Here Today

Vendo a internet na noite de hoje, pondo (tentando) por algumas pendências em dia, me deparei com uma mensagem da minha amiga Eli parada na minha conta quase aposentada do Facebook. A fonte é o excelente blog “The Beatles College“.

Assim como já trouxe por aqui um texto que apelidei de “Two Of Us”, novamente trago algo da maior dupla que já existiu na música, mas é importante destacar: o texto abaixo NÃO É VERDADEIRO – é o que é chamado de FanFic (“Fan Fiction”) – uma versão do que um fã imagina que pudesse ter acontecido (neste caso, é praticamente 100% ficção, mas é muito bonito e emocionante). Ao final do post, trarei um pouco do que realmente aconteceu e será claro ver o poder do tempo agindo (quem duvida, que assista ao Paul ao vivo).

As reações de cada um, creio eu, são proporcionais ao envolvimento que se tem em diversos níveis da vida, sentimentos diretos e indiretos, e não somente à história abaixo puramente por ser de Lennon-Macca mas, principalmente, quanto o valor de uma verdadeira amizade, além de ir em linha com o que sempre comento: aproveitemos e valorizemos cada instante. E é por isso que ele é trazido neste espaço, pois a reflexão, mesmo em uma ficção, é mais que válida.

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“Paul, levanta! Atende logo esse telefone, por favor!”

Linda me cutucava. Era de madrugada. Eu sabia que o telefone estava tocando, tocou diversas vezes, mas eu preferi ignorar, e continuar dormindo, uma hora a pessoa que telefonava teria que desistir. Mas a pessoa não desistiu.

Resolvi atender pelo único motivo de poder falar rápido, desligar, e continuar dormindo. Amanhã eu precisava acordar cedo, começaria a trabalhar em um novo projeto, e seria um dia longo e cansativo.

Estiquei o meu braço na preguiça de levantar, e peguei o telefone em cima do criado – mudo.

“Alô?” – Perguntei, e tentei me esforçar para não ficar com uma voz de sono. No outro lado da linha, tocava uma música que eu não escutava e muito menos cantava fazia muito tempo, All My Loving, música que costumava me trazer boas lembranças, tornou a vir em minha mente cercada de momentos ruins. Comecei a ficar com raiva, pois além da música no fundo, eu ouvia muitas vozes e muito ruído. – “Alô? Isso é alguma piada?”

“Paul? Você está me ouvindo? Paul!”

Meu coração bateu mais forte no momento em que reconheci a voz de Yoko.

“Sim, estou, fale.”

“John! É com o John!”

“John? O que está acontecendo, Yoko?”

“Você… Não ficou sabendo?”

“Não! O que houve? Ele está bem?”

“Um louco atirou nele!”

“E como ele está? Aonde vocês estão? Me diz, eu já chego aí, vou me arrumar!’’

“Paul… Ele morreu… Ele não aguentou, ele morreu.”

Eu deixei o telefone cair no chão. Por um minuto, eu fiquei cego. Ouvia Linda me chamando no fundo, perguntando o que acontecia, mas as palavras não saiam da minha boca. Minha mente ficou vazia. Dentro do meu peito, parecia que tinha alguém apertando o meu coração. Fechei meus olhos com força, tentando acordar daquele pesadelo horrível. Mas nada aconteceu. Era real. John estava morto.

paul_john

Fechei meus olhos mais uma vez, e minha cabeça se encheu de lembranças. Tudo que eu havia vivido até agora, se passava pelos meus olhos. Me vi correndo com Mike no quintal de casa, com meu pai sentado, nos olhando e rindo. Vi minha mãe, com o belo sorriso dela. Me vi sentado em um ônibus com Ivan Vaughan, que insistia para que eu fosse na igreja local ver a banda de seus amigos se apresentar. Me vi em St Peter’s, ao lado de Ivan, assistindo as bandas, até que a banda de seus amigos, Quarrymen, entrou. John Lennon. Não foi a banda que me chamou atenção, foi um membro em particular. John Lennon. Eu queria ser como ele, agir como ele, andar com ele, ser amigo dele. “Qual seu nome?” me lembro dele me perguntando, com aquela voz sempre num tom irônico. O sorriso dele quando me viu tocando Twenty Flight Rock. Aquele sorriso. O sorriso que mostrava que tinha alguém doce e gentil por trás daquela fachada de teddy boy. Me vi na casa dele, com a sua tia me olhando com um olhar de desaprovação. Me vi subindo as escadas que levava ao quarto de John, o espaço aonde ele se sentia seguro. Me vi sentado na cama dele, o ensinando a tocar violão. Me vi rindo dele, quando ele ficou de óculos pela primeira vez na minha frente. Me vi sendo seu melhor amigo. Me vi sentindo ciúmes de John ao lado de Stu. Me vi em Hamburgo, em um mundo diferente. Me vi atingindo sucesso na Inglaterra. Me vi fazendo parte da banda de maior sucesso da década de 60. Me vi nos palcos com John, aos risos, sem ouvir nada do que os outros ou o que nós mesmos dizíamos. Me vi já na nova casa de John, aonde ele vivia com Cynthia e Julian. Me vi deitado na beira da piscina de John, ao seu lado, com Julian brincando do outro lado. Me vi escrevendo músicas como Two of Us e I’ve Got A Feeling, e dizendo para os outros que não era sobre o John, mas no fundo, nem a mim mesmo eu convencia que não era pra ele. Me vi sentando ao piano, discutindo com George, e com John sentado ao lado de Yoko, apenas observando. Me vi nos Beatles pela última vez. Me vi brigando com John publicamente, por meio de músicas. Me vi. Vi uma figura triste, amarga e vazia. Vi um homem perdido, que sentia falta de seu melhor amigo. Me vi criando o Wings, e fazendo sucesso. Me vi tentando esquecer John e seguir em frente sem a sua amizade. Me vi voltando a falar com John, e dias depois, voltando a brigar com ele novamente. Me vi assistindo a luta de John para conseguir seu green card para ficar morando nos EUA. Ninguém sabia, mas no fundo, eu torcia para que ele não conseguisse. Não para a sua infelicidade, mas apenas para ele continuar aqui, perto de mim, na Inglaterra. Vi Yoko grávida. Vi John largando a sua carreira para criar o seu novo filho, Sean. Me vi feliz, pois sabia que John estava feliz. Me vi sentando em casa, semana passada, até Linda me chamar.

Linda disse que tinha alguém no telefone que queria falar comigo, mas não quis dizer quem era. Fiquei nervoso. Era John. O nervosismo tinha passado. Eu não conseguia acreditar, pois não nos falávamos a alguns anos, e estávamos brigados. Foi muito prazeroso ouvir aquela voz depois de tanto tempo, e mal eu sabia, que seria pela última vez. Ele disse ao telefone que sentia minha falta, que queria tentar de novo, “reatar” a nossa amizade, voltar aos palcos e aos estúdios. Disse que se sentia preparado para voltar a ser o que era antes, e que queria a minha ajuda para isso. Também pediu desculpa, segundo ele, “por ter sido um completo filho da pu**” e que a minha amizade nesse momento era tudo que ele precisava.

Nessa ligação, conversamos por mais de uma hora, e eu perguntei se ele gostaria de passar as comemorações de natal, junto comigo e minha família. Ele recusou, e disse que no momento, aquela ligação era tudo que eles precisavam, e que o resto, ele ia deixar a vida dizer. Acho que ele sabia. Ele sabia que algo aconteceria. E ele não queria que eu me envolvesse mais ainda. Ele quis falar comigo pela última vez.

Depois de um tempo em choque, me toquei que estava trancado no banheiro do meu quarto, com Linda ao lado de fora quase chorando, sem saber o que estava acontecendo. Me levantei, decidido a falar com ela, e contar o que se passava.

Antes de sair do banheiro, fiquei me olhando no espelho por um bom tempo. Meu rosto estava inchado. Fiquei pensando em Mimi, Julian, e em Sean. Tentei não imaginar a dor que eles provavelmente estavam passando. O mundo amanheceria sem um ídolo, sem um herói. Mimi amanheceria sem o seu sobrinho, Sean e Julian, sem um pai. E eu? Eu amanheceria sem o meu melhor amigo.

Na minha cabeça, uma coisinha ficava martelando, na verdade, uma frase, que eu sabia que tinha que colocar logo em um papel. Corri, peguei uma caneta, e anotei a frase. “And if I say I really knew you well, what would your answer be? And if I say I really loved you, and was glad you came along…” 

Notas Finais:

Pra quem não entendeu a parte de estar tocando All My Loving no fundo da ligação da Yoko: quando John foi levado ao hospital depois de ser baleado, por coincidência, a música All My Loving dos Beatles estava tocando na recepção.

Fanfic por Anna Montenegro
@monte1negro

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E abaixo as versões reais. Primeiramente, a polêmica primeira entrevista de Paul no dia seguinte, que pareceu estar “indiferente” ao fato:

E entrevistas depois, com as justificativas da entrevista acima:

Por fim, ao que quiserem se aprofundar na noite beatle mais triste da história, recomendo o documentário da BBC:

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E nesta mistura acima de ficção com realidade, o que fica mesmo é o legado desta eterna conexão entre os dois.

[ ] ‘ s,

Eduardo.



Categories: Curiosidades, Entrevistas, Letras, Músicas, Off-topic / Misc, The Beatles

2 replies

  1. Puxa, eu inocente achei q era real. Fiquei toda emocionada … A empatia foi tanta q me imaginei sendo sr Maca e reagi daquele jeito ou pior, com a noticia

    Aí veio o choque, vi a reportagem e a frieza inglesa e me lembrei da época em q morei na Inglaterra e conheci ingleses tão frios e indiferentes qto uma boneca de brinquedo – ingleses como o Paul nessa entrevista 😦

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    • Eli, quando li pela primeira vez, confesso que “passou batido” o lance da Yoko ter ligado para Paul. Depois, pensei um pouco e reli o texto – foi quando me lembrei que não era real, pois sabia que não era ela a pessoa que havia transmitido o recado. Foi quando me deparei com o termo “fanfic”, e aí ficou claro de vez. Aproveitei, então, para ir atrás da versão oficial e trazer a curiosidade por aqui.

      Sobre a frieza, além do que você comentou, eu fiz um sutil comentário no texto sobre isso, quando digo sobre o poder do tempo agindo. Quem vai a um show do Paul hoje em dia vê claramente toda uma preocupação em homenagear John e George, coisa que não era tão evidente assim até os anos 90, principalmente. Paul é hoje um Sir, a idade também claramente tem ação nisso, e são inúmeros exemplos de como ele está mais “emotivo” com os amigos que nos deixaram tão cedo.

      Outra coisa: apesar da frieza total da entrevista, coisa que é difícil de nós entendermos, temos que considerar a questão cultural e ainda o fato da entrevista vir em péssimo momento, ou seja, horas depois do falecimento. Isso é muito pessoal e não cabe a ninguém julgar, apesar de realmente ser estranho (e até causar muita estranheza pelo aparente descaso) para nós.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

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