“My counterpart, my foolish heart
A man must learn to rule his tender part” – Neil Peart, Animate

Após terminar a turnê de seu álbum anterior, “Roll the Bones” (1991), no final de junho de 1992, os membros fizeram uma esperada breve pausa antes de começar a trabalhar em um próximo álbum. O trio canadense se encontrava na faixa de seus mais de 40 anos e se entendia em um momento de maior maturidade, que inclusive vinha sendo refletida nas letras mais e mais reflexivas, que tratam de assuntos pertinentes ao desenvolvimento de um adulto na faixa etária deles. Eles haviam casualmente definidos algumas metas que queriam alcançar, a partir de conversas que tiveram durante a Roll the Bones Tour, concordando em tentar buscar um senso de equilíbrio entre espontaneidade e refinamento para o novo projeto. A ideia era em pretender trabalhar em uma abordagem ainda mais orgânica para as músicas. Geddy, Alex e Neil queriam trazer de volta sua experiência em “Roll the Bones”, onde o algo raro, porém mágico, acontecia, por meio de uma sensação de espontaneidade. Isso os moveu. O contato mais duradouro com uma banda mais jovem de estrada, o Primus, que abriu a turnê de “Roll the Bones”, e a influência do efervescente cenário grunge, em especial pela banda Pearl Jam, foram fatores que atuaram na ocasião como catalisadores desta busca. Com a chegada do grunge, o grupo ficou atento ao que se ouvia em músicas de bandas como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden. Neil era o mais entusiasmado. Geddy não era tão fã, mas elogiava a energia e as bandas ao vivo. O baixista destacou particularmente a força e a estrutura das músicas do Soundgarden, segundo ele, impressionantes.
Assim, como em seus dois álbuns de estúdio anteriores, o Rush se refugiou no Chalet Studios em Claremont, Ontário, para compor e ensaiar novo material durante a semana, voltando para casa nos fins de semana para ver suas famílias. Esta etapa de pré-produção durou cerca de dois meses, invadindo pelo ano de 1993. O trio buscou tempo necessário para que pudessem se concentrar em trazerem um som satisfatório dentro da desejada espontaneidade e Lee e Lifeson registraram suas ideias usando um gravador de áudio digital Alesis de oito canais com o software Cubase Audio.

O Rush escolheu convencer novamente o produtor Peter Collins, que havia co-produzido “Power Windows” (1985) e “Hold Your Fire” (1987) a trabalhar com a banda. Lee relembrou a dificuldade que a banda teve em alcançar mais potência em algumas faixas com o produtor Rupert Hine em “Presto” e “Roll the Bones”, que foram, no entanto, etapas importantes na transição para uma nova sonoridade. O trabalho de Collins na produção era muito mais voltado a entender a proposta e dar ao grupo os recursos suficientes para que atingissem os objetivos. Peter nunca colocou a mão no console de gravação, mas deixava o grupo totalmente assessorado por profissionais capazes de chegar na sonoridade desejada. Lee disse que a banda permaneceu amiga de Collins e que a decisão de não mais produzir a banda após “Hold Your Fire” partiu de Peter, o trio apenas teve de aceitá-la. A época dos teclados, que estavam em um ambiente sonoro que perfeitamente combinava com o estilo de Collins ficou para trás e mesmo o produtor já havia, depois de “Hold Your Fire” expandido seus horizontes. O trabalho do Mr. Big dali em diante focou e se desenvolveu em bandas de rock, como o Suicidal Tendences, no álbum “The Art of Rebellion” de 1992. Além disso, o produtor obteve particularmente muito sucesso nos álbuns do Queensryche, a obra-prima “Operation: Mindcrime”, de 1988 e o multiplatinado “Empire”, de 1990.
O trio alega que Peter concordou com a visão, muito alinhada com a direção que queriam seguir. O grupo sempre considerou Collins um produtor muito, muito inteligente, não importando se a música é pop ou metal; o produtor, segundo o trio, tem ótimos instintos. Collins tinha diferentes engenheiros em mente para trabalhar. O grupo enfrentou muitos problemas técnicos que atrasaram o processo de composição a ponto de Peart ter pouco tempo para arranjar suas partes, pois Collins já havia desenhado as próximas etapas de gravação, mas, segundo Geddy Lee, o baterista ensaiou intensamente, de forma muito dura afim de não atrasar uma próxima etapa. O baixista se lembra claramente de ser algo “incrível de se testemunhar”.
“Counterparts” marca um fechamento na transição dos sintetizadores na banda, na qual houve uma decisão consciente de que a guitarra assumisse um papel predominante, resultando em um álbum mais satisfatório para eles. As sessões de composição já haviam se tornadas motivo de maior tensão entre Alex e Geddy. A ideia inicial era não ter teclados desde a pré-produção, mas Lee os levou para o estúdio. Alex estava presumindo que Lee voltaria atrás, querendo teclados por toda parte. O guitarrista estava cansado e exausto mentalmente de novamente ter de buscar espaços para inserir e remover suas contribuições, no meio das partes de teclado, algo que nunca o deixou inteiramente confortável. Quase parecia que a guitarra estava se tornando um instrumento secundário para o que todos os teclados estavam fazendo, e isso eles tinham combinado, já desde “Presto”, em evitar.
Peter, com sua visão, ajudou a banda a percorrer o restante do caminho que faltava e tinha diferentes engenheiros em mente capazes de fazer o projeto tomar forma. Entre eles, em uma decisão conjunta, eles escolheram Kevin “The Caveman” Shirley para a gravação; Lee disse que foi por causa de seu som “cru” e “natural”, que exigia uso mínimo de reverberação, o que foi difícil para a banda se acostumar no início. Shirley adotou uma maneira “muito direta” de gravar os instrumentos para capturar a menor resistência possível dos microfones ao gravador. A simplicidade da gravação era apenas uma questão de conectar o amplificador e microfoná-lo. “Acho que eles estavam procurando algo diferente”, diz Kevin, sobre o motivo pelo qual o contrataram. “Eu não sabia nada sobre o Rush. Para ser sincero, eu conhecia o “Power Windows” — eu era fã do “Power Windows” até certo ponto. Mas sempre fui fã do Led Zeppelin e do Deep Purple, e o Rush sempre foi um pouco mais técnico do que isso para mim, eu não era um grande fã…” “Presto” e “Roll the Bones”, para mim, tinham aquela coisa de teclado de piano. Eu não gostava disso. Eles tinham ouvido minha fita com trabalhos anteriores. Neil ficou muito impressionado com o som da bateria. Ele me fez perguntas. ‘Por que a bateria soa assim?’ E eu disse: “Bem, você sabe, eles são analógicos e gravamos em um Neve, e eu gosto de não equalizar os pratos.” Então Neil simplesmente concordou e disse: “Eu adoro isso”. As demos de 8 faixas foram transferidas para o gravador de 24 canais do estúdio e se tornaram faixas guia para a banda seguir e regravar suas partes de abril a junho de 1993 no Le Studio em Morin-Heights, Quebec, e no McClear Pathé em Toronto. Peart gravou as 11 faixas em ridículos três dias. Aquela foi a última vez que o grupo usou o histórico estúdio em Morin-Heights.

O Le Studio foi o mais importante estúdio para o trio, em toda a sua carreira. Lá eles gravaram 7 álbuns: “Permanent Waves”, “Moving Pictures”, “Signals”, “Grace Under Pressure”, “Presto”, “Roll the Bones” e por fim o “Counterparts”. Neste momento da discografia, entendemos, faz-se necessário traçar um pouco da triste história da icônica estrutura, desde que o grupo inicialmente deixou de gravar lá, no período do álbum “Power Windows” até os seus últimos anos de atividade. Em 1986, momento de ausência do Rush, o Le Studio obteve financiamento para a construção de um segundo estúdio, com recursos de áudio e vídeo. Eles investiram US$ 500.000 em uma unidade de efeitos de vídeo digital Quantel Mirage, na esperança de instalar mais equipamentos que permitissem a gravação de efeitos sonoros e trilhas sonoras de filmes, além de uma sala Synclavier. A estratégia não funcionou e em 1988, Perry e Brandeis, então proprietários, venderam o estúdio. Perry se aposentou no início da década de 1990. O estúdio, passou a ser chamado simplesmente de Studio Morin Heights, tendo sido adquirido em 1993 pela L’Equipe Spectra, responsável pelo Festival Internacional de Jazz de Montreal. Naquele momento o Rush já havia voltado para gravar mais três últimos álbuns, até este “Counterparts”.
Os novos proprietários também construíram uma expansão no prédio, chamada “Far Side”, que contava com um gravador de áudio digital RADAR e uma suíte de produção de vídeo, além de um espaço de lazer e convivência ampliado, permitindo que bandas locais com orçamentos modestos se beneficiassem das comodidades. Isto deu uma sobrevida de quase 10 anos ao então Morin-Heights. Em 2003, porém o estúdio foi fechado. O terreno de quase 1 km² foi colocado à venda em julho de 2007, com um preço inicial de 2,45 milhões de dólares canadenses, permanecendo à venda até 2009, quando foi comprado com a intenção de converter a área em um retiro e spa, mas isso nunca se concretizou, permanecendo desocupado e gradualmente deteriorado, tendo sido invadido e vandalizado diversas vezes. Uma campanha de busca de 2,4 milhões de dólares foi iniciada em 2015 para reconstruir o Le Studio, mas apenas 4.000 dólares foram arrecadados. Em 11 de agosto de 2017, o prédio foi parcialmente destruído em um caso suspeito de incêndio criminoso. A área residencial do estúdio foi completamente destruída, enquanto a área original de gravação ainda estava de pé, mas foi severamente danificada. O que restou do complexo foi demolido em 2020 e, em 2021, toda a propriedade foi limpa e colocada à venda por 850.000 dólares, permanecendo até agora sem ofertas. Além do trio canadense, vários artistas famosos estiveram por lá, entre eles Bee Gees, Sting, Bryan Adams, Roberta Flack, Chicago, The Police, Nazareth, April Wine, Cat Stevens, David Bowie e Keith Richards. Há vários documentários de curta duração na internet a respeito do icônico Le Studio, entre eles podemos destacar esses abaixo:
-Em 2014, após ter sido comprado e deixado desocupado, com menção ao Rush como o maior artista a ter gravado por lá:
– Em 2019, passados 2 anos do incêndio que destruiu boa parte da área construída, com imagens aéreas muito bonitas:
– Abaixo em 2021, já sem qualquer construção de pé:
Voltando a 1993, para as gravações de “Counterparts”, Lifeson foi convencido por Kevin a utilizar fitas analógicas e os efeitos foram explorados posteriormente, um princípio também adotado por Terry Brown nos álbuns dos anos 1970. Alex inicialmente resistiu à ideia de gravar suas guitarras fora da sala de controle, algo que não fazia há mais de uma década, mas Shirley o convenceu a tocar na sala do estúdio. O guitarrista e o “homem das cavernas” brigaram bastante também pelo excesso de reverb pretendido pelo guitarrista. Foram necessárias cerca de cinco garrafas de uísque e uma manhã seguinte não muito agradável para que eles enfim chegassem a um acordo.

Outra ideia de Kevin foi por trazer instrumentos vintage. Segundo “The Caveman”, as guitarras PRS eram bonitas demais e poderiam serviram de enfeito ou adorno, como mesas de centro, mas ele queria que Alex pegasse instrumentos como uma Gibson Les Paul, que o engenheiro ligava em um Marshall em volume altíssimo, algo que os fez se divertirem muito. “Animate” e “Stick It Out”, tomaram uma definição muito melhor quando Alex optou pelas encorpadas Les Paul. Kevin trouxe também Fender Telecaster para sons cristalinos e assim “Between Sun & Moon” surgiu em sua forma mais definitiva. O engenheiro quis deixar os delays, chorus e reverbs para a mixagem, ainda assim com mínima participação. Alex tentou usar mais violão também. O método com mínimas interferências tecnológicas e sonoridade mais moderna também serviu para gravar os baixos de Geddy. Lee usou um baixo Fender Jazz Bass de 1972 com cordas mais pesadas, que foi comprado usado por cerca de 200 dólares em Michigan. Kevin pegou um cabeçote de um amplificador Ampeg antigo, que estava à margem no Le Studio,e estava fazendo barulho e zumbindo, mas foi a coisa certa a fazer. Lee parecia incrédulo por deixar os Gallien Kuegers e simulações oriundas de novas tecnologias para, segundo ele, usar um “amplificador Ampeg que estava destinado ao lixo.” “…Eu queria me livrar do baixo Wal…”“…Nunca gostei, nunca gostei do baixo do Level 42…” confirmava Kevin. “Eu queria me livrar dos efeitos do Alex; eu queria me livrar de tudo aquilo que me lembrava o Flock of Seagulls. E eu era tão contra teclados naquela época da minha vida, estávamos saindo da fase DX7 e MIDI, eu realmente odiava. Este amplificador ajudou Geddy a extrair mais potência dos graves“.

Peter Collins trouxe o arranjador Michael Kamen, que adicionou uma “dose extra de drama” ao que já era uma música muito emocionante, “Nobody’s Hero”. Ele trouxe também John Webster para alguns “teclados adicionais”, mas Geddy também teve muita contribuição, executando todo o trabalho de sintetizadores simples, deixando para John arranjos mais cheios. Esse olhar para Seattle, refletiu Peter, “precipitou uma mudança de direção de volta a um som mais próximo das raízes dos anos 70. E é um disco com um som ótimo. É um retorno àquele tipo de atitude de rock de três integrantes”.
Para a mixagem, a banda contratou o engenheiro australiano Michael Letho. “Eles estavam inseguros quanto ao potencial de Kevin de ser tão detalhado quanto eles queriam na hora da mixagem, e também sobre sua aversão ao reverb”, refletiu Peter Collins. “Eles definitivamente queriam ter reverb nos vocais e nas guitarras.” Eles não queriam ser afastados dessa possibilidade, e eles sabiam o quanto ele era contra isso daquela vez. Então eu acho que isso os levou a querer um mixer estilo Jim Barton”. Peter novamente atuou, desta vez concordando com a banda. Além de estar em “Operation:Mindcrime” e “Empire”, Barton havia trabalhado com a banda em “Power Windows” e Peter entendeu que Michael Letho seguiria a linha desejada. Collins comentou no final: “Não é ótimo quando um plano realmente funciona!” Por fim, o álbum foi masterizado por Bob Ludwig na Gateway Mastering em Portland, Maine.
O título do álbum foi decidido após a conclusão das músicas, baseado no sentido complementar, o de formar um complemento natural de um elemento a um outro, opostos entre si, muitas das vezes. Peart não tinha uma espécie de fio condutor entre as músicas individuais como em “Roll the Bones” e, em vez disso, trouxe diversos assuntos para os temas das canções, entre eles diferenças entre os gêneros, o princípio da anima e do animus idealizado pelo psicólogo Carl Jung e o lado bom e ruim do heroísmo. Peart apontou que a dualidade se tornou o único tema unificador e inspirou o título do álbum. “Counterparts” ou “contraparte” pode ser considerado tanto como “duplicado” quanto como “oposto”, no sentido de “formar um complemento natural ao outro”. São contrários que se tornam reflexos uns dos outros, números opostos, não necessariamente contradições ou inimigos. Polaridades não devem ser resistidas, mas reconciliadas. Dualidades como gênero ou raça não são opostas, mas verdadeiras contrapartes. O conjunto teve dificuldade em selecionar a ordem das faixas de “Counterparts”, em parte devido ao fato de ser mais fácil separar o álbum com dois lados de um vinil. Para ajudar, Lifeson listou cada faixa em um quadro magnético para que pudessem experimentar a ordem até encontrar uma com o que estavam satisfeitos.
Alex tentou usar as suas PRS em estúdio, mas como já foi citado anteriormente, estas perderam muito espaço para as Gibson Les Paul e para uma Fender Telecaster. Na turnês elas continuavam, firmes e fortes. Os efeitos foram levados também para a turnê, em especial os de ambiência e eco, como o TC Electronics 2290 Delay, o Roland SDE 3000 Effects Processor e o Lexicon Delay. O guitarrista usou amplificadores Peavey 5150, um dos preferidos de Kevin Shirley, o Marshall JCM800 (100w) e o Roland Jazz Chorus-120, estes voltados também ao som limpo. Geddy trouxe um Fender Jazz Bass 1972 e combinou o instrumento com um cabeçote Ampeg que estava deixado meio de lado no Le Studio. Ao vivo, no entanto, o baixista preferiu pré-amplificadores e powers da marca Trace-Elliot. Dois Fenders novos, ambos Jazz Bass, um na cor vermelha e outro Sunburst, foram levados para os concertos.
A bateria de Peart praticamente não se alterou da que foi usada na tour anterior, mas o baterista mudou para uma cor bem escura, preta que, se olhando em detalhes, trazia uma tênue coloração de tom cereja. Neil apenas usava mais samples, passou a incluir sons de tamborim acionados pelos pads. Este kit foi aposentado após os últimos shows da turnê de “Counterparts” e por volta de 1999 foi exposto no Hall da Fama do Rock and Roll em Cleveland. Em 2000 a bateria foi transferida de forma permanente para o Museu Canadense de História em Quebec, onde cada peça foi meticulosamente catalogada e fotografada. Essas fotos proporcionam uma rara oportunidade de inspecionar a bateria, os componentes eletrônicos e o hardware. Abaixo trazemos algumas dessas fotos, em especial aquelas que contemplam a parte eletrônica do kit de Neil.
Para a arte da capa, a visão do artista Hugh Syme para o projeto tomou forma depois de se aprofundar no tema com Neil Peart. Hugh pensou sempre em como estabelecer o significado da palavra Counterparts, através de várias dualidades citadas por Neil, entre elas: yin e yang, sal e pimenta, tartaruga e lebre, a lista era eterna.

Assim, Hugh construiu inicialmente um arquivo inteiro, com várias referências às contrapartes, tornando-se o que ele acabou ilustrando como “A Oração”. Todas aquelas imagens juntas, que aumentavam a cada contato entre Neil e Syme, porém, não poderiam estar na capa, pela enorme quantidade de informações. A ilustração de Sime teve inspiração em um trabalho da banda Pink Floyd.

Hugh pensava em destacar algo bem simples, minimalista, para a capa. O encarte interno poderia sim trazer um conteúdo que mostrasse todos esses elementos visuais. Eles precisavam escolher um deles para estar na imagem principal de “Counterparts”. Hugh e o trio não conseguiram decidir por algum mais específico. Hugh Syme, então, optou por uma estética austera, a capa era quase punk em seu minimalismo chocante. Syme oferece uma imagem simples em preto, azul-reais e dourado falso. O nome da banda aparece discretamente, em letras minúsculas. O título do álbum não está incluído na arte da capa. Levemente sexual há um diagrama de um parafuso encaixando em uma porca, a simplicidade “atrevida” de um parafuso entrando em um buraco.
“Counterparts” é o décimo quinto álbum de estúdio da banda canadense de rock Rush, lançado em 18 de outubro de 1993, no Reino Unido e em 19 de outubro em todo o mundo. Totalmente envolvido pelo clima grunge da época, investe inicialmente em canções pesadas, como as três primeiras, que de certa forma dominam o tom principal do álbum. Mesmo a quarta canção, de sonoridade folk, não muda este tom mais sombrio, já que está calcada no tema mais sensível e sério do trabalho. O álbum, no entanto, traz suas contrapartes, em canções mais leves e suaves, já a partir de “Between Sun & Moon”, mas também presentes em faixas como “The Speed of Love” ou “Everyday Glory”. Outras variações são destacadas na opção por trazer uma faixa instrumental, nas experimentações de “Double Agent” e em apostar no pop rock de “Cold Fire”, fazendo de “Counterparts” um álbum bastante diverso.

Geddy Lee: Baixo, Vocais, Sintetizadores.
Alex Lifeson – Guitarras e Violões.
Neil Peart – Bateria e Percussão eletrônica.
John Webster – Teclados adicionais

Produzido e arranjado por: Peter Collins e Rush
Orquestração em “Nobody’s Hero” arranjada e conduzida por: Michael Kamen
Gravado por: Kevin (Caveman) Shirley entre abril e junho de 1993, no Studio Morin Heights, assistido por Simon Pressey e no estúdio McClear Pathé, em Toronto, assistido por Bill Hermans.

Pré–produção no El Chalet Studio com engenharia de som por: Lerxst Sound, assistidos por Everett Ravestein
Masterizado no: Gateway Studios, Portland, Maine, por Bob Ludwig,
Direção artística: Hugh Syme
Fotografia: Andrew MacNaughtan
Produção Executiva por: Anthem Entertainment, Liam Birt and Pegi Cecconi
Empresariamento: Ray Danniels, SRO Productions, Inc., Toronto
Atlantic/Anthem, 19 de outubro de 1993.
© 1993 Atlantic Records © 1993 Anthem Entertainment


Primate provided by Monkey Business, Niagara Falls, N.Y.

Tour Manager and President: Liam Birt
Production Manager: Nick Kotos
Stage Manager: Skip Gildersleeve
Concert Sound Engineer: Robert Scovill
Lighting Director: Shawn Richardson
Stage Left Tech: Jimmy Joe Rhodes
Center Stage Tech: Larry Allen
Stage Right Tech: Jim Johnson
Keyboard Tech: Tony Geranios
Monitor Engineer: Bill Chrysler
Personal Assistant and Tour Photographer: Andrew MacNaughtan
Concert Sound by Electrotec: Ted Leamy, Larry (Kahuna) Vodopivec, Marc Tooch, David (H.B.) Stogner
Lighting by See Factor: Larry Hovick, Mike Frantz, Donny Lodico, JIm Floyd, Marty Capiraso, Mario Corsi, Simon Honner, Jack Funk, designed by Howard Ungerleider and Shawn Richardson
Vari-lites: Steve Owens, Stewart Felix, Kevin (Stick) Bye
Projectionist: Bob Montgomery
Concert Rigging by IMC: Billy Collins, Mike McDonald, Marc Renault, Simmaryin (Speed) Love
Laser by Laserlite FX: Charles Passarelli, John Popowycz
Carpenters: Elmer (Moe) Haggadone, George Steinert, Sal Marinello
Drivers: Tom (Witey) Whittaker, Arthur (Mac) MacLear, Tom Hartman, Stan Whittaker, Ron Sagnip, Danny Shelnut, Jim Dezwarte, Dave Cook, Red McBrine
Tour Merchandise: Mike McLoughlin, Shannon McLoughlin, Pat McLoughlin
Tour Accountants: Liam Birt and John Whitehead (Drysdale and Drysdale)
Booking Agencies: International Creative Management, NYC, The Agency Group, London, The Agency, Toronto


We appreciate technical assistance from Jim Burgess and Saved By Technology (or was it Destroyed by?), Wal basses, Paul Reed Smith guitars, Gallien-Krueger, Ludwig drums, Avedis Zildjian cymbals, and – Ω?
Brought to you buy the letter “?”
In Memory of Pat Lynes and Lee Tenner



Lado A
Animate (06:03)
Stick It Out (04:30)
Cut To The Chase (04:47)
Nobody’s Hero (04:54)
Between Sun & Moon (04:37)
Lado B
Alien Shore (05:45)
The Speed Of Love (05:03)
Double Agent (04:51)
Leave That Thing Alone (04:06)
Cold Fire (04:27)
Everyday Glory (05:11)

“Counterparts” alcançou a 2ª posição nos Estados Unidos em 6 de novembro de 1993, atrás apenas do álbum de estreia do Pearl Jam, tornando-se um dos dois álbuns de maior sucesso da banda na Billboard do país. Obteve também a 6ª posição no Canadá e a 14ª no Reino Unido. Antes do álbum ser lançado, ele estreou um especial de rádio apresentado por Steve Warden na CILQ em Toronto em 14 de outubro de 1993. Em 1994, o instrumental “Leave That Thing Alone” foi indicado ao Grammy de Melhor Performance Instrumental de Rock. O álbum atingiu certificado de disco de ouro nos EUA rapidamente, por 500.000 cópias ainda em 1993, no dia 07 de dezembro, pouco menos de dois meses após ter sido lançado. No Canadá chegou às 100.000 cópias com status de disco de platina, no ano seguinte. No entanto, o álbum não teve fôlego para repetir o desempenho final do álbum anterior, “Roll The Bones”. Alguns fatores podem ser associados a até uma certa decepção nestes números finais, já que o material do trabalho tinha força suficiente para competir com outros álbuns de maior repercussão. É preciso lembrar que bandas mais veteranas como o Rush precisaram dividir suas preferências com a locomotiva de novas bandas surgidas através do movimento grunge, que em 1993 estava em pleno auge. Além disso, já era possível efetuar cópias em cd virgens, com uma qualidade bastante razoável, melhor do que as antigas cópias, feitas em fitas cassetes. O futuro da tecnologia associada à indústria musical ainda traria mais consequências que iriam refletir de forma definitiva nas vendas, mas, naquele momento o formato mp3, por exemplo, ainda estava surgindo, e de forma bem embrionária. O compartilhamento de música via internet ainda não tinha assumido o papel destruidor que teria, anos à frente. Certamente, no entanto, álbuns de 1993 recebiam algum impacto não pouco significativo nas suas vendas, assim “Counterparts” acabou “estacionando” no status de disco de ouro nos EUA. A crítica especializada, na época, em geral recebeu bem o álbum, com avaliações acima da média 3/5. Mesmo a revista Rolling Stone o avaliou com nota 3/5.
Singles:
O primeiro single, “Stick It Out”, foi o número 1 na parada Billboard Album Rock Tracks por quatro semanas. O formato mais conhecido do lançamento deste primeiro single é o em cd, que traz apenas a música. Há um formato menos conhecido, o de 12 polegadas que traz 4 canções de “Counterparts”. No lado A estão presentes “Stick It Out” e “Cold Fire”. No lado B, “Nobody’s Hero” e “Double Agent”. As demais canções foram veiculadas também, mas delas apenas “Cold Fire” obteve maior repercussão, chegando a atingir a 2ª posição nas paradas de rock. A gravadora viria a insistir com “Nobody’s Hero” mais à frente. Além de ser o primeiro, single, “Stick It Out” também teve um videoclipe produzido para a canção, com boa veiculação, inclusive aparecendo brevemente em um episódio do programa super badalado de animação da época, Beavis and Butt-Head.
No clip, o grupo se apresenta habitualmente dublando a canção, com imagens externas e de estúdio, alternando tais cenas com a parte conceitual associada à canção, que traz um personagem amarrado a uma cadeira que durante todo vídeo se esforça sobremaneira para escapar, sobrevivendo inclusive a um afogamento. Assim como muitos vídeos da época, a canção termina a história em um final aberto, mostrando ainda o personagem às voltas com sua luta em escapar.
“Animate” foi escolhido para ser o segundo single, obteve o 35º lugar nas paradas de rock da Billboard, uma repercussão bastante discreta, um entendido fracasso, ainda mais considerando que a canção era a faixa de abertura do álbum.
Como afirmamos antes, a gravadora tentou insistir com “Nobody’s Hero” como o terceiro single de “Counterparts”. A música foi lançada inicialmente em cd single, não tendo qualquer outro material que a acompanhasse, mas há uma rara versão em fita cassete, onde ambos os lados trazem, além da própria “Nobody’s Hero”, o seu primeiro single, “Stick It Out”. A canção chegou ao 9º lugar nas paradas, uma boa repercussão, mas ainda abaixo de duas outras canções, a própria “Stick It Out” e “Cold Fire”. Outro vídeo, intercalando imagens da banda em um cenário montado em estúdio, novamente dublando a canção, com imagens conceituais em preto e branco. Estas trazem pessoas em situações de cotidiano usando máscaras, preservando seus anonimatos. As inúmeras cenas podem trazer diversas interpretações, a letra por si só já traz bastantes questionamentos e assuntos delicados, como veremos mais à frente.

1- “Animate” – https://rushvault.com/2011/01/23/animate-lyrics/
A primeira canção do álbum se refere às pesquisas psicológicas sobre a mente humana baseadas nas teorias do psiquiatra suíço Carl Jung (1875 – 1961) – fundador da chamada Psicologia Analítica ou Psicologia Junguiana. Peart compõe a letra de “Animate” partindo do princípio do arquétipo Anima / Animus. O Anima / Animus, pela teoria de Jung, reflete uma estrutura complementar à personalidade humana através do inconsciente masculino encontrando expressão em uma personalidade interior feminina (Anima) e o feminino expressando tal aspecto através de uma personalidade interna masculina (Animus). “A Anima, sendo feminina, é a figura que compensa a consciência masculina”, explica Jung. “Na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino e pode ser designada pelo nome de Animus”. Outra fonte de inspiração veio de Camille Anna Paglia, uma Professora da Universidade das Artes da Filadélfia, que na década de 1990 ganhou destaque ao analisar a sociedade e a cultura em seu livro “Personas Sexuais” (Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson). Neil usou outras obras como inspiração para canção, como o livro que havia recomendado para Geddy: “Skiny Legs and All” de Tom Robbins e, mais incrível, resolveu citar na frase “daughter of a demon lover” do poema “Kubla Khan” de Samuel Taylor Coleridge, que inspirou a canção “Xanadu”, do álbum “A Farewell To Kings”. O trecho em questão do poema que serviu de inspiração para a faixa de abertura de “Counterparts” é: “As e’er beneath a waning moon was haunted / By woman wailing for her demon-lover!” ou seja, “pois, a lua em prantos é amaldiçoada / Por uma dama uivando por seu demoníaco amante’”.
É comum tentar entender a letra como uma relação entre duas pessoas, mas na verdade Neil esclareceu que canção é sobre uma única pessoa, em suas dualidades. A ideia central de “Counterparts” é de que somos duplicados e opostos, que funcionam bem se equilibrados. A música traz em uma de suas frases o próprio nome do álbum: “My counterpart, my foolish heart”. Trata-se, em conjunto com a frase seguinte, “A man must learn to rule his tender part”, de uma prova de que as letras de Peart refletiam as preocupações dos integrantes do Rush no alto dos seus mais de 40 anos, avaliando uma relação amorosa de forma mais madura e adequada aos seus anos de vida.
A música começa o mais orgânica possível, em uma contagem para iniciar a bateria. A sonoridade do baixo e da bateria de imediato chamam a atenção pelo peso e potência, muito maior que muitos dos álbuns anteriores. Cabe aqui frisar que em “Counterparts” inicia-se uma nova era na técnica de mão direita de Lee. Ainda muito jovem, Geddy sofreu um acidente e quase perdeu a unha do dedo indicador direito, e essa unha acabou crescendo bem mais grossa que o normal. Muitos anos depois, Geddy conheceu Les Claypool do Primus, que, apesar de afirmar ter sido bastante influenciado por Geddy, domina uma técnica de baixo bastante particular, e Geddy começa a pensar que também poderia desenvolver uma forma única de tocar seu instrumento. De uma maneira muito natural, Geddy começa a tocar o baixo com a ponta da unha do indicador da mão direita em movimentos para cima e para baixo emulando uma palheta, o que hoje é conhecido como “Flamenco Technique”. A técnica se mostrou muito eficaz, trazendo linhas poderosas e constantes como podemos notar em “Animate” e demais faixas da discografia da banda dali em diante.Abaixo segue um vídeo em que o próprio Geddy explica o desenvolvimento dessa técnica:
Retornando à análise da faixa, Lifeson faz em um dedilhado discreto, com um também discreto uso de órgão ao fundo. Em 1:02 surge um ótimo riff, bem característico do hard rock, tocado por Geddy e Alex. A música segue revezando os dois trechos citados com o refrão. “Animate” tem a propriedade necessária para abrir um álbum, uma música energética e brilhante, pulsante mesmo. Em 3:00 um sintetizador ajuda a trazer uma sonoridade soturna à canção. Em 3:25 Neil traz uma linha de bateria tribal, com uso de um elemento eletrônico na função de pandeirola, enquanto Lee mantem a linha constante de baixo e Lifeson faz suas características frases ao fundo. O solo de LIfeson Lifeso é bastante grave e parrudo, inicialmente ele vem recheado de eco e mais ao fundo, para depois tomar conta inteiramente da cena. Em 4:43 Neil faz uma ótima virada de bateria, rápida e potente. No final há uma nova linha de teclados pontuando discretamente a canção, outra ótima escolha do arranjo. O grupo acertou em cheio ao escolher esta faixa para abrir o álbum.
2- “Stick it Out” – https://rushvault.com/2011/01/23/stick-it-out-lyrics/
Mais uma vez, a dualidade na música pende um pouco para dois lados opostos, praticamente a cada frase. O senso de tolerância ou resistência se contrasta com o de não segurar, não se conter, no refrão que traz “Stick It Out” (aguente firme) em oposição a “Spit It Out” (cuspa para fora). O primeiro parágrafo inteiro é feito de frases contrastantes: “Trust to your instincts, if it’s safely restrained” e “Lightning reactions, must be carefully trained”, algo que contrapõe o instinto com algo seguro e as reações imediatas a aquelas meticulosamente treinadas.
Musicalmente, a técnica conhecida por Drop D e bastante dissonância são a marca do riff de maior personalidade do álbum, tocado desta forma pela dupla de cordas. A escolha por afinar a guitarra e baixo na corda mais grave ( a sexta corda da guitarra e a quarta corda do baixo) baixando em 2 casas da afinação padrão (Drop D, onde D significa a nota ré) é um recurso já bastante utilizado para dar mais peso, para dar “maldade” ao trecho, mas não é quase usado por Lifeson e Lee na discografia do trio, em especial com tantos drives. A dissonância surge nos 2 acordes que se alternam entre as notas simples do riff, em especial o primeiro, que surge em 0:34. Lifeson também se utiliza de feedback não exagerado, na medida certa, para prolongar algumas notas, outro recurso para trazer uma sonoridade robusta e soturna, conforme pretendemos mostrar abaixo, em mais detalhes.
O refrão é um outro ponto alto da música, bem marcante, com vários vocais dobrados em contraponto. Em 2:13, no trecho antes do solo, o baixo toma conta, com um dedilhado também bem pesado, enquanto Peart traz uma bateria mais contida, com uso da beira da caixa como marcação principal. Em 2:43, Lifeson usa de um PRS para fazer mais um solo bastante expressivo e dramático, com uso da alavanca. A base é feita na Gibson Les Paul sugerida por Kevin Shirley. “Stick It Out” é outra canção poderosa e pesada no álbum, certamente o momento mais pesado, um avanço da proposta que o grupo trouxe em “Show Don’t Tell” de “Presto”
3 –”Cut To The Chase” – https://rushvault.com/2011/01/23/cut-to-the-chase-lyrics/
A expressão “cut to the chase” significa ir ao que interessa, sem perda de tempo. Na canção, o baterista pensa sobre os dois lados da ambição, esta que pode “ser pura como o desejo de um amante”, porém “má como o desejo de um assassino “. A ambição é como a cólera, pode ser sombria, maligna e venenosa, por um lado, se for desmedida e desrespeitosa. A ambição pode ser, em contraponto, algo importante, que nos mantém revigorados e revitalizados para nos tornarmos melhores.
Novamente o baterista-letrista traz várias referências na própria obra do Rush, por exemplo nas frases “young enough to remember the future” nos leva à música “New World Man”, de “Signals”. “Chooses an uphill climb” nos remete a “Marathon”, do “Power Windows” e “bearing on magnetic north” nos lembra outra faixa da fase em que os teclados estavam mais presentes, “Prime Mover”, do álbum “Hold Your Fire”.
A terceira faixa se inicia com o baixo hipnotizante e uma guitarra em dedilhados sem qualquer modulação, uso de chorus ou flanger, por exemplo. É um dedilhado que se complementa ao baixo para trazer outra faixa voltada ao som mais pesado. Em 0:50, Alex usa os drives para o refrão, que tem várias vozes de Geddy e um riff com a harmonia em tons modulados. Em 1:24, volta o dedilhado, mas há uma guitarra dobrando o baixo, para acrescentar robustez no arranjo. Em 2:06 o arranjo acrescenta uma sonoridade de órgão Hammond, numa prova que o grupo deixaria a sonoridade dos teclados característicos dos anos 80 bem à margem, preterindo-a por sons mais vintage e orgânicos. Um ágil solo surge em 2:45, com bastante fluidez e menos agressividade, mas com o feeling usual de Lifeson, numa ótima execução. Em 3:18 no trecho pós refrão traz um ótimo riff que lembra os tempos da banda no primeiro e segundo álbum. Em 3:48, ficam apenas a bateria de Neil, com viradas acrescidas de efeito phaser, e vocais alternando no estéreo, entre outros de ambiência. Por fim, volta o refrão repetido duas vezes e a música acaba secamente com uma convenção breve de baixo, guitarra e bateria.
4 – “Nobody’s Hero” – https://rushvault.com/2011/01/23/nobodys-hero/
A letra mais forte de “Counterparts” trata de duas experiências vividas por Neil Peart, com duas pessoas as quais ele tinha apreço, mas morreram deixando um vazio também no baterista. A primeira pessoa tratada na letra é um amigo homossexual, que faleceu em razão de ter sido contaminado com o vírus HIV. Neil explicita claramente que a opção sexual de um indivíduo nada tem a ver com seus valores e com o fato de uma convivência com pessoas boas podem trazer o bem a qualquer um, independente de crenças, preferências pessoais ou demais individualidades. Ele classifica estas pessoas, que deixam marcas nas vidas de outras, como os heróis anônimos ou heróis de ninguém (Nobody’s Hero).
Neil não teve um contato maior com a segunda personagem de “Nobody’s Hero”, mas a história trágica de Kristen French, uma adolescente de apenas quinze anos que foi brutalmente assassinada na cidade do trio canadense pelo serial killer canadense Paul Bernardo, em 1992, marcou muito o baterista. “The Professor” confessou que não conhecia a adolescente, mas sim sua família, na frase: “I didn’t know the girl, but I knew her family” – “eu não conhecia a garota, mas conhecia sua família”. Kristen foi abordada pelo criminoso e, ingênua, quis ajudá-lo prestando informações com a verificação de mapas, para que ele conseguisse se localizar. A abordagem, é claro, foi um pretexto para que a adolescente, tentando ser uma boa pessoa em ajudar o outro, fosse encurralada e brutalmente assassinada a seguir.
A letra também é uma crítica a supervalorização de figuras famosas como uma espécie de semideuses, aliás, uma questão bem relevante atualmente. Artistas, esportistas, influencers, todos sendo tratados como verdadeiros heróis para um público que deveria dar valor aos heróis anônimos, que fazem heroísmos menos ostentosos todos os dias.
Depois de três canções nas quais quase não há espaço para respirar, “Nobody’s Hero”, a quarta música de “Counterparts” se inicia com os violões de Lifeson, interrompendo o uso de guitarras pesadas. Geddy começa a cantar em 0:10,com os vocais dobrados em uníssono, por cima da sonoridade folk que Lifeson provém. Em 0:30 um clima de cordas muito discreto antecipa o refrão, que surge junto da bateria, guitarras mais pesadas e baixo em 0:44. A orquestração contida de Michael Kamen é muito adequada, aparecendo e crescendo conforme o refrão vai se repetindo. Em 1:26 um fraseado curto de guitarra antecipa a segunda estrofe, quando o grupo muda o protagonismo no desenvolvimento das letras da canção. Lifeson traz o solo contido novamente em 2:43, porém com um pouco mais de espaço para desenvolvê-lo, sem dominar inteiramente o arranjo. A bonita e também bem discreta orquestração de Kamen vai ganhando um pouco mais de espaço, em especial no refrão, e tem uma sonoridade que até traz referências ao que o maestro fez em “Silent Lucidity”, do Queensrÿche, alguns anos antes, mas a proposta em “Nobody’s Hero” é bem mais suave, privilegiando a força da letra e de seu refrão.A música segue até o seu final com vocais dobrados e interessantes convenções de baixo e bateria, terminando em fade-out.
5 – “”Between Sun & Moon” – https://rushvault.com/2011/01/23/between-sun-and-moon-lyrics/
“Between Sun & Moon” é a terceira colaboração entre Neil e Pye Dubois, que antes havia sido o coautor de “Tom Sawyer” e “Force Ten”. Esta não seria a última contribuição entre a parceria, como veremos logo à frente na discografia Minuto HM. A canção segue o padrão das demais faixas de “Counterparts”, trazendo opostos como o sol e a lua que estão no seu título. “There is a Lake Between Sun and Moon”, escrito originalmente em 1992 por Pye Dubois foi o poema que deu a partida para a letra tomar forma. Pye foi inspirado nos versos do poema The Hollow Men, escrito em 1925 por T.S.Eliot, notadamente nos trechos “between the idea and the reality, between the motion, and the act, fall the shadow” e “between the concept and the Creation, between the emotion and the response, falls the shadow” algo como “entre a ideia e a realidade, entre o movimento e o ato, cai a sombra” e “entre a concepção e a criação, entre a emoção e a resposta, cai a sombra”. O poema de T.S. Eliot pode ser lido na íntegra aqui
O clima sombrio que nos trouxe até esta quinta canção, com 3 faixas iniciais bem pesadas e uma balada triste que as seguiu, desaparece em “Between Sun & Moon”, música que Lifeson admite sua influência entre os guitarristas seminais do rock and roll britânico dos anos 60, em especial pelas bases de Keith Richards e, ainda mais, de Pete Townshend, do The Who. Os teclados estão muito ao fundo, praticamente imperceptíveis, quando Lee começa a cantar. Em 0:35 Neil troca os bumbos pela condução principal da canção, enquanto Geddy dobra sua voz em uníssono. O refrão marcante e grudento em acordes maiores surge em 0:54, com progressivas subidas de tom revigorantes, reforçando o clima alegre da música. Ao fim do primeiro refrão, Peart usa dos toms para acrescentar dinâmica ao trecho. Novamente temos a guitarra quase rock and roll de Lifeson para iniciar novamente estrofe e refrão. Em 2:02, após uma virada magnífica de bateria, temos um vocal de Geddy com delay, enquanto a banda parafaz paradas pontuais, trazendo ainda mais acessibilidade à música, de reconhecido potencial comercial. Em 2:42 parece realmente que estamos ouvindo o The Who, as guitarras do puro rock and roll, quase hard, acompanhadas por um baixo que poderia ter sido feito por John Entwistle, tal sua sonoridade potente. Peart não fica atrás e despeja viradas rápidas que nos lembram Keith Moon. O solo é bem rítmico, Lifeson propõe trazer acordes e riffs ao invés de notas aceleradas, mantendo o clima despojado da canção. Após um trecho mais calmo que serve de ponte após o solo, o grupo reforça o acessível refrão até o final da música.
6 – “Alien Shore” – https://rushvault.com/2011/01/23/alien-shore-lyrics/
Em “Alien Shore”, a sexta canção de “Counterparts”, Neil Peart traz os conceitos complementares relacionados aos sexos opostos e as diferentes raças humanas. O baterista ressalta que Dualidades como raça e sexo não são opostas, mas complementares – únicas, ainda que diferentes – e não devem ser encaradas como uma competição existencial , em especial nas frases “for you and me, sex is not a competition, for you and me, sex is not a job description”, ou seja, para você e para mim, sexo não é uma competição, para você e para mim, sexo não é uma descrição do trabalho” e “color and culture, language and race, just variations on a theme”, que significa algo como “cor e cultura, língua e raça, apenas variações sobre um tema” Segundo o letrista, as polaridades não devem ser combatidas, mas reconciliadas, aliás, outro tema que encontra muita ressonância talvez ainda mais nos dias atuais, reforçando a preocupação de Peart com as divisões e separações entre pessoas, assunto que ele trouxe, por exemplo, em “Subdivisions”, de “Signals”.
O título da canção pode ter surgido para lembrar a banda de new wave Platinum Blonde, que em 1985 fez o álbum “Alien Shores”, com a participação de 2 solos de Alex Lifeson, nas faixas “Crying Over You” e “Holy Water”. Igualmente intrigante é o início da sexta faixa de “Counterparts”, que contém palavras quase ininteligíveis, ao que se supõe é Alex Lifeson dizendo de maneira hilariante a frase “out of my nose” com narinas fechadas. Um riff rasgante com acordes inicia a canção, mas em 0:21 o baixo de Geddy domina a cena, acompanhado de uma condução cheia e bem técnica de Peart e Lifeson tocando dedilhados mais espaçados.
O refrão é uma sequência crescente de acordes, em cima de uma letra forte e perfeitamente encaixada no trecho, ao fundo podemos ouvir poucos teclados. Neil alterna a condução para algo mais pesado na segunda estrofe. A ponte nos leva ao solo que se inicia com alguns acordes, mas segue com notas em uso de captação grave das guitarras de Lifeson, com a usual dramaticidade. A estrofe que se segue ao solo, em 4:08, traz uma guitarra leve e suingada de Alex, que deixa espaço para Geddy brilhar em várias pontuações de sonoridade robusta de seu baixo.No final da música, há várias vozes dobradas em contraponto, que acaba justamente com os vocais após a parada final da banda. “Alien Shore” cumpre bem o papel de atuar no álbum como abertura de um lado B do vinil.
7- “The Speed of Love” – https://rushvault.com/2011/01/23/the-speed-of-love-lyrics/
O título da canção traz uma referência interessante ao associar o amor à luz. Neil faz analogias entre as propriedades físicas da luz como onda e as propriedades físicas do amor. Alguns estudos científicos afirmam que a paixão ocorre em cerca de um quinto de segundo, com o cérebro humano ativando mais de uma dezena de áreas diferentes, liberando várias substâncias e provocando reações bastante intensas (como o aumento da pressão arterial, da frequência respiratória e dos batimentos cardíacos, além da dilatação das pupilas, dos tremores e do rubor). Essa incrível dinâmica, que fascina e envolve tantas vidas nos mais variados âmbitos e realidades do mundo, foi o que motivou Peart a se desenvolver pelo tema. Segundo a letra da sétima canção de “Counterparts”, a velocidade do amor é a mesma velocidade da luz, ou seja, 300.000 km por segundo.
Perfeitamente atrelada ao tema da canção, “‘The Speed of Love’ se alterna entre uma canção “mid-tempo” e momentos aos quais podemos entender que a banda se arrisca em uma balada. O baixo é bastante sincopado em que Geddy utiliza a “Flamenco Technique” de forma magistral. As guitarras de Lifeson são mais espaçadas e com uso de eco, na linha dos dedilhados mântricos do The Edge, guitarrista do U2. O solo em 2:14 é simples e voltado para uma melodia lenta e com muito feeling. Em 2:33, Geddy e Peart buscam referência nos ritmos de reggae e ska que tanto predominaram na banda por volta de “SIgnals” e “Grace Under Pressure”, mas de forma mais lenta, para reduzir a dinâmica da canção. Em 3:04 Peart ataca uma condução marcial progressiva na sua caixa, para fazer a música crescer novamente. Segue-se o refrão, que é reforçado por quase 2 minutos, até o fim da canção, com Geddy às vezes cantando todas as palavras, às vezes apenas vocalizando o título da música.
8 – “Double Agent” – https://rushvault.com/2011/01/23/double-agent-lyrics/
Prosseguindo com a temática do álbum, Peart aborda em “Double Agent” um personagem que ao dormir se depara com situações pelas quais está indeciso. O sono leve faz com o que o protagonista se alterne entre momentos de consciência e inconsciência, novamente trazendo conceitos complementares e opostos em “Counterparts”. O título da canção, “agente duplo”, permite que a banda desenvolva musicalmente um trecho que se relacione aos agentes secretos de filmes de espionagens. Por fim, quando o personagem da oitava canção do álbum acorda, pela manhã, se depara em ter clareza para suas decisões finais, como se pode ler no trecho que cita: “On the edge of sleep, I awoke to a sun so bright,rested and fearless, cheered by your nearness, I knew which direction was right”, na tradução livre , algo como : “com o sono leve, eu acordei com um sol muito brilhante, descansado e sem medo, alegrado pela sua proximidade, eu sabia que direção tomar.”
A oitava canção de “Counterparts” é, entre todas que são cantadas, a que talvez traga o que é de menos ortodoxo em uma sequência tida como natural em seu desenvolvimento. “Double Agent” começa com Geddy cantando o refrão exclusivamente sob uma linha super simples de baixo, sem espaço para pontuações ou variações. Na sequência, Lifeson (com seus usuais dedilhados) e Peart o acompanham, ainda no refrão. A música vira de ponta à cabeça com um riff pesado que serve de base para Geddy basicamente falar trechos da letra. Ao vivo o trecho funciona com um playback desta parte falada, razão pela qual Peart precisa usar aquele fone de ouvido que sempre está presente quando a banda toca “Red Sector A”, do álbum “Grace Under Pressure” Em 1:13, vem uma outra parte que poderia ser considerada um novo refrão, com harmonias vocais exuberantes. Neil praticamente não conduz a música no trecho, preferindo fazer uma levada nos toms. Se no trecho falado predomina algo quase dissonante e pesado, o refrão tido como o principal se destaca pelas melodias acessíveis. Em 3:37 Lifeson passeia por diversos harmônicos e trechos arpejados para trazer um solo bem diferente do padrão. É sem dúvida a canção mais inusitada do álbum, inclusive por permitir todo tipo de abstração aliada à necessidade de encaixar sua letra.
9 – “Leave That Thing Alone”
A nona música de “Counterparts” tem toda a liberdade de transitar entre diversos estilos, característica preponderante das canções instrumentais. Claramente temos em “Leave That Thing Alone” a sequência de“Where’s My Thing?”, que pertence ao álbum anterior, ”Roll the Bones”. Geddy Lee sempre afirmou que considera esta a melhor faixa instrumental que já compuseram, que inclusive concorreu ao Grammy de faixa do gênero em 1994.
A canção começa dançante, sob um riff de suingado de baixo e bateria que surgiu nas jams do conjunto, mas Lifeson apimenta ainda mais o trecho, recheando sua guitarra de sonoridade funk. O baixo do início da canção faz perfeitamente o papel que seria do vocal, se a música fosse cantada. É, sem dúvida, uma das linhas de baixo mais memoráveis e cheias de personalidade de Geddy durante toda a sua carreira. Em 0:25 surge uma bela melodia trazida pela guitarra de Lifeson, no fundo há um sequenciador suingado de teclado no mesmo padrão rítmico do riff funkeado da guitarra na parte anterior. Em 0:59 a harmonia de Lifeson é acompanhada de trechos eletrônicos de Peart. A música segue para um trecho de hard rock mais básico, porém em compasso 6/4, para subitamente se interromper para apenas Geddy seguir com uma linha de baixo jazzística em compasso 6/8, em 1:26. O riff jazzístico se segue, com Lifeson em uníssono a um Hammond bem orgânico fazendo o papel da melodia do trecho. O solo de Lifeson, também em compasso 6/4, se segue, bem lento e melódico. O trecho de guitarra melódica está, depois do solo, acompanhando o trecho inicial da canção. Depois de voltarem ao trecho em hard rock, Neil faz uma série de intricadas viradas, completamente descompassadas, em 3:16. Neil interrompe a condução da música um pouco antes, enquanto Lifeson se mantém até o fim com o trecho funkeado da guitarra limpa e Geddy retorna aos fraseados da introdução.
10 – “Cold Fire” – https://rushvault.com/2011/01/23/cold-fire-lyrics/
“Cold Fire” já mostra um contraponto novamente a partir de seu título, o “fogo frio”. A música mostra um casal às voltas com os momentos monótonos da realidade de seus compromissos rotineiros de dia, enquanto passam por momentos românticos à noite. Peart apresenta a mulher justificando-se pela necessidade de ser entendida pelo homem, atestando que as mulheres são complexas. O homem, em contraposição, diz não entender as canções de amor que ela tanto ama, no que a protagonista responde que esta não é uma canção de amor, ou seja, que é preciso se deparar com a realidade. A faixa mostra claramente que a mulher deseja estabelecer os limites da relação, enquanto o homem justifica-se por considerar o amor transcendental. “Cold Fire” mostra novamente duas pessoas opostas tendo de lidar com suas emoções para melhor conviver.
Partindo de um riff hard de guitarra, já no primeiro segundo da música, que nasce urgente e veloz, o Rush apresenta uma canção rock que com ares radiofônicos, o que seria talvez a bela continuação do certeiro passo que o grupo deu para o estilo mais comercial em “Time Stand Still”. Este primeiro trecho é composto pela marcante citação do nome da canção. Em 0:19, a música inicia a primeira estrofe, com guitarras muito limpas e recheadas de reverb e uma levada bem limpa de bateria e baixo. Em 0:44 Peart acrescenta uma pandeirola. Em 1:05 vem o refrão impecável do ponto de vista de uma música pop rock, com backing vocals pontuais. É, junto de “Time Stand Still”, talvez o melhor momento da banda na proposta. Outro trecho muito grudento reveza frases com outras que trazem o título da canção em 1:43, temos o que pode ser considerado um segundo refrão com “dois Geddy Lees” se alternando no trecho cantado. O incrível refrão sucede o solo, de acento quase country e limpo, em 2:35. A música segure revezando os trechos fortes nos quais ela é construída, de forma perfeita e acessível. “Cold Fire” se contrapõe e se complementa, como é a ideia principal de “Counterparts”, aos momentos mais pesados do álbum.
11 – “Everyday Glory” – https://rushvault.com/2011/01/23/everyday-glory-lyrics/
“Everyday Glory” traz, na figura de uma criança, a crença de que, mesmo em um ambiente de crescimento longe do ideal, todos nós podemos vencer na vida, que muito de tudo depende também apenas de cada um de nós. O começo da letra desenha um cenário da garotinha tremendo e chorando enquanto os pais não se entendem (“mama says some ugly words, daddy pounds the wall”, ou seja, “mamãe diz algumas palavras feias, enquanto papai soca a parede), para no seu desenvolvimento, continuar a traçar um cenário pouco positivo, mas que pode ser contornado. Este cenário inicial, que mostra a criança às voltas com um ambiente familiar conturbado, veio para Neil inspirado na ária “Nessum Dorma”, que simplesmente quer dizer que ninguém consegue dormir, exatamente a segunda frase da canção que termina “Counterparts”. O ponto de virada da letra desta faixa final traz frases opostas ao cenário percebido em “If the future’s looking dark, we’re the ones who have to shine” ou seja “se o futuro parece escuro,somos nós que devemos brilhar”. Neil afirma: Somos nós que traçamos o nosso caminho.
A faixa final de “Counterparts“ traz a indefectível linha de guitarras abafadas com delay que vem novamente influenciadas pelo trabalho do The Edge, no U2. Tal linha é acrescenta de outras camadas de guitarras limpas em 0:58. A ponte para o refrão traz uma outra linha, mais melódica, de guitarra. A música investe em um clima ameno e alegre. A linha de guitarra com efeito toma o protagonismo durante toda as estrofes. Discretos violões ajudam nas harmonias dos refrões e pontes, rechados de vocais muito melódicos. O solo passeia pelos 2 canais do estéreo, a partir de 3:10, mantendo o clima suave que finaliza o álbum. Há um novo trecho, a partir de 3:44, bem dominado pelas vozes de Geddy. Em 4:13, voltamos ao trecho inicial, para Geddy reforçar o título da canção e a frase “No matter what they say”, com outros vocais em contraponto até o final da música e do álbum.

A turnê de “Counterparts”, marcando os vinte anos da banda, seria a menor de todas as turnês até então, exceto pelo conjunto de 35 shows que promoveram o segundo álbum ao vivo da banda, “Exit…Stage Left”. Os shows foram organizados de forma a não sair do território norte-americano, compreendendo essencialmente quatro meses trabalho em toda a América do Norte, apenas cinquenta e quatro shows do final de janeiro de 94 ao início de maio, encerrando, com duas datas em Quebec e um já na cidade natal do grupo. Antes de começar, o grupo fez uma data para aquecimento, em 18/01/94 em Pensacola, na Flórida. Durante a turnê o grupo recebeu uma importante certificação: The Canadian Juno Awards. A cobertura do evento consta no dvd bônus R30, um capítulo que será coberto nesta discografia mais à frente, e você pode ver aqui abaixo:
O 55º show não aconteceu (em Virginia, no dia 27/03, por problemas de saúde de Geddy Lee). E a opção por terminar a excursão na cidade do trio se deu pela conveniência de Geddy já estar desde o primeiro minuto após o show final totalmente dedicado a acompanhar sua esposa no estágio final de uma gestação que fez o baixista ser pai de uma menina, depois de terem tido um menino mais de uma década antes. Uma das bandas de Seattle, o Melvins, abriu para o trio em poucas datas na Califórnia. Os amigos do Primus abriram os shows da sequência, por 12 datas no meio-oeste americano. Outra banda da cena da moda, a Candlebox seguiu abrindo os demais shows nos EUA.

Para o Canadá, duas bandas canadenses de menor repercussão, seguindo a estratégia do grupo em sempre fazer algo pelos artistas locais, abriram os dois shows finais. Em Montreal tocou o The Doughboys, em Toronto o show foi aberto pela banda de post-grunge I Mother Earth, a caminho de atingir o sucesso nacional alguns anos depois. A estrutura dos shows ficava cada vez maior, embora as vendas dos álbuns nem sempre acompanhassem o ritmo dos concertos. A turnê de “Counterparts” trouxe quase 600 mil pessoas aos shows, uma média de mais de 10 mil pagantes por show. Dois shows foram gravados, com intenção de acumularem material para um álbum ao vivo, que estava nos planos do grupo para ser lançado após um outro álbum de estúdio. Um deles, mais ao início, em Miami, no dia 27/02/1994. O outro, na parte final da tour, no dia 30/04/1994 na Philadelphia, usando o The Spectrum, casa de espetáculos muito utilizada pelas bandas de rock.

O repertório não trazia nenhuma faixa dos primeiros quatro álbuns e apenas uma vez uma canção do “Grace Under Pressure” foi tocada, “Distant Early Warning”. Todos os outros álbuns do grupo foram lembrados, ao menos com uma faixa. “Mystic Rhythms”, por exemplo, substitui a mais usual “The Big Money” na escolha por uma canção de “Power Windows”. A versão desta música em 1994 traz Alex se revezando entre o violão e a guitarra, que entra mais ao fim, dando protagonismo à guitarra em um trecho que originalmente era em inúmeros teclados. “Moving Pictures”, o álbum mais famoso e “Roll The Bones”, o anterior a “Counterparts” tiveram no repertório 3 canções cada, mas “Bravado”, do “Roll The Bones” só foi tocada nas 12 datas finais. Durante o show, Alex também brincava ao anunciar nomes errados para si e seus colegas na apresentação do trio em “Closer To The Heart” e trouxe a doubleneck clássica Gibson para tocar “Xanadu”, em versão parcial e “Cygnus X-1 Book II – Hemispheres: Prelude”. O grupo abandonou o medley que costumavam usar no bis, passando a tocar “Cygnus X-1 Book II – Hemispheres: Prelude”, “Force Ten” e “YYZ” para fechar os concertos, com um trechinho de “Cygnus X-1 Book I: The Voyage“ na última canção. “Force Ten” não foi tocada em duas datas, provavelmente em função do tempo restante para o grupo terminar os shows. Os shows eram abertos pelo playback da canção “Also Sprach Zarathustra,” utilizada na trilha sonora do clássico filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

Os shows se seguiam com a abertura por “Dreamline”, do “Roll The Bones”, mas evidentemente eles priorizaram as novas canções de “Counterparts”. Deste, o grupo tocou “Animate”, “Cold Fire” ( aberta por Alex e Peart em uma espécie brincadeira com Geddy anunciando o novo estilo da banda, o de música country) , “Double Agent”, ”Leave That Thing Alone” (precedida de uma animação em conjunto com a utilização dos coelhos infláveis que permaneciam na tour deste a época de “Presto”), ”Nobody’s Hero” e “Stick It Out”, esta anunciada por Lifeson, que usou a Gibson Les Paul na anteriormente citada afinação específica “Drop D”. Geddy também usava um Fender especificamente para esta música, com a mesma afinação. A versão de “Nobody’s Hero ao vivo ensejava o uso de um violão preso ao pedestal, que mais ao fim da canção era trocado pelas guitarras. É bem claro perceber que o grupo usava bastante da tecnologia associada para trazer as orquestrações da canção. Percebe-se também que Geddy, ao gravar mais backing vocals em estúdio, tinha um reforço de voz ao vivo, em harmonizações ou mesmo em uníssono. O técnico Jack Secret sempre atestou que o grupo não usava trilhas ou playbacks na integra nas músicas, que tudo usado para apoiar as canções era acionado pelo próprio conjunto, de forma manual e pontual.

Eis um exemplo dos shows da turnê de “Counterparts”:

“Counterparts” traz o grupo de volta à sua melhor forma. Eu, Alexandre, o considero o grande trabalho da banda, pelo menos desde “Signals”. O material é muito forte e coeso, já a partir das grandes canções que o iniciam. “Animate” é uma ótima música, mas “Stick It Out” e “Cut To The Chase” ainda se destacam mais dentro de várias outras composições importantes, como “Between Sun & Moon”, “Nobody’s Hero” e “Cold Fire” e a incrível versatilidade e variedade de estilos mostradas na instrumental “Leave That Thing Alone”. O álbum traz algumas faixas de menor apreço, pra mim, talvez “The Speed of Love” esteja um pouco abaixo em qualidade, e sobretudo a faixa final, “Everyday Glory”, que praticamente não acrescenta no trabalho. Ainda assim, “Alien Shore” e “Double Agent” tem momentos bastante interessantes, não há qualquer dúvida do ótimo momento de inspiração que o grupo vivia nas composições. Eu, Abilio, no melhor espírito de também sermos “Counterparts” nesta discografia no “Minuto HM”, acompanho o Alexandre em tudo que foi dito acima, lembrando que à época do lançamento fiquei muito feliz com o retorno total das guitarras ao protagonismo que merecia, e ao mesmo tempo, a maturidade das composições tanto lírica como musicalmente, pendendo para um lado mais pop recheado de vocais bastante melódicos. O álbum, portanto, tem o melhor de todos os mundos: peso, virtuosismo, solos de guitarra magistrais, melodias acessíveis, e letras profundas e coesas na proposta apresentada, além da gravação, mixagem e masterização impecáveis.
Após a conclusão dos shows de “Counterparts”, o grupo entrou no maior período de férias que até então tiraram, algo em torno de 1 ano e meio, um desejo negociado de Geddy Lee com seus colegas, pois queria acompanhar os primeiros meses de sua filha recém-nascida. Neste período, Alex fez o seu primeiro e até hoje único álbum solo, enquanto Peart dava vazão a outras várias paixões, em especial as viagens com motocicletas e um projeto tributo a Buddy Rich chamado “Burning for Buddy: A Tribute to the Music of Buddy Rich” que seria lançado em outubro de 1994. A banda retornaria para gravar o último álbum desta quarta e última sequência de 4 álbuns de estúdio + 1 ao vivo. Este último álbum de estúdio da década de 1990 e alguns outros detalhes virão no próximo capítulo desta discografia. Até mais!
Keep bloggin’!
Abilio Abreu e Alexandre B-side.
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