Discografia Newsted – Parte 1 – Álbum: Heavy Metal Music

heavymetalmusiccover1Aqueles que possuem uma história na música quase sempre são obrigados a provarem para si mesmos que é possível recomeçar, mesmo sendo sujeito às comparações com seus trabalhos anteriores. Aqueles que não recebem tanta atenção midiática tentam se superar sob uma pressão natural: fazer melhor a cada disco. Isso é uma premissa para os artistas honestos com seu próprio trabalho. Aqueles que são orientados pelo mercado não se darão ao luxo de ouvirem o coração e farão pesquisa para saber o que anda tocando por aí.

O desafio do Jason Newsted como protagonista do seu trabalho em primeiro lugar era provar pra si mesmo se era possível fazer um som que retomasse sua alegria em compor. A auto-estima de quem participou de um universo infinito junto ao MetallicA deve ser robusta para não cair na velha tentação de achar que a individualidade dele é mais cooperativa junto de outros gênios musicais. Normal. O ideal é levantar a cabeça, olhar a agenda da tour e entrar na chuva para se molhar. Cair na bobagem de querer medir o trabalho com outros dinossauros (e faz tempo ele abriu mão) é pedir para se assombrar com a diferença que é tocar num gigante e ser pequeno novamente.

Dito isso vamos ao que interessa. “Heavy Metal Music” da banda Newsted lançado oficialmente em 06 de agosto de 2013 é modesto nas audições que se sucedem. Pra começar o título do disco se é pensado como ‘marketing’ com certeza é uma bola fora quanto ao estilo, pois o que se ouve em pouco mais de 50 minutos de música é um punk metal nervoso, com pequenas pitadas de Megadeth (Dave Mustaine deve estar honrado) e Motörhead. Nada errado com isso, em um primeiro momento, mas não se engane e nem compre gato por lebre. Este é um disco pesado mas não é o bom heavy metal com suas firulas, agudos e canções assobiáveis.

HMM é um disco objetivo, direto e vertical. Em alguns momentos até lembra alguns discos clássicos do King Diamond. Carrega uma certa melancolia.

newsted

A primeira canção, ‘Heroic Dose’ é bacana com suas guitarras dobradas e solos. Parece ululante dizer isso hoje em dia (“solo de guitarra”) mas o rock tem tantas características diversas e tantas formas de ser percebido que é necessário citar um solo de guitarra. Mesmo que na mixagem ele esteja um pouco abaixo do necessário para um SOLO, está valendo. A canção tem cara de rádio. De repente foi a escolhida para abrir o disco por seu apelo, seu refrão fácil e por – como diz o Rolim – “descer fácil” nos ouvidos não acostumados ao trabalho do moço. Mas não se engane, é apenas uma canção.

O motivo de não rotular (por menos relevante que isto seja) este disco como Heavy Metal é que ele carregado de uma simplicidade musical que não é uma marca muito presente no estilo. Em algum tempo foi assim, mas os maiores representantes do metal sempre primaram por frases complicadas (harmonicamente falando), riffs com mudanças de tempo inesperada (até à primeira audição) e até uma sofisticada cozinha. O maior exemplo é a faixa ‘Soldierhead’ (que estava presente no EP lançado pela banda intitulado “Metal”), com seus timbres sujos e graves, lembrando muito o punk metal praticado por bandas como Danzig. A tendência é que ‘ao vivo’ as canções cresçam muito.

A canção ‘… As The Crow Files’ é uma das mais bacanas. Primeiro porque dá para entender o que Jason canta. A escolha de ser uma simbiose de King Diamond / Dercy Gonçalves / Dave Mustaine às vezes faz a gente viajar no que está sendo dito. Óbvio que o rancor é parte da canção e do jeito de interpretá-la. As ideias de um arranjo redondo que sempre passam por um refrão significam que o talentoso baixista se importa que sua música soe bem para quem a escuta, o que não afasta os que são amantes de um estilo mais leve.

‘Ampossible’ tem o famoso “allright now” das canções de rock. No entanto incomoda a falta de ambição por uma faixa que diga “mais”. Nem a interferência do baixo cheio de distorção, chama atenção para faixa. Talvez nem precisava estar por aqui. Mas está e o que se pode dizer além de ser ‘mais do mesmo’. E isso é ruim.

‘Long Time Dead’ é uma baita homenagem ao Motörhead. Está tudo lá. O riff cortante, batera e baixo em pura sintonia, a voz embargada e trêbada. Música em alta velocidade; vale pela escolha das frases que emolduram a canção. O solo é bastante bluesy. Rasgado, agudo e agressivo. O riff inicial lembra muito uma canção dos Titãs no pesadíssimo “Titanomaquia”. Abaixo seguem as faixas. Repare nas frases musicais.

Newsted – Long Time Dead

Titãs – Fazer O Quê?

Chegamos à melhor música do disco. ‘Above All’ (confira abaixo) é de longe a canção mais legal de todo o álbum em minha opinião. O quesito melodia é o mais bacana, tão bacana que eu achei que a música não fosse do Jason (sorry, man). É o tipo de canção que pode ser tocada em qualquer arranjo, com quaisquer instrumentos, em qualquer ocasião. Tem cara de “hino”. ‘Above All’ está fora de sincronia com o conceito musical (e não ideológico) do álbum, porque é muito acima até na construção do arranjo, já que conta com uma segunda guitarra que empresta um peso ótimo á forma como a canção passa a ser delineada. A mixagem ficou ótima e as mudanças da melodia enriquecem mais ainda a melhor música do disco. Talvez não seja a mais pesada, mas é a melhor concebida.

Chegamos à ‘King of The Underdogs’ (nunca havia lido/escutado esta expressão, underdogs). No talo, seus intervalos deixam transpirar o baixo pesadíssimo. A opção de Jason e seus companheiros Jesus Mendez Jr (bateria), Jessie Farnsworth (guitarra e vocais) e Mike Mushok (guitarra) é de fazer um disco com uma proposta estética musical bastante gorda e simples, tanto que até que se busque informação ou se assista a banda ao vivo, é difícil perceber que existem dois guitarristas na banda, pois ao contrário de outras que trabalham com dois (ou até três, né Iron?), eles preferem frasear as mesmas convenções. Limitações? Confesso, não sei…

‘Nocturns’ é a faixa que podemos chamar de dispensável e que tem alguma coisa de heavy metal; as escalas utilizadas lembram as produções do Black Sabbath nos anos 90, mas só temos o cheiro, nada da essência, pois como venho dizendo, o som está polido e encorpado. A dinâmica modorrenta não traz qualquer tipo de simpatia, mesmo que o riff tenha um andamento aceitável.

Em ‘Twisted Tail Of The Comet’, o punk metal de que tanto falo com sua voraz vontade de se estabelecer. Tudo bem que aqui misturado com a batida 2/2, sem que seja dada muita atenção à forma como a estória está sendo contada. A música é breve e limita-se à vociferação. O disco é longo e começa a se arrastar.

Temos agora em ‘Kindevillusion’ boas intervenções mas nada demais mas não vamos nos desesperar e nem sermos bastante implacáveis com o trabalho de Jason e sua banda. A proposta sonora é essa mesma: suja, quase anti-melódica, pesada. Se não anima nas primeiras audições, também não cria, logo de cara, uma antipatia com a música do Newsted. O segredo é não ter muitas expectativas.

E enfim a última canção com seu riff tonyiommiano, ‘Futureality’ (utilizar aquela escala que aproxima terças de quartas dá nisso…). Particularmente gosto de canções que dão pausa para voz (tipo TODAS as canções do Ace), elas valorizam o que está sendo dito e ao mesmo tempo você consegue ouvir tudo em todo lugar. Aqui temos um arrebatador riff servindo para os urros de Jason; merece algum destaque pelo arranjo bem construído, pela falta de preguiça de colocar as guitarras para trabalharem de maneira mais criativa e por ter um solo, que se falta um pouco de coração, está lá para talar (desculpem o neologismo) os ouvidos de quem está escutando no volume máximo.

Jason Newsted é um músico para lá de experiente. Tem se mostrado bastante agradecido pelos resultados até aqui da repercussão de seu novo trabalho e isso demonstra que além de gente boa (vejam TODOS os documentários relacionados ao MetallicA ou acompanhe a discografia MetallicA aqui no Minuto HM) , você se atentará que o músico teria alguns motivos para mimimis eternos e pelo contrário, se mantem com integridade e dignidade fazendo sua música com o prazer que ele deve saber explicar. E por gentileza, não confunda nenhuma destas faixas com qualquer trabalho da sua antiga banda! São distintas em tudo.

A dúvida fica se este será o primeiro de muitos ou o único. Boa sorte, Jason!

Tracklist:

1. Heroic Dose
2. Soldierhead
3. …As The Crow Flies
4. Ampossible
5. Long Time Dead
6. Above All
7. King Of The Underdogs
8. Nocturnus
9. Twisted Tail Of The Comet
10.Kindevillusion
11.Futureality



Categories: Artistas, Curiosidades, Discografias, Músicas, MetallicA, Motörhead, Resenhas

10 replies

  1. Daniel, muito legal o texto e a análise, sempre com suas “Dercy Gonçalves” e afins… :-). Congrats!

    Cara, eu ouvi o disco sem talvez a devida atenção que todo disco merece e é até injusto falar algo com mais propriedade. Mas vou falar o que já senti…

    Gosto muito do Jason. Hoje vejo que Trujillo é tecnicamente mais completo, mas eu preferiria que Newsted tivesse permanecido no MetallicA. Vou aqui arriscar fazer uma analogia entre uma banda de rock e uma empresa qualquer.

    Toda empresa precisa de uma liderança e de colaboradores. Toda banda idem. Na empresa, tem gente que é muito boa em fazer o papel de líder. Tem gente que é muito boa em trabalhar e não tem interesse. E tem gente que ACHA que é, mas quando assume uma posição de liderança, nota-se que aquele profissional que era um ótimo contribuidor passa a “patinar”.

    O Jason é um pouco disso, para mim. Ele é um excelente músico, mas é um cara mais de “retaguarda”. Não consigo ver Jason como um líder. Seus projetos anteriores já mostravam isso, como o Echobrain, e agora mais uma vez ele está forçando a barra. Ele havia parado de querer falar de metal após o MetallicA e agora ele viu que seu público é, obviamente, dos tempos do MetallicA. Então ele voltou ao tema e está forçando a barra. A aparição dele com o Megadeth foi histórica, mas ao vê-lo tentando ser o foco de atenção, não adianta, ele não me parece (digo parece pois as coisas mudam, apesar de não achar que isso deva acontecer neste caso).

    Há exceções, claro, tipo Dave Grohl. Mas alguém aqui já imaginou o Dave Murray sendo líder de algo? Ou Kirk Hammett? Exemplos não faltam – inclusive de quem tentou e naufragou…

    Sobre o disco, como disse, preciso dar uma atenção melhor. Não me pareceu um disco de heavy metal tradicional, e isso, Daniel, você detalhou bem por aqui. O que ouvi, achei um pouco forçado. Mas ainda quero ouvir melhor.

    Valeu!

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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    • Oi Dudu,

      não tenho como não concordar. Acho que todos temos um carinho por ele, por sua contribuição, pelo bullying que recebeu durante TODO o período junto à banda que o consagrou, mas talvez sejamos unânimes em dizer que, para estar à frente é preciso algo a mais, que hoje, ao menos eu e você, não vemos.

      Meu temor, Rolim, é que meus posts de “novidades” (discos novos de velhos conhecidos) acabem sendo redundantes na hora de pontuá-los. Os discos estão longe de serem excelentes. Torço de verdade para que o cenário tenha uma virada histórica (assim como aconteceu com o grunge na década de 90, sem aferir juízo de valor), para que possamos ter ao menos, uma mudança estética que nos leve a ficarmos hipnotizados, nem que seja por meses, por novas músicas.

      Isso tem pontuado nossas conversas faz tempo. Escute o disco quando puder com mais calma e depois diga o que achou das faixas que mais lhe saltaram aos ouvidos.

      Abraço,

      Daniel

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      • Concordo. Mas agora precisamos fazer o exercício de separarmos o que ele construiu com o MetallicA, ainda que como coadjuvante na maioria das vezes, do papel de “dono do brinquedo”. E neste papel, vai a analogia que fiz.

        Infelizmente está mesmo difícil recebermos bons discos, principalmente de bandas novas ou de bandas onde justamente não tenha esta figura de “líder”. O Black Sabbath lançou um disco muito bom, o 13, porque tem Geezer e Iommi na retaguarda, claro. É, está difícil…

        [ ] ‘ s,

        Eduardo.

        Like

  2. Parabéns, Daniel, pelo post esclarecedor sobre o novo trabalho do Jason.

    Sei que quando gostamos de uma banda, ainda mais a MetallicA, sempre é difícil criticar seus componentes (ou, no caso, ex-componente) e você, usando de uma sinceridade extremamente objetiva, trouxe para nós aquilo que um review realmente deve entregar ao seu leitor: a verdade, por mais dura que seja…

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    • Olá Abílio,

      poxa cara fico feliz que você tenha gostado… Eu tenho me esforçado MUITO para não ser prolixo, dar um texto enxuto mas não menos informativo (do meu ponto de vista). Se você é o “cara” e gostou, eu fico muito envaidecido.

      Mas mudando de assunto: aguardando “Fly By Nights” ansiosamente (rs).

      Abraço,

      Daniel Junior

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  3. Bem, eu confesso ter tido muito pouca expectativa em relação ao cd do Jason. E trago uma visão de quem conhece pouco o músico, exceto pelo seus anos de MetallicA. E no MetallicA, ele ficou sempre como coadjuvante, bem diferente de seu antecessor. E claro que a discografia da banda vai trazer detalhes e conceitos acerca disto e demais assuntos relacionados a Jason na banda, então vamos nos ater ao álbum e ao post.
    Com a pouca expectativa que tinha, posso dizer que até gostei do que ouvi, embora tenha me limitado a ouvir as músicas que você, Daniel, pinçou e trouxe para este post. Gostei mais da primeira ( Long Time Dead ) do que a segunda ( Above All) , e concordo com alguma semelhança entre os riffs do Titãs e a que mais gostei.
    O problema é que eu não gostei do vocal, então ficaria meio complicado uma tentativa de ouvir o restante do álbum ( a não ser que você nos force, em uma indicação para o podcast, ahahahaha). Mas ainda, assim, achei o trabalho bem feito, sem me entusiasmar , no entanto.
    Acho todas as considerações muito bem observadas no post, e como sempre, sacadas ( como as músicas do Ace, muito boa a observação) excelentes. O post me pareceu muito mais interessante que o álbum, confesso. Está no nível dos excelentes textos que você sempre traz por aqui . Assim, para fechar meu comentário, vai uma pergunta :

    Se você pudesse indicar alguma outra canção, qual seria ? Pelo post ficaria entre As the Crow Flies ou Futureality, seria isso ?

    Saudações

    Alexandre Bside

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  4. Fala BSide!

    Obrigado por ter dado um espaço na sua agenda para ler essa resenha!

    É o que venho conversando faz um tempo com todo mundo que gosta de rock: eu não tenho sido surpreendido. Acho que o nível de exigência tem sido muito alto da minha parte ou as bandas se conformaram, não apenas com um lugar ao sol, mas com QUALQUER lugar ao sol.

    Que bom que você gostou do texto.

    Com relação à sua pergunta, sem dúvidas, … As The Crow Files é elhor que Futureality.

    Abraço,

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  5. É, devo confessar que, em que pese o informativo post do Daniel, os exemplos de músicas postados não me deixar “maluco” para ouvir o restante do álbum.
    Estou maluco em pensar que, se uma banda produz uma música muito semelhante a uma banda conhecida – no caso o Motorhead, não tenho porque escutar esta banda em detrimento da banda original?
    Para ter um veredito mais sólido, somente após uma audição cuidadosa do álbum.

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