Consultoria do Rock – Melhores de Todos os Tempos – Aqueles que Faltaram: por André Kaminski, com participação do Minuto HM

Galera, mais um capítulo (d)”Aqueles que Faltaram“, da série “Melhores de Todos os Tempos“, lá no Consultoria do Rock. Desta vez, a (excelente) lista vem do André Kaminski, com os irmãos Remote e B-Side resenhando por lá também.

Sobre a qualidade da lista, temos nomes mais que consagrados – e mais importante até que os nomes são alguns dos próprios álbuns – literalmente “resgatados”.

Boa leitura / aula a todos.

[ ] ‘ s,

Eduardo.


GABRIELA QUINTERO E RODRIGO SANCHEZ

GABRIELA QUINTERO E RODRIGO SANCHEZ

Por André Kaminski

Edição de Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Flavio Pontes, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

Foi muito bacana participar de uma seção como esta. Tantos álbuns que conheci, bandas das quais passei a gostar, grupos que confirmaram meu desgosto, discos surpresa, discos decepção… enfim, foi um aprendizado excelente. Quanto aos dez álbuns que escolhi, tentei fazer um contraponto entre meus gostos. Escolhi trabalhos excelentes que mereciam entrar nas edições respectivas aos anos de seus lançamentos, mas ficaram de fora por falta de espaço; alguns desconhecidos, mas muito bons; e outros que resumem um pouco do meu gosto pessoal por certos artistas e estilos. Espero que os consultores avaliem os desconhecidos por suas qualidades e defeitos, não pelo fato de serem de “escalão inferior”. Sem mais enrolação, finalizo dizendo que todos eles valem um minuto que seja do seu tempo no YouTube para ao menos ter uma noção do que se trata. Grande abraço a todos que prestigiam nosso site!


Wishbone Ash – Argus (1972)

André: Aquele início calmo de “Time Was” enganou muita gente, que achou que o Wishbone Ash seria nada mais que uma calma banda folk. Guitarras gêmeas, dois vocalistas em quase todas as canções e uma mescla de hard, folk e progressivo em todo o disco. Várias viradas e minissolos sensacionais de Steve Upton, belíssimos violões e uma vontade de fazer bonito que não deve em nada a tantos outros medalhões da época. Infelizmente, a banda passou despercebida por muita gente com o passar dos anos. Além da já citada “Time Was”, destaco ainda a excelente “Warrior”, um hard rock enérgico que quase passa por uma canção heavy metal. É o disco que todo guitarrista deveria ouvir várias vezes na vida para saber como se sola dentro do rock. E aqueles vocais de “Blowin’ Free”? Céus, as vozes dos caras se encaixam perfeitamente.

Alexandre: Uma ótima lista esta penúltima da série. André faz justiça a várias bandas de importância, mas que acabaram não dando as caras nas edições anuais. Este é, para mim, um dos melhores álbuns entre os dez escolhidos. Além disso, traz como maior trunfo o fato de ter um excelente line-up, com dois guitarristas cujo approach definiu o estilo de guitarras gêmeas a ser adotado por grande parte dos grupos de heavy metal da década seguinte. Poderia citar em especial o Iron Maiden, mas a maior parte das formações de metal melódico seguiu essa linha. O baixo também se destaca, como em “Sometime World”. Outo ponto muito favorável são as linhas vocais, na maior parte dividas entre a “turma das cordas”. Argus é um trabalho bastante coeso, com todas as faixas bem fortes, bem inspiradas. Há algumas que se sobressaem, como “Time Was”. Em especial o lado B, superior ao lado A, no qual todas as músicas me agradam demais. Acima delas, “The King Will Come” e, principalmente, “Leaf and Stream”. Trata-se de um folk de espetacular categoria, com um solo de guitarra que me lembra das intervenções de Tony Iommi, do Black Sabbath, em músicas como “Planet Caravan”. Argus teria lugar na edição dedicada a 1972.

Bernardo: Seria Martin Birch a cara da pauleira setentista e oitentista? Muito possivelmente. Só clássico tem o sujeito envolvido – muitos álbuns de Deep Purple, Rainbow, Black Sabbath, Iron Maiden, Whitesnake… o classicão Argus funde hard e progressivo e mostra ao mundo o poder das guitarras gêmeas. Acho “The King Will Come” a melhor do álbum.

Christiano: Um disco perfeito do Wishbone Ash, banda muito difícil de classificar. Argus é a síntese aperfeiçoada do que o grupo fez em seus dois primeiros discos, pois ao mesmo tempo em que traz as guitarras gêmeas que já apareciam no álbum de estreia, mais próximo do hard rock, mantém a pegada meio jazzística de Pilgrimage (1971). Além disso, os arranjos vocais são outro elemento de destaque, o que torna o disco encantador mesmo para quem já o escuta há décadas, pois é cheio de ótimas músicas, como “Warrior”, “Throw Down the Sword” e a bela “Leaf and Stream”. Ótima dica.

Davi: Essa é uma banda na qual, por alguma razão, nunca me liguei muito. Tenho uma ou outra coisa deles, mas nunca senti vontade de me aprofundar em sua obra. Este disco, contudo, realmente é muito bonito. Embora seja um álbum prog, captei uma influência de blues no trabalho de guitarra e uma forte influência de Crosby, Stills, Nash & Young nas harmonias vocais, em vários momentos. A maioria das faixas começam lentas para explodir depois. Acredito que a (boa) exceção seja “Warrior”. Os melhores momentos, contudo, ficam mesmo por conta de “Time Was”, “Sometime World” e “The King Will Come”.

Diogo: Receber a lista do André foi uma maravilhosa surpresa, e o principal motivo chama-se Argus. Junto a Sad Wings of Destiny (Judas Priest, 1976), citado pelo Ulisses, trata-se de um álbum que ficou (ficaria, no caso do Priest) muito próximo de dar as caras na edição dedicada às minhas escolhas. Em um ano tão absurdamente fantástico como foi 1972, apenas Close to the Edge (Yes) faz frente ao seu magnífico tracklist. Com alguma vergonha, confesso que ainda conheço bem pouco do Wishbone Ash, mas Argus está entre minhas audições mais prazerosas há alguns anos. Todo guitarrista que se presta a tocar rock tem obrigação de ouvir o que Andy Powell e Ted Turner fazem ao longo de seus 45 minutos, harmonizando e solando de um jeito que eu nunca ouvi em algo lançado antes e em quase nada lançado depois também! Steve Upton enche as canções de fills e também se destaca, enquanto Martin Turner, além de ser o melhor vocalista da banda, toca seu baixo de maneira extremamente melódica. Ouçam a estupenda “Sometime World”, minha favorita, e digam se não parece que Martin gravou o baixo depois de todos os outros instrumentos, de tão melódico que soa. Faltam-me palavras para elogiar cada faixa de Argus, pois todas são ótimas. Admiro ainda a maneira como o disco se equilibra entre hard, prog e folk sem necessariamente se enquadrar em nenhum desses estilos nem abusar de suas características. Até por isso, envelheceu bem melhor que muitos contemporâneos seus.

Fernando: “Warrior”… essa é a música da qual sempre lembro quando vejo a capa de Argus. Tinha a faixa em uma daquelas coletâneas de revista e adorava a música, isso muito antes de saber que o Wishbone Ash era tão respeitado e tratado como uma das grandes influências da minha banda preferida desde então. Claro que o disco não se resume a “Warrior”. A beleza de “Time Was” e a melodia de “Sometime World” também merecem lembrança. Um álbum clássico que só não entrou na edição respectiva ao seu ano de lançamento porque a concorrência foi dura demais.

Flavio: Terceiro da discografia do Wishbone Ash, o consagrado Argus transita entre o folk/country rock com pitadas de blues e hard rock. O álbum passa com facilidade, mérito enfatizado principalmente pela dupla de guitarras, que executa harmonias em bela sincronia, como em “The King Will Come”. O vocal de Martin Turner também é agradável, em um estilo meio “ripongo”. Junto com Steve Upton, monta uma cozinha que mantém uma boa base sem muitas firulas. Não há nada de excepcional no disco, mas posso destacar a faixa de abertura, com solos de guitarra marcantes, assim como a bela melodia da balada que o fecha (“Throw Down the Sword”), novamente com ótimos e belíssimos solos de guitarra. Boa presença que talvez encontrasse lugar na edição abrangendo 1972.

Mairon: O ano de 1972 foi de lançamentos excelentes. Minha lista final para aquele ano tinha uns 50 álbuns ou mais. Só podiam ser dez, então muitas pérolas infelizmente ficaram de fora. Uma delas é Argus, o álbum que marcou a carreira do Wishbone Ash. Uma aula de heavy metal melódico antes disso ser inventado. Canções reflexivas, envolventes, sedutoras e muito belas, com um trabalho de arranjo elaborado pelos guitarristas Ted Turner e Andy Powell, que surpreende justamente pela beleza e perfeição, sendo difícil (ou quase impossível) encontrar algo similar ao que foi gravado no LP nessa mesma época. O álbum tem o maior clássico da carreira do Wishbone Ash, que é “Blowin’ Free”, que encerra o lado A e é de fácil memorização, além de ser a mais simplezinha. As outras canções são obras atemporais, que talvez mereçam ainda mais destaque. Argus começa com os nove minutos insaciáveis de “Time Was”. Ainda no lado A, temos a baladaça “Sometime World”, uma faixa linda, com notas de guitarra que arrancam lágrimas até de estátuas e se transforma em um show do baixista Martin Turner, e que me lembra “The Chain” (Fleetwood Mac). O lado B é poderoso, sombrio e ainda melhor que o lado A. A trinca “The King Will Come”, “Warrior” e “Throw Down the Sword” é inexplicável. Guitarras gêmeas, excelentes vocalizações e muita sonzeira. Melhor que isso só “Phoenix”, que o grupo gravou em seu álbum de estreia. E cara, “Leaf and Stream” não é uma música, é uma ode para encantar ouvidos. Só ouvindo para entender o que está registrado. Eleito o melhor disco de 1972 pela revista Sounds, conquistou gerações de fãs desde então, entre eles Steve Harris, que nunca negou a influência das guitarras de Powell e Turner no que o Iron Maiden fez anos depois. Escrevi mais sobre esta joia quando ela completou 40 anos de lançamento. Obrigado ao André por fazer justiça ao grupo, já que algumas nabas que entraram na edição voltada a 1972 não merecem ocupar o espaço de um álbum tão importante e totalmente excelente como este.

Ronaldo: O ano de 1972 foi de exageros no rock. O Wishbone Ash alcançou um lugar próprio nesse panorama justamente por refutar, com muita competência, esses exageros. Além de possuir composições cativantes e um instrumental irretocável, Argus não é nem suficientemente pesado para o hard rock, nem experimental e complexo o suficiente para ser progressivo. Mordendo um pouquinho dos dois quinhões, o disco agrada a gregos e troianos.

Ulisses: Se bem me lembro, ouvi este álbum justamente por conta de alguma resenha aqui da Consultoria. Até então, só conhecia a banda de nome, sabendo de sua influência em Steve Harris na criação do Iron Maiden devido ao pioneirismo do grupo no uso de harmonias com duas guitarras. De fato, a banda une o típico rock setentista com a estrutura do progressivo e pitadas de folk, tendo as guitarras na linha de frente, apoiadas por uma seção rítmica poderosa e uma bela divisão de vozes entre Andy Powell e Martin Turner. Um sólido e importante resgate.


Blue Öyster Cult – Secret Treaties (1974)

André: Apesar de meu favorito ser o anterior, Tyranny and Mutation (1973), desta vez quis dar uma ênfase maior neste disco, que considero ser o que mais mereça entrar em uma lista da década de 1970 junto a Phenomenon, do UFO. Apesar das letras terem sido compostas por Sandy Pearlman e seu amigo Richard Meltzer (que tornar-se-ia um crítico musical famoso na época), mais a cantora punk Patti Smith (que na época namorava Allen Lanier), a banda compôs todo o instrumental e o álbum não soa nem um pouco destoante tanto na discografia do BÖC quanto dentro de seu tracklist. Há nele muitas músicas tocadas pelo grupo até os dias de hoje, como “Astronomy”, “Career of Evil” e “Flaming Telepaths”, que, por sinal, também são as faixas principais de um álbum que mescla o hard rock, o psicodélico e o heavy metal dos anos 1970 em um excepcional conjunto de canções empolgantes e agressivas. As guitarras e os teclados são um show à parte. Esses e tantos outros são motivos para que o pessoal que lê estas linhas caia de cabeça na discografia do BÖC, pois encontrará muita coisa boa.

Alexandre: Outra escolha cirúrgica do André. Este é o melhor disco do Blue Öyster Cult, pelo menos entre os que ouvi. Gosto mais deste até do que do ao vivo Extraterrestrial Live (1982), pois acho que a banda foi perdendo um pouco da força pelos anos a fio. Este álbum, recheado de ótimas escolhas de teclado, tem um início de muita qualidade. As três primeiras faixas (“Career of Evil”, “Subhuman” e “Dominance and Submission”) são matadoras. Esta última, além eu considerar como uma das melhores da banda, é a única deste álbum a dar as caras no propalado ao vivo, uma pena. Os vocais divididos de “Cagey Cretins” destacam-se no início do ótimo segundo lado. Seu fim é apoteótico, com duas faixas destilando harmonias dos vocais de Eric Bloom e das guitarras de Buck Dharma. Novamente, teclados e sintetizadores dividem um belo espaço com as guitarras em “Flaming Telepaths”. “Astronomy” (coverizada pelo Metallica muitos anos depois) acaba sendo a minha favorita deste ótimo trabalho. A mistura do hard rock com certa psicodelia me encantou, coisa que em geral eu não ouvi nos outros discos do grupo que conheço. Haveria espaço para ele na edição abrangendo 1974, nem que fosse em sua metade final, considerando que se trata de um ótimo ano.

Bernardo: Nunca ouvi um álbum do Cult do qual gostasse por inteiro. Tem momentos interessantes, como o encerramento, “Astronomy”.

Christiano: O melhor da trilogia “black & white”. Não que os dois discos anteriores não sejam ótimos, mas Secret Treaties traz a banda investindo em arranjos mais elaborados, o que já fica claro na primeira faixa, “Career of Evil”, em que podemos perceber a presença de teclados entrelaçados com um belo riff de guitarra. Outra coisa interessante neste álbum é a presença de elementos de psicodelia diluídos perfeitamente a melodias mais pop, como em “Flaming Telepaths” e “Subhuman”. Indicação justíssima.

Davi: Não conheço muito do Blue Öyster Cult. Claro, conheço alguns sons, já ouvi “(Don’t Fear) The Reaper” trocentas vezes, mas não me recordo de ter parado para escutar seus discos com atenção. Pelo que andei pesquisando, parece que muitas pessoas consideram este álbum como o maior marco de sua carreira. O LP realmente é muito bacana, apresenta um rock ‘n’ roll honesto, bem resolvido e bem interpretado. Colocaria “Career of Evil”, “Dominance and Submission”, “ME 262” e “Flaming Telepaths” como os grandes destaques. Embora tenha visto muita gente dizendo que este disco não tem fillers, não fui muito com a cara de “Astronomy” nem de “Subhuman”. Bom álbum, contudo.

Diogo: Na década de 1970, havia uma boa quantidade de bandas que praticavam um hard rock bem trabalhado, assim como o Blue Öyster Cult. Poucas, entretanto, uniam essa competência instrumental com o tino que o BÖC tinha para encaixar belas melodias. O que para alguns pode parecer uma proposital busca por mais espaço nas rádios, para mim soa como talento acima da média. Não sou profundo conhecedor da carreira do grupo, mas Secret Treaties talvez seja mesmo o álbum mais adequado para representá-lo na série. Apesar de todo o tracklist ser bem sólido, as duas primeiras e as duas últimas músicas são os destaques; a saber, “Career of Evil, “Subhuman” e, principalmente, “Flaming Telepaths” (com teclados muito bem encaixados) e a grandiosa “Astronomy”, com sua aura mística. É uma pena que o guitarrista Donald “Buck Dharma” Roeser não tenha registrado vocal algum neste disco, pois gosto de suas contribuições. Da minha parte, gostaria mesmo de ver nesta série Fire of Unknown Origin (1981), que une as melhores características do BÖC a toda a cremosidade do AOR. Eu mesmo deveria tê-lo citado em minha lista voltada a 1981, mas até então não havia prestado atenção suficiente a ele.

Fernando: Tá aí uma banda que eu deveria conhecer mais. Tenho um CD deles, Tyranny and Mutation, lançado um ano antes de Secret Treaties. Este disco, junto do que eu tenho, mais Fire of Unknown Origin, faz parte de tudo o que conheço do grupo. É difícil se aprofundar nessas bandas com carreiras muito longas, ainda mais que hoje em dia não temos tanto tempo para ouvir 10-12 álbuns de uma vez. É um representante perfeito daquilo que é chamado de hardão setentista, tão amado pelos fãs.

Flavio: O Blue Öyster Cult nunca me ganhou. Tentei ouvir o clássico ao vivo de 1982 (Extraterrestrial Live), que teoricamente traria músicas cultuadas, mas passei ileso por ele, que mais me desagradou do que agradou. Neste álbum, também terceiro da banda, chamou-me atenção seu início, com um som bem retrô, remontando aos anos 1950/60, um rock ‘n’ roll básico, com som de guitarra com uma leve e feia distorção, e o resto da banda do tipo “arroz do feijão” (apenas acompanhando). As duas últimas músicas deram uma boa melhorada, com presença de sintetizadores e uma desviada daquele rock ‘n’ roll “demodê” chato. “Astronomy”, que foi coverizada por várias bandas, inclusive pelo Metallica, é disparada a melhor. O fim do álbum dá uma salvada.

Mairon: Um clássico na discografia do BÖC. Terceiro disco da banda, ainda na sua fase pseudopsicodélica, mas já migrando para tornar-se um dos ícones do fim dos anos 1970, como atesta a faixa de abertura, um poema da novata Patti Smith chamado “Career of Evil”, que é um hard dos bons. O que eu gosto na banda é que eles tinham dois vocalistas absolutamente acima da média. Albert Bouchard (baterista também) solta a voz no rockaço “Dominance and Submission”, enquanto Eric Bloom rasga a garganta em “Harvester of Eyes”. Claro, eles também estão nas outras faixas, mas nessas duas suas interpretações se sobressaem, pois o restante do disco é muita guitarra. Você não vai encontrar nada parecido com “Godzilla” ou “(Don’t Fear) The Reaper”. É sonzeira das boas, com guitarras prevalecendo o tempo inteiro. Para os apreciadores daquele clima viajandão dos dois primeiros discos, “Subhuman” é uma das melhores do grupo, assim como a pegadona “Cagey Cretins” e a magnífica “Flaming Telepaths”, uma das melhores introduções do BÖC, se não a melhor. Essas ainda não são as melhores, pois essa posição pertence ao clássico “Astronomy”, um espetáculo de harmonias e composição (e que baita fim), e ao rock “ME 262”, que possui um estilo glam-Ziggy que me agrada muito. Nem preciso dizer que poderia estar na edição voltada a 1974 no lugar de uma certa “Tábua”. Ouvindo com atenção, perto de outros discos daquela lista (Neil Young, Kraftwerk e Bad Company), ficaria bem melhor. Boa, André!

Ronaldo: O BÖC faz em Secret Treaties uma interessante fusão entre hard rock e música pop; guitarras pesadas, muito dinamismo na bateria e no baixo, mas sempre pontuados por alguma linha vocal mais apelativa e própria para se cantar junto. A se destacar incríveis solos de guitarras (eventualmente harmonizados) e espertas participações de teclados. Rock dos bons.

Ulisses: O BÖC é uma daquelas bandas subestimadas, mas que recompensam bem quem resolve se aventurar para além das coletâneas, especialmente em seus cinco lançamentos iniciais. Um hard rock mais sofisticado que a média, praticamente sem escorregar em lugar nenhum do tracklist. Não é surpresa, aliás, que a maioria das pessoas considere Secret Treaties o melhor álbum dos norte-americanos.


UFO – Phenomenon (1974)

André: Sacanagem um disco clássico como este ter ficado de fora da série. Vontade de matar os participantes. Exceto Mairon e Ronaldo, esses consultores brilhantes que votaram nele. Guitarras sensacionais do senhor Schenker, vocais incríveis de Mogg e cozinha perfeita de Way e Parker. Um hard rock enérgico do início ao fim, cheio de faixas inesquecíveis e com um bom gosto de cair o queixo. Apesar dos primeiros discos também serem bons, é neste trabalho que a banda se tornaria referência para incontáveis músicos que viriam depois. Falar o que dos solos de guitarra de “Rock Bottom”? Ouvir e fazer air guitar. Ou a melodia simpática de “Too Young to Know”, que te fará balançar o esqueleto. Que fique bem claro que está proibido fazer críticas a este álbum e o consultor que fizer isso merece ser linchado em praça pública.

Alexandre: Um bom disco do UFO, contando com o estreante Michael Schenker destilando virtudes de guitar hero próximo dos seus 20 anos de idade. Sua categoria ao interpretar um blues de Willie Dixon, “Built for Comfort”, deve ser ressaltada. Neste álbum começou a fase áurea do UFO, que tem fecho de ouro no histórico duplo ao vivo Strangers in the Night (1979). Ao contrário do que penso do Blue Öyster Cult, porém, considero que a fase de estúdio do UFO traz inegáveis boas canções, mas não há um disco que seja inteiramente coeso. Assim, como nos demais lançamentos dessa fase, há canções que considero fillers. Neste disco, citaria “Oh My”, “Crystal Light” e “Queen of the Deep” como faixas interessantes, mas abaixo do nível das demais. Considerando os demais álbuns, julgo Lights Out (1977) como um pouco acima dos outros quatro com Michael Schenker lançados na década de 1970. A adição de teclados a partir de Force It (1975) fez bem para o grupo, sublinhou ainda mais as ótimas harmonias produzidas em suas composições. Ainda assim, há qualidade de sobra em Phenomenon. O indiscutível talento de Schenker está em um patamar acima de seus companheiros. Os clássicos “Doctor Doctor” e “Rock Bottom” são inquestionáveis. Outras ótimas faixas são “Time on My Hands” e “Space Child”, nas quais o feeling vocal de Phill Mogg também é destaque. Como eu costumo dar uma checada nas performances ao vivo da época de cada um desses álbuns citados, é impossível não citar o incrível “copy and paste” da performance de Pete Way que Steve Harris faria no Iron Maiden. Maior influência em nível de presença de palco, impossível. Mais uma boa escolha nesta ótima lista.

Bernardo: Tem nem o que comentar sobre “Doctor Doctor”, né? Put* musicão, riff dos infernos, Schenker possuído. “Rock Bottom” é legal, mas nem tanto. O resto não me chamou atenção.

Christiano: UFO no auge, com direito a uma bela capa da Hipgnosis. Mesmo a concorrência sendo fortíssima em 1974, a banda conseguia se destacar pela qualidade das composições e a performance impecável dos músicos, que beiraram a perfeição em Phenomenon, um disco irretocável em todos os detalhes. Não preciso ficar tecendo elogios a Michael Schenker, mas é obrigação destacar os vocais de Phil Mogg. O cara é um monstro. É incrível perceber a facilidade com que ele transita entre momentos mais agressivos e suaves de modo totalmente natural. Destaco a curta, mas eficiente, “Oh My” e “Time on My Hands”, que tinha potencial para se tornar um grande hit radiofônico da época.

Davi: O primeiro álbum a contar com as guitarras de Michael Schenker também marca uma mudança na sonoridade da banda. Em Phenomenon, eles se afastaram do space rock (embora ainda se encontre características desse gênero em “Space Child”) e foram ao encontro do hard rock. Há alguns momentos mais calmos, como “Lipstick Traces”e “Crystal Light”, mas é realmente nas faixas mais pesadas que eles se destacam. “Oh My” e “Too Young to Know” merecem atenção especial, sem contar os clássicos “Rock Bottom” e “Doctor Doctor”. Boa lembrança.

Diogo: Este disco é um dos maiores representantes das famosas “viradas de mesa”, quando um artista rompe com boa parte daquilo que vinha fazendo e lança um álbum muito diferente, que cai nas graças do público e torna-se referencial. A entrada do jovem Michael Schenker fez um bem gigantesco ao UFO, injetando energia, peso, melodia, foco e muito, muito talento ao line-up. Junto a Phil Mogg, que é o grande elemento de coesão do grupo, Schenker criou uma série de faixas que funcionam como veículo para a expressão de sua capacidade na guitarra. Sim, pois apesar das faixas serem boas no geral, são seus licks e solos que se destacam acima de tudo. O que esse cara faz na classicíssima “Rock Bottom” (também dona de um baita riff) é de cair o queixo, fácil fácil um dos meus solos favoritos em todos os tempos. Os caras do UFO sempre tiveram pose de durões (Mogg sempre foi brigão, inclusive), mas, ao menos na época em que Michael Schenker esteve na banda, as baladas sempre foram destaque. É por isso que, além da também clássica “Doctor Doctor”, minhas preferidas são “Crystal Light”, “Space Child” e “Queen of the Deep”, além da bela instrumental “Lipstick Traces”.

Fernando: O primeiro álbum com Michael Schenker é um clássico. Ele entrou com tudo, ajudando na composição de praticamente todas as músicas. Phil Mogg é um cantor fantástico. Sua voz é agradabilíssima. Ouvi este disco alguns dias antes de receber esta lista e foi perfeito. Não posso deixar de citar “Doctor Doctor”, que há anos serve de abertura para os shows do Iron Maiden e foi regravada pela banda no single para “Lord of the Flies”.

Flavio: Terceiro terceiro disco de uma banda nesta edição, Phenomenon é o primeiro a contar com o (já à época) guitarrista prodígio Michael Schenker, que modificou o som do grupo, trazendo uma característica mais hard rock/heavy metal e talvez consagrando o estilo clássico do UFO. Um álbum bem coeso, com dois clássicos, “Rock Bottom” e “Doctor Doctor”, que também são as minhas preferidas da bolacha. Schenker, na época com 19 anos, realmente é o destaque, preenchendo de ótimos solos e licks todas as músicas, como a incendiária “Oh My”. Gosto também do vocal de Phil Mogg, que na época estava em ótima forma, como bem demonstrado em “Space Child”. Curto ainda “Queen of the Deep” e a balada instrumental “Lipstick Traces”. No geral, não há nada que me desagrade. Boa escolha.

Mairon: Cara, uma das minhas bandas de coração, que não entrou em nenhuma edição da série, muito injustamente. Citaria este disco para a edição dedicada a mim, mas acabei colocando Crime of the Century (Supertramp, 1974) no lugar, por conta de questões puramente pessoais. Phenomenon, contudo, é um fenômeno, e deveria ter entrado ao menos no lugar da “Tábua”. Das dez faixas, no mínimo seis tornaram-se hinos nos anos 1970. Nele está, inclusive, o maior sucesso do UFO, “Doctor Doctor”, que chegou a ser usada como música de abertura dos shows do Iron Maiden. Aprecio bastante os rocks simples que foram registrados, como “Too Young to Know”, e as baladas, no caso “Crystal Light”, a acústica “Time on My Hands” e o bluesaço “Space Child”, linda demais. Adoro a forma embriagada como Phil Mogg canta “Built for Comfort”, um fantástico blues no qual Schenker esbanja grandes riffs. Essa é a grande atração do disco: a estreia do alemão Michael Schenker. O gurizão (apenas saindo dos 18 para os 19 anos) chegou chegando e estava endiabrado, criando riffs memoráveis (“Oh My” e “Queen of the Deep”, duas sonzeiras fodásticas) e solando pacas. O auge disso tudo é a inacreditável “Rock Bottom”, petardo de sete minutos para colocar a casa abaixo. Ao vivo, ela podia se estender até a 15 minutos, dependendo da inspiração do carrancudo Schenker, sempre com ferocidade e bends arrepiantes. Ah, e não esquecemos de “Lipstick Traces”, uma linda balada instrumental criada por Schenker para homenagear sua eterna companheira Flying V. Conta a lenda que essa canção foi gravada com Schenker tocando a guitarra com os pés!!! Uma obra-prima, regada a guitarras dobradas, ótimas sessões acústicas, riffs eternos e vários clássicos do hard. Quatro de dez participantes votaram nele na edição voltada a 1974, eu inclusive. Teria entrado se não houvesse sido convidado um retardado bipolar para participar, ou se o André tivesse participado naquela feita. Uma lástima perfeitamente corrigida pelo professor de inglês. Valeu, meu caro!

Ronaldo: Quando os objetos voadores não identificados decidiram sair da estratosfera e passaram a voar mais próximo do solo, tudo ficou mais claro e apreciável. Do início no space rock até Phenomenon, a evolução da banda em suas composições e na interpretação foi uma exponencial. Baladas lindíssimas e rock poderosos, com alguns dos mais bem construídos solos de guitarra de toda a década de 1970. Uma ausência injusta na série, bem corrigida por esta indicação.

Ulisses: Baita álbum, com qualidade consistente do começo ao fim. Tudo bem que as faixas indispensáveis sempre foram “Doctor Doctor” e “Rock Bottom”, mas ouça com atenção e note que composições como “Time on My Hands” e “Queen of the Deep” deveriam ser mais reconhecidas. O mais interessante é observar a diferença entre o space rock dos dois primeiros álbuns e este, que veio de um hiato de três anos após UFO 2: Flying (1971) e conta com Schenker batendo o pé na porta com seus riffs musculosos, levando a banda a uma direção roqueira diferente, mas que deixaria sua marca indelével no desenvolvimento do hard rock.


Meat Loaf – Bat Out of Hell (1977)

André: Ainda tenho muita coisa para conhecer desse gordão, mas seu clássico Bat Out of Hell é uma de minhas óperas-rock favoritas, porque esse sujeito não se leva a sério no disco todo. Aqueles “uuuhhhs” das mocinhas parecem bem bregas, o piano então parece que foi tirado de um sample dos anos 1950. Por sinal, o disco se esforça ao máximo para soar brega e fora de moda, mas é tudo tão bem feito e divertido que se torna bom. A interpretação vocal de Meat Loaf então, é de alguém se entregando de corpo e alma à música. O álbum tem uma história longa demais para ser contada aqui, mas vale a pena conhecê-la. Para alguns, o disco pode soar datado, todavia ele exala bom humor e diversão do início ao fim, e isso é o que vale para mim.

Alexandre: Disparado o álbum mais bem sucedido desta série de esquecidos, vendendo dezenas de milhões de cópias, o que por si só já é um predicado mais do que justo para ser citado em uma lista de melhores. Além disso, é bem tocado, bem cantado, nada fora do lugar. Uma pitada de Queen, outra de Bruce Springsteen, entendo que são influências para o disco. O sax em “All Revved Up With no Place to Go”, o piano de várias canções, como “You Took the Words Right Out of My Mouth”, os backing vocals grandiloquentes, tudo isso remete ao Queen, a Bruce Springsteen. Nada disso me motiva, mas não é ruim, de forma alguma. A citação lírica associando o desenrolar de um jogo de beisebol ao avançar de uma experiência sexual adolescente em “Paradise By the Dashboard Light” até que é bem sacada. O que me incomoda um pouco é a dramaticidade em excesso, ou, usando um termo mais pejorativo e atual, essa “sofrência” (desculpem-me pelo linguajar chulo, mas foi maior que eu). Assim, ouvir Bat Out of Hell novamente talvez significasse mudar uma opinião anterior já meio desfavorável. Continuo tendo a mesma, não é algo que me conquistou. Ou seja, não o citaria, embora haja coisas em 1977 bem piores. Não questiono a lembrança pelos inegáveis números que o disco atingiu. Portanto, é uma citação correta.

Bernardo: Todo o exagero dos anos 1970 em um disco no qual Meat Loaf desfila hit atrás de hit: a faixa-título, “You Took the Words Right Out of My Mouth”, “Two Out of Three Ain’t Bad”, “Paradise By the Dahboard Light”… a cara da época, cafona que só, mas igualmente marcante. Não sou apaixonado, mas dá para cantar junto várias coisas.

Christiano: É uma ópera-rock agradável. Em muitos momentos, percebo muita influência do produtor, Todd Rundgren. Não consigo, no entanto, achar grandes qualidades no disco. Sei que é muito conceituado, mas não “bateu”.

Davi: Disco classicão que realmente merecia ter aparecido na relação dedicada a 1977. Há momentos dramáticos, momentos épicos, momentos rock ‘n’ roll, momentos pop. Está tudo misturado com grande categoria neste álbum. Em alguns momentos, remeteu-me a Billy Joel (por conta do trabalho de piano). Em outros, a Bruce Springsteen. Achava que estava meio maluco, mas fui pesquisar e vi que alguns músicos dele participam do disco, então acho que faz um certo sentido. “You Took the Words Right Out of My Mouth” é minha preferida, de longe, mas há que se citar “All Revved Up With No Place to Go”, com a luxuosa participação de Edgar Winter, além da belíssima faixa-título. Ótima lembrança!

Diogo: Esta é mais uma das boas lembranças do André, tanto por sua grande importância ao atingir dezenas de milhões de pessoas quanto por sua qualidade. A soma das composições dramáticas de Jim Steinman, da produção grandiosa de Todd Rundgren e da interpretação única de Meat Loaf resultou em um álbum que levou a extremos o que vinha sendo feito em termos de ópera-rock. Há evidente inspiração em Born to Run (1975), na época o disco mais recente de Bruce Springsteen, tanto pela dramaticidade quanto pelo estilo de produção “wall of sound”, sem falar na paixão que Meat Loaf evidencia em seus vocais, que parece brotar não apenas de seu coração e de seus pulmões, mas de suas tripas, de sua virilha… as composições de Steinman ainda não são tão “wagnerianas” (referência ao compositor alemão do século XIX Richard Wagner) quanto viriam a ser, mas já evidenciam seu tino para o lado mais épico da música pop. Não à toa, muitas faixas tornaram-se presença constante nas rádios desde então, pois o cara tem a manha para criar estruturas memoráveis. Minha preferida é a balada “Two Out of Three Ain’t Bad”, mas a faixa-título e “Paradise By the Dashboard Light”, trabalhadas no hard rock, também são belíssimas. Todo o álbum, na realidade, é muito bom.

Fernando: Tenho uma tremenda curiosidade de entender mais como um cara, que aparentemente saiu do nada, fez um disco tão bom, alcançou um sucesso gigantesco e praticamente caiu no esquecimento em pouquíssimo tempo. Tenho os dois primeiros volumes de Bat Out of Hell e gosto muito de ambos – o segundo foi lançado mais de 15 anos depois. Sei que a carreira dele não se resume a esses discos, mas são os que ficarão na memória das pessoas.

Flavio: Meat Loaf enfatiza no rock temático, calcado nas ideias de um homem morto em um acidente de carro a caminho do inferno. Com a produção usando e abusando de sintetizadores, pianos e teclados, o álbum flerta com um conceito ópera-rock, influenciado provavelmente pelo Queen, reforçado pelo estilo acentuado de vibrato vocal gritado de Meat Loaf. Coros fortes espalhados aqui e ali, uma balada chatinha (“Heaven Can Wait”) e uma música com introdução que parece ter saído de uma vinheta/abertura do programa “Saturday Night Live” (“All Revved Up with No Place to Go”) e que, coincidentemente, menciona o dia (sábado) na letra. Juro que não consegui entender como este disco vendeu horrores, em um sucesso absurdo. Desculpe-me André, este não desceu…

Mairon: Outra escolha acertadíssima do André. Este disco vendeu quase 50 milhões de cópias até os dias de hoje (pode isso, Arnaldo?) e, assim como Rumours (Fleetwood Mac) e a trilha sonora de  “Saturday Night Fever”, é um dos três álbuns lançados em 1977 a figurar na lista de mais vendidos de todos os tempos. O disco é uma ópera-rock com inspirações de Elton John a The Who, com piano em destaque junto a guitarras pesadas e aquela levada característica da segunda metade dos anos 1970. A épica faixa-título, com seus nove minutos, é um resumo de todo o álbum, apresentando além disso grandes vocalizações femininas. Tem bons momentos, principalmente “All Revved Up With No Place to Go”, com a importante participação do saxofone de Edgar Winter, e o superclássico “Paradise by the Dashboard Light”, talvez a principal canção da carreira do gordinho. Confesso, porém, que não sou um admirador do álbum. Muito disso porque acho que Meat Loaf exagera nos vocais tremidos (“Heaven Can Wait” e “For Crying Out Loud” são um bom exemplo). Além disso, há coisas brabinhas, do nível de “You Took the Words Right Out of My Mouth (Hot Summer Night)” e “Two Out of Three Ain’t Bad”. Tenho Bat Out of Hell II: Back Into Hell (1993), mas, curiosamente, nunca vi o primeirão para vender. Se visse, só levaria para casa por um preço muito em conta. Pela história que ele teve, entretanto, merecia sim aparecer na edição voltada a 1977.

Ronaldo: Uma espécie de Jesus Christ Superstar (1970) tardio, o disco tem todo aquele climão de musical da Broadway – melódico, enérgico, pegajoso, empolgante. As composições e os arranjos (há participações de orquestra, coral, piano, saxofone, diversidade de teclados) são extremamente funcionais e nisso percebe-se os dedos de uma fera da música norte-americana do período – Todd Rundgreen. Pop eclético com a energia do hard rock. O disco é uma salada de estilos, no qual você pode ouvir coisas que remetem a Queen, Suzi Quatro, David Bowie, Beach Boys, Bruce Springsteen e Harry Nilson.

Ulisses: Soa como um casamento entre o rock e o estilo dos musicais da Broadway, encontrando enorme sucesso com suas composições exageradas e cheias de humor. A extravagância do álbum é quase um gênero próprio, mas funciona bem porque, independentemente de gostar dele ou não, é impossível não enxergar os méritos da parceria entre Loaf, Jim Steinman e Todd Rundgren (baita guitarrista, aliás, vide a faixa-título). Assim, é um álbum que dá para ouvir de cabo a rabo e se divertir.


Dark Star – Dark Star (1981)

André: Banda bem desconhecida da época da NWOBHM. Lembro que a botei em primeiro lugar na minha lista voltada a 1981. Havia acabado de conhecê-la e adorado. É um heavy metal bem britânico, que me lembrou uma mistura do instrumental do Raven com o estilo vocal do Tygers of Pan Tang. Passou totalmente despercebido na época. Pergunto-me, entretanto, como um disco tão bom, ao melhor estilo NWOBHM, ficou tão relegado ao esquecimento, mesmo entre os fãs da dita época. Destaco principalmente “Kaptain America”, “Lady of Mars” (lembra muito o UFO), e “Lady Love” como as faixas de maior qualidade. Fica uma dica para os consultores conhecerem e ver o que acharam. A versão remasterizada vem com músicas da época de sua primeira demo que lembram bastante o Def Leppard e o já citado Tygers. Dessas, destaco a hard rocker “Carry On”.

Alexandre: Um disco de fundo “arqueológico”, eu diria. Nunca havia ouvido falar da banda. Pelo que entendi, ela não foi muito além deste álbum. Os músicos, pelo que consta, também não se destacaram em outros projetos. Ou seja, é como desenterrar um tesouro perdido. Esse tipo de tesouro, no entanto, encontra-se em vários outros exemplos da segunda metade dos anos 1970 e no início da década de 1980. Desta forma, não o considero memorável ou digno de destaque. Um pouco diferente do resto do álbum é a balada acústica “The Musician”, bem sacada, bem legal. Não gostei muito do vocal principal, achei meio fraco. Em alguns momentos, entendo que o cara deu uns chutes meio “na trave”. Há, contudo, belas guitarras dobradas, como em “Lady of Mars” e “Lady Love”, e solos principais divididos, como em “Rockbringer”. Embora tenha restrições com o vocal principal, achei os backings legais, quebrando um senhor galho para ajudar o tal Rik Staines. Acabei gostando também de “Green Peace”, uma baladinha meio óbvia. O estilo ajuda e, como eu curto essa cena New Wave of British Heavy Metal, que traz evidentes outros exemplos melhores (Maiden, Saxon…), o disco passou fácil. Não sei se serve para a edição abrangendo 1981.

Bernardo: Um derivativo de tudo que aconteceu na virada dos anos 1970/80 em matéria de rock pesado, não especialmente ruim, mas também não especialmente empolgante.

Christiano: Boa banda dos primórdios da NWOBHM. É interessante notar a conexão que as composições ainda tinham com o hard rock da década de 1970, fato que fica bastante evidente na primeira faixa, “Kaptain Amerika”, e escancarado em “The Musician”, uma balada meio country acompanhada por uma bateria robótica e com timbre totalmente inapropriado. O restante do disco, contudo, é muito bom, com destaque para a ótima “Lady of Mars”.

Davi: Banda do movimento NWOBHM. “Lady of Mars” é sua musica mais famosa. Foi escolhida para aparecer na cultuada coletânea Metal For Muthas II (1980). Minha preferida, contudo, é “Backstreet Killer”, que conta com um belo riff de guitarra. Simples, porém empolgante e com fortíssimas influências setentistas. Durante a audição, pegamos referências de bandas como Thin Lizzy e Tygers of Pan Tang. Entregam um som pesado (para os padrões da época), melódico e bem construído. Audição bacana, embora não seja uma banda que eu ame…

Diogo: Para não dizer que nunca havia ouvido falar, lembro da citação que o André fez a este disco na edição da série voltada a 1981. De cara, o que fica mais evidente são as referências aos artistas que talvez tenham inspirado a composição das faixas. “Lady of Mars” remete ao UFO, enquanto “Lady Love” é a cara do Thin Lizzy e “The Musician” lembra um pouco as baladas do Bad Company com algo do Loggins & Messina (!). Essas três, ao lado de “Backstreet Killer” e “Green Peace”, são as melhores do álbum, que não é um primor de originalidade, mas não merece ser ouvido apenas uma vez e esquecido. Incomoda bastante o fato dos vocais terem sido deixados enterrados pela má mixagem. Parece que o vocalista estava lá em um cantinho escondido, enquanto o resto da banda ocupava a totalidade da sala. Tenho certeza de que uma produção mais caprichada e uma mixagem decente dariam um belo gás a este álbum, que é bom, mas tinha potencial para ser melhor.

Fernando: Sei que é difícil falar em disco clássico sendo ele tão desconhecido do grande público. Um dos requisitos para ser considerado um clássico, afinal, deve ser a aclamação popular, não? Dark Star, entretanto, é um dos primeiros discos que aparecem quando o ouvinte começa a se interessar pelo heavy metal mais underground dos anos 1980, principalmente pela NWOBHM. Ainda não consegui adquiri-lo para minha coleção, mas um dia eu pego.

Flavio: A banda pertenceu ao movimento NWOBHM, porém não se estabeleceu ou obteve sucesso, como outras do estilo. O Dark Star traz no seu homônimo e primeiro disco um heavy metal bem básico e limitado, que às vezes me lembra até o início do heavy metal brasileiro. A produção é bem ruim, o que ajuda a levar o som um pouco para trás em relação às bandas afins da mesma época (Iron Maiden, Saxon). O vocal está perdido atrás do instrumental, principalmente da bateria e da guitarra, que estão em primeiro plano. As composições também não me ganham, nem o instrumental. Acabo tendo a impressão de um disco bem amador e, para piorar, encontro trechos em que o limitado vocal de Rik Staines chega a desafinar. Então não sobra nada para destacar. Preciso entender o que fez com que o André escolhesse este disco…

Mairon: Cara, de onde o André tirou essa banda? Nunca havia ouvido falar, e gostei do que ouvi. Metal na linha de nomes como Judas Priest e Thin Lizzy (“Lady Love” é muito Thin Lizzy), um pouco mais pesado do que isso, com um vocalista mediano, mas com boas linhas de guitarra. Apreciei o vigor de “Kaptain America” e “Louisa”, os violões setentistas de “The Musician” e a construção sombria do dedilhado de “Green Peace”. É uma banda um tanto genérica, principalmente em faixas como “Backstreet Killer”, “Lady Killer” – a melhor delas – e “Rockbringer”, mas gostei bastante do disco. Não acho que seja digno da série, não vejo espaço para ele na boa lista voltada a 1981 (talvez no lugar do Black Flag), mas foi bom conhecê-lo.

Ronaldo: Não sei de que cartola tiraram esta banda, mas é uma surpresa positiva. Disco pesado, intenso e com muita garra; passa longe de originalidade, mas sim de fidelidade incondicional a um estilo de hard rock que naquelas alturas já havia se consolidado. Frequentemente criticaria discos como este; contudo, a banda cozinha todos os elementos do hard rock com muita destreza e tem composições acertadas. A produção sonora, infelizmente, deixa a desejar, mas pode até ser um charme extra para a galera da NWOBHM. De resto, todo o instrumental é de boa qualidade e os vocais idem.

Ulisses: Jamais havia ouvido ou sequer visto alguma menção sobre esta banda. Fazem um som tipicamente NWOBHM, mas com um vocalista bem mediano. “The Musician” é uma balada bem legal, e as guitarras de “Rockbringer” e “Lady Love” valem pelo álbum inteiro. Fora isso, não sei o que é que o André vê (ou escuta) de tão bom neste disco. Não trocaria nem Music from “The Elder” (Kiss) na edição dedicada a 1981.


Anihilated – The Ultimate Desecration (1989)

André: Eles são aquilo que o Slayer deveria ser mas não é. Sim, o pessoal fã da banda do carecão vai me matar, mas a verdade é que nunca fui lá muito fã de King e companhia, mas quando escutei The Ultimate Desecration, do Anihilated, percebi que eles eram o Slayer que eu gosto. Thrash metal pesado e furioso, e lamentavelmente também bastante desprezado. Fiquei de cara quando descobri que eles são britânicos. De fato, o sotaque é muito estranho para ser de mais uma banda da Bay Area. Este disco é muito bom, ainda mais considerando que o thrash metal nunca foi o forte da Inglaterra (tem o Onslaught, mas é só). A instrumental “Desolation” inicia o álbum, que segue com os mesmos riffs em “Into the Flames of Armageddon” outra bela paulada. Há ainda um senso melódico em “Lost Souls” e uma violenta pancadaria em “No Rest for the Wicked”. O álbum é forte, mas não conseguiu aparecer em meio a outros medalhões que existiam no mesmo período. Mais um para o pessoal conhecer e dizer o que achou.

Alexandre: Um álbum meio tardio, lançado pelo menos uns cinco anos após clássicos como Ride the Lightning (Metallica, 1984) darem as caras. A referência ao disco do Metallica e aos trabalhos do Slayer é muito clara. Não é nenhuma novidade absoluta, mas o considerei muito bom, no estilo thrash inicial característico da Bay Area. Normalmente, crio caso com cantores mais agressivos, mas, embora não morra de amores pela performance do tal Simon Cobb, considero que o vocal é bastante adequado ao estilo. A clareza do vocal agressivo se destaca de vários outros trabalhos mais pesados que tive a oportunidade de ouvir, cujo vocal vomitado põe tudo a perder. Essa é uma das boas virtudes deste álbum. Gostei bastante dos riffs despejados pelo guitarrista, ainda que a lembrança do que foi gravado pelo Metallica seja muito forte em algumas canções. Em “Skinned Alive”, por exemplo, tanto o início quanto um trecho intermediário são a cara do já citado Ride the Lightning. Alguns trechos de harmonias de guitarra poderiam ter sido melhor evidenciados na mixagem, pois ficaram um pouco baixos. No fim das contas, tá aí uma pancadaria que eu gostei de ouvir. Cito “Internal Darkness”, mais trabalhada, como aquela que mais me agradou. Boa escolha, poderia ter substituído alguns na edição dedicada a 1989.

Bernardo: Parece uma música de 40 minutos. Em alguns momentos, até bati o pé e a cabeleira junto, mas, no geral, não caiu muito nas minhas graças não.

Christiano: As influências do Slayer são descaradas. Isso não é um problema. Triste é perceber o baterista suando para emular Dave Lombardo, mas sofrendo algumas câimbras durante a performance. É um bom registro de um grupo de thrash metal, nada além disso.

Davi: Sssssssssssssssssssssssssslaaaaaaaaaaaaaaaaaayeeeeeeeeeeeeeeeeeeerrrr. Essa é a primeira referência que encontro. Nítido desde o início do disco. “Skinned Alive” soa como uma sobra do grupo de Tom Araya. Mesmo tipo de riff de guitarra, de levada de bateria, de linha vocal. O mesmo acontece em “Lethal Dose” e “Legacy of Hate”. Isso está longe de me desagradar, já que eu sou um grande fã do Slayer. Há dois pontos, porém, que me incomodam. O fraco trabalho vocal de Simon Cobb e a mixagem pobre. Guitarras sobressaindo-se nos falantes, bumbo e baixo sem definição, som de prato sem brilho. Foi legal saber que nos anos 1980 já existia um clone do Slayer, mas ainda fico com o original.

Diogo: Esses ingleses comeram Hell Awaits (Slayer, 1985) com farinha e foram lá gravar o disco. Não contentes, os caras batizaram o chá das cinco com uma dose de Reign in Blood (1986), pois “Enter the Realm” chega a lembrar uma mistura de “Postmortem” com “Reborn”, ambas presentes no maior clássico do grupo de Los Angeles. Falta uma boa dose de técnica para que o baterista possa emular Dave Lombardo, mas, tirando isso, o resultado é muito bom, divertido mesmo. É algo evidentemente de terceiro escalão para baixo, mas isso não tira o mérito desse quarteto. E tome armageddon pra cá, nuclear winter pra lá, todo aquele vocabulário típico do thrash metal, além dos clichês musicais, como as “guitarras deslizantes” (ouça “Skinned Alive” e “Lethal Dose”) e os vocais vociferados. A produção é meio tosca para um álbum lançado em 1989, mas até que não prejudica a apreciação. Gostei da indicação e vou atrás de mais material do grupo. Originalidade é bom, mas não há nada mais importante do que provocar uma reação positiva no ouvinte, e isso o Anihilated conseguiu com sobras.

Fernando: A Inglaterra não é lá uma grande fonte de bandas de thrash metal. Claro que existe o Sabbat, o Onslaught e outras menos conhecidas. Ao escolher o Anihilated, acho que o André teve mais a intenção de nos indicar um bom disco do que eleger algo que mereça entrar em uma série como esta. Gostei do que ouvi, pretendo escutar e saber mais sobre os caras. Se fosse para escolher um disco de thrash metal inglês para entrar na série, entretanto, acredito que teria pelo menos duas opções melhores: o Sabbat, com History of a Time to Come (1988), e o Onslaught, com The Force (1986).

Flavio: Ao ouvir este disco, encontro elementos básicos de thrash metal, típicos do início do movimento. Ao verificar o ano de lançamento, porém, a surpresa é que ele ocorreu quase na década de 1990, quando o movimento já estava mais do que consagrado e evoluído (vide …And Justice for All, 1988, do Metallica). A cozinha faz o típico do acelerado estilo. Destaco também um bom trabalho de guitarra, tanto em bases quanto nos solos, mas o vocal me afasta de qualquer tentativa de apreciação. Bom apenas para os fãs do estilo e do tipo do vocal.

Mairon: No espaço dedicado aos anos 1980, a lista do André apelou para os metais pesados. Daqueles que ele nos apresentou, o Anihilated eu já conhecia. Thrashzão dos bons, apesar de alguns não o definirem como tal. A sensacional instrumental “Desolation” é apenas o início de 43 minutos muito dignos de audição, assim como a interessante vinheta instrumental de encerramento, chamada “Exeunt”. Bons solos de guitarra em “Lost Souls”. As linhas de guitarra me lembraram muito o Slayer, principalmente em faixas como “Skinned Alive”, com sua variação de rápido para dedilhado, “Lethal Dose” e “Legacy of Hate”. Gostei de “Into the Flames of Armageddon” e da palhetada furiosa de “Enter the Realm”. Só não gostei muito de “Internal Darkness”, meio prepotente, sei lá. Uma pena que o batera seja tão fraquinho, pois as músicas poderiam ser bem melhores. Não sei se pegaria a vaga do Pixies ou do Morbid Angel (aqueles dos quais menos gostei na edição abrangendo 1989), mas é um belo disco.

Ronaldo: Muita velocidade, peso e intensidade. Algumas interessantes passagens de guitarra e inusitados jogos vocais. As faixas são muito variadas, mas o estoque de variações se esgota lá pelos 15 minutos. A partir de então, é território só para adictos do estilo.

Ulisses: O nome lembra o thrash canadense da banda de Jeff Waters, mas o estilo desses britânicos prefere seguir uma via mais próxima do Slayer. É tudo bem tocado, como se exige de um grupo do estilo, mas falta vigor nas composições, um tanto quanto genéricas.


Harem Scarem – Mood Swings (1993)

André: Lembro-me bem de quando escutei este disco pela primeira vez, no fim da minha época de faculdade. Foi um período em que eu andava louco atrás de bandas AOR. Adorava Journey e Foreigner e estava ouvindo tudo o que achava do gênero. Foi bater o ouvido naquelas guitarras mais pesadas que o normal do estilo junto a um senso melódico maravilhoso e um vocalista com uma voz poderosa e já era. O Harem Scarem fisgou-me e simplesmente amo quase tudo o que ouvi desses canadenses. No mais, eu me pergunto se há alguém fã da banda que seria contra eu indicar justamente Mood Swings como seu melhor representante nesta seção? Creio que não preciso argumentar a favor do melhor disco deles e um dos melhores do hard rock já gravados.

Alexandre: Olha, eu já andei desancando algumas bandas no estilo mais hair metal na série. Bandas como Steel Panther e Crashdïet apareceram em determinadas edições e foram invariavelmente castigadas por mim. Neste caso, é exatamente o contrário, gostei muito do que ouvi, que me remete aos poucos momentos do estilo que eu curto, mais calcado em bandas como Europe e Extreme (este em especial). Há traços da fase platinada do Whitesnake nas baladas, por exemplo. E do Def Leppard, que eu curto um pouco menos, talvez certo exagero, principalmente nos backing vocals e em alguns teclados. Os tais exageros, porém, não comprometem o resultado final. Tudo isso com um excelente vocalista, que me lembra dos timbres do ótimo Jeff Scott Soto (Yngwie Malmsteen, Journey etc.), belas faixas e um excepcional guitarrista. Pete Lesperance faz chover durante todo o álbum, música atrás de música. Um talento que deveria ter um reconhecimento muito maior. Nunca havia ouvido falar da banda, muito menos dele. Está aqui um caso clássico de um álbum lançado de forma tardia, quando talvez já não houvesse espaço para o estilo. Para mim, a surpresa mais positiva desta lista. Em um álbum praticamente sem pontos fracos, destaco “Saviors Never Cry”, a baladinha “Stranger than Love”, “Jealousy”, com uma pegada diferente de guitarra, voltada para o blues, e “No Justice”, minha favorita. A única faixa um pouco desnecessária é “Just Like I Planned”, uma mistura de vozes a capella que abusa um pouco das camadas pasteurizadas. Ficou artificial demais. De resto, é parabenizá-lo pela escolha, André, e muito obrigado pela dica!

Bernardo: Um dos únicos discos desta edição que não consegui terminar. Tem gênero que não é minha praia, mas AOR sinceramente me dá alergia.

Christiano: Disco bem legal. É um hair metal muito bem produzido, tão lapidado em estúdio que chega a soar meio pasteurizado. A primeira faixa, “Saviors Never Cry”, é bem agradável, assim como “Empty Promises”. O excesso de baladas e de refrãos repetitivos, infelizmente, acaba tornando a audição cansativa.

Davi: Gosto bastante desta banda. Também… sempre fui um grande admirador do hard rock dos anos 1980, mesmo da galera mais comercial. Este é o segundo LP dos caras. Nessa época, o hard rock já estava saindo de evidência. Talvez por isso não tenham se tornado um nome tão forte quanto o Def Leppard ou o Bon Jovi, pois qualidades tinham de sobra. Em comparação ao álbum de estreia, eles diminuíram um pouco os teclados e aumentaram o volume das guitarras, mas a sonoridade oitentista segue intacta, perceptível principalmente no trabalho vocal. Se você curte aquele hard rock estilo “trilha cigarros Hollywood”, prepare-se para ir às lágrimas em faixas como “Change Comes Around” e “Stranger than Love”. Canções como “Had Enough” provam que Eddie Van Halen já estava criando seus adeptos. “Sentimental Blvd.” remete ao Journey fase Steve Perry. Enfim, um belíssimo disco, mas só recomendo para quem curte essa fase.

Diogo: Mood Swings não ficou tão próximo de entrar na edição dedicada às minhas escolhas quanto Argus, mas também chegou a ser relacionado entre os potenciais candidatos. Trata-se de um dos meus favoritos da década de 1990. Adoro demais a banda. Apesar de alguns deslizes em sua carreira, especialmente no fim da década de 1990, Pete Lesperance e Harry Hess têm as manhas de fazer um hard rock muito melódico e cativante. Quando acertam, é bonito demais ouvir o que sai. O primeiro disco é magnífico, mais puxado para o AOR, enquanto Mood Swings é mais calcado nas guitarras e levemente superior. Harry é dono de um vocal potente em qualquer tipo de canção que se presta a cantar, um dos grandes em se tratando de hard rock. Pete Lesperance é um dos melhores guitarristas do estilo, técnico, cheio de bom gosto e desprovido de muito ego. Trabalha a favor da música e cria solos que acrescentam muito ao resultado, como sua bela intervenção em “No Justice”. Todas as músicas são muito boas, é difícil apontar favoritas. Além da citada, “Jealousy” e “Sentimental Blvd.” (com um refrão pra aquecer o coração do AORzento da carteirinha), cantada pelo baterista Darren Smith, são emocionantes. Também “passo de giro” com “If There Was a Time”, pois a performance de Harry Hess é irrepreensível. Muitíssimo obrigado, André, por ter lembrado dessa grande banda e deste maravilhoso álbum.

Fernando: Mood Swings é um álbum bastante lembrado e de qualidade inquestionável. Chega a ser uma pena ele ter sido precedido de outro discaço. Estou certo de que não absorvi tudo o que ele poderia me passar, porque quando ouço Mood Swings, quero que ele acabe logo para colocar o primeiro, que é um dos melhores álbuns de melodic rock que já ouvi.

Flavio: A maior surpresa e o melhor disco da lista. O Harem Scarem faz um ótimo trabalho em Mood Swings, calcado no “metal farofa” com ótima qualidade, principalmente na guitarra de Pete Lesperance, que sola com grande destreza e criatividade durante a bolacha toda. Ao procurar pontos de referência no estilo, encontro o Extreme, tanto no vocal à la Gary Cherone quanto na guitarra, com trechos parecidos com o estilo de Nuno Bettencourt. Boas composições em todo o disco, com um pouco de exagero nos teclados e nos coros em alguns momentos, o que não deixa de ser típico do estilo. Destaco “Saviors Never Cry” e o single “No Justice” (com um coro meio exagerado), mas o álbum tem bom nível geral, apenas cansando um pouco no fim. Sua falta de sucesso justifica-se apenas pela falência do estilo no momento do lançamento. Ótima surpresa de uma banda que eu realmente não conhecia. Fiquei com vontade de conhecer o restante de seu trabalho.

Mairon: Conheço pouco do Harem Scarem. Até o momento em que ouvi este álbum, achava se tratar de mais uma banda mais do mesmo no AOR. Lembro dos textos que o Diogo Bizotto fez para a coluna “I Wanna Go Back” enaltecendo os canadenses, e de ir atrás deste e do primeiro disco da banda. É um AOR comunzaço, sem defeitos, mas que praticamente 80% das bandas do estilo faziam igual. A diferença principal é que os teclados, com exceção de “If There Was a Time”, não são uma presença marcante, e há algum peso por trás das canções que até torna a coisa mais interessante, principalmente em “No Justice”, com um solo de guitarra em escala egípcia muito bonito. Existem canções que são dose (a baladinha “Stranger than Love”, a estranha mistura de blues com AOR em “Jealousy”, que não funciona) e músicas até interessantes (“Saviors Never Cry”, “Empty Promises”). No geral, o álbum me lembrou bastante Van Halen fase Sammy Hagar. Pete Lesperance emula um Eddie Van Halen falsificado de vez em quando, como em “Change Comes Around” e “Had Enough”, ou até um Steve Vai de Taiwan (para mudar o país da falsificação) na curta “Mandy”. A voz de Harry Hess é muito parecida com a de Hagar. Pelo que entendi, o vocalista que canta “Sentimental Blvd.” é o baterista Darren Smith, que parece Paul Stanley (Kiss) nos seus dias de dor de barriga. Falando em voz, corajosa a atitude de fazer uma canção de três minutos só com vozes, sem nenhum instrumento (“Just Like I Planned”), que achei regular. Bom, é legalzinho e tal, mas acho que não mereceria entrar na série.

Ronaldo: Talvez este disco possa ter algum valor emocional junto a seus apreciadores. As músicas, o instrumental, os timbres e os vocais são todos emprestados de outras bandas. A resultante não emociona.

Ulisses: Já havia ouvido o Harem Scarem antes através de recomendação, com seu álbum de estreia, e o resultado não foi do meu agrado. Deste eu gostei mais, provavelmente pela presença de um pouco mais de peso nas composições. Após ouvir o que Pete Lesperance é capaz de fazer com uma guitarra, fica clara a adoração que muitas pessoas têm pela banda. Ele é o maior responsável por fazer com que faixas como “Saviors Never Cry” e “Empty Promises” sejam memoráveis; isso sem falar nos solos, que são todos ótimos, e no vocal seguro de Harry Hess. Não que eu tenha morrido de amores pela banda – não gosto de nenhuma banda de AOR, fora alguns álbuns do Journey –, mas a audição é legal.


Kamelot – Ghost Opera (2007)

André: Quem já ouviu a banda sabe que eles são únicos. Não é necessário gostar deles, mas não reconhecer que sua sonoridade é MUITO diferente de qualquer coisa que haja por aí com o mesmo rótulo é coisa de quem não os ouviu direito. The Black Halo (2005) e outros já apareceram na série, mas considerei injusto que Ghost Opera, o segundo melhor trabalho deles e um destaque de 2007, tenha ficado de fora. Ainda na mesma inspiração do excelente disco anterior, o Kamelot pegou ainda mais forte na instrumentação orquestrada, porém dessa vez com um trabalho mais melodioso e menos veloz, entregando um trabalho grandioso e variado. Tem “Solitaire” e “Rule the World”, que começa forte, mas que seria ainda seguida da incrível “Ghost Opera”, uma fusão perfeita do heavy metal com orquestra. Talvez uma das melhores faixas do symphonic metal já escritas. Há ainda a emocional e dolorida “Love You to Death” e a excelente “Silence of the Darkness”, uma faixa cuja estrutura se tornou bem típica do Kamelot, algo similar com “When the Lights are Down”, de The Black Halo. Foi o primeiro disco deles que comprei, um dos primeiros da minha coleção e foi bem na época de seu lançamento, o que me faz ter um carinho especial por ele.

Alexandre: Está entre meus eleitos para a edição voltada a 2007, portanto a lembrança é aprovadíssima. Não é o meu favorito, mas sempre enaltecerei que o metal melódico do Kamelot, sem os exageros dos agudos tão comuns ao gênero, tem minha admiração. Ainda prefiro Karma, de 2001, mas como ele já foi citado, novamente o André pinçou um bom trabalho para figurar aqui. Há de se ressaltar que 2007 não tem tantos trabalhos dignos de menção, então é claro que Ghost Opera teria espaço. Os álbuns do Kamelot durante a virada do milênio são todos dignos de menção, e Ghost Opera é mais um desses exemplos, em especial por canções como a faixa-título e a acelerada “Silence of the Darkness”. Minha favorita é a que abre o álbum, “Rule the World”, ligeiramente mais pesada que a grande maioria do restante do material e com intervenções de guitarra de bastante qualidade. Dessa vez, a participação de Simone Simmons em “Blücher” não tem o mesmo destaque de sua aparição no álbum anterior. Em “The Haunting” (de The Black Halo) ela de fato assumiu um protagonismo maior, mas a canção também se destaca. Outro ponto de destaque, em especial pelo refrão, é “Mourning Star”. No fim das contas, o álbum agradará aos apreciadores do estilo “espadinha”, que é alvo de tantas brincadeiras por aqui.

Bernardo: Seguindo o sucesso de The Black Halo, até que Ghost Opera mantém o nível, apesar de não ter a mesma qualidade do auge da carreira do Kamelot.

Christiano: Nunca gostei do Kamelot, mas este disco é bem legal. “Rule the World” é uma ótima música, com Roy Khan mostrando que era um vocalista diferenciado. Outro bom momento é “Blücher”, com um riff pesadão e um clima sombrio. Percebi a presença marcante de guitarras mais pesadas como elemento diferencial do álbum, que me surpreendeu positivamente.

Davi: Essa é a melhor fase do Kamelot. Roy Khan continua sendo meu cantor preferido do grupo e os discos desse período são realmente muito bons. Em Ghost Opera, eles estão mais sombrios do que de costume e continuaram com sua pegada sinfônica. Simone Simmons, a bela cantora do Epica, voltou a aparecer em “Blücher”. Uma participação mais sutil e menos memorável do que em “The Haunting” (The Black Halo). A talentosa e simpática Amanda Sommerville chama um pouco mais de atenção na sua aparição em “Love You to Death”. Os arranjos são muito bem resolvidos, os músicos são de primeira e Roy Khan é um diferencial na cena. O cara cria linhas vocais interessantes, canta com emoção e foge da lógica do falsete que tanto predomina a cena power metal. Embora não supere seu antecessor, Ghost Opera prende a atenção e entrega faixas bacanas como “The Human Stain”, “Up Through the Ashes” e “Silence of the Darkness”. Belo disco.

Diogo: Demorou um bom tempo, mas finalmente captei as qualidades que tornam Ghost Opera um disco especial. Superar The Black Halo seria tarefa quase impossível, então o melhor a fazer era buscar um certo distanciamento, à procura de uma identidade própria para o lançamento seguinte. Ghost Opera foca em canções menos aceleradas, cujas nuances revelam-se aos poucos mas, com o tempo, cativam o ouvinte. Com seu excelente timbre e sua rejeição em explorar demais os agudos, Roy Khan continua sendo o grande destaque, mas toda a banda é muito coesa, bem acima a média em se tratando de heavy metal melódico. Não à toa, o grupo se manteve em alta mesmo depois da derrocada do gênero, após a saturação ocorrida no início da década passada. As melhores faixas concentram-se no início do tracklist, caso de “Rule the World” (minha favorita), com melodias belíssimas e um toque oriental; a faixa-título, alternando bem segmentos acelerados com outros mais midtempo; e “The Human Stain”, com um bom trabalho de baixo e bateria. “Silence of the Darkness” é a que mais se assemelha ao Kamelot de Karma e Epica (2003), também se destacando das demais. Valeu a indicação por finalmente me fazer prestar atenção neste bom disco.

Fernando: Lembro-me de opinar sobre tantos discos do Kamelot que não achava que haveria algum que já não houvesse sido incluído na série. Gosto de alguns de seus álbuns, mas não morro de amores pela banda. Ao meu ver, a grande qualidade deles é terem conseguido participar de um subgênero do metal, no caso o power metal, sem exatamente fazer o que as outras bandas faziam. Sua música é diferente e utiliza outros elementos ao invés de apenas ter um vocalista cantando em tons altíssimos, pedal duplo na bateria e um guitarrista tentando ser Yngwie Malmsteen. Claro que eu posso parecer contraditório falando isso, pois eu prefiro o Stratovarius – que usa e abusa das características citadas acima – do que o próprio Kamelot.

Flavio: Bom disco. Ghost Opera abre muito bem com “Rule the World”. Roy Khan canta sem agudos exagerados, com um agradável timbre. Os teclados estão em boa localização sonora, sem abusos, e também não há excessos de coros operísticos (tipicamente femininos). Ao passar das primeiras canções, começam a surgir pontos que não gosto, como o uso de teclados em tons fortes de cordas, e os tais vocais femininos trazem um tom operístico sinfônico exagerado. Pitadas aqui e ali não chegam a atrapalhar por completo o bom desempenho da bolacha e da banda. Além das duas citadas, destaco também a boa performance de todos em “The Human Stain”. Boa lembrança do André.

Mairon: Acho a capa sensacional. Uma ode ao poder do violino. Infelizmente, esse som não é tão poderoso no álbum, sendo destaque apenas na introdução, a vinheta “Solitaire”. Depois disso, há boas orquestrações e tal, mas violino solando alucinada ou melodicamente?? Nada… o Kamelot apareceu nas edições abrangendo 2001, 2003 e 2005, o que já foi demais. Em 2007, seria o fim da picada. De qualquer forma, apesar de eu ter detestado os anteriores, até que este não é de todo ruim, mas é muito fraco. Tirando as passagens orquestrais de “Rule the World”, que são interessantes, a introdução de “Love You to Death”, e de não ter a bateria na velocidade da luz, é muito ruim. Quando emulam Nightwish, principalmente em “Mourning Star”, dá vontade de chorar.  Quase dormi em “Anthem”. E tem coisas muito chatas. Fala sério, “Up Through the Ashes” é muito sem sal, e os vocais eletrônicos de “Blücher” são ridículos. Foi o único disco da banda que aguentei até o fim, mas nunca que isto seria digno da série.

Ronaldo: A banda e o disco trafegam pela amada e odiada vertente do metal melódico, contudo há bastante originalidade por aqui. Dentre os muitos pastiches possíveis de serem criados a partir da fusão de bandas de rock com orquestras, o álbum traz arranjos muito bem colocados e a liga criada entre os sons orquestrais e as guitarras é admirável. O mesmo quanto à inserção de teclados e de efeitos de guitarra. Outro ponto bastante positivo é que as músicas têm boas doses de groove (um artigo raro de se encontrar nos derivados do heavy metal), com o baixo bem presente. Toda a produção do disco é louvável, com linhas vocais que fogem dos piores clichês do estilo. Apenas a citar sua longa extensão, fato que acaba diluindo a concisão de suas virtudes. Poderia resumir Ghost Opera como um bom disco de metal melódico para quem não gosta de metal melódico.

Ulisses: Talvez o Kamelot soubesse que jamais lançaria um álbum tão bom quanto The Black Halo, então decidiu mexer um pouco no estilo das composições. Acredito que a estreia de Oliver Palotai (teclados) tenha sido o elemento que deixou Ghost Opera com um aspecto mais sinfônico, midtempo e dark do que os álbuns anteriores. “The Human Stain” e “Blücher” têm até alguns toques industriais, mas sem atrapalhar os aspectos que tornaram o Kamelot uma das melhores bandas de seu estilo. O quinteto continuou em boa forma, e a voz de Khan ainda é brilhante tanto em baladas (“Love You to Death” e “Anthem”) quanto nas faixas mais velozes (“Rule the World”, “Silence of the Darkness”). O porém é que as faixas menos trabalhadas ficaram desprovidas de qualquer vigor e soam genéricas – é o caso de “Up Through the Ashes” e “EdenEcho” (apesar de seus vocais de apoio operáticos). Felizmente, são as únicas que não empolgarão o ouvinte.


Hidria Spacefolk – Symetria (2007)

André: Esses finlandeses eram chamados de “cópia do Ozric Tentacles” em seu rock progressivo espacial apenas instrumental. Um tanto injusto, porque acho que eles sempre tiveram personalidade própria, embora seja claro que os nórdicos foram influenciados pelos britânicos. Este disco é uma viagem ao cosmos com base em guitarra, baixo, bateria e muito sintetizador, além de outros instrumentos que volta e meia aparecem. O que me agrada é o fato de me lembrar muito o Ayreon, banda que também adoro, mas faltou espaço para citar aqui. Eu adoro rock espacial com essa pegada futurista e este disco é um dos meus favoritos do estilo

Alexandre: Sem dúvida é um bom trabalho, mas que não me prende a atenção, até porque são pouquíssimos os álbuns inteiramente instrumentais que me cativam. Não tem nada de errado, mas a linha tênue entre a psicodelia/space rock e um som mais eletrônico só não acontece de vez porque (graças aos céus) o baterista toca um instrumento de verdade. Fosse o álbum arranjado de forma eletrônica, estaria eu aqui crucificando tudo que ouvi. Até pelo contrário, gostei bastante da participação do encarregado das “panelas”, em especial pela sonoridade do instrumento. É interessante por conhecer o conjunto, pelo uso de instrumentos inusitados nas faixas intermediárias. O uso de metais em “322” ou o que pareceu ser um acordeão em “Flora/Fauna” são boas formas de alternar os climas entre as canções. No fim das contas, o álbum acabou me cansando um pouco, embora nada tenha a reclamar de seu conteúdo. Destaco as faixas que mais me agradaram, mais pesadas: “Sine”, com uma pegada meio Black Sabbath, em especial no seu início, e a própria faixa-título. Há coisa muito pior que chegou à edição abordando 2007, então não seria um absurdo trocar este álbum por um ou dois que lá estão.

Bernardo: Space rock para fazer você voltar no tempo. “Futur Ixiom” parece coisa do início do Pink Floyd.

Christiano: Muito bom isso aqui. Progressivo instrumental com algumas passagens space rock. As composições são bastante ricas, com mudanças de andamento muito interessantes. Como o nome indica, no meio de toda essa viagem existem uns toques de música folk, o que é mais perceptível em faixas como “322” e “Flora/Fauna”, esta uma das melhores. Não conhecia e gostei muito. Boa dica.

Davi: Não conhecia a banda. Rock progressivo instrumental. Os músicos são muito bons, mas confesso que o estilo dos arranjos me leva a esperar por um vocal. “Futur Ixiom” soa como uma mistura de Dream Theater e Joe Satriani. A levada de “322” me remete ao Rush. Acredito que essas duas sejam as minhas preferidas. O disco começa bacana e depois o nível das composições dá uma caída. “Radien” e “Sine”, as duas que encerram o material, são as mais chatinhas. A banda é ultracompetente, mas não me tornei fã.

Diogo: Rapaz, isso aqui é muito bem tocado, cheio de ideias interessantes e dotado de uma atmosfera espacial que tem tudo para agradar aqueles mais chegados nessa estirpe de sonoridade. Não é o tipo de coisa que eu costumo ouvir nem pretendo começar a escutar com frequência, mas é possível destacar alguns pontos, como o bom uso dos efeitos nas guitarras de Mikko Happo e Sami Wirkkala. Gostei especialmente de “322”, que poderia estar em algum disco lançado pelo King Crimson dos anos 1990 em diante, e da faixa-título, mas confesso de que se trata do álbum que menos chamou minha atenção nesta edição.

Fernando: Nunca havia ouvido falar, mas gostei logo na primeira música. São poucas as bandas que se arriscam na música instrumental e não nos fazem pensar que alguma coisa está faltando. O Hidria Spacefolk é uma delas, pelo menos neste álbum. Se tivesse que eleger um destaque, ficaria com “Radien”, cheia de melodias e riffs marcantes.

Flavio: Talvez o disco mais difícil de analisar desta edição. O Hidria Spacefolk traz em Symetria fortes elementos de rock alternativo e psicodélico, que foram predominantes no fim dos anos 1960 e no início dos anos 1970. Há, porém, o uso e abuso de efeitos mais modernos, principalmente ecos e outros, como flangers, na guitarra e a modulação de ruídos no teclado. As músicas exploram pontos de desconcatenação rítmica, como dois ou mais elementos que não se encaixam em boa parte do tempo, mas em algum momento acabam por se encaixar, algo que remete ao som eletrônico. Não encontrei também nada desafiador no nível técnico de execução, principalmente se considerarmos o ano de lançamento. O que predomina são melodias e harmonias básicas e repetições exaustivas de riffs. Como o disco é só instrumental, também carece de maior dinâmica, já que usa e abusa de repetições e não há outro elemento, como a melodia vocal, para contrastar. Tendo em vista o apontado, não é um trabalho que me cativa, e custou a passar, mesmo não sendo um disco muito longo. Gostei de pontos aqui e ali, mas não aponto nada muito interessante em Symetria.

Mairon: Desconhecia a banda, e confesso que me surpreendi. Um som espacial, que de início me lembrou alguns materiais do Gong, mas com toques de modernidade que reluzem fortemente no cérebro logo na primeira audição e desencadeiam para canções instrumentais de excelente musicalidade. A faixa-título é sensacional, com um pique muito bom. Outra música memorável é “Radien”, alternando momentos de peso e uma presença de moog que é fantástica. Gostei também do ritmo de “Futur Ixiom”, com boa participação do slide guitar, e da delicadeza do acordeão em “Flora/Fauna”. Os melhores momentos, porém, ficaram para a surpreendente participação dos metais na crimsoniana “322”, que quebrou tudo aquilo que eu poderia imaginar para onde a música seria levada, além dos 11 minutos de “Sine”, doideira musical recheada de muitas viagens. Valeu a indicação André, pois entraria fácil na edição voltada a 2007, mas fácil mesmo!!

Ronaldo: O space rock (bem como o post-rock, tão em voga) é um terreno fértil para músicos pouco habilidosos se esconderem atrás de nuvens de sonoridades e efeitos eletrônicos. Definitivamente, não é caso aqui. O Hidria Spacefolk, especialmente em Symetry, é uma blenda perfeita entre sonoridade e musicalidade. As composições são trabalhadas com esmero, polidas em detalhes, variadas, densas e riquíssimas em texturas e timbres. Apesar das fortes influências setentistas, o disco ultrapassa as barreiras do que seria um “retro-rock” e tem feições bem contemporâneas (inclusive por não ter vocais, uma característica bem presente nos últimos dez anos no rock progressivo).

Ulisses: Talvez o álbum mais cabeçudo da lista. Um rock progressivo instrumental e bem sideral, mas sem deixar o peso das guitarras de lado. Tem uma ambiência legal, funciona às vezes, (“Flora/Fauna” e “Sine”), mas não faz esforço para ser memorável. A presença bem utilizada de metais em “322”, dando um jeitão funky ao final da faixa, é uma possibilidade que poderia ter sido expandida para o disco inteiro, para dar-lhe mais vigor. Do jeito que está, o restante da audição não é lá muito fascinante.


Rodrigo y Gabriela – 11:11 (2009)

André: Conheci há alguns anos essa dupla sensacional, que com apenas dois violões faz um som incrível e contagiante. Rodrigo fica nos solos e Gabriela faz a percussão (batendo as mãos no violão) e as bases. Sua trajetória musical começou quando ambos fizeram parte de uma banda de heavy metal formada por Rodrigo chamada Tierra Acida. Eles já eram namorados quando Gabriela entrou para o grupo como guitarrista. Após as tentativas de gravar um álbum fracassarem, a banda se desfez e o casal foi tentar a vida na Irlanda, tocando covers em bares somente com os violões. Depois de um bom sucesso na cena local, também incluíram canções próprias que chamaram atenção de Damian Rice, do grupo irlandês Juniper, que pediu para que abrissem seus shows. Eles foram apresentados para um empresário irlandês, gravaram o primeiro disco e o resto é história. Falando sobre 11:11, o flamenco é o que dá a tônica principal, porém ficam evidentes as influências de rock e heavy metal nas estruturas de suas músicas. Os solos de violão de Rodrigo e os de “percussão” de Gabriela fazem deste álbum uma surpresa agradável em meio a uma cena que anda carente de novidades. Ouça “Logos” e repare se não há uma clara referência ao Metallica? É flamenco rock, é heavy metal e é muito bom.

Alexandre: Um álbum de estilo majoritariamente flamenco para terminar esta interessante lista. Não sou sequer um conhecedor raso dos maiores exemplos do estilo musical em questão, desta forma minha análise é bastante superficial. Considerei 11:11 um disco agradável. Uma das ótimas sacadas foi a questão das homenagens a ídolos nos diversos temas. É bastante claro perceber as nuances das faixas que são dedicadas a Santana, Hendrix e Pink Floyd, por exemplo. Lá estão o uso das harmonias latinas e do pedal wah-wah nas duas primeiras e do slide no solo da faixa-título. Rodrigo e Gabriela são dois espetaculares instrumentistas que eu tive o prazer de conhecer graças a essa indicação. Bastou entender como funciona o trabalho deles ao vivo para perceber detalhes cuja pura audição não é suficiente. Entendo Gabriela como uma profunda conhecedora do estilo flamenco, no uso da percussão tocada no próprio violão, na forma como utiliza a mão direita para entregar a base. É um trabalho que talvez chame menos atenção, mas tão ou mais virtuoso que o de seu parceiro. Já Rodrigo faz uso de palhetas como um instrumentista solo de estilos mais conhecidos (um approach de guitarrista de heavy metal, eu diria) e sola de forma bastante diversa do encontrado no flamenco. É uma mistura que, no fim, traz um ótimo resultado. Como citado, não sou muito afeito a trabalhos instrumentais, mas 11:11 passou tranquilo, sem cansar. Fecha a lista do André com chave de ouro.

Bernardo: Nem é tão deslocado assim do restante da lista do André. A mistura de rock, flamenco e rumba tocada de maneira acústica apresenta uma mistura de texturas que a gente confere em outros exemplos desta edição. Bela indicação, não conhecia.

Christiano: Bem legal. Basicamente, um disco de música flamenca com alguma influência de jazz e rock. Uma das melhores faixas é “Atman”, que conta com a participação de Alex Skolnick. Outro bom momento é “Logos”, um tema curto, mas muito bonito. Gostei do disco. Acho que ganhariam muito se deixassem de usar esse cajón saturado e adotassem outros tipos de instrumentos de percussão.

Davi: Descobri essa banda, bem… dupla, aqui mesmo no site em uma das edições da seção “Consultoria Recomenda”. Se não me falha a memória, foi indicação do próprio André. Trata-se de uma dupla de violonistas mexicanos entregando um trabalho instrumental. Bacana… não dá para negar as influências latinas. “Hanuman” é dedicada a Carlos Santana e apresenta uma levada inspirada no guitarrista. Dá para imaginar Gloria Estefan criando uma letra e cantando em cima de “Triveni”. “Atman”, homenagem a Dimebag Darrel que conta com a luxuosa participação de Alex Skolnick (Testament), é um dos destaques, assim como “Buster Voodoo”, homenagem a Hendrix. Trabalho interessante…

Diogo: O trabalho desses dois violonistas impressiona pela técnica e pela capacidade de conduzir o violão a caminhos menos habituais, além de uni-lo a outros elementos. Isso fica bem evidente na faixa da qual mais gostei, “Atman”, que soaria pesada mesmo sem a participação de Alex Skolnic (Testament) tocando guitarra. “Hanuman” inegavelmente remete ao homenageado Carlos Santana, enquanto “Buster Voodoo” é mais uma a passear por territórios pouco convencionais. Por outro lado, gostaria de mais momentos de delicadeza, daqueles que exploram bem o potencial do violão e não abrem mão da capacidade técnica. Tudo é muito intenso o tempo todo, falta esse tipo de dinâmica para que o álbum respire melhor. Somente “Logos” explora bem esse lado. Não à toa, é uma das melhores.

Fernando: O disco deve ter entrado pelo sistema de cotas do André, de sempre citar algo fora da caixinha. Acho que já havia ouvido isso por recomendação do próprio André. Obviamente, não dá para falar mal de um som desses, que é muito bem tocado e cheio de melodias lindas. Dá uma certa inveja da habilidade que os dois têm ao violão, mas não é algo que eu vá escutar em casa em um domingo de manhã.

Flavio: Bom disco da dupla flamenca, 11:11 homenageia outros grandes das seis cordas, como Hendrix, Santana e Dimebag Darell, com dedicatória listada em cada uma de suas canções. O tom do disco é leve e animado em quase toda sua extensão, com ótimo desempenho dos dois violonistas (entre outros instrumentos) Rodrigo e Gabriela. Muito legal ver a brincadeira que homenageia Hendrix, com o violão usando wah-wah em “Buster Voodoo”, inclusive com execução de um trecho de “Voodoo Child”. Há também um excepcional solo do convidado Alex Skolnick em “Atman”, outro destaque. A bolacha fecha com chave de ouro na bela faixa-título (homenagem ao Pink Floyd), com uma linda participação do pianista convidado Edgardo Pineda Sanchez. Boa escolha do André.

Mairon: Disco lindo dos mexicanos. Conheci-os em uma edição da seção “Consultoria Recomenda” e me apaixonei pela musicalidade. Que mão direita e que ritmo tem Gabriela Quintero, coisa linda! O ex-casal criou canções dedicadas para seus ídolos, e ficam fortes as influências que cada dedicatória tem. Logo de cara, Santana é o nome que nos vem à mente quando ouvimos “Hanuman”. Claro, a faixa é dedicada ao grupo. O ritmo milongueiro de “Master Maqui” é o único que não consegui associar com o homegeado, no caso Paco de Lucía. Os demais são muito fáceis. Para os grandes guitarristas, há “Buster Voodoo” (Jimi Hendrix), “Logos” (Al di Meola) e “Savitri” (Shákti). Para desconhecidos no nosso País, são dedicadas “Santo Domingo” (Michel Camilo), “Chac Mool” (Jorge Reyes) e a linda “Triveni”, dedicado ao trio palestino Le Trio Joubran. Minhas preferidas são o tango agitado de “Hora Zero”, dedicado a Ástor Piazzolla, e a arrepiante homenagem a Dimebag Darrell em “Atman”, com a participação de Alex Skolnick (Testament). Por fim, a faixa-título, dedicada ao Pink Floyd, é um caso à parte, encerrando-se com um tímido e floydiano piano. Quase votei neste álbum, mas acabei deixando-o fora de minha lista voltada a 2009 por mero preciosismo. Uma pena, porque realmente é um grande disco.

Ronaldo: Não tenho conhecimento para afirmar quanto a obra desse duo de violonistas tem de original frente à música latina instrumental. Ambos são ases em seus instrumentos, porém tudo é tratado na base da velocidade e soa monocromático em boa parte do tempo. Interessante pela curiosidade de trazer ao ambiente da música pop uma música com um sabor regional tão marcante. O momento que mais chama atenção é quando os violões desaceleram, como na faixa-título e “Chac Mool”, e no diálogo com um belo timbre de guitarra em “Logos”.

Ulisses: Ouvir dois violonistas por 45 minutos pode parecer chato em um primeiro momento, mas esta dupla que o André tanto ama, e já trouxe em outra oportunidade, é realmente muito interessante. Eles conseguem colocar uma boa diversidade de influências sonoras no decorrer do variado tracklist, de música flamenca (“Master Maqui”) ao heavy metal (“Atman”), além de brincar com o estilo hendrixiano em “Voodoo Buster”. São sons que eu não imaginaria sair de violões. Nas performances ao vivo fica ainda mais impressionante constatar a técnica de Rodrigo e a precisão rítmica de Gabriela.



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6 replies

  1. Fico feliz que tenham gostado da minha lista, mas também digo que as listas do Flávio e a do Alexandre que ainda virá também são as que possuem mais discos que eu elogiei. Por sinal, uma pequena correção: lá na introdução do post está Davi Pascale, mas sou eu hahahahahahahahahahahaha

    Abraços amigos!

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    • Olá André, parabéns pela lista e obrigado por comentar por aqui.

      Desculpe o problema do nome – minha culpa – foi aquela “copiada básica” de estrutura de post anterior. Ajustado!

      Sem dúvidas, há a expectativa pela lista do B-Side, que não tem esse apelido há décadas por acaso… veremos.

      Seja sempre bem-vindo por aqui também.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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      • Eduardo, os discos da minha lista – que deve sair no dia 18, um dia depois do podcast, são álbuns de bandas clássicas, quase todos. Alguns mais conhecidos, alguns realmente menos considerados. Dentro das escolhas de bandas clássicas, então, pode haver um favorecimento para álbuns menos conhecidos, e não todos, isso já dá pra garantir. Ou seja, nada tão Bside assim.
        Alias, eu não sou tão Bside assim como voces apregoam, acho que há um certo exagero nisso….

        Alexandre

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    • André, legal sua participação por aqui. É inegável uma certa aproximação entre boa parte de nossas apreciações, ainda que alguns desses álbuns acima eu sequer tinha ouvido falar. Sua lista me agradou bastante, e mais uma vez contribuiu para maior conhecimento,o grande plus desta e da outra série.

      Saudações,

      Alexandre

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  2. Da pra conhecer a banda por estes destaques? Me pareceu algo viável pra mim
    destaco “Saviors Never Cry”, a baladinha “Stranger than Love”, “Jealousy”, com uma pegada diferente de guitarra, voltada para o blues, e “No Justice”, minha favorita.

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    • Bem, o Rolf aqui está tecendo comentários acerca do Harem Scarem, realmente uma ótima banda, pelo menos por este álbum citado pelo André.
      Essas faixas citadas pra mim são uma boa porta de entrada, mas se tiver de escolher uma, vá por Saviour Never Cry mesmo, a que abre o álbum, e que já despertou interesse meu bem na saída, pelos riffs do guitarrista Lesperance.
      o single No Justice também merece uma checada.
      Se por aqui não agradar, talvez o restante do álbum não o faça também.

      Alexandre

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