Discografia HM – um longo caminho até descobrir o Strawbs

Inspirado na conversa que tivemos sobre o Yes no último podcast e em um antigo post do Minuto HM, “Bruce Springsteen e 25 anos de The Ghost Of Tom Joad”, como no texto muito bem escrito pelo Kelsei, me lembrei de uma história pessoal que começou há muito tempo, então tive uma ideia meio absurda e resolvi relatá-la mais ou menos por aqui.

Bom, para começar, se você que está lendo essas linhas não gosta de relatos saudosistas e pessoais, aconselho a mudar de post imediatamente, ah… mas se por acaso você não tem paciência para grupos de rock progressivo dos anos 1970 e dormiu ouvindo o Selling England By The Pound do Genesis, também aconselho a parar de ler neste mesmo instante pois é isso que irá encontrar aqui. Porém, se você tem “saco” para ouvir um relato pessoal e ainda conhecer um desses grupos setentistas meio obscuros e esquecidos, talvez seja interessante continuar até o final.

Voltando lá no longínquo ano de 1982, eu, um moleque magricelo, em alguma loja de discos que infelizmente não me lembro mais e que com toda a certeza já não existe, depois de muito tempo sem saber o que escolher, pois não tinha noção alguma do que comprar, decido por uma fita K7 intitulada “A Collection of Great Dance Songs”, de uma banda chamada Pink Floyd. Essa atitude meio impensada, ou pensada até demais, acabou sendo o ingresso sem volta ao mundo do Rock. Porém, para não me alongar muito e dando um pulo no tempo, me lembro que em 1985 estava na casa de um grande amigo ouvindo o “Real to Reel”, primeiro Live do Marillion e até então, o único disco que conhecia da banda. Para os mais novos que estão lendo, sei que hoje parece estranho, mas na época, discos eram uma forma de comunhão entre nós apreciadores de música e consequentemente costumávamos nos reunir na casa um dos outros para que pudéssemos apreciar os poucos LPs que possuímos. Então, voltando ao assunto, depois de vários minutos de audição começava a bela “Cinderella Search”, terceira música do lado A, quando o irmão desse amigo aparece, ele bem mais velho que nós dois, tinha saído da pequena cidade do interior onde morávamos para cursar faculdade no RJ e acabava de voltar recém formado, e do nada ele pergunta:

– “O que é isso que está tocando?”

E sem tempo para que pudéssemos responder alguma coisa, ele emenda – “isso parece Genesis! Sabia que eu fui ao show da banda em 1977? No primeiro dia, eu entrei para assistir e no segundo ficamos, eu e uns amigos, do lado de fora apenas ouvindo…”.

Então expliquei para ele que aquilo era Marillion, sem ter a mínima ideia do que era Genesis e se aquilo que estávamos ouvindo sofreu alguma influência de tal banda, além disso, para falar bem a verdade, na época essa informação tão pouco nos importava. Conversamos sobre música durante algum tempo enquanto o disco rodava na pick-up até começar Garden Part, penúltima música do referido LP, aí ele não se conteve: – “Oh bicho, grava isso pra mim! Gostei desse disco!”.

Promessa feita, depois de algum tempo gravei o referido disco em uma fita K7 e a entreguei. Em contrapartida, ele me apresentou a um maravilhoso mundo de grupos de progressivo da década de 1970 que jamais poderia imaginar que existissem, pensando bem, acho que se não fosse por ele, talvez eu jamais teria a chance de conhecer bandas fantásticas do gênero como: Nektar, Gentle Giant, Bull Angus, Premiata Forneria Marconi, Le Orme e tantos outros que até hoje fazem parte da minha vida.

 

 

Strawbs nos anos 1970

Me lembro que em 1986 ele me deu uma fita K7, talvez até tenha me dito o que tinha gravado naquela época, mas o fato é que “passou batido”, escutei uma vez e para aquele moleque que estava viciado em Dio, Iron Maiden, Accept, Judas Priest, etc, não dei a mínima atenção. Porém, como boa parte da garotada do início da adolescência nos anos 1980, não se apartava de um aparelhinho que atendia pelo nome de walkman, nem mesmo para dormir, recordo-me que sempre escolhia um som mais calmo nessas horas, Marillion, Pink Floyd e Yes eram sempre eleitos, até que um dia resolvi colocar novamente aquela fita meio “encostada” pra ouvir até que o sono chegasse. E, de repente, perdi o sono, como por mágica tudo mudou, aquilo era bom demais e acabou virando a minha trilha sonora para momentos mais calmos por muitos e muitos anos.
Entretanto, o maior problema é que não tinha a mínima ideia do que tocava, já que na fita não havia informação nenhuma. Me lembro de ter perguntado para esse amigo uma vez sobre isso, mas não sei por qual o motivo, continuei sem saber o que estava gravado ali.
O tempo foi passando e perdemos contato, mas essa dúvida ainda martelava na minha cabeça… até que em 2011, 26 anos depois, o encontrei por acaso em um supermercado. Depois daquelas conversas de praxe, trabalho, família, vida, etc, enquanto ele falava, só uma coisa passava pela minha mente, dessa vez eu não poderia perder a oportunidade, tinha que saber que disco era aquele que ele tinha me gravado na “bendita” K7 que possuo até hoje. Na primeira oportunidade perguntei:

– “Lembra daquela fita que você me gravou?”

– “Cara, não lembro… foram tantas” – disse ele.

– “Hum, é uma que tem uma música meio acústica que deve se chamar Midnight Sun, pois é com essa frase que termina o refrão”.

– “Não lembro”.

Confirma mais uma vez para o meu desânimo.

– “No meio da música tem um solo de violão bonito pra caramba. Continuei insistindo”.

– “Puxa, faz tanto tempo… não dá pra lembrar”.

Então, eu não poderia passar a oportunidade, todo esse tempo depois… aí pensei “vai ser f*da, mas vou ter que fazer”. No meio do mercado resolvi “cantar” a melodia do tal solo. Ele sorriu e disse – “canta de novo que não estou me lembrando”.

Afinal de contas, eu era amigo de infância do irmão caçula dele… mesmo que os cabelos brancos comecem a aparecer na minha cabeça, eu sempre serei para ele aquele moleque cabeludo que gostava de Rock.

Notei que ele já sabia qual era a banda, mas estava me sacaneando, me fazendo cantar no meio do corredor do mercado. Porém, eu queria muito saber o que estava gravado naquele K7, pensei: “vou ter que cantar, não vai ter jeito” e cantei.

Sorrindo ele disse – “Ah, é o Strauss!”.

– “Como?” – Perguntei.

Ele vira para a mulher dele que estava junto (tinha mais essa ainda) e repete – “Strauss, é aquele disco do Strauss”.

Bom, continuei em dúvida, mas estava com vergonha demais para perguntar novamente e pensei: “Se tem um guitarrista que se chama Paganini e um vocalista que atende por Sebastian Bach e ainda jura que esse é seu nome de batismo, porque não teríamos um grupo batizado de Strauss…?”.

Cheguei em casa e fui diretamente perguntar ao Sr. Google. Entretanto, o tal Google só me respondia “Johann Strauss I ou II” ou “Eduard Strauss” ou “compositor austríaco”, etc.

Já estava me dando por vencido, quando resolvi buscar por “Strauss Midnight Sun”. Aí, me aparece uma banda chamada “Strawbs” e um disco com o sugestivo nome: “Hero and Heroine”.

Vamos ao Youtube e descobrimos que era exatamente aquilo que procurávamos durante todos esses longos anos! Quanta felicidade invadiu minha alma naquele momento, finalmente! Finalmente!

Para quem quiser ouvir um pouco do disco enquanto termina a leitura, segue abaixo:

Mas tínhamos que parar por ali. Aquilo era precioso demais para ser ouvido daquela forma tão banal e fria, me desculpe os fiéis usuários de streaming, mas tínhamos que ter a mídia física em mãos. Então, voltamos à internet e em um site de anúncios encontro um “combo” com quatro CDs da banda por um preço até razoável, imediatamente faço o pedido já ansioso por tê-los em minhas mãos.

Começo a pesquisar paralelamente sobre a banda e descubro algumas coisas bem interessantes que transcrevo aqui resumidamente:

Grupo inglês de Folk Rock Progressivo, formado em 1964 por amigos que estudavam no St Mary’s Teacher Training College em Strawberry Hill, distrito de Londres. Inicialmente atendiam simplesmente pelo nome de the Strawberry Hill Boys e durante toda a sua longa carreira sempre teve como figura central o vocalista/guitarrista/tecladista Dave Cousins.

Até que, em 1967, os músicos resolvem abreviar o nome da banda para The Strawbs, afinal o original era muito grande, inviabilizando expô-lo no palco durante as apresentações.

O primeiro álbum, intitulado simplesmente Strawbs, pois a banda resolve cortar também o “The” de seu nome, seria lançado apenas em 1969, até então só tinham como referência apenas alguns compactos de 7”. Um ano depois para a gravação do próximo disco (Dragonfly), há o reforço de um novo membro, um jovem talentoso e desconhecido tecladista chamado Rick Wakeman.

Strawbs com Rick Wakeman


Wakeman grava mais um trabalho com banda (From The Witchwood) em 1971 e recebe um convite irrecusável para substituir Tony Kaye na já conhecida banda Yes e não pensa duas vezes, abandonando o Strawbs. Porém, foi só com a entrada do guitarrista Dave Lambert em 1972, no disco Bursting at the Seams, que o grupo finalmente conhece o sucesso, alcançando o segundo lugar nas paradas britânicas, impulsionado pelo single Lay Down. Aproveitando a ocasião e o reconhecimento repentino, o Strawbs então sai em turnê abrindo para vários grupos, entre eles Supertamp e Bee Gees.

Até que, em novembro de 1973, já tendo um nome bastante conceituado no cenário musical, a banda viaja para Copenhagen para agravação do que seria seu disco clássico, Hero and Heroine. Com mais uma mudança na formação, pois o tecladista John Hawken, que tinha saído do Renaissance para ocupar o posto do substituto de Wakeman, Blue Weaver havia sido recrutado pelo Bee Gees após a turnê, ingressa na banda e se torna parte importantíssima no processo criativo do Strawbs.

O resultado imediato decepciona um pouco, inicialmente houve pouca receptividade no Reino Unido alcançando apenas a trigésima quinta posição nas paradas, porém em contrapartida o disco estoura nos Estados Unidos e Japão, se mantendo nas paradas americanas por mais de 4 meses, fazendo com que a banda pensasse muito mais nestes novos mercados do que em sua própria terra natal.

Hero and Heroine foi lançado em abril de 1974 pelo selo A&M Records, produzido por Dave Cousins e Tom Allom, que já estava trabalhando como engenheiro de som da banda desde o álbum anterior, além disso tinha como experiência os três primeiros discos do Black Sabbath e posteriormente, já como produtor trabalharia com Judas Priest e Def Leppard, só para citar os mais famosos.

A ilustração da capa traz uma foto até meio piegas, mas penso que para a época funcionava bem. O disco começa com a emocionante Autumn, música de 8:27 minutos que é dividida em 3 atos: Heroine’s Theme, Deep Summer’s Sleep e The Winter Long, acredito que seja o maior clássico composto pelo grupo, com melodias marcantes, emocionantes e instrumental literalmente progressivo onde a música tem no início com uma atmosfera melancólica e vai encorpando e ganhando uma certa intensidade até o final bastante comovente. Emendando a faixa seguinte temos Sad Young Man, que é uma espécie de continuação da anterior. Já Just Love é uma faixa mais rocker, com guitarras simples e um baixo marcante que distancia das músicas anteriores e pode até remeter a um Hard Rock bem setentista, desembocando em Shine On Silver Sun, que nos traz de volta mais uma vez ao Folk Rock característico do grupo, com um refrão bem melódico, típico da época.

A próxima, a faixa título, também mantem a mesma linha com alguma influência de Jethro Tull nos arranjos até que então finalmente chega a tal Midnight Sun, acústica, singela e com uma melodia vocal absolutamente linda, ah, aquele solo inesquecível de violão estava lá no meio da forma que imaginava. A canção seguinte mantém o mesmo estilo e a harmônica do início, os violões, as melodias dissonantes entregam uma forte influência de Bob Dylan, além disso os arranjos de piano deixam a música ainda mais bela. Round and Round, segundo o próprio guitarrista Dave Lambert, foi inspirada no The Who e tem um bom trabalho de baixo/bateria, além de uma ótima melodia. A seguinte, Lay a Little Light On Me, nos remete novamente ao início do disco, com uma pegada mais progressiva e seu refrão lembra um pouco o Pink Floyd do começo da carreira, porém sem a psicodelia característica do início. O disco termina com Hero’s Theme, um pequeno epílogo que inicia acústica e melodicamente ainda lembra bastante o grupo de Walters e Gilmour.

O CD ainda tem como bônus mais duas músicas, mas como sei que aqui temos alguns leitores mais puristas, vamos parando essa resenha por aqui, naquilo que seria o final do lançamento original em vinil. Porém, como sempre tem um “porém”, descubro que em 2011 o Strawbs resolve cometer uma heresia e ressuscita o seu disco mais clássico regravando-o na totalidade, nota por nota, mas dessa vez intitulado “Hero & Heroine In Ascencia”.

Como louco, saio atrás desse CD e depois de uma “loooonga” demora chega a minha casa um pequeno pacote com o dito-cujo CD, porém (como sempre tem um “porém”), para não alongar muito mais este texto, deixo para comentá-lo em outra oportunidade, quem sabe em uma segunda parte.

E, para terminar, espero que este post, além de ser uma experiência pessoal, sirva para que outras pessoas que apreciam o rock progressivo dos anos 70 conheçam a grandiosa obra deste grupo inglês que deixou sua marca na música mundial.



Categorias:Accept, Artistas, Blaze Bayley, Curiosidades, Def Leppard, DIO, Discografias, Iron Maiden, Judas Priest, Marillion, Músicas, Pink Floyd, Resenhas, Yes

4 respostas

  1. JP, muito obrigado por trazer este post aqui. Que relato! Que legal mesmo! Já você ter anunciado como um “Selling England”, parte 2, hum… “I’m afraid”!! Hahahaha…

    Além de tudo, para variar, mais uma aula por aqui, desta vez por uma banda que foi pivot de outras talvez mais conhecidas pelo grande público mas que, como tantos outros grupos que felizmente aqui no blog vão sendo literalmente “resgatados”, acabam por ficar quase em um anonimato – ou, no seu caso, em uma dúvida de décadas!! Que loucura!! E que memória a sua, tenho que invejar isso.

    Agora… não sei o quanto isso possa estragar – ou te ajudar em casos ainda não resolvidos, ou no futuro – mas há alguns anos, existem aplicativos (e alguns sites) para “descoberta” de músicas. O mais famoso hoje em dia é o Shazam, outro famoso é o SoundHound. Dei o play em um vídeo do YouTube acima e o Shazam identificou a música, álbum e artista em menos de 1 segundo (de verdade). Mas, por outro lado, QUE BOM que isso não influenciou, pois poderíamos ficar sem esse maravilhoso registro.

    Foi um prazer ler este texto em primeira mão, agradeço mesmo! Assim como no post anterior do Robbo, aguardando ansiosamente pela segunda parte. Muito obrigado!

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  2. Bem JP, eu anotei o nome da banda para ouvir o álbum que você mencionou no podcast, então agora com esse post, eu estou com a faca e o queijo na mão.

    Volto aqui quando comer.

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  3. Anota mais um aí com a dívida de trazer alguma impressão. O post é delicioso de ler, a parte inicial contando suas desventuras com o tal amigo mais velho é muito legal mesmo.
    Quero ouvir esse Hero and Heroine, pois nunca dormi ouvindo o Selling England by the Pound.
    E adoro tudo do Marillion na fase Fish.
    A expectativa cresceu bastante depois do brilhante texto.

    Volto aqui, como o Kelsei, depois de ” alimentado ” …

    Alexandre

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  4. Bem, achei o disco agradável, com um pézinho no rock britânico mais melodioso das décadas de 60 e 70. Há, evidentemente, a veia progressiva em especial no uso de teclados, mas entendia inicialmente que seria um progressivo de raiz e não é. Isso não é um demérito, mas fica claro o motivo de Wakeman não permanecer na banda. A banda acaba transitando entre esse som mais melodioso, o progressivo em fase inicial ( sem elementos intricados das super bandas como o Yes e o Genesis) e o folk que é mais a praia do Jethro Tull, entre outros.
    O vocal também lembra bastante o Jethro Tull e é mais um elemento que contribui com a relação de semelhança já citada pelo JP. Às vezes me lembra também o Greg Lake, que aliás gosto bem mais do que o Ian Anderson , do JT.
    EU confesso ter gostado bem mais do post que do álbum, mas a audição é agradável, embora não tenha trazido mais pretensões acerca do grupo. Músicas como Shine on Silver Sun estão no rol daquela fase mais hippie do inicio dos anos 79, forte influencia do folk.
    O que mais me agradou foram os teclados , em especial o melotron e o moog de Round and Round. A faixa final alias, já do meio da penultima faixa pra frente) tem uma cara de I want you ( she’s so heavy) , dos Beatles, aliás, quem não foi influenciado por eles, não ?
    Acabei curtindo mais a primeira música mesmo, mais trabalhada, mas o álbum passou muito tranquilamente, valeu a dica, JP.

    Alexandre

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