Kiss discografia [Apêndice C] – Capítulo 1 – Ace Frehley – Uma volta no tempo para o período do grupo Frehley’s Comet

Dando sequência a um antigo projeto, que é o de acrescentar à discografia KISS de forma mais concisa algo dos spin-offs que os seus integrantes e ex-integrantes andaram e andam (!!!) fazendo fora da banda, volto hoje por aqui no Minuto HM. Em paralelo à discografia Rush que vai entrando pelo seu penúltimo trecho, a ideia é avançar, infelizmente, também em decorrência ao falecimento de Ace Frehley no fim do ano passado, em mais um apêndice voltado ao mundo KISS.

Eu vou começar em plenos anos 1980, quando Ace juntou uma turminha de categoria para viabilizar o projeto solo disfarçado de um grupo, o Frehley’s Comet. Neste capítulo a ideia é abordar os 2 álbuns desta ideia inicial, acrescidos de um Ep ao vivo. Ace, após o fracasso comercial do álbum The Elder, quando ainda estava no KISS, resolveu de vez sair da banda, uma vez que, além da sua desmotivação artística e do desfavorável momento comercial do conjunto, o guitarrista espacial encontrava-se em um caminho que invariavelmente iria leva-lo à morte, tantos eram os excessos com os quais ele diariamente convivia. A pressão de estar no KISS, a difícil convivência com os donos da bola Paul Stanley e Gene Simmons, as tentações das extenuantes turnês, tudo o levavam para o fundo do poço.

Ace se divorciou da esposa, voltou à Nova Iorque (encontrava-se antes literalmente isolado na sua mansão em Connecticut) e se juntou aos amigos Anton Fig (bateria), John Regan (baixo) e Richie Scarlet (guitarra), além do tecladista Arthur Stead (que tocou antes com Regan quando ambos estavam juntos a Peter Framptom), para o que seria a formação original do Frehley’s Comet. O quinteto gravou várias demos e fez alguns shows nas cercanias da Big Apple a partir de novembro de 1984. Algumas fitas piratas deste período, inclusive, andaram circulando o mundo, eu me lembro de ter ouvido alguma coisa antes ainda do lançamento do primeiro álbum. O grupo chegou a trocar de tecladista por um amigo do Bronx de Ace, chamado Rob Sabino.

A imagem irresponsável de Ace não favorecia que o projeto andasse, pois as gravadoras andavam relutantes em entender que aquilo poderia funcionar por tempo suficiente antes que Frehley começasse a dar trabalho. Apenas em novembro de 1986 Eddie Trunk, o amigo do Rolf, que na época trabalhava na Megaforce Records, ofereceu a Frehley um contrato de gravação, viabilizando o primeiro passo fonográfico de Ace fora do Kiss. Na ocasião, Scarlet e Sabino saíram do grupo, mas apenas um novo guitarrista, que dividiria os vocais, chamado Tod Howarth, entrou. Howarth havia tocado com Ted Nugent e Cheap Trick, mas não era alguém com maior experiência fonográfica. Para as gravações do primeiro álbum, o autointitulado “Frehley’s Comet”, Ace dividiu as guitarras, os solos e também os vocais com Tod, que também faz grande parte dos teclados, mas a grande maioria de faixas vêm do período anterior, são composições primordialmente de Frehley, algumas em parceria, algumas sozinho. Há alguma programação de teclado por Gordon G.G. Gebert e o ex-tecladista Sabino também está em algumas faixas. A filha de Ace, Monique, na época com 6 anos, participa dividindo as vozes com o pai no refrão da faixa “Dolls”.

ÁLBUM: Frehley’s Comet

Lado A

1- Rock Soldiers – 5:05                                
2- Breakout – 3:38                                  
3- Into The Night – 4:12                                                
4- Something Moved – 4:02                          
5- We Got Your Rock – 4:12    

Lado B

6- Love Me Right – 3:54
7- Calling To You – 4:20
8 – Dolls – 3:28
9 – Stranger in a Strange Land – 4:02
10 – Fractured Too – 4:14

– Integrantes: Ace Frehley, Tod Howarth, Anton Fig e John Regan.

– Lançamento:27/04/1987

– Produtores: Eddie Kramer, Ace Frehley, Jon Zazula.
– O álbum vendeu cerca de 500.000 cópias

Para a promoção do primeiro álbum da banda, a gravadora produziu videoclips para os dois singles, “Into The Night” e “Rock Soldiers”, que foram lançados durante o ano, nesta ordem. Ace aproveitou o lançamento do primeiro single para divulgar a sua parceria com as guitarras Washburn, porém ao vivo se manteve fiel às Gibsons Les Paul.

O grupo seguiu em turnê durante o ano de 1987 e, antes mesmo do segundo álbum ser preparado, a gravadora decidiu lançar um EP com 4 faixas ao vivo, gravadas em Chicago e 1 faixa inédita de estúdio, que não seria lançada posteriormente no segundo álbum (“Words Are Not Enough”). Esta faixa foi resgatada de uma das “demos” feitas pelo grupo ainda antes do primeiro álbum e remixada. Em paralelo, o home-video Live + 4 é lançado, contendo faixas de um único show em Londres, em março de 1988 e 4 videoclips, os 2 primeiros lançados por ocasião do primeiro álbum (“Rock Soldiers” e “Into The Night”) e os últimos 2 já com o intuito de antecipar os singles que seriam lançados no segundo álbum de estúdio (“Insane” e “It’s Over Now”). No Ep Live +1 a banda ainda conta com Anton Fig na bateria, porém ele não seguiria em turnê, sendo substituído inicialmente por Billy Ward (não confundir com o fundador do Black Sabbath, Bill Ward) e depois por Jamie Oldaker, que seguiria na banda. Jamie havia tocado antes com Eric Clapton e é quem está no home-vídeo Live +4. No show gravado em VHS Ace e companhia tocam outras 2 faixas do KISS que não estão no Ep: “Cold Gin” e “Shock Me”.

ÁLBUM (EP): Live + 1

Lado A

1- Rip it Out – 4:34                               
2- Breakout – 7:45        

Lado B

3 – Something Moved – 4:03
4 – Rocket Ride – 3:50
5 – Words Are Not Enough – 3:25 

– Integrantes: Ace Frehley, Tod Howarth, Anton Fig e John Regan.

– Lançamento:02/02/1988

– Produtores: Frehley’s Comet, Eddie Kramer e Scott Mabuchi

– Não há informações acerca da vendagem do Ep.

A turnê do primeiro álbum, com quase 90 shows, terminou nos primeiros dias de 1988, tempo para o grupo descansar brevemente e partir para a gravação do novo trabalho. Exceto por uma ida a Londres para filmar o homevideo Live + 4 em março, o primeiro semestre foi praticamente todo dedicado a gravar “Second Sighting”, que saiu no fim de maio. Os antigos problemas de Ace junto ao KISS, porém, começaram a dar seus sinais de retorno. O período no estúdio MediaSound, em Nova Iorque, foi marcado por um clima completamente diferente do anterior. Ace frequentemente aparecia sem qualquer condição física de gravar algo, em especial pelo consumo de drogas, que havia voltado. Eddie Trunk atestou que chegou a ver Ace cochilar com a guitarra pendurada, em um dos takes que estavam fazendo para gravar um dos solos. A consequência foi que Tod Howarth teve de assumir um papel muito maior nas composições. Tod havia entrado para a gravação do primeiro trabalho com grande parte das músicas já compostas, apenas 2 faixas (“Something Moved” e “Calling To You”) têm a sua assinatura. Já em Second Sighting, Howarth compôs metade do álbum, 4 delas sozinho. Frehley trouxe uma cover adaptada para conter sua assinatura (“Dancin’ with Danger”, do grupo Streetheart) e compôs as outras 4. Os vocais são divididos entre os dois por igual, já que uma das faixas é cantada pelos dois (“Loser in A Fight”) e a última faixa é a tradicional música instrumental.

ÁLBUM: Second Sightning

1- Insane – 3:45                                
2- Time Ain’t Runnin’ Out – 3:52                                  
3- Dancing With Stranger – 3:25                                                
4- It’s Over Now – 4:39                                            
5- Loser in a Fight – 4:33  

Lado B

6- Juvenile Delinquent – 5:13
7- Fallen Angel – 3:44
8 – Separate – 4:56
9 – New Kind of Lover – 3:14
10- The Acorn is Spinning – 4:50      

– Integrantes: Ace Frehley, Tod Howarth, John Regan e Jamie Oldaker.

– Lançamento:24/05/1988

– Produtores: Frehley’s Comet, Scott Mabuchi, Jon & Marsha Zazula, Eddie Trunk

– O álbum não obteve vendas significativas

Os dois videoclips produzidos pela gravadora para os dois singles (“Insane” e “It’s Over Now”) foram disponibilizados também no homevídeo Live +4 durante o ano de 1988.

Ao contrário do sucesso da tour anterior, o novo álbum mal cumpriu 20 datas de divulgação, abrindo para o Iron Maiden nos EUA, pela “Seventh Son of a Seventh Son” Tour. Tod Howarth afirmou que, além de ser mais fraco que o primeiro trabalho, “Second Sighting” foi mal planejado financeiramente e, além da pouca vendagem do álbum, as poucas datas agendadas para shows não cobriram os gastos do período. A gravadora optou, portanto, por uma nova estratégia dali em diante, apostando na fama de Frehley, interferindo para que os próximos trabalhos fossem feitos como álbuns solos e diminuindo a participação artística de Tod, inclusive nos vocais, que deveriam ser todos de Ace. Howarth afirmou que seu estilo mais leve se chocou com boa parte dos fãs do KISS, e talvez por isso a gravadora queria apostar em canções que trouxessem o estilo do primeiro álbum de Frehley no KISS, aliás, o mais bem sucedido dentro do KISS, ainda em 1978. Tod, se vendo diminuído artisticamente, optou por sair, o que significou também o fim do Frehley’s Comet. A decisão de sair foi dele, segundo Howarth, não algo imposto por Ace, mas dali o talentoso músico seguiu para trabalhos solos pouco conhecidos, duas outras bandas (707 e Four By Fate) entre vários outros, alguns inclusive voltados à publicidade, ao contrário dos demais integrantes do Frehley’s Comet original, que ainda apareceriam na sequência da carreira solo de Ace.

No meu entendimento, temos, neste primeiro capítulo do apêndice da discografia KISS voltado ao guitarrista espacial, dois períodos bem distintos, que se justificam pela motivação de Ace Frehley. É tido e considerado que artisticamente Frehley entregou bom material quando esteve focado e motivado. O primeiro álbum, de 1987, é sem sombra de dúvidas um dos melhores álbuns de qualquer membro que passou pelo KISS, e até com certa folga. Vou além, a grande maioria dos fãs da banda consideram este o melhor trabalho que qualquer um fora da banda fez. O álbum traz o estilo clássico de Ace em ótimas composições, como a forte “Rock Soldiers”, uma espécie de canção no formato hino que entraria facilmente em um álbum do KISS. “Breakout”, cantada por Tod, vem dos ensaios da época do “The Elder”, ficou de fora do álbum do KISS por não encaixar no estilo. Ace compôs a boa canção com Eric Carr. O single “Into The Night”, faixa de Russ Ballard (que compôs “New York Groove”, do álbum solo de Ace em 1978 e que foi muitas vezes tocado na banda) é um hit certeiro, a melhor aposta comercial de qualidade no álbum. “We Got Your Rock”, que eu já conhecia das fitas piratas que apareceram por aqui antes do lançamento do primeiro álbum, é outra faixa criada para ter um forte refrão.  O lado B cai um pouco de rendimento, mas tem uma ótima faixa cantada por Howarth (“Calling To You”), a divertida e descompromissada “Dolls” e um bom fechamento na continuação instrumental intitulada “Fractured Too”, que nos remete à “Fractured Mirror”, do álbum solo de 1978.

“Second Sighting” é menos inspirado em quase tudo. Dá pra perceber o esforço de Tod Howarth, mas suas faixas, de cunho mais comercial, voltadas a uma mistura de AOR com o hard mais californiano da época, não tem da maioria dos fãs uma apreciação merecida. A bela balada “It’s Over Now” se destaca entre as quatro faixas competentes que o guitarrista louro canta, mas estas demais canções, mesmo estando um pouco abaixo deste single, não chegam a comprometer. Talvez o maior problema esteja nas faixas que Ace traz, mesmo a faixa de abertura “Insane” não chega aos pés dos melhores momentos do primeiro álbum. A boa faixa “Word Are Not Enough”, que está no Ep “Live + 1”, deveria ser incluída aqui, pois é melhor que qualquer outra faixa que Ace canta.   A faixa instrumental, “The Accord is Spinning”, por exemplo, que fecha o disco, é muito sem graça. “Juvenile Delinquent”, que Ace chegou a levar para os shows da época, é uma sombra em qualidade do que Frehley pode fazer.  Ace atestou que: “Trabalhei intensamente no primeiro disco do Frehley’s Comet…. Antes mesmo de terminar, eu sabia que tinha feito alguns dos melhores trabalhos da minha carreira…”. E ele estava certo, mas é uma pena que a sequência da experiência como grupo não teve a mesma força.

No próximo capítulo dedicado a Ace Frehley, trarei todos os demais trabalhos que o guitarrista espacial fez em sua carreira, desde 1989 com “Trouble Walking” até o derradeiro “10.000 Volts”, passando também pelos projetos “Origins”, com músicas covers.

Até breve!

Alexandre Bside



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