A festa das empresas de ingressos: queremos regras, transparência e auditorias!

O assunto está longe de ser uma novidade por aqui no blog e, na verdade, em qualquer lugar quando se fala de shows. Já abordamos o tema em diversos posts e podcasts, e até já apoiamos uma ótima campanha do Ingresso Justo mas que, infelizmente, não teve ainda força suficiente para fazer algo.

A verdade é que já se foi o tempo onde comprar um ingresso causava primariamente uma sensação de felicidade. Já há algum tempo, a sensação é de ALÍVIO por conseguir – isso contando que o processo aconteça sem muitos problemas, ou pelo menos alguns “soluços”.

Ingresso_RockInRio1985_1O problema não é apenas local (Brasil), mas sim global. As empresas que trabalham neste (não regulado como deveria ser) usam e abusam de práticas “legais” e acham a cada dia brechas e brechas para se aproveitarem, e como em qualquer cadeia econômica, a corda sempre estoura para o último nó: o consumidor final. Podem notar: cada show é uma novidade! A cada show, além do recorrente problema de falta de infraestrutura especialmente online para a compra de ingressos (isso porque pagamos a tal taxa de (in)conveniência), temos normalmente um novo nome de empresa – um achado destes mega grupos para não queimarem suas marcas – e novos problemas.

Falando um pouco da situação no nosso país, é difícil listar realmente a quantidade de inconvenientes hoje em dia para se assistir a um show. Primeiro, aquela sensação citada acima de ficar sem um ingresso por conta de um problema de infraestrutura online. Os sites muitas vezes não funcionam adequadamente – não estou dizendo apenas de um problema de capacidade de servidores, mas os próprios formulários para um simples cadastro de endereço muitas vezes falha. Tem o problema com os cartões e dupla, tripla cobrança quando se clica no “finalizar” e vem aquela sensação horrorosa de não saber se vai dar certo. Pior ainda é se não mostra nada – ou mostra um erro “x” – que faz o coitado do fã, com medo, repetir o processo e depois ter que resolver a situação com a operadora do cartão – se conseguir.

A questão do preço é a pior de todas neste processo. Não há, pelo jeito (gostaria que alguém com propriedade me ensinasse aqui se há algo), regras formais estabelecidas. É uma terra sem leis. Preços são praticados e spreads voam daqui para ali na maior cara de pau. Ok, há a questão da logística e variação cambial, além das diferenças que são compensadas através de patrocínios (principalmente os grandes festivais), mas o problema é que a coisa não é nada clara. E como não há (estou inferindo que não há pela falta de clareza ao público, mas ficaria feliz em saber que há) processos de auditoria para regular e controlar este mercado, Estou falando de auditorias regulatórias, externas e independentes, de uma das Big 4 do mercado (infelizmente não é o Big 4 do thrash metal o assunto aqui no momento), por exemplo. Se há, por gentileza, CADÊ?

Uma vez que se vence e há o alívio da compra, fazemos as contas. É muita coisa errada em um ingresso. Para começar, a falta de clareza em como foram compostos os valores.Depois, a capacidade do local e a disponibilidade. Nunca se sabe, de verdade, a capacidade e a taxa de ocupação.

Aí vem a taxa de (in)conveniência, um mar de aproveitamento “legal” que daria pelo menos um post dez vezes maior que este apenas para discussão do assunto com profundidade. Cada hora, é uma taxa praticada. É um mar de oportunidades aos oportunistas – e amigo, esteja certo: estamos sendo cada vez mais explorados. Aí vem a falta de clareza sobre a questão da meia entrada x quantidade. A venda de um show para 70.000 pessoas (chuto eu) está aberta e quer dizer que 3 minutos depois não há meia para uma pista VIP? E, pasmem: agora começou-se a falar que haverá cobrança da tal taxa para os que comprarem nas bilheterias da própria casa do show! É isso mesmo que você leu, pode acreditar. Ou seja, se temos a taxa para pagar os “canais” online e canais adicionais, QUAL A JUSTIFICATIVA DESSA VEZ, a não ser encher os caixas dos organizadores?

Aí entramos na questão dos setores. Caramba, outro oceano. Muitas vezes somos levados a “consumir” um setor para termos o que todos deveriam ter: um mínimo aceitável de qualidade e infraestrutura. Xiii, vamos falar de infra também? Banheiros, estacionamentos x precificação deste, preços dos bares, horários não cumpridos e não claros nos ingressos, problemas com transporte (principalmente na volta e especialmente com transporte público e taxis fazendo a festa sem fiscalização), etc? Mas voltando ao assunto dos setores, tivemos a consolidação de pista VIP, frequentemente temos setores “inventados” como “pista golden” ou outras “maluquices gourmets” (que nada têm de gourmet, convenhamos) que nos fazem gastar dinheiro muitas vezes sem querer para ter certeza que estaremos perto dos nossos heróis no palco. Nem uma capa de chuva vagabunda de plástico se ganha em uma pista VIP, caramba.

Caramba… e quando temos uma falha na estratégia de vendas e o show vai encalhar? Aí temos os fãs fiéis pagando mais, claro, porque para não se ter prejuízo, ingressos de shows vão parar em sites de vendas de ofertas com milagrosos “compre 1, leve 2”. E você, otário que comprou antes, problema seu. E nem vamos falar de pré-vendas por aqui…

E os lotes de ingressos? O assunto é mais que profundo nesta questão também. Onde estão as regras disso? Qual a lógica usada e os motivos dela? Quais são as fórmulas de cálculo de preço? Mede-se a demanda e pronto, faz-se o que quiser? Não há mesmo regulamentações que protejam o consumidor? Não vale falar de PROCON, etc. Estou falando de termos as regras ANTES, e não DEPOIS! A questão é tão séria e neste caso global que o Iron Maiden vem apoiando uma iniciativa, a Put Fans First, muito interessante e pedindo apoio dos fãs. E adivinhe o que eles falam? Sim, FALTAM REGRAS, TRANSPARÊNCIA e eu adicionaria AUDITORIA para os abusos serem extintos, ou pelo menos minimizados! E nesta campanha da Donzela de Ferro, se pede apoio dos fãs da banda e na verdade de todos que gostam de ver shows e eventos para termos mudanças no âmbito legal nesta verdadeira “casa da mãe Joana” que passamos a cada espetáculo anunciado.

Não só os convido a comentar a questão por aqui, mas para se indignarem mais uma vez com a questão. Garanto que no Brasil a dificuldade é ainda maior, pois há ainda mais brechas para aproveitamentos e nós temos o famoso “jeitinho brasileiro” que parece que só fazemos uso quando é para se tirar vantagem de alguém. Mas tem que haver uma forma. Quem acompanha nossas coberturas de shows e eventos aqui sabe que elogiamos quando é merecido, mas criticamos veementemente qualquer questão quando também é preciso.

Veja que em nenhum momento foi abordado se o ingresso está caro ou não. O motivo disso é claro: não dá para saber como é composto o valor! A cada show, não dá para saber qual será o total cash investido, pelas variações de taxas, insegurança para garantir uma meia entrada, etc. Então, repito, pois temos que repetir estes 3 aspectos sempre: regras, transparência e auditoria. E isso nem deveria ser pedido, concordam?

[ ] ‘ s,

Eduardo.



Categories: Iron Maiden, Off-topic / Misc

14 replies

  1. Olha vou abrir o campo de comentários, dizendo que estou de olho no Kiss em Brasilia, mas a vontade cai na proporção exponencial toda a vez que penso nisso tudo que você colocou aí. E não é por causa deste post que vou me decidir. O Post é tudo que sempre pensei mas nunca consegui falar ou colocar no papel. Não tem novidade nenhuma, a coisa anda desse jeito aí, sem a menor cerimônia.
    Acho que o ideal era um boicote a longo prazo, ou as tais manifestações que no Brasil nunca funcionam.
    Como a coisa tá cada vez pior e me falta o VH e eles não vêm mesmo, o meu boicote é fácil, fácil…

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  2. Sou confortavelmente “torcedor” de radinho, não apenas pela minha antissocial maneira de conviver com o mundo, mas pela visão que eu tenho dele.

    Não me lembro se houve em algum tempo, uma discussão séria sobre o assunto (agora me vem a mente uma espécie de boicote que o Pearl Jam fez a uma destas empresas que trabalham com ingressos) e me parece que quando capitalismo venceu a guerra contra “os outros”, este e outros motes saíram da agenda, cada um na sua prioridade de proporção.

    Acho que o mecanismo que envolve alguns objetos da sua observação são muito complexos e por isso, completamente descentralizados. E olha, que como você bem observou, nem em preços você tocou…

    Se uma infra-estrutura definida de venda e entrega fosse minimamente justificável e compreensível, já seria o suficiente pra gente comprar este modelo, do tipo: “Ainda acho caro, mas compro quantos preciso, a entrega acontece na data e além disso tenho as vantagens, x, y e z”.

    O problema é a falta de institucionalização do roubo. Sim, porque roubados temos ciência que seremos. Nossos carros ficaram a mercê dos ‘vigias de araque’; ficaremos sujeito às filas de privilégio para os que tem privilégio de pegarem pequenas filas, nada será suficiente para que o prazer seja completo.

    É uma pena que não haja interesse dos órgãos públicos voltados para Cultura, que é assistencialista, como quase todo método de aproximação com a sociedade. Assistencialista é fomentadora de corrupção e crimes de falsidade ideológica, por exemplo. Quando um marmanjo de 40 anos forja uma carteira de escola para poder pagar meia, o Estado aponta o caminho, mas não diz a forma como se andar por ele. Por isso, cada um faz da selva seu espaço e propriedade.

    O governo deveria subsidiar – sendo ainda mais específico – parte desta grana legítima que entra nos bolsos dos empreiteiros de espetáculo. Esta turma a qual o texto se refere, que não está nem aí para organização da classe, porque classe é o que menos interessa, com o perdão do trocadilho.

    Isso sem contar o que é imponderável. Os imprevistos, os assaltos, os sustos.

    Posso perder alguma coisa – inclusive parte do prazer da vida – mas enquanto o homem estiver indo em direção ao show dentro de casa, com a melhor tecnologia que eu puder obter, eu prefiro meu sofá. Viverei de exceções, como meu governo atual deseja que eu sobreviva.

    The show must go on

    Daniel

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  3. Presidente,

    Post excelente, importante e urgente!

    Tenho algumas considerações a tecer, ainda as cozinhando na mente para poder colaborar de forma completa aqui.

    Mas por enquanto, hoje vi a seguinte postagem no facebook do Iron Maiden, mostrando que os problemas com vendas (e no caso aqui – re-vendas) de ingressos, especialmente no que tange a transparência, tem afligido as grandes bandas de forma mundial: http://www.ironmaiden.com/we-need-your-support—secondary-ticketing.html

    Retorno aqui em breve com meu parecer no assunto e demais deliberações…

    keep incomin’

    Abilio Abreu

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  4. Eduardo , o post é excelente, mas confesso estar com uma grande dificuldade de elaborar uma reflexão que minimamente mereça estar aqui junto tanto do seu conteúdo quanto dos demais comentários, em especial o do Daniel, excelente.
    Isto por que o dia hoje veio com essa pancada que é o acontecido com o Dickinson,,,
    O que eu posso tentar sintetizar é que infelizmente a gente acaba pagando o preço…Eu sei que é duro, mas enquanto tiver demanda, vai haver os desmandos ( trocadilho infeliz, esse…).
    Sim, poderíamos não ter tantos desmandos se houvesse algum órgão regulador, mas vamos lembrar que em nosso país os próprios órgãos reguladores não tem quase eficiência nenhuma.
    Eu acho que a grande diferença está no serviço. Ainda que alguns dos problemas apontados sejam globais, pelo menos lá fora quando você se encontra na parte não virtual da coisa ( ou seja, no show, na estrutura do mesmo, no trânsito ( ou na falta dele) , e demais aspectos que envolvem o espetáculo ) a coisa funciona.
    O problema é que aqui nem isso..Aí é duro mesmo…
    Desculpem-me, o esforço foi sobremaneira e sei que não trouxe lá considerações que agregassem ao assunto. Seu post é de utilidade pública, Eduardo, como o Flávio bem colocou, trouxe tudo para o preto e branco. Mas hoje eu não consigo ir além disso, desculpem-me…

    Alexandre

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  5. É um começo, mas falta MUITO para o negócio ser sério aqui…

    Tickets for Fun é multada em R$ 1,7 mi por cobrança abusiva: http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/tickets-for-fun-e-multada-em-r-1-7-mi-por-cobranca-abusiva

    E ficam muitas dúvidas:

    – poderemos ter reembolso, como clientes, caso a empresa não consiga “se defender” (leia-se enrolar)? Se sim, como, e desde quando? E a correção monetária? E como comprovar?

    – o valor é baixo perto do que eles ganham. A empresa poderá pagar a multa e continuar com as mesmas práticas? Qual o plano de ação para alteração das práticas abusivas?

    – por que só em Minas Gerais???

    – e as outras empresas?

    Entre tantas outras…

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

  6. A que ponto chegamos… vale tudo mesmo…

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  7. Galera, compartilho e-mail recebido do DNE – “Documento de Estudante” – sobre a mudança na lei da meia entrada.

    —————————————————————

    A Lei da Meia Entrada mudou!

    (…)

    A Lei 12.933, em vigor desde o dia 01/12/15 alterou a documentação aceita para a compra de meia-entrada em todos os eventos Culturais e Esportivos.

    Para ter o direito à meia-entrada você precisa se identificar exclusivamente através da Carteira de Identificação Estudantil (Documento do Estudante).

    Não são mais aceitos boletos, carteirinha escolar, ou qualquer outra forma de identificação.

    Se você já possui seu comprovante de matrícula, não perca tempo, peça já o seu Documento do Estudante 2016 e garanta a sua meia entrada. Uma conquista de todos os estudantes, um direito seu.

    (…)

    Em caso de qualquer dúvida, fique à vontade para responder esse email ou nos contatar no sae@documentodoestudante.com.br.

    —————————————————————

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

  8. O ministro Dias Toffoli emitiu uma liminar suspendendo esta nova lei até que seja julgada no STF. Segue o link da notícia http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=307195

    Notem que, no final, na parte “Processos Relacionados”, está a liminar do Toffoli e é possível ver o andamento do processo. Até agora ela não foi votada, portanto, em tese, não se pode barrar ninguém que não tenha essa carteirinha (ainda).

    Pelo visto estão querendo fazer com que o maior número de trouxas possíveis pague por essa carteirinha absurda (50% dela são tarifas pra orgãos públicos).

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  9. Também recebi esse e-mai, porém como já comentaram, o que esta ocorrendo é uma exagerada por parte do pessoal da UNE. Oficialmente, o que ainda conta é o comprovante de matrícula emitido na secretaria do curso e carimbado pelo coordenador. Pode até acontecer de aceitarem crachá ou outro documento, porém garantido mesmo é só o comprovante.

    Acredito que essa carteirinha não seja aprovada com muita facilidade, justamente pela questão do preço. As Universidades deveriam ceder isso gratuitamente, como já fazem com os crachás utilizados dentro do campus. Caso contrário, muita gente vai contestar isso, pois pagar por um direito soa muito estranho. Interessante, inclusive, dar uma olhada na página da Documento de Estudante no Facebook, tem gente lá relatando que não conseguiu entrar nem em cinema com ela.

    Abraço.

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    • Olá Rômulo, primeiramente, seja bem-vindo ao Minuto HM.

      Me causa bastante estranheza o e-mail perante os fatos. Se for do jeito que nós todos estamos entendendo, mais uma vez o próprio tema principal do post (que não é sobre meia entrada exatamente, e sim sobre a falta de regulação no mercado de entretenimento como um todo) se prova.

      Em resumo: é uma vergonha em todos os sentidos.

      Continue participando por aqui.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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