Kiss discografia [Apêndice D] – Capítulo 1 – Peter Criss – 45 anos em 5 álbuns de estúdio

A young man with long hair wearing a shiny green jacket and a red shirt, holding a drink, stands in front of a decorated wall with various artworks.

Dando sequência aos apêndices programados para complementar a discografia KISS, chegamos ao primeiro e teórico único capítulo que vai contemplar o chamado Apêndice D, dedicado ao baterista original da banda, Peter Criss. Neste post, trarei alguns detalhes do que Criss fez como artista solo a partir de sua saída do KISS, em 1980. Antes, porém, vale ressaltar que Criss fez, ainda antes de entrar no KISS, um registro fonográfico, junto da banda Chelsea, em 1970. Ao contrário de Ace Frehley, que antes do KISS havia atuado em poucas bandas sem nada gravar, Peter atuou em vários conjuntos desde 1962, deixando como registro um único álbum com o Chelsea. 

Album cover featuring five members of the band Chelsea standing in a field with a colorful gradient background.

Lançado em 1970, o único álbum da banda Chelsea trazia em sua formação Michael Benvenga no baixo, Chris Aridas e Mike Brand nas guitarras e violões, Peter Shepley nos vocais e Steve Loeb nos teclados, além do próprio Peter Criss na bateria. Toda a banda contribuiu nos backings-vocals. O álbum contém as seguintes faixas:

Rollin’ Along/ Let’s Call It A Day/Silver Lining/All-American Boy/Hard Rock Music/Ophelia/Long River/Grace/Polly Von/Good Company. 

A black and white photo of six individuals sitting in a grassy area, with trees and a stone structure in the background.

Não é o propósito inicial desta discografia traçar maiores impressões sobre a carreira dos ex-integrantes do KISS em outras bandas, mas considerando este trabalho como algo que ajudou Criss a acabar chegando no KISS, podemos considerar que o Chelsea era uma banda que direcionou sua sonoridade em 1970 ao que vinha sido desenvolvido pelo estilo de rock e psicodelia da época, com influência folk e bastante da marca hippie do período. Calcado em um som baseado em bateria, baixo e violão, as guitarras serviam mais para pontuar os intervalos entre os vocais, um som embrionário do rock progressivo, sem virtuosismo.

A presença dos teclados, quando mais notados, trazem também a sonoridade embrionário do que viria a ser o rock progressivo, com uso de Mellotron, em especial. No meu entendimento, são o ponto alto do álbum, nas músicas mais melodiosas como “Call It A Day”, “All-American Boy”. A atuação de Peter no álbum traz uma bateria bem contida, sem peso e voltada ao som mais “flower power” da época, com algum espaço para as viradas.  A sonoridade do Chelsea tem até alguma proximidade com o Wicked Lester (que ainda vai aparecer mais à frente nestes spin-offs dedicados à discografia KISS), em especial em canções como a versão embrionária de “She”. Como curiosidade, você pode conferir aqui a estreia de Peter em um álbum. Em 1978, ao dedicar o álbum solo aos colegas de KISS, Peter resolveu incluir nesta homenagem Michael Benvenga, o baixista deste trabalho no Chelsea. É o único nome em todos os quatro álbuns que é homenageado, além das homenagens que cada um deles faz aos outros. Bevenga havia falecido na ocasião.

A group of seven people seated around a table in an outdoor setting, enjoying drinks and snacks. The scene has a casual and relaxed atmosphere.

Vamos avançar dez anos no tempo pós Chelsea, Criss já se encontrava, em 1980, em plena rota de colisão com o KISS e é demitido antes do álbum “Unmasked”, embora apareça na capa.  Peter se mantém na mesma gravadora (Casablanca) que a banda e nela lança dois álbuns solos, mas ambos esses trabalhos saem comprometidos por quase nenhum apoio da gravadora, já considerando a péssima imagem de Criss junto ao KISS. O resultado é que essas duas primeiras investidas solos de Peter são lançadas apenas na Europa, reduzindo qualquer maior chance comercial. Fato é que a gravadora colocou Peter à margem, em seu cast. Neste cenário, em setembro de 1980, sai “Out Of Control” primeiro oficial álbum-solo de Peter Criss após a saída do KISS.

ÁLBUM: OUT OF CONTROL

Album cover featuring the title 'Peter Criss - Out of Control' with a dramatic graphic of flying vinyl records and a group of people reacting to the scene.

Lado A

1 – “By Myself” – 3:36

2 – “In Trouble Again” – 3:22

3 – “Where Will They Run?” – 3:54

4 – “I Found Love” – 3:30

5 – “There’s Nothing Better” – 3:34

Lado B

6 – “Out of Control” – 4:03

7 – “Words” -4:44

8 – “You Better Run” -2:42

9 – “My Life” -3:42

10- “Feel Like Letting Go”-5:11

Produzido por: David Wolfert e Peter Criss

– Lançamento: 08/09/1980

– O álbum chegou apenas a figurar nos charts da Austrália, em 48º lugar.

– Não foram lançados singles para promover o álbum

Para fazer o primeiro álbum fora do KISS, Peter se juntou novamente ao colega de Chelsea e posteriormente Lips Stan Penridge, que se encarregou das composições e atuou como guitarrista base no álbum. O álbum tem, entre outras participações, o extraordinário Steve Lukather, do Toto, nos solos. Peter toca bateria e canta no álbum. A arte do álbum não traz uma foto de Peter, que pretendia usufruir um pouco mais do segredo em torno sua imagem para aparições públicas, algo que acabou meio que se diluindo, uma vez que não se tem conhecimento que Peter tenha montado alguma banda de apoio para excursionar, aliás como também aconteceria no período do seu segundo álbum solo. É certo que a imagem desregrada de Criss não contribuía em nada com qualquer reputação que ele quisesse mostrar junto à gravadoras. O que se percebia era uma relação de pouquíssima confiança de que Peter fosse capaz de mostrar alguma consistência artística e profissional no meio musical. O nome do álbum, “Out Of Control”, já entrega um pouco do que era Peter na ocasião.

A man wearing a leather jacket and tight jeans poses against a wall, with a visible firearm in his waistband.

Assim, para a divulgação do álbum, o que se vê é Peter aparecendo em programas de tv, como o de Tom Snyder.  A capa, ao contrário de Criss, traz pessoas às voltas com uma explosão de um juke box, entre elas uma loira em destaque, cujas formas foram inspiradas na então esposa de Peter na ocasião, Debra Jensen.

A fórmula de “Out of Control”, no meu entendimento, se mostra a sequência de seu álbum de 1978. Novamente é o colega de Criss, Pendridge, que se mostra o verdadeiro responsável pelo estilo e pelas composições, o que se percebeu no álbum de 1978. Stan Pendridge compôs todas as canções, exceto uma faixa cover – You Better Run”, original de The Young Rascals – aliás, uma faixa bem apagada no trabalho.

Abro um espaço aqui neste texto, meio que obrigatório, para esclarecer a relação entre Peter e Stan, que era de extrema importância para o ex-baterista do KISS. Foi Stan que participou da fase final do Chelsea, que depois se transformou no trio Lips (com Michael Bevenga no baixo), antes de Criss entrar no KISS. Tanto Pendridge quanto Peter citam o período no Lips como um período artisticamente muito feliz e de muita química musical. Não à toa, várias canções, como “Baby Driver” e “Dirty Livin'”, gravadas por Peter nos vocais dentro do KISS, eram composições de Stan. Exemplo ainda maior foi o sucesso absoluto “Beth”, que foi rearranjado pelo produtor Bob Ezrin para o álbum “Destroyer”.

A semelhanças entre “Out of Control” e o solo de 1978 do baterista podem ser bem expostas em baladas acústicas como “By Myself”, que lembra “KISS The Girl Goodbye”. “I Found Love” segue a linha “You Matter To Me”. “There’s Nothing Better” pode ser comparada ao cover de “Tossin and Turnin” ou mesmo “That’s The Kind of Sugar Papa Likes”, com as inserções no arranjo de metais. “Words” é uma balada apoiada nos pianos elétricos, como “Don’t You Let Me Down”. “Feel Like Letting Go” é uma outra balada que lembra a ótima faixa que fecha o álbum de Peter em 1978, “I Can’t Stop The Rain”. Há, no entanto, algumas faixas que apontam para o que Peter traria no próximo álbum, que é uma sonoridade mais característica do som no início dos anos 80, com algumas guitarras mais modernas (em especial nos solos), mas muito carregadas pelos teclados da década, como “In Trouble Again” e “My Life”, ou seja, um rock pop datado do início dos anos 80. O álbum de estreia de Criss traz um material que pode agradar quem curtiu o primeiro álbum solo do baterista, em 1978, mas talvez ainda esteja um ou outro degrau abaixo daquele. Como curiosidade, não se sabe muito bem o porquê, mas Peter canta cerca de 15 segundos de “As Times Goes By”, conhecidíssima faixa da trilha do filme “Casablanca” no fim da última canção.  O resultado comercial de ‘Out of Control” é inegavelmente um fracasso. O álbum vendeu muito pouco e só foi relançado em CD em 1997, aproveitando-se do boom da turnê de reunião do Kiss, que estava em andamento.

Em 1982, Peter preparou o segundo e último álbum que lançou na década de 1980. “Let Me Rock You” saiu em junho de 1982, contando com a produção de Vini Poncia, que esteve com Criss no álbum solo de 1978 e produziu, com o KISS, “Dynasty” e “Unmasked”.

ÁLBUM: LET ME ROCK YOU

Album cover for 'Let Me Rock You' by Peter Criss, featuring a close-up profile of Criss smiling with slicked-back hair and a beard.

Lado A

1 – “Let It Go” – 4:05

2 – “Tears” – 3:36

3 – “Move on Over- 3:48

4 – “Jealous Guy” – 3:58

5 – “Destiny” – 4:11

Lado B

6 – “Some Kinda’ Hurricane” – 4:04

7 -” Let Me Rock You” -3:37

8 – “First Day in the Rain” -3:32

9 – “Feels Like Heaven” -3:43

10- “Bad Boys”-3:28

Produzido por: Vini Poncia

– Lançamento: 01/06/1982

– O álbum chegou apenas a figurar nos charts da Noruega, em 29º lugar.

–  Um single, sem qualquer repercussão, foi lançado com a faixa “Tears”, tendo “Jealous Guy” como lado B.

Ao contrário de “Out of Control”, “Let Me Rock You” não conta com Stan Pendridge, e aposta em nomes conhecidos, novamente Steve Lukather, mas também o excelente Steve Stevens (autor da faixa “First day in Rain”) nas guitarras e alguns nomes conhecidos do staff do KISS, como Adam Mitchell e um certo Vincent Cusano, que são os responsáveis por compor o single “Tears”. Russ Ballard (que é o compositor de “New York Groove”, sucesso de Ace Frehley do álbum solo em 1978) está presente, na autoria de duas faixas – “Some Kinda’ Hurricane” e na própria faixa título. O álbum também traz uma faixa de Gene Simmons, “Feels Like Heaven”, que ficou de fora dos álbuns da banda, e nesta Simmons é creditado nos backings. Peter resolveu fazer uma cover of John Lennon, a clássica canção “Jealous Guy”, que acabou no lado B do single “Tears”. A versão é correta, apostando no vocal rouco e rasgado de Peter, mas não acrescenta e fica claramente aquém da original.

“Let Me Rock You”, no meu entendimento, é o álbum mais datado e sem inspiração de Peter, podendo ser considerado, estilos de preferência à parte, talvez o pior trabalho do ex-baterista do KISS. O álbum aposta no pop do início dos anos 80, com algumas guitarras solos afiadas, o instrumento que mais se destaca dentro do álbum, muito em mérito do inegável talento dos Steve(s) que aparecem (Lukather e Stevens). O single “Tears” é um pop açucarado que está muito longe das melhores músicas que Vinnie Vincent ou Adam Mitchell, exímios compositores, fizeram. A contribuição de Gene Simmons é uma das que não tem qualidade alguma para estar no álbum do KISS, não faz qualquer sentido a ideia de incluí-la, portanto, em outro álbum, a não ser para completar o material. A faixa título nos leva aos anos 50, ou seja, traz um título que não condiz com o estilo da música. Dela talvez se esperasse algo mais pesado e é talvez a faixa mais retrô e inocente do álbum. O resultado esperado é o que realmente aconteceu, se em “Out of Control” Peter não tinha conseguido êxito comercial, “Let Me Rock You” fechou definitivamente as portas do cat-man junto à gravadora Casablanca.

A man playfully sticking out his tongue, wearing a pink sleeveless shirt with a graphic print. He is holding a drumstick and making a humorous gesture, with hands raised in the background.

Após esse completo fracasso da carreira solo de Criss na década de 80, Peter se reveza até o início dos anos 1990 por vários projetos de pouca duração e nenhum lançamento. Inicialmente ele resolve juntar-se de novo com Stan Penridge e formam a Criss-Pendridge Alliance na primavera de 1984. Em 1986 se junta ao grupo Balls of Fire, para um período de pouca duração, cerca de 5 meses e 7 apresentações ao vivo, estas carregadas dos clássicos do rock’n’roll dos anos 50. Peter chega a sair da banda, um pouco antes da dissolução definitiva do Balls of Fire.  Assim, até 1990 ele até participa de alguns álbuns, fazendo backing-vocals normalmente, entre eles o “Trouble Walkin’”, com o ex-parceiro Ace Frehley. Um outro projeto de pouca duração foi a sua associação com o outro ex-KISS Mark St John, no lugar do baterista original da banda de St John, na época, o White Tiger. Os poucos detalhes desta improvável associação virão no capítulo dedicado a Mark. Somente a partir de 1992 Peter retoma a carreira solo, em um projeto que enfim toma uma forma mais definida. Em 1993, Criss lança um Ep em edição limitada, contendo 5 faixas do álbum que estava programado para 1994. A banda de apoio contava com Mark Montague no baixo, Kirk Miller nas guitarras e Mike Stone (atualmente no Queensrÿche) nas guitarras e vocais. Miller acabaria sendo substituído por Mike McLaughlin para o lançamento do novo álbum.  Apesar de ser considerado um álbum solo, oficialmente este álbum de 1994 foi lançado por uma banda chamada CRISS.

ALBUM: CAT #1

A person with long hair wearing face paint that is half black and half white, resembling a rock music theme, with a bold graphic background.

1 – “Bad Attitude” – 4:33
2 – “Walk the Line” – 3:47
3 – “The Truth” – 4:53
4 – “Bad People Burn in Hell” – 3:46
5 – ”Show Me” – 4:03
6 – “Good Times” – 4:37
7 – “Strike”– 4:45
8 – “Blue Moon Over Brooklyn” – 5:22
9 – “Down With the Sun” – 4:37
10 – “We Want You” – 3:47
11 – “Beth” – 2:27

Produzido por: Dito Godwin, Peter Criss e Mark Montague

– Lançamento: 16/08/1994

– Um cd single foi lançado posteriormente na Europa em 1998 com três canções do álbum. Um vídeo de “Show Me”, foi produzido e veiculado na MTV, mas o álbum fracassou comercialmente também.

O período imediatamente anterior e posterior ao projeto CRISS, na década de 1990, é aquele no qual Peter esteve mais ativo, fazendo uma quantidade bem razoável de shows, já a partir de 1992 (34 shows), durante o lançamento do álbum em 1994 na tour Cat#1, com outros 23 shows, além de alguns esporádicos entre 1991 e 1995, quando se juntou ao amigo Ace para 40 shows na conhecida “Bad Boys of KISS Tour”. O show de Peter trazia, em cerca de 10 a 13 faixas, momentos que incluíam faixas do KISS, como “Black Diamond” ou “Hooligan”, “Hard Luck Homan” e  ”Beth” em um formato acústico, algumas faixas inéditas e outras de Cat#1 (“Show Me” e “Bad Attitude”, em especial). Em 1992, outras faixas do álbum foram tocadas: “Strike”, “Blue Moon Over Brooklyn” e “Bad People Burn in Hell”. 

Two musicians posing together, one wearing a purple top and the other in a black leather jacket with a graphic t-shirt.

Há, no entanto, neste início dos anos 90, um constante revezamento no line-up, em especial nos guitarristas: Jason Ebs , Kirk Miller, Ray Carrion, Phil Naro (de quem saberemos um pouco mais no capítulo dedicado a Mark St John) passaram pela banda em cerca de 4 anos de atividade, alguns deles acabando por participar do álbum parcialmente ou mesmo contribuir nas parcerias, mas não são aqueles que foram oficialmente creditados na banda por ocasião do lançamento deste único álbum.

Este período mostra um Criss beirando os seus cinquenta anos de idade, acompanhado por uma garotada com bastante disposição e apostando em um som mais pesado. O nome que chama mais a atenção nos créditos do line-up principal é de Mike Stone (conhecido por ser um dos guitarristas mais presentes após a saída de Chris DeGarmo no Queensrÿche), mas o que se percebe realmente é que os outros dois integrantes, Mike McLaughlin e principalmente Mark Montague, são aqueles que mais contribuíram artisticamente para esta terceira empreitada solo de Peter acontecer. Criss retomou, ao participar do álbum “Trouble Walkin’” de 1989, o contato com o ex-colega de KISS Ace Frehley, que aqui retribui a gentileza, emprestando seu nome e seus solos à 3 faixas, as duas primeiras e “Blue Moon Over Brooklyn”. Outro nome que seria conhecido mais à frente, quando Peter voltou ao KISS, é o do seu roadie, Eddie Kanon, que está nos créditos, com a atribuição “cymbals” (pratos), o que me faz entender que Kanon deve ter coberto uns buracos em alguns trechos de bateria. Eddie é conhecido por substituir Peter Criss em um dos shows da Reunion Tour, quando o cat-man passou mal.

Cat Criss #1, no meu entendimento, é facilmente o melhor trabalho de Peter durante todos esses anos. Mike Stone traz os vocais agudos da faixa que compôs, “Show Me”, ótimo single. As canções apontam para um hard rock muito bem azeitado, com um ótimo vocal rasgado, bateria competente e um mostra de que tanto Montague, quanto McLaughin são talentosos e claramente aqueles que surpreenderam todos em 1994 ao se deparar com a qualidade do material. Montague compôs quase todo o material, divide os vocais em duas faixas, co-produz o álbum e se mostra um muito criativo baixista. As faixas passam voando nos poucos mais de 37 minutos, apenas a balada “Good Times” e a meio óbvia “We Want You”, que pode nos remeter à clássica “I Love Rock’n’ Roll” de Joan Jett, estão abaixo do restante do material, ainda que não sejam faixas ruins. Peter só não quis se dissociar da marca KISS ao regravar uma competente versão acústica de “Beth” ou mesmo reproduzir a abertura da bateria de “Strutter” no fim de “Bad People Burn in Hell”.  “Cat#1” é definitivamente um trabalho que merece uma conferida, embora também não tenho sido bem-sucedido comercialmente.

Em 1996, Peter junta-se ao KISS na Reunion Tour, o que interrompe sua carreira-solo por quase 15 anos, entre o período junto da banda (até 2004, oficialmente) e alguns anos de ostracismo. Em 2007, finalmente, Peter resolve engatar um projeto diferente, investindo em uma performance vocal voltada a baladas ou canções com forte acento soul dos anos 60, entre covers que datam até de um tempo anterior, como “What a Difference a Day Makes”, original de 1934, que ficou famosa em 1959, com a gravação de Dinah Washington.

 ALBUM: ONE FOR ALL

Album cover featuring a stylized Earth with the text 'ONE FOR ALL' by Peter Criss, surrounded by flags from various countries.

1 – “One For All” – 4:47

2 – “Doesn’t Get Better Than This” – 5:08

3-  “Last Night” – 4:27

4 – “What a Difference a Day Makes”– 4:25

5 – ”Hope” – 2:47

6 – “Faces in The Crowd” – 3:36

7 – “Send in The Clowns”– 3:52

8 – “Falling All Over Again” – 4:42

9 – “Whisper” – 4:16

10 – “Heart Behind These Hands” – 3:39

11 – “Memories” – 3:48

12 – “Space Ace” – 5:10

Produzido por: Peter Criss

– Lançamento: 23/07/2007

-O álbum atingiu o 36º lugar na parada independente da Billboard

“One For All” é um trabalho cujo envolvimento principal, junto a Peter, é de Mike McLaughin, que se mostra versátil o suficiente para, depois de ter participado de um projeto voltado ao hard rock, conseguir materializar em canções o estilo que Peter, aos mais de 60 anos, tinha intenção de revelar. Mc Laughin compôs quase tudo no álbum, exceto pelas duas covers, evidentemente. Mark Montague também está no trabalho, mais de forma mais discreta, gravando os tracks de baixo sem tanta notoriedade. Outra presença marcante é a de Paul Shaffer, o diretor musical do programa “Dave Letterman”, nos teclados, que são tão relevantes para este estilo se desenvolver. Will Lee, baixista da mesma orquestra do programa de Letterman, que participou em 3 faixas do álbum de Ace Frehley em 1978 (por indicação de Anton Fig, o amigo de Ace na batera da ocasião e também figura frequente na banda de Letterman), faz algumas linhas do baixo também.

“One For All”, é, no meu entendimento, o álbum mais difícil de analisar, pois ele se situa entre o piegas e o desejo de Peter em gravar canções que trouxessem um pouco de sua raiz musical. Outro ponto bem desfavorável é o fato do vocal de Criss estar em uma linha perigosa de afinação, mostrando bastante dificuldade nos tons mais agudos, que nem são tão desafiadores assim. O destaque são os excelentes solos de McLaughin. A faixa de abertura chega a constranger ao incluir um coral infantil, o álbum é demasiadamente longo (mais de 50 minutos), mas até entrega momentos aceitáveis, como o bom cover de “”What a Difference a Day Makes”. As baladas em formato acústico mostram um Criss mais à vontade e podem agradar a aqueles que tem um coração mais romântico. Entre elas, “Last Night” se destaca. O disco termina de forma bem equivocada com uma provocação que foi entendido como uma homenagem ao parceiro Frehley, mas o momento era de atrito entre os ex-parceiros. A estranha faixa não tem qualidade, nem combina com o restante do material. “One For All” deve dividir a maioria das opiniões com “Let Me Rock You” na condição de pior trabalho de Criss. No meu entendimento, este álbum é pelo menos uma busca de um som ligado às raízes de crescimento musical de Peter, algo que provavelmente tem bastante identificação com ele, enquanto o segundo álbum peca ainda mais por ter ficado muito datado e deslocado, e já desde quase o seu lançamento.

A man with long black hair and glasses smiling, holding up two fingers in a peace sign against a colorful patterned background.

Depois deste álbum de 2007, Peter fez raríssimas apresentações públicas, tendo marcado uma despedida em 2 shows em 2017, um na Austrália e o final, no The Cutting Room, em Nova Iorque, quando tocou, em cerca de 1 hora, uma mescla de música do KISS com várias de seu álbum solo de 1978, além de “Words”, do “Out Of Control”. Ninguém mais esperava nada de Peter dali em diante, que anunciou neste show de 2017 o encerramento da carreira, o pouco que acabou se vendo do ex-batera do KISS foram vídeos caseiros durante o COVID, em 2020 e a participação em eventos relacionados ao KISS, normalmente organizado por fãs da banda, que sempre organizaram convenções e diversos encontros. No chamado “Creatures Fest”, de 2022, por exemplo, Criss apareceu para duas músicas, junto da banda The Sister Dolls e participou em uma ou duas músicas nos shows de Bruce Kulick e Ace Frehley. Uma semana antes, esteve fazendo o aquecimento para este Creatures Fest no Cutting Room, tocando três canções: “Don’t You Let Me Down”, “Words” e “You Matter To Me”. Os vídeos caseiros estão por aí, espalhados pela internet, para quem tiver curiosidade.

Às vésperas de completar 80 anos, uma nova surpresa, realmente pouco gente apostava nisso: Peter Criss lançou, em 19 de dezembro de 2025, o autointitulado álbum”Peter Criss”, talvez o seu derradeiro álbum-solo.

ÁLBUM: PETER CRISS

Stylized text featuring the name 'Peter Criss' with lightning bolt graphics on a black background.

1 – “Rock, Rockin’, Rock & Roll”– 4:16

2 – “In The Dark” – 4:10

3 – “For the Money”– 4:06

4 – “Murder” – 3:17

5 – “Walking on Water”– 4:56

6 – “Creepy Crawlers” – 3:42

7 – “Justice”– 3:18

8 – “Cheaper To Keep Her” – 4:00

9 – “Sugar” – 4:45

10 – “Rubberneckin” – 2:58

11 – “Hard Rock Knockers” – 3:23

Produzido por: Barry Pointer

– Lançamento: 19/12/2025.

– O single “Creepy Crawlers” foi lançado antecipadamente, em 31/10/2025.

O álbum traz Peter de volta ao som mais pesado, com a participação de vários músicos renomados, entre eles os incríveis Billy Sheehan em quase todas as linhas de baixo e John 5 nas guitarras de algumas faixas. Paul Shaffer retorna nos teclados. O projeto é todo coordenado novamente pelo extremamente versátil parceiro Mike McLaughin, que se encarrega das guitarras e os demais solos. Peter está nos vocais e bateria.

Lançado um dia antes de Peter fazer 80 anos, o baterista optou por ir na contramão do atual cenário fonográfico, não disponibilizando “Peter Criss 2025” para streaming, atuando firmemente contra a divulgação gratuita do conteúdo e vendendo seu álbum por um valor nada modesto. A estratégia, é claro, além de irritar aqueles que eventualmente podem pensar em comprar o trabalho depois de ouvi-lo, evidentemente não funcionou, não é tão difícil ter acesso ao material com um pouco mais de procura nas redes. E convenhamos, para aqueles que compraram ou comprarão o material sem ouvir, tanto faz qual a estratégia Peter iria preferir. Em suma, uma bola fora não só estratégica como uma clara demonstração de estar completamente alheio ao que o mercado musical hoje nos sinaliza.

O conteúdo musical, no entanto, é bem decente, mas evidentemente é preciso considerar que há uma possibilidade bem plausível de quase nada de Peter Criss estar ali. O seu vocal encontra-se limpo e preciso como nunca. Considerando as dificuldades que Criss teve, ao gravar “One For All” há 18 anos atrás, não é muito lógico não entender que há muita correção por autotunes em suas linhas. Além do mais, sabe-se lá como Peter consegue tocar o seu instrumento de ofício, a bateria, aos 80 anos. Se o fã ou apreciador optar por deixar essas questões mais éticas de lado, no entanto, pode se agradar do material.

A smiling man with gray hair and sunglasses, standing indoors near a window. Behind him is a logo featuring the name 'Peter Criss' alongside a stylized vinyl record.

O álbum começa com um rock’n’roll de raiz com muito piano, a la Jerry Lew Lewis, chamado “Rock, Rockin’, Rock & Roll”, mas a pegada mais retrô desta faixa de abertura abre espaço no trabalho para um hard rock mais contemporâneo, carregado pela sonoridade impar do baixo de Billy Sheehan já na 2ª faixa, “In The Dark”. E apesar da 3ª faixa, “For The Money” começar com uma introdução idêntica à “Rock and Roll all Nite” e possuir um backing vocal mais vintage, esta se junta às canções que se seguem, nesta sonoridade hard, em especial pelas ótimas guitarras de Mike McLaughin, que sem dúvida é quem divide os destaques do álbum com Billy Sheehan. “Murder” tem uma levada mais mid-tempo, um hard mais melódico, com ótimo solo de McLaughin. “Walking On Water” é a minha faixa favorita do álbum, apesar da letra extremamente repetitiva. Nela, Mike McLaughin brilha intensamente, com um timbre parrudo e escolhas de muito bom gosto nos solos de guitarra. Outra faixa na qual Mike se destaca nos solos é a mediana “Cheaper To Keep Her”, mais à frente no álbum.

A metade final do álbum se inicia com o single “Creepy Crawlers”, que traz uma referência direta ao som dos anos 70 e 80 de Alice Cooper, com um toque mais soturno. A faixa é uma das duas em sequência que trazem a participação de John 5. A presença do virtuoso guitarrista é um pouco mais notada no bom solo de “Justice”, a 7ª faixa, momento no qual o álbum começa a perder um pouco de ritmo. A parte final do trabalho traz uma variação ao estilo hard, mais preponderante do álbum, tem-se um blues retrô com teclados em “Sugar” e uma espécie de country acelerado em “Rubberneckin’”, na qual John 5 mostra exuberância e virtuosismo, para o fechamento com a faixa bônus “Hard Rock Knockers”, cujo refrão até lembra o de “Got Love For Sale”, que Gene Simmons cantou no Love Gun. A faixa funciona apenas como bônus, realmente, mas o álbum, embora caia na segunda metade, saiu-se melhor do que a encomenda, ainda mais considerando o histórico irregular de Criss em carreira solo.

Bem, o que Peter ainda pode aprontar, depois dos 80 anos, é algo que ninguém se atreve a prever. Neste capítulo percebemos que ele se revezou, fora do KISS, entre vários estilos, entregando até algum material artisticamente interessante, no meio de um bom punhado de canções mais esquecíveis. Não conseguiu nenhuma repercussão comercial, certamente passou por altos e baixos financeiros, mas, controvérsias à parte, também, assim como Ace, chega a um provável final de carreira entregando um trabalho consistente, no qual a única dúvida que persiste é, também como no último trabalho de Frehley, o quanto de real contribuição há do vocal e bateria de Criss, com tanta tecnologia disponível para mascarar quase tudo que se ouve hoje em dia. Essa pergunta, hoje, ainda não tem resposta. Então é de cada um conviver com essa dúvida e relevá-la ou não, se for o caso, para então poder apreciar um material recente de qualidade bem decente, entregue neste “Peter Criss 2025”. Fica a cargo de cada um.

A black and white image of a drummer playing a silver drum set in a rehearsal space, with another musician partially visible in the foreground.

Chegamos ao fim desta nova jornada. Em breve, os apêndices desta discografia voltam por aqui, a sequência agora é caminhar por capítulos que irão traçar os últimos caminhos que os donos do negócio andaram fazendo fora do KISS. A gente se vê…

Alexandre B-side



Categorias:Alice Cooper, Artistas, Curiosidades, Discografias, Kiss, Músicas, Resenhas, Setlists

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