hillage. Elas são entregues aos ouvidos e, cara, é uma experiência fantástica ouvir este álbum. Não acho que deveria ter entrado na lista dedicada a 1975, mas como entraram Bruce Springsteen e Neil Young, até poderia estar lá. Acho que se fosse para entrar algo ligado a Hillage, com certeza teria que ser algo do Gong. Mas sim, é um baita disco.

Ulisses: Suítes espaciais longas, virtuosas e, na maior parte do tempo, instrumentais… Se eu ficasse só na descrição, faria cara feia e iria embora, mas o álbum surpreende ao trazer uma guitarra ora faiscante, ora melancólica, que se entrecruza com teclados e sintetizadores monumentais. Psicodelia, progressivo e space rock dando vida a um resultado no mínimo interessante.



Categories: Artistas, Curiosidades, Discografias, Músicas, Resenhas

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