Momento Daniel de Cinema – Yesterday (2019)

Comédiazinha. Inocente. Senso de humor britânico saudosista. Relativamente previsível. Romance adolescente, puro e verdadeiro de fundo. Mas quando o assunto é Beatles, nada é ruim. Nada. E isso que escrevi pouco significa, na verdade. Continue lendo abaixo para entender…

Feliz 2020, galera. Aproveitando um pouco desses dias em que até dá para assistir TV um pouco (e também a grata surpresa de ver o filme no Now da NET de maneira gratuita no momento – uma dica para quem ainda não o assistiu), finalmente pude assistir o filme Yesterday (2019).

Desde o começo, pensei: “o que Paul, Ringo e as viúvas de George e Lennon pensam sobre um filme assim?”. E a resposta está aqui para quem quiser. Mas para dar certo, o filme teve que pagar 10 milhões de doletas pelo direto em usar as músicas, investimento esse que já se pagou e repagou algumas vezes.

A partir daqui, só leia caso já tenha assistido ao filme ou não ligue em ler comentários antes de vê-lo.

Dirigido por Danny Boyle e escrito por Richard Curtis, a película traz algo curioso: como seria pensar em um mundo onde ninguém, mas apenas uma pessoa, e justo um músico sem sucesso, se lembra dos Beatles? Jack Malik (Himesh Patel), o protagonista, trabalhava em um armazém em Lowestoft, ou seja, como os Beatles mesmo, fora do mainstream e estava prestes a desistir da carreira musical já que não tinha qualquer prestígio, nem mesmo dos amigos e familiares (apenas de sua “agente”, que desde o começo do filme, já fica claro que era por amor, e um outro amigo, aquele “bêbado”, mas que acabará tendo um papel muito importante de parceria depois) quando um apagão mundial acontece e ele, andando de bicicleta no momento, é atropelado por um ônibus. Esses 12 segundos de apagão “apagam” da história algumas coisas, entre eles, a existência da maior banda de todos os tempos.

No acidente, Jack perde 2 dentes frontais e vai parar no hospital, machucado. Ainda no hospital, ele brinca com sua agente cantando um trecho e perguntando se ela ainda estaria lá “When I’m 64”. Ela não entende a brincadeira e assim o filme começa a se desenvolver. Quando sai de lá, seus amigos lhe presenteiam com um violão para substituir o antigo, danificado no acidente. Com o novo instrumento em mãos, ele diz que merece até tocar algo clássico, de qualidade, e toca Yesterday, música que ninguém reconhece, mas acham linda. Ele vai para a casa, busca no Google, em seus vinis, e nada. Faz também uma busca Rolling Stones e encontra a banda. Faz outra por “Oasis” e “Oasis Wonderwall”, e não encontra nada. Sei que todos aqui já entenderam a piada. Uma segunda sobre Oasis aparece mais para frente no filme, quando, em uma “Batalha de Bandas” infantil, uma das bandas toca Wonderwall.

O filme vai se desenvolvendo de maneira esperada. Mesmo em conflito interno e na temática da “índole x fama x seu amor local”, ele decide seguir em frente lembrando das músicas, letras, e apresentando-as ao mundo como de sua autoria. Aparece uma nova agente “profissional” que o leva Los Angeles e o mercado americano. Além disso, durante o filme, há de se comentar outros momentos engraçados de outras coisas que sumiram também do mundo, como Coca-Cola (Google mostra o Pablo Escobar para a busca), cigarro e, mais para o final do filme, outro ícone moderno britânico – Harry Potter.

Ed Sheeran, o música, tem um papel fundamental no filme, aparecendo e até mesmo convidando-o para abrir shows para ele. Em paralelo, há músicas nas quais ele não consegue se recordar da letra ao certo, como Eleanor Rigby e Penny Lane, que faz ele fazer uma viagem para uma “Liverpool alternativa”, já que, sem os Beatles, vários dos cenários temáticos estavam, digamos, diferentes.

Obviamente, o filme é recheado de referências à carreira dos Beatles – algumas diretas, e outras indiretas, como algumas fotos do Jack em poses clássicas dos Beatles, pesadelos de que alguém iria descobrir que as músicas não eram dele, conversas durante o filme de trechos de músicas ou situações que os Beatles passaram, dentro da Beatlemania, principalmente, mas de todas as fases da banda. Há duas pessoas, um homem e uma mulher, que parecem serem os únicos que se lembram também dos Beatles. Isso tem um papel legal na expectativa do filme.

Além das referências Beatles, há ainda referências das mídias britânicas e especialmente americana modernas, além de, claro da internet / redes sociais (em um hipotético cenário maluco de pensar a explosão dos Beatles no mundo atual, praticamente 60 anos depois). E há também algumas provocações interessantes de como a pressão de hoje em dia pudesse comprometer o fenômeno Beatles – entre elas, Ed Sheeran e todos os “especialistas” concordando que seria melhor a música Hey Jude ser “Hey Dude”, ou sobre as artes das capas – “The White Album” sendo muito branco / preconceituoso, ou a capa de Abbey Road, que não dizia “nada”…

Há uma competição também legal no backstage proposta por Ed Sheeran: em 10 minutos, escrever algo do “zero” e apresentar a quem ali estava para votação. Ed capricha e volta com uma música de boa letra, bonita. Jack volta com The Long And Winding Road…

O lendário show no rooftop também é retratado, mas em um hotel que encerrou suas atividades antes de que ele pudesse se apresentar lá, “antes da fama”. Ele toca “Help!” e a letra encaixa perfeitamente em seu momento pessoal, especialmente com relação à sua vida amorosa.

O clímax do filme (pelo menos, para mim) vem justo dos 2 personagens citados acima. Em um encontro, eles lhe entregam um papel com um endereço. Ao chegar no endereço remoto, em uma casa de frente a praia, simples, quem atende a porta é John, com 78 anos, que lhe fala talvez o que todos nós muitas vezes precisamos lembrar também: que a vida é simples, e que devemos sempre amar – e dizer – a todo momento isso. Ele então faz uma canja em um show de Ed Sheeran em Wembley, onde finalmente conta a verdade e reconquista seu amor.

E assim, vem agora minha opinião do filme: é nostálgico, é bonito, é inocente, é Beatles basicamente naquela primeira fase de senso de humor simples e do amor. Muitas piadinhas são infames – e não eram assim as dos Beatles? Porém, há bons momentos de risadas, com as referências também, e aquela coisa mais “melada” de filme romântico também está presente, para quem gosta, além de algumas boas sacadas e um pouco de provocação e “cutucadas” na forma como vivemos hoje.

Mas o mais importante do filme é a mensagem. E a mensagem é muito boa: não importa como sua vida avance, nunca se esqueça das suas origens e raízes. Também não seja quem você não é e nunca deixe para trás as pessoas que sempre estiveram verdadeiramente com você.

Vá tranquilo vê-lo. Tem diversão e tem clássicos dos Beatles. Afinal – e isso é grifo meu – ninguém aqui mereceria estar em um mundo sem Beatles.

[ ] ‘ s,

Eduardo.



Categorias:Artistas, Curiosidades, Músicas, Resenhas, Rolling Stones, The Beatles, Trilhas Sonoras

9 respostas

  1. Vi no Manhantan Connection como foi para o diretor a solicitação de autorização de uso das músicas sem que isso inviabilizasse a produção. Foram anos de cartas – isso mesmo – com Yoko para que isso fosse autorizado. Depois Paul e o Pedro Andrade trouxe com riqueza de detalhes esse processo. Não vi o filme mas espero que o resultado tenha sido positivo.

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    • Rolf, valeu o ponto das cartas adicionado. Não tinha visto isso, somente a questão financeira que achei.

      O filme não tem sua cara, acho eu, mas assista se tiver NET lá no NOW e volte por aqui sim…

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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      • Está na minha lista com prioridades
        Eu e Ana Lúcia vimos o trailer várias vezes. O problema é que outros filmes mais interessante tá no meu gosto tomaram a dianteira na prioridade da lista como AD Astra e Hostis
        Essa semana no cinema tem novidade mas em breve ele entra na fila fácil

        Sobre a questão financeira, senão fosse pela proximidade do autor com o que podemos chamar de círculo Beatles, seria inviável fazer o filme pelo investimento em direito autoral. Impossível sem esses contatos

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  2. Não pude ler o post, pois ainda não vi o filme. Tenho muita vontade de vê-lo e assim que reparar essa lacuna volto por aqui pra comentar…

    Alexandre

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  3. Acabo de ver o filme e a mensagem que mais me marcou é sim a da memória das raízes, lugares, costumes, frases,livros ,roupas entre outras coisas, mas especialmente música.
    O filme torna-se uma fantasia romântica, não amarra algumas pontas , por que não tem a intenção de amarrar mesmo, mas……….

    ” And in the end
    The love you take
    Is equal to the love you make ”

    Eu aprovei e devo ver mais uma ou mais vezes para prestar mais atenção às referências que escaparam… elas estão lá , de certo

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  4. Vi o filme esse final de semana! Fiquei sem ler esse post por meses só para não ganhar nenhum spoiler.

    Tinha visto o Trailer em Nova Iorque, antes do filme chegar ao Brasil e desde àquela época eu já queria ver o filme. Muito mais pelas referências do que qualquer outra coisa.

    Naquela casinha da praia, eu pensei que ele ia encontrar o Paul, mas quando o John Lennon abre a porta me deu um aperto no coração. Eu me senti o cara falando “Me deixa te dar um abraço! Voce chegou aos 78 anos!”. E eu fiquei me questinando se valeria a pena ele estar vivo e o mundo ficar sem a música dos Beatles – mas aí não o conheceríamos, nem o que ele compôs. Acho que, no final, é como os outros dois personagens secundários que se lembram dos Beatles falam ao ator principal: “obrigado por tentar trazê-los de volta”.

    Esse mesmo final de semana eu coloquei o Anthology 1 para tocar aqui em casa … em 7 anos que a minha nasceu eu nunca tinha colocado Beatles em volume alto. Ela veio me perguntar “pai, o que é isso tocando? Isso é rock’n’roll?”. Eu falei “sim, é um rock mais antigo, da época do vovô”. Ela me respondeu “isso é muito mais legal que o rock’n’roll que você ouve” (uma referência às barulheiras que tocam aqui em casa). Ela ouviu o Anthology inteiro comigo.

    É …o mundo precisa de Beatles.

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