Cobertura Minuto HM – Glenn Hughes no RJ – 29/abril/2018 – resenha

Noite de domingo no Rio de Janeiro, cidade que anda muito perigosa em especial à noite, o cenário de um feriado prolongado em local lá não muito aprazível daqui, que é o bairro da Lapa, não prometia lá muita coisa.

O lendário Circo Voador estaria com portões disponíveis desde as 19:00 hs, tendo uma atração de abertura, a banda Seu Roque. Assim, como já estivemos em outros shows na casa e normalmente se ficava mofando tal a demora em relação ao horário programado, resolvemos chegar as 19:30 hs.

000 Seu Rock (3)

A decisão, arriscada, acabou dando certo, pois foi pisar no emblemático Circo para o Seu Roque iniciar seu show. A banda tocou cerca de 30 minutos, alterando canções em português de autoria própria com covers como Break on Through (To The Other Side) (The Doors), Foxy Lady (Hendrix) e Rock ‘n’ Roll (Led Zeppelin) , que teve a participação de um bom vocalista convidado, o próprio produtor da banda. O som dos caras é bem legal, um hard rock com alguns trechos instrumentais fora do óbvio. Todos demonstram bastante segurança em seus instrumentos – o que vimos foi um power trio bastante competente.

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Pouco se passava das 21hs, com o Circo Voador tomado, quando Glenn Hughes subiu ao palco atacando com Stormbringer, a única tocada do homônimo álbum. Alguns ajustes do som, em especial no vocal que estava um pouco baixo, e já em Might Just Take Your Life há uma melhora, ainda com vocal que iria subir de volume mais à frente.

O público fiel lotava o Circo, algo que, confessamos, não esperávamos, e cantou todas as canções a plenos pulmões, fazendo a alegria não só de Hughes como da ótima banda que o acompanhava, que visivelmente já de cara ficaram comovidos com a resposta da galera.

Seguiu-se a faixa menos conhecida da noite, que fez a alegria da galera mais b-side. Sail Away, do álbum Burn, foi pouquíssimas vezes tocada na época clássica do Mark III, mas também foi muito bem acompanhada pelo público carioca entendedor do repertório de Hughes no Purple.

A seguir, o blues balada Mistreated invade o Circo Voador através da introdução da guitarra que já identifica de cara o que viria a seguir. A galera já começa a participar, erguendo os braços junto à marcação inicial da bateria. E aqui não tem erro: é uma versão impecável que traz os falsetes de Hughes, novamente em ótima forma, no final.

A partir daqui, o som já estava bem equilibrado, dando destaque ao vozeirão incrível de Glenn. O que se seguiu foi uma antológica rendição longa metragem de You Fool No One, reproduzindo as versões contidas nos álbuns ao vivo da banda dos anos 1970, o próprio Glenn evocava com a galera a lembrança do California Jam 74. Há, como na original, espaço para todos na banda e ficou até difícil mencionar qual músico que acompanhava Hughes teve melhor perfomance. Desde a intro, com um solo que fez uma justa homenagem ao saudoso Jon Lord, passando pelos perfeitos timbres reproduzidos e também na guitarra clássica Stratocaster preto e branco e culminando em um espetacular solo de bateria, onde toda a técnica de Ian Paice foi revisitada pelo ótimo baterista chileno Fer Escobedo. Aqui abrimos um parênteses para comentar como é incrível a desenvoltura do músico na caixa e no bumbo simples, muita técnica e velocidade combinadas. A performance desta canção realmente nos remete a como a banda se portava em 1974, trazendo uma verdadeira impressão de um time que sabe trazer o verdadeiro e setentista Deep Purple de volta.

Glenn abusava dos incríveis falsetes, é impressionante tentar entender que ele está próximo dos 70 anos de idade. Não temos qualquer receio em comentar que aqui está o vocalista que hoje apresenta a melhor forma vocal entre os clássicos cantores do gênero dos anos 1970 e 1980. Sua perfomance não encontra rival que chegue nem sequer perto. E, além disso, um detalhe que mostra o quanto incrível ele está: percebia-se claramente, visto a agenda de shows, onde esse era o oitavo show no Brasil em doze dias e o penúltimo show da perna sul americana, que Glenn estava rouco. Bastava ouví-lo apresentar alguma canção, músico ou interagindo com o público. Ao cantar, isso ficava praticamente imperceptível, tamanha a técnica aliada a um gogó extraordinário.

A sequência trouxe momentos do Come Taste the Band, único álbum com Tommy Bolin, ao qual Glenn também rendeu suas homenagens. Impossível não se emocionar com versão piano e voz da linda This Time Around, que fez alguns da plateia se renderem até às lágrimas. Getting Tigher foi a única música com troca de guitarras, Soren Andersen acaba pegando outra Strato, Sunburst, severamente danificada na pintura no apoio do braço direito, provavelmente pelo tempo de uso.

E dentro do setlist principal, Hughes ainda resolveu colocar a faixa Smoke on the Water, a mais clássica da banda ainda da fase Mark II. Ao final da canção, um improviso junto ao tecladista, o excelente Jay Boe, e Glenn estraçalha cantando um trecho de Georgia on My Mind (canção escrita por Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell em 1930, mais famosa pela interpretação do cantor Ray Charles).O improviso rende homenagem ao passado, repetindo o que se fazia em 1976, na sua última tour junto ao Purple. A galera entoa Olê, Olê, Olê, Hughes, Hughes e a seguir, não há como não se arrepiar com a continuação da participação do público em Keep on Moving.

O show termina, mas é claro, faltava Burn. Antes dessa, já no bis, Glenn deixa o baixo para seu roadie tocar e canta Highway Star, para a catarse da plateia. Os agudos da versão original estão todos lá, impressionante. O show enfim termina com Burn, tocada com o Baixo Rickembacker 4001 Fireglow eterno que Hughes usava nos primeiros anos junto ao Purple.

A recepção calorosa da plateia faz Glenn prometer uma volta para o próximo ano. Este foi, sem sombra de dúvidas, o melhor show que algum integrante do Deep Purple fez tocando as canções do histórico conjunto e um dos melhores que já presenciamos. Ficamos na torcida para que ele realmente volte e traga mais músicas do Stormbringer, como Holy Man ou Gypsy. Talvez esse seja o único senão de uma noite inesquecível de um autêntico “The Voice of Rock”.

Glenn Hughes Setlist Circo Voador, Rio de Janeiro, Brazil 2018, Classic Deep Purple Live

Saudações,

Alexandre Bside e Flavio Remote.

Revisou: Eduardo.



Categorias:Artistas, Cada show é um show..., Covers / Tributos, Curiosidades, Deep Purple, DIO, Instrumentos, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Músicas, Rainbow, Resenhas, Setlists

5 respostas

  1. AMIGOS!!!!!!
    Muito boa a resenha. Muito boa mesmo. Vocês conseguiram passara a emoção, a análise técnica e toda a vibração de positivivdade que foi o show
    Impressiona a forma com que GH ainda se apresenta
    Todos do metal devem comemorar isso sempre

    Rolf Henrique Neubarth

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  2. Para mim, falta ver os vídeos, mas já quero registrar aqui algumas coisas:

    – A incrível resenha dos gêmeos que, quando tocam em algo, é como os Paul McCartney, vira ouro. A resenha tem a marca da dupla, com detalhes técnicos que só eles podem trazer por aqui, como os detalhes dos instrumentos e os comentários pontuais dos trechos das interpretações. Os posts dos gêmeos são sempre uma aula – aliás, tudo que eles fazem. Eu sinto falta de ter mais deles e tenho uma satisfação enorme em sempre aprender por aqui.

    – um show que perdi e que deixa um gosto amargo por isso, já que, obviamente, além do espetacular vocalista que desafia qualquer um – qualquer um – hoje em dia, trouxe um set que talvez não aconteça mais (aliás, o próprio Deep Purple já mostrou irritação com Hughes saindo com este show – será que é porque ele e banda estão fazendo um trabalho melhor que o próprio Purple?). Cartas à redação…

    – o fator histórico. Esse show é lendário. Podemos não entender tão profundamente assim hoje, apesar de entender que quem está lendo aqui, já entende isso. Celebremos esta resenha como um momento único no legado do Purple sendo reverenciado ao vivo por músicos não clássicos da banda – mesmo Hughes, diga-se de passagem – mas que prestam um tributo e deixam qualquer um com um sorriso enorme, já que o legado do DP fala por si só também…

    – Long Live Glenn Hughes, que pode não ter o “tamanho” de muitos outros, mas que, como dito, está no topo da pirâmide dos (muito poucos) que conseguem chegar a esta idade cantando desta forma (e com o histórico de vida dele, fica ainda mais impressionante a “volta por cima” pessoal).

    Flavio, Alexandre… Alexandre, Flavio… escrevam mais aqui – é meu único pedido, e creio que o de sempre. Vocês são a diferença.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  3. E querem ver algo no mínimo curioso?

    O canal oficial do Deep Purple divulgou (do nada) um vídeo de uma performance da banda em São Paulo (que diz que são dos shows de 1999 no extinto Via Funchal, apesar de provavelmente se tratar, na verdade, do show de 1997, tour do Purpendicular, no igualmente extinto Olympia):

    O “timing” para ressuscitar isso bem agora com Hughes rendendo as melhores críticas por aí é ou não é curioso mesmo?

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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