
O segundo e bem provável último capítulo do Apêndice A da discografia KISS, aquela que é dedicada ao dono da bola Paul Stanley, dá as caras por aqui hoje para provavelmente encerrar mais uma jornada artística de um dos integrantes da banda, em projetos paralelos. Paul Stanley é o símbolo maior de dedicação extrema ao KISS, portanto seus voos em paralelos são bem raros, a começar pelo seu álbum de 1978, aquele entre os quatro que mais tinha a cara artística do KISS. Se há alguém que pode trazer as maiores características do que foi o KISS musicalmente, esse alguém sempre foi o homem da estrela no rosto. Além do álbum de 1978, Paul fez muito pouca coisa fora do KISS. Fez, basicamente, uma tour solo na entressafra de álbuns do KISS no fim dos anos 80, participou do musical “Phantom of the Opera” na virada do século, lançou e excursionou com o seu maior projeto solo, o “Live To Win”, no início dos anos 2000 e dedicou-se ao material que compõe este capítulo, um mergulho na soul music.
A ideia de se enveredar por um caminho de estilo bem diferente do hard com a marca KISS que Stanley tanto mostrava surgiu durante a primeira metade dos anos 2010 e no segundo semestre de 2015, Paul conseguiu juntar um grande time para apoiá-lo em sua investida na soul music, gênero que então descobrimos ser algo de grande predileção do eterno ‘starchild’.
Em setembro, Stanley apareceu no Roxy Theater na Califórnia, acompanhado de uma senhora banda, com naipe de metais, um quarteto de backing vocals, um certo senhor chamado Eric Singer na bateria e o brazuca Rafael Moreira, já conhecido de Paul desde a tour do “One Live KISS”, nas guitarras, e tudo isso para dar vazão ao seu projeto voltado ao som soul dos anos 60 e 70. O único show, em novembro daquele ano, foi gravado para ser lançado em cd e dvd, contendo um repertório apenas de faixas covers.
A fagulha inicial deu certo, e Paul, bastante satisfeito, emenda poucos outros shows no início de 2016. O cd/dvd acaba não saindo e Stanley, às voltas com os encerramentos de atividades do KISS, emendando a “KISS WORLD tour” em 2017 com a “End of the Road Tour”, a partir de 2019 e se vendo às voltas com as restrições do período de lockdown pelo COVID-19, vai adiando o projeto.

Ele chegou a gravar e editar um vídeo sob a alcunha de “Stationed at Home”, em um dos momentos do lockdown, mantendo viva a chama da sua incursão pela soul music. Em 2018, com uma redução significativa dos shows do KISS, Stanley continuou dando forma ao projeto, já pensando em faixas inéditas e mantendo a banda de apoio, tendo feito alguns poucos shows no Japão e nos EUA, mas ainda com apenas as faixas covers no repertório.
Foi apenas em 2021, porém, que o projeto chegou enfim ao seu formato definitivo, com o lançamento de “Now And Then”, no início de março. A banda que apoiou Paul, o chamado Soul Station, tinha em sua formação: nos teclados, Ely Rise e Alex Alessandroni , esse também o arranjador do álbum; Rafael “Hoffa” Moreira, o brasileiro das guitarras; no baixo, Sean Hurley; na percussão, Ray Yslas. Na bateria, o parceiro de KISS, Eric Singer. Nos backings, Gavyn Rhone, Crystal Starr e Laurhan Beato, além do naipe de metais, que traria Jon Papenbrook no trumpete e Ben Burget, Ed Wynne e Mike Nelson nos saxofones e um trio de violinistas: Kathleen Sloan, Natalie Leggett e Songa Lee.
ÁLBUM: NOW AND THEN – 2021

1 – Could It Be I’m Falling In Love -4:02
2 – I Do – 3:12
3 – I, Oh I – 3:18
4 – Ooo Baby Baby -3:07
5 – O-O-H Child – 3:43
6 – Save Me (From You)- 3:32
7- Just My Imagination (Running Away With Me) – 3:56
8 – Whenever You’re Ready (I’m Here) – 3:05
9 – The Tracks Of My Tears – 3:03
10 – Let’s Stay Together – 3:48
11 – La-La – Means I Love You – 4:00
12 – Lorelei – 3:09
13- You Are Everything – 3:47
14 – Baby I Need Your Loving – 3:05
Lançamento: 05/03/2021
Produzido por: Greg Collins
Dois singles foram veiculados no álbum: “I, Oh I” e “O-O-H Child”, ambas lançadas também em videoclipes, que podem ser vistos abaixo:
O lançamento também foi bastante divulgado através de um making-off que circulou na internet:
E o que eu posso atestar desta que é talvez a maior guinada no que Paul entregou em todos esses anos como vocalista? Antes de tudo é surpreendente ver e ouvir Stanley às voltas com um gênero tão diferente do hard rock do KISS, algo que só aconteceu antes com o starchild quando ele resolveu fazer algumas apresentações no musical “Phantom of the Opera”, em 1999 . Fora isso, o que víamos era uma dedicação quase exclusiva ao som mais próximo do KISS. Eu, confesso, sou um pouco suspeito para traçar minhas linhas sobre algo relacionado à soul music, já que aprecio o gênero desde minha infância, embora com muito menos devoção do que eu dedico ao hard e metal, mas não é que Paul, opiniões pessoais à parte, se deu muito bem na proposta? Antes de tudo, vamos reforçar: Paul sempre foi um cara muito inteligente, apostou em sua afinação, juntou uma banda espetacular, de extrema competência, buscou um arranjador impecável e entregou um álbum muito bem produzido.
O álbum traz, entre as 14 faixas, 5 canções que foram compostas por Stanley. As demais 9 faixas são covers, a começar por “Could It Be I’m Falling in Love”, gravada em 1973 pelo quinteto vocal The Spinners”. Na sequência, Paul entrega duas canções originais, “I Do” e “I, Oh, I”, que é um dos singles do álbum. Ambas as canções não comprometem em nada a qualidade do material, apenas se diferem pelo fato de “I Do” ser uma balada, enquanto “I, Oh, I” tem um ritmo mais alegre e contagiante, ideal para uma música de trabalho. O hit single do quinteto The Miracles “Ooo, ooo, baby”, canção de Smokey Robinson de 1965 nos traz de volta para um ritmo mais lento, com Paul caprichando nos falsetes. Fica clara que a ideia de gravar canções da soul music também tem relação direta com a fragilidade já evidente da voz de Stanley. Ao optar pelos falsetes, Paul não precisa trazer a força aplicada nos agudos dos álbuns e turnês junto ao KISS. E afinação nunca foi um problema para ele, ainda que consigamos aqui e ali perceber algum uso deautotune durante o desenrolar do álbum.O segundo single do álbum que vem em seguida, o cover “O-o-h Child”, é justamente um exemplo deste uso de autotune, nos tons menos agudos, durante as estrofes. A canção, de 1970, é outra que originalmente foi gravada por um quinteto vocal, “The Five Stairsteps”.
“Save Me”, outra faixa inédita de Stanley, lembra no refrão o sucesso estrondoso “Crazy”, gravada por Seal, em 1990, traz um arranjo caprichado de cordas e backing-vocals, antecede o clássico absoluto “Just My Imagination (Running Away With Me)”, de mais um quinteto, The Temptations, outra faixa do início dos anos 1970. “Whenever You’re Ready (I’m Here)” é a penúltima faixa inédita, traz vocais divididos por Paul e Crystal Starr. Dali pra frente, Stanley finca o pé com força em clássicos bem conhecidos do gênero, como outra canção de Smokey Robinson and the Miracles, “Tracks of My Tears”, “Baby I Need Your Loving” dos Four Tops. “You Are Everything”, sucesso estrondoso na voz de Marvin Gaye e Diana Ross (cuja versão neste trabalho traz um raro e espetacular solo de guitarra do brasileiro Rafael Moreira) e “Let’s Stay Together”, gravada por Al Green em em 1972 e regravada com sucesso por Tina Turner entre 1983 e 1984 são outras cartadas certeiras. A versão de Paul lembra mais a original, de Green. Quase ao fim do álbum, ainda há tempo para mais uma faixa original, a competente “Lorelei”.
É uma pena que o Soul Station não seguiu se apresentando, após o lançamento do álbum. O que se percebeu é que, talvez pela imensa dificuldade que sua voz foi lhe impondo nos anos em seguida, Stanley somente cumpriu a extensa jornada junto ao KISS para os últimos shows em 2023 (e depois aqueles para manter a máxima da banda aposentada que continua se apresentando, em 2025) e nunca mais se uniu ao seu projeto de soul music, nem para uma continuação de “Now And Then”, nem para novos shows. Fica aqui o desejo deste autor para que, com uma voz digna, Stanley quem sabe retorne esta vertente soul e traga novo bom gosto na excelente escolha musical que mostrou no primeiro e até hoje único projeto do tipo. “Now And Then” é um álbum altamente indicado para os apreciadores do gênero soul, ainda mais com a extrema competência da banda que acompanhou Paul Stanley.

No próximo capítulo em formato de apêndice, vamos ver o que Gene Simmons andou aprontando fora do KISS, depois do “Asshole”, o seu álbum de 2004.
Saudações
Alexandre B-side
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