Consultoria do Rock – Melhores de Todos os Tempos – Aqueles que Faltaram: por Diogo Bizotto, com participação do Minuto HM

Pessoal, vamos a mais um capítulo (d)”Aqueles que Faltaram“, da série “Melhores de Todos os Tempos“, idealizada pelo pessoal do Consultoria do Rock. Desta vez, a liderança da lista é de Diogo Bizotto. A dupla “ge/n/m/ial” B-Side e Remote continua ativamente participando da brincadeira.

Uma lista com um nome mais que consagrado – Eagles – e outros nomes que muitos de nós temos limitado ou nenhum conhecimento. Ou seja, mais uma aula dos consultores.

Boa leitura e participação a todos.

[ ] ‘ s,

Eduardo.

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EAGLES NO AUGE: DON FELDER, DON HENLEY, JOE WALSH, GLENN FREY E RANDY MEISNER

EAGLES NO AUGE: DON FELDER, DON HENLEY, JOE WALSH, GLENN FREY E RANDY MEISNER

Por Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, André Kaminski, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Flavio Pontes, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

Participar da série “Melhores de Todos os Tempos” tem sido a jornada musical mais reveladora de minha vida. Como editor, presto atenção como ninguém nas indicações e nos comentários de meus colegas, aprendendo cada vez mais e tomando uma quantidade grandiosa de conhecimento para mim. Além disso, sempre procurei explorar o desconhecido na hora de elaborar minhas listas particulares, jamais pensando em apenas fazer número e emplacar minhas preferências. A lista abaixo é uma prova disso, como vocês logo comprovarão. Alguns diriam que está é a oportunidade perfeita para mencionar meus álbuns favoritos que não deram as caras na série. Poderia ser, mas preferi realizar um equilíbrio entre isso e o fato de que artistas pelos quais nutro grande admiração não tiveram chance de aparecer em nenhuma edição. Álbuns como The Wild, The Innocent and the E Street Shuffle (Bruce Springsteen, 1973) e Slide It In (Whitesnake, 1984) deram lugar a outros, trazendo mais variedade e, espero eu, mais razão para a existência desta lista que publico agora. Como editor, tenho o privilégio de conhecer os comentários de meus colegas com antecedência, mas podem ter certeza de que, acima de tudo, tentei ser o mais honesto possível e tomar distância de suas opiniões. Aguardo agora os comentários dos leitores e agradeço pelo sucesso da série, que não teria a metade da graça não fossem suas interações. Obrigado!


The Moody Blues – Days of Future Passed (1967)

Diogo: Pouquíssimos discos fizeram tanta falta na série quanto Days of Future Passed. Sim, 1967 foi um ano paradigmático. A quantidade de lançamentos que tiveram a capacidade de efetivamente mudar os rumos da música popular foram muitos, mas Days of Future Passed também foi um deles. Não chego a afirmar que se trata do primeiro álbum de rock progressivo já lançado nem da primeira obra conceitual, pois outros artistas já vinham explorando caminhos diferentes que viriam a desembocar nessas mesmas definições. Desconheço, contudo, algum disco que tenha sido tão instrumental na cristalização desses dois conceitos quanto o segundo registro dos Moodies. O álbum começou como uma forma de saldar dívidas com a gravadora Decca, que havia solicitado à banda que gravasse uma versão rock para a “Sinfonia do Novo Mundo”, do compositor tcheco Antonín Dvořák. Apoiado por um executivo do selo, o quinteto exigiu total controle artístico e acabou criando uma obra inteiramente nova, apenas com canções originais, compostas por todo o grupo e com algum auxílio do maestro Peter Knight, condutor da London Festival Orchestra, responsável por acompanhar o Moody Blues em Days of Future Passed. Eu disse acompanhar? Pois é justamente nisso que está um grande diferencial deste álbum em relação a tantos outros que tentaram levar a cabo a tantas vezes indigesta mistura de banda de rock + orquestra. Os músicos liderados por Peter Knight fazem muito mais que acompanhar as canções do Moody Blues, eles são protagonistas que se mesclam na mais pura harmonia com o trabalho de Justin Hayward, John Lodge, Mike Pinder, Graeme Edge e Ray Thomas. A “cola” que une o popular e o erudito de forma tão magnífica é o mellotron de Pinder, esse teclado tão precioso aos fãs de rock progressivo, que tantas vezes mostraria sua capacidade pelas mãos habilidosas desse músico. Um elemento importante desenvolvido em Days of Future Passed é a repetição de temas ao longo de diferentes faixas, formando não apenas um conceito lírico, mas musical, dos primeiros aos últimos minutos da obra. O fato de a banda contar com quatro vocalistas é outro ponto extremamente positivo, uma vez que todos são muito habilidosos na função. É inegável, porém, que Hayward é dono de uma das maiores vozes do progressivo, e é ela que conduz os dois grandes singles extraídos do disco, “Tuesday Afternoon” e “Nights in White Satin”, duas de minhas músicas favoritas. Todo o álbum é de qualidade absurda e merece sempre ser ouvido na íntegra, mas, além das suítes “The Afternoon” e “The Night”, das quais essas canções foram extraídas, tenho especial predileção por “Dawn: Dawn Is a Feeling”, que até hoje causa arrepios. Days of Future Passed não apenas é meu álbum favorito da banda e de 1967, mas um dos cinco melhores discos lançados na década de 1960.

Alexandre: Desta banda, só conhecia uma música, aliás, da qual gosto bastante, “Talking Out of Turn”, dos anos 1980. Assim, não sabia bem o que esperar de um álbum lançado mais de uma década antes. Days of Future Passed é um belo disco, com lindas linhas orquestrais misturadas ao rock britânico altamente influenciado pelo que o Fab Four fazia na ocasião. O uso do mellotron ocupa boa parte dos arranjos gravados pela banda, uma clara influência, pelo que pude perceber, das ideias de McCartney e Lennon. Observa-se de forma bastante evidente o uso do instrumento em faixas como “The Afternoon” e “The Night”. Gostei bastante do que ouvi, muito mais pela parte orquestral. Há diversos momentos com cordas que me agradam demais; lembram as trilhas sonoras dos ótimos filmes da época. O trabalho desenvolvido pela banda vai mais pela linha dos Beatles, o que observei muito claramente, por exemplo, em “Lunch Break: Peak Hour”. Há, na lista do Diogo, alguns exemplos de bandas que usam diversos vocalistas, como neste primeiro álbum. Devo dizer que gostei de todos os vocais, embora possa destacar Justin Hayward. Só que às vezes passa a impressão, como nessa mesma faixa, de que há alguém mixando a parte do grupo com a parte orquestral e jogando o mixer de um lado para o outro. Ou seja, senti falta de interação entre o rock da banda e a orquestra ao mesmo tempo. A exceção é a canção final, em que banda e orquestra pareceram funcionar em conjunto. A música que menos funciona para mim é “Evening”, meio bobinha demais. Poderia destacar “The Day Begins” e, principalmente, “The Night”. Os vocais de Hayward em “Nights in White Satin” são muito bonitos. A ideia de enveredar por um álbum conceitual e pela busca da sonoridade progressiva, ainda em 1967, é de se ressaltar. Valeu conhecer e me chamou muita atenção a proposta ousada do grupo.

André: Talvez este disco tenha sido o mais difícil de avaliar entre todos os que já ouvi para opinar na série. Gosto muito daquilo que já ouvi do Moody Blues, mas ainda preciso aprofundar-me muito em sua longa discografia para de fato dizer que conheço a banda. Alguns momentos orquestrados fazem-me admirar tamanho bom gosto, mas existem alguns instantes dentro das canções que me soam como o mundo mágico da Disney. E eu sou um fãzaço da Disney, mas tento separar as coisas. Sinceramente, não sei se gosto ou desgosto do disco, ou se a orquestra ajudou ou atrapalhou. As partes “Moody Blues” são muito melhores que as orquestradas. É daqueles casos em que é obrigatório ouvir mais de uma vez, ou corro risco de dizer besteira e me arrepender daqui uns anos.

Bernardo: Um álbum pioneiro. Citado como um dos primeiros exemplos de rock progressivo e alardeado como o primeiro disco conceitual, o segundo álbum de estúdio do Moody Blues é daqueles injustamente engolidos pelas areias do tempo, nas quais outros exemplares mais famosos ficam com a maior parte do prestígio para si. Ambicioso, fundindo os instrumentos tradicionais do rock com orquestra, é praticamente um prenúncio da sofisticação musical que tomaria de assalto o cenário mainstream do rock anos depois.

Christiano: Você pode não gostar deste disco, mas não há como negar sua importância não só para a época em que foi lançado, mas para todo o cenário musical daquele período. Muitos apontam Days of Future Passed como o primeiro álbum de rock progressivo a ser lançado. Independentemente de julgar a veracidade desse feito, não podemos desconsiderar o caráter altamente inovador do disco. Muito disso se dá por conta do elaborado uso de orquestrações que se entrelaçam ao formato banda de rock. Se isso fosse somente uma inovação estética, já teria muito valor. No entanto, o resultado vai muito além, uma vez que, além de inovador, o segundo álbum do The Moody Blues é muito bom. Além dos elementos já destacados, é interessante notar como uma certa melancolia percorre todas as faixas. É uma melancolia que anda lado a lado com a beleza de músicas como a clássica “Nights in White Satin” e a suíte “The Afternoon”. Por isso, acho que esta é uma escolha mais que justa.

Davi: Disco lindíssimo que funde rock ‘n’ roll com música orquestrada. O mais legal é que a orquestra não entra como um complemento das canções. Não são elementos de uma orquestra somados ao grupo, e sim uma orquestra sinfônica que dá a tônica de todo o álbum. Existem vários momentos em que temos apenas orquestra, que traz uma sonoridade ora alegre, ora calma, mas sempre mágica. O lado rock traz bastante do rock psicodélico da época (algo perceptível em faixas como “Twilight Time” e no single “Tuesday Afternoon”). Minhas favoritas, contudo, são o clássico “Nights in White Satin” e “Peak Hour”, essa última com forte influência de Beach Boys.

Fernando: Ouvir este disco é como assistir a um filme dentro de sua mente. O clima de trilha sonora é tão intenso que faz parecer que foi feito para um filme mesmo. Claro que essa sensação é mais fácil para um álbum conceitual como este, mas só ouvindo para saber do que estou falando. Meu preferido do grupo, porém, é In Search of the Lost Chord (1968).

Flavio: A lista abre com um disco preliminar do The Moody Blues. Este segundo álbum conta com a The London Festival Orchestra em um projeto bem ousado para a época, considerado talvez como o pioneiro do rock progressivo e conceitual. Para mim, é uma grata surpresa conhecer um pouco mais do grupo por aqui. As composições são muito bonitas e o ponto de encaixe banda/orquestra está perfeito. Gostaria de ver às vezes um pouco mais de aceleração, mais dinâmica, e não sou muito fã de narrativas, que vez em quando permeiam o álbum, apesar de estarem coerentemente inseridas no contexto temático. É importante notar a qualidade dos músicos e dos vocais. Para quem não é bitolado em um estilo, o disco vale como uma boa experiência de misturas, com sons rock sessentistas misturados com temas que parecem natalinos ou saídos de uma trilha sonora de filmes da época, com muita riqueza musical. Percebo que preciso me aprofundar na discografia do The Moody Blues – conheço muito pouco, de cabeça aqui, o tênue sucesso no Brasil de “Talking Out of Turn”, que, por sinal, adoro. Agradeço a indicação de uma banda com ótimas qualidades em um disco interessante.

Mairon: Este álbum estava na minha lista inicial de 30 discos para esse prolongamento da série. Álbum conceitual, cuja história o Diogo certamente trará para nós, é considerado por muitos o primeiro disco de rock progressivo da história. É também o primeiro com a participação da dupla John Lodge (baixo, vocais) e Justin Hayward (guitarras, vocais), que, ao lado de Graeme Edge (bateria, vocais), toma conta da banda. O Moody Blues já havia feito o ótimo The Magnificent Moodies dois anos antes, com o guitarrista Denny Laine, que veio a fazer sucesso no Wings de Paul McCartney, mais voltado para o blues. Auxiliados pelo genial Mike Pinder (teclados, mellotron, vocais) e Ray Thomas (flauta, piano, vocais), esse trio criou um álbum sólido, muito bem trabalhado, no qual mellotron, orquestrações e harmonias vocais são os destaques. Nele está o maior sucesso do grupo, a baladona “Nights in White Satin”, com a qual até sua bisavó deve se deliciar. Divido o disco pelos nomes das suítes, então, considerando isso, destaco a melodia no melhor estilo filme de Hollywood em “The Day Begins”, uma espécie de “overture” para o álbum, com diversas citações às canções que virão depois, e as orquestrações com a voz de Pinder trazendo o “acordar” de um lindo dia de sol. O vozeirão de Hayward apresenta “Dawn”, baladaça tão linda quanto a clássica citada anteriormente, com mellotron, tímpano e piano em destaque. “The Morning” faz a flauta de Ray sobressair-se nas caixas de som, em um ritmo alegre e dançante, que, levado por magníficas orquestrações, novamente como uma trilha de filme de Hollywood, nos conduz para o ritmo acelerado de “Lunch Break”, rockzão pegado, com o baixão de Lodge em destaque, boas vocalizações e um climão Beatle que encerra o lado A. O lado B é ainda melhor, começando com o mellotron na emotiva “The Afternoon”, que é dividida em duas partes, a clássica “Forever Afternoon (Tuesday?)”, na qual o vozeirão de Hayward – um dos vocalistas mais injustiçados do rock – molha banquetas até de freiras, e “(Evening) Time to Get Away”, faixa não creditada nas edições originais, que é outro tocante trecho, levado pelo dedilhado do violão e a voz do também talentosíssimo Lodge (a introdução dessa música me lembra canções que Renaissance e King Crimson fariam pouco depois). “Evening” também é divida em duas partes: a percussiva “The Sun Set”, que inspiraria o que a banda fez em 1968, no ótimo In Search of the Lost Chord, e “Twilight Time”, faixa animada e com boas orquestrações. Chegamos então em “The Night”, com lindas orquestrações que introduzem a canção mais conhecida do disco, conforme citado. Não há palavras para descrever essa obra-prima. Linda, emotiva, sensacional, fantástica, qualquer adjetivo positivo é pouco! Deve ter sido um choque ouvir este álbum em 1967, tamanha profundidade musical. Ele está em minha lista dedicada àquele ano, e entraria fácil no lugar de Buffalo Springfield, Leonard Cohen e, principalmente, do Velvet Underground.

Ronaldo: Um clássico para o desenvolvimento do rock progressivo, dando a cartilha para a vertente mais melódica e introspectiva dessa ramificação do rock. Junto a uma exatidão melódica pouco comum ao rock de sua época, Days of Future Passed também é inovação na instrumentação – o uso de uma orquestra completa (em especial, a forma como esse elemento foi utilizado na construção da música), a presença da flauta como instrumento solista e a onipresença do mellotron, servindo como o contraponto eletrônico da orquestração acústica. Tudo isso torna este disco do Moody Blues um divisor de águas, com sumária importância para a evolução de todo o rock dos anos 1960.

Ulisses: Interlúdios eruditos fantásticos e imaginativos entrecortam as melodias do rock sessentista. Um disco bastante agradável, com uma fluidez que prende a atenção do ouvinte, pois a fusão com a orquestra soa natural. Gostei bastante das partes puramente orquestrais; elas definitivamente não estão ali só para enrolar. O disco inteiro é ótimo do começo ao fim, com destaque para “Lunch Break: Peak Hour”, “The Afternoon: Forever Afternoon (Tuesday?)/(Evening) Time to Get Away” e “The Night: Nights in White Satin” (que ouvi pela primeira vez no ano passado, na versão do Oceans of Slumber).


Chicago – Chicago Transit Authority (1969)

Diogo: Como citei mais acima, participar da série tem sido uma grande jornada musical. A quantidade de artistas e álbuns dos quais pouco ou nada conhecia antes e hoje em dia tornaram-se audição obrigatória é enorme. Nunca me contentei em elaborar listas relacionando apenas aquilo que já conhecia, sempre busquei mais. Prova disso é a inclusão deste disco nesta extensão da série, obra que sequer havia relacionado em minha lista visando à edição dedicada a 1969. Desde sua publicação, a carreira inicial do Chicago amadureceu de tal forma aos meus ouvidos que álbuns como Chicago Transit AuthorityChicago (1970) e Chicago V (1972) tornaram-se audições obrigatórias e frequentes. Em meio a uma época efervescente como era o fim da década de 1960, o hepteto conseguiu criar sua própria linguagem dentro do rock, pavimentando um caminho único ao unir metais com guitarra, baixo, bateria e teclados, sem soar simplesmente jazz rock. Do rock mais popular ao erudito, o Chicago passa sim por jazz, blues, soul, psicodelia e até pelo progressivo, levado pelas geniais composições de Robert Lamm (teclados), Terry Kath (guitarra) e James Pankow (trombone) e pelas vozes desses dois primeiros e do baixista Peter Cetera. Cetera, aliás, não chegou a apresentar canções suas, mas deixou bem claro por que é o vocalista que mais marcou a trajetória da banda, mostrando seus dotes únicos no sensacional hit “Questions 67 and 68” e em “I’m a Man”, nervosíssimo cover do Spencer Davis Group. Quem o conhece apenas pelos sucessos oitentistas pode duvidar, mas Cetera também tinha controle total das quatro cordas, como pode-se ouvir em “Beginnings” e “Listen”, dominando a faixa. O que falar então de Kath? Jimi Hendrix disse que o guitarrista do Chicago era melhor que ele. Pode parecer exagero, mas basta ouvir a insanidade de suas linhas em “Poem 58” para colocá-lo no mesmo patamar de nomes muito mais reconhecidos. Além disso, era dono de uma voz de linhagem soul que se adaptava tanto a canções mais roqueiras quanto a baladas. Tudo isso sem desmerecer Lamm, o maior compositor do grupo e voz de outro grande hit, “Does Anybody Really Know What Time It Is?”. Sim, a banda decairia muito, mas mesmo em sua fase mais criticada encontro material que me agrada. Até Chicago VII (1974), porém, o grupo é audição obrigatória.

Alexandre: Bem, eu conhecia a banda pelos hits “If You Leave Me Now” e “Happy Man”. Assim, realmente não esperava ver essa massa sonora recheada de metais, calcada no jazz, bastante soul, às vezes de forma tênue já mostrando o pop que se seguiria à frente e algo também do rock experimental da época, em especial pelas guitarras. A faixa inicial é espetacular, um baixo de ficar de queixo caído, e é Peter Cetera que faz isso tudo, difícil acreditar. Apesar dos bons vocais do ótimo guitarrista Kath e do tecladista Lamm durante todo o disco, prefiro ouvir aquilo que eu considero “a voz” do Chicago. Parece que, neste álbum, há um protagonismo maior de Kath em relação a Cetera. Bastou ouvir a voz de Cetera em “Questions 67 and 68” para que a identificação com o que eu conheço melhor do grupo ficasse instantânea. Para mim, os metais passam do ponto em alguns poucos momentos, como em “Poem 58”, mas são muito bem feitos, sem contestação. O disco é um pouco longo e, por ser duplo, há espaço para tudo, inclusive a barulheira de “Free Form Guitar”. Hoje não me chamou atenção, passou como algo desnecessário, mas há de se entender o momento da gravação. A faixa que fecha o álbum também foi um pouco além na experimentação. Preciso ressaltar, faltam-me elementos mais consistentes para entender a carreira da banda como um todo. Foi uma boa surpresa, por exemplo, ouvir a citação de “I Am the Walrus” (The Beatles) em “South California Purples”, jamais imaginaria. O resultado final traz uma sensação boa pelo instrumental, mas faltaram talvez mais audições para entendê-lo melhor. Fica a constatação de que o Chicago é uma banda na qual eu deveria me aprofundar.

André: Banda que causa discórdia entre o pessoal do lado jazz rock (os primeiros deles) e o do lado pop rock (quase todo o resto). Acho, contudo, que podemos chegar a um acordo: este primeiro registro é um discaço. Muitas melodias, jazz e um arranjo incrível de metais faz com que o álbum seja destaque para quem curte rock com trombone, trompete, tuba e similares.

Bernardo: É quase difícil acreditar que a banda de soft rock que fez “Hard to Say I’m Sorry” criou um álbum com inspirações em jazz/progressivo. Para quem só viria a conhecer depois, é até difícil reconhecer em um primeiro momento. Mas enfim, não é muito minha praia.

Christiano: Quando descobri este disco, fiquei muito surpreso. Até então, eu considerava o Chicago como uma banda de baladas feitas sob medida para rádios FM. Chicago Transit Authority, entretanto, não tem nada disso. Na verdade, o que ouvimos é uma rica e maravilhosa fusão entre soul music, jazz, funk e psicodelia, executada por músicos de extremo bom gosto e perícia técnica. A maneira como a sessão de metais “dialoga” com as partes de guitarra e baixo é estonteante. Isso já fica muito claro logo na primeira faixa, “Introduction”, que dá muito bem o recado do que está em jogo. E, para aqueles que podem imaginar que estamos falando de um disco que prima somente pela técnica, dou uma dica: avance até “Questions 67 and 68” e perceba que é perfeitamente possível fazer uma bela balada sem soar piegas e, ao mesmo tempo, evidenciar o virtuosismo dos músicos.

Davi: Belo álbum de estreia da trupe do Chicago. Gosto do som praticado pelos garotos, misturando elementos do rock, do jazz e do funk, mas não sou um expert na discografia da banda. Vergonhosamente, ouvi poucos discos deles na íntegra. O trabalho dos músicos já era absurdo, conforme podemos constatar nas linhas de guitarra em “Poem 58” e “South California Purples”. O complemento com o naipe de metais é impactante e os instrumentos aparecem na dose certa. O repertório é altamente consistente e entrega verdadeiras pérolas, como “Does Anybody Really Know What Time It Is?”, “Listen” e “Questions 67 and 68”. A releitura de “I’m a Man”, do Spencer Davis Group, ficou muito bacana. O único ponto baixo é “Free Form Guitar”, na qual Terry Kath resolveu brincar de Jimi Hendrix e digamos que não deu muito certo…

Fernando: Toda vez que ouço o Chicago, penso que tenho que escutar mais. A banda ficou marcada pelo soft rock dos anos 1980, mas esses primeiros discos dos norte-americanos são muito mais puxados para o jazz rock. Só acho totalmente desnecessária uma faixa apenas com barulhos de guitarra, como “Free Form Guitar”. Por ser um disco duplo, contudo, ela não atrapalha no meio das outras. Aliás, o Chicago foi o primeiro grupo a lançar um álbum de estreia duplo. Grande moral para uma banda iniciante. O cover para “I’m a Man”, do Spencer Davis Group, ficou legal. De resto, música de alto nível que agradará a todo mundo que tiver um pouquinho de cabeça aberta.

Flavio: Novamente um disco seminal. O Chicago do fim dos anos 1960 estava claramente influenciado pela psicodelia, que se espalhava pelos EUA. O tom psicodélico, pré-progressivo, é misturado com os metais jazzísticos, trazendo um som talvez único para o álbum. Vemos essa contraposição no disco todo e deixo claro que, para mim, a guitarra de Terry Kath às vezes emula Jimi Hendrix e suas viagens distorcidas de forma um pouco exagerada (“Free Form Guitar”); prefiro ouvir esse tipo de som feito pelo próprio Hendrix. À parte desse aspecto, o disco tem momentos interessantes e gostaria de apontar que, apesar do bom timbre dos vocais de Kath e do tecladista Robert Lamm, gosto mais do timbre de Peter Cetera, que estreava e tem papel menos destacado nesse disco. Mais adiante, o Chicago emplacaria várias baladas com o próprio Cetera, que me agradariam, mas neste álbum não há nada que aponte para essa direção. Gostei da “mcartneyana” “Does Anybody Really Know What Time It Is?” e “Beginnings”, ambas com ótimos contrapontos vocais, e também das referências aos Beatles com “Got to Get You Into My Life” e “I Am the Walrus” em “South California Purples”, além do vocal de Cetera em “Questions 67 and 68”, em um disco de alternâncias entre o desagrado e minha apreciação.

Mairon: Discaço duplo de estreia dessa que é uma das grandes bandas do jazz rock do fim dos anos 1960. Esse hepteto e o Blood, Sweat & Tears formavam uma dupla endiabrada, com metais tomando conta de canções belíssimas e com harmonias instrumentais nas quais as cozinhas de baixo – Peter Cetera tocava muito – e bateria, vinculadas a solos ácidos de guitarra, piano e órgão, além de ótimos vocalistas, são receitas de alegria fácil. “Introduction” já faz o ouvinte cair de quatro com o lindo solo de trompete e o alucinante solo de guitarra. “Does Anybody Really Know What Time It Is?” é um clássico dos norte-americanos, com o piano de Robert Lamm e um arranjo jazzístico ambos fabulosos, e que swing é esse de “Beginnings”? Baixão na cara, violões, metais, vozeirão, put* que o par**, que som!! A introdução de “Questions 67 and 68” é daqueles momentos nos quais o mundo para na expectativa do que virá pela frente, e o que vem é uma baita música, com muita melodia e um vocal f*deroso. Temos o rock pegado de “Listen”, com baixo estourando as caixas de som, guitarras rasgadas e muita metaleira, e o auge do álbum, no longo trecho instrumental de “Poem 58”, no qual a guitarra de Terry Kath só não faz chover. Aliás, em “Free Form Guitar” ela faz. O que Kath tira de sons da guitarra nessa sonzeira é impressionante. Quem ouve pela primeira vez e não sabe o que é, certamente cravará que é Hendrix nos sulcos do vinil. Mas não, a estupenda maluquice e abuso que a pobre da guitarra sofre é de outro monstro da guitarra, para se pensar quantos grandes guitarristas o fim da década de 1960 revelou (já ouvi alguns fãs de Hendrix dizerem, inclusive, que a barulheira das bombas em Woodstock foi inspirada nisso). Chegamos ao blues de “South California Purples”, puxado pelo riffzão de baixo e guitarra e com um belo solo de órgão. O que eles fazem com “I’m a Man”, do Spencer Davis Group, é animalesco, principalmente na parte percussiva. As faixas mais dispensáveis são as duas que abrem o lado D, “Prologue” e “Someday, August 29, 1968”, enquanto a música de encerramento do LP, os 15 minutos de “Liberation”, é um tour de force com muitos improvisos de guitarra, órgão, metais e uma cozinha alucinante. Uma faixa para sair pulando pela casa. O ano de 1969 foi bucha, muita coisa boa, mas havia espaço para o Chicago no lugar de Neil Young. Desculpem-me pelo comentário longo, mas é o mínimo que essa exímia lembrança do Diogo merece. E a pergunta que fica é: por que a banda mudou tanto??? Que baita disco!

Ronaldo: Um disco revolucionário, que levou às raias da soberba a inclusão de instrumentos de sopro ao rock. Com um incrível faro melódico e uma legião de compositores em sua formação, o Chicago estreou de cara com um álbum duplo (e isso se repetiria outras duas vezes nos dois anos seguintes), sem fillers e com um requinte pouco comum nos arranjos no rock. As músicas não são baseadas inteiramente na estrutura tema/improvisos/tema, o que tira da banda a alcunha de ser uma jazz band, mostrando bons ganchos vocais e uma rítmica cheia de requebrado. Os músicos são magistrais em seus instrumentos. Talvez aos ouvidos de hoje, essa blenda conceitual não surpreenda, mas, dentro do contexto, o Chicago fez tanta história quanto Led Zeppelin, Black Sabbath, Mahavishnu Orchestra, ELP e King Crimson em suas respectivas estéticas.

Ulisses: Referência na união entre o jazz e o rock, o álbum de estreia do Chicago transita com solidez entre a elasticidade de um estilo com a garra do outro – a guitarra de Terry Kath faz seus cortes afiados e impressionantes, mas a presença constante da enérgica cozinha de Seraphine e Cetera junto aos sopros mantém os pés do ouvinte batendo no chão em faixas como “Beginnings”, “Questions 67 and 68”, “Listen” e “I’m a Man”. Típico álbum em que é difícil apontar falhas, pois é sólido e demonstra muita proficiência dos instrumentistas. Entretanto, a audição é mais longa do que deveria (é um LP duplo), com alguns momentos esticados sem necessidade.


The Band – The Band (1969)

Diogo: Quando Music From Big Pink entrou na edição voltada a 1968, na terceira posição, fiquei tranquilo. Pensei que The Band, um álbum ainda melhor, arrumaria seu espaço com certa facilidade. Quanta ingenuidade. Esta é, então, a oportunidade perfeita para trazê-lo à tona e mostrar seu gigantesco valor. Apesar de o quinteto ser formado por quatro canadenses e apenas um norte-americano, seu segundo disco é uma verdadeira compilação de muito daquilo de melhor que a música tradicional dos Estados Unidos produziu ao longo do século passado. É rock? Sem dúvida, mas com origens fincadas no country, no folk e no blues, sem estabelecer-se mais nesse ou naquele gênero. A qualidade das composições de Robbie Robertson – com ajuda de Richard Manuel e Levon Helm em algumas faixas – é tão grande que o álbum se desenrola como uma coletânea, acumulando destaque em cima de destaque. Manjam essa onda de “comfort food”? Pois The Band é “comfort music”. Cada uma das canções é capaz de ativar alguma memória afetiva e colocar um sorriso em meu rosto. Não nego, porém, que “Across the Great Divide”, “Rag Mama Rag”, “The Night They Drove Old Dixie Down”, “When You Awake”, “Up on Cripple Creek”, “Whispering Pines” e “Jawbone” – citei a maioria, vejam só – são documentos maiúsculos da musicalidade norte-americana em geral, não apenas da The Band. Rick Danko e Richard Manuel são vocalistas únicos e excelentes em seus maneirismos, mas a interpretação que Levon Helm dá às faixas com sua voz à frente é de uma dramaticidade ímpar, vide “The Night They Drove Old Dixie Down”. Raras vozes são tão autênticas quanto a sua. Lembram da citação que fiz mais acima, sobre os cinco melhores discos lançados na década de 1960? Pode incluir The Band entre eles.

Alexandre: Gostei da banda. Ou melhor, gostei do A banda. Melhor ainda, gostei do álbum A banda, do A banda. Enfim, trocadilhos à parte, gostei do que ouvi, a começar pelo fato de ter mais de um vocalista. Isso sempre me agrada em um conjunto, pela variedade que se apresenta entre as faixas. Os três cantam bem, mas o batera Helm me agradou mais nessa função. São deles os vocais das músicas que mais apreciei: “The Night They Drove Old Dixie Down” e “Up on Cripple Creek”, ambas escolhidas para um compacto. Pelo que entendi, eles acompanhavam Dylan nos anos 1960. Dylan poderia ter deixado os vocais a cargo de qualquer um desses vocalistas, seria muito melhor. Curto esse som meio rock sulista norte-americano, meio country, com ótimos backings, bons arranjos e utilização de teclados vintage – há até clavinet no meio da mistura –, assim o disco desceu fácil. Bons violões, ótimos grooves de bateria. Não surpreendeu, mas agradou bem. A maior surpresa talvez seja “Jawbone”, que tem uma cadência rítmica muito fora do comum, com uma excelente linha de baixo. A opção por esse tempo diferente não descaracteriza a sonoridade e funciona como mais um ponto a favor do trabalho. Aprovo o álbum, provavelmente teria lugar na edição dedicada a 1969.

André: Diogo acertou em cheio em seus três discos de country rock escolhidos nesta edição. Já pode pedir música no Fantástico. The Band é mais um bom exemplo do rock interiorano norte-americano (isso que a banda é canadense). O lado B é até melhor que o A, com “Rockin’ Chair” e “Look Out Cleveland” te fazendo querer cavalgar no deserto dos Estados Unidos (ou seria nas pradarias canadenses?).

Bernardo: Segundo álbum dos ícones do folk rock que fizeram história ao acompanhar Bob Dylan em suas incursões mais roqueiras. Quando você ouve músicas como “Up on Cripple Creek” e “The Night They Drove Old Dixie Down”, com seus arranjos, atmosferas e letras tão características do Sul norte-americano, porém fazendo um sentido e tanto no mercado de rock dos anos 1960, percebe-se que poucos grupos teriam a marra de se chamar “A Banda” e merecer o título.

Christiano: Gosto do Music From Big Pink, mas ainda não havia escutado seu sucessor. Quando coloquei o disco para tocar, confesso que não gostei muito das duas primeiras faixas, “Across the Great Divide” e “Rag Mama Rag”, que me pareceram alguma coisa entre o folk e o county, só que bastante sem sal. Fui surpreendido, porém, com a bela “The Night They Drove Old Dixie Down”, uma linda balada melancólica. Dali em diante, senti que o disco melhorou muito. Exceto pela dispensável “Up on Cripple Creek”, constatei que estava diante de mais um bom álbum da The Band.

Davi: Esse é outro grupo no qual ainda não me aprofundei como deveria. Difícil definir este LP. Cada música traz uma sonoridade diferente. No lado A, além dos hits “The Night They Drove Old Dixie Down” e “Up On Cripple Creek” (sim, essas eu já conhecia), chamaram atenção a deliciosa faixa de abertura, “Across the Great Divide”, e a balada “When You Awake”, que conta com um forte acento country. No lado B, o rock “Look Out Cleveland” é minha favorita. Por alguma razão, achei a primeira metade do álbum mais forte. De todo modo, é um disco bem bacana.

Fernando: Vendo banda e disco nesta lista veio a pergunta: como esta maravilha não entrou na edição dedicada ao seu ano? Tudo bem que a coisa estava concorrida em 1969, mas mesmo assim. Daí me perguntei também como deixei este disco passar e não o incluí eu mesmo em minha lista. Como sei que os participantes descreverão o álbum, faço um pequeno comentário sobre o nome da banda. The Band! Esse nome pode ter significados tão dispares para cada um! Alguns podem pensar que se trata de um nome genérico demais, perdendo o interesse por eles. Outros podem achar que um grupo chamado “A Banda” só pode ser um conjunto de músicos extraordinários. Acredito que o grupo aproxima-se mais da segunda opção, mas já li comentários de gente desprezando-os por conta do nome. 

Flavio: Outra boa surpresa, o segundo disco homônimo do grupo The Band mistura elementos clássicos do rock interiorano norte-americano com as raízes do próprio rock. A salada de folk, blues e country, que influenciaria tantos artistas, é muito bem feita, com uso de elementos como metais, acordeões, piano elétrico, gaita e bandolins, além dos instrumentos mais comuns utilizados no gênero. Em alguns momentos, sinto-me quase dentro de um saloon do Velho Oeste, e fica clara a qualidade dos músicos. Não fiquei muito fã do timbre do vocal principal, mas gostei do uso de vocais harmonizados, normalmente para reforçar os refrãos, como em “The Night They Drove Old Dixie Down” e “Jemima Surrender”, além dos toques sutis de violões no solo da bonita balada “The Unfaithful Servant”. Trata-se de um disco agradável que passa fácil, apesar de não trazer a tônica do estilo de minha predileção.

Mairon: Clássico da The Band, que tomava forma depois do esplendor de estreia chamado Music From Big Pink. Robbie Robertson, Levon Helm e Rick Danko fazem estripulias com uma mistura de rock, blues e country muito divertida, essencialmente em faixas como “Rag Mama Rag”, “When You Awake”, “Jemima Surrender” e “Jawbone”. Minhas preferidas são “Across the Great Divide”, “Look Out Cleveland”, “Up on Cripple Creek”, uma aula de como fazer um rock simples mas grudento, e a supermegalindaclássica “The Night They Drove Old Dixie Down”, cuja interpretação de Helm faz até o demo chorar. Aliás, quem não se emociona com Richard Manuel na baladaça “Whispering Pines” não tem coração. Aprecie as vocalizações de “Rockin’ Chair”, o jazz leve de “The Unfaithful Servant” e o embalo de “King Harvest (Has Surely Come)”, faixa que estava muito à frente do seu tempo. Uma banda muito injustiçada, que deveria ser mais lembrada nas rodas de música mundo afora. The Band entraria fácil no lugar de Neil Young, mas rivalizaria com o Chicago, já que ambos são discos incríveis. Outra baita lembrança.

Ronaldo: Apesar de Bob Dylan achar que aquela era A BANDA, mesmo depois de repetidas audições acho-os apenas ok. Rocks mornos, algumas baladas bem recheadas, interpretação vocal e instrumental no máximo mediano. Não consigo captar as virtudes de sua música modesta. O mérito sentimental da música da The Band é algo que ainda não atingi e digo isso com a maior sinceridade e respeito, já que o grupo possui fãs e admiradores ilustres (como é o caso do nosso nobre colega que elaborou esta lista).

Ulisses: A The Band me foi apresentada por uma pessoa que sabia que eu adorava o Creedence Clearwater Revival. Quando ouvi os dois primeiros discos deles (só esses), entendi o porquê: country, folk, rock, tudo soando bem tipicamente norte-americano e com uma narrativa lírica imaginativa. O álbum autointitulado é um tanto autêntico e despretensioso, ainda mais com a presença de diversos outros instrumentos como piano, orgão, violino e sopros, mas o quinteto não conseguiu me cativar. Simplesmente há pouco que me pareça realmente memorável, mas ainda assim a audição é boa o suficiente a ponto de passar longe de ser descartável, especialmente devido à versatilidade dos caras e sua competência multi-instrumental. Destaco a bela “The Night They Drove Old Dixie Down”, além de “Up on Cripple Creek” e “Look Out Cleveland”.


Steely Dan – Pretzel Logic (1974)

Diogo: Poderia ter escolhido Aja (1977), referência de produção perfeccionista aliada a uma musicalidade de altíssimo nível. Poderia ainda ter optado por The Royal Scam (1976), mais voltado para a guitarra e dotado de minha provável canção favorita do grupo, “Don’t Take Me Alive”. Só não poderia deixar artistas tão talentosos como Walter Becker e Donald Fagen de fora da série. Grande parte daquilo que me faz considerar a década de 1970 como a melhor época para a música encontra-se em profusão no Steely Dan. Criatividade, técnica em prol de grandes canções, produções caprichadas, simbiose de estilos, acessibilidade sem abrir mão da qualidade… e as letras? As melhores! Optei por Pretzel Logic, que é o disco que fez com que eu me apaixonasse pelo Steely Dan e o último a ser gravado como grupo, com os guitarristas Jeff Baxter e Denny Dias, além do baterista Jim Hodder, que se limitou a registrar vocais de apoio. De resto, Becker e Fagen já começavam a contar com alguns dos maiores session men que já adentraram os estúdios da Califórnia, como Jeff Porcaro e Jim Gordon (bateria), Chuck Rainey (baixo) e David Paich (teclados). O resultado disso tudo é a mais perfeita combinação de jazz, soul, rock e muita sensibilidade pop que já ouvi, além de algumas pitadas de outros estilos. Tudo concentrado em canções com cerca de três minutos, sem excessos e sem a frieza que se poderia esperar de um trabalho tão minucioso. Pelo contrário, a sutileza exalada de faixas como “Night By Night”, “Any Major Dude Will Tell You” e “Rikki Don’t Lose that Number” – um hit bem peculiar, diga-se – é sincera e cativante. Algumas das minhas levadas de bateria favoritas estão em músicas do Steely Dan, e uma delas é “Parker’s Band”, que mostra, junto a “With a Gun” (com um leve acento country), a faceta mais uptempo de Pretzel Logic. Todas as outras canções são dignas de elogios, mas tenho especial queda por “Barrytown”, perfeita mostra da ironia mordaz tipicamente novaiorquina da dupla unida à suavidade californiana. Como disse, optei por Pretzel Logic, mas toda a carreira inicial do Steely Dan, de 1972 a 1981, é essencial.

Alexandre: Meu aprendizado via Consultoria do Rock é algo pelo qual agradeço sempre. Nunca havia ouvido falar da banda, mais uma que conheci por aqui. Curti esse pop dos anos 1970 com acento jazz. Uma época para a música da qual gosto bastante. O som do piano elétrico me agrada muito, é um pop muito bem feito, instrumental de excelente qualidade. Não é exatamente algo que me “emociona”, vamos colocar dessa forma. Em especial a última faixa, “Monkey in Your Soul”, tem um sax meio enfadonho. Há, contudo, inegáveis pontos favoráveis e muito mais prós do que contras. Praticamente todas as canções trazem trechos ou participações de um ou outro instrumento que ressaltam a qualidade dos músicos. O cover de Duke Ellington, mais tradicional, com uso de pedal steel guitar; o naipe de metais e piano também é bem legal. Gostei também da capa e da contracapa, com imagens de Nova York em preto e branco, em um inverno rigoroso. Um disco cujas insuficientes audições não soaram monótonas em momento algum. Este é um álbum que pretendo ouvir mais vezes, faltou tempo. Já posso destacar “Night by Night” e “With a Gun”, que tem um toque de Simon & Garfunkel no refrão. Além dessas, evidentemente destaco “Rikki Don’t Lose that Number”, uma boa amostra de como uma música pode ser acessível e ao mesmo tempo mostrar uma bela qualidade instrumental.

André: Brass rock com uma dose generosa de jazz é o que se encontra em Pretzel Logic. Gostei mais de The Royal Scam, indicado pelo próprio Diogo em uma velha edição da seção “War Room” que fizemos. Considero-o um pouco inferior ao disco lançado em 1976, mas acho difícil de desgostar caso não tenha preconceito com o lado “yacht” do rock.

Bernardo: Uma das mais proficientes bandas pop dos anos 1970, mas não me chama atenção em especial.

Christiano: O Steely Dan é uma banda maravilhosa que descobri tardiamente e Pretzel Logic é um dos seus melhores discos. A abertura, com “Rikki Don’t Lose that Number”, já mostra que estamos diante de algo diferenciado. Difícil de classificar, mas de extrema beleza e bom gosto. As influências de jazz aparecem por todo o disco, só que diluídas em um acabamento pop elaborado com grande maestria. O resultado é algo único, característico daquelas poucas bandas reconhecíveis logo nos primeiros segundos de qualquer uma de suas músicas. Considero o disco todo perfeito, mas não posso deixar de mencionar um de seus pontos altos, a instigante “Charlie Freak”. Ótima escolha.

Davi: Outro disco bem bacaninha. Sim, há um acento pop, mas o trabalho é muito bem feito. “Rikki Don’t Lose that Number” é classicão. Da primeira metade do álbum, destaco ainda “Barrytown” e “Night By Night”. Sendo bem honesto, da primeira parte só não gostei de “East St. Louis Toodle-Oo”. Da segunda metade, gosto do quase blues “Pretzel Logic” e da faixa de encerramento, “Monkey in Your Soul”. Trabalho bem resolvido, com acento pop na dose certa e de audição muito agradável.

Fernando: Ao meu ver, o Steely Dan é subestimado. Muito rock para quem curte essencialmente música pop e muito levezinho para quem curte apenas rock. Já falei sobre o mesmo disco em uma resenha que você pode ler aqui.

Flavio: Um ótimo exemplo de jazz rock misturado com soul, Pretzel Logic é um disco de ótimas composições. O uso acertado e não exagerado da mistura de ótimo gosto de todos os instrumentos traz o álbum que mais apreciei na lista do Diogo. Preciso dizer que o vocal de Donald Fagen, apesar de limitado, também é muito agradável, principalmente nos timbres mais graves e com ótimo uso de coros, como na excelente “Night by Night”, em “Pretzel Logic” e em “Barrytown”. Agrada também o som clássico do órgão e do piano elétrico em quase todo o disco, assim como o uso de talk box no solo de guitarra da cover “East St. Louis Toodle-Oo”. Um disco sem pontos fracos, dentro da linha soft/jazz rock, um bom representante nesta série.

Mairon: Conheço pouco do Steely Dan, muito mais porque não tive ninguém para me apresentar a banda nos conformes. Este álbum, em especial, é um dos aclamados pelos fãs, e o único que conhecia (ao lado do igualmente celebrado Aja). Sonzeira jazz rock levada pela guitarra de Jeff Baxter e excepcionais arranjos de metais. O disco começa mais ou menos, já que “Rikki Don’t Lose that Number” não consegue me impressionar, mas depois decola. É impossível não sacudir o corpo com “Night by Night”, sonzeira f*derosa, e “Parker’s Band”, ou apenas balançar a perna com um copo de uísque durante “Monkey in Your Soul” e a faixa-título. Que maravilha é a orquestração de “Through With Buzz”, que me lembrou Esperanto. Pena que a música é curtinha, assim como “Charlie Freak”, ótima canção levada pelo ritmo do piano. A coisa cai um pouco em “Any Major Dude Will Tell You” e “With a Gun”, e principalmente em “Barrytown”, mas nada que prejudique o disco. E buda que caiu, que coisa sensacional é a versão para “East St. Louis Toodle-Oo”, de Duke Ellington. Muito bom, Diogo, entraria e muito bem na lista dedicada a 1974 no lugar de Bad Company, Kraftwerk, Neil Young e, principalmente, de Tábua de Esmeralda (Jorge Ben). Baita disco!

Ronaldo: A música pop mais bem calculada da década de 1970! Difícil se equilibrar em meio ao abismo de exageros no qual toda banda é tentada a cair – tocar no máximo volume, solos intermináveis, usar todos os efeitos de guitarra possíveis etc. –, a essência fundamental entre tirar o máximo de uma ideia ou atirar na lama uma boa canção. O compasso exato em que se troca uma guitarra elétrica por um violão, ou naqueles que se dedicam a uma exibição do saxofone, a mescla entre pianos, o encaixe de esculturais padrões rítmicos entremeados por giros inteligentes… tudo isso é matéria de domínio do Steely Dan em Pretzel Logic, seu melhor disco. Uma descrição como essa pode levar o leitor a induzir que temos uma música fria e mecanizada. A genialidade deste trabalho, entretanto, consiste justamente em como se fazer soar, nesses termos, tão intuitivo, leve e agradável.

Ulisses: Classudo, acessivelmente intrincado e produzido com esmero – qualquer disco do Steely Dan é assim. Um jazz rock de apelo pop, agradabilíssimo, que torna difícil a tarefa de achar defeitos. Nunca cheguei, porém, a verdadeiramente me apegar a um disco da banda. Em Pretzel, o lugar comum fica com o hit “Rikki Don’t Lose that Number”, mas eu sempre elejo a levada country de “With a Gun” como o destaque do álbum, seguida de perto pela urgente “Parker’s Band”. De qualquer forma, o resgate de algum disco deles é bastante válido.


Gene Clark – No Other (1974)

Diogo: De um modesto nono lugar em minha lista dedicada a 1974 ao reconhecimento como um de meus discos favoritos, No Other amadureceu de maneira absurda aos meus ouvidos nos últimos dois anos. O country rock pode até ser o tema que une cada arranjo e aglutina as faixas, mas o subtexto é muito, muito mais rico que isso. Rhythm ‘n’ blues, soul, gospel, psicodelia, folk e muita introspecção dão o tom de um álbum que não tem sequer uma faixa que se possa classificar como apenas “boa”. Clark já vinha lançando discos excelentes após sua saída dos Byrds, com ênfase para The Fantastic Expedition of Dillard & Clark (1968), ao lado do ás do banjo Doug Dillard, lançando bases do country rock tanto quanto Byrds, The Flying Burrito Brothers, Buffalo Springfield e Poco. Apesar do insucesso de todas as suas empreitadas, Clark pôde contar com o apoio da gravadora Asylum e trouxe um “quem é quem” dos músicos de Los Angeles naquela época, como Leland Sklar (baixo), Danny Kortchmar (teclado) e Joe Lala (percussão), além do parceiro Jesse Ed Davis (guitarra). O resultado é um álbum caprichado em cada detalhe, produzido com enorme esmero, mas dono de uma sinceridade e uma sensibilidade que raríssimas vezes ouvi em qualquer lançamento. É mesmo uma pena que o fracasso de No Other (em parte pela recusa de Clark em realizar turnês) tenha sido sentido tão fortemente pelo músico, que entregou sua alma em canções sem par. Seus lançamentos se tornaram esparsos e irregulares, com alguns lampejos de genialidade, mas insuficientes para colocá-lo nos eixos. Sua morte, em 1991, silenciou o mais genial integrante do The Byrds. Felizmente, músicas como “Silver Raven” (evocando a paisagem de Norte da Califórnia, onde residia), “From a Silver Phial”, “The True One” (a mais country) e “Lady of the North” foram redescobertas muitos anos depois por artistas influenciados por sua obra. “Some Misunderstanding” soa levemente progressiva, enquanto “Strenght of Strings” é a obra-prima de sua carreira e a música que fez com que eu fosse levado a dar muitas mais chances a No Other e perceber sua genialidade.

Alexandre: Gostei bastante do primeiro lado, um pouco menos da primeira música, bem mais das seguintes. As harmonias de “Silver Raven” e “Strenght of Strings” são muito belas, a interpretação de Gene é muito forte. Destacam-se também os ótimos backing vocals. “Silver Raven” é minha favorita do álbum. A faixa-título também é muito interessante, em um estilo mais moderno, diferente do predomínio dos violões, que aparecem mais nas demais canções. “No Other” realmente é bem diversa das demais, com toques de soul, funk e disco, que se desenvolviam na ocasião. Apesar de manter o padrão próximo do lado A, achei o lado B um pouco mais óbvio e ligeiramente inferior às primeiras faixas. Destacam-se entre essas “Some Misunderstanding”, na qual há espaço para mais belas harmonias. Pelo que entendi, foi um fracasso no lançamento, sendo reconhecido como obra-prima muitos anos depois. Acredito que merecia sim reconhecimento desde seu lançamento, pois é um trabalho em que as harmonias saltam aos olhos e ouvidos. Um belíssimo exemplo de disco country/folk que em vários momentos tem a cara das melhores trilhas sonoras de “road movies”. Talvez seja o disco do qual mais gostei desta lista, mais do que o do The Moody Blues, que também é muito bom. Ótima indicação, Diogo!

André: Disco bem interessante este. Apesar do jeitão country que sabemos ser parte da musicalidade de Clark, nota-se um peso maior das guitarras e do baixo em várias canções, dando um belo ar hard rock ao álbum. Em outros momentos, vejo uma atmosfera psicodélica emanando das caixas de som. “No Other” é um exemplo. Que baixo maravilhoso dominando a canção. A bateria então, usando o cowbell e o chimbau na metade final da música. Outro destaque é a excelente “From a Silver Phial”, um delicioso country com lindos vocais de apoio, praticamente uma balada. Música de qualidade é o que se encontra em No Other.

Bernardo: A “obra-prima maldita” do cantor, arrasada pela crítica e falhando frente ao público da época, mas que com o tempo ganhou novo respeito em sua ambiciosa mistura de country, gospel, soul e rhythm ‘n’ blues.

Christiano: Outro disco que demorei muito a conhecer. Outro tesouro escondido. É muito gratificante, depois de tanto tempo escutando bandas obscuras, descobrir um álbum tão bom e impactante como No Other. Mais interessante ainda é perceber que algumas de suas músicas já foram regravadas por gente como Mark Lanegan e This Mortal Coil, o que sinaliza sua relevância artística, reconhecida tardiamente. Em minha opinião, um clássico absoluto. Para aqueles que ainda não escutaram, sugiro que comecem pelas belas “Silver Raven” e “Some Misunderstanding”.

Davi: Belo álbum de Gene Clark. Os leitores talvez estejam mais familiarizados com seu trabalho ao lado dos Byrds, mas as empreitadas solo dele também são bem interessantes. “No Other” e “Strength of Strings” trazem uma sonoridade mais roqueira e são canções bacanas, mas os momentos dos quais mais gosto são justamente os mais calmos, como “Silver Raven”, que traz uma pegada bem Crosby, Stills, Nash & Young, e “From a Silver Phial”. A faixa de abertura, “Life’s Greatest Fool”, também está entre minhas favoritas.

Fernando: Conhecia o nome de Gene Clark por conta do The Byrds. Sabia que seria algo na linha do country, porque esse é o principal estilo que moldou o rock do Byrds. Ao longo do disco, porém, há bem mais que só música country. A adição de teclados, quase como um instrumento principal em várias faixas, deu outro clima para o álbum, que é muito bom de ouvir.

Flavio: Mais um disco na temática interiorana norte-americana, com predominância do country rock e seus “erres” acentuados, além de misturas como gospel/soul (“No Other”). Gostei dos músicos que acompanham o ex-Byrd, como a ótima e segura cozinha e os vocais femininos, que são de ótima qualidade, ajudando o vocal de Clark, sobre o qual tenho algumas restrições. Em um álbum com uma grande quantidade de participações, fica difícil identificar quem se destaca, mas gostei também de alguns solos de guitarra, como em “Strength of Strings”, “From a Silver Phial” e o slide na bela “Some Misunderstanding”. Trata-se de um disco que alterna momentos mais agradáveis com outros mais comuns, sem me conquistar como um exemplo de grande destaque para a série.

Mairon: Outro disco de 1974, e novamente gostei da audição. Não conhecia o trabalho apresentado. Há boa inspiração country e um belo vocal de Gene Clark, que foi o que mais me chamou atenção. Gostei de faixas como “Silver Raven” – adoro esse tipo de levada do violão, com um dedilhado musculoso –, das bonitas vocalizações femininas e o piano de “Strength of Strings” e da emotiva “Lady of the North”, com bela participação do violino. As demais faixas não são de se jogar fora. Seria bem recebido no lugar do tinhoso Tábua de Esmeralda, mas não o considero como um “melhor de todos os tempos”, apesar de ter sido uma boa audição.

Ronaldo: Egresso de um agremiação de talentos (os Byrds), Gene Clark mostrou que não era só peça de engrenagem e com quantos acordes se faz um disco maravilhoso. No Other é um country rock soberbo, denso, carregado de melancolia, com algumas tintas psicodélicas e refinado em alto grau de pureza. Só não obteve mais visibilidade porque surgiu na época em que uma penca de gente genial estava simultaneamente no auge. Merece ser aclamado com um totem de expressividade, ícone de sinceridade musical, referência em música caprichada.

Ulisses: O que mais me chamou atenção em No Other foi a produção, elaborada e sofisticada, com camadas bem recheadas de cordas e harmonias vocais. Há influências de vários tipos de música norte-americana, que indicam a riqueza do álbum e atiçam o ouvinte, como a ótima balada folk “Silver Raven”, a psicodelia de “Some Misunderstanding” e o country de “The True One”. A voz de Clark é um tanto evocativa e balanceada, dando vida e robustez à solidão imaginativa das letras. Um bom disco, de fato.


Eagles – Hotel California (1976)

Diogo: Talvez nenhuma indicação feita por mim seja tão previsível quanto esta. Como afirmei na introdução, esta lista não agrega necessariamente meus álbuns preferidos que ficaram de fora da série. Alguns deles, no entanto, precisam ser resgatados, pois não apenas possuem representatividade em minha coleção, mas em um contexto muito mais amplo. Não são, porém, as dezenas de milhões de cópias vendidas o maior mérito de Hotel California. Seu tracklist leva o trabalho desenvolvido pelo Eagles até então às raias da perfeição. Cada canção é um single em potencial, mesmo ultrapassando a linha dos seis minutos, como na antológica faixa-título, dona não apenas de um conceito inteligente e de uma musicalidade exuberante porém acessível, mas daquele que talvez seja meu solo de guitarra favorito em todos os tempos. Quando Don Felder e Joe Walsh começam a duelar, só falta soltar faísca. Hotel California também foi a justa confirmação de Don Henley como o principal vocalista do grupo. Enquanto nos álbuns anteriores essa função era distribuída com mais equilíbrio, em Hotel California Henley tomou conta de cinco faixas, restando uma performance solo cada para Glenn Frey, Randy Meisner e Joe Walsh. Don Felder pretendia cantar “Victim of Love”, mas foi sabiamente vetado por Henley e Frey, já que as habilidades vocais de Felder não chegam aos pés de sua performance como guitarrista. Não à toa, o próprio Frey, líder nato e dono de uma belíssima voz, também abriu espaço para que o baterista assumisse a linha de frente. Aliás, belíssimo é elogio pouco para as performances vocais de todos os integrantes. Mesmo Walsh, com sua voz mais fanhosa, faz um trabalho excelente em “Pretty Maids All in a Row”, composta com seu grande parceiro de carreira solo, Joe Vitale. Frey é a própria personificação da suavidade setentista do Sul da Califórnia em “New Kid in Town”, talvez a primeira canção a mostrar-me que o Eagles era muito mais que a faixa-título. E Meisner? Afirmei recentemente, quem ouve Randy Meisner cantando e não se emociona deve se encaminhar para a fila do transplante, pois precisa com urgência de um coração novo. Não há uma música do grupo com sua voz que não mexa comigo, e “Try and Love Again” é uma das melhores, ao lado de “Take It to the Limit” (One of These Nights, 1975). Quem quiser conferir uma resenha mais minuciosa, faixa a faixa, pode conferir aqui uma de minhas primeiras colaborações para a Consultoria do Rock. Além disso, recomendo a todos, inclusive àqueles que não gostam da banda, o documentário “History of the Eagles” (2013), pois se trata da obra biográfica em vídeo mais completa que já tive o prazer de assistir. Mesmo contando com produção do próprio grupo, trata-se de um documentário sem a desprezível pecha de “chapa branca”, retratando com honestidade a trajetória do Eagles e abrindo espaço para todos os ex-membros, inclusive Felder, que deixou a banda em 2001 e a processou diversas vezes. Imperdível.

Alexandre: A faixa-título é tão icônica e contém um solo tão genial que acaba por geralmente ofuscar o resto do álbum. Impossível não lembrar da Gibson double neck de Don Felder em duelo com a Fender Telecaster de Joe Walsh. O álbum é realmente bem coeso, exceto pelo destaque absoluto da faixa-título; praticamente todas as demais funcionam bem, poderia apenas haver um pouco menos de predominância de faixas soft rock em midtempo, baladas mesmo. No entanto, preciso ressaltar que isso também é uma das marcas registradas da banda. Dessas, algumas são bem bonitas, devo considerar. “New Kid in Town”, que foi outro hit a atingir o número 1 das paradas, inclusive priorizada no lançamento dos compactos, não tem o peso nem a qualidade absurda da faixa-título, mas funciona bem. “Try and Love Again” tem ótimos vocais, outro fator muito forte do grupo. Gosto bastante de “Wasted Time” e sua continuação instrumental. Acho que a continuação deveria fechar o lado A e não abrir o lado B. Afinal, tratava-se da época do vinil, e essa questão tem alguma relevância. “The Last Resort” fecha perfeitamente o disco, mais uma entre as boas faixas lentas. O álbum é muito bom, sem dúvida teria espaço no ano em questão. Outro fator importante a mencionar é o fato de os músicos revezarem-se entre diversos instrumentos, assim como nas composições. Não é comum ver tanta versatilidade. A lembrança é bastante correta.

André: Não há o que argumentar, foi uma dor no coração ver que este disco ficou de fora da lista dedicada a 1976. Eagles em seu topo, Walsh entrando e deixando as guitarras mais rocker (principalmente ao vivo) e composições de extrema classe. Com Hotel California, os caras dominaram de vez os Estados Unidos. Não tem faixa filler; aproveite os maravilhosos 43 minutos que esta bolacha tem a oferecer da melhor banda de country rock de todos os tempos.

Bernardo: Sinceramente? Mesmo que o resto não seja exatamente ruim, também não é especialmente marcante. Para ouvir a clássica faixa de abertura que batiza o álbum e é isso aí; de longe o momento mais notável, com sua letra misteriosa, que reflete o showbiz de forma metafórica em sua narrativa tétrica.

Christiano: Temos aqui um dos discos mais famosos de todos os tempos. A canção que dá nome ao álbum é reconhecida mundialmente por pessoas das mais variadas faixas etárias e preferências musicais. Além dela, temos outros bons momentos, como “Pretty Maids All in a Row”, que conta com os ótimos vocais de Joe Walsh, e “New Kid in Town”. No geral, não considero Hotel California um álbum memorável. Digo isso porque o restante das músicas, pelo menos em minha opinião, não trazem nada de brilhante. É, no entanto, um bom disco…

Davi: Realmente, este é um disco que não deveria ter ficado de fora. Trabalho que não apenas é um clássico do Eagles, mas um clássico dos anos 1970. Falar da qualidade dos músicos é chover no molhado, assim como falar de quão marcante é este álbum. Portanto, não perderei tempo. “Hotel California”, “New Kid in Town” e “Life in the Fast Lane” são clássicos absolutos. O disco é bem calmo e traz canções lindíssimas, como “Wasted Time” e “The Last Resort”. “Victim of Love” resgata o lado roqueiro. Como nada é perfeito nesse mundo, incluíram “Pretty Maids All in a Row”, que sempre achei meio sem gracinha, mas é a única do disco que não me chama atenção. Trabalho quase perfeito.

Fernando: Sei quanto o Diogo gosta deste disco. Volta e meia ele o coloca em alguma seleção ou inclui em algum comentário que faz. Não desgosto dele. É legal, vale a pena ouvi-lo, mas o sucesso da faixa-título foi tão grande que acaba diminuindo todas as outras canções. Fico com a impressão de que elas não estão no mesmo nível e é difícil avaliar com isenção.

Flavio: Ao ouvir Hotel California, entendi por que é o álbum mais bem sucedido da banda, rivalizando na mesma época com Rumours (Fleetwood Mac, 1977). Percebo até a aproximação dos dois álbuns, pois encontro no disco do Eagles tons bem suaves, um forte tom pop no rock em algumas faixas (“New Kid in Town”, “Try and Love Again”) e boa presença de baladas (“The Last Resort” e “Wasted Time”), além do maior sucesso do grupo, talvez também a melhor nesta lista, que é a faixa-título. Além disso, o álbum também traz algumas músicas mais rock, como a boa “Victim of Love”. Merecida presença e um dos meus prediletos desta edição.

Mairon: O álbum mais que grandioso do Eagles – certamente seu principal disco – com certeza apareceria na lista do Diogo. Considero-o um belo álbum não só por conta da faixa-título, que, com sua levada com pitadas de reggae e bonitos solos de guitarra, conquistaram (e conquistam) gerações de ouvintes. No geral, é um disco tranquilo de se ouvir, gostoso para qualquer época do ano. Apesar do excesso de baladas, atribuído a “New Kid in Town”, “Wasted Time”, “Pretty Maids All in a Row”, “The Last Resort” e “Try and Love Again”, essa última talvez o melhor trabalho de Randy Meisner na banda, o álbum tem o rockzão de “Life in the Fast Lane” e “Victim of Love”, mostrando que Joe Walsh deu uma grande contribuição para o som do Eagles. “Wasted Time (Reprise)” é um bonito arranjo de cordas que complementa o tracklist. Reouvindo para esta publicação, consigo entender por que Rumours fez tanto sucesso no ano seguinte, já que ambos têm tempero pop na medida certa, mas, no caso do Eagles, ainda mais acertado. O ano de 1976 trouxe uma edição praticamente perfeita para a série, mas, mesmo não conseguindo retirar nada de lá, Hotel California é um baita disco.

Ronaldo: Mera questão de justiça é incluir um disco que meio mundo venera, ouve e canta junto de 1976 até hoje. Não à toa, Hotel California tem canções certeiras e os Eagles têm um instrumental que esbanja classe; um quinteto com quatro bons vocalistas. O comentário generalista visa preservar as faixas de Hotel California de qualquer injustiça, pois todas mereceriam destaque. A face country rock do Sul da California em sua arquitetura mais brisada.

Ulisses: A faixa-título é, facilmente, uma das melhores composições da história do rock. O restante do disco, na minha opinião, não chega aos pés, mas tem seus momentos, especialmente as roqueiras “Life in the Fast Lane” e “Victim of Love”, além da épica “The Last Resort”. Ainda assim, é apenas bem tocado, bem produzido, ocasionalmente desnecessário (“Pretty Maids All in a Row”), mas reitero que nada além da faixa-título é indispensável.


Celtic Frost – To Mega Therion (1985)

Diogo: Em uma lista recheada de álbuns conhecidos pelo perfeccionismo de suas produções, To Mega Therion vem para mostrar que música “torta”, “errada”, tosca e brutal também é digna dos maiores elogios. Difícil de definir, o Celtic Frost vinha se equilibrando entre o thrash, o gótico, o doom, a primeira onda do black metal e o death metal, que recém começava a dar as caras, sem no entanto soar exatamente como algum desses nem parecer uma mistura óbvia. Adquirir este disco, lá nos idos de 2002, foi uma das experiências musicais mais instigantes de minha vida, pois até então minha aproximação com o metal extremo era muito limitada. To Mega Therion escancarou de vez uma porta pela qual poucos artistas haviam adentrado e voltou meus ouvidos para sonoridades muito além do habitual. Do peso exuberante e arrastado de “Dawn of Megiddo” à violência chicoteante de “Eternal Summer” e “Fainted Eyes”, cada faixa de To Mega Therion virou minha cabeça do avesso. Pouco importava o fato da banda não ser formada por instrumentistas dos mais competentes, os caras sabiam fazer música brutal de primeiríssima linha. Thomas Gabriel Fischer tornou-se, desde então, um de meus compositores favoritos, além de uma das figuras mais icônicas de todo o heavy metal. Lá se vão mais de 30 anos e poucos músicos foram capazes de criar um clima tão soturno quanto o presente em To Mega Therion, cujos arranjos incluindo tímpano, trompa, vocais femininos e efeitos sonoros diversos elevaram suas faixas a uma dimensão muito além daquilo que vinha sendo feito em termos de som extremo. “The Usurper”, “Tears in a Prophet’s Dream”, “Necromantical Screams” e a já citada “Dawn of Megiddo” são os melhores exemplos disso. Tom teve ainda a feliz ideia de regravar “Circle of the Tyrants”, registrada primeiramente no EP Emperor’s Return (1985), tornando a nova versão definitiva e possivelmente a música mais associada ao grupo desde então, um testamento de brutalidade que transgrediu o primitivismo e estabeleceu um legado cultuado.

Alexandre: Bem, o Celtic Frost sempre era uma banda da qual eu passava longe nos anos 1980. Na época, aqui no Rio de Janeiro, havia alguns espaços underground e nesses lugares eram exibidos vídeos, shows de bandas nacionais e todo tipo de subgênero da cena metal tocava nos PA’s a todo volume. Sempre foi um dos grupos mais citados, mas nunca curti esse som com vocal urrado ou gutural. No caso específico de To Mega Therion, reconheço, pelo ano de lançamento, que o material desenvolvido foi importante para influenciar todos os seguidores do metal extremo. Na minha opinião, esse é o único ponto a favor do álbum, ainda que eu não goste de nada de metal extremo. Dessa maneira, é uma dificuldade para mim sequer chegar ao fim do disco. Apenas para ressaltar, considero o instrumental muito fraco. As habilidades de Tom Warrior para desenvolver um único solo de guitarra decente são praticamente inexistentes.

André: Foi com este disco que eles influenciaram uma porrada de bandas extremas nos anos seguintes. Incrível como há energia e temas obscuros tratados com muito mais maturidade se comparados ao Hellhammer. Meu preferido ainda é Monotheist(2006), mas é impossível não considerá-lo como o trabalho que a grande maioria dos fãs exalta. Sua capa icônica (e um tanto provocativa) deve ter feito a festa dos jovens revoltados e desagradado uma porção de pais sem muito costume de ver algo como aquilo. Minha favorita é “Jewel Throne”.

Bernardo: Um clássico do metal extremo, influente até dizer chega para o amadurecimento do death e do black metal. Uma evolução natural, porém bem mais ambiciosa e composta do que o primeiro disco, o seminal Morbid Tales (1984). Não é música da minha preferência, mas nem sou louco de desprezar.

Christiano: Quando fico um pouco cansado de escutar bandas mais pesadas, achando que, ultimamente, nada no estilo me chama atenção, costumo voltar aos clássicos para ver se estou cansado de guitarras distorcidas e podreiras em geral. Nesses momentos, To Mega Therion é um dos discos que reacendem meu interesse. É impressionante como o som meio torto do Celtic Frost ainda soa impactante. Tudo parece sujo, pesado e arrastado, criando uma atmosfera única e grotesca. Os vocais de Thomas Gabriel Fischer dão o toque final para que a desgraça se complete. Como destaques, indico “Dawn of Megiddo” e a pesada “(Beyond the) North Winds”. Ah, não posso deixar de mencionar a linda capa, criada pelo grande H.R. Giger.

Davi: Este é um trabalho que é considerado um clássico do black metal e poderia ter entrado na série devido à sua importância. Musicalmente, contudo, é um disco que não me chama atenção. O LP até traz alguns diferenciais em relação a outros do gênero, como músicas mais cadenciadas e efeitos de orquestrações, como ocorre, por exemplo, em “Dawn of Megiddo” e “Necromantical Screams”. Nessa última também temos uma vocalização feminina, algo que acredito não ser comum no gênero até então. O trabalho vocal de Tom G. Warrior, contudo, é muito chato. Além disso, a produção excessivamente crua, com os instrumentos “estourados”, me cansa. Para não dizer que não gostei de nada, destaco os riffs de “Jewel Throne” como um ponto positivo.

Fernando: Lembro até hoje da primeira vez que ouvi o Celtic Frost. Só conhecia a banda de nome por conta da história do estilo e eles sempre eram citados como precursores. Fui com tanta expectativa que acabei não entendendo direito, não gostei muito do som. O disco que ouvi foi exatamente To Mega Therion. Com o tempo, fui me acostumando e curtindo o som, e hoje sou fã dos primeiros álbuns e também dos dois lançamentos do Triptykon.

Flavio: Lento, demoníaco, arrastado, super distorcido (para a época), capa temática, os tais “uh!”… ok, este disco pode ser um precursor do estilo death/black metal e, portanto, importante como pioneiro influenciador do gênero, mas para mim é só. Na verdade, escreverei um pouco mais: o estilo vocal não é tão obviamente delineador desses estilos (principalmente do death metal), pois não é grunhido o suficiente, não que isso ajude muito… então já escrevi o necessário, e o óbvio desnecessário é apontar que (pelo amor de Deus) em 1985 havia muita coisa melhor que isto. Ah, e que 39 minutos e alguma coisa de sofrimento!

Mairon: Chegam os anos 1980 e com ele a metaleira aflora nesta lista, que vinha muito bem. O Celtic Frost dá o pontapé inicial do black metal com este clássico, que eu jurava que entraria na lista referente ao seu ano de lançamento. Só por não cantar guturalmente, Tom Warrior, que também é um bom guitarrista, já ganha alguns créditos. Para mim, a cozinha do Celtic deixa E MUITO a desejar. Considero o álbum bem mais do mesmo, mas não é de todo ruim. Dá de ouvir de boa “The Usurper”, “Circle of the Tyrants” e “Fainted Eyes”. Já “Dawn of Megiddo” e “Necromantical Screams” são um saco, e “Tears in a Prophet’s Dream” é só barulho. Houve tanta atrocidade na edição dedicada a 1985 que To Mega Therion seria uma flor de lótus, mas, nesse nível, outro álbum bem melhor, mais bem tocado e tão importante quanto é que deveria estar na primeira posição daquele ano.

Ronaldo: Dá para sacar que se trata de um heavy metal tão esgarçado que precisaram descolar um nome diferente para o estilo que esta banda desenvolve. Como não conheço essa taxonomia toda, tratarei de forma genérica o peso bruto do Celtic Frost. Há horas em que tudo fica tão veloz e barulhento que é difícil diferenciar as faixas. Pousa como ponto positivo o fato do grupo trabalhar algumas mudanças de andamento e compassos alternados; também destaco a presença de duas vinhetas (uma sinfônica e outra mais experimental) e a cadência mortífera da faixa “Necromantical Screams” e seus timbres soturnos.

Ulisses: A capa deste álbum é uma das minhas favoritas de todos os tempos. A música, infelizmente, não: um thrash metal bastante cru e pouco interessante, com alguns toques góticos e operáticos aqui e ali. Entretanto, foi um álbum influente para a ampliação de alguns estilos dentro da música pesada, o que leva todo fã de heavy metal a ouvi-lo alguma vez na vida.


Death – Scream Bloody Gore (1987)

Diogo: Sim, meus amigos, obriguei-os a ouvir mais um disco do Death. Não tenho culpa se justamente minha obra favorita, a culminância de três anos lançando gravações demo, ficou de fora. Nem lembro mais quando comprei este disco e Individual Thought Patterns (1993) na mesma tacada, mas já ouvia algumas músicas baixadas através do aplicativo Kazaa e tinha noção da rápida evolução técnica de Chuck Schuldiner e seus asseclas. Mesmo assim, não deixei de ficar estupefato com aquilo que aquela dupla (Chuck e o baterista Chris Reifert) registrou. A decisão de descartar as faixas gravadas na Flórida e deslocar-se para um estúdio na Califórnia foi sábia, pois a produção de Randy Burns e a boa mixagem trouxe relativa clareza às músicas. Alguns podem se queixar do fato de o baixo atuar como mero acompanhante da guitarra, mas isso dá uma interessante identidade a Scream Bloody Gore. Não argumento sobre o mérito de ser ou não o primeiro lançamento oficial de death metal, até porque Chuck não dava a mínima bola para isso. Prefiro ir à loucura com faixas como “Infernal Death” (que monstruoso cartão de visitas, apresentando Chuck em seu mais cavernoso gutural), “Sacrificial” (alternando dinâmicas entre a lentidão e a rapidez), “Regurgitated Guts” (sinta ecos do heavy metal mais tradicional) e a faixa-título (Chris distribuindo brutalidade). Minhas favoritas mesmo, porém, são os clássicos “Zombie Ritual” (que introdução é essa?), tocada até o fim das atividades do grupo; “Torn to Pieces”, dona de uma rifferama infernal e lembrada com carinho pelos fãs do cinema italiano de terror; e “Evil Dead”, que apresenta aquela que provavelmente seja a introdução suprema em se tratando de death metal. O pessoal que me perdoe, mas Scream Bloody Gore jamais poderia ficar de fora de uma lista como esta.

Alexandre: O saudoso Chuck Schuldiner era um talento, basta ouvir o ótimo álbum do Control DeniedThe Fragile Art of Existence (1999). Sabia compor e sabia tocar guitarra muito bem. No Control Denied está super bem cercado, mas o problema para mim nem é esse, afinal, Scream Bloody Gore é praticamente ele e um baterista comum do estilo. A questão é que não consigo entender nada do que é “cantado”, então além de não gostar, não consigo fazer uma análise adequada. O “vocal” lembra-me Tom Araya, do Slayer, do qual também não gosto, mas, pelo que saiba, começou esse estilo “vomitado” antes de Chuck. Ainda assim, pelo que pesquisei, este disco é um dos precursores do chamado death metal. Isso é algo a se considerar, para o bem ou para o mal. Interessante é que a lista do Diogo apresenta vários estilos, dentre os quais justamente os álbuns de rock mais pesado foram os que menos me agradaram, salvo o Candlemass. Sobre o Death, confesso, ouvi o disco todo mas não consegui destacar nada. Não, obrigado.

André: Não é que o gaúcho conseguiu nos fazer ouvir a discografia toda dos caras? Mais do que esperado em se tratando de Bizottos e afins. Há, porém, um problema: a técnica pela qual o Death ficou conhecido só se desenvolveria por completo alguns discos depois. Em Scream Bloody Gore ela é apenas uma razoável banda extrema que fala de sangue e gore. A melhorzinha é “Evil Dead”, talvez por ser a mais curta e diferente das demais. O grupo é muito superior de Human (1991) para frente.

Bernardo: O primeiro disco da banda e um dos primeiros de death metal (competindo a paternidade do gênero com Seven Churches, do Possessed, de 1985). Ainda bem básico, lançando tantos clichês que ouvir hoje até parece datado. Para a nossa sorte, Chuck Schuldiner cresceria tanto como artista em dez anos (quando a banda lançou The Sound of Perseverance, em 1998), que transcenderia os próprios clichês lançados e se tornaria facilmente um dos grandes artistas do heavy metal.

Christiano: Estreia do Death, uma das bandas mais criativas de sua geração. É interessante notar que, mesmo sendo um disco mais direto e sujo que seus sucessores, já podemos notar algumas características que diferenciariam o Death de toda a concorrência: arranjos muito elaborados, passagens de guitarra com influência de heavy metal tradicional e uma sede por experimentar novos caminhos para o death metal. Isso fica muito claro em músicas como “Regurgitated Guts” e “Evil Dead”, essa com uma linda linha de baixo, coisa não muito comum no estilo.

Davi: Contando com o cultuado Chuck Schuldiner nas guitarras, no baixo e nas “vozes”, Scream Bloody Gore é um trabalho que deve ser adorado entre os fãs de death metal, gênero que não está entre meus favoritos. Riffs simples, repetitivos e bem construídos e vocais guturais marcam o álbum. Não falta também a bateria extremamente acelerada (ou martelada, se preferir). Ou seja, as características principais do estilo estão presentes. Honestamente, acho que a mixagem poderia ter explorado um pouco mais do grave, especialmente o baixo, fato que ajudaria a dar ainda mais peso ao disco, mas a produção da época era essa mesmo…

Fernando: O Death é uma banda clássica e uma das precursoras do death metal. Chuck Schuldiner é visto como um gênio, fato que se intensificou após sua morte, em 2001. Esta estreia é mais direta que os discos subsequentes do Death e acredito que eles são mais lembrados pelos álbuns mais técnicos do que por esse som inicial. A banda, contudo, não me cativa. Tenho alguns discos, já ouvi bastante, mas não consigo enxergar tudo aquilo que a grande maioria vê no grupo. Talvez a culpa seja minha.

Flavio: Mais um precursor no estilo, o disco de estreia do Death é quase um álbum solo, já que, à exceção da bateria, Chuck Schuldiner performa todos os outros instrumentos, inclusive o que se pode chamar de “death vocal”, que, sim, é de matar mesmo. Qualquer tentativa de entender os maneirismos instrumentais super distorcidos e a “britadeirística” bateria cai por terra ao ouvir Chuck urrar a plenos pulmões durante os quase 45 minutos da bolacha. Consigo salvar a introdução de “Evil Dead” e só. Excelente para os adeptos do gênero e insuportável para mim, cabe apenas ressaltar que Chuck (infelizmente já falecido) tinha um inegável talento que me chamou atenção no ótimo Control Denied. Neste caso, eu passo.

Mairon: Estreia de uma das mais importantes bandas do death metal, para muitos o pontapé inicial do estilo (discordo disso). Quebradeira violenta para poucos ouvidos. Particularmente, gosto dessa fase inicial, em faixas como “Infernal Death” e “Regurgitated Guts”. Ouçam “Denial of Life”, “Baptized in Blood” e “Evil Dead”, músicas violentas que servem para entender por que Chuck Schuldiner é um dos grandes nomes do estilo. A introdução da última é espetacular. Destaca-se também uma bela produção, com todos os instrumentos podendo ser ouvidos claramente. A versão em CD ainda conta com duas canções a mais, “Beyond the Unholy Grave” e “Land of No Return”, ambas pancadas excelentes, e ambas inexplicavelmente retiradas do vinil (por quê???). Na edição dedicada a 1987, entraria tranquilamente no lugar do Overkill. De qualquer forma, mesmo sendo um disco legal de ouvir, não o considero como um dos “melhores de todos os tempos”.

Ronaldo: Em resumo: uma fritação dos diabos.

Ulisses: Death metal nunca foi minha praia, e neste caso temos nada menos que a banda mais importante do estilo. Felizmente, a enorme influência que o gênero pai (thrash metal, especialmente pelas vias do Slayer) ainda exercia deixa as coisas bem palatáveis aos meus delicados ouvidos, fazendo com que eu possa apreciar a porradaria bem amarrada de algumas faixas, como “Zombie Ritual”, “Denial of Life” e “Evil Dead”. Riffs certeiros, instrumental acirrado (o baixo é basicão, mas audível) e a voz carniçal são elementos utilizados de forma empolgada em Scream Bloody Gore, mas a audição não escapa de soar um pouco enfadonha quando é feita em uma tacada só.


Candlemass – Nightfall (1987)

Diogo: Com justiça, Epicus Doomicus Metallicus (1986) deu as caras na série. Para mim, porém, a obra máxima dos suecos é Nightfall, quando o line-up mais clássico do grupo tomou forma, unindo o magnífico vocalista Messiah Marcolin, o guitarrista solo Lars Johansson e o baterista Jan Lindh ao guitarrista base Mats Björkman e ao baixista Leif Edling, líder da banda e compositor de quase todo seu material. Leif mostra, apesar de conduzir as quatro cordas, ser o maior herdeiro do legado pavimentado por Tony Iommi no Black Sabbath, em seus primeiros anos de existência. Não pense, porém, que o disco se resume a riffs monolíticos, arrastados e peso puro e simples. Nightfall é rico em dinâmicas, dedilhados, solos de guitarra melódicos e até um ou outro andamento mais thrash. A decisão de regravar a “Marcha Fúnebre”, de Frédéric Chopin, foi acertadíssima, uma vez que combinou totalmente com o tracklist. O tom operático dos vocais de Marcolin mesclou-se tão bem com as composições de Leif que muita gente tem dificuldade de visualizar o Candlemass com outro cantor. Não faço coro a esse sentimento, mas não tenho dúvida alguma de que o gordinho é o vocalista mais marcante que já passou pelo grupo. Sei que o Candlemass é muito associado ao rótulo “doom metal”, mesmo “epic doom”, entretanto, considero a banda, acima de tudo, um quinteto que essencialmente toca heavy metal, mas sem cair em algo muito específico. Apontar destques em Nightfall é uma tarefa ingrata, pois o tracklist se desenrola com invejável qualidade e dinâmica, além de contar com uma produção condizente, que fortalece a atmosfera fria do álbum e nada contra a corrente daquilo que vinha sendo feito na época. Não posso deixar de apontar, contudo, minha canção favorita do grupo, talvez meu maior objeto de paródias, substituindo sua letra por toda sorte de bobagens que coubessem em suas melodias. Falo de “At the Gallows End”, cujos riffs são um convite a agitar os longos cabelos que nunca tive. Outras são citadas pelos admiradores como favoritas, especialmente “The Well of Souls”, “Samarithan” e “Bewitched”, dona de um videoclipe dirigido por Jonas Åkerlund, o primeiro desse diretor que faria fama registrando vídeos para Madonna, Metallica, U2, Lady Gaga e muitos mais. Aliás, reparem, a partir de 4 minutos e 24 segundos, imediatamente atrás de Marcolin, na presença de um rapaz loiro chamado Per Yngve Ohlin, que fez história com a alcunha de “Dead” ao lado do Mayhem, antes e depois de sua morte, em 1991.

Alexandre: Já havia comentado a respeito do Candlemass na edição dedicada a 1986 e achado interessante o material de Epicus Doomicus Metallicus. Este álbum é uma boa sequência do anterior, oscilando entre o doom metal presente anteriormente e alguns momentos mais acelerados. A banda meio que se reforçou, com adição de um competente guitarrista solo, novo baterista e novo vocalista. Os solos de guitarra são muito bem feitos durante todo o trabalho. O estreante Messiah Marcolin trouxe um bom vocal, embora eu ache que ele abusa um pouco em acompanhar as linhas dos riffs produzidos pelo baixista Leif, o dono das composições. Talvez seja uma característica do doom metal, mas eu prefiro outros momentos, como em “Mourners Lament”, em que os vocais combinam com o instrumental sem seguir exatamente a mesma linha. Os riffs cadenciados (lembrando o titio Iommi) e a boa opção pelo uso do bumbo duplo fizeram com que eu destacasse essa canção como a que mais me agrada. Ainda que o bumbo duplo não esteja lá muito bem mixado, a ideia é bem boa. A se ressaltar também a bela escolha para capa, muito bonita. A instrumental “Black Candles” lembrou-me as ideias presentes em “The Call of Ktulu”, do Metallica, não sendo exatamente uma cópia. Uma boa faixa, um tanto curta, se considerarmos o belo desenvolvimento que o Metallica deu para a citada instrumental de Ride the Lightning (1984)Nightfall não se encaixa exatamente no estilo de som pesado que me agrada mais, então não é um álbum para me encantar. Mesmo assim, passou relativamente bem aos meus ouvidos.

André: Uma das minhas bandas favoritas de doom. Este é um dos seus melhores discos, junto a Tales of Creation (1989). Pesado, agoniante e com o gordão Messiah Marcolin cantando de forma visceral. Temos em Nightfall um disco que pode ser considerado uma obra de arte em sua totalidade. Embora a sonoridade seja doom, o estilo tradicional e até uma certa velocidade fazem parte de várias canções. Grande lembrança!

Bernardo: Apesar de me considerar fã incondicional do Black Sabbath, é gozado como seus inspirados do doom metal geralmente não me atraem. Acho modorrento e meio difícil terminar esses discos, mas dou valor.

Christiano: Outra pérola desta lista. Em pleno auge do hard rock dos anos 1980 e das calças de oncinha, uma banda da Suécia resolveu retomar o peso arrastado de bandas setentistas como Black Sabbath e cia., mas não fizeram isso somente como um pastiche. Nightfall traz riffs que devem ter enchido de orgulho o mestre Tony Iommi, mostrando que é possível soar pesado, arrastado e extremamente melódico. Muito disso é mérito dos ótimos vocais de Messiah Marcolin. Como destaque, indico as excelentes “Samarithan” e “Bewitched”.

Davi: Algo bacana desta seção é que ela nos dá a oportunidade de ouvir algumas coisas que provavelmente não pegaríamos para escutar e nos livrarmos de alguns preconceitos. Nunca havia parado para ouvir o trabalho do Candlemass, muito provavelmente por conta das capas que conhecia. Achava que seria algo meio podreirão. E não é que eu estava enganado? Trabalho muito bem elaborado. Ótimos músicos, arranjos bem variados, ótimo trabalho vocal. Não sei se sou só eu, mas os agudos de Messiah Marcolin remeteram-me King Diamond. “The Well of Souls”, “At the Gallows End” e “Bewitched” são minhas favoritas. Procurarei ouvir mais alguns discos deles.

Fernando: Não ouço tantas bandas de doom metal porque algumas delas ficam chatas quando arrastam demais o som. Também acho que, para uma banda se destacar no estilo, ela deve ter um vocalista que consiga colocar melodias para contrapor ao instrumental. Nesse quesito, o Candlemass está muito bem com Messiah Marcolin, que é um cantor fantástico, fora que ele é uma figuraça. Melhor disco do Candlemass na minha opinião e uma ótima lembrança.

Flavio: Outro grupo sempre comentado e a mim recomendado, o Candlemass também é um dos que nunca me chamaram atenção, portanto nunca me aprofundei em sua discografia. A oportunidade de conhecer melhor este segundo disco, que é considerado um ponto alto da carreira, chega com a lista do Diogo. O então novo vocalista Messiah Marcolin tem ótimo timbre e extensão vocal, mas, principalmente no início do álbum (“The Well of Souls”), abusa de falsete, como um primo de primeiro grau de King Diamond. A seguir, redime-se nas boas “At the Gallows End” e “Samarithan”). O disco traz algumas boas instrumentais, como a faixa final, e mantém em boa parte o tom arrastado do doom metal, sem o aprofundamento abusivo das afinações, sendo esse um bom fator a destacar. Há um tom mais demoníaco em predominância, alinhado com o estilo, também lembrando um pouco o primo de primeiro grau, sem exageros, sem incomodar muito. Bons músicos executam um álbum que é boa presença, sem no entanto convencer-me para aproximação ainda em definitivo do resto da discografia.

Mairon: Outra metaleira, desta vez sem vocal gutural ou afins. Prevalecem riffs pesados, um bom vocal e aquele arraste que caracteriza o doom metal. Gostei de ouvir faixas como “The Well of Souls”, “Mourners Lament” e “At the Gallows End”. As curtinhas “Gothic Stone”, “Codex Gigas”, assim como a carregadíssima “Samarithan”, capricham em nos dizer que, lá no fundo, Black Sabbath é quem manda no mundo do heavy metal e fim de papo. Até a “Marcha Fúnebre” de Chopin ficou legal, e a curtinha instrumental “Black Candles” também merece destaque, mesmo não tendo muito a acrescentar. Elogiei o primeiro disco da banda, que entrou na lista abrangendo 1986, e elogio também Nightfall, mas não creio que deveria ter entrado na edição dedicada a 1987, mesmo no lugar do Overkill. Quem devia estar lá, na realidade, quando vê, aparecerá só na minha lista.

Ronaldo: Um disco pesado e bem dinâmico, com alternância entre riffs tétricos, velocismo de palhetadas e vocais épicos. Considero algo bem completo de todo o panorama do rock pesado nos anos 1980, com bom instrumental e bom vocal, apesar de predominarem faixas mais midtempo e com pegada oriunda do Black Sabbath. As guitarras conseguem soar melódicas (há inclusive inteligentes inclusões de dedilhados semiacústicos e dobras harmônicas) e uma variedade maior de timbres do que aquilo normalmente observado no metal oitentista é encontrado em Nightfall. Trabalho bem representativo da época.

Ulisses: O Candlemass, se bem me lembro, só apareceu na série com seu disco de estreia, Epicus Doomicus Metallicus. Seu sucessor, entretanto, é igualmente digno de atenção, especialmente por marcar a entrada do baterista Jan Lindh, do guitarrista Lars Johansson e do vocalista Messiah Marcolin – que garantiu a vaga ao cantar “Solitude” no telefone para o baixista e líder Leif Edling. A interpretação desse cara em faixas como “The Well of Souls”, “At the Gallows End” e “Mourners Lament” é de arrepiar. O instrumental é massivo, como pede o estilo, e o toque dramático da banda é ampliado pelo estilo semioperático de Marcolin.


Take That – Beautiful World (2006)

Diogo: Minha décima escolha foi, de longe, a mais difícil. Na maior parte do tempo, pensei que deveria fazer jus ao talento de Gram Parsons, um de meus músicos favoritos. Considerei a inclusão de três obras com sua essencial participação: Sweetheart of the Rodeo (The Byrds, 1968), The Gilded Palace of Sin (The Flying Burrito Brothers, 1969) e GP (solo, 1973). Como as reações provavelmente seriam muito parecidas com aquelas que testemunhei em uma edição perdida da seção “Consultoria Recomenda” abordando duetos vocais entre homem e mulher, na qual citei seu disco solo póstumo, Grievous Angel (1974), resolvi abrir mão dessa indicação. Com a ideia de fugir do lugar-comum e justamente buscar reações diferentes, decidi pelo álbum que trouxe de volta a carreira do Take That e tornou-se um dos meus favoritos nos últimos 20 anos. A pecha de boy band assusta, mas Beautiful World é muito mais um álbum pop rock contemporâneo do que qualquer coisa ligada a ritmos dançantes e sonoridades preponderantemente eletrônicas, como muitos poderiam pensar. Gary Barlow, desde sempre o integrante-chave do grupo, continuou dominando aproximadamente metade do tracklist e trouxe um sentimento reconfortante com sua bela voz, mas o caminho aberto para Mark Owen, Howard Donald e até Jason Orange (que nunca havia registrado uma performance solo) traz um frescor que a variedade vocal apresenta e muito me agrada. Quem quiser uma descrição detalhada do álbum pode clicar aqui e conferir uma resenha que escrevi em 2011. Sei que as reações ao álbum não serão das melhores, mas reforço a ideia de que é muito melhor ver um cenário mainstream no qual um disco como este obtém destaque do que assistir ao domínio da imbecilidade sobre o talento genuíno. Sim, pois o Take That tem talento, especialmene Gary Barlow e Robbie Williams, que chegou a retornar ao grupo entre 2010 e 2012. Para não dizerem que não citei destaques, menciono a trinca inicial – “Reach Out”, “Patience” (maior sucesso do álbum) e a faixa-título –, “Shine” (com um quê Beatles unido ao estilo do Queen setentista) e “Wooden Boat”, talvez a maior surpresa, com um bem vindo acento folk. Caso alguém tenha gostado do que ouviu, recomendo buscar alguma edição com a maior quantidade possível de faixas bônus, pois as excelentes “Rule the World” (gravada para uma trilha sonora) e “6 in the Morning Fool” são tão boas ou melhores que aquilo que a versão normal oferece.

Alexandre: Tentei ouvir deixando o lance de ser uma boy band de lado, até porque não tenho certeza se esse rótulo se encaixa exatamente no caso. Quer saber, tanto faz, pois o material é um pop insosso sem nenhuma criatividade. Violões chatos, cordas óbvias, backings pasteurizados, bateria que um robô faria. Destaco a voz do tal Mark Owen, porque é horrorosa, pior que a dos demais. Cara, na boa, isso aqui se justifica se a mina com quem você quer sair é fã do grupo ou coisa do gênero. Saiba você que se ela levar isso muito a sério, os encontros não serão muitos. Ou então você tem que gostar dela demais. Pensando bem, ainda assim os encontros não serão muitos. Desculpe-me, Diogo, este é intragável. Foram quase 50 minutos de puro tédio. Fazendo um esforço para destacar algo, sobraria para “I’d Wait for Life”, pois os três primeiros minutos não têm bateria de robô ou violão chato. Talvez ainda o violão mais puxado para o country em “Wooden Boat”, que se perde no meio do restante do arranjo e da falta de força do vocal açucarado. Assim, Diogo, só posso dar-lhe os parabéns pela coragem. Acho que não se justifica nem uma relação fraca, como foi aquela de 2006. A seção adequada para este álbum é “Discos que Parece que Só Eu Gosto” (ou tenho coragem de admitir que gosto).

André: Leitores, não achem que eu tenho qualquer antipatia pelo nosso patrão. Pelo contrário, este é um dos sujeitos mais bacanas e inteligentes que já encontrei nessa vida internética. Mas sabe quando você manda seu amigo se fod** – sem ofensa – por gostar de umas coisas bisonhas como esta? Falo isso porque já me considero com intimidade suficiente para falar uns palavrões ao ilustríssimo chefe da seção mais querida de nosso site. Diogo, de boa, vá se fod**, cara, quer me matar de vergonha?

Bernardo: O curioso desta seção é me fazer sair da zona de conforto. Banda de pop rock que surgiu no início dos anos 1990 para revelar o megapopstar Robbie Williams, o Take That fez em Beautiful World um daqueles álbuns difíceis, sem o vocalista icônico. Como acontece na maioria dos casos, tem a assinatura da banda, mas não tem a “faísca” que fez o grupo explodir. Ouvindo, dá para sentir que, apesar de ser um resultado sólido, algo constantemente nos diz que já foi “maior”.

Christiano: Depois de ter escutado tantos discos ótimos desta lista, fiquei um pouco surpreso com esta escolha. Ouvi o álbum, mas foi difícil. O início, com “Reach Out” e “Patience”, até é razoável, mas quando cheguei na faixa-título, senti um desconforto muito grande. Dali em diante, a coisa ficou insuportável. É um pop com alguns toques de indie rock, só que extremamente açucarado. Não consegui gostar.

Davi: Nunca tive muita proximidade com o trabalho do Take That. Gosto da carreira solo do Robbie Williams (especialmente daquelas baladas no melhor estilo “quero ser o Elton John”), mas não acompanhei o trabalho desses caras. Conheço Robbie Williams, sei quem é Gary Barlow, conheço o hit “Back for Good” e meu conhecimento acabou por aí. Lembro de ver a cara deles nas revistas nos anos 1990 e de vê-los associados à explosão de boy bands que estava havendo naquele momento. Naquela época, em termos de música pop, estava mais ligado nos artistas latinos e em Shania Twain. Não acompanhei nenhuma dessas bandas. Beautiful World foi uma surpresa positiva. É um trabalho praticamente de baladas, mas bem redondinho. Bem cantado, bem arranjado, bem gravado. Notei que todos eles cantam, ao invés de ter um cantor e outros três ou quatro fazendo figuração, que é o que costuma ocorrer nesse tipo de banda. “What You Believe In” soa como se fosse uma canção de Julian Lennon. “Shine” é outra que traz essa pegada meio Beatles (algo que me agrada bastante). “Patience”, “Beautiful World”, “Like I Never Loved You at All” também se destacam. Se você curte música pop, dê uma chance.

Fernando: Outro disco que, volta e meia, o Diogo está enfiando nas conversas. O pop do Take That é bem feito, dá para tocar em churrasco de família, mas será mesmo que é “melhor de todos os tempos”? Até admito que chamar o Take That simplesmente de boy band é muito pouco, já que eles não se utilizavam apenas de sons eletrônicos, como outros grupos do mesmo gênero. O instrumental é redondinho e a produção coloca instrumentos de corda para encorpar a sonoridade, mas não entendo a insistência.

Flavio: Infelizmente concordarei com alguns participantes que, ao receberem a lista, reclamaram da presença do Take That. Ao ouvir o disco, não entendo nenhum atributo especial para que participasse de uma seleção de melhores. Harmonias básicas, ritmos totalmente retos (4×4), melodias óbvias, produção tradicional… o álbum nem desagrada, nem agrada; passa totalmente em branco, na minha avaliação. Não entendo o que o Diogo encontrou, é como uma sopa de água, totalmente insossa, não há absolutamente nada que me chame atenção.

Mairon: Bom, neste caso o Diogo pediu para levar umas pedradas. Bandinha insossa, na linha do Backstreet Boys, que voltou a gravar depois de uns dez anos e fez isso. Pop sem relevância, mesmo com “Patience” tendo tocado bastante nas rádios na época de seu lançamento. Haja paciência – com o perdão do trocadilho – para aguentar baladinhas melosas e vocalizações insípidas, que só servem como faixas de FM. Senti vergonha alheia de ouvir este disco, sinceramente. Ok, ele poderia ao menos entrar no lugar do J-Dilla, mas também seria achincalhado na edição voltada a 2006. Os únicos momentos em que pensei “opa, temos algo interessante” foram os violões em “Wooden Boat” e as harmonias Beatles em “Shine”. Depois, nada de bom tira-se disso, me desculpe.

Ronaldo: Noventa por cento do disco tem as sequências de acordes mais manjadas da música pop, aquela coisa estudada de produtores inescrupulosos que visam entubar sua música através das rádios FM. A produção do disco ajuda a descaracterizar qualquer personalidade dos envolvidos (vocalistas e instrumentistas). Questiono-me se essas músicas fossem produzidas pelo mesmo produtor, mas com músicos diferentes, elas soariam com alguma diferença daquilo que foi lançado. O disco não é absolutamente ruim, apenas se apoia nas mais equivocadas premissas.

Ulisses: Para uma boy band britânica, eu até que estava esperando algo pior. O quarteto busca ares maduros e tem bons vocais em meio a leves orquestrações e pianos, mas tem dificuldades em apresentar faixas memoráveis. Mesmo as mais interessantes, como “Patience”, “Shine” e “Hold On”, não escapam do aspecto genérico e sem vida, ficando com cara de música de supermercado.



Categories: Artistas, Covers / Tributos, Curiosidades, Discografias, Músicas, Resenhas, The Beatles

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