Consultoria do Rock – Melhores de Todos os Tempos – Aqueles que Faltaram: por Ulisses Macedo, com participação do Minuto HM

Fala, galera!

Fazendo um paralelo bobo com o futebol, é mais ou menos isso aqui: os gêmeos-gênios Flavio e Alexandre são nossos jogadores fundamentais – Neymar e Cristiano Ronaldo, algo do tipo. Em uma ação de parceria, além de jogar no time do Minuto HM, eles – sei lá como – conseguem ter físico e tempo para de uma maneira sensacional aceitarem o convite do time parceiro do Consultoria do Rock para jogarem um campeonato lá também – na série “Melhores de Todos os Tempos“, fizeram vários jogos e muitos gols, de maneira alternada: cada um jogava uma partida.

Ao fim do campeonato e após o merecido título dada a qualidade da série, o Consultoria do Rock resolveu iniciar um novo torneio, chamando-o de “Aqueles que Faltaram“. Para tal, voltaram a convocar / pedir novo empréstimo dos dois jogadores do Minuto HM, que prontamente aceitaram e resolveram, desta vez, jogarem juntos, um pela direita e outro pela esquerda.

A explicação de como funcionará esse complemento da série está mais abaixo, e nós podemos ter o luxo de ver uma verdadeira seleção novamente reunida. O título? É questão de tempo.

Bom jogo a todos – e um agradecimento especial à dupla pela colaboração.

[ ] ‘ s,

Eduardo.

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CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL: DOUG CLIFFORD, TOM FOGERTY, STU COOK E JOHN FOGERTY

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL: DOUG CLIFFORD, TOM FOGERTY, STU COOK E JOHN FOGERTY

Para a nossa felicidade, a série “Melhores de Todos os Tempos” foi um sucesso. Edição após edição, as discussões foram muito além das publicações, invadiram a caixa de comentários e pudemos travar contato com novos e antigos leitores, que contribuíram com suas opiniões e enriqueceram as discussões. Decidimos, de acordo com 11 participantes da série, estendê-la por mais alguns meses, apresentando discos que, segundo o protagonista de cada edição, mereciam ter recebido o destaque que não receberam nas publicações passadas. Cada um desses 11 colaboradores tem a liberdade de escolher dez álbuns lançados entre 1963 e 2010 (época abrangida pela série), segundo seus próprios critérios, e submetê-los aos comentários dos outros participantes. Sorteios definem a ordem em que cada colaborador terá sua vez de contribuir; já a ordem em que os discos se apresentam em cada edição é cronológica. Lembrando que, uma vez que um álbum é mencionado por alguém, não pode ser citado por um participante posterior.

Por Ulisses Macedo

Edição de Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, André Kaminski, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Flavio Pontes, Mairon Machado e Ronaldo Rodrigues

Chegou a hora de fazer justiça a certos discos que não apareceram na série “Melhores de Todos os Tempos”, seja porque não tiveram pontos suficientes ou porque foram completamente esquecidos. Não escolhi necessariamente meus álbuns preferidos, mas sim aqueles que não apenas aprecio, mas que também pareciam ter boas chances de figurar no ano em questão, pois figuravam no zeitgeist musical da época. Só lembrando: eu comecei a participar da série na edição dedicada a 1981, mas as escolhas estavam liberadas para os anos anteriores à minha entrada.


Creedence Clearwater Revival – Cosmo’s Factory (1970)

Ulisses: Eu poderia muito bem colocar os seis primeiros discos do Creedence aqui na lista, e isso não seria nenhum absurdo. Somente Mardi Gras (1972) ficaria de fora (e eu nem acho ele tão ruim assim), pois durante sua curta vida o quarteto californiano lançou clássico atrás de clássico, cada um melhor do que o outro. É decepcionante que nenhum deles tenha figurado na série – e sim, eu sei que a concorrência da época era fortíssima. Sendo assim, escolhi apenas um disco para representar a banda, desta vez. Embora eu tenha leve preferência por Green River (1969), Cosmo’s Factory é comumente considerado o ápice da banda – nada menos que seis das onze faixas daqui foram lançadas em compactos. Ouçam e arrependam-se de ter deixado a versão de 11 minutos de “I Heard It Through the Gravepine” fora da lista final.

Alexandre: Bem, o disco já vale pelos sensacionais mais de 11 minutos da versão de “I Heard It Through the Grapevine”, de Marvin Gaye. O clima de jam session da faixa e um instrumental extraordinário, aliados à voz marcante de John Forgety, justificam a citação deste álbum. Em relação à escolha final para 1970, eu acredito que ele teria vez, mas não no lugar do décimo lugar da lista (George Harrison, All Things Must Pass). Desta forma, julgo correta a opção do Ulisses por incluir este entre os esquecidos daquele ano. O álbum não me agrada em sua totalidade, particularmente, meio que deixo de lado as músicas mais aceleradas e calcadas no rock ’n’ roll das décadas anteriores, como “Ooby Dooby”, “Travelin’ Band” ou mesmo a faixa inicial, “Ramble Tamble”, essa um pouco melhor. “My Baby Left Me” me é muito “chupada” de “That’s All Right”, eternizada na voz de Elvis Presley no início dos anos 1950. O restante do álbum me agrada bastante, em especial “Who’ll Stop the Rain”, “Long as I Can See the Light”, a versão de “Before you Accuse Me” e já citada “I Heard It Through the Grapevine”.

André: Nem tem o que falar desses caras. Se podemos chamar algo de clássico, com certeza é o rock desses caras. É o típico som que pode ser tocado onde quer que seja e nunca veremos cara feia por parte daqueles que os ouvem. O som de “Run Through the Jungle” e “Up Around the Bend” me fascina neste disco cheio de rocks gostosos e de uma simplicidade que surpreende, mas que fisga os seus ouvidos na hora. Uma das coisas mais tristes do rock é saber que esses norte-americanos produziram tão pouco.

Bernardo: Tá aí um que surpreendeu de ter ficado de fora. Um discaço com a banda em sua melhor forma – petardo atrás de petardo, “Travellin’ Band”, “Lookin’ Out My Back Door”, “Who’ll Stop The Rain”, a arrasadora reinvenção de 11 minutos para o clássico de Marvin Gaye “I Heard It Through the Grapevine”… Daqueles discos que dá para ouvir inteiro com gosto.

Christiano: Em um período muito curto de tempo, o Creedence lançou tantos discos ótimos que era inevitável que alguns deles ficassem de fora de alguma edição dedicada a determinado ano. Claro que é meio estranho isso ter acontecido justamente com Cosmo’s Factory, um dos melhores de sua breve carreira. Além de conter clássicos como “Who’ll Stop the Rain”, “I Heard It Through the Grapevine”, “Travellin’ Band” e “Run Through the Jungle”, o disco abre com “Ramble Tamble”, faixa que tem uma ótima e viajante sessão instrumental. Na verdade, após escutar o álbum completo, a sensação que fica é a de que acabamos de ouvir uma coletânea da banda, tamanha a quantidade de músicas que já fazem parte do cancioneiro popular dos admiradores de rock setentista. Um detalhe que deve ser mencionado é a qualidade da gravação, que soa impecável durante todo o álbum.

Davi: Ótima escolha. Sou um grande fã do Creedence e do John Fogerty. Os álbuns do conjunto, em sua maioria, são excelentes e este não foge à regra. O play traz alguns clássicos do grupo, como “Who’ll Stop the Rain” e “Travellin’ Band”, além de uma versão matadora de “I Heard It Through the Gravepine” (Marvin Gaye). O grande destaque para mim, contudo, é a lindíssima “Long As I Can See the Light”. Durante a audição, é possível perceber com clareza as influências do conjunto: country, r&b, soul e, é claro, o rock ‘n’ roll. Bela lembrança.

Diogo: O CCR certamente é uma das citações que mais fizeram falta na série. Cheguei a incluir Green River e Cosmo’s Factory em minhas listas e talvez devesse ter citado Willy and the Poor Boys (1969) também. Desses três, meu provável favorito é Green River, com sua alma rural e sulista até o osso, deslocadíssima da Califórnia hippie do fim dos anos 1960. Cosmo’s Factory, entretanto, é um disco tão bom quanto e talvez seja mesmo mais adequado para representar a capacidade absurda do grupo como criadores e intérpretes de canções imortais. Tanto em músicas mais diretas (“Travellin’ Band”, “Ooby Dooby”) quanto naquelas com cara de jam (“Rambe Tamble”, “I Heard It Through the Grapevine”) o quarteto dá show, e há de se frisar que o mérito não é apenas de John Fogerty, inegável alma da banda, mas de todos os músicos, muito competentes em suas funções. O que esses caras manjam de grooves e ganchos inesquecíveis não está escrito. O riff que introduz “Up Around the Bend” é coisa pra nunca mais deixar nossa memória, assim como as suaves palhetadas que introduzem a fantástica “Who’ll Stop the Rain”. Para completar o clima de coletânea involuntária, “Long As I Can See the Light” fecha o álbum como uma das melhores composições do grupo. O CCR é a mais pura cultura musical norte-americana condensada em canções pop de poucos minutos. Obrigado pela citação.

Fernando: Sempre fui daqueles que diziam que uma boa coletânea do Creedence me satisfazia, mas mesmo assim não tinha sequer um CD deles. Coincidentemente, no dia anterior à recepção desta lista, achei Cosmo’s Factory por um preço muito convidativo em uma loja daqui. Apesar de eles serem conhecidos como representantes do rock rural dos EUA, há uma mescla com o rock and roll dos anos 1950. Disco bom de ouvir.

Flavio: O disco começa sem novidades, no estilo rhythm & blues, rock ‘n’ roll básico, com a marca forte do vocal característico de John Fogerty. Ao visitar um disco tão antigo, há algo que precisamos considerar e até relevar, principalmente a qualidade de gravação. Independentemente disso, há aspectos que não me agradam na bolacha, caso da construção óbvia 0-5-7 de algumas músicas, como “Travelin’ Band”, “Ooby Dooby”, “My Baby Left Me” (= “That’s All Right”). Na época, isso já soava datado, hoje em dia nem se fala. Ouvir músicas que lembram “Tutti Frutti” e Elvis Presley dos anos 1950 em plenos anos 1970 não é interessante. Em compensação, há bons momentos, como na clássica “Who’ll Stop the Rain”, “Lookin’ Out My Back Door”, “Run Through the Jungle” – balada que fecha o disco – e as covers “I Heard It Through the Grapevine”, “Before You Accuse Me”, em boas execuções. É um bom disco que poderia estar na forte lista dedicada 1970.

Mairon: O álbum que traz a versão definitiva de “I Heard It Through the Grapevine” já é uma baita de uma escolha pelo Ulisses, mas ele vai muito além desse clássico norte-americano. Aqui, o CCR conseguiu incrementar seu som com algumas experimentações instrumentais que caíram muito bem ao estilo country/southern que a banda fazia, presente em “Lookin’ Out My Back Door”. A faixa citada é um bom exemplo dessas experimentações, assim como a linda “Ramble Tamble”, a harmônica de “Run Through the Jungle” e a baladaça emotiva “Long As I Can See the Light”, em que o piano elétrico e o saxofone de John Fogerty se juntam a uma interpretação vocal poderosa. O cara era a banda, não adianta. Sem ele, não há Creedence. É como Ian Anderson para o Jethro Tull ou Robert Fripp para o King Crimson. Para completar, a versão blues de “Before You Accuse Me” (Bo Diddley) e rockabilly de “Ooby Dooby” (Roy Orbison) e “My Baby Left Me” (Arthur “Big Boy” Crudup) e as clássicas “Travellin’ Band”, “Up Around the Bend” e “Who’ll Stop the Rain” (não sei por que, quando ouço “Mrs. Vandebilt”, do Wings, lembro-me dessa faixa), ou seja, um track list sem ter o que tirar. Ótima indicação, meu caro, mas não sei se ficaria entre os dez mais de 1970, já que aquela lista foi praticamente perfeita, mas é um baita disco, dos velhos e bons tempos.

Ronaldo: Se uma banda consegue ter tantas músicas repousando no inconsciente coletivo de pessoas no mundo inteiro é porque algo existe de muito especial em suas composições. John Fogerty sabia transformar coisas simples em verdadeiras gemas. O disco todo é extremamente eficaz, as músicas grudam no coração e refrescam a mente. Virtuosismo aqui não agregaria nada, porque tanto as execuções quanto as composições são da mais absoluta precisão. O mesmo que poderia se dizer dos Beatles ou dos Rolling Stones.


Judas Priest – Sad Wings of Destiny (1976)

Ulisses: É interessante notar as mudanças na sonoridade do Priest através dos anos. Quem conheceu a banda partindo de sua fase oitentista até Painkiller (leia-se: a maioria dos seres humanos), de 1990, sempre se impressiona ao visitar os primeiros discos da banda, nos quais os ritmos diretos de uma “Living After Midnight” ou “(Take These) Chains” encontram menos páreo. Ao invés, a banda soava mais atrevida e teatral (no bom sentido); o melhor exemplo disso está justamente em Sad Wings, no qual o quinteto exibe uma fascinante gama de estilos, atmosferas e texturas diferentes, capitaneadas pelos riffs cortantes da dupla Downing/Tipton e, especialmente, pelas interpretações inacreditáveis de Rob Halford. Um álbum que contém não só “Victim of Changes”, mas também a fenomenal dupla “Dreamer Deceiver” e “Deceiver”, não deveria ficar de fora de nenhuma lista desse ano.

Alexandre: Para mim, este é o melhor disco desta lista e entraria com sobras na parte de cima em 1976. Faixas clássicas (“The Ripper”), tocadas até hoje pela banda (“Victim of Changes”), momentos sublimes aliados a vocais sobrenaturais (a sequência de Rob Halford em “Dreamer Deceiver”/”Deceiver” é de estarrecer), um álbum em que não encontro pontos fracos. Sad Wings of Destiny é sim um disco poderoso, no qual a banda começou a desenvolver seu estilo. Há músicas como “Tyrant” e “Genocide”, que mostram qual seria a linha que a banda seguiria, mas, ao mesmo tempo, ainda há espaço para apresentar alguns outros ótimos momentos, em que influências de artistas como Queen, Elton John e até Beach Boys transparecem, em especial nas faixas mais obscuras, como “Prelude” e “Epitaph”. O melhor momento do Judas Priest nos anos 1970 viria a seguir, com o espetacular Sin After Sin (1977), mas este Sad Wings of Destiny foi realmente deixado de lado injustamente na edição dedicada a 1976.

André: Eu já falei algumas vezes que o Judas nunca foi lá a minha banda de cabeceira. Digamos que ela está ali no segundo escalão eentre as minhas preferências pessoais. Ainda assim, tenho lá meus discos favoritos deles e Sad Wings of Destiny é um deles. Uma mistura do que o heavy metal seria com o velho hard rock setentista digna de elogios. Essa fase deles é a melhor de sua discografia.

Bernardo: “Victim of Changes” e “The Ripper” são duas faixas sensacionais, que dá para dizer que inventaram a NWOBHM – poucas coisas no disco ainda são típicas dos anos 1970. Mas o resto do álbum, apesar de manter o nível, não é tão igualmente memorável.

Christiano: Em 1976, o Judas Priest foi responsável por um disco que tinha como primeira faixa “Victim of Changes”, um clássico inquestionável do que veio a ser chamado de heavy metal. Na sequência, temos “The Ripper”, outra obra-prima. Só por essas duas músicas, este álbum já merecia estar em qualquer lista de melhores daquele ano. No entanto, ainda tem mais: “Deceiver”, “Tyrant” e Rob Halford mostrando sua versatilidade em “Epitaph”, uma balada em que deixa claro ser merecedor de todo o respeito que adquiriu ao longo de sua carreira. Um clássico inquestionável.

Davi: Outra banda que eu adoro. Sim, o disco é meio que um clássico, mas por alguma razão nunca consegui considerá-lo um grande álbum. Acho que ele tem momentos altos e baixos. Lógico que não tem como ficar apático diante de clássicos absolutos como “Victim of Changes” e “The Ripper, mas outras canções como “Tyrant” e “Dream Deceiver” me soam sem sal. Dessa fase inicial, é o que menos me empolga.

Diogo: Sad Wings of Destiny era um seriíssimo candidato a figurar em minha lista enumerando “aqueles que faltaram”, então é óbvio que sou apenas elogios para o álbum. Gosto muito de Rocka Rolla (1974) e acho que algumas das melhores canções da banda estão em seu tracklist, mas a importância de Sad Wings é imensamente maior. Este disco adiantou em alguns anos a sonoridade que seria base de grande parte da música pesada na década seguinte, desenvolvida ainda mais pelo próprio Judas Priest nos não menos magníficos Sin After Sin e Stained Class (1978), o ápice do quinteto. A produção ainda não foi a mais adequada, mas melhorou em relação a Rocka Rolla e fez com que “The Ripper”, “Deceiver”, “Tyrant”, “Genocide” e “Island of Domination” não deixassem dúvida: um novo gênero musical estava se firmando, levando muito além as lições aprendidas com Black Sabbath, Led Zeppelin e outros. Não se tratava de mera ignorância musical traduzida em ruído alto e barulhento, mas de canções inteligentes, bem estruturadas, com grandes guitarristas e um vocalista de estilo próprio, que geraria uma infinidade de seguidores (e cópias). Sua capacidade e a do grupo fica ainda mais evidente na classicíssima “Victim of Changes”, uma das minhas favoritíssimas do Priest, e na pouco lembrada “Dreamer Deceiver”, na qual Halford mostra sua extensão vocal a favor da música. Agora ‘bora arrumar um substituto pra Sad Wings of Destiny em minha lista.

Fernando: Nós, o fãs de Judas Priest, fazemos um esforço tremendo em encontrar qualidade em Rocka Rolla. Porém, a diferença entre o debut e Sad Wings of Destiny é brutal. Eles não só mudaram seu som, mas também definiram os parâmetros do que seria o heavy metal da década seguinte. Por mais que eu entenda isso, este álbum não é meu preferido – posto que para mim sempre vai ser de Painkiller (1990) – e talvez nem esteja entre os três mais. Não dá para deixar de citar a maravilha que é “Victim of Changes”, que deve ter inspirado dez entre dez garotos que tinham o desejo de ser vocalista de heavy metal na época.

Flavio: Um disco que reúne “Victim of Changes”, “The Ripper”, “Dream Deceiver”, “Tyrant” e “Genocide”, resgatado com sabedoria pelo Ulisses. Além das excelentes composições acima, temos uma performance soberba de quase toda a banda, principalmente de Rob Halford. A ressalvar apenas a produção fraca e de qualidade parca, devido ainda à presença do Judas na pequena e independente gravadora Gull, e também, principalmente, da bateria que destoa e não acompanha o resto da banda. Teríamos então versões definitivas da maioria desses clássicos no “semi” ao vivo Unleashed in the East (1979), com o excelente baterista Les Binks, cuja audição recomendo. Ainda a destacar, a linda capa “Fallen Angel”, um símbolo usado pela banda mais à frente na carreira. Revendo a lista dedicada a 1976, facilmente encontro lugar para Sad Wings of Destiny.

Mairon: Tive a oportunidade de ver o Judas ao vivo duas vezes. Nas duas oportunidades, a banda me satisfez com as músicas que eu mais aprecio deles. No primeiro show, em 2008, ouvi e vi “Sinner” ser interpretada de forma exuberante, com quase dez minutos de duração e K. K. despedindo-se dos fãs no auge de sua carreira. Em 2015, assisti a “Victim of Changes” e impressionei-me com o fato da capacidade vocal de Halford ainda estar intacta. Essa é a faixa de abertura deste segundo disco do Priest, um dos melhores de sua carreira. A banda antecipou a NWOBHM em anos, fazendo muito do que foi consagrado anos depois por Iron Maiden, Def Leppard e Saxon, mas com um pé muito mais forte no hard do que essas e outras bandas do gênero. Neste álbum, em especial, o grupo traz certas similaridades com os contemporâneos do Wishbone Ash, principalmente nas sensacionais “Dreamer Deceiver” e “Deceiver”, faixas com uma linda melodia, solos de guitarra arrepiantes e, o diferencial priestiano, a voz de Halford. O cara estava vivendo uma fase em que sua garganta estava afiadíssima, e olha, essa fase durou um bom tempo. Outra notoriedade são as inspirações progressivas, seja no piano e no estilo pomposo de “Prelude”, na presença clássica do piano em “Epitaph”, mas principalmente na construção das duas obras citadas anteriormente, que são faixas longas e bem trabalhadas para o padrão metálico. Rocks pesados afloram em “Genocide” e “Island of Domination”. Para fechar, as clássicas “The Ripper”, homenagem ao titio Jack e que ainda hoje quebra pescoços mundo afora, e “Tyrant”, com todas as características marcantes que fizeram do Judas uma das maiores bandas da história. A concorrência em 1976 era grande, não sei se ele conseguiria uma vaga entre os 10 mais (aliás, aquela lista foi muito boa), mas é um belíssimo disco, sem sombras de dúvida, o que só comprova que, antigamente, a coisa era diferente na parte de criação.

Ronaldo: Considero o Judas Priest dono de uma digna importância no desenvolvimento do heavy metal, mas não digno de um selo de excelência sonora. Este disco cristaliza bem isso – foram um dos pioneiros na separação do cordão umbilical que ligava o rock pesado ao blues e tornaram padrão para o estilo um determinado modo de compor riffs e executá-los ao máximo volume. Contudo, a produção de seus discos é enfadonha, as composições não cativam e os gritos de Rob Halford são irritantes. Obviamente, algumas músicas são poderosas o suficiente para lhe obrigar a balançar a cabeça, mas acho pouco para uma banda com o gigantismo do nome que estes britânicos alcançaram.


The Police – Reggatta de Blanc (1979)

Ulisses: Acho inesperado que o The Police não tenha aparecido em nenhuma edição da série. Longe de ser uma das minhas bandas preferidas, mas esse “reggae de branco” deles dá de dez a zero em muito disco por aí. Se muitos escolheriam o ápice de Synchronicity (1983), eu afirmo minha preferência pelo segundo disco dos caras, já que composições como “Bring on the Night”, “The Bed’s Too Big Without You” e a faixa-título estão entre as minhas preferidas do trio.

Alexandre: Muito boa a opção do Ulisses pelo The Police, uma banda inovadora, cuja influência ultrapassou até os seus contemporâneos de estilo, capaz de fazer os extraterrestres do Rush voltarem-se em direção àquilo que esta banda vinha fazendo, e que, além disso, tem músicos cujas capacidades falam por si. Antes que os holofotes apontem apenas para Sting, há de se reconhecer a exuberância técnica de Stewart Copeland e os timbres incríveis das guitarras de Andy Summers. Não entendo como a banda não foi citada em nenhum ano pelos consultores, pelo menos nas listas finais – ao menos eu não encontrei a banda em nenhuma delas. Não sei se Regatta de Blanc é a melhor maneira de lembrar a banda, mas de certo também é um álbum que eu colocaria no lugar de algum da edição dedicada a 1979. O disco alia músicas obrigatórias (“Message in a Bottle”, “Walking on the Moon”) com outras menos cotadas, como “The Bed’s Too Big Without You”. Além disso, tem uma versão de “Bring on the Night” que me agrada mais do que a super conhecida da fase solo de Sting. Não é um disco perfeito, posso citar “Contact” e “On Any Another Day” como faixas que não me agradam tanto. No entanto, é super merecida essa lembrança.

André: É uma banda que venho conhecendo recentemente, mas que posso dizer que vem me fisgando cada vez mais. Outra que aposta naquele rock mais simples e de pegada pop, unindo vários momentos da new wave. É um típico representante da música oitentista, embora tenham surgido na década anterior. Este é o disco que mais gosto deles, com aqueles conhecidos clássicos como “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon”. Pena que foi mais um daqueles casos de bandas com três personalidades fortes que se digladiavam nos bastidores o suficiente para gerar apenas uma curta discografia.

Bernardo: Meu preferido ainda é Outlandos D’Amour (1979), mas é excelente ver como o Police conseguia manter a excelência neste disco que tem o clássico “Message in a Bottle”. Em seu cruzamento de punk rock, pop, reggae e outros ritmos praticamente moldaram a new wave e a world music. Cada um dos discos do Police é uma experiência musical, um tijolinho nas fundações da música contemporânea.

Christiano: Stewart Copeland é um monstro. Um dos maiores bateristas de todos os tempos. Isso fica muito claro já no início de Regatta de Blanc, que abre com “Message in a Bottle”, uma das faixas mais conhecidas da carreira da banda, na qual fica evidente sua assinatura musical, totalmente inovadora para a época. No decorrer do disco, ainda temos “Bring on the Night” (com influências escancaradas de reggae), “Walking on the Moon”, com um ótimo trabalho de baixo e vocal de Sting , e “The Bed’s Too Big Without You”. Resumindo: um disco ótimo do início ao fim.

Davi: Grupo sensacional. Três músicos de primeira – lembro que babei no workshop de Andy Summers que assisti – e repertório foda. Sim, eles tinham uma pegada comercial, mas a qualidade desses caras é inquestionável. Regatta de Blanc não é meu trabalho preferido do grupo, sempre curti mais a fase final, mas sem dúvidas é um ótimo play. Os hits – “Message In a Bottle” e “Walking on the Moon” – são ótimos e alguns lados B também. Vale destacar as canções “It’s Alright For You” e“No Time This Time”, além do trabalho sempre impressionante de Stewart Copeland.

Diogo: Não cheguei a citar o The Police em edição alguma, mas sua presença aqui é mais que merecida. Seus músicos são extremamente competentes, seu sucesso é plenamente justificado e, acima de tudo, o trio criou algo único e de qualidade. Em meio aos grandes hits “Message in a Bottle” (excelente) e “Walking on the Moon”, há uma grande quantidade de faixas memoráveis, alternando uma pegada mais punk (“It’s Alright For You”, “No Time This Time”) com outra mais reggae (“Bring on the Night”, “The Bed’s Too Big Without You”), além de um quê progressivo (“Contact”), sempre com bons resultados. Em particular, tenho uma queda por “Deathwish” e mais ainda pela semi-instrumental faixa-título, que faturou um Grammy. Nunca é demais frisar que Stewart Copeland é um baterista único e extremamente influente, mas Sting também se vira muito bem nas quatro cordas e Andy Summers tem um bom gosto para timbres e escolher notas de causar inveja.

Fernando: Não sou um ouvinte do The Police daqueles que conhecem os álbuns. Isso é até curioso isso, porque sempre gostei dos álbuns e não sou fã de coletâneas e discos ao vivo. Tenho o box Message in a Box: The Complete Recordings (1993), que tem toda a carreira da banda nos seus quatro CDs, e não consegui ainda separar o que é de cada lançamento. Portanto, tive que olhar faixa por faixa do seu tracklist para saber do que trata Regatta de Blanc e, das músicas mais conhecidas e clássicas do grupo de Sting, me parece que tanto seu antecessor quanto seu sucessor seriam mais indicados para aparecer aqui. Mas confesso que escrevo essas linhas sem ouvir o disco, algo que não costumo fazer.

Flavio: Outra boa escolha de Ulisses. O segundo álbum do The Police traz músicas mais do que consagradas, como a faixa de abertura, “Message in a Bottle”, e “Walking on the Moon”. Mas a bolacha não vive só desses clássicos. Devemos destacar a performance estupenda do baterista Stewart Copeland, sem desmerecer o ótimo trabalho de Sting e Andy Summers. Regatta de Blanc é um disco influenciador de várias outras bandas que viriam pela frente, como o Paralamas do Sucesso e outros grupos do BRock, e mesmo no redirecionamento musical de outras bandas consagradas, como o Rush. Dá para destacar outras canções facilmente, como “Deathwish”, “Bring on the Night” (embora eu prefira a versão com Sting) e “Does Everyone Stare”. Mesmo não sendo fã de ska ou reggae, em forte presença no disco, é inegável a importância da bolacha. Gostaria de vê-lo incluído na lista dedicada a 1979.

Mairon: O The Police é daquelas bandas que não consigo entender. Músicos de altíssimo calibre fazendo um sonzinho simples, sem muita firula e com pouquíssima capacidade de emoção. Já tentei ouvir várias vezes a banda, mas acabo colocando-a no balaio de outras como Dire Straits e Talking Heads, nas quais se reconhece o talento individual dos músicos, mas o conjunto da obra não funciona. Especificamente com o The Police, essa mistura de reggae com rock que aparece em várias faixas, principalmente em “Message in a Bottle”, “Bring on the Night”, “Walking on the Moon” e “The Bed’s Too Big Without You” não me é nada agradável. O The Clash fazia isso com muito mais competência e propriedade. E quando o grupo tenta ser mais punk, como em “It’s Alright for You”, falta força vocal em Sting. A lista de 1979 foi muito boa, só Michael Jackson talvez não precisasse entrar, mas entre o Rei do Pop e este disco, fico com o primeiro. Podem me xingar, mas o The Police é um mero Paralamas com grife.

Ronaldo: Led Zeppelin e Jeff Beck, com seus lançamentos na década de 1960, anteciparam a sonoridade dos anos 1970. Com o Police é possível dizer o mesmo. Em 1979, o Police escreveu a cartilha do pop rock dos anos 1980. A sonoridade da guitarra de Andy Summers foi utilizada ostensivamente em todo o pop oitentista; Stewart Copeland virou um drum hero para toda uma geração de novos músicos. Um disco que fareja um pop certeiro 100% do tempo e que quase sempre chega lá – as composições são extremamente funcionais. A favor disso, estava um banda que esbanjava entrosamento, com craques empunhando seus respectivos instrumentos. É a fórmula teórica que sempre funciona – bons músicos e boas composições.


Megadeth – So Far, So Good… So What! (1988)

Ulisses: Imprensado entre os dois melhores discos da banda, So Far, So Good… talvez seja o registro mais subestimado de Dave Mustaine e sua trupe. É verdade que a mixagem, suja e cheia de reverb, não é das melhores, mas o ouvinte que se aventurar a penetrar o álbum encontrará um tracklist impecável do começo ao fim. Os novatos Chuck Behler e Jeff Young não possuíam a malemolência jazz-fusion que Gar Samuelson e Chris Poland incorporavam no thrash metal da banda, mas sua força bruta criou a camada certa para que Mustaine entregasse algumas de suas melhores composições, com riffs musculosos (“Set the World Afire”) e progressões intensas (“Mary Jane”, “Hook in Mouth”).

Alexandre: De certa forma, So Far, So Good… So What! resume o que a banda se tornaria no futuro. Um projeto de Dave Mustaine disfarçado de grupo. Às voltas com a demissão de dois de seus antigos companheiros e contando apenas com o quase eterno companheiro Dave Ellefson, Mustaine só vai encontrar-se novamente tão senhor de todas as rédeas do conjunto a partir do momento em que a fase mais clássica do grupo (com Friedman e Nick Menza, que viria a seguir) ruiu. No meu entendimento, So Far, So Good… So What! peca por contemplar uma fase desfavorável e certamente muito conturbada na vida do Sr. Megadeth. Ainda assim, tem um diamante de grande quilate musical chamado “In My Darkest Hour”, um excelente guitarrista (Dave sempre esteve ao lado de grandes músicos das seis cordas – não é diferente com Jeff Young) e uma boa faixa instrumental na abertura do álbum. Para mim, o restante do trabalho está abaixo do que ele poderia produzir e mesmo uma versão de “Anarchy in the U.K.” que considero melhor que a original (o que não é nenhuma vantagem, pois nunca tive apreço pelo chamado gênero punk) não faz este álbum próximo em qualidade aos que o sucederiam. O solo de guitarra de Steve Jones (do próprio Sex Pistols) na faixa beira o constrangedor. Isso não faz deste So Far, So Good… So What! um álbum ruim, não é isso, mas eu não o indicaria.

André: O Megadeth é uma das poucas bandas com uma discografia longa, mas que cerca de 80% de seus discos valem a pena serem ouvidos. Entre os primeiros álbuns, este meio que passa batido, mas ainda assim é cheio de faixas poderosas vindas da cachola de Mustaine, na época ainda tinindo de raiva por ter sido expulso do Metallica.”Set the World Afire” e “Liar” são thrashes dignos de deixar o pescoço doendo. Boa época em que Mustaine fazia thrash, hoje é só mais tradicional.

Bernardo: O mais fraco dessa primeira fase do Megadeth, inferior até mesmo à estreia Killing is My Business… And Business Is Good (1985) Mas “Anarchy in the U.K.” é um cover divertido, que mostra como o thrash deve ao punk mesmo com o nariz empinado dos headbangers, e “In My Darkest Hour” é uma grande música.

Christiano: So Far, So Good… So What! é um grande álbum, mas não considero que seja um dos melhores do Megadeth. Um dos motivos disso, em minha opinião, é a qualidade da gravação, que deixa a desejar para os padrões da banda. Isso pode ser só uma implicância minha, sem relevância, admito. Por outro lado, não tem como ignorar músicas como “In My Darkest Hour”, “Mary Jane”, “502” e “Liar”, (que lembra muito “Skin o’ My Teeth”, de Countdown to Extinction, 1992). No disco seguinte, a banda conseguiria estabelecer sua melhor formação e registrar seu período áureo. Considero So Far, So Good… So What! como uma transição para esse ápice criativo do Megadeth.

Davi: Adoro essa fase do Megadeth. Considero este LP não apenas um clássico do Megadeth, mas um clássico do gênero. Uma aula de thrash metal. Simples assim. Ótimo trabalho de guitarra, músicas pesadas e empolgantes. Qualquer fã que se preze já ouviu, ao menos uma vez na vida, faixas como “Hook in Mouth” e “In My Darkest Hour”. Sim, a versão de “Anarchy in the U.K.” é destruidora, mas há outros momentos não menos brilhantes em faixas como “Set the World Afire”, “502” e “Liar”. Indispensável na coleção de quem curte heavy metal.

Diogo: Houve um tempo em que considerava So Far, So Good… So What! meu álbum favorito do Megadeth. Tanto que, após a compra da coletânea Capitol Punishment: The Megadeth Years (2000), So Far foi minha primeira aquisição do grupo. Hoje em dia, sei muito bem que Peace Sells… But Who’s Buying? (1986) e Rust in Peace (1990) são insuperáveis, mas ainda guardo So Far com muito carinho. Além de ter gostado demais de “In My Darkest Hour” (presente na coletânea citada), uma aula de como criar uma balada heavy metal sem soar forçada, a sequência “Into the Lungs of Hell”/”Set the World Afire” me impressionou demais. Até então, havia ouvido poucas coisas tão pomposamente empolgantes quanto aquela introdução e poucas coisas tão extremas quanto os violentos riffs que abrem “Set the World Afire”, talvez a primeira música composta por Dave após ser chutado do Metallica. Só isso bastaria, mas o álbum ainda traz “Hook in Mouth”, baita faixa destacando o trabalho em dupla de Dave e Jeff Young, e um cover esperto para “Anarchy in the U.K.”, que em nada contradiz a crescente capacidade técnica do grupo, cada vez mais alta. Alerta: cuidado com remixagens deste álbum. Por mais que a qualidade sonora do original não seja das melhores, mudanças posteriores acabaram destacando certos elementos que fazem com que haja diferenças bastante sensíveis de um registro para outro. Cabe ao ouvinte julgar qual é seu favorito.

Fernando: Não esperava ver este disco aqui. Dos primeiros dez anos de carreira da banda, So Far certamente é o álbum menos inspirado. Mesmo a tosqueira de Killing Is My Bussiness… fica à frente dele. A introdução instrumental “Into the Lungs of Hell” é fantástica. Deveriam tocar ela na abertura de todos os shows. Fora isso, apenas “In My Darkest Hour” é digna de nota e não ficaria deslocada em um setlist atual.

Flavio: O terceiro do Megadeth é um prenúncio de que a banda acertaria o passo um pouco mais à frente. Há momentos interessantes e outros nem tanto. Apesar de tecnicamente muito bem tocado, as composições não são muito inspiradas. O vocal de Mustaine, ainda amadurecendo para se tornar suportável, incomoda em várias partes do disco, como no começo de “502”. A presença de dois recém contratados (bateria e guitarra) não ajuda muito, já que poderia haver um melhor entrosamento com o excelente Jeff Young. O álbum carece de mais passagens melódicas em conjunto ou em contraponto, ponto forte do Megadeth a partir dos anos 1990. Não gosto de “Mary Jane”, “502”, da faixa de abertura e também dispenso a cover consagrada pela galera de “Anarchy in the U.K.”. Meus destaques são a boa “Hook in Mouth” (com os contrapontos entre as guitarras) e a excelente “In My Darkest Hour”, disparada a melhor canção. Como não o considero um disco de destaque da banda, não o colocaria na edição dedicada aos melhores de 1988.

Mairon: Essa fase inicial do Megadeth é matadora. O que Mustaine criava em suas seis cordas é algo que não tem comparações. Excluindo o cover de “Anarchy in the U. K.”, fraquinho por sinal (o Green Jelly fez algo bem melhor no clássico Cereal Killer Soundtrack, 1993), So Far, So Good… é paulada atrás de paulada, sendo impossível não se viciar nas linhas perturbadoramente desafiadoras de “Set the World Afire”, sair pulando pela casa com a animalesca “502”, pegar uma air guitar e sacudir a cabeleira (mesmo que não mais existente) durante “Liar” ou estufar o peito para cantar em altos brados as frases cuspidas de “Hook in Mouth”, deixando seu vizinho funkeiro atônito com tanta voracidade. São criações exclusivas na discografia do Megadeth, mostrando por que a banda ainda hoje é respeitada e condicionada a ser uma das maiores do estilo. Destaque ainda para a belíssima melodia de “Mary Jane”, faixa que não entendo por que muita gente acaba torcendo o nariz, e o supermegacolossal clássico do disco, a aula de fazer thrash metal chamada “In My Darkest Hour”, que ensinou muito menino do final da década de 1980 como criar um riff para grudar na mente do vivente. Ah, e antes que eu me esqueça, só a instrumental “Into the Lungs of Hell” já é muito melhor do que a atrocidade que ficou na primeira posição da lista desse ano, que, tirando o primeiro colocado e o Bon Jovi, até que não foi das piores. A formação com Jeff Young nas guitarras e Chuck Behler na bateria, além dos dois Daves, durou apenas este álbum, mas fez um baita registro. Uma pena que ele seja tão curtinho. Baita lembrança, menino Ulisses.

Ronaldo: Guitarras voando, um som 100% raivoso, mas tem horas que ele apenas soa pesado, sem mais nada a destacar. E nem sempre esse peso vem das composições, da força da música, mas sim do uso de repetidas camadas de guitarra. Os vocais de Dave Mustaine não são lá grandes coisas, o timbre de bateria mostra como a qualidade das gravações dos discos na década de 1980 caminhou para trás e o disco é cansativo, pelo uso continuado dos mesmos elementos. “In My Darkest Hour” é a que mais surpreende quem está fora do universo da banda.


Riot – Thundersteel (1988)

Ulisses: No período do metal oitentista, várias bandas da cena norte-americana levaram o som da dominante NWOBHM para ares ainda mais velozes e pesados, mas que não chegavam a soar tão porradeiros quanto o thrash metal ou tão melódicos quanto o power metal europeu. Nessa década, grupos como Crimson Glory, Manilla Road, Manowar e Omen faziam parte do chamado power metal norte-americano (USPM) e, com Thundersteel, o Riot também entrou nesse barco. Notas vocais altíssimas, refrãos memoráveis, velocidade a mil e solos de guitarra derretedores de faces abundam neste álbum, batendo de frente com a revolução que os dois Keeper of the Seven Keys (Helloween, 1987 e 1988) faziam na mesma época. Taí um disco que qualquer pessoa que diz gostar de heavy metal não pode deixar passar.

Alexandre: Essa banda me passou completamente à margem durante os anos 1980, imagino que tenha realmente ficado no segundo (ou terceiro, quarto…) escalão dos casts das gravadoras de metal da época. Esta nova série nos dá a oportunidade de conhecer alguns álbuns que certamente não mereceriam uma pontuação necessária para chegar entre os finalistas, pois imagino que a escolha do Ulisses neste caso é muito pessoal. Apesar de provavelmente ser considerado datado por muitos aqui (o que não deixa de ser verdade), gostei bastante do que ouvi. Não é o suficiente para que eu possa entender este álbum como um dos finalistas de seu ano, até por que nas demais listas de outros consultores para 1988 há outros bons álbuns que poderiam substituir alguns dos que chegaram à votação final. No entanto, tentando fazer uma análise isolada de Thundersteel, o vocal é excelente e o instrumental muito competente. Há ótimos solos, boas linhas de baixo, bateria bem encaixada e adequada ao estilo. O vocal tem alguns dos exageros dos anos 1980, lembra-me um pouco Michael Sweet, do Stryper (igualmente talentoso, igualmente exagerado em alguns momentos). As três primeiras faixas me agradaram bastante, principalmente “Sign of the Crimson Storm”. As demais se alternam em qualidade, mas em um bom nível. Destaco também a faixa “Johnny’s Back”, com um final bem legal. Valeu a dica.

André: Sei que o Ulisses adora o Riot, também gosto, embora ache alguns discos deles meio irregulares. Thundersteel é bonzinho, tambem é o mais famoso deles, mas acho Narita (1979) e Nightbreaker (1993) melhores. É bom de ouvir, embora me soe um tanto genericão. Porém, as vezes, é bom sentir o mesmo “gosto” com o qual estamos sempre acostumados.

Bernardo: Há literalmente 1000 discos mais influentes, mais fundamentais e mais relevantes que eu colocaria antes de colocar o hard/heavy genérico e de segundo escalão dessa banda.

Christiano: Não conhecia este álbum do Riot, embora goste muito de discos como Narita e Fire Down Under (1981), mais voltados para o metal tradicional. Thundersteel segue outra linha, mais power metal, além de contar com uma formação diferente, com Tony Moore substituindo Guy Speranza nos vocais, além de novos baixista e baterista. O vocal bastante exagerado de Tony chega a incomodar um pouco. Faixas comoSign of the Crimson Storm” e “Bloodstreets” são bem interessantes, mas, no geral, Tony Moore e Bobby Jarzombek conseguem fazer o disco soar bastante genérico já para aquela época.

Davi: Conheço e gosto do Riot, mas nunca me aprofundei na sua discografia. Tenho um álbum ou outro. Este, em especial, não conhecia. Disco bem bacana explorando aquela sonoridade power/speed. Sonoridade típica dos anos 1980 com referencias de Judas Priest, Saxon, Iron Maiden… Bons riffs de guitarra, vocal explosivo, mixagem típica da época. Ótimo álbum! Faixas de destaque: “Thundersteel”, “Flight of the Warrior” e “Buried Alive”.

Diogo: Essa é daquelas escolhas que o cara sabe que refletem algo totalmente particular, sem relação com qualquer escala de importância, inovação ou quaisquer outros critérios que fingem objetividade mas ainda são muito subjetivos. Ficaria admirado com quem não tem especial apreço por algumas obras assim. Pro meu gosto, felizmente, Thundersteel é um belo álbum, que pouco ou nada deve em relação ao grande Fire Down Under. A vaiante norte-americana do power metal pode soar datadíssima hoje em dia e na época já dava sinais de desgaste, mas é difícil gostar de heavy metal e não se empolgar com as levadas velozes da faixa-título, de “Flight of the Warrior” e “On Wings of Eagles”. Tony Moore é daqueles vocalistas que desgradam a muitos, mas até que aprecio seu trabalho, não tanto quanto o do baterista Bobby Jarzombek, que ainda evoluiria muito e se tornaria um músico requisitado. O grande protagonista, no entanto, é Mark Reale, um guitarrista de mão cheia desde os tempos de Rock City (1977) e que entrega uma performance pra fazer inveja em muito músico mais reconhecido. “Fight or Fall” e “Sign of the Crimson Storm” mostram um Riot mais cadenciado e também agradam muito. “Run For Your Life”, por sua vez, lembra o Riot mais hard ‘n’ heavy, com Guy Speranza no vocal. Gostei da escolha.

Fernando: Este é um clássico esquecido dos anos 1980. Esquecido porque todas as vezes em que alguém cita o Riot invariavelmente lembra de Fire Down Under, que também não é reconhecido à altura. Creio que a inconstância de seu line-up atrapalhou muito a banda do saudoso Mark Reale.

Flavio: Um bom salto no tempo e aparece o Riot com um disco de heavy metal clássico. Nunca prestei a atenção no Riot e vejo méritos na bolacha. Gosto do vocal de Tony Moore, que em alguns momentos até me lembrou Rob Halford dos anos 1970 (Stained Class/Hell Bent For Leather, ambos de 1978) e em outros traz beleza nos tons mais graves, como em “Sign of the Crimson Storm”, minha faixa predileta do disco, junto com “Bloodstreets”. A banda está bem coesa, com bons trabalhos de guitarra e da cozinha, sem muitos destaques, porém. Um fato a colocar é que o disco foi lançado em pleno auge do hair e do thrash Metal, soando até um pouco “ultrapassado” para a época, não que isso desmereça o seu bom resultado. A ressalvar um pouco a produção, que traz a bateria um pouco acima dos outros instrumentos. No geral, o disco prescinde de mais peso, principalmente trazendo a guitarra base um pouco mais para a frente e também alguns coros tipo “galera” que ficam meio esquisitos. Vejo coisa melhor em 1988 que este disco do Riot.

Mairon: Boa banda metálica, explorando uma bateria veloz e riffs grudentos. Não curti muito os vocais de Tony Moore, que parece Rob Halford, mas é exageradão. Aliás, achei a banda com muita influência de Priest em diversas músicas, com pitadas de Saxon dos bons tempos, mas confesso que não sei se é algo positivo no geral. Por outro lado, Mark Reale é um guitarrista fantástico. Curti muito o álbum, principalmente as faixas “Thundersteel”, “Flight of the Warrior” e “Run for Your Life”, e só achei desnecessário oito minutos para “Buried Alive (Tell Tale Heart)”, cuja introdução já era suficiente. De qualquer forma, entraria fácil no lugar do Queensrÿche, vencedor da edição dedicada a 1988, mas não sei se, no geral, seria uma boa indicação. 

Ronaldo: A serra elétrica já é ligada nos primeiros dez segundos do álbum, quando somos recepcionados por um discípulo de Rob Halford, berrando a plenos pulmões. A bateria e as guitarras são brutais; o baixo, praticamente inaudível, não há como destacar ou criticar; as interações entre as batidas e o riffs são bastante inteligentes… Mas ao se ouvir as três primeiras faixas o ouvinte fica com a sensação de já ter escutado o disco todo. Toda a bagagem de ideias do grupo está compactada nessas três faixas. O restante são variações em cima do mesmo tema. Entendo com clareza a fidelidade do fã de heavy metal a seu estilo. Ele adora tanto um estilo específico de compor, cantar e tocar o rock que ele fica extremamente satisfeito quando as bandas lhe oferecem um álbum inteiro com todas as músicas compostas, cantadas e tocadas nesse estilo, sem absolutamente nada que o surpreenda. Portanto, deveria ser visto com naturalidade por esses mesmos fãs as críticas que surgem de alguém de fora do estilo. Se a pessoa não for capturada por aquele som logo de imediato, não há como apreciar tanta repetição.


Korn – Korn (1994)

Ulisses: Eu já esperava que o nu metal não fosse dar as caras na série. A presença de quatro discos do Slipknot no decorrer das edições já foi algo meio extraordinário, mas abre as portas para que ao menos façamos justiça ao pioneiro do gênero. Diferindo do estilo tradicional de se fazer heavy metal, o protagonismo instrumental em Korn é todo do baixo e da bateria, com as guitarras tendo o papel de ajudar ainda mais no groove e nos efeitos. Paralelamente, Jonathan Davis não tinha receio de mostrar seu lado vulnerável, escancarando nas letras todo o bullying que sofreu na vida e todos os traumas que adquiriu. Em “Daddy”, por exemplo, ele detalha o abuso sexual de que foi vítima na infância e termina chorando incontrolavelmente por quatro minutos na cabine de som, enquanto Ross Robinson acenava para que a gravação continuasse rolando – os outros membros olhavam um para a cara do outro, sem saber direito o que acontecia. O nu metal pode ter decaído a ponto de se tornar algo de qualidade duvidosa pouco tempo depois, mas em Korn sua essência ainda era autêntica e impactante.

Alexandre: Nunca gostei desse intitulado estilo nu metal, mas respeito a escolha. Primeiro por ser, pelo que pesquisei, provavelmente o precursor na forma mais pura do gênero em questão. O que significa, sem dúvida, ser um divisor de águas e responsável por influenciar centenas de bandas desde então. Ainda que grupos anteriores já viessem trazendo elementos da cena (como o Faith No More, por exemplo), ao que parece todas as maiores características dessa típica sonoridade aparecem por aqui de forma mais latente. Guitarras de afinação super baixa, competindo em frequência com o baixo, caixa de bateria super aguda, inexistência de solos, vocal super agressivo, letras tão ou mais agressivas e controversas e por aí vai. O segundo ponto a favor vai para o fato de, comparando com bandas como o Slipknot, o vocal ser menos gutural e, por consequência, mais fácil de compreender em boa parte do trabalho. Dou algum crédito também por haver algum momento instrumental até interessante no meio da pancadaria, mostrando que os músicos têm lá suas habilidades. Se eu tivesse de destacar algo, o faria com as faixas “Predictable” e “Blind”, mas confesso que, para o meu gosto pessoal, foi difícil ouvir este álbum de estreia do Korn em uma tacada só. Ainda assim, é correta a lembrança dele, ainda que seja por pelo menos um dos motivos acima citados.

André: Nunca fui lá muito chegado ao nu metal. Ainda assim, respeito quatro bandas do estilo: System of a Down, Linkin Park, Korn e, recentemente, o Slipknot. Quanto ao Korn, é a banda favorita da minha noiva, que já fez o trabalho de me presentear com o último deles, The Serenity of Suffering (2016). Nessa época, a sonoridade era algo novo e não à toa fez muito sucesso. É uma banda que estou curtindo o que vou conhecendo e há faixas não tão famosas que são bem melhores do que seus hits. Neste disco, acho “Faget” muito melhor do que “Blind” ou mesmo que a famosa “Got the Life”. De fato, eles vêm crescendo cada vez mais em minhas audições.

Bernardo: Nunca o Korn foi tão cru e brutal quanto aqui, um álbum pesado e perturbador que aborda de maneira visceral temas pesadíssimos – vício em drogas, abuso infantil, bullying… O Korn capitaneou o nu metal como sucessor do grunge no posto da grande ressaca moral do final do século. “Blind” e “Shoots and Ladders” viraram clássicos do rock noventista, mas quem quer ver o Korn porrada, intenso e raiz, vá na faixa “Daddy”, uma música autobiográfica na qual Jonathan Davis entrega uma performance de corpo e alma. Impossível ter o mínimo de empatia e não ficar arrasado ouvindo este disco.

Christiano: Já na primeira faixa, “Blind”, o som saturado, que seria uma desgraça para boa parte das bandas de metal dos anos 2000 em diante, torna a audição cansativa. Durante o restante do tracklist, fica bem evidente a tentativa da banda em flertar com elementos do hip hop e influências de sons industriais. A afinação baixa, com prevalência de tonalidades mais graves, é outra característica marcante. Ao final da audição, que foi bastante cansativa, relembrei os motivos de nunca ter dado importância para grupos como o Korn, que fazem um som pesado para meninos de shopping center.

Davi: Este é um disco que também acho que fez falta na lista. Trabalho extremamente emblemático. Tem muita gente que não gosta do Korn. Sempre curti. Os caras são ótimos músicos e criaram um som com bastante personalidade. “Ball Tongue” e “Faget” já davam uma dica do que iriam aprontar no futuro. “Blind” e “Shoots and Ladders” são clássicos dos garotos. Também sempre gostei bastante de “Clown”. Outra ótima lembrança!

Diogo: Nunca havia ouvido um disco do Korn na íntegra até o momento em que isso se fez necessário para esta publicação. Conheço muitos hits da banda e aprendi a apreciá-los com o tempo, especialmente graças a “Thoughtless” (Untouchables, 2002), excelente música que chamou minha atenção para o grupo. O Korn do primeiro álbum é muito mais cru do que aquele de Untouchables, mesmo que o de Follow the Leader (1998), que lançou a banda em definitivo para o mundo. A produção de Ross Robinson já está lá, mas sua assinatura ainda não havia atingido o status de caos sonoro no limite do controle e da loucura. Para quem não está habituado, carece de um certo esforço se habituar ao baixo percussivo e nada melódico de Fieldy, ainda mais por estar muito evidente na mixagem, à frente das guitarras e da bateria. Aliás, pouca coisa é convencional no álbum, e isso é um mérito, pois no fim das contas funcionou. Por mais que grupos como Faith No More, Sepultura, Body Count, Anthrax e outros já tivessem lançado algumas bases do estilo que seria denominado como nu metal, creio que tenha sido com Korn mesmo que o subgênero tenha sido parido de vez. Como crítica, destaco o fato de que muitas vezes as levadas soam repetitivas, ficando ao cargo das melodias vocais de Jonathan Davis buscar algum diferencial. Mesmo assim, há muitas faixas marcantes, como “Blind”, “Divine”, “Faget” e “Shoots and Ladders”. Pela importância histórica, sem dúvida o Korn merece menção por aqui.

Fernando: Minha mulher gostava de Korn, Limp Bizkit e outras bandas de nu metal quando a conheci (por volta de 2001). Portanto, eu ouvi muito as músicas desses caras, porém nunca consegui gostar realmente de alguma coisa. Ainda mais que na época eu estava em um início frenético de conhecer bandas de rock progressivo e qualquer outra coisa ficava para trás no meu gosto musical. Mesmo depois de um bom tempo e já entendendo mais a ideia deles, continuo não curtindo.

Flavio: Nada fã do estilo, não era de se esperar que eu conseguisse gostar do álbum de estreia da banda tida como uma das precursoras do nu metal. É difícil encontrar elementos de meu interesse nos longos 60 e tantos minutos do disco, a começar pelo uso constante de vocais urrados e da repetição exaustiva de temas como a guitarrinha gritada, no início de “Ball Tongue” ou em “Need To”. Além disso, apesar de tecnicamente desafiador, há uso de uma espécie de bateria “tribal” que trava a fluência das músicas, como em “Faget”, que também não me agrada. O vocal, quando não é “urrado”, se afunda em um tema de angústia que me causou o mesmo na audição. Enfim, este eu passo e dispensa de uma lista de melhores.

Mairon: Conheci o Korn em 2010, quando vi a banda abrir o show do Ozzy em Paris, e confesso que não fiquei nada entusiasmado com eles. Este é o álbum de estreia do grupo e me fez pensar de onde surgiram nomes como Slipknot, por exemplo. Porém, os mascarados ainda conseguem me passar alguma coisa de “bah, legal ouvir esses caras” em sua música, o que o Korn e o tal do nu metal não me fazem. Ainda bem que não entrou na edição dedicada a 1994, mesmo com coisas insossas como Richie Kotzen e Melvins naquela lista.

Ronaldo: O grande mérito desse trabalho do Korn é provar que é possível fazer rock pesado por outras vias que não aquelas desenvolvidas ao longo de toda a década de 1980, opondo-se a ela. E para conseguir isso, fizeram uma combinação de distintos elementos – batidas oriundas do rap ou do funk setentista, uso frequente de slap bass, guitarras com afinações graves (Jimi Hendrix e Black Sabbath já tinham feito experiências com esse tipo de recurso, usado à exaustão principalmente nos dias atuais) e aquele clima industrial, caótico, que foi o paradigma do rock nos anos 1990. Também souberam usar pausas e respiros com propriedade. A resultante disso não é fácil de ser apreciada, porque a banda não mostra lastro em fazer bons ganchos no decorrer das músicas. Fica apenas ao ouvinte médio a sensação de experimentação, de uma tentativa de apontar novos caminhos, sem necessariamente nos permitir afirmar que a banda chegou lá com este álbum.


Within Temptation – Enter (1997)

Ulisses: O Nightwish emplacou vários registros na série. O Therion também teve suas aparições. Portanto, nada mais justo que outro registro seminal do gênero também dê as caras por aqui; meu favorito de todos, aliás! O Within Temptation foi se enveredando por caminhos cada vez mais comerciais no decorrer no tempo, mas seus dois primeiros álbuns, em especial, são impecáveis e importantes dentro do estilo que ajudaram a popularizar. Enter, em especial, tem uma atmosfera gótica fascinante. A voz de Sharon den Adel, mais moderada que a de suas pares do gênero, é muito graciosa e expressiva, integrando-se perfeitamente ao andamento doom e etéreo do álbum e ao acompanhamento gutural de Robert Westerholt.

Alexandre: Outro estilo que não tem lá uma grande admiração da minha parte, mas essa leva de bandas com vocal feminino e excesso de teclados até traz um ou outro momento que me agrada. No caso do Within Temptation, até acho o álbum de 2007 (The Heart of Everything) bem razoável. Neste de 1997, considero que a banda ainda estava se desenvolvendo como compositores (especialmente) e o instrumental também é bem basicão. Tão básico que é inevitável considerar o que ouvi aqui bastante óbvio. Tão básico que considero ter espaço demais dentro de uma proposta que aponta seu foco para a vocalista (basta ver a capa). A faixa “Gatekeeper” dá espaço demais para o instrumental, que ofusca os poucos momentos de vocal. “Blooded” é, no meu entendimento, desnecessária. Fora o fato de que ter uma voz feminina bonita ao lado de alguém que urra durante os infelizes e exagerados momentos em que aparece “cantando” (entre aspas mesmo) é algo que não faz sentido nenhum pra mim. Eu sei, é outra das características da maioria dessas bandas com vocal predominantemente feminino, mas é uma pena. E até para Sharon den Adel eu tenho algumas reservas nesta estreia, pois acho que seu vocal se desenvolveria bem mais durante a sua carreira, enquanto neste caso apresenta alguns pontos de afinação e ajuste à lingua inglesa (não é seu idioma pátrio) que ficam devendo. No meu entendimento, a edição dedicada a 1997 tem alguns álbuns “osso duro de roer”, mas ao mesmo tempo as listas individuais trazem, sem sombra de dúvida, outros trabalhos melhores que Enter e que ficaram de fora.

André: Gosto da banda, mas confesso que o vocal de Sharon den Adel, ao melhor estilo Sandy, me incomoda um bocado. Ainda assim, a banda oferece um bom disco com Enter, embora eu ache The Unforgiving o melhor trabalho deles (é de 2011, não entraria nesse tipo de matéria, infelizmente). Essa é uma banda em que o acento pop de seu metal sinfônico encaixa bem na proposta, por isso citei este disco como destaque de seu catálogo. Mas voltando ao álbum escolhido, coloco “Deep Within” como a melhor canção do álbum. Na Holanda, sou mais o Epica mesmo.

Bernardo: Fico imaginando como recomendar esse disco, “ei, cara, ouve esse disco aqui. É igual Nightwish, só que ao invés de cantar lírico a mina da banda canta igual à Sandy”. Ou seja, tão sem graça quanto qualquer desses metais góticos com a diferença que você espera que o Júnior comece a cantar “Vamo Pulá” a qualquer momento.

Christiano: É a Sandy? A voz é muito igual! Para quem gosta, deve ser bom. Não é o meu caso. Essa voz de cantora mirim do coral da igreja é muito irritante. Pra piorar, tem algumas partes de vocal gutural, totalmente estereotipado e inexpressivo. Sobre o trabalho de guitarra, baseado em riffs repetitivos e acompanhados por camas e camas de teclados de churrascaria, nem compensa maiores comentários. Juro que tentei escutar e dar uma chance, mas isso aqui é muito ruim.

Davi: Acho essa banda bem legal, mas não curto este disco. Sou fãzaço da Sharon den Adel. Além de gata, a mina manda bem no gogó. Entretanto, em se tratando de Within Temptation, prefiro os álbuns posteriores. Eles já tocavam direitinho, mas acho as musicas daqui meio chatinhas e também não gosto muito da qualidade de gravação deste disco. Em especial, do som de bateria. Acho que o melhor momento é a faixa de abertura, “Restless”.

Diogo: Entre todos os citados, este foi o que menos me agradou. Questão de gosto pessoal mesmo, pois sei que o Within Temptation foi uma das primeiras bandas a obter algum destaque fazendo esse estilo que cresceria bastante no início da década seguinte e infestaria as publicações especializadas. Talvez com uma produção condizente (isto é, muito mais grana investida) as canções atingissem melhor seus objetivos, uma vez que existem boas ideias e a banda até que tem tino pra arranjo, mas do jeito que se apresenta achei Enter um tanto cansativo. Se bem que, se o grupo fosse do meu agrado mesmo, a produção seria um detalhe menor. Exemplo disso é o Nightwish, que me agrada mais em seus primeiros discos do que naqueles pós-Once (2004), ultraproduzidos. A voz de Sharon den Adel não me causou uma impressão das mais positivas, assim como seu colega Robert Westerholt não tem um gutural memorável.

Fernando: Nunca havia ouvido por não ter tido nenhuma vontade antes. Escutei o disco todo e me parece algo com potencial. Porém, me deu um pouco de preguiça de ir atrás dos outros para sacar melhor o grupo. Pode ser algo que venha a me acompanhar em um futuro próximo.

Flavio: Bom, pra mim a coisa desanda aqui. “Excesso excessivo em abundância de um montão” de teclados emulando corais e demais temas sinfônicos, vocal feminino melancólico e masculino extremamente grave/rasgado (descrito como unclean vocal) apagam e abafam qualquer tentativa de suportar o resto do trabalho. Se ainda posso falar mais ainda, digo que o pior é quando o tal unclean vocal resolve aparecer como primeira voz (“Deep Within”), aí ficou difícil – colocar o subwoofer urrado em primeiro plano, com o coro operístico emulado, foi de matar! Vou destacar o que se salva um pouco: gostei um pouco do início e de alguns trechos da (novamente) melancólica “Candles” e de algum trechos de guitarra aqui ou ali (final de “Blooded”). Olha, 1997 tem umas bombas campeãs, mas não consigo botar este em lista alguma.

Mairon: Evanescence bebeu da fonte do Within Temptation, com certeza. Este disco foi um sucesso em 1997, rodava bastante nas rádios (principalmente “Restless”). Gothic metal com vocal feminino não é minha praia, mas até que foi legal ouvir este álbum, principalmente faixas como a instrumental “Blooded”, lembrando filmes épicos medievais, “Pearls of Light”, com uma boa explosão sonora em sua segunda metade, e “Grace”, ótina introdução. Mesmo com toda a sofrida voz da Sharon den Adel estourando as caixas de som, foi tranquilo ouvir o disco, e afirmo que a voz dela é melhor do que aquele gutural terrível que aparece em “Deep Within”. Entraria fácil no lugar de Shania Twain, Racionais MC’s ou até mesmo de Bruce Dickinson. Boa indicação, menino.

Ronaldo: Soa como a versão heavy metal do Renaissance. Belas melodias embaladas por vozes que se alternam bem entre o angelical e o possante, mas exageradamente distorcido, longo demais e épico em demasia. Imagino que sejam, de fato, as metas estabelecidas pela banda, que investiu forte nesses elementos, e sim, mesmo com as críticas que cabem aos excessos, faz isso sobre músicas com forte apelo, capturando a atenção do ouvinte.


System of a Down – Steal This Album! (2002)

Ulisses: Não tem jeito, aqui vai rolar um mea culpa. É que, se eu não houvesse me esquecido de votar em Steal This Album! (na segunda posição, ainda por cima), ele teria figurado na edição dedicada a 2002 com tranquilidade. Mas fica aí o peso na consciência dos meus colegas que também não colaboraram: foi o único disco do SOAD que não figurou na série, mesmo contando com porradas imperdíveis como “Innervision”, “Boom!” “A.D.D” e “Mr. Jack”.

Alexandre: O álbum parece ter passado meio batido entre os outros trabalhos da banda que tiveram destaque descomunal na carreira do System of a Down, de tal forma que o próprio Ulisses esqueceu de incluí-lo entre os seus dez mais de 2002. Mas este disco, feito com boa parte das sobras do álbum anterior, e cujas faixas vazaram pela internet, também compete em qualidade com os demais que apareceram na série (Toxicity, Mezmerize e Hyptnotize). Também vendeu horrores; acontece que tanto Toxicity (2001) quanto Hypnotize (2005) fizeram da sua própria performance comercial algo quase trivial. E olhando a lista final de 2002 e até as individuais daquele ano, ele entraria com certa folga, no meu entender. Os backing vocals de Daron estão mais presentes do que em Toxicity, uma prévia do que seria a sequência nos álbuns lançados em 2005. Várias músicas trazem o melhor do DNA do System, como “Chic ’N’ Stu”, “Boom!”, “Nüguns”, “I-E-A-I-A-I-O”, “Highway Song”, “Roullete”, “Streamline” e por aí se segue. Não faz sentido os demais álbuns da banda aparecerem e este ter ficado de fora. Achei muito oportuna a lembrança, sem dúvida.

André: Junto com Hypnotize, é o disco mais fraco deles, Particularmente, não creio que tenha cacife para competir com os álbuns de seu ano de lançamento e mesmo com os outros de sua própria banda. “Mr. Jack”, “Ego Brain” e “I-E-A-I-A-I-O” é o que dá para aproveitar desse disco, ensanduichado entre dois álbuns muito bons. 

Bernardo: Tem aquela sensação de álbum incompleto e saturado que muitos discos lado B e de sobras têm, mas ao mesmo tempo ainda é um álbum do System of a Down em sua melhor fase, e o SOAD em sua melhor fase é uma das bandas que moldaram o som dos anos 2000, o que quer dizer que “Chic ‘N’ Stu”, “Innversion”, “Boom!” e “I-E-A-I-A-I-O” são algumas das experiências de rock recente mais revolucionárias que você terá.

Christiano: Cheguei a indicar este disco em minha lista individual do ano de 2002, mas reconheço que ele não é um consenso nem mesmo entre os admiradores da banda. Como tudo que o System of a Down produziu em sua breve carreira, podemos perceber em Steal This Album! todos os elementos responsáveis por alçar a banda à posição de um dos grupos mais criativos de sua geração: um imenso campo de influências musicais, ótimas composições, inventividade e originalidade. Difícil destacar alguma faixa, mas “Nüguns”, “Mr. Jack” e “Pictures” merecem ser mencionadas. No mais, mais um grande álbum daquela que considero ter sido a última grande banda a conseguir reconhecimento fora do nicho dos grupos de metal, com imensa qualidade e competência.

Davi: Honestamente, acho que o System foi bem representado na série. Os discos que foram divisores de carreira marcaram presença. Eu, particularmente gosto muito da banda, os acho muito criativos e, logo, gosto do CD. O álbum é System puro. Pesadinho, bem tocado, repleto de experimentos malucos. O hit deste disco, “Boom”, nunca me atraiu, há contudo momentos interessantíssimos como “Chic ‘N’ Stu”, “Innervision”, “I-E-A-I-A-I-O” e “Pictures”. Trabalho bacaninha…

Diogo: O System of a Down é uma banda tão boa que até seu álbum menos memorável, com cara de disco de sobras, dá as caras aqui com os maiores méritos possíveis, uma vez que teria aparecido na edição dedicada a 2002 caso o próprio Ulisses não houvesse esquecido dele. Eu fiz minha parte e talvez devesse tê-lo citado em posição ainda melhor. Em uma época na qual o intervalo de tempo entre lançamentos já andava mais estendida, Steal This Album! saiu meros 14 meses após Toxicity, disco que mudou de vez a vida do quarteto e o lançou ao mundo, para a alegria daqueles que estavam carentes de música excitante que aliasse peso e criatividade. Pois é bem isso que há no decorrer do longo tracklist de Steal This Album!, muita insanidade da melhor estirpe condensada em faixas curtas e sem firulas, entre as quais é difícil apontar destaques. Na dúvida, pode passar direto para aquelas em que a violência é mais explícita, como “A.D.D.”, “Pictures” e “Fuck the System”, mas não deixe de conferir o clima Sepultura de “Innervision” e os quase hits “Boom!” e “I-E-A-I-A-I-O”. Tomara que esses caras larguem de frescura e soltem logo um álbum novo, pois já se vão quase 12 anos de Hypnotize.

Fernando: Começa bem: riffs, peso e um caos organizado. Porém, com o passar do disco, essas coisas vão ficando emboladas e não dá para saber se é riff, peso ou só caos mesmo…

Flavio: Sempre com um trabalho surpresa, às vezes agradável, às vezes não, o System of a Down é inegavelmente uma banda com criatividade à flor da pele novamente em Steal This Album!. Os pontos que não gosto são o vocal “trêmulo”, no estilo libanês/arábico/armênico , também às vezes “urrado” em demasia. O tom musical quando se aproxima muito da influência armênia poderia permear a bolacha e me parece exagerado. Há pontos bem positivos quando Daron Malakian canta mais tradicionalmente e a banda toca muito bem. O baixo seguindo a melodia em alguns momentos é bem interessante, e há uso coerentemente contido de outros instrumentos de corda como viola e mandolim. Acho que pontos de ironia musical e lírica são interessantes, mas poderiam ser “toques aqui e ali”, e passam do ponto em alguns momentos. Para ilustrar um pouco do que disse, gostei de “Mr. Jack”, “Ego Brain” e de boa parte de “Thetawaves”, mas não gostei do refrão de “I-E-A-I-A-I-O” e da irônica “36”, por exemplo. Um disco interessante apenas, mas eu facilmente o trocaria pelo Nightwish em 2002.

Mairon: Depois do sucesso estrondoso de Toxicity, o SOAD veio com mais um belo disco, mantendo as linhas tradicionais de seus dois antecessores e fazendo muito pescoço quebrar mundo afora. Mesmo quando eles mudam a sonoridade, como na pesada “Ego Brain” e “Roulette”, o resultado final é muito bom. Curto muito faixas como “Innervision”, “A.D.D. (American Dream Denial)”, “Fuck the System” e “Streamline”, todas faixas enérgicas, impactantes, furiosas e capazes de te colocar em choque com a pancadaria que come solta. Acima de tudo, principalmente a complicadérrima “I-E-A-I-A-I-O”. O que Serj Tankian faz nessa faixa é um absurdo. Aqui você realmente deu uma dentro, menino. Faltou este disco naquela lista tosca de 2002. Daria um tempero bem melhor para ela.

Ronaldo: Não dá para levar isso a sério. Parece que há quinhentas guitarras tocando uma maçaroca sonora por cima de vocais cômicos que, de vez em quando, alternam-se para as baladinhas mais insossas da década. Ainda estamos no primeiro mês do ano, mas esta foi, de longe, a pior coisa que escutei desde a virada do ano (incluindo as audições não espontâneas da música dos meus vizinhos e as FMs dos táxis).


Tuatha de Danann – Trova di Danú (2004)

Ulisses: Minha relação com o Tuatha é meio estranha, porque eu nunca fui entusiasta do folk metal, mas mesmo assim topei com Trova di Danú bem cedo na minha formação metálica e logo percebi que estava diante de um álbum incrível, e ainda por cima nacional. Não por menos, os mineiros tocaram no Wacken Open Air durante a turnê deste disco e impressionaram muita gente por lá, fazendo do grupo um “orgulho nacional” durante sua existência. E não poderia ser diferente, pois a banda equilibra com competência a beleza das melodias celtas com o peso do heavy metal, trabalhando as composições de maneira a evitar os excessos do gênero sem, por outro lado, deixá-las simples demais. Duvida? Ouça “The Land’s Revenge” e tente não deixar o queixo cair no chão. Desnecessário citar destaques em um álbum cujo tracklist é impecável, mas devo dizer que “Land of Youth” e “Spellboundance” são de chorar de tão lindas.

Alexandre: Uma banda com muito talento, não há o menor questionamento acerca disto. Bons vocais, divididos entre os músicos da banda, com timbres diferentes e interessantes. Os elementos celtas estão ali para fazer a diferença, trazer uma característica mais própria para o Tuatha de Danann. Não é o que mais me interessa no trabalho, ainda que sejam executados de forma bastante apropriada. Isso acaba por ser um problema, pois os arranjos de flauta e demais instrumentos de sopro me soam meio enfadonhos e são o que deveria chamar mais atenção de forma positiva. Saltou-me bem mais aos ouvidos as harmonias criadas durante todo o álbum, o toque de Yes em alguns momentos mais leves, como em um trecho mais ao final da faixa “Land of Youth” e os momentos nos quais as excepcionais guitarras se destacam na mixagem, como no trecho final de “Believe: It’s True”. A faixa curtinha “The Olghma’s Reel” é uma aula de baixo. Em resumo, não há nada de errado com a proposta, pelo contrário, trata-se de um super grupo, apenas não me motivei a ouvir novamente além das vezes quando o escutei para avaliá-lo. No entanto, é muito bom saber que ainda há tanta qualidade em nosso país, onde somos atacados por tanta porcaria. A faixa final deixaria Ian Anderson do Jethro Tull com um sorriso de orelha a orelha. Não seria nenhum exagero que eles estivessem na edição dedicada a 2004, que no meu entender foi um ano fraco.

André: Bela lembrança do Ulisses. É até curioso sabermos do fato de que são brasileiros fazendo folk metal europeu, mas acho eu que eles não fizeram feio a outros nomes do estilo, tais como Skyclad e Cruachan. Particularmente, adoro Tingaralatingadun (assistam o clipe hilário para The Dance of the Little Ones”), de 2001, mas Trova di Danú se segura muito bem com faixas que se focam em leveza, várias passagens acústicas e as tradicionais canções dançantes. Ah, sim, é um disco bem mais leve (mais folk que metal) se comparado com outros álbuns deles.

Bernardo: Não curto muito folk metal, então não me disse muita coisa.

Christiano: A ideia de misturar música folk com metal não é novidade (o Skyclad que o diga). No caso do Thuata de Danann, a escolha por um tipo de folk celta funcionou bem com as sonoridades mais pesadas. Claro que isso soa bastante curioso para uma banda do interior de Minas Gerais, mas mostra também o quanto a música é uma linguagem universal. A abertura do disco com “Bella Natura” é muito interessante, com uma ótima performance dos músicos e do vocalista, que imprime um ar meio cômico às letras. Percebi alguns toques de folk norte-americano em “Land of Youth”, uma faixa meio country. “The Lands Revenge” é outra boa música. Este é o típico disco que não entraria em uma lista minha, mas achei a audição divertida.

Davi: Ótima surpresa. Muita gente comentava comigo sobre essa banda, mas por algum motivo nunca havia me dado ao trabalho de ouvir. E, realmente, fiquei bem impressionado. Excelentes músicos, bom trabalho vocal, projeto bem elaborado e com bastante personalidade. Os rapazes resolveram misturar heavy metal com música celta. Os arranjos possuem uma forte influência de progressivo (ao menos neste álbum, não conheço a discografia deles), e o resultado final ficou bem interessante. Só não curti a participação de Victor Rodrigues (Torture Squad) em “The Wheel”. Dedicarei um tempo pesquisando mais coisas da banda. Valeu pela dica, Ulisses.

Diogo: Uma das primeiras coisas de que o Tuatha de Danann me lembra é o fato de que a banda era empresariada por Airton Diniz, editor-chefe da revista Roadie Crew, que dava grande destaque aos mineiros em suas páginas. Isso não tem nada a ver com a capacidade dos músicos, trata-se apenas de uma informação relacionada ao status que o grupo obteve nos primeiros anos da década passada. Até porque, convenhamos, os caras são bons no que fazem e atingem seus objetivos. Ao contrário da maioria das bandas de heavy metal brasileiras daquela leva da segunda metade dos anos 1990 e da primeira metade da década seguinte, o Tuatha de Danann tinha tino para arranjos, algo que já os diferenciava muito. Da minha parte, nunca fui muito chegado em melodias celtas – pelo menos aquilo que músicos contemporâneos e cinema vendem como celta –, mas seria estúpido em dizer que o grupo não faz sua fusão com heavy metal de maneira competente. Gostar disso é outra história. Inclusive, em alguns momentos, o heavy metal é deixado bem de lado, como em “Land of Youth”. Alguns podem achar errado o fato de uma banda brasileira tocar uma música de inspiração em um folclore tão distante da nossa realidade, mas pra mim isso é bobagem. Limitações geográficas jamais devem ser limitações artísticas. Uma banda de Curitiba pode buscar inspiração no black metal norueguês, assim como um grupo finlandês pode homenagear o Ratos de Porão. De um jeito ou de outro, todos têm um pezinho naquela terra banhada pelo Mississipi e seus afluentes.

Fernando: Já ouvi Tuatha de Danann e gostei, depois ouvi de novo e não gostei. Não me lembro se era o mesmo disco, pois deixei no shuffle, coisa que eu não costumo fazer. Já vi críticas sobre eles a respeito do fato de eles acrescentarem o folk em suas músicas, mas não o folk nacional e sim importar o celta. Ainda não tenho opinião formada sobre isso, afinal eles e outras centenas de bandas importam a língua em que cantam suas músicas e isso não me parece um problema. E isso acontece com bandas de praticamente todos os países. Nessa nova audição, eu gostei do que ouvi, principalmente das passagens mais progressivas.

Flavio: No começo do disco, peguei um imediato telementaltransporte para uma época pré-histórica. Aí me lembro que naquele tempo não existia bateria, baixo elétrico e guitarra distorcida, antes de Cristo. E depois disso tudo, vi que o que acontece saiu do Sul de Minas Gerais! Muita doideira para minha cabeça, que aos pouco foi digerindo bem o disco do Tuatha de Danann. Ok, tem alguns pontos meio fora de meu gosto, como aquele coral “viking” em “Lover of the Queen” e um tecladinho chato em pedaços do álbum, mas a bolacha tem bastantes pontos fortes, como um vocal de timbre agradável, o uso dos instrumentos folk bem colocado para acentuar o tema principal do estilo. Bons solos e riffs de guitarra (na ótima “The Land’s Revenge”), boas melodias “florestais”, boa cozinha, com baixo se posicionando bem (como no meio de “Land of Youth”), enfim, uma ótima performance da banda como um todo em agradáveis composições. Dá pra trocar o Nightwish de novo em 2004?

Mairon: Essas bandas do progressivo nacional pós-anos 1990 têm muita coisa em comum, principalmente no estilo de sintetizadores que utilizam e nas batidas quase eletrônicas de bateria. O Tuatha tem influências celtas (a faixa-título é o melhor exemplo disso) em sua música, que é o diferencial, além de ser um pouco ligado ao metal, não como o Dream Theater, mas de maneira própria, só que não consegue me agradar. Acho que é muita informação para minha mente, e isso atrapalha a apreciação do conjunto. Se ficasse só nas inspirações jethrotullianas das introduções de “The Wheel” e “Lover of the Queen”, ou da curtinha “Oghma’s Rheel”, estaríamos em outro mundo, massssssssss… Prefiro passar a próxima recomendação sobre qualquer disco dessa banda.

Ronaldo: A competência instrumental do grupo fica clara desde os primeiros segundos deste trabalho de 2005; contudo, a proposta dessa banda me soa tão estranha quanto estar analisando a música de um quarteto japonês de bossa nova cantando em português. Me parece que o grupo procura se apropriar de algo que nunca os pertencerá; por mais que o som dê a impressão do quanto a banda mergulha em mitologias e culturas de outros povos, um estranhamento permeia toda a audição deste disco. Ainda que a linguagem do rock seja universal, as temáticas e o toque étnico que a banda tenta impor ao ouvinte não convencem quem seja indiferente a seu som. Ainda gostaria de ver o rock se debruçar com tanto afinco e qualidade, como o Tuatha de Danann o faz por mitos europeus, pelos povos indígenas do Brasil. Ainda sim, o trabalho tem qualidades de sobra, com ótimas variações de climas, uso de instrumentos acústicos e um forte trabalho de conjunto.


Shaman – Reason (2005)

Ulisses: Eu nutro uma verdadeira idolatria pela carreira do Shaman. Ritual (2002), Reason e o DVD RituAlive (2003) estão eternamente gravados na minha memória, tamanho o número de audições repetidas que realizei. Sou daqueles que consideram Reason um disco tão bom quanto Ritual, a despeito da mudança no direcionamento musical, em que a banda se aproxima ainda mais do heavy metal tradicional e adiciona discretos toques góticos no som. “Innocence” é a mais bela composição em que a voz de Andre Matos já figurou, enquanto Hugo Mariutti se mostra ainda mais confortável em seu posto de único guitarrista, vide o petardo “Trail of Tears”. Uma pena que o Shaman se desfez após apenas dois discos, pois o nível dos caras era altíssimo, e a formação que veio depois, embora também querida por mim, não chega aos pés (fora o absurdo de terem mantido o nome Shaman). Se Ritual figurou na lista dedicada a 2002, por que não este em 2005?

Alexandre: Cara, o que aconteceu com a voz do Andre Matos? Pouco conhecedor da carreira do músico na sua fase pós-Angra e quase não tendo ouvido o álbum Ritual, tomei um susto ao escutar a faixa inicial. E pra confundir mais ainda, a banda optou por regravar uma cover de uma música do Sister of Mercy (“More”), algo bastante peculiar e inesperado. Ficou melhor, sem aqueles backing vocals femininos que pareciam ser das irmãs da Tina Turner. Mas, sinceramente, até “More” (terceira faixa) achei realmente que a banda havia trocado de vocalista. Uma audição um pouco mais atenta e percebi que se tratava de Andre mesmo. O inevitável aconteceu, a voz não resistiu ao desgaste do tempo depois de mais de 20 anos de trabalho na cena metal. Ainda assim, sem considerar as comparações com suas performances anteriores, seu vocal não compromete, é claro. Apenas está bem mais grave. Talvez por isso, o álbum seja mais direto, menos grandiloquente, para a concordância de alguns apreciadores e discordância de outros, exceto em alguns momentos mais clássicos, como na balada “Innocence”. Posso me situar em um saudável meio-termo, pois sou daqueles que admiram o que o Angra e o próprio Andre fizeram no álbum Fireworks (1998), derradeiro trabalho do vocalista na sua ex-banda. Apenas não vi nada que se destacasse de forma inconteste neste CD, considero-o um trabalho entre o razoável e o bom. Não o colocaria na edição dedicada a 2005.

André: Olha, eu adoro o primeiro disco do Shaman, mas tem alguma coisa com Reason que não me fisgou. Enquanto o primeiro é bonito, espontâneo e divertido de se ouvir, a impressão que dá é que neste segundo a banda estava na vibe “intelectualizada, progressiva, super técnica”, o que resultou em canções que não parecem ter a mesma alma do primeiro álbum. Mesmo os discos posteriores já sem Matos e os irmãos Mariutti me soam melhores do que este. Realmente não sei se o clima já andava ruim entre Confessori e o restante, mas não sinto empolgação neste registro como acreditei que teria. Uma pena. Depois, Andre Matos só iria lançar discos no máximo bons em sua carreira solo. Nunca mais o vi cantar com a mesma qualidade do primeiro Shaman.

Bernardo: Ainda bem que não vou mais ter que ouvir esses power metal chatos depois desse bônus, hahahaha. O cover de “More”, do Sisters of Mercy, ficou legal, porém.

Christiano: Gosto deste disco. Na época do lançamento, lembro de deixarem bem clara a intenção de explorar sonoridades mais diretas, voltadas para um tipo de heavy metal mais tradicional. Isso soou um pouco estranho para uma banda que teve como uma de suas principais características arranjos mais elaborados e até uma certa grandiloquência. O resultado final foi muito bom, embora bem diferente do que os fãs estavam acostumados. Andre Matos está cantando de maneira mais rasgada, o que casou bem com a estrutura das composições. O único ponto negativo do disco é o cover de “More”, do The Sisters of Mercy, que é uma ótima música na versão original, mas não ficou tão legal com o Shaman. É uma pena a banda ter se dissolvido após este disco.

Davi: Muita gente caiu de pau neles, na época, por conta da mudança de direcionamento musical. Honestamente, gostei bastante do resultado final. Mais pesado, mais direto, sem tantas firulas, com um quê de modernidade e algumas faixas fortíssimas, como “Turn Away”, “Scarred Forever” e “Trail of Tears”. Também gosto bastante da polêmica releitura de “More” (The Sisters of Mercy). Uma pena que essa formação não tenha se mantido. Embora goste dos trabalhos posteriores, os considero bem abaixo desses discos da fase com Andre Matos. Legal ver este disco sendo citado por aqui. Ainda que não o considere um clássico, acho que é um álbum que merece uma nova chance e talvez desperte isso nos leitores.

Diogo: Não fosse o cover de “More” (que ficou bom, por sinal) e a publicidade dando conta que o Shaman se encontrava em uma suposta fase mais “dark”, creio que Reason seria avaliado de uma forma mais positiva e um pouco mais isenta. Não vejo tantas diferenças em relação a Ritual. Claro, os arranjos estão menos pomposos e a banda se afastou um pouco do power metal melódico tipicamente europeu, mas não é pra tanto. “Turn Away”, que abre o álbum e assustou alguns, vem bem na linha do Judas Priest e chega a lembrar o trabalho dos ingleses na virada dos anos 1970 para os anos 1980. O que fica mais evidente para mim é que o grupo estava mais bem adaptado ao fato de contar com apenas um guitarrista, que inclusive fez um trabalho muito bom. Outro ponto positivo é o fato do Shaman não contar com um baterista do tipo “robozinho”, algo que talvez tirasse parte da vida de boas canções como “Iron Soul”, “Trail of Tears” e a faixa-título. Andre Matos dá alguns sinais de desgaste, mas ainda assim entrega uma performance acima da média. Talvez, se eu fosse o produtor, tentasse limar as suas esticadas do fonema “o”, algo negativamente marcante em sua carreira. Reason é um bom disco que poderia ter aparecido em algumas edições da série, mas, para 2005, o melhor ano desde o fim da década de 1980, não havia chance.

Fernando: Gosto muito de Reason e ele só não é mais aclamado entre os fãs de metal porque ele é, sim, inferior a Ritual. Tudo bem, não é por que comparando um disco com outro melhor que o segundo fica ruim por definição. O problema neste caso é que a alta expectativa de ter um segundo trabalho tão bom quanto o primeiro, aliado ao então recente Temple of Shadows (2004), do Angra, que estava sendo até considerado por alguns como o melhor da carreira da banda – o que para mim é exagero –, atrapalhou a repercussão de Reason. Depois disso, Andre Matos se envolveu em uma nova confusão que o fez abandonar mais uma banda que ele ajudou a criar – a terceira. É um pouco mais direto que o antecessor, mas cheio de melodias e arranjos muito bem feitos e com o esmero que Andre sempre teve com sua música.

Flavio: Um disco razoável, um pouco mais pesado, cadenciado e mais direto que o anterior, e também e principalmente comparando com os trabalhos do Angra. Reason traz um bom trabalho vocal de Andre Matos, porém muito mais contido nos registros altos (vide “In the Night”), um provável “sinal dos tempos”. Não há muitas novidades, é um disco que mistura heavy com power metal (um pouco menos acelerado que o padrão do estilo), com composições coesas, sem muito brilho. Destaco “Scarred Forever” e a última, a semibalada “Born to Be”. Entendo que os músicos aqui envolvidos já realizaram coisa bem melhor e não o aponto como um bom componente para a edição dedicada a 2005.

Mairon: Caraca, tem certeza que isso é Shaman? Quando começou “Turn Away”, com seu clima de metal moderno, nem a voz de Andre Matos lembrou a dos velhos tempos do Viper. E isso segue nas demais faixas, exaltando-se em “In the Night”, com boa presença de cordas, e “Iron Soul”, com uma boa introdução e também tendo as cordas como destaque. Há uns deslizes, como a pseudobalada “Reason” e a mistura acústica/pesada de “Rough Stone” e “Born to Be”, mas nada que chegue a ferir os ouvidos. O que mais me chamou atenção mesmo é como a voz de Andre está diferente, meio “rouca” para os padrões que me acostumei a ouvir no Viper e no Angra. Além disso, a modernice do som, seja em “Scarred Forever” ou na chatinha “More” (conseguiram estragar uma faixa emblemática do The Sisters of Mercy). Esperava outra coisa, melódica, mais Angra, como escutei por exemplo em “Trail of Tears”, que logo se tornou a faixa da qual mais gostei. E como toca esse Mariutti, putz. Olha o solo dele em “Innocence”, que coisa bela. Não acho que este disco merecesse ter entrado na edição dedicada a 2005, não é algo que eu apreciei, mas não me foi uma tortura ouvi-lo, e perto de Gotthard e Kamelot, bom, daí sim poderia entrar fácil.

Ronaldo: Um trabalho bastante rico de influências e climas, bem executado e que consegue fugir da maioria dos clichês do meio heavy metal, quer seja do metal progressivo ou do power metal do Angra, do qual a banda foi formada por seus membros dissidentes. Não encontra-se, contudo, uma quantia significativa de momentos memoráveis, nem grandes destaques, mas é um disco de qualidade, uma música inteligente e bem produzida.



Categories: Artistas, Covers / Tributos, Creedence Clearwater Revival/Revisited, Curiosidades, Discografias, Judas Priest, Korn, Músicas, Megadeth, Resenhas, System Of A Down, The Police

2 replies

  1. O que mais gostei aqui foi de ouvir o Cosmo’s Factory. Eu sou daqueles que conhecem Creedence muito mais pelos hits espalhados do que dos álbuns em si … discaço esse! O Riot eu também não conhecia, achei legal, mas nada para virar fã…

    E a surpresa aqui foi o Tuatha! Vi esses caras lá em Bauru, em 2004, se não me engano e também em 2006 no estádio da Portuguesa. Os músicos são muito bons, mas depois de meia hora de música você quer quebrar aquela flautinha…

    Shaaman eu sou suspeito, até porque no post dos melhores de 2005, lá nos comentários, eu tinha colocado Reason na minha lista. Já para Judas, Korn, Within Temptation e Megadeth eu daria votos para outros álbuns, se fosse para manter essas bandas.

    E esse do System of a Down eu passava. Eles já passaram por muitas das listas dos melhores – não é possível que bem mais um álbuns desses caras tem que representar “aquilo que ficou de fora” …

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  2. Kelsei, muito legal você se aventurar a comentar a sequência da série do consultoria. Pra mim sobressai o álbum do Judas, que considero um dos top 5 da banda, sem pensar muito. Eu dou muito valor à epoca da banda nos anos 70 e esse, junto do Sin after Sin, são os melhores daquela década. Esse é talvez a nossa maior diferença de apreciação entre a lista apresentada pelo Ulisses. Tenho ouvido mais o Riot, até pela indicação para o podcast de sexta e ficado bem surpreso com a qualidade dessa banda, em suas diversas fases. Esse Thundersteel é sempre citado entre os melhores da banda.
    Concordo com a citação que Megadeth e Within Temptation tem álbuns melhores dos que os citados.
    E o mais engraçado do seu comentário foi o a respeito dos bons músicos do Thuata. Passa um tempo e você quer quebrar a flauta…..Ri muito disso por aqui!!!!!

    Saudações,

    Alexandre

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