“Coming Home” – A Volta Pra Casa

Em setembro de 2009 fui aos Estados Unidos apresentar a primeira parte de um relatório ao conselho de diretores da empresa em que trabalho. Era uma nova função dentro da organização, que recrutava funcionários para pesquisar mercados específicos e buscar crescimento da empresa dentro dos mesmos, determinando a melhor estratégia de atuação.

Eu e meu chefe pousamos em Chicago e alugamos um carro. Conversamos por quatro horas, duração da viagem até o estado de Indiana, e trocamos diversas vezes a frequência do rádio em busca de alguma emissora local. Quando em uma delas ouvimos “Rocket Man”, clássico do Elton John, ele comentou que por viajar muito às vezes sentia-se como o astronauta retratado na música.

A lembrança desta conversa veio imediatamente após ouvir pela primeira vez “Coming Home”, do mais recente trabalho do Iron Maiden, “The Final Frontier”, tanto pela melodia quanto pelo conteúdo da letra.

Sobre a música em si, além da introdução e do refrão, a música divide suas estrofes em dois momentos: um mais calmo, dedilhado, e outro mais pesado, com acordes distorcidos em um riff simples, mas cativante e cadenciado. Meu irmão mencionou que “Coming Home” poderia perfeitamente pertencer ao “Chemical Wedding” de Bruce Dickinson, principalmente por este riff cadenciado e pela melodia característica de Adrian Smith. Eu concordo!

A letra durante o momento calmo fala em tom de poesia, usa metáforas, passa uma idéia de reflexão. Já o riff cadenciado embala uma descrição da viagem, do vôo, e retrata a pequenez de uma pessoa perto da imensidão do mundo, do universo até (“Rocket Man”?), além de dizer que, vistos “do alto”, todas as diferenças entre países e pessoas são insignificantes. Esta divisão é percebida inclusive nos solos: enquanto Dave Murray executa o seu primeiro com o fundo calmo, com notas mais constantes, Adrian Smith sola tendo as guitarras distorcidas como base, intercalando agudos e graves, com passagens mais rápidas e terminando com notas que “crescem” e culminam no refrão.

Muitos podem dizer que a música não passa de uma declaração de amor de Bruce Dickinson ao seu “hobby” de voar, de pilotar o avião, e eu não tiro sua razão. Eu, no entanto, enxerguei (ouvi) mais que isso. Em mais de um trecho há a sensação de dever cumprido, de liberdade, de que o “pior” já teria passado, referindo-se ao nascer do sol após uma longa noite.

[…]” Waited in the long night, dreaming til the sun is born again”[…]
[…]”In the misty dawn the night is fading fast”[…]

Dá pra ficar um pouco preocupado com essa história toda, é claro, uma vez que a música é composta também por Steve Harris, além de Smith e Dickinson. Estariam os três desejando retornar pra casa, após uma extremamente bem sucedida carreira que angariou milhões de fãs em todos os cantos do mundo? Seria um indicativo de um retorno definitivo à “Albian’s Land”¹?

¹ “Albian’s Land” faz referência à própria Inglaterra, uma vez que Álbio é o nome celta dado durante a idade antiga às falésias brancas do norte do país. Curioso que no mesmo álbum, “The Final Frontier”, Steve Harris dedica “The Isle Of Avalon” à obra de Marion Zimmer Bradley, recheada de referências celtas e seus rituais pagãos.

Origem do nome "Albian's Land" para referir-se à Inglaterra

Falésias Brancas de Dover

Agora explicando o porquê dos dois primeiros parágrafos: após o sucesso naquela apresentação novas oportunidades surgiram na empresa em que trabalho, e as novas funções fizeram com que eu tivesse que viajar com muito mais freqüência. A cada viagem, a cada etapa uma nova reflexão sobre o que foi feito, certo ou errado, e quais os caminhos a seguir. Acredito que estes são pensamentos que todos temos em algum momento da vida, ou mesmo em vários deles.

Afinal, com metas atingidas e objetivos conquistados, voltar pra casa e ter aquela “reflexão agridoce” sobre nossos erros e acertos não é o desejo de todos nós?

Um abraço, e até sábado!
Caio Beraldo



Categories: Curiosidades, Iron Maiden, Letras, Músicas, Resenhas

14 replies

  1. Excelente o post – parabens. Alias é a minha predileta do álbum….
    FR

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  2. Caio, que post fantástico…

    Olha, sei que falar agora parece fácil, mas eu estava discutindo a letra dessa música, suas metáforas e seus possíveis significados “não óbvios” àqueles que não são tão fã da banda assim com alguns amigos, como o Chris, o Renato e o Wagner Megadeth. Falei muito com eles sobre essa música e sobre trechos da letra dela.

    E você trouxe um post que vai totalmente em linha com o que eu acho que essa música, no fundo, significa. Eu ia fazer um post sobre ela cedo ou tarde, e fico impressionado em ver o seu e como pensamos igualzinho, sem nunca termos conversa a respeito (bom, nós 2 falamos muito pouco sobre o disco como um todo).

    Gostaria, então, de não só elogiar e concordar com seu ótimo post, como tentar contribuir com alguma coisa… vamos lá…

    When I stand before you shining in the early morning sun
    When I feel the engines roar and I think of what we’ve done
    Oh the bittersweet reflection as we kiss the earth goodbye
    As the waves and echoes of the towns become the ghosts of time

    Aqui está tudo começando (ou recomeçando, no caso de um novo disco ou tour).

    Over borders that divide the earthbound tribes
    No creed and no religion just a hundred winged souls
    We will ride this thunderbird, silver shadows on the earth
    A thousand leagues away, our land of birth

    Para mim, é muito claro que esse trecho fala do crescimento da banda e tudo que eles fizeram na carreira. Chovendo no molhado: o Maiden nunca foi uma banda do mainstream, das rádios. Um exemplo: a FNAC Paulista passa DVDs e blu-rays para TODOS os próximos shows na cidade de SP. Adivinha se vi algo do Maiden essa semana por lá?

    O Maiden sempre excursionou e divulgou seu trabalho pelo mundo. O boca-a-boca e a hereditariedade continuam sendo os principais fatores para as pessoas conhecerem e apreciarem a banda. Essa parte da música traz um pouco disso: não importa em qual lugar eles estão, crenças, religião, nada importa: eles chegam e a linguagem universal da música faz o resto. Mas isso faz com que eles fiquem longe da família, do lugar de origem deles… e em um tom de esperança para que isso acabe, como se a missão estivesse se cumprindo…

    To Albion’s land
    Coming home when I see the runway lights
    In the misty dawn the night is fading fast
    Coming home, far away as their vapor trails align
    Where I’ve been tonight, you know I will not stay

    Já aqui você maravilhosamente já comentou, gostaria apenas de ressaltar a última parte: “Where I’ve been tonight, you know I will not stay”. Puxa, isso é exatamente uma forma emocionante de se dizer “adeus”. Vamos ouvir a música ao-vivo, estaremos todos juntos amanhã mas tenha em mente: onde eles estarão amanhã, você sabe que eles não ficarão… essa talvez seja a parte mais emocionante do disco inteiro em termos de letra, que me faz chorar só de refletir um pouco. É sim, para mim, o primeiro adeus da banda. O mestre Steve Harris sempre disse que o Maiden faria 15 discos de estúdio. O Maiden ainda sobra e tem mUITA lenha para queimar, mas Harris costuma ser muito acertivo em suas ideias e convicções…

    Curving on the edge of daylight til it slips into the void
    Waited in the long night, dreaming til the sun is born again
    Stretched the fingers of my hand, covered countries with my span
    Just a lonely satellite, speck of dust and cosmic sand

    Aqqui são eles claramente dando o sinal que estão aguardando pelo dia que o sol vai nascer de novo… que eles estarão de volta em casa, com a família. Afinal, quando eles estão na “estrada”, eles se sentem muito sozinhos…

    Cara, eu creio sim que esta música é sim o primeiro evidente sinal que o fim se aproxima… e que, apesar de todo o sucesso, fama, dinheiro, etc., eles querem voltar para a casa…

    Continuo achando Isle of Avalon a melhor música do disco, musicalmente falando, principalmente com aquele final anos 80. Mas Coming Home é top também e é, sem dúvida, a mais emocionante do disco e em mais de 20 anos da carreira da banda.

    Long live Steve Harris, Bruce Dickinson, Adrian Smith, Dave Murray, Nicko McBrain e Janick Gers. Long live Iron Maiden.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  3. Uma maravilha a análise, próxima á qualidade da música, que é um destaque no álbum!
    Tenho gostado cada vez mais desta música, mas ainda tenho uma preferência por Starblind.
    O álbum, se talvez não chegue à qualidade dos ” golden years” seria, caso a letra acima tão bem dissecada pelo Caio ( com a valorosa ajuda do comentário do Eduardo), um fecho de ouro digno para a carreira do Iron Maiden.
    Mas eu ainda torço honestamente que isso não aconteça.
    As lacunas que o heavy metal está deixando infelizmente não estão sendo preenchidas com uma nova geração.
    Assim, quando eles voltarem para casa, que dêem uma merecida descansada e voltem com carga total…

    Alexandre Bside

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  4. Caio e amigos, post publicado no Whiplash:

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  5. Antes do Iron Maiden, os Scorpions fizeram antes uma música que também se intitula “Coming Home”, a preferida do meu pai (que é fã da banda) e a única faixa 100% perfeita do disco Love at First Sting, de 1984.

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Trackbacks

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