“Good work is the key to good fortune” – Neil Peart, “Roll the Bones”

O Rush entra pelos anos 90 tentando enxergar o cenário em volta. A banda continuava reduzindo os teclados, por vontade própria, mas também vendo um mercado que estava começando a deixar as bandas de “hair metal” à margem. O Guns ‘N Roses protagonizava o cenário de rock, com a agressividade ainda latente do seu primeiro álbum, o que o diferenciava das demais bandas de hard americano. Em sua volta, algumas bandas que misturavam o rock ao funk, bandas tidas como alternativas, como o Faith No More ou o Living Colour. Em 1990, temos um momento de entressafra de gêneros musicais mais voltados ao rock, algo que no ano seguinte começaria a se redesenhar com a cena “grunge” e o MetallicA se juntando ao Guns ‘N Roses. Apenas o Van Halen, também ensaiando uma redução nos teclados, seria mais relevante entre os dinossauros do hard rock, mas também no ano seguinte. O mainstream em 1990 era dominado por figuras pop e rap, como Madonna, Phil Collins, New Kids on The Block, Mariah Carey e Mc Hammer.
Ainda em 4 de setembro de 1990, sem qualquer ação por parte da banda, a antiga gravadora, a Mercury, lança uma coletânea dupla trazendo um vasto apanhado do material gravado no antigo contrato. Em paralelo ao lançamento do compilado duplo, a gravadora também lança um home vídeo, com os videoclips que a banda tinha até então. O material, chamado “Cronicles” difere radicalmente entre as edições em vinil triplo, cd ou cassete duplos e os vídeos inicialmente lançados em VHS e Laserdisc.

Em áudio, a coletânea trazia as seguintes músicas, dispostas em ordem cronológica:
“Finding My Way”
“Working Man”
“Fly By Night”
“Anthem”
“Bastille Day”
“Lakeside Park”
“2112 Overture/The Temples of Syrinx”
“What You’re Doing” (Live)
“A Farewell to Kings”
“Closer to the Heart”
“The Trees”
“La Villa Strangiato”
“Freewill”
“The Spirit of Radio”
“Tom Sawyer”
“Red Barchetta”
“Limelight”
“A Passage to Bangkok” (Live)
“Subdivisions”
“New World Man”
“Distant Early Warning”
“Red Sector A”
“The Big Money”
“Manhattan Project”
“Force Ten”
“Time Stand Still”
“Mystic Rhythms” (Live)
“Show Don’t Tell”
A surpresa da coletânea, recheadas de clássicos e músicas reconhecidamente cultuadas pelos fãs, é a inclusão da última faixa, “Show Don’t Tell”, que pertencia ao catálogo da Atlantic Records, fruto do primeiro álbum que o trio fez com a nova gravadora.
“Chronicles: The Video Collection”, foi lançado em 23 de outubro de 1990 e relançado em DVD em 2001. A versão em dvd traz duas faixas bônus, escondidas como “hidden tracks”. Eis a sequência deste material:
“Closer To The Heart”
“The Trees”
“Limelight”
“Tom Sawyer”
“Red Barchetta” (Live)
“Subdivisions”
“Distant Early Warning”
“Red Sector A” (Live)
“The Big Money”
“Mystic Rhythms”
“Time Stand Still”
“Lock And Key”
“The Enemy Within” (bônus)
“Afterimage” (bônus)
Ambas as coletâneas tiveram ótimas repercussões de vendagem. O álbum vendeu mais de 2 milhões de cópias nos EUA, ultrapassando quase todas as vendagens dos álbuns de estúdio e ao vivo da banda, exceto por “Moving Pictures” e “2112”. No Canadá, também é platina dupla, com 200.000 vendas. O formato em vídeo atingiu 100.000 cópias vendidas, status de platina nos EUA. Já no Canadá, esse formato teve repercussão mais modesta, vendendo 5 mil exemplares, o que os certificou com status de prata.
O grupo já tinha se reunido novamente no Chalet Studio em Claremont, Ontário, Canadá, quando as primeiras versões da coletânea haviam sido lançadas. Eles tiveram curtas férias, após a conclusão da tour de “Presto”, no show do dia 29 de junho de 1990, na Califórnia. Menos de dois meses depois, ainda no fim de agosto de 1990, lá estavam eles fazendo as fitas demo das novas canções. O grupo inicialmente ficou satisfeito com o que havia feito na primeira parceria com Rupert Hine, em “Presto”, apenas arrependeu-se um pouco, na ocasião, por ter feito apenas 64 shows para aquela turnê. Talvez por isso, as férias, até então um pouco mais longas, foram menores, e o grupo encontrava-se bastante entusiasmado para seguir em um próximo projeto. Desta vez o tempo na pré-produção foi mais longo, cerca de dois meses e meio. A ideia era seguir na direção de “Presto”, reduzindo os teclados e tentando soar um pouco mais robusto, e por que não, mais pesado. Em paralelo a isso, Alex estava explorando novos caminhos na guitarra, focando em textura, cor, atmosfera, funk e violão, mas todos esses cinco descritivos convergiam com a proposta do trio em colocar a guitarra como o principal alicerce das composições, tomando bastante do espaço dos teclados.
O grupo se reuniu novamente, portanto, com Rupert Hine e o engenheiro de som Stephen Tayler. Geddy Lee afirmava, na ocasião, que Peter Collins e Rupert Hine tinham a linha do que ele consideraria a dos produtores tradicionais, clássicos. Profissionais que se preocupavam em tornar as músicas melhores. Lee disse que vários truques de produção que aprenderam trabalhando com Peter Collins na década de 1980 foram usados em “Presto” e “Roll the Bones”. E como compositor e cantor, afirmava o multi-instrumentista, aprendeu bastante com eles, também sobre a dinâmica da música, levando em consideração o papel do cantor. Segundo Geddy, não importa se você tem um ótimo material, se ele estiver no tom ou no andamento errado, o impacto do que o vocalista faz certamente iria se diminuir. Os anos de Rupert Hine foram considerados pelo conjunto como o início de um aprendizado por eles chamado de a “era do canto”, por ter o foco em criar melodias vocais memoráveis, que faziam um papel muito forte nas canções. Rupert era tido pelo trio como um sujeito muito adorável e imperturbável. Era sempre muito calmo, nunca começava uma discussão ou se envolvia em atritos, ainda que as opiniões fossem bem diversas. Essa era uma das melhores qualidades do produtor, que infelizmente faleceu em junho de 2020, aos 72 anos, deixando para o Rush as memórias deste período feliz, ao trabalharem juntos em “Presto” e “Roll The Bones”.
Diferente da época em que estavam gravando “Moving Pictures“, quando Lennon foi assassinado, desta vez o grupo acompanhava de forma muito atento a notícia principal da época, que tratava da Guerra do Golfo, tanto que agradeceram ao canal de notícias CNN no encarte de “Roll The Bones”. Em alguns momentos, segundo o trio, eles pararam de gravar para entender o desenrolar dos acontecimentos. A inspiração para o título e faixa título do álbum, no entanto, veio de outra fonte.

Neil trouxe a ideia baseado em uma história de ficção científica de 1967 chamada “Gonna Roll the Bones”, do escritor Fritz Leiber. O conceito do álbum é novamente aberto, com conexões que surgem e desaparecem conforme as músicas vão se seguindo e trata de assumir e tomar riscos na vida. Na história de Fritz Leiber, o protagonista Joe Slattermill, um minerador, deixa a esposa e a mãe para trás e parte para uma noite de jogos em um local chamado The Boneyard. Joe tem um talento especial para jogar dados e imagina que pode enfrentar qualquer oponente, porém, como em uma boa ficção, acaba jogando contra a morte personificada. Será que ao fim ele sairá vencedor? O texto acabou sendo também publicado em vinil, em 1976, com Fritz fazendo também o papel de narrador da história.
O álbum foi gravado entre fevereiro e maio de 91, usando novamente o histórico Le Studio em Morin Heights. O álbum foi gravado entre fevereiro e maio de 91, usando novamente o histórico Le Studio em Morin Heights. Antes porém das gravações, o grupo recebeu uma importante certificação, em 20 de novembro de 1990, no Canadá. O Juno Awards Artist of The Decade premiou o trio pelo trabalho desenvolvido durante os anos 80. Vídeos pertencentes ao dvd bônus R30, cujos detalhes serão trazidos nesta discografia mais à frente, registraram a presença do grupo na premiação.
Aqui temos dois momentos deste período da carreira do trio: O primeiro deles, mais acima, com cerca de 1 minuto, é um easter-egg do bônus do dvd, com um outtake da entrevista principal, nos mostrando um característico Alex Lifeson em toda a sua exuberância humorística. O segundo traz o material principal da entrevista.
Peart, para “Roll The Bones”, tentou mudar o seu extremo planejamento prévio para gravar suas partes, assim ele deixou intencionalmente algumas partes da bateria para que fossem desenhadas durante as gravações, de forma mais espontânea. Ainda assim, Geddy afirmou em nove de cada dez vezes, o baterista precisou apenas de um take para entregar seu trabalho. Outra ligeira mudança foi trazer a equalização do baixo de Lee mais próximo das frequências do bumbo de Neil, abrindo as demais frequências principalmente para as guitarras. As partes de baixo e bateria foram gravadas em quatro dias, já Alex demorou 8 dias para deixar suas partes prontas. O grupo seguiu para o McClear Place, em Toronto, também no Canadá, para gravar os vocais. As gravações do novo álbum seguiram muito rapidamente, tanto que a data de lançamento foi adiantada em mais de três meses, para 3 de setembro de 1991.
Hugh Syme acertou em cheio na ótima capa de “Roll The Bones”, aproveitando o tema orientado para arriscar. Assim, combinou um fundo de dados com um garoto chutando um crânio humano. Seu ponto de partida lógico era um jogo de azar com os dados. O artista distorceu o conceito inicial para uma imagem perturbadora, de humor negro, baseado no fato de que “bones” literalmente significa “ossos”, mas também pode significar, na gíria, “dados”, pois esses são feitos de marfim. O artista resolveu juntar os dois conceitos na capa. O trabalho gráfico do disco também tem inspiração na pintura holandesa do século XVII, no qual símbolos como o crânio foram utilizadas para lembrar aos holandeses sobre a brevidade da vida, além da transitoriedade de todas as coisas materiais. Abaixo vemos uma pintura chamada “Vanitas Still Life”, do artista François van Daellen.

“Roll The Bones” se junta indiscutivelmente entre os mais marcantes trabalhos de Hugh junto ao trio. Para criar a arte, Syme construiu uma espécie de plataforma de metrô com água, usando tábuas no piso. O nome da banda aparece em letras construídas a partir de dados pretos, causando o contraste necessário para ressaltá-lo. Outros dados pretos são adaptados com furos para funcionarem com o título do álbum, mais abaixo. Os demais dados que estão ao fundo da capa vão ficando ligeiramente mais escuros e sujos do alto da parede para baixo. A parte inferior traz uma tonalidade para os dados mais próximo ao de uma caveira, que aparece na capa, sendo chutada pelo protagonista mirim. Uma curiosidade é a frase “Now it’s dark” que aparece no encarte do álbum. Peart revelou posteriormente que a frase aparece no filme “Blue Velvet” – “Veludo Azul”, de 1986.

Alex Lifeson se enveredou de vez pelas guitarras Paul Reed Smith no novo álbum. O guitarrista usou pelo menos três modelos durante o tempo de gravações e excursão com “Roll The Bones”. O músico usou um violão Washburn e uma série incontável de efeitos, priorizando os delays e passando a trazer também os amplificadores Mesa Boogie neste caminho por deixar as guitarras mais presentes na banda.

Geddy também se manteve fiel aos baixos Wal, usando basicamente dois modelos, um preto e o outro vermelho, que se tornou o preferido do músico na época. O grupo manteve-se usando os foot controllers MPK-130 MIDI da Korg, além de um modelo Roland (S770) para samplers. Geedy usou alguns teclados, como os Korg Wavestation e M-1, além do Ensoniq SD1 e o Sinclavier II. Em estúdio arriscou-se novamente em um Hammond B-3 e amplificadores da Gallien-Krueger. No palco, durante a turnê, manteve o esquema utilizado na turnê anterior, com 2 teclados na função de controladores.

Neil gravou o álbum com a antiga bateria Ludwig, que posteriormente foi doada para a revista “Modern Drummer” usar como brinde aos leitores. Para a excursão, Neil trouxe um novo kit, em uma elegante cor azul bem escura. A maior mudança na configuração total foi a retirada de um dos dois bumbos, pois havia uma considerável ressonância nos mesmos, em especial no que nem sempre precisava ser utilizado. Naquele momento, os pedais de bumbo duplo já estavam plenamente desenvolvidos, e Neil também ganhou espaço ao retirar o segundo bumbo. O novo bumbo também diminuiu de tamanho, de 24 polegadas para 22. Peart retirou seu timbale do lado de sua mão esquerda, colocando um caixa Remo Legato com peles Kevlar e um surdo no chão, neste mesmo lado. Neste lado, o baterista manteve o gong bass drum e um surdo, de menor tamanho. Os sons do timbale poderiam ser reproduzidos, caso necessários, através da parte eletrônica de seu kit. Os toms mais agudos ficaram menos profundos, a bateria de uma forma geral ficou mais leve visualmente. Do lado eletrônico, lá estavam a caixa picolo da Ludwig com 13 polegadas, pads da D-drum e o MIDI marimba sampler AKAI, entre outros dispositivos. E algo que somente pôde ser vista nesta época da discografia do grupo. Neil colocou 2 bumbos de 18 polegadas na parte traseira, onde havia os eletrônicos.

“Roll the Bones” estendeu o uso dos três instrumentos principais da banda com ainda menos foco nos sintetizadores do que nos álbuns precedentes, avançando ainda mais na proposta entregue em “Presto”. Musicalmente, o álbum não desvia significativamente de um som de pop-rock, às vezes puxado para o hard rock, mas a banda incorporou traços de outros estilos musicais. A música “Roll the Bones”, por exemplo, exibe elementos de funk e de hip-hop. Naquela época, era meio que o começo do rap e do hip-hop e tudo mais, e Neil, como sempre muito atento às tendências, que se experimentar, mesmo que apenas em um trecho, no estilo. A faixa instrumental “Where’s My Thing?” traz também elementos de jazz. “Bravado” e “Ghost of a Chance” mantém o foco em suavizar a canção de modo a privilegiar os vocais, como o grupo havia feito com Rupert Hine em “The Pass”. Há espaço para canções absolutamente diretas, como “Face Up”. O lado B aposta bastante também em melodias acessíveis, mas é em “Dreamline” que vemos o grupo com mais força e energia. Uma aposta certeira para abrir “Roll The Bones”.
Ficha técnica:

Geddy Lee – Baixo, Vocais e Sintetizadores.
Alex Lifeson – Guitarras, Violões e Backing Vocals.
Neil Peart – Bateria e Percussão.
Rupert Hine: Teclados adicionais e Backing Vocals.

Produzido e Arranjado por Rupert Hine and Rush
Engenheiro de Som: Stephen W. Tayler
Gravado no Studio Morin-Heights, Quebec, assistidos por Simon Pressey e no McClear Place, Toronto, assistidos por Paul Seeley.

Mixado no: Nomis Studios, Londres, assistidos por Ben Darlow
Pré–produção no: Chalet Studio, por “Lerxst Sound”, assistidos por Everett Ravestein
Masterizado por: Bob Ludwig, no Masterdisk, Nova Iorque, EUA.
Direção artística: Hugh Syme
Fotografia: Andrew MacNaughtan
Arte Digital: Joe Berndt
Produção Executiva: Moon Records
Empresariamento: Ray Danniels, SRO Productions, Inc., Toronto
Produção executiva: Liam Birt, Anthem Records.

Special thanks to those who keep us “rolling”: At Shallow Studio – The Koopster, David, Röb, Caroline, Logger, the War Room, Chester Sight & Sound, CNN, The Psychedelic Shack, The Sugar Shack, Johnny Abdul, the birds. At Le Studio – Richard, Simon, Linda, Francine, Benoît d’Arleaux, Steve, Dave, Anne-Marie, New England Digital (Nick how-about-a-credit?), and a belated thank you to Pippa. At SRO – Ray, Pegi, Sheila, Kim, Evelyn, Laura. On the road – Tour manager and lighting director: Howard Ungerleider, President and stage manager: Liam Birt, Production manager: Nick Kotos, Concert sound engineer: Robert Scovill, Stage left tech: Skip Gildersleeve, Center stage tech: Larry Allen, Stage right tech: Jim Johnson, Keyboard Tech: Tony Geranios, Monitor engineer: Bill Chrysler, and also some of the other “old campaigners”: Billy Collins, Matt Druzbik, Jack Funk, Tom Hartman, Ted Leamy, Brad Madix, Mac MacLear, Mike McLoughlin, George Steinert, Mike Weiss, Tom Whittaker, and Mr. Big (band and crew). At home–perpetual thanks and appreciation to our families, who are always there to catch us when we stop rolling…
Atlantic/Anthem, September 3, 1991
© 1991 Atlantic Records © 1991 Anthem Entertainment


Lado A:
Dreamline (4:36)
Bravado (4:35)
Roll the Bones (5:30)
Face Up (3:54)
Where’s My Thing? (Part Iv, ‘Gangster of Boats’ Trilogy) (3:49)
Lado B:
The Big Wheel (5:13)
Heresy (5:26)
Ghost of a Chance (5:19)
Neurotica (4:40)
You Bet Your Life (5:00)

“Roll the Bones”, lançado em 3 de setembro de 1991 e rapidamente chegou ao status de platina no Canadá, mas somente chegou ao mesmo status nos EUA cerca de 10 anos depois. Apesar deste tempo mais demorado para ter sido certificado em seu principal mercado, o álbum trouxe de volta um status que a banda não alcançava desde “Power Windows”. O novo álbum também chegou ao terceiro lugar nas paradas da Billboard, melhor posição desde “Moving Pictures”. Além disto, ficou em décimo lugar no Reino Unido e 11º no Canadá.
O primeiro single, “Dreamline”, chegou ao primeiro lugar nas paradas de rock na US Billboard. A faixa foi lançada como single exclusivo, sem nenhum outro material em seu conteúdo promocional, ainda em setembro de 1991.
Já em fevereiro de 1992, o grupo lançou o segundo single, desta vez com a faixa-título. Há vários formatos associados à promoção da faixa-título nos diversos mercados fonográficos. No Canadá, saiu em fita cassete single, trazendo a faixa “Face Up” em seu conteúdo. No Reino Unido, saiu no formato vinil 7 polegadas, com “Show Don’t Tell”, de “Presto”. Em lançamento no formato picture, trazia também “The Pass”, do “Presto” e um depoimento de Alex Lifeson, intitulado “It’s a Rap”. Em versão dupla, limitada, ainda no Reino Unido, trazia “Anagram (For Mongo)” e “Superconductor”, do “Presto”, além da nova “Where’s My Thing (Part IV, “Gangster of Boats Trilogy)” e outros dois depoimentos também intitulados “It’s a Rap (partes 2 e 3), desta vez com Geddy e Neil, respectivamente. Na Alemanha saiu em 7 polegadas, com “Tom Sawyer” ao vivo e em 12 polegadas com versões ao vivo de “Tom Sawyer” e “Spirit of Radio”. O single ficou em nono lugar nos EUA, mas obteve menor repercussão tanto no Canadá quanto na Inglaterra, respectivamente em 25º e 49º. Não obteve qualquer repercussão na Alemanha. A faixa-título teve um clip produzido com o ator Michael Vander Veldt interpretando o protagonista da capa. É um vídeo até difícil de achar, não disponível no YouTube, mas disponível em outro link:
“Roll the Bones”, a faixa, é até hoje uma das mais cotadas na discografia, sendo continuamente tocada nas turnês subsequentes, inclusive na última turnê do trio, com detalhes que traremos mais à frente aqui pelo Minuto HM. Abaixo um vídeo gravado pela MTV com detalhes dos bastidores do videoclip e entrevistas.
Em abril de 1992 o trio lançou um último single, “Ghost of a Chance”, que chegou ao segundo lugar nas paradas de rock norte-americanas. A canção foi considerada um hit das rádios no seu lançamento. São conhecidos os formatos norte-americanos, com a íntegra das entrevistas que estão no singles “Roll The Bones” e a nova “Where’s My Thing (Part IV, “Gangster of Boats” Trilogy)”, e a versão preparada para o mercado inglês e alemão, trazendo também a faixa de abertura “Dreamline” e outras duas canções, no formato CD: “Chain Lightning” e “Red Tide”, ambas do álbum anterior, “Presto”. Em 1992 também a faixa instrumental “Where’s My Thing? (Part IV, “Gangster of Boats” Trilogy)” foi indicada ao Grammy de melhor rock instrumental, mas perdeu para Cliffs of Dover” by Eric Johnson, que curiosamente, abriu alguns shows daquela turnê do Rush.
Apesar do reconhecimento de público, “Roll The Bones” teve reações iniciais bem mornas da crítica especializada, que conceituou o álbum entre o razoável e o satisfatório. Com o tempo avançando pela história da banda, o álbum passou a ser mais reconhecido, figurando hoje entre os cem melhores álbuns dos anos 1990 pela revista Ultimate Classic Rock.
1 – “Dreamline”
“Dreamline” é uma das faixas ideais para se abrir um álbum. Uma música vibrante, com espírito e sonoridade aventureira. A canção já coloca o tema aberto principal do álbum no mapa, pois traz latente a questão de ser jovem e não se importar com correr riscos, ainda que estes sejam bem consideráveis. O trio, quando perguntado, definiu “chance”, como a principal palavra para definir liricamente o trabalho, mas é claro que durante o álbum inteiro conceitos intimamente atrelados estejam aparecendo, estes associados a correr riscos, apostar, escolher, não medir consequências, entre outros. A canção foi inspirada em um dos primeiros trabalhos do então promissor escritor de ficção cientifica Kevin J. Anderson. O autor era amigo de Neil Peart e lhe mostrou o livro “Lifeline”, que foi rebatizado pelo nome de “The Trinity Paradox”. O trabalho é uma parceria de Kevin com Doug Beason. Atualmente o trabalho de Anderson é bastante reconhecido, sendo em boa parte construído por trabalhos de spin-offs em obras como “Star Wars”, “X-Files” e “Dune”.
Neil exalta o espiríto aventureiro, até inconsequente, porém efêmero, da juventude no refrão: “…when we are young, wandering the face of the earth,wondering what our dreams might be worth, learning that we’re only imortal for a limited time…”, algo como “…quando somos jovens, vagando pela terra, nos perguntando se nossos sonhos valem a pena, aprendendo que somos imortais, apenas por um tempo limitado…”. As palavras de Neil têm ressonância nas seguintes frases do personagem Eugene Morgan, interpretado pelo ator norte-americano Joseph Cotten, no filme “Soberba (“The Magnificent Ambersons”, de 1942), de Orson Welles: “Aos 20 anos de idade tudo parece imutável e terrível, o que aos 40 torna-se banal e efêmero. Mas a pessoa de 40 anos não consegue convencer a pessoa de 20 anos desse fato. A pessoa de 20 anos só aprende essa lição chegando aos 40”.
Musicalmente, o clima da canção reflete exatamente o que a letra propõe. “Dreamline” é uma música vibrante, com ênfase no básico bateria, baixo e guitarra. Os sintetizadores ainda aparecem, porém de maneira diminuta, ocupando apenas alguns detalhes que refletiam o gradual afastamento da fórmula utilizada sem restrições durante a maior parte do período após “Signals” e principalmente entre “Power Windows” e “Hold Your Fire”. Uma guitarra com efeitos de repetição inicia a canção, lembrando os arranjos do The Edge, do U2, sendo acompanhado pela caixa de Neil, pelo baixo e o vocal , que entra logo aos 0:10. Os sintetizadores aparecem em 0:27, quando a canção toma a sua forma acelerada, já trazendo a condução marcante de Peart. O primeiro trecho retorna ainda em 0:56, a sequência com o trecho acelerado se repete. Chama a atenção os vocais dobrados, seguindo a tendência que já havia se acentuado no álbum “Presto”. Em 1:43 surge o refrão, teclados ao fundo, mais discretos. A guitarra com pouco drive domina o trecho. Estrofe, pré-refrão e refrão vão se revezando até 2:59, quando Alex traz o primeiro solo do álbum, com fuzz e delays, muito bom, por sinal. Em 3:26 o refrão retorna, após o solo, e segue durante quase o restante da música. Peart faz uma rufada de caixa progressiva muito bem colocada aos 3:50 e uma excelente virada aos 4:03, conduzindo para uma última estrofe, que se encarrega de terminar a excelente canção de abertura.
2- “Bravado”
“Bravado”, ou “Bravata” é uma linda faixa, vai mais a fundo no tema de correr risco, em um nível inconsequente. A letra tem a frase clássica no refrão, “we will pay the price, but we will not count the cost” ou seja, “nós vamos pagar o preço que for, não importa quanto ele vai custar”. Esta frase mostra que muitas vezes nós passamos do ponto em buscar um objetivo, sem nos importar com o quanto de sacrifício façamos. A linha foi usada por Neil com permissão do escritor John Barth, que a escreveu no livro “The Tindewater Tales”, de 1987. O termo “Bravata” pode trazer múltiplos significados, entre eles, fazer alarde de si, intimidar, ser arrogante ou mesmo provocar. Nesta segunda faixa de “Roll The Bones”, o título exemplifica um outro conceito, tão comum hoje em dia, o da ostentação desmedida. O conceito expõe a textual cegueira que uma busca desmedida por um objetivo pode causar, algo escancarado em frases com “If we burn our wings, flying too close to the sun” -“Se queimamos nossas asas, voando muito perto do sol”, que obviamente foi inspirada no vôo inconsequente de Ícaro, na mitologia grega.
No entanto, como toda boa reflexão, podemos entender que muitas das conquistas do mundo vieram após uma série de fracassos, através dos quais as pessoas que alcançaram grandes êxitos se recusaram a desistir. Sem riscos não há ganhos – mas os ganhos também não são garantidos. Nesse ponto, “Bravado” pode servir também como encorajamento a buscar nossos objetivos, mas tudo esbarra em entender o limite o qual não devemos ultrapassar. É sempre uma linha muito tênue, é preciso reconhecer.
O trio reconhecidamente tinha um grande apreço pela música, pela mistura entre a melodia e a letra, de forma a levá-la para a turnê e para alguns shows da turnê seguinte. Ela também foi resgatada para o período em que o grupo retomou as atividades depois da virada do século, um assunto que mais para frente na discografia será mais bem detalhado. Aqui podemos considerar que tal escolha no retorno não foi à toa, é uma das canções preferidas deles. “Bravado” é uma espécie, musicalmente refletindo, de irmã mais nova de “The Pass”. Duas canções que nos remetem a bandas que privilegiam sobremaneira as lindas melodias, como o “Marillion” já na fase Steve Hogarth, em faixas como “Dryland”, por exemplo. As linhas de Alex se assemelham bastante ao trabalho do outro Steve, o guitarrista Rothery, companheiro de Hogarth na banda de neo-progressivo.
Lá está, desde o início da canção, uma linda passagem dedilhada feita por Lifeson, que se encaixa perfeitamente nas variações das notas do baixo, dessa vez, bem mais “reto” em comparação aos arranjos bem mais intricados do passado. Quando Geddy começa a cantar, em 0:37, Alex faz uma pequena interrupção para ressaltar o baixo e o vocal carregado de reverb e emoção. Neil vai alternando formas de conduzir a canção, ainda que esteja atuando dentro de compassos bem tradicionais. Em 2:00 surge o melhor solo do álbum, numa concepção orquestral, evoluindo perfeitamente com a dinâmica harmônica e rítmica, outro que Steve Rothery teria muito orgulho em fazer. Segundo Alex e Geddy, o solo foi feito em apenas um take, com Lifeson utilizando uma Fender Telecaster junto a um pré-amplificador da Gallien Krueger e efeitos de ambiência. O guitarrista afirmou que, logo após gravá-lo, percebeu que aquele era o solo definitivo, pois capturava a inocência e a emoção necessária na música. Segundo Lifeson, realmente não havia nenhuma necessidade de tentar qualquer outra alternativa. Em 2:37 Geddy retorna a cantar a canção e em 2:56 a dinâmica nos leva a uma calmaria que irá crescendo até o fim da canção. A partir de 3:21 é Neil que vai acrescentando linhas complexas, ajudando no aumento da dinâmica da música, que se destaca por ser uma das mais melodiosas do trio em toda a sua carreira, provando mais uma vez que o Rush podia abrir mão de virtuosismos exacerbados e mesmo assim criar canções de enorme impacto.
3 – “Roll The Bones”
A letra da faixa-título se debruça sobre as chances, o tema central é sobre aproveitar as oportunidades, rolando os dados. Afinal, não há escapatória, a cada momento teremos de fazer escolhas. Neil já havia dito isso em “Freewill”, lá em 1980, pois “…se optarmos por não decidir, ainda assim teremos feito uma decisão…” “…If we choose not to decide, we still have made a choice…”. Temos que realmente aproveitar as chances, ou então nada vai acontecer, essa é realmente a única opção que temos”. O refrão da faixa-título ressalta o pragmatismo desta reflexão, ao nos desenganar a apenas buscar os motivos do que está acontecendo. Não adianta entender “…por que estamos aqui…” (“…why are we here…”). Neil afirma, “…because we here…” “…estamos aqui porque simplesmente estamos…”, assim, “…roll the bones…”, ou seja, em uma tradução mais livre, “…jogue os dados, faça sua escolha…”
Dentro de um conceito até inconsequente, aquele que nos incentiva a tomar riscos, pensar menos, jogar os dados, Neil também “mete o dedo na ferida” ao expor a desigualdade social e o quanto há de aleatório onde cada um de nós pode estar. O baterista pergunta: “…Why are little ones born only to suffer …””… Or a bowl of rice?…” ou seja, Neil novamente se mostra indignado em haver crianças no mundo que não tem o mínimo para sobreviver. E parafraseando Shakespeare na frase que cita que “O destino é o que embaralha as cartas, mas nós somos os que jogamos”, em alguns momentos um de nós pode estar realmente indefeso e sem “sorte nos dados” para tentar.
O trecho em rap é basicamente um grande jogo de palavras, no modo imperativo, com muitas referências, citações, inúmeras mesmo. Podemos citar o trecho onde Neil simplesmente traz a frase principal de uma das canções mais famosas do rock: “…can’t get no satisfaction…”. No meio de tanta abstração, há, é claro, por parte de Peart o reforço ao tema geral do álbum, ou seja, o de tomar riscos. Frases como “It’s action – reaction”, “Spin the wheel”, “the dice are hot, take a shot”, “play your cards”, ilustram a forma imperativa que o baterista usa no controverso trecho da canção para endossar o espírito de agir, simplesmente.
Musicalmente a faixa-título ressalta algumas características próprias, como as marteladas dos sintetizadores em contraponto às guitarras de Lifeson, já a partir de 0:02. Geddy traz vocais serenos, apoiados pelo baixo e bateria em perfeita sincronia. Em 0:40 uma linha de órgão (talvez o Hammond B3 citado no tour book oficial) nos leva ao pré-refrão. É um outro trecho bem característico e inusitado do trio, com uma levada de baixo sincopada e bastante suingada com e Lifeson atacando de guitarrista de funk numa linha dissonante seguindo o padrão tonal do baixo, como podemos entender melhor abaixo:
O refrão vem acompanhado dos violões que reforçam um clima suave e folk do trecho, remetendo à faixa-título do álbum anterior, “Presto”. Tanto estrofe, quanto pré-refrão e refrão vão se seguindo na canção, com alguns acréscimos de teclados mais pontuais. Em 2:56 temos o bom solo de guitarra de Lifeson, outro que está entre os melhores do álbum, com sua dramaticidade pontual. “Roll The Bones” é notável por se mostrar audaciosa e muito surpreendente; a canção mistura nuances do folk, do funk e do rock e a partir de 3:13 mergulha no rap, com a voz de Geddy trazendo o discurso de forma mais grave que conseguiu, o que foi depois ajustado artificialmente. A voz foi processada em um harmonizador Eventide (Eventide Ultra Harmonizer), a fim de torná-la o mais rapper possível. Neil citou LL Cool J e Public Enemy como artistas que o influenciaram naquele desafio inusitado. Há uma nova linha de órgão e violão que nos leva a um trecho instrumental do refrão, e novamente vamos ouvir Geddy atacando no rap. A bateria de Neil é totalmente eletrônica, como o estilo pede, assim como a linha de baixo sintetizado tocada por Geddy no teclado e efeitos da guitarra solando aleatoriamente ao fundo. O grupo teve várias ideias para a autoria do trecho falado, imaginaram inicialmente uma mulher, como Aimee Mann em “Time Stand Still”. A ideia seguinte era, naturalmente, chamar um rapper para uma participação especial, mas depois pensaram em estilo de “apresentador isento dos telejornais”, como John Cleese, além de imaginarem o trecho em uma voz mais profunda, pensando no vocalista e guitarrista do grupo The Band, Robbie Robertson, que talvez realmente fosse uma boa escolha, como se pode perceber no clip abaixo, de sua carreira solo:
Após os trechos de rap, a banda retorna ao refrão, com frases de baixo e bateria sendo progressivamente incrementadas até o final em fade-out. O grupo não esperava, mas algumas rádios de programação mais voltada ao rock não gostaram da proposta e tiraram a música da programação, mas até hoje “Roll The Bones” figura entre as canções de destaque do trio.
4 – “Face Up”
Novamente, na quarta faixa de “Roll the Bones” Peart reforça a necessidade de tomar riscos e fazer escolhas. O conceito é explicitado de forma muito clara na frase “Turn it up or turn that wild card down”, que significa que nós precisamos resolver se vamos apostar (nas cartas, de forma metafórica) ou não. Segundo o baterista, esta foi a frase que traçou o caminho, não só da canção em si, mas de todo o álbum. A música lida com temas como a iniciativa em um cunho mais otimista, já no título “Face Up”, algo como “cabeça erguida”, em uma tradução mais apropriada para nossa língua. “Face Up” é uma das mais diretas canções de “Roll The Bones”, inclusive por sua menor duração, tendo menos de 4 minutos.
O começo é matador, com uma introdução desafiadora na bateria por Neil. Um sintetizador sublinha o trecho antes da primeira estrofe, com as guitarras limpas dedilhadas mantendo-se como alicerce principal. A estrofe tem uma base bem rockeira, com destaque para as guitarras que estão mais pesadas do que nos álbuns da fase anterior da banda. Em 0:51 o refrão traz um coro que ressalta o nome da faixa. O baixo de Geddy está perfeitamente mixado às guitarras limpas de Lifeson. Em 1:57 o rock empolgante tem uma reduzida na dinâmica, com teclados e guitarras fazendo linhas atmosféricas ao fundo. O solo rasgado de Alex é curto e traz acordes, notas distorcidas e uso de alavancas, no estilo que vinha sendo desenvolvido pelo guitarrista desde “Grace Under Pressure”. Após o curto trecho, em 2:39, o grupo retorna para o refrão grudento, que alterna com o pré-refrão recheado de vocais diversos, para um sintetizador sublinhar o final.
5 – Where’s My Thing? (Part Iv, ‘Gangster of Boats’ Trilogy)
“Where’s My Thing” traz o curioso subtítulo “Part IV, ‘Gangster of Boats’ Trilogy”, que nada mais é do que outra das inúmeras brincadeiras do grupo. Nunca foi planejada pelo trio nenhuma trilogia chamada “Gangster of Boats”, além de sabermos que as trilogias, por definição, referem-se ao conjunto de três trabalhos artísticos conectados, ainda que o próprio Rush entre em contradição com este conceito, na famosa série “Fear”, que trazia até então as três partes teoricamente fechadas da trilogia em “The Enemy Within” (“Grace Under Pressure”), “The Weapon” (“Signals”) e “Witch Hunt” (“Moving Pictures”). Mais à frente na discografia Minuto HM, veremos, o trio trará uma quarta parte para a trilogia “Fear”, ou seja, vai entrar em mais uma brincadeira contraditória.
Iniciando com a guitarra suingada com um timbre muito peculiar e frases curtas no baixo, a música alterna um trecho mais funkeado com outro onde os teclados mostram mais melodias e a guitarra distorcida de forma mais aberta acentua os acordes da harmonia com a bateria. É o primeiro instrumental do grupo desde “YYZ”, em 1981, algo em torno de dez anos antes. Durante a parte voltada ao funk, Neil e Geddy se desafiam em ótimas linhas. A partir de 1:55, após uma frase rápida de baixo, Lifeson traz um riff em sua guitarra, que servirá de alicerce para um trecho em time signature fora do padrão, com três compassos em 4/4 e um em 5/4. Em seguida, em 2:05, a guitarra se torna mais limpa, para levar o guitarrista a um solo mais atmosférico. A linha da base do trecho é quase um jazz, mostrando o completo domínio que Neil e Geddy possuem do estilo. A música segue, para o riff principal com baixo e guitarra em uníssono, e as viradas espetaculares de Peart nas paradas aos 2:31 e 2:37, quando o refrão é elevado em um tom, e após mais viradas que só o Peart era capaz de conceber, retorna ao tom original em 3:12. A parte com time signature fora do padrão leva a faixa até o seu fim, que traz um efeito de teclados e uma batida abrupta por Neil em sua caixa. A banda disse que alguns amigos citaram a canção Telstar, da banda The Tornados, como algo que parecia o tema, mas o grupo, apesar de achar alguma semelhança, não fez nada que intencionalmente buscasse se assemelhar à faixa de 1962. Particularmente, não encontramos qualquer semelhança, exceto talvez por uma linha melódica que de forma muito tênue tem alguma intenção parecida. Quem quiser pode tentar avaliar aqui.
6 – “The Big Wheel”
Novamente trazendo as incertezas de cada escolha, “The Big Wheel” ilustra de forma principal um personagem indefeso em sua inocência adolescente diante das circunstâncias da vida. A letra ilustra incertezas amorosas, nas frases “Hoping for heaven — hoping for a fine romance” e “Looking For Love”, de forma sutil, mas também traz um conceito que exige mais reflexão, as questões que o baterista levanta em relação a ser uma pessoa religiosa, em ter fé em algo. Peart toma duas famosas expressões, “Leap of Faith” (“Salto da fé”) e “Twist of Fate” (“Ironia do Destino”) invertendo-as, criando “Twist of Faith” (“Ironia da Fé”) e “Leap of Fate” (“Salto do Destino”). Inicialmente, “Salto da fé”, no sentido mais comumente utilizado, é o ato de crer ou aceitar algo sem evidência empírica. Quando Peart inverte as frases, ele coloca a fé em cheque, usando a palavra ironia para tentar mostrar que durante a história nos deparamos com situações absurdas do ponto de vista ética em alguns líderes tão cegamente seguidos.
“The Big Wheel” inicia o lado B como um típico rock and roll produzido pelo Rush nesta 4ª fase da banda, com a sonoridade básica do trio, guitarras limpas, baixo marcante, bateria conduzindo de maneira firme, sem muitas variações. Ao chegarmos no refrão, em 1:05, a canção sofre uma mudança, com o acréscimo de uma linha de teclados e dobra de vocais, ficando mais suave e acessível. Em 1:43 voltamos ao trecho das estrofes, mas Lifeson já varia sua base, trazendo efeitos de delay que lembram as bases feitas por The Edge, do U2. Neil também alterna a condução mais característica com trechos acentuados apenas pelo bumbo. Em 2:55 as guitarras e os teclados. Em 2:55 a introdução é repetida, com um breve fraseado de guitarra e os teclados trazem trazendo um trecho mais etéreo, para seguirmos para a ponte, que inicialmente traz apenas um coro com várias vozes produzidas por Geddy. Em 3:58 voltamos para o refrão, não há propriamente um solo de guitarra ou outro instrumento na canção. A música segue para o seu fim em fade-out, reforçando algumas vezes o refrão.
7- “Heresy”
A letra da sétima faixa, “Heresy” sai um pouco do tema principal do álbum, deixa o ambiente de jogos e escolhas de lado. A música é um reflexo do momento político do mundo, com a queda do muro de Berlin e a derrocada do comunismo. O baterista observa o momento, salientando o desalento do desperdício de milhares de vidas durante o período da Guerra Fria, que perdurou de 1945 a 1991. Enquanto historiadores, pensadores, jornalistas e inúmeras pessoas ao redor do mundo comemoravam tais eventos, Peart mostrava uma visão alternativa sobre as reviravoltas monumentais ocorridas. O baterista afirmava na época: “…Fiquei furioso. Foi tudo um erro? Um preço alto a pagar pela ideologia equivocada de alguém, me parece. E esse desperdício de vida deve ser a heresia suprema…” o baterista considera que ter nascido na Europa Oriental naquele período foi um grande azar. A indignação de Neil é muito claramente explicitada na letra, ele chega a usar a palavra “crap” (“merda”) para mostrar quanto de sofrimento a população mundial teve pelos temores do uso de armas nucleares e toda a tensão da guerra fria.
A canção tem início com uma breve sessão de bateria em fade in propondo um tom militar, pelo rufar da caixa de Neil Peart. Os sintetizadores, ainda que baixos na mixagem, mostram uma sonoridade que nos levam aos álbuns anteriores, da década de 1980. A canção traz os tambores de Neil em um ritmo mais tribal, contribuindo para um clima de hino que Geddy traduz na letra política. Faixas como “Tai Shain” ou “Mystic Rhythms” traduzem um pouco da sonoridade de “Heresy”, assim como em alguns trechos de “Bravado” deste “Roll The Bones”, mas os teclados, ainda que bem presentes, estão mais discretos. A força da melodia vocal está no trecho “All those wasted years”, que são reforçados durante toda a canção. Aos 3:33, há uma excelente virada de bateria, perfeitamente acompanhada pelo baixo. A partir de 4:24, a música lentamente se prepara para o seu o término, com Peart usando mais os toms mais agudos do seu kit. É um fade-out demorado, com quase 1 minuto e bem no seu final a rufada militar retorna.
“Ghost of a Chance” expressa mais uma vez ponderações sobre a inconstância e a imprevisibilidade da vida, avançando com a noção de que a vida é apenas um exercício de sorte ou azar. No entanto, o tema principal que domina todo o álbum nesta canção tem um outro conceito atrelado, um desafio para o baterista, falar da cumplicidade de uma relação amorosa. Neil sentiu, pela primeira vez, a possibilidade de escrever algo sobre o amor de uma forma diferente, fugindo dos clichês do tema.
A letra se inicia mostrando consequências de algumas escolhas em “…our separate paths might have made,with every door that we opened, every game we played…”, ou seja, “… nossos caminhos separados devem ter feito, em cada porta que abrimos, em cada jogo que jogamos…”. A conclusão, no entanto, traz o otimismo de Peart ao afirmar que tudo também depende de cada um de nós em: “…I don’t believe in the stars or the planets, or angels watching from above, but I believe there’s a ghost of a chance we can find someone to love, and make it last…” ou seja “…Eu não acredito nas estrelas ou nos planetas ou nos anjos observando lá de cima, mas eu acredito que existe uma pequena possibilidade de encontrar alguém para amar e fazer isto durar…”
Em “Ghost of a Chance” podemos ver Rush produzindo uma canção de ares românticos que esbarra no pop-rock, revezando-se entre um apelo pop mais leve e até um trecho que poderia ser considerado para uma balada, justamente o refrão principal. O resultado é muito favorável ao grupo, já que a canção foi lançada como single e se destacou nas paradas do gênero da lista Billboard e teve ótima veiculação nas rádios. As guitarras acessíveis de Alex tomam conta da introduçâo, das estrofes e também dos refrões, mas em cada trecho o guitarrista faz um papel diferente. As estrofes estão privilegiando acordes e dedilhados abafados com delay, já os refrões apostam nas melodias das notas de Lifeson sobressaindo-se aos teclados que ficam mais ao fundo, e a linda melodia vocal perfeitamente casada com a letra. Aos 2:22 a banda usa brevemente o truque pop de subida de tom na estrofe. Em 3:49 Lifeson traz um belo solo calcado em notas lentas com o uso de captadores mais graves e delay, próximos ao braço da guitarra. Há no trecho final um outro solo bastante melódico e bonito, que nos prepara para o término da canção. Ao fundo podemos ouvir em 5:12 uma última frase cantada por Geddy.
9 – “Neurotica”
Em Neurotica, o talentoso baterista e escritor observa a tristeza de pessoas que permitem que suas vidas escapem de suas mãos, não conseguindo resistir às pressões do mundo e tornando-se escravas das neuroses. Neil é muito hábil em relacionar o importante tema ao conceito principal do álbum, em frases como “Fortune is random…Fate shoots from the hip” e “It’s like Russian roulette to you” (“A sorte é aleatória… E o destino não está em suas mãos” e “Isto é como uma roleta russa para você”). As frases mais duras e não necessariamente relacionadas ao tema principal do álbum, no entanto, estão soltas e mostram um pouco da neurose coletiva que ainda hoje vivemos, por exemplo, em “Sweat running cold, you can’t face growing old”, que significa algo como “Suando frio, você não aceita estar ficando velho”. Aqui Peart escancara uma crítica aberta ao superficialismo das armadilhas estéticas da sociedade.
“Neurótica”, musicalmente, se revela como uma faixa que usa sequenciadores de baixo, já desde o início. O refrão acessível é a parte mais dominante da canção, enquanto as estrofes se mantêm com os citados sequenciadores. Há um trecho em 0:33, com uso de teclados fazendo a harmonia sob um interessante riff estático de guitarra, que serve de ponte das estrofes para o refrão, que novamente conta com diversas dobras de vocais. Alguns elementos mais eletrônicos de sintetizadores em 2:51 nos levam a mais um trecho intermediário em compasso composto de 4/4 e 7/4, antes do rápido solo de Alex aos 3:25 com a base “invertida” em 7/4 e 4/4 num tom acima. Ao fim da canção, voltam os elementos eletrônicos dos sintetizadores que foram usados no trecho anterior ao solo. Anos mais tarde, Geddy Lee atestou que “Neurotica” é uma das poucas canções que ele entende não ter resistido bem ao teste do tempo. “Recentemente, ouvi a canção “Neurotica” e pensei, que diabos foi isso?”, disse Geddy. “É uma música estranha…”
10 – “You bet your life”
Na última canção do álbum, nosso letrista cita e confronta indivíduos de variadas tendências artísticas e ideologias, tal como reacionários, revisionistas, criacionistas, evolucionistas, existencialistas, hindus, católicos, muçulmanos, capitalistas, expressionistas, destacando que todos acabam por se equivalerem no jogo do acaso da vida. O título e a ideia da música foram inspirados no antigo programa “You Bet Your Life”, uma série norte-americana de rádio e televisão no formato quiz show, criada pelo produtor John Guedel, apresentada pelo famoso comediante e ator Groucho Marx. O programa trazia entrevistas com participantes que disputavam uma considerável soma financeira.
A música é uma das mais claras exemplificações de um texto alusivo ao tema principal do álbum “Roll The Bones”, já desde seu título, mostrando que exageros podem nos levar a riscos consideráveis. Esta reflexão se mostra clara também nas frases “…just another junkie on a scoring run, just another victim of the things he has done…”, que significa “…apenas mais um viciado, numa corrida para comprar drogas, apenas mais uma vítima das coisas que ele mesmo fez…”
Musicalmente, temos aqui uma canção, mesmo com ares de simplicidade, que soa muito bem estruturada, evidenciando mais um trabalho característico do Rush. A introdução poderia perfeitamente protagonizar uma abertura de seriado adolescente nos EUA, pois traz uma carga bem positiva e otimista à música. A canção é conduzida pelo essencial guitarra, baixo e bateria, os músicos estavam realmente decididos a situar a banda numa posição mais orgânica, com menos teclados. As guitarras trazem novamente o delay que é usado por The Edge, do U2. O pré-refrão traz um backing vocal predominante. Em 1:40, enquanto Geddy repete o nome da canção, outras frases são pontualmente cantadas por backing vocals com ambiência e efeitos que lembram o trabalho de bandas como o ELO (Eletric Light Orchestra) na função. Em 2:26 as guitarras soam ainda mais leves e acessíveis, lembrando o timbre cristalino dos modelos single coils das Signatures Aurora usadas na década de 1980. Lifeson ainda faz um solo sob o refrão ao fim da canção em fade-out, abusando das harmonias suaves e recheadas de eco.

A turnê de “Roll The Bones” foi a maior excursão que o trio fez em muito tempo, mais precisamente desde a Tour de “Signals” eles não viajavam tanto. O grupo tocou mais de 100 datas, com um público estimado em quase 1 milhão de pessoas. A excursão trouxe algumas datas na Europa, em especial na Alemanha, por 9 noites e Inglaterra, por outras 6 datas. A banda ainda tocou 2 vezes na França e uma vez na Holanda. No Canadá, eles estiveram por 6 vezes. As demais datas, evidentemente, foram em território norte-americano. O grupo começou a “Roll The Bones” tour em 25/10/1991, nos EUA. A parte europeia ocorreu em abril e maio de 1992. Em junho de 1992 eles fizeram um último show, em Illinois, já de volta aos EUA.

O grupo viveu algumas experiências marcantes, como estar do lado oriental de Berlim na passagem pela Alemanha, em virtude da queda do muro da cidade, no fim de 1989 e pela reunificação do país no fim de 1990. O processo de abertura total das fronteiras foi concluído em 1º de julho de 1991, portanto em 1992 o Rush já encontrou um país redesenhado.

Uma passagem particularmente desfavorável foi no show gratuito (e sem o conhecimento prévio pela banda) em Sacramento, EUA, em 27 de janeiro de 1992. Os fãs ficaram muito espremidos, em especial nas primeiras fileiras e parte do público naquilo que é conhecido como o “gargarejo” começou a jogar objetos, como sapatos e frutas no palco. O trio ficou absolutamente furioso com a produção do show e naquela época já não endossava espetáculos gratuitos pelos problemas de segurança que poderiam ocorrer. O show foi considerado o pior dia da carreira do grupo nos palcos. Outra curiosidade da época foi a boa recepção do público com a animação e filmes nos telões, em especial pela caveira cantando o trecho intermediário da faixa-título. O grupo também levou os coelhos infláveis dos shows da turnê anterior, com menor repercussão.

Para o esqueleto fazer o rap, o trio tinha que acionar um clique para que telão e som se sincronizassem, algo que Neil considerou um pesadelo. A experiência, no entanto, não era inédita, pois eles haviam sincronizado a voz de Aimee Man em “Time Stand Still” desde “Hold Your Fire”. Alex seguiu pela turnê tocando os teclados ocasionais de “Superconductor” e “Time Stand Still”.
Os shows foram abertos por algumas bandas de menor expressão no Canadá, como parte do incentivo do trio aos artistas emergentes, e por artistas como Mr. Big, Vinnie Moore, Eric Johnson e Primus. A convivência com o Primus se tornou bem próxima, com o trio se reunindo com a atração de abertura um pouco antes dos shows fazendo jams com instrumentos inusitados, certamente algo que Lifeson deve ter endossado e adorado.

Na abertura dos shows, com “Force Ten”, os personagens do duplo ao vivo “A Show of Hands”, “The Rockin’ Constructivists”, aparecem e estão sincronizados com o ritmo da canção. O repertório do espetáculo trazia inicialmente 4 faixas do novo álbum: “Bravado” (que traz o dedilhado principal feito com sequenciador ou mesmo através de um sampler), “Dreamline”, a faixa-título e “Where’s My Thing (Part IV, “Gangster of Boats Trilogy)”, que é a que mais varia da versão em estúdio. Ao vivo a música tem uma introdução maior, com várias passagens intricadas do baixo de Geddy e quando Lifeson toca o riff funkeado o sistema de laser parece dançar no ritmo do guitarrista. Além disso, o solo de Lifeson é consideravelmente maior, com bastante velocidade. Posteriormente durante a turnê “Ghost of a Chance” também foi incluída, sendo tocada em cerca de 80% das datas. O grupo fez algumas mudanças durante os shows mais ao final das datas, retirando “Subdivisions” e “The Pass”, trazendo de volta “The Trees”, “The Analog Kid” e “Vital Signs”. “Distant Early Warning”, foi descartada para a etapa europeia, substituída por “Red Sector A”. Apesar de retirar “The Pass” no fim da excursão, o grupo manteve-se tocando outras duas canções de “Presto”: “Show Don’t Tell” e “Superconductor”. “Freewill” e “Xanadu”, como na turnê anterior, vinham em versões editadas. Pela primeira desde seu lançamento o grupo tirou “YYZ” do set. “Tom Sawyer” teve um final com várias paradas em tempos diferentes, mas tocados de forma precisa em uníssono pelo trio. O medley que encerra o bis mudou completamente da turnê anterior, sendo bem mais técnico, trazendo uma mistura de grandes trechos instrumentais das faixas “2112, parte 1:Overture” e “La Villa Strangiato”, complementado por trechos cantados das demais faixas citadas abaixo. Ao fim de “Red Barchetta”, o grupo retorna com o riff principal de “Spirit of The Radio” e mais uma vez termina com um incalculável número de combinações em perfeita sincronia. O set list mais comum trazia a seguinte sequência:

“Roll the Bones” é um disco mais voltado ao rock, mas investe em tentar ser pop também. Abre um pouco a mão do pop dos teclados, mas ao mesmo tempo ensaia um olhar sobre outras tendências, como o funk e o rap, ainda que de forma canadense e tênue. Os teclados, sim, eles sofrem mais uma considerável diminuição no mix, mas ainda estão presentes.
Eu, Alexandre, considero que o álbum mostra mais um passo na caminhada do som que definiu o Rush até o final da carreira, mas, ainda lançado em meados de 1991, não teve como enxergar que uma nova cena, com bem mais “drives” estaria dominando a cultura musical em pouquíssimo tempo depois. O álbum tem um lado A muito forte, com uma ótima faixa de abertura e uma incrível proposta de versatilidade musical na faixa-título. “Bravado” é uma linda canção, que ganha parceria em “Ghost of a Chance”, a melhor faixa do lado B. O grupo é mestre em faixas instrumentais e a ousadia do ritmo funkeado de “Where’s my Thing” só os fez ganharem mais pontos no formato. Ao apostar em melodias mais grudentas, especialmente em “Neurótica” e “You Bet Your Life”, acho que o grupo passou um pouco do ponto. O álbum, no entanto, já tinha “passado de ano” nas primeiras questões, por um lado A quase perfeito.
Eu, Abilio, tenho a mesma impressão do Alexandre: um lado A muito forte, e um lado B com diversas faixas “fillers”, com exceção de “Ghost of a Chance”, tanto que a maioria das canções do lado B nunca foram tocadas ao vivo pela banda. Apesar de ter consumido o álbum vorazmente à época do lançamento na filosofia “Rush’s last is Rush’s best”, hoje considero o álbum o mais ameno da 4ª fase da banda em termos instrumentais, porém as excelentes letras, melodias e arranjos vocais devem ser destacados, numa continuidade da evolução composicional que a banda vinha demonstrando a cada álbum.
A turnê extensa e a boa repercussão dos singles fizeram o grupo recuperar um pouco do terreno que havia perdido em “Hold Your Fire” e principalmente “Presto”. O cenário musical ao redor do grupo em 1992, no entanto, havia mudado drasticamente. O grupo certamente precisava de dar uma atualizada em sua proposta, ainda que utilizando-se de algo da caminhada que iniciaram em “Presto”. No próximo capítulo veremos um Rush ainda mais forte e atento ao peso e melancolia do cenário que se desenhava. Nos vemos em breve!
Keep ‘rollin’ (the bones)!
Abilio Abreu e Alexandre B-side
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