Direto do SRZD: Qual é a sua cor favorita?

Texto por Cláudio Francioni.

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E aí, caro leitor? “What’s your favorite colour?” A pergunta em questão é lançada em alto e bom som (ótimo, aliás) por quatro rapazes negros criados nos subúrbios de Nova Iorque, em meio ao auge do glam rock dos cabelinhos planejadamente bagunçados, maquiagens exageradas e pirotecnias nos palcos. “Vivid”, primeiro álbum do Living Colour, foi lançado em 1988, período que, também vale lembrar, antecedeu a guinada de 180º que o “grunge” impôs ao rock’n’ roll. A banda foi descoberta por Mick Jagger em suas andanças pela noite novaiorquina. Rapidamente, o astro arrumou um contrato para a banda e acabou participando da produção do primeiro disco.

Imagem: Reprodução

“Vivid” é daqueles álbuns que causam paixão à primeira audição. É daqueles que não deixam dúvidas de que se está diante de uma obra prima. Três monstruosos instrumentistas e uma belíssima e potente voz a serviço de uma mistura sonora que faz o ouvinte de primeira viagem alimentar expectativas sobre o que vem pela frente. Alguns estilos estão escancarados, como hard rock, funk e hip hop. mas ouvindo com carinho, se escuta de tudo um pouco.

A faixa de abertura é, talvez, a mais conhecida da banda. “Cult of Personality”, que fala sobre pessoas que seguem cegamente seus líderes, é introduzida por um discurso de Malcolm X defendendo os direitos dos negros a uma terra e língua próprias, seguida por um riff infalível de Vernon Reid. Ganhou, merecidamente, o Grammy de melhor performance hard rock de 1989. A canção seguinte, “I Want to Know”, é um pouco mais pop e tem um refrão chiclete.

“Middle Man” possui outro riff sensacional numa levada funkeada do genial baterista William Calhoun, graduado com honras em Berklee. Pouco, não? A canção é baseada em anotações que seriam uma carta de despedida do cantor Corey Glover, escrita durante um período de depressão. “Desperate People” é ainda mais explícita na abordagem do assunto.

O momento de Glover é “Open Letter (To a Landlord)”. Aberta com uma baladinha, o cantor solta a voz e impressiona pela potência e beleza do timbre. Já o baixista Muzz Skillings, que sairia da banda após o terceiro álbum pra dar lugar à Doug Wimbish, deixa sua marca com um groove funkeado e contagiante em “Funny Vibe”, a minha preferida. A canção “Memories Can’t Wait”, do Talking Heads, ganhou uma versão pesadíssima. Sobre essa canção, acho, eu disse “acho”, que foi tema de abertura de um seriado que passou por aqui nos anos 90. Acredito que se chamava “Nova Iorque Contra o Crime” ou coisa parecida. Mas seriados não são o meu forte. Sobre isso, meu amigo e blogueiro da casa, Leonardo Jorge, poderia esclarecer melhor.

Mr. Jagger resolveu participar mais ativamente e gravou fraseados de gaita em “Broken Hearts” e gritinhos afetados em “Glamour Boys”, a canção mais pop e dançante do Living Colour, que fala sobre jovens que se encantam com as tentações da alta sociedade. “What’s Your Favorite Colour? (Theme Song)”, citada no início do post, é a penúltima do álbum e não tem intenção nenhuma que não seja servir realmente de tema da banda, como se fosse um cartão de visitas apresentando seu estilo peculiar ao mundo. “Wich Way to America?” fecha o disco com uma crítica de Vernon Reid à manipulação televisiva sobre a população americana.

Tive a sorte de vê-los ao vivo três vezes. A primeira, num frio Hollywood Rock de 1992 na péssima companhia do EMF, que fazia um sucesso “unbelievable” (ui) na época. A segunda vez foi no Canecão em 2004 e a terceira no Circo Voador em 2007. Este último, um show antológico com três horas de duração. Lá pelo terceiro ou quarto “bis”, Calhoun volta pro palco apoiado pelos outros integrantes com um copo de caipirinha na mão. Coisas que só o “Circo” podem proporcionar.

Apreciem sem moderação. Dica: aumentem o volume.

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Indicação do texto: Rolf.

Colaborou: Eduardo.



Categories: Curiosidades, Discografias, Living Colour, Músicas, Resenhas, Rolling Stones

4 replies

  1. Excelente o texto – O Living Colour foi na contramão de todas as tendências da época, criando e impondo o seu estilo. É uma banda única, diferente de tudo que conheço, com excepcionais músicos, competência de sobra para tudo quanto é lado. O Album seguinte – Time´s Up é outra aula
    Uma pena é que são apenas 3 discos da fase aurea da banda, um rompimento, anos de ausencia, para o retorno 10 anos (2003)
    Enfim, é pouco material para uma banda com tanta qualidade.
    FR

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  2. Cláudio, primeiramente, obrigado pela permissão ao Rolf em deixar reproduzir o seu texto por aqui no Minuto HM – texto este tão bom quanto o álbum.

    Não há como negar nada do que você disse desde grande álbum, e é igualmente difícil acharmos bandas que possuem um álbum de estreia tão bom quanto este – que pode ser considerado por muitos o melhor, mesmo sendo tão poucos discos na discografia da banda, como o Remote disse acima – então realmente eles são diferenciados.

    Cult Of Personality e Glamour Boys, ainda mais esta segunda, é cantada e reconhecida por qualquer um que aprecie rock, mesmo que não tenha a mínima ideia de quem está por trás do som.

    Sem uma ótima pedida este disco.

    Parabéns pela homenagem novamente.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  3. Claudio, muito obrigado por nos apoiar aqui no conteudo do blog.

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  4. Primeiro, ótima pedida essa resenha do álbum de estréia do Living Colour, não lembro de ter alguma coisa da banda por aqui, tava faltando , agora não falta mais … Ainda mais que o conteúdo é trazido pelo Cláudio, um profundo conhecedor musical e especialista como poucos ..
    O texto é ótimo de ler acompanhando o full álbum , e separando as favoritas . No meu caso, Cult of Personality tem um lugar especial , pela barulheira maravilhosa que é a característica de Vernon.
    Gosto muito também de Open Letter to a Landlord e sugiro uma resenha do segundo álbum, uma senhora ” pancada ” que atende pelo nome de Time’s Up, e que até gosto mais do que este.
    A faixa de abertura me lembrou os momentos em São Paulo, no ensaio que juntou a galera do Minuto onde foi uma das tocadas .
    Por fim, quero assinar embaixo o detalhe em referência ao show de 2007 , no Circo Voador . Estava lá , e foi um dos melhores shows da minha vida . Depois de mais de 3 horas de um massacre sonoro, os caras voltam pro palco , devidamente ” calibrados”, para simplesmente se divertir e brindar a platéia com talvez o terceiro ou quarto bis . Eles nem sabiam o que tocar, combinaram na hora …
    Poucas vezes vi uma banda com tanto prazer em fazer um show ! Desde então , o respeito e admiração pela banda só aumenta .
    Parabéns ao Cláudio e a esses fantásticos caras do Living Colour !

    Alexandre

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