Cobertura Minuto HM – Aerosmith em SP – o dia em que eu vi um show particular do Aerosmith – resenha

ESPECIAL – autora convidada: Carol “Black” Carvalho – Aeroworld.

Aeromith – 30/outubro/2011 – Arena Anhembi, São Paulo.

Imagine que alguém te diga que uma banda vai fazer uma apresentação única no Brasil sob as seguintes condições: dez anos sem lançar material inédito, terceira turnê e quarto show no Brasil em apenas cinco anos, o vocalista quebrando a cara tão forte a ponto de perder dois dentes apenas cinco dias antes e com uma chuva muito chata rolando intermitentemente desde a abertura dos portões até o fim do show. Como “bônus”, nos dois anos anteriores o baixista teve câncer, um guitarrista passou por um procedimento cirúrgico na cabeça (!) e o outro, no joelho. O vocalista teve tantos problemas de saúde, que você já perdeu a conta – sendo um deles vício em analgésicos e outras coisitas mais, o que o levou à internação em uma clínica de reabilitação. Ah, e essa banda quase terminou depois de um racha sério entre o vocalista querendo priorizar “outros projetos” e os outros membros da banda sendo devidamente não consultados. Última coisa: os fãs são quase radicalmente divididos entre “rock anos 70” e “baladas anos 90”, o que sempre causa discussões acaloradas sobre o setlist.

Tudo isso é 100% verdade e essa banda tem 40 anos de estrada e mais de 150 milhões de álbuns vendidos pelo mundo: o Aerosmith (oooh!) Mas tem um motivo pra eles estarem nessa aparente derrota e decadência e mesmo assim ainda levarem 32 mil pessoas pra Arena Anhembi e serem aclamados pela mídia. O motivo não é nada extraordinário, não. É simplesmente o fato de eles mandarem muito bem ao vivo! Sempre foi assim, mas a grande mídia brasileira só notou isso agora provavelmente porque ficou encantada com o profissionalismo mostrado, considerando principalmente o acidente sofrido por Steven Tyler e a chuva – um grande contraste com o show do Guns N’ Roses um mês antes, cujo frontman tem 14 anos a menos que Steven (63).

Mas não vou ser injusta de dizer “mimimi pagam pau agora só por causa da chuva e porque o Steven tá todo pop por ter quebrado a cara e entrado no American Idol”. O show de 30/10/2011 foi realmente o melhor das três recentes passagens pelo Brasil. A maior diferença pros anteriores foi o entrosamento da banda. Antes, cada um brilhava individualmente, agora eles brilham juntos. Se antes o clima era de tensão permanente, agora, no mínimo, eles estão bem relaxados e se respeitam. Percebi o baixista Tom Hamilton e o guitarrista Brad Whitford conversando várias vezes durante o show. O baterista Joey Kramer falava com todos, sempre que possível.

Steven Tyler e Joe Perry merecem um parágrafo só pra eles. Ano passado cheguei a vê-los discutindo feio em cima do palco por alguns segundos. Meu coração gelou, achei que eles se atracariam ali mesmo. Mas agora foi só amor. Várias vezes eles se esbarraram e pensei que um jogaria o outro de cima do palco, como já aconteceu antes, mas ao invés disso, vejam só, eles se abraçavam! O melhor exemplo aconteceu em “Walk This Way”. O hiperativo Steven começa a mexer na guitarra do Joe no meio de um solo, Joe dá a palheta pra ele e Steven simplesmente joga fora! Mas no meio de toda essa confusão, Joe SORRI! (01:25)

No início do vídeo, dá pra ver um bem-humorado Joe interagindo com o público – em um vídeo filmado por outro ângulo, dá pra vê-lo sorrindo neste mesmo momento. Isso é realmente raro. Nos shows, Joe joga o cabelo na cara e só tem olhos pra sua guitarra. Não olha pra frente nem quando uma maluca na sua frente não para de fazer reverências e gestos pedindo palheta. Mas é só o jeitinho dele.

Pausa pra dizer que vocalista carismático e guitarrista ranzinza não é apenas um clichê no caso do Aerosmith. Eles REALMENTE são assim. Não é só pose. Um amigo meu teve a oportunidade de conversar com Steven no backstage. Ele disse que Steven parece um desenho animado, um personagem. Ele é tudo aquilo que a gente vê nos vídeos – fala sem parar, começa a cantar, muda de assunto, levanta e faz uma dancinha. E nas entrevistas com Joe é possível perceber como tudo que ele faz na vida é sincero e verdadeiro. Se tem alguma coisa incomodando, ele se expressa abertamente e não tem paciência pra fingir que está bem e feliz quando não está. Se nós, meros mortais, já achamos um saco ter que fazer social quando não queremos, imaginem como se sente um rockstar que não tem o absurdo carisma natural do Steven? E, por favor, é o JOE PERRY, ele se garante pelo talento, não é um Fiuk da vida que precisa chamar todo mundo de “linda” pra conseguir manter a carreira.

Sei que vim aqui falar do show, mas um assunto vai puxando o outro – nunca vi banda mais acessível que o Aerosmith, mais um ponto a favor deles. Estou falando de bandas grandes, que fazem shows em estádios. Acho que absolutamente todo mundo que eu conheço que tentou falar com eles no hotel, conseguiu – bastou ter tempo livre e paciência pra esperar por horas. Meu amigo foi pro backstage e viu o show do palco a convite do Joey após ter pedido um favor ao baterista pelo Twitter, aí uma coisa foi levando à outra. Simples assim.

O show no Anhembi foi meu terceiro do Aerosmith e o terceiro na grade. Em todos havia uma passarela entrando na pista. A ponta da passarela costuma ser bem disputada, porque o Steven passa bastante tempo lá. O problema é que, como boa fanática, gosto de prestar atenção até no tecladista/backing vocal, e na passarela não dava pra ver tão bem o palco – até o show deste ano.

Assim que entrei correndo a 100 km/h na Pista Premium, instintivamente agarrei a grade do lado direito (olhando pro palco), onde meu querido Joe Perry costuma ficar e exatamente o mesmo lugar onde fiquei nos dois primeiros shows. Aí parei, olhei pra passarela, a passarela olhou pra mim. Aquilo era um verdadeiro minipalco bem no meio da Pista Premium! Além de ser enorme, era baixíssimo! Resolvi fazer algo diferente: se existia uma vez pra ficar na passarela, era aquela. Foi a melhor decisão da minha vida. Apenas vejam o vídeo:

E o show começou no minipalco! Olha o Steven chegando, Joe logo atrás:

E chuva? QUE CHUVA? A primeira coisa que fiz quando começou a tocar a épica “Cavalgada das Valquírias” (que eu obviamente só descobri o nome depois do show e agora é minha música clássica preferida – e a única que eu sei o nome) foi arrancar o capuz da capa de chuva, pra ficar mais à vontade. E também não parece ter incomodado a banda; Steven e Joe passaram bem mais tempo lá do que nos dois shows anteriores, Tom também! Se antes ele só costumava andar lá durante “Sweet Emotion” e uma, no máximo duas vezes mais, nesse show isso aconteceu incontáveis vezes! Pode não ter sido uma tempestade, mas definitivamente não foi o que pode ser chamado de “chuva fraca”, “chuva fina” ou “garoinha”. E o vento estava chato pra caramba, também. Respeitei demais os caras, me surpreenderam muito positivamente.

O minipalco realmente os aproximou do público. Steven sempre brincou muito com a galera e nesse show não foi diferente. Mas agora nós estávamos muito mais perto dele, literalmente. Me senti como se estivesse vendo um show particular, só pra quem estava ao redor do palco, como se fosse em um Calabouço (Rio), Manifesto (Sampa) ou qualquer que seja seu bar rock local. Sério. Não é exagero. Eu realmente me senti assim. Perdi completamente a noção de que estava em uma arena enorme. Fiquei muito preocupada com meus queridos amigos na Pista Comum, mas não ouvi reclamação de nenhum deles.

Sobre o setlist: é impressionante a capacidade que o Aerosmith tem de agradar a todos. “I Don’t Want to Miss a Thing”, “Cryin’”, “Amazing”, “What It Takes” e “Angel” no mesmo setlist é de apavorar os mais puritanos. “Combination”, “Train Kept A-Rollin’” e “Last Child” fizeram muita gente twittar, ir ao banheiro ou pegar mais uma cerveja. Mesmo assim, TODO MUNDO (que eu conheço) saiu satisfeito. Eu realmente não tenho nenhuma teoria de como eles fazem isso dar tão certo, coincidir tão bem duas fases tão distintas. E foram só 18 músicas. Só pode ser feitiçaria.

Você acha que uma banda que está há dez anos sem lançar material inédito e vem ao Brasil pela terceira vez em apenas cinco anos não tem como te surpreender e que é perda de tempo continuar indo a shows. Ledo engano, amigos. Se a banda for boa mesmo, todos os shows são únicos e especiais à sua própria maneira. O destaque do primeiro, pra mim, foi ter sido o primeiro. Foi simplesmente o melhor dia da minha vida, me emocionei demais. O setlist foi bem óbvio, lembro que chutei um setlist poucos dias antes e só errei duas ou três das 18 músicas – e foi o primeiro show da turnê. Pro segundo eu estava bem desanimada, fui mais porque estava com medo de me arrepender depois. “Back in the Saddle”, “Lord of the Thighs”, “Kings and Queens” (“Crazy” e “Pink” pra outra categoria de fãs) e a performance impecável mesmo com a banda no auge dos problemas – mostrando que eles não deixam problemas pessoais afetá-los no palco – me mostraram como eu nunca, mas nunca mesmo, deveria duvidar do Aerosmith. Provavelmente por isso fiquei muito mais empolgada pro terceiro show. Agora, o que fez valer a pena foi a trinca inicial com “Draw the Line”, “Same Old Song and Dance” e “Mama Kin”, além de “Last Child” (chorei!), “Combination” e “Train Kept A-Rollin’”. Pra quem prefere a fase mais recente, “Amazing” e “Angel” foram os pontos altos.

Três dias antes de começar a turnê, comentei no Facebook algo como “posso morrer feliz se tocarem ‘Last Child’ ‘Train Kept A-Rollin’’, ‘Mama Kin’ e ‘Same Old Song Dance’, me arrepio só de ver o nome delas juntas.” É, tocaram as quatro. Não tocaram nenhuma delas nos meus dois primeiros shows. Agora já posso morrer feliz. Saí do show gritando pra quem quisesse ouvir que eu nunca mais precisava ver um show do Aerosmith na minha vida, que eu tinha zerado a vida. Mas, como disse, banda boa mesmo faz cada show ser único e especial, não importa o quão adversa seja a situação. Tenho certeza de que no próximo show estarei na grade, mais uma vez. E eu sinceramente não os vejo parando tão cedo. Considerando todo o primeiro parágrafo desse texto, não consigo imaginar nada que os faça parar.

E depois de muitas tentativas frustradas, tem CD novo vindo por aí ano que vem! Pela primeira vez acredito que vai sair. Acompanhem as novidades em http://www.aeroworld.com.br. Se você não faz questão de saber tanto sobre Aerosmith assim, acompanhe as novidades em doses homeopáticas via Twitter ou Facebook.

Crédito da foto: Taiz Dering

Crédito da foto: Taiz Dering

Tchau!

Carol.

Colaboraram: Suellen e Eduardo.



Categories: Aerosmith, Agenda do Patrãozinho, Backstage, Cada show é um show..., Curiosidades, Discografias, Músicas, Resenhas, Setlists

9 replies

  1. Muito boa a matéria escrita pela carol, parabéns mesmo. Gostei muito do que eu li, pois assim tirei a má impressão que tenho a respeito do último show deles aqui no Brasil, (nunca assisti eles ao vivo, curto algumas músicas e tal) falo dessa forma pois tive a sensação q a última tour deles por aqui ficou meio parecendo “caça-níquel” , vieram só pra engordar seus bolsos e tchau, já que a banda tava meio quebrada, tretas internas etc. Me corrijam se eu estiver falando besteiras, rsrs, mas pelo o texto logo acima, banda está em um ótimo momento tanto interno quanto em palco, com espírito leve e calmo.
    Lógico q como toda banda sempre tem problemas, ficar muito tempo juntos.
    Portanto mais uma vez valeu pelas excelentes palavras discorridas aqui. Mais um texto feito com carinho e paixão que somente os fãs do rock/heavy metal, podem expressar.

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  2. Enfim uma resenha feita por quem entende do que está falando. Não é fácil aguentar coisas como “Afinal, ser um “rock star” lindo e magro, e com a mesma potência vocal dos anos 90, é para poucos”, feita por G1’s e Uol’s da vida.
    E por um acaso, quem fez a resenha é minha irmã, a pessoa mais fanática por Aerosmith que eu conheço 😀
    Por isso que perturbei muito mesmo a paciência dela para que fizesse esta resenha. Resenha feita por fã, que conhece todas as músicas, o comportamento dos músicos e repara em todos os detalhes é outra coisa!! Faz com que sejamos levados de volta pro show. Muito legal!

    Mas agora falando do show, impossivel não lembrar do Guns há 1 mês atrás, que aliás foi muito influenciado pelo som do Aerosmith, inclusive com a gravação de um cover de Mama Kin no Lies. O Aerosmith tocou com a mesma condição de chuva chata e constante e nem por isso tivemos um atraso considerável do show. Sem contar com a cara quebrada do Steven Tyler né? Como uma pessoa perde 2 dentes e uns 4 dias depois ta cantando daquele jeito? Respeito e consideração pelos fãs você vê por aqui.

    O show foi realmente muito legal, pra agradar todos os gostos. Melhor do que o que eu vi em 2010, onde a banda estava muito burocrática, como se tivesse apenas cumprindo uma obrigação.
    Meus destaques foram, da velharia (por pura influência da Carol), Mama Kin e Last Child. E da fase mais “recente” (recente tipo 20 anos, rs), What It Takes e Angel.
    Aerosmith, até o momento, levando o troféu de melhor show de Hard Rock de 2011.

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  3. Carol, parabéns… seu post foi publicado em destaque no Whiplash: http://whiplash.net/materias/shows/141752-aerosmith.html

    Nada mais justo… voltarei para comentá-lo…

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  4. Talvez a melhor resenha de show que tenha lido por aqui…o talento na família deve ter algum lado genético…ele sobra na sua família,sem dúvida…
    Super parabéns, impecável texto!

    Alexandre

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  5. excelente post. Muito bom mesmo. Eu me amarro em dinâmicas de texto bem estruturadas, e, além de demonstrar um excelente conhecimento da banda, ainda teve essa qualidade da narrativa. Muito bom. Continue por aqui no blog, Carol. Apesar de pesos pesados como o Eduardo, Flávio e Alexandre, sempre estarem despejando conhecimento que parece infinito por aqui, precisamos de qualidade de texto e posts assim!!!!

    Assisti o Arsmth no Hollywood Rock de 90 e alguma coisa onde o Poison abriu e foi um excelente show. Espero que a banda retorne sempre que possível e por falar em “show sem material novo” bem que todos podiam fazer isso ao menos uma vez!!!! ninguém ia ficar chateado de ver um show só com clássicos e para tocar clássicos ……..

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  6. Carol,

    primeiramente, as tradicionais boas-vindas que dou sempre que alguém envia um comentário ou qualquer coisa aqui para o blog. É sempre bom ter pessoas bacanas por aqui.

    Mas, no seu caso, o Minuto HM não é uma novidade: sei que você já está presente por aqui, sempre acompanhando.

    Desde o anúncio do retorno do Aero para o país, passando pela compra dos ingressos (e da minha responsabilidade de guardá-los por meses para você e sua irmã), passando pela vinda de vocês para São Paulo e o fim do show, creio que jamais imaginei que, neste momento, estaria escrevendo isso. Explico: não sabia que você era a pessoa mais fanática (e fanática no melhor sentido da palavra) pela banda que eu viria a conhecer.

    Creio que a insistência tanto da sua irmã quanto minha para que você fizesse uma resenha não poderia ter tido um resultado melhor. O texto que você gentilmente enviou para publicação por aqui é simplesmente BRILHANTE. Sério! A sua maturidade e forma de “resenhar” sobre tantos assuntos – não somente sobre o show, mas também da discografia, curiosidades, shows anteriores, etc., como disseram B-Side e Rolf, é realmente um “gift” – e sim, que corre na família (B-Side foi muito feliz neste comentário).

    Meus sinceros parabéns e minha admiração total pelo seu incrível texto e também pela sua enorme dedicação à banda – algo que vem realmente do fundo do coração.

    Espero (e tenho certeza que todos por aqui também) que possamos contar com mais e mais textos / comentários seus por aqui.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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