Discografia MetallicA – parte 10: compilações Metal Massacre (1982)

Veremos, neste capítulo, um pouco de como o novato grupo MetallicA foi projetado ao mundo e os primeiros passos que o fizeram chamar a atenção na Bay Area.

Álbum: (The New Heavy Metal Revue presents) Metal Massacre

  • Lançamento (primeira prensagem): 14/junho/1982
  • Label: Metal Blade Records Inc. (EUA).
  • Produtor Executivo: Brian Slagel
  • RIAA: N/A (só entrou para o ranking em 2010)
  • Faixa: Hit The Lights. A versão lançada na primeira prensagem da compilação foi assim  oficialmente gravada (*):
    • Vocal, guitarra-base e baixo: James Hetfield
    • Guitarra-solo: Lloyd Grant
    • Bateria: Lars Ulrich

primeiro encontro da dupla Hetfield / Lars não foi nada positivo. O guitarrista se decepcionou bastante com Lars, falando a ele que era melhor abandonar a ideia de ser baterista e voltar ao tênis. A dupla só voltaria a se encontrar praticamente um ano após esta data.

A banda já possuia as primeiras demos – entre elas, a primeira gravação em um TEAC 4-track e a “No Life ‘til Leather“. Lars, na época, continuava para trás de seus companheiros, ainda mais tendo que acompanhar o novo baixista. Mesmo assim, foi em março de 1983 que a banda já começou a falar em gravar um disco.

Entretanto, as habilidades “baterísticas” de Lars eram consideradas realmente como rudimentares. Lars, de qualquer maneira, queria provar aos seus pais que ter escolhido abandonar o tênis não tinha sido um erro em sua vida. Ele havia voltando de uma viagem da Europa e em suas jams com Hetfield saiam como 15 músicas da NWoBHM.

Brian Slagel, entretanto, via Lars bastante frustrado. Atualizado com a NWoBHM, Lars tinha em Hetfield uma pessoa que entendia a direção musical que ele era fã e queria seguir, mas não encontrava outros garotos que o entendiam. Entretanto, fui justo durante este período que os garotos achariam o nome para banda – ainda que nem Lars nem Hetfield possam ser considerados responsáveis pela “criação” do nome.

Na verdade, o nome “Metallica” tinha sido divulgado por outro amigo de Lars, um cara com quem o dinamarquês fazia rolos com trocas de fitas: Ron Quintana. Ron primeiro conheceu Bob Nalbandian e a equipe depois de receber uma carta publicada em uma edição inicial da (hoje famosa) revista Kerrang!. Inspirado pela Kerrang! mas também na fanzine mais underground “New Heavy Metal Revue”, do próprio Brian Slagel, Quintana agora queria “americanizar” as coisas e ter seu próprio veículo de comunicação.

Foi Ron que mostrou a Lars uma lista com os possíveis nomes que sua revista “super heavy metal” poderia ter. Lars, que então estava em São Francisco, já havia mostrado uma possível lista de nomes para a revista, mas Ron não tinha gostado de nenhum, dizendo que os nomes eram muito genéricos, parecidos com “nomes de carros”. Quintana então mostrou a Lars sua lista de possíveis nomes: Metal Mania, Metal Death e coisas do gênero. A lista seguiu até Lars se deparar com o nome “Metallica”. “Esse é legal”, disse Lars.

Num piscar de olhos, Lars já “direcionou” Ron a chamar a revista “Metal Mania”, de maneira indireta. Ron gostou do nome e os dois ficaram em torno de 6 meses sem contato, até que Lars ligou para ele e disse que estava chamando sua banda de “Metallica”. Ron estava satisfeito com o nome escolhido e a Metal Mania já estava na terceira edição. Ron mal sabia que Lars poderia realmente ser considerado um  “baterista” à época [NOTA DO EDITOR: “hahahaha”]. Hetfield chegou a participar do processo decisório pelo nome da banda com Lars através de mais listas de possíveis nomes, como Helldriver, Nixon, Thunderfuck e Blitzer. Mas Lars, após aquela noite com Ron, já estava decidido.

E aqui a história do então grupo “Metallica” com Brian Slagel começa a se misturar mais intensamente. Brian, que estava trabalhando para a Oz Records e continuava com sua fanzine, estava também promovendo alguns shows de bandas locais de metal em uma pequena casa chamada The Valley. O ativo Slagel também começava a ter material na Sounds e estava metido em uma rádio também local, a KMET, também conhecida como The Mighty Met (interessante que o DJ da rádio, Jim Ladd, ficaria famoso em 1987 como o “fictional DJ” do álbum e tour Radio K.A.O.S. de Roger Waters).

A distância que Slagel estava tendo de Lars e Hetfield logo acabaria quando Brian achou tempo também para por em circulação uma compilação independente, com bandas do underground. Brian sabia que havia boas bandas tocando na região de Los Angeles que ninguém conhecia (e talvez jamais conheceria mesmo), em uma época onde, por exemplo, o Quiet Riot e o Mötley Crüe (que optou de última hora não fazer parte da compilação e sair de maneira independente) já se consolidavam e muitas bandas queriam fazer como eles. Inspirado na Metal For Muthas, Brian inicialmente tentou chamar a compilação de “The New Heavy Metal Revue Presents…Metal Massacre”. Brian estava empolgado com bandas como o Exciter, que tinha em suas fileiras George Lynch na guitarra. A ideia, claro, era ver se a cena de Los Angeles poderia “ir na onda” do sucesso que a NWoBHM estava provocando.

Ainda em 1981, Brian então buscou entre seus contatos profissionais – inclusive importadores – além de lojas locais para ver o interesse em comercializar sua compilação. Com suas economias da época de colégio onde havia trabalhado na Sears, mais uns USD 800,00 de uma generosa tia, e uma graninha da mamãe, nascia o capital inicial da Metal Massacre.

A ideia é que as bandas entregassem seus materiais de maneira voluntária no trade-off óbvio da divulgação de seu material. Para as bandas iniciantes, dificilmente uma oferta melhor que estava poderia surgir. A primeira prensagem do Metal Massacre trouxe 2.500 cópias da compilação, a um custo de um pouco mais de USD 1,00 por unidade, ficando entre USD 3.000 e USD 4.000. Vendidas por USD 5,50 (quando a média de preço de um álbum nos EUA era USD 7,99), mais uns USD 0,50 para o frete, além de uma ajuda de custo para as bandas, as contas não fechavam. Mas Brian seguiu em frente com seu projeto offshoot de sua fanzine.

Lars ficou sabendo da iniciativa e ligou para Brian, perguntando a ele que se ele tivesse uma banda, se ele poderia colocar um material lá. Ulrich então chegou a conclusão que não precisava necessariamente de uma banda para estar lá – ele só precisava que James o ajudasse a fazer uma demo. Algumas semanas se passaram e Brian foi atrás de um novamente sumido Lars perguntando qual era a dele. Lars então pediu “uma data e hora” para entregar o material, garantindo que ele receberia algo no prazo estabelecido.

Mais um tempo se passa e Brian já estava em fase de mixagem do álbum no Bijou Studios. Eis que em torno das 15h00, “o cara do sotaque engraçado” chega afobado com uma fita em mãos, gravada um amador cassete de 4 canais. A qualidade estava terrível para o material entrar. Eles haviam gravado uma música na noite anterior, com o jamaicano Lloyd Grant, que também dava umas aulas de guitarra a Hetfield, tocando e ajudando os garotos para a gravação.

O estúdio então cobrou USD 50,00 para poder passar o material para uma fita (para o rolo). Lars não tinha essa grana. Brian também não. Um amigo de Slagel, John, acabaria por emprestar o dinheiro para finalmente o material ser masterizado. Na época, os tais USD 50,00 eram muito dinheiro e ninguém andava com tamanho dinheiro disponível. John “50 Bucks” Kornarens tinha USD 52,00 na carteira, e Lars disse que assim o chamaria em todos os discos do MetallicA do futuro.

“Hit The Lights” foi a música que entraria para a lendária compilação de 10 faixas. Ainda que muito da música que se ouve nesta versão seria levado para o Kill ‘Em All, dá para ver, ou melhor, ouvir o amadorismo da gravação, o “vocal” do moleque Hetfield tentando chegar no estilo do Diamond Head… e em termos instrumentais principalmente da bateria (ainda que as características viradas estivem lá, e depois permanecido na versão do primeiro álbum da banda, muito fiéis a esta versão). A faixa foi creditada a Hetfield/Ulrich, ainda que, além de ignorarem Lloyd Grant, muitos também mencionam a participação de Hugh Tanner na guitarra solo da versão.

As 2.500 cópias do álbum foram rapidamente vendidas, graças especialmente ao trabalho da Oz Records com seus distribuidores.

(*) Agora vamos à confusão dos créditos e membros. O nome da banda foi incorretamente grafado como “Mettallica” na primeira prensagem da compilação (MRM 1001). Além disso, a primeira prensagem também sai com créditos a Dave Mustaine e Lloyd Grant nas guitarras, além de Ron McGovney no baixo. Aqui a confusão na história da banda é enorme e há informações afirmando categoricamente da participação deles, enquanto fontes teoricamente “mais” confiáveis, como a biografia da banda escrita por Mick Wall, “Enter Night”, reafirmam os créditos apenas para James/Lars, além das menções a LLoyd e Hugh. E ambas versões, claro, são musicalmente distintas da demo Power Metal.

Primeira prensagem trazendo a grafia “Mettallica” e os polêmicos créditos

O erro de grafia do nome da banda foi corrigido na prensagem seguinte (Metalworks Records – MW 6363), também de 1982, mas justo aí a versão de Hit The Lights já é outra (conhecida como “version 2”), e dessa vez há um consenso maior (ainda que não total) da formação da banda – vocal e guitarra base: James ; guitarra solo: Dave Mustaine (no lugar de Lloyd Grant) ; baixo: Ron McGovney e bateria: Lars. Essa “v2” de Hit The Lights também é fruto de uma conhecida insatisfação de Hetfield com a versão inicial e essa versão é justo a da demo de No Life ‘Til Leather, já melhor gravada, inclusive em oito canais.

A segunda prensagem também traz 10 faixas, mas sua abertura original foi trocada: saia o Steeler com Cold Day In Hell e entraria Black N Blue com Chains Around Heaven. Nesta contra-capa da segunda prensagem, há também uma mudança gráfica no cabeçalho, com a inversão das cores, saindo o fundo preto e letras brancas para letras na cor preta em um fundo branco inteiro.

Segunda prensagem, com a correta grafia do nome da banda e créditos “menos polêmicos” para a v2 de Hit The Lights (mas com novo erro de grafia: Black And Blue”)

Já a terceira e última prensagem da compilação traria apenas 9 músicas, com a faixa do Rattt sendo suprimida, aparecendo novamente em 1984, em uma relançamento já pela novo selo Metal Blade (oriundo da antiga distribuidora Green World, que ficaria também conhecida no futuro como Enigma), também criado por Slagel após ele perceber o potencial estava na sua frente. Foi através da Green World – depois Enigma – que o selo da Metal Blade Records viraria propriamente um selo de gravadora. Para isso, Slagel se desligou da loja na qual trabalhava, e até mesmo parou os estudos, para apostar na Metal Blade que, além de “lançar” o MetallicA ao mundo, também promoveu tantos e tantos nomes que inclusive passaram a constar em respeitos rankings, como da Billboard 200, a título de exemplos: Ratt, Slayer e Armored Saint.

Assim, temos as 3 primeiras prensagens da Metal Massacre:

Primeira prensagem:

  1. “Cold Day in Hell” – Steeler – 4:17
  2. “Live for the Whip” – Bitch – 5:19
  3. “Captive of Light” – Malice – 3:21
  4. “Tell the World” – Ratt – 3:16
  5. “Octave” (instrumental) – Avatar – 3:48
  6. “Death of the Sun” – Cirith Ungol – 3:56
  7. “Dead of the Night” – Demon Flight – 2:35
  8. “Fighting Backwards” – Pandemonium – 3:44
  9. “Kick You Down” – Malice – 4:28
  10. “Hit the Lights” – Metallica (listado como “Mettallica”) – 4:25

Segunda prensagem:

  1. “Chains Around Heaven” – Black ‘n Blue – 3:45
  2. “Live for the Whip” – Bitch – 5:19
  3. “Captive of Light” – Malice – 3:21
  4. “Tell the World” – Ratt – 3:16
  5. “Octave” (instrumental) – Avatar – 3:48
  6. “Death of the Sun” – Cirith Ungol – 3:56
  7. “Dead of the Night” – Demon Flight – 2:35
  8. “Fighting Backwards” – Pandemonium – 3:44
  9. “Kick You Down” – Malice – 4:28
  10. “Hit the Lights” (version 2) – Metallica – 4:12

Hit The Lights:

Terceira prensagem:

  1. “Chains Around Heaven” – Black ‘n Blue – 3:45
  2. “Live for the Whip” – Bitch – 5:19
  3. “Captive of Light” – Malice – 3:21
  4. “Octave” (instrumental) – Avatar – 3:48
  5. “Death of the Sun” – Cirith Ungol – 3:56
  6. “Dead of the Night” – Demon Flight – 2:35
  7. “Fighting Backwards” – Pandemonium – 3:44
  8. “Kick You Down” – Malice – 4:28
  9. “Hit the Lights” (version 2) – Metallica – 4:12

Também como curiosidade adicional, a Metal Blade, hoje em dia, possui alguns escritórios pelo mundo e continua lançando a Metal Massacre. Ainda que hoje em dia não aceite mais demo de bandas, as compilações continuam apresentando novos nomes nas diversas variações do heavy metal ao mundo.

Sendo plataforma, portanto, a bandas como Slayer e Ratt, a Metal Massacre II projetou bandas como  Armored Saint, Warlord Overkill (que não é o Overkill que ficou famoso e que apareceria também na no Metal Massacre V) e uma outra banda, a Trauma, que trazia em suas fileiras o baixista Cliff Burton. Além disso, o Steeler de Ron Keel, traria o mesmo vocal para o Keel, que lançaria alguns álbuns nos anos 1980 com o sueco Malmsteen, mas não antes do Metal Massacre.

A versão III, já em 1983, traria o Slayer e seu speed metal que assombraria o mundo. As edições seguintes também trariam outros nomes importantes, como o próprio Overkill e o Fates Warning (1984), Mayhem e Dark Angel (1985) E Flotsam & Jetsam (1986).

Com o devido sucesso, ainda em 1982 Slagel decidiu colocar as bandas para ter contato com o público, no The Stone. Algumas das bandas tocaram para cerca de200 bangers presentes, sendo que o MetallicA sairia como “a banda da noite”. Slagel incluiria o MetallicA no show também de maneira atrasada, informando a Lars que não havia dinheiro envolvido, apenas o show. Lars topou fazer o show sem saber como chegaria em São Francisco. Com a demo de No Life ‘til Leather sendo um sucesso na cidade na fog city (lembrando da ajuda de Quinta com sua fanzine Metal Mania), Lars, James e McGovney comentam que ficaram muito impressionados com a galera inclusive cantando letras das músicas e pedindo autógrafos. É amplamente considerado o primeiro show “real” da banda.

O set básico era variava portanto com Hit The Lights, The Mechanix (que seria a base para a futura The Four Horsemen), Motorbreath, Seek & Destroy, Metal Militia, Jump In The Fire e Phantom Lord (vê-se, portanto, de maneira clara e cristalina, a importância de Mustaine para o Metallica efetivamente ter um repertório inicial). Além das músicas da demo, No Remorse era uma novidade que estava entrando também no set, além de 2 covers do Diamond Head – Am I Evil? e The Prince.

Um (possível) ingresso da banda, ainda em ago/1982

Show da banda em 1982 no Old Waldorf, em ‘Frisco, set base (já sendo a base, inclusive, do que viria a ser o primeiro álbum da banda no ano seguinte). É difícil não rir do vocal adolescente-rebelde-espinhudo-desafinado-bêbado-nemaípromundo-boteaquiseuadjetivo de Hetfield, mas ao mesmo tempo, prestando mais atenção no instrumental, dá para sentir uma energia única pelo som que a banda apresentava na Califórnia, algo que marcaria a banda e seria o estopim para credenciá-la como grande ícone do thrash metal de todos os tempos.

Playlist do vídeo abaixo:

1. Hit The Lights

2. The Mechanix

3. Phantom Lord

4. Jump In The Fire

5. Motorbreath

6. No Remorse

7. Seek & Destroy

8. Metal Militia

Abaixo, um raro vídeo da banda, ainda com Mustaine e já em 1983, no mesmo The Stone, tocando The Mechanix, com um solo bem diferente do que nos acostumamos a ouvir para ela e depois para The Four Horsemen:

Bêbados, mas cheios de energia e atitude, a banda foi fazendo seu nome.

No próximo capítulo, veremos (finalmente?) como a banda chegaria a seu primeiro álbum de estúdio, o Metal Up Your Ass Kill ‘Em All.

Até lá.

N.R.:

Capa do Metal Massacre americano em CD (1994)

Capa do Metal Massacre americano em CD (1994)

Capa e contra-capa do Metal Massacre americano em CD (1994)

Capa e contra-capa do Metal Massacre americano em CD (1994) – e o preço que paguei no final dos anos 1990 pelo álbum

Metal Massacre americano em CD (1994) aberto

Metal Massacre americano em CD (1994) aberto

Metal Massacre americano em CD (1994) - capa e contra-capa em destaque

Metal Massacre americano em CD (1994) – capa e contra-capa em destaque

Metal Massacre americano em CD (1994) - o encarte com os detalhes das músicas

Metal Massacre americano em CD (1994) – o encarte com os detalhes das músicas

Seguindo o princípio da aviação, não basta um ou dois fatores negativos para um avião cair. Para as bandas, é válido o princípio combinatório, mas ao contrário: é raro que uma banda dê certo apenas com um ou dois fatores. E é exatamente isso que deu especialmente a Lars e James a oportunidade de transformarem algo mais que improvável em realidade.

E agora seguindo o princípio dos investimentos, é muito fácil apostar em algo que já está dando certo – os conservadores fazem isso. Os que arriscam podem cair da cadeira, ou tirarem a sorte grande. Slagel, por mais que tenha feito muita coisa “por amor”, também tinha uma noção boa do risco que estava correndo e teve coragem, persistência e dedicação para fazer aquilo dar certo. Ou você aí simplesmente apostaria seu dinheiro em um bando de moleques bêbados, com o líder sendo de outro continente, sem uma formação estável e sem um repertório definido?

Do lado positivo para Brian, que podemos chamar de “segundo pai” para a banda ter deslanchado e saído de seus limites municipais, ele também sabia que, dos 10 nomes, um pelo menos poderia vingar. Mais que isso, seria lucro absoluto. E ter tido essa sacada de alavancar bandas reconhecendo o potencial mas correndo riscos financeiros e de imagem foi decisivo para o sucesso que ele tem hoje, largamente reconhecido no mercado fonográfico e com cadeira cativa em qualquer evento mundial (o cara é muito fã de hockey e está sempre nos melhores lugares das casas, por exemplo).

Um astuto e rápido Lars que se “apoderou” e fez uma “engenharia social” para convencer seu “amigo” a usar o nome Metal Mania para a revista, deixando o caminho teoricamente livre para se apoderar de um nome como o Metallica, era apenas um dos sinais deste músico não brilhante tecnicamente, mas muito conhecedor de música, com ótimos contatos e muito poder de convencimento. Ainda que sua técnica fosse questionada, Lars tinha o “caminho das pedras” para o som que buscava, foi criativo em suas diversas viradas rápidas e cheias de notas, e teve sorte de ir se conectando com músicos mais capazes que foram entregando o resultado que ele tinha mentalmente. Hetfield ainda mal podia ser comparado a Lloyd, Hugh e especialmente Dave Mustaine, o principal responsável pelos riffs mais marcantes desta fase – aliás, materiais que “durariam” até mesmo o Ride The Lightning, lançado em 1984.

Lars, reconhecendo que Hetfield era quem lhe entendia, só se afastou de seu parceiro quando ocupado com outras coisas. No fundo, ele mantinha o guitarrista sempre por perto. Mas também apostava nele: Hetfield já era um bom músico, mas diferente de Mustaine, não contribuia muito ainda, nem criativamente, nem financeiramente, como Mustaine ou o apoio fundamental do “HQ” que provia McGovney em sua garagem.

A análise de Hit The Lights que saiu na primeira prensagem desta compilação deve ser analisada dentro do contexto geral, não isoladamente. Dada a premissa, entendo que a música que fecha o álbum é a que traz a proposta diferente, e um diferente marcante, não apenas “diferente por diferente”. É aquela “porrada na cara”, uma energia sem comparação. Sim, influências mil já se notam, especialmente daquelas bandas que os garotos já eram fãs tanto na Europa quanto nos EUA. O álbum possui músicas mais focadas para o NWoBHM, ou metal “tradicional”, ou mais calcadas no hard, e particularmente gosto de tudo que está ali (exceção a alguns vocais sofríveis), há um material que realmente devemos agradecer a Brian Slagel a chance de aparecerem. Mas a faixa do MetallicA, extremamente mal gravada, mal mixada, com um vocal de um verdadeiro moleque sem qualquer educação de canto e que navega do medonho ao engraçado, possuía este instrumental que viria a definir um novo estilo dentro do metal.

Neste processo, o MetallicA começou a desenvolver seus materiais base ao que viria a ser seu primeiro álbum de estúdio, e ao vivo, ganhava o público a cada noite com seu som único, mais agressivo, mais inovador, rebelde. Eu só posso aqui imaginar a energia nas “bocas de porco” que a banda se apresentava. Quisera eu ter visto isso.

A banda ainda contava com poucos mas importante aportes financeiros pontualmente sendo dados por as vezes improváveis fontes, como no caso do estúdio visto acima. Amigo, no money, no honey. Até mesmo convencer McGovney a dar USD 600,00, uma quantia muito alta, Lars e James conseguiram, para um anúncio na BAM – Bay Area Music. Ficando mais famosos no underground, a banda foi também criando pouco a pouco uma identidade que seria reconhecida ao longo de toda a carreira: a de ser uma banda poderosíssima ao vivo (os tais “King Of The Road”).

Veríamos uma banda se transformando no final de 1982, com a saída de McGovney, seguida da entrada do baixista do Trauma, Cliff Burton, e a saída de Mustaine em abril de 1983, seguida da entrada de Kirk Hammett, e também a mudança da banda para São Francisco, tendo-se então a formação que se tornaria estável e começaria a levar o MetallicA a patamares inimagináveis a partir do lançamento do primeiro álbum oficial de estúdio deles.

Mas isso é papo para ser iniciado no próximo capítulo…

[ ] ‘ s,

Eduardo.

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CAPÍTULO ANTERIOR: Discografia MetallicA – parte 9: nascimento do Thrash Metal



Categorias:Armored Saint, Artistas, Curiosidades, Discografias, Mötley Crüe, Músicas, MetallicA, Pink Floyd, Quiet Riot, Resenhas, Slayer, Yngwie Malmsteen

13 respostas

  1. E a Ave Fenix resurge das cinzas após um hiato de mais de 3 anos! AVANTE!
    Ainda vou ler o capítulo, mas já é algo a se celebrar!

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  2. De onde veio tanto conhecimento
    Essa semana ouvi a historia de como o Metallica fez com que o Batera e o nosso presidente se conheceram no Mackenzie

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    • Rolf, você aqui falar de “conhecimento” é brincadeira…

      A ideia da discografia é trazer informações que não sejam as mais “óbvias” e que venham de diferentes fontes, confiáveis, e que traga também um pouquinho da minha opinião como fã da banda há alguns certos anos já. E, claro, aprender com todos vocês também. Você que viveu a experiência de ver a tour do …And Justice For All (assim como outros amigos por aqui) vão deixar uma riqueza enorme por aqui, tenho certeza.

      Sobre a história com o Marcus Batera, é realmente algo único… tudo graças a um discman Sony meu com um adesivo do MetallicA. Primeiro dia de aula, trotes à vista, ninguém se conhecia, e vem um cara e senta do meu lado para compartilhar rapidamente o então “novo” S&M e falarmos um pouco da banda. Daí fomos receber os trotes juntos e a amizade deste grande conhecedor de MetallicA / música em geral só começava.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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      • Rapaz, eu não sabia dessa história de como você e o Marcus Batera se conheceram. Me lembrei de como eu, Flavio e Rolf conhecemos o Luciano, “aquele” a quem o Dio chamava pelo nome. Estávamos no ônibus em direção a São Paulo para o Monsters 94 e me aparece o Luciano numa das paradas mostrando o trabalho do Rob Halford, já fora do Judas. Ficou naquele momento famosa a frase: Vamos dar uma força, que eu já nem lembro se era em relação ao próprio Halford ou se era pela vinda do Sabbath com o Tony Martin nos vocais. O papo se seguiu por vários assuntos, não dá mais para afirmar. Mas as histórias até se parecem, veja lá…

        Alexandre

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  3. Muito legal Eduardo você reiniciar a discografia do Metallica!!! Janeiro já começa muito bem por aqui!
    Eu não sou um grande conhecedor da historia do Metallica, tenho apenas os velhos EPs e LPs do grupo ate o Black Álbum, mais recentemente adquiri as versões em CDs dos 5 primeiros trabalhos, pois os 3 primeiros LPs lançados aqui no brasil são de uma qualidade bastante inferior. Do Load em diante apenas o Garage Inc. me animou a ponto de adquiri-lo. Então e’ sempre gratificante ler textos como esse do nosso presidente, acabam mantendo a chama acesa.
    Particularmente, foi muito interessante a parte do Metal Massacre, nunca tive curiosidade de pesquisar sobre o disco, mas hoje me impressionei com todos os detalhes e informações trazidas. As bandas que participaram da coletânea são algumas das quais costumávamos classifica-las como US Metal ainda lá nos anos 80. O Cirith Ungol teve seus dois primeiros LPs lançados no Brasil na primeira metade daquela década e como curiosidade, o tremendo amadorismo da gravadora daqui que conseguiu a “proeza” de lançar os dois discos com as capas trocadas entre si. Me lembro que nos anos 80 o Cirith Ungol ficou conhecido como a pior banda de Metal do mundo. Hoje seus discos são cultuados por aqueles apreciadores de grupos obscuros das décadas passadas.
    Fiquei surpreso com a formação do Steeler, pois apenas Ron Keel participaria do autointitulado disco de estreia no ano seguinte. Como o Eduardo já citou contou com o Malmsteen nas guitarras, mas também podemos destacar o baterista Mark Edwards que também tocou com o Lion, Riot (Thundersteel), na banda do guitarrista japonês Kuni. Ah, o vocalista Ron Keel substituiu ninguém menos que Ian Gillan no Black Sabbath.
    Já o Malice teve duas musicas na coletânea, indo na mesma linha de pensamento adotado pelo Kelsei no Metal for Muthas e o Iron Maiden, será que Metal Massacre foi feito para promover o Malice? Por falar nisso, eles lançaram dois LPs nos anos 80, muito bons por sinal. O guitarrista que gravou foi o Jay Reynolds que depois substituiu o Chris Poland no Megadeth.
    O Ratt o Alexandre e o Flavio podem falar bem melhor do que eu.
    Outra coisa… eu sempre achei que Dave Mustaine já estava na banda e consequentemente havia gravado a faixa no metal massacre. Nada como alguém que conhece a fundo o Metallica para poder esclarecer tudo pra gente. Então Presidente, muito obrigado por mais essa aula e esse ótimo texto, vamos esperar ansiosos pela próxima parte!

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    • J.P., é sempre uma honra, um enorme privilégio, quando você “assume as rédeas” e o “teclado” nos posts. As suas amarrações são uma verdadeira aula, o apelido “Enciclopédia” não poderia ser melhor dado.

      Tenho curiosidade em aprender mais sobre essas US Metal oitentistas. Acho que em geral damos mais foco para a NWoBHM (diria até certo ponto com razão) mas muita coisa dessa fase, e algumas bandas que não foram “para frente”, tem material interessante.

      O Malice era um dos nomes mais falados nesta primeira fase, sem dúvidas, e não conheço nada deles fora o que saiu como música de trabalho. Portanto, sua teoria de promoção faz todo sentido. Hoje é fácil falar, mas na época, Slagel foi muito corajoso até em apostar um pouco no “cara do sotaque estranho”. Eu acredito também na teoria do tipo “lanço aqui 10 nomes e UM DELES tem que dar certo, não é possível”.

      Obrigado, J.P., pelo comentário excelente e nos vemos em brev… alguma hora. Hehehe.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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      • JP, mais uma aula, como sempre. Preciso concordar com o Eduardo e o Rolf. Ler seus comentários acerca de bandas como CIrith Ugol, eu nunca tinha ouvido falar nisso…é impressionante!!!
        Bom, interessante também é que tanto você como o Eduardo acabaram por citar o Ratt e as bandas do US Metal, as quais tem menos presença aqui no blog.
        Eu também não sou um sequer médio conhecedor da cena, mas resolvi recentemente conhecer um pouco mais, diminuir essa lacuna. Ainda não sou dos entusiastas do movimento, e nem sei se é este o melhor local para trocarmos experiências sobre tais bandas, mas me proponho a citar alguns álbuns que venho considerando as ” portas de entrada” para tais conjuntos.
        Em relação ao Ratt, o meu conhecimento da época se resumiu aos video cips e a banda não teve tanta repercussão no Brasil na ocasião, mas vendeu muito bem lá fora. Hoje, após uma rápida pesquisa, eu citaria dois álbuns : o Ep, de 1983. que tem os hits You think You’re Though e Back for More, em versão maior. Essa música é que mais gosto da banda e essa versão é a melhor. Esse Ep também tem essa Tell the World, que está na coletânea do Metal Massacre.
        O outro álbum que indico é o Out of Cellar, primeiro full lenght da banda, de 1984. Além da versão radiofônica de Back for More, tem pelo menos mais uma : Round and Round. A faixa de abertura, Wanted Man, tem bastante apreço por aqueles chegados na farofa. O álbum vendeu 3 milhões de cópias e é o mais bem sucedido comercialmente. Os dois álbuns seguintes vendem bem ( 2 milhões e 1 milhão de copias), mas a partir de 1988 a banda começa a diminuir a popularidade. A faixa Lay it Down do álbum de 1985 ( Invasion of your privacy) também tem bastante reconhecimento no gênero.
        Continuamos esse papo farofístico por aqui, ou a idéia é deixar para o podcast ou outro canal no blog? Para quais bandas devemos estender esse ” rumo de prosa ” ?

        Alexandre

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  4. Outra aula aqui só que agora do Jp

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    • Eduardo, Rolf e Alexandre, na verdade o privilegio e’ todo meu de poder conviver com todos aqui!!! Realmente o diferencial do Minuto HM e’ todo esse conteúdo que encontramos no blog, posso dizer com toda a certeza que muito do que leio no Minuto me da animo extra pra continuar vasculhando este mundo do Rock a procura de sons velhos e novos. Pensando bem… muito mais velhos que novos. Mas em todo caso, agradeço as palavras gentis e agradáveis de todos.
      Eduardo, quanto as “amarrações” que você citou, são apenas coisas que vivi lá nos primórdios e que de alguma forma acabou nos marcando, dai a importância de textos como esse, pois se não o tivesse lido talvez não me recordaria de muitos fatos que escrevi aqui e não tiraria a poeira de velhos vinis que estavam esquecidos no armário, como os do Cirith Ungol por exemplo.
      Em relação ao chamado US Metal, esse e’ um termo que costumávamos usar lá nos anos 80, para classificar aquelas bandas americanas que faziam o chamado Heavy metal tradicional. Quando éramos moleques era essencial que cada grupo fosse rotulado dentro de um estilo: “tal banda e’ speed metal, aquela outra e’ Power Metal, etc…”. Esse termo US Metal, eu costumava ler naquelas antigas revistas que chegavam de vez em quando por aqui e nos zines feitos em “folhas xerocadas” que nem tinham uma periodicidade regular, alguns nem passavam a primeira edição, mas voltando no tempo, como era prazeroso ter-los nas mãos, lia e relia varias vezes.
      Ao contrario da NWOBHM, que tinha características mais especificas, principalmente em relação à data em que os grupos surgiram, além dos mesmos serem bem mais limitados numericamente, a US Metal era mais ampla e com incontáveis bandas, nomes como: Armored Saint, Manilla Road, Omen, Jag Panzer, Wild Dogs, Lizzy Borden, Cities, Warlord, etc, etc. Eram sempre lembrados. Inclusive algum tempo atrás saiu uma serie de CDs em vários volumes intitulados US Metal de um selo chamado American Legend. Cada CD conta com 3 bandas e gravações de discos extremamente obscuros da década de 80.
      O Alexandre, como sempre trazendo em seus comentários brilhantes ainda muito mais informações. Eu tinha certeza absoluta que você seria a pessoa adequada para falar com mais propriedade do Ratt. E mais uma vez concordo contigo, talvez tenhamos mudado um pouco demais o rumo deste post, deixando o Metallica de lado, ou talvez não. Quem sabe fosse mais adequado deixar esse assunto para outra ocasião, já que ele pode render muito… Mas deixo nas mãos do nosso presidente decidir o que pode ser melhor.
      Bom, um abraço a todos.

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  5. Bem, antes tarde que nunca. Demorei a comentar por que queria ler tudo com calma, ver o material todo, os áudios, os vídeos, ” devorar” este retorno de discografia.

    Antes de tudo, o melhor é isso mesmo, o retorno. É quase o ” retorno do Jedi”, se me permitem a comparação bem humorada. Está aqui, certamente, o carro chefe deste blog, já que essa discografia tem o selo presidencial do minuto hm. E aqui ser presidente é diferente de um certo local……deixemos a política de lado…. Mas aqui, Presidente tem muito mérito. Então uma discografia presidencial não tem comparação. Uma beleza esse ” retorno de Jedi”.

    Voltando ao magnifico conteúdo, é só aprendizado isso aqui…. Interessante saber de como surgir o nome, de como Lars era “o” nome do MetallicA neste início, de como Hetfield tinha do próprio Lars o entendimento de seu potencial, mas ao que parece nem ele mesmo também se enxergava na posição que mais tarde seria principal, sem sombras de dúvidas.

    Em relação ao movimento independente, sem dúvida estávamos em outra época, onde o que aconteceria anos depois já fervilhava. Bandas como o Back and Blue , o Steeler (de onde veio Keel e Malmsteen) e principalmente o Ratt despontavam na compilação e seriam gravadas oficialmente pouco tempo depois. De todas essas, o Ratt foi a que mais conseguiu sucesso, mas nada comparável ao MetallicA.

    As versões de Hit the lights são bem diferentes e há uma considerável melhora na segunda versão/prensagem. O som melhora demais, não só em volume mas também em clareza e peso. Mas pra a coletânea, ” vamos dar uma força” é a melhor definição, tá tudo muito embrionário ali. De todas as outras bandas não citadas, somente me vem a lembrança o Malice, que o JP já comentou com toda a propriedade do planeta nos valorosos replys abaixo.

    OUtro fato que eu quase desconhecia é o da importância das outras compilações para continuar fervilhando o movimento, trazendo Slayer , Armored Saint, entre outras.

    Por fim, ver o MetallicA no palco naquele primeiro momento, mas já com o incrível Cliff e um Mustaine tomando os holofotes, Hetfield mal dava conta de cantar, com a voz muito esganiçada que tinha. Impressionante como ele melhorou pra frente.

    E o melhor é que o vai vir pra frente. Que demore um pouco menos, Eduardo, eu peço.
    A enciclopédia MetallicA nos deixa mais um brilhante capítulo. Nós, os leitores, agradecemos.

    Que venha o Kill’Em’All!

    Alexandre.

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  6. Excelente mais esse capítulo da dessecação microscópica do Metallica. Uma verdadeira pesquisa arqueológica colocada para o nosso deleite.
    Não imaginava que 50,00 para o Lars pudesse ser um empecilho para investir a banda. Muita ralação mesmo esse início de carreira. Isso é o que se pode dizer sobre estar na hora certa, com as pessoas certas e aproveitar a oportunidade. E é claro ter a competência para continuar.
    Valeu Eduardo!!!
    De quebra ainda temos o bônus dos comentários desses editores!!

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