Dissertação Contemporânea Sobre a Importância do Passado no Presente ou Quanto Vale o Seu Buraco Preto na Estante?

vinil

Seis horas da manhã. Normalmente esta rotina estaria pronta mas me levanto um pouco mais cedo e me preparo para acessar o iTunes e sincronizar as músicas que preciso ouvir esta semana. Por diversão, por ofício ou por vício. Normalmente essa rotina se estabelecerá na segunda-feira e se estenderá até sexta onde o playlist renovar-se-á para próxima semana.

O parágrafo acima pode ser replicado na vida de milhões de pessoas no mundo. Variando os gostos, os dias, os motivos. Quando não ocupadas com os serviços de streaming (que ainda capenga no Brasil em função do território não ser “cortado” por redes wi-fi ou por ausência de 3G decentes, como acontece nos Estados Unidos, por exemplo), o i-listener (permitam-me o neologismo) faz sua rádio pessoal e cria sua trilha sonora para semana.

Por conta disso, espanta a notícia no G1 de que comerciantes estão lucrando horrores com a venda de LPs, alguns com lucros de 60, 70 e 80%. E não é só isso: nunca se vendeu tantos toca-discos desde que trabalho nesta indústria vital. Para entender clique aqui.
Os fetichistas do preto com um buraco no meio são sagazes quando o assunto é argumento. Lembro-me de discutir amigavelmente com um companheiro de trabalho que fazia questão de louvar as qualidades sonoras que o long play possui. Discussões técnicas à parte, óbvio que a moldura do LP é muito mais interessante do que aquela quadradinha em acrílico. Lá pela década de 80 eram até mais interessantes uma vez que a capa sempre foi parte do conceito do disco. Jamais passou pela cabeça do Sr. Steve Harris (baixista bastante contestado) que qualquer disco do Iron as canções não tivessem nenhuma relação com as capas. Aliás, diga-se de passagem, Derek Riggs talvez seja um dos artistas mais emblemáticos quando o assunto é emoldurar vinis com classe, bom humor e espirituosidade.

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No entanto nada justifica que alguns comerciantes estejam lucrando os tubos com a “volta” do vinil se não pelo saudosismo de resgatar uma prática (muito saudável) de se comprar Lps. Com todo o romantismo atrelado ao produto, não existe nada tão anti-prático do que comprar discos, com todos os cuidados que eles demandam, e não são poucos. Ainda é preciso que se diga que não existem tantos criativos “Riggs” que investem seus talentos na busca de expressões geniais na hora do lançamento de um disco. Pelo contrário. Capas não são tão veneradas como antes, a ponto de algumas vezes serem homenagens a outras capas que um dia foram clássicas. Exemplo: Sonic Boom.

Paradoxalmente o mercado dá muitos passos à efetivação da compra de música. Legalizando a prática “ilegal” (ok, it never ends) nas lojas do iTunes, por exemplo. Aliás, o legado industrial de Steve Jobs tem ENORMES serviços prestados ao mundo do entretenimento já que faz a roda da fortuna girar sem deixar artistas em geral, produtores gráficos, designers, criadores de jogos, músicos, sem ferramentas de publicidade e venda de produtos. Ou seja: cada dia está mais fácil manter as coisas nos lugares para fazer do seu iTreco um open device para entretenimento de todo tipo, tudo dentro da legalidade.

A matéria ainda confirma a tese do fetiche com o saudosismo quando salienta que a maioria dos produtos à disposição dos consumidores é usado, ou seja, a demanda justificada baseia-se no que já se produziu e não no que se produz. Conseguem imaginar uma loja de carros fabricados em 1983 vendendo mais do que os fabricados este ano? Pois é assim que se comporta o mercado discográfico de vinil, por assim dizer.

Isso pode gerar um colapso econômico ou um novo convívio de tendências mercadológicas. Brechós vendendo mais que lojas de grife. Sebos literários obtendo mais lucro do que grandes livrarias. Dada às devidas proporções e tirando todo o exagero do contexto, isso se estabelecerá no mundo restrito, profundo e bastante conhecido dos colecionadores. Assunto para outro tempo.

Os smartphones tornaram-se em pouco mais de 3 anos de consolidação no mercado, um dos principais objetos de fomentação da indústria tecnológica. Traz a reboque investimentos do entretenimento, que se disseminam facilmente na sociedade, especialmente no target mais jovem. Canais de esporte como a ESPN, investem na transmissão de programas em dispositivos móveis, Netflix e o Hulu (serviços de TV por streaming) confiam no mercado, não apenas exibindo produtos mas assumindo investimentos na área de produção de séries, grandes empresas ganham licitações públicas para tirarem bairros e municípios da era medieval das fiações telefônicas do tempo da vovó, para, oferecerem com alguma (ou nenhuma, depende do caso) competência a mais alta tecnologia e no fim você vai até à esquina e traz o Creatures of The Night debaixo do braço.

Antes que algum idiota ou boçal possa tratar o texto como uma afronta àqueles que desfrutam do prazer de ouvirem suas canções de maneira muito elegante, não, este não é um debate que se abre contra a tendência apontada na matéria e nem uma defesa aberta apenas às facilidades criadas pela tecnologia. É uma base textual para pensarmos o quanto as relações de mercado foram alteradas a partir dos sentimentos que permeiam o homem. O passado jamais foi tão apontado como tendência como nos dias de hoje. O futuro está mais calibrado de nostalgia que se possa imaginar.

As grandes bandas de rock talvez não consigam lançar discos tão nobres e dignos de repetidas audições e, talvez por isso, não são poucas as notícias de que bandas, aqui e ali, saem em turnês mundiais para comemorarem 20, 25, 30 anos de um lançamento do que já foi. Como assim cara pálida?

Uma banda lança seu último trabalho, acredita piamente que aquele é o melhor que ele poderia fazer naquele momento e no entanto você dá uma olhada no set list e não tem QUATRO músicas do disco da tour… Pode ser que isso não aconteça em 100% das vezes em que uma banda de rock sai para estrada, mas não é nenhum absurdo.

O maior investimento da categoria “compre o novo” é uma exaltação “ao usado”, com fotos inéditas, demos irretocáveis (a antítese da antítese), entrevistas de promoção do álbum de 19xx e, pasmem, até músicas inéditas da época. Será que se não tivéssemos downloads, discos vendendo absurdos (na casa de milhões como acontecia há 30 anos), estaríamos reverenciando o que já foi devidamente homenageado? Haveria lugar para o passado se o presente fosse tão glorioso? Já que o passado transformar-se-á em ótimo no futuro, por que não tê-lo como bom hoje?

axel foley

Para gente não ficar restrito à categoria música, para quem acompanha o mundo do cinema ou das séries de TV, o que mais temos hoje são remakes de clássicos cinematográficos/seriados. Só se fala de re-criações, referências, citações de produções e que acabam não tendo o retorno que os investidores estão esperando. Um dos maiores absurdos (pra mim) é a produção do clássico oitentista “Um Tira Na Pesada” transformado em roteiro para TV com Eddie Murphy. Será que somente as coisas ruins merecem um fim? A eternidade do belo não está justamente na sua finitude, na perpetuação da glória na mente e no coração de quem foi cativado por ela?

Em síntese: a insatisfação é uma marca presente no peito de uma geração que parece não fazer mais distinção entre épocas. Por fim: não vejo mal nenhum em curtir um filme antigo, botar o LP pra tocar, matar a saudade dos livros já lidos, tirar a poeira dos clássicos pessoais, mas quando o ontem vira produto mais valorizado que o hoje, uma inversão de paradigmas se aproxima da gente. Para quem vivemos?

Viva Axel Foley!

See U!

Daniel Junior



Categories: Iron Maiden, Kiss, Off-topic / Misc

24 replies

  1. Daniel, que tema difícil – acho que vou trazer mais dúvidas do que definições – é preciso um pós
    doutorado para entender esse fenômeno, ele ultrapassa minha capacidade de análise, ele traz aspectos
    psicológicos, sociais, eu sei lá mais o que… Eu não sei mesmo se vem realmente acontecendo,
    nunca me preocupei com a moda, quase tanto faz, se for para baratear o formato – acho ótimo. Eu pertenço
    a este fenômeno? Devo pertencer, já que venho adquirindo as bolachas analógicas… Vou tentar
    colaborar, tentando me entender no porque da compra dos “novos” velhos vinis e com isso o Eduardo vai
    cobrar o post novamente, eu não posso ficar limitado a esse comentário, não é?
    Vamos lá ao anos 90, o início deles – o cd começa a se popularizar no Brasil, fica competitivo, somem os
    ruídos, vem a praticidade, o vinil fica caro e escasso – a mudança é quase inevitável. Em paralelo, eu
    e Ale começamos a ganhar melhor nossos dindins – e vou tendo a possibilidade de matar minha dívida aos
    velhos discos que sempre quis ter. Fica fácil “fechar” a coleção Sabbath com Ozzy, comprar o Judas
    Priest setentista, por exemplo, coisa impossível no LP. Apesar do encarte pequeno e que amassa no tal
    acrílico, a nova brincadeira agrada em cheio, de tal forma que gradativamente adquiro todos os vinis em cds e
    fecho as outras coleções, incluo novas bandas, chegando a mais de 400 bolachinhas digitais. Mais para
    frente – não sei bem quando, aparece para mim um novo fenômeno: A chatura das bandas novas – meu
    desinteresse é latente. Eu percebo um mais do mesmo, um desagrado em novos estilos da época, um tempo
    mais escasso para apreciar os novos lançamentos, os albuns são longos – adequados ao formato. Outros
    compromissos tiram meu tempo.
    Vamos seguindo na linha cronológica e chega o MP3, o Napster e seus filhos, netos, bisnetos de tal
    forma que o Cd cabe tanta musica que fica dificil de ouvir tudo em dias. Vou preservar minha coleção de
    Cds e copio todos para meu uso – estão em meu HD. Deixo a nossa coleção das bolachinhas com meu irmão,
    me mudo de cidade. Nossos cds (para mim) parecem uma ferrari guardada na garagem – de vez em quando eu
    dou uma olhada e dou uma partida, quando vou ao RJ. O Meu irmão (espero) que saia bastante com ela…
    Vamos mais para frente: vem o Itunes, O Streaming, o Youtube, Os micro cartões de memória com grande
    capacidade (pelo menos para o formato audio: MP3, os flacs, os Wav). Morre (ou agoniza) quem estava
    adolescente: o tal Cd. Comprar Cds novos está cada vez mais dificil e até caro não é?
    Acho muito prático o tal Itunes, o Streaming, o Youtube, mas ninguém pega mais nada – a sensação física do
    LP ou Cd acaba – para alguns, faz falta. É como namorar virtualmente….
    Vamos enfim aos meus novos “velhos” vinis então. O acesso aos vinis importados é cada vez melhor – a
    compra nos ebays, discogs, amazons e etc barateia e funciona – apesar de longo tempo de espera. Os tais
    vinis impossíveis, passam a ser realidade. Ora, eu teimei em não vendê-los, dava muito trabalho e agora
    tenho chance de comprar os Judas Priest 70s, os Black Sabbath Ozzy que faltavam? Tenho como adquiri-los
    – espremo daqui e dali e ajusto meu orçamento – eles vão “aparecendo”…
    Não acho que essa coleção vai longe, eu não tenho comprado os verdadeiros novos vinis, é como eu disse
    lá em cima, não estou tão sintonizado com o aumento das vendas do formato, que pode inclusive me
    beneficiar… Eu estou na casa de umas 250 bolachas – devem vir mais alguns…
    Agora um fato:
    Semana passada vieram dois jovens (17/18 anos) aqui em casa, um deles mais antenado no rock e suas
    vertentes o outro tentando entender o gosto pela coisa. Recebo a seguinte informação do mais antenado –
    o vinil é muito melhor do que o resto. Boto um Helloween para tocar, entram os chiados, perceptíveis
    até a musica ganhar corpo (neste caso), e o outro menos antenado não entende nada….
    Quem não entende nada sou eu….

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    • Olá Remote. Acredito que quanto mais inserido no cenário mais complicado fica de analisar, mas gostei muito do resumo cronológico que vocês expôs. Para dizer a verdade parece até um loop, se você reparar. “Do LP vieste, ao LP voltaste”. Acredito que não seja o seu caso – bem particular – mas classifico como mais uma moda. Sim, uma moda com valor estético agregado, com preço bacana e com uma sensação de que estamos tendo a oportunidade de emular o passado. O tema é controverso e não ouso fechar questão. Obrigado por comentar!

      See U!

      Daniel Junior

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    • Remote, que excelente esse comentário… é um privilégio ter bons textos em blogs, mas é uma satisfação ainda mais, inclusive para o autor, ter comentários como este.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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  2. O que li acima ( acrescido dos comentários) é simplesmente brilhante..

    Como muito pouca coisa que li ultimamente….

    E o nível do conteúdo do Minuto HM de estratosférico já alcançou e ultrapassou as demais camadas da atmosfera e segue a caminho da Lua… Ouso dizer que deve estar lá pro lado negro dela..

    O que mais posso dizer disso tudo aí em cima??

    Só posso lembrar que sou católico não praticante e escrever :

    Amém…

    Alexandre Bside

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  3. Poxa Alex BSide, absurdamente enternecido por suas palavras. O tema é difícil e gostaria muito de contar com seu olhar sobre o mesmo.

    Abraço,

    Daniel Junior

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    • Daniel, o meu olhar não difere muito do seu e do meu irmão, por exemplo, até por que somos coetâneos ou próximos disso.

      Tanto o seu texto como o comentário do Flávio são sensacionais, e agora podemos também incluir o igualmente perfeito comentário do Eduardo abaixo, que traz a bagagem musical de berço, por influência do pai e está longe de se encaixar na categoria dos pouco antenados que não vão entender nada mesmo, como o exemplo que o Flávio nos traz no fim do seu comentário.

      O que eu talvez possa acrescentar é que no momento que o Lp foi praticamente substituído pelo Cd houve também uma mudança estratégica inicial na concepção dos álbuns, pois os artistas ” ganharam” um espaço relativo a quase mais um tempo de Lp, um pouco menos, na verdade. Assim, os álbuns que tinham uma duração de 43 minutos ou um pouco mais passaram a chegar aos 80 minutos, no máximo.

      E isso foi bom ou ruim? Eu diria que inicialmente todo mundo resolveu gravar mais músicas e chegar próximo a essa duração , mas depois foi-se tendo como entendimento que em um álbum de 80 minutos ficaria difícil de ter uma consistência,e pra mim são poucos que conseguem fazer em 80 minutos uma obra que valha cada segundo dela. Um exemplo é o Awake, do Dream Theater, com seus 75 minutos. Sei que nem todos vão concordar, mas pra mim esse é um exemplo.E por quê ?

      As justificativas são várias, a começar pelo fato de bandas muito tradicionais precisarem se adaptar ao novo formato quando as suas capacidades criativas talvez não tivessem fôlego para o lançamento de um álbum duplo a cada vez que se aventurassem por um álbum de inéditas. Afinal, são poucos que vão conseguir fazer um Physical Graffiti, nem o imaculado Led Zeppelin o repetiria em determinado momento de sua carreira.

      E aí, qual foi a nova tendência ? Os álbums voltaram a ter uma duração mais próxima do Lp, apresentando como complemento faixas-bônus, que teoricamente devem ser descartadas do álbum como integrantes dos mesmos, e assim fechando a concepção dos álbuns na duração próxima dos Lps.

      Temos então ainda no auge do cds um retorno cíclico, na base do “do pó viemos e ao pó voltaremos”.Eu posso entender esse exemplo como uma importância do passado no presente, no conceito do ótimo título deste post.

      E hoje , eu ouso dizer que o cd está mais enterrado do que o Lp, e compete com o próprio Lp pela preferência daqueles poucos que ainda querem ter algo físico para guardar em suas residências. É realmente irônico que o derrotado ( Lp) retorne com suficiente força para competir e ganhar do então imbatível vencedor sob a cunha do avanço tecnológico , o fraquinho Cd, hoje cada vez mais descartável e visto sob o ponto de vista da obsolescência programada. Ainda que não escangalhe, O cd tornou-se algo obsoleto, assim como talvez a concepção dos álbuns em si.

      Hoje os álbuns estão se tornando um apanhado de músicas, que para nova geração não precisam ter sequência ou cuidado com suas ordens.Os itrecos” ( adorei a palavra) estão aí pra isso mesmo, joga-se tudo num caldeirão e não se sabe de qual álbum é a música, muitas das vezes nem se sabe o nome da música ou banda..E a nova tendência, será que neste caso a importância do passado em algum momento vai atuar em algum presente? Eu, como saudosista deste conceito, gostaria que sim..

      Por fim vou relativizar a qualidade da música digital, seja em cd, em itrecos ou outras ferramentas que eu mal conheço. De que adiantar ter a melhor qualidade de kbps se ouvimos as músicas sem grave algum nos Laptops ou fones de ouvidos de pouca qualidade? Ou seja, o Lp em seus aparelhos específicos pode hoje estar rivalizando e ganhando em qualidade de áudio de talvez a grande maioria dos reprodutores sonoros da atual geração . Seria isso mesmo ?

      Fica para a reflexão e complemento das autênticas enciclopédias deste blog …

      Saudações

      Alexandre Bside

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      • Também acredito na morte do cd. Aliás deveria ter abordado isso. Acredito no enterro definitivo do formato físico da música. Vivemos a era do virtual mais real possível. Tudo armazenado na nuvem. “Nossos” hds são infinitos, assim como os gostos, os estilos, os eventos, as coleções… Tudo muito over! Chega, até ser ponto, ser melancólico falar isso, mas, não se ESCUTA música como antigamente. Já não falo do tipo e nem do formato, mas do próprio ato da audição. Talvez, porque ousadamente chego a pensar, que também não se faz música com a mesma intenção de antes. Sei que é absolutamente subjetivo, mas se a gente não consegue “se livrar” de algumas canções que são como água e comida para nosso dia à dia, é sinal de que o pão de hoje não serve muito pra gente.

        Quem sabe também, este seja o motivo de tanta saudade. Afinal de contas, parece que éramos utopicamente saciados pelo que nos alimentávamos no passado e hoje, nada do que compramos tem o mesmo sabor.

        Mais uma vez muito obrigado por sua contribuição, BSide.

        Daniel Junior

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  4. Daniel, excelente dissertação. Difícil acrescentar algo, ainda mais depois da ótima timeline que o Remote trouxe agregando muito ao já ótimo artigo!

    Primeiramente, vou sair de cima do muro, já que muitas vezes sou apontado como “muro” (certo, Remote?) e dizer que acredito sim que tem a ver com uma tentativa puramente business o retorno dos vinis. Mas vou mais longe com a minha opinião e peço licença se fugir um pouco do assunto até, e sem querer de maneira alguma aqui ser o dono da verdade… mas vamos lá…

    Quando você faz uma faculdade ou algo depois dela de Administração, um dos primeiros aprendizados em geral é entender que administração é cíclica. O segundo ponto, também observado na Economia, é a curva de aprendizagem e sunset (vida útil) de um produto ou serviço.

    O que estamos vendo agora é isso, em minha opinião. O Remote bem explicou o cenário evolutivo do áudio, e eu falo o seguinte: na verdade, o áudio, por mais que pareça que é algo que evolui muito, é uma das coisas que MENOS evoluiu em comparação com outras tecnologias. Se isso parece absurdo, vamos pensar: qualquer cabo “flamenguista” com um “pé de galinha” ligado a um amplificador valvulado te dá um som de extrema qualidade. E estamos falando de coisas de mais de 40 anos! Em um teste cego, duvido que 90% da população consiga diferenciar se o som já no meio de uma faixa está vindo de um CD, de um MP3 com 128, 192 ou mesmo 320 Kpbs. Os outros 10% conseguem? Conseguem um pouco mais, talvez apenas uma pequena parte desse já pequeno percentual consiga diferenciar tudo.

    Agora, o vinil, o k7 e o VHS são tecnologias que hoje já conseguimos diferenciar de uma forma mais fácil. Mesmo assim, nada mudou muito: a maioria dos home theaters acessíveis, amadores, trabalham com conexão RCA. Os mais profissionais, pasmemos juntos: com o tal “flamenguista”. E os wi-fi, verdade seja dita, ainda não prestam.

    Disse tudo isso para confirmar que estamos neste exato momento voltando um pouco aos anos 80. Além do fenômeno do vinil, observamos o retorno das garrafas retornáveis, do saco de papel, as geladeiras / frigobares retrô. A VW, discretamente, voltou com o Voyage, com o Fusca, com o Santana, Passat, Variant… tem isso também: a força do nome perante o seu público-alvo.

    E a moda? Como moda é business e business é cíclico, até mesmo coisas consideradas ridículas até pouco tempo, como meia por cima da calça ou a famosa calça do Steve Harris (eu notei o sutil toque que você deu – brincalhão, hehehe) está de volta ao mercado (aquela que é zebrada, preta e branca, usada na World Slavery Tour). Como explicar isso? As camisas de futebol, os cabelos masculinos e femininos… a lista é infinita e… cíclica!

    Eu, particularmente, sempre gostei de LP. Não tenho, infelizmente, como ter pois aí eu teria que tirar o sofã, o armário, sei lá, morando onde moro, simplesmente não tenho espaço físico. Mas o prazer que se tem com coisas como a agulha, ver o disco virando (ou mesmo a gente mesmo virando manualmente), limpar a agulha, lavar o vinil (que o Remote vai nos ensinar ainda), tudo isso é legal. Mas não nos iludamos: é cíclico! Daqui a pouco, a música vai para um Google Glass, ou para uma nova forma de streaming com os smartphones / conexões cada vez melhores e lá vai o mercado direcionar seus esforços para lá.

    E para registro apenas: Steve Jobs desafiou a todos e conseguiu música a USD 0,99, desafiando toda a industria. Ele desbancou a Sony do mercado de áudio portátil em uma época que todos riam desta tentativa. Ele desbancou a Nokia e a Motorola exatamente da mesma forma com o iPhone. A industria musical respirou com isso, não há dúvidas, pois a pirataria, ainda que não tenha diminuído, “concorre” com a facilidade de se obter algo oficial de procedência, já configurado e apenas esperando um mero clique a um preço justo. E isso vale para filmes, aplicações, jogos, tudo.

    Enfim, eu gosto da mídia física. Mas sou fã de tecnologia. Há espaço para tudo. Mas há a questão temporal envolvida. O saudosismo é algo que afeta a todos, principalmente com a idade. Não há como negar que este é um comportamento que começa a se ter principalmente quando a vida vai mudando de estágio, o tempo vai passando e você vai sentindo falta de coisas do passado, físicas ou não, lógicas ou não. E o marketing, a administração, está tudo aí para isso…

    Enquanto isso, desejo vida longa a todos nós para continuarmos evoluindo e termos o luxo de acompanharmos as coisas que ainda virão… e voltarão!

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

  5. Eu espero que mais pessoas melhorem o que foi dito no texto, que foi o que vocês fizeram: trouxeram informações importantes e retilíneas sobre um assunto que é mais filosófico do que pontual, menos recorrente e muito desafiador. Sabia que me entenderiam da maneira certa.

    Obrigado,

    Daniel Junior

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  6. Texto brilhante Daniel!!! Pensava que o tema vinil X CD, que rendeu tantas duvidas e discussões acaloradas e apaixonadas ha 10, 15 anos atrás, parecia um tema esgotado, ate ler esta matéria, paixões aparte, afinal hoje em dia temos muito mais do que aquela velha rivalidade destes dois formatos que infelizmente (para mim) estão superados.
    Acredito que antes rivais, o LP e o CD atualmente lutam unidos bravamente contra os novos formatos “virtuais” de mídia. Porem concordo com grande parte das pessoas que dizem que o CD esta com os dias contados (mais uma vez infelizmente!). E’ inegável todas as vantagens do vinil, inclusive em algumas épocas no som, que para mim e’ muito mais encorpado e pesado, pois o som dos primeiros cds perdiam de longe. Basta ouvir por exemplo: o Somewhere in Time do Iron Maiden em vinil e as primeiras edições em cd ou mesmo aquelas edições especiais lançadas pela Castle Rec. Que de vantagem só tinham as (muitas)faixas bônus. Bom, a capa então nem e’ bom comentar, porem não podemos nos esquecer da praticidade e durabilidade do cd, afinal o vinil assim como a velha fita K7, gasta (infelizmente!!!!!).
    Hoje, acho que a qualidade sonora dos últimos anos do cd superam absurdamente o do velho lp, talvez nem tanto pelo formato, mas pelas novas tecnologias de gravação, etc…
    Particularmente falando, minha coleção de Lps continua intacta, faço questão de mantê-la sempre ao meu alcance e só gasto dinheiro comprando cds dos quais já possuo em vinil quando as bandas/gravadoras nos “sacaneia” com os famigerados lançamentos especiais para colecionadores com faixas adicionais, fotos, comentários dos músicos, etc… Vide o próprio Maiden, o Helloween, as edições de aniversario do Deep Purple, Candlemass, etc,etc,… E mais recentemente o Sabbath e Dio que nos tenta com seus relançamentos duplos. Mesmo quando ouço esses cds tenho sempre o costume de tirar os velhos vinis do armário, as versões duplas dos cds do Marillion por exemplo, tem um “sabor” especial quando acompanhadas dos discos de vinil e suas magnificas capas duplas, as ilustrações de Mark Wilkiinson cheias de significados, como na capa de Fugazi, onde se retratam varias de suas influencias com desenhos dos velhos The Wall e Peter Hammill espalhados pelo chão, ou o quebra-cabeça que retrata o bufão, onde falta apenas uma peça, a do coração, e outros infinitos detalhes.
    Voltando ao tópico, diferentemente de antes onde havia a predileção por cd ou lp, penso que atualmente existam apenas pessoas que gostem de musica e outras que gostem de discos. Ou seja, aqueles que gostam de ouvir simplesmente musica e aqueles que apreciam todo o “ritual” que se inicia desde o momento quando se resolve entrar em uma loja de discos (virtual ou não), o prazer de procurar, escolher, olhar, levar para casa… abrir a embalagem, colocar no aparelho, folear o encarte, apreciar a capa. Pura nostalgia? Talvez! Pois os discos para mim, além de tudo são uma importante fonte de pesquisa, a mais confiável das fontes.
    Infelizmente (outra vez) concordo com o Daniel, acredito que este “ritual” esta fadado a acabar, pois as gerações tendem a não repetir o que costumamos fazer e consequentemente deixam de consumir discos e passam a consumir simplesmente musica, não e’ meramente uma questão de moda, mas sim uma evolução de costume, de praticidade. Evolução esta que prefiro ficar de fora! Felizmente partilho da opinião dos grandes colegas Eduardo, Alexandre e Flavio que souberam expressar, cada um a sua maneira, precisamente o que penso sobre o assunto! Que acredito ainda tem muito para ser debatido.
    Para terminar, mais uma vez gostaria de parabenizar o Daniel pela excelente matéria e ótima escolha da foto que ilustra o texto.

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    • JP certamente você trouxe luz para este debate. Vivemos uma espécie de estranha evolução. De tendências, de “anti-tendências”, de hábitos, de “anti-patricismos”. Estou muito feliz com seu ponto de vista bastante lúcido. Todos nós agradecemos!

      Abraço,

      Daniel Junior

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  7. Olhem o hype:

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  8. Coincidentemente hoje cheguei em casa após o trabalho, deitei no sofá e fiquei “zapeando” os canais a procura de algo interessante na TV. Quando de repente me deparei com um programa que me chamou a atenção pelo nome: “Minha loja de discos”. Infelizmente o programa já estava no final, mas afirmava que havia um considerável aumento de jovens ingleses que estavam voltando a frequentar lojas de discos. Mas oque mais me chamou a atenção nisso tudo foi uma entrevista com um senhor que dizia mais ou menos isso: “A musica não pode ser tocada pelas mãos ou qualquer parte do corpo se não o sentimento. Por este motivo necessitamos de algo físico como discos para podermos compensar todo esse sentimento, por isso precisamos dos discos. Seria impossível imaginar um Abbey Road dos The Beatles sem a clássica capa dos caras atravessando a rua, gesto este repetido por fãs ate hoje todos os dias. Ou o Wish You Were Here do Pink Floyd sem os significados dois executivos da capa onde um deles esta em chamas.”

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  9. Exatamente Suellen, esses dias vi um anuncio do programa, parece ser bem interessante vou tentar assistir na próxima segunda, por acaso você viu algum desses programas da serie?

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  10. Post interessante sobre o retorno dos vinis ao mercado: http://tab.uol.com.br/vinil/

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

  11. Muito legal mesmo o link. O detalhe é que tem um quiz , que eu acertei 8 das 9 perguntas. Pra quem não coleciona mais vinil, até que não fui mal….

    Alexandre

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