Hora de redescobrirmos o rock – Episódio 1: Moonspell

Moonspell

Um ledo engano. Uma mascarada realidade que fica no coração de quem ama/curte rock. A ideia de que o estilo deveria dominar o mundo. Se não em cada canto do planeta, deveria estar ocupando um lugar de destaque neste planeta volátil.

Em um momento de humildade, percebemos que o que está nos lugares óbvios, não é bem aquilo que projetamos o nosso gosto, peculiar e ululantemente particular.

Uma matéria do jornal O Globo do mês de fevereiro disse que o “rock retornou ao seu lugar: o underground”. Fiquei pensando na sentença alguns dias e tive que concordar com o redator do post.

Fomos enganados. Os grandes festivais – pontuais – nos deram a impressão que mesmo países como Alemanha e Inglaterra que recebem festas de ‘gente de preto e tatuados’, que este planeta deveria ter como OST (original soundtrack) o metal e seus afiliados.

O rock nasceu como resposta ao conservadorismo exacerbado da década de 50. Um movimento de contra-cultura que tirou a chatice do virtuosismo do jazz e a tristeza ‘negra’ do blues. Parente próximo do gospel, o rock apertou o botão do start para as saias curtas, sessenta anos antes da bunda se tornar uma importante personagem de um exercício cultural que pegou a América desde a década de 80, de cabo a rabo; dos estadunidenses aloprados no r&b à sensualidade da música caribenha, até este país que se apaixonou pelos quadris e lá da altura deles construir um repertório que retrata sua própria história onde o sexismo é verve da diversão de um povo que herdou o rebolado saracotejante dos africanos, que usavam a dança como uma fuga das tantas opressões sofridas em seu próprio território.

Elvis, Beatles, Rolling Stones. Os caras dominaram o mundo e se tornaram eternos. Aqui, ali e em qualquer lugar, ainda faz gente se vestir como eles e emular até o jeito de vida de cada um de seus ídolos. Sim, o rock é um jogo de imitação, onde quem ouve institucionaliza o air guitar como forma de expressão e rasga a camisa nova só para que ela possa parecer mais velha do que é. Vintage feita à mão.

Mas ainda somos um gueto. Um gueto de luxo e bem estruturado. Seus ciclos são tão determinados quanto qualquer outro estilo. Ainda somos vistos como marginais, maconheiros e cheiradores. Um olhar de preconceito se estende a quem resolve começar o seu sábado de descanso com o mais sacros dos “barulhos”: Sad But True.

Ser “do rock” é devolver a condecoração. É tomar vaia dos ‘mauricinhos’ (eles ainda existem?). É não seguir a tendência e quando todos esperam o melhor: rá! Lançar um disco abaixo da crítica.

O dinheiro esfriou os ânimos da rebeldia e talvez o punk tenha sido o sobrevivente ideológico para as respostas mais atrevidas. Sua música (punk) está quase tão submersa quanto a música erudita, com o perdão da comparação. Tocando para 60, 70 pessoas, se contentam com algumas garrafas de cerveja e a mudança de uma velha e surrada caixa por um novo amplificador. Cederam pouquíssimo à mola capitalista que colocou cabresto nos gigantes do metal.

E a internet?

Deveria ampliar o que já está bom. Pelo contrário. É acusada – com generalismos mil – por ser a maior responsável pelo enfraquecimento do movimento. Gene Simmons disse em certa ocasião: “Por que eu faria um disco novo se eu sei que um moleque vai até a internet baixá-lo de graça?”. Gene, entendo seu ponto de vista, mas eu pensei que você fazia música porque gostava… o “punque” utilizou a ruela da clandestinidade musical para fazer som para os seus sem grandes desejos.

Os filósofos do som achavam que como aconteceu nos anos 70 de maneira bem homeopática, o “rock poderia mudar o mundo”. Com o tempo descobrimos que o mundo mudou o rock e disse como ele deveria se comportar e ele, como um buldogue francês, obedeceu e deu patinha.

O resultado é a reverência ao passado. Um jeito estranho de reconhecer que o presente ou é desconhecido para quem não o ouve (leia e entenda o que eu disse) ou um comodismo latente de quem acha que o melhor não está por vir, mas já foi.

A partir de hoje começamos a falar de bandas que você talvez tenha escutado pouquíssimo, mas que merecem uma chance de serem descobertas. Não apenas o som, mas também suas histórias e relações com sua própria arte. Não se espantem com a quantidade de conjuntos oriundos da Europa, berço nada secundário de bandas com muita identidade e qualidade.

Vamos começar pelo Moonspell, uma banda de Portugal que completa este ano 20 anos. Com onze discos em sua carreira, os gajos já tiveram várias mudanças de formação. Com um som bem “pra trás” (cunhando uma expressão muito utilizada por Alex Bside), o Moonspell privilegia os climas em suas canções, com um bom relacionamento entre guitarras graves e teclados médios e agudos; vocais guturais uma vez ou outra aparecem nas canções, mas é mesmo o barítono de Fernando Ribeiro que dá característica à banda portuguesa. Nos primeiros discos da década de 90, a banda flertou co a música eletrônica, mas abandonaria a estética baticumdum no disco The Antidote (2003). Um dos que já serviram de inspiração para o som da banda foi o alter-ego do poeta Fernando Pessoa (um dos mais respeitados da língua portuguesa), Alvaro de Campos.

No final de abril de 2015, o Moonspell começa uma turnê pelo México, passando por Estados Unidos e Canadá e encerrando o braço americano da tour em Atlanta no dia 19 de maio.

Como aperitivo uma faixa do novo disco da banda, Extinct, “The Last of Us”, uma das mais bacanas do lançamento:

Moonspell (formação atual):

Fernando Ribeiro (vocal)
Ricardo Amorim (guitarra)
Mike Gaspar (bateria)
Pedro Paixão (teclado e guitarra)
Aires Pereira (baixo)

Discografia:

Wolfheart – 1995
Irreligious – 1996
Sin/Pecado – 1998
The Butterfly Effect – 1999
The Antidote – 2003
Memorial – 2006
Under Satanæ – 2007
Night Eternal – 2008
Alpha Noir/Omega White – 2012
Extinct – 2015



Categories: Agenda do Patrãozinho, Artistas, Curiosidades, Resenhas

8 replies

  1. Daniel, primeiramente os parabéns pela ideia, mais que bem-vinda por aqui e uma oportunidade de tentarmos resgatar coisas que, por um motivo ou outro em nossas vidas, passaram em branco, ou quase em branco.

    Cada um de nós cresce dentro de um contexto musical e as vezes não dá realmente tempo de olhar para o lado e descobrir outras coisas. Mesmo os mais “exploradores”, tenho certeza, acabam sendo “engolidos” pela rotina nossa de dia-a-dia, é difícil mesmo. Então, a proposta é mais do que legal, é uma grande oportunidade de (re)descobrimento.

    Eu acho que a proposta será especialmente interessante se pegarmos a década de 60: quem tinha atenção com os Beatles e Stones praticamente tendo um monopólio?

    Ouvi o som e pelo nome, a primeira coisa que pensei foi no jogo “The Last Of Us”, do Playstation. Há algo a ver ou foi uma daquelas coincidências?

    Achei legal o som, o vocal não me encantou mas não me incomodou, o instrumental idem. Há outras dicas que possa compartilhar? Que tal se na série tivermos aquilo que o Rolf sempre comenta: “por onde devo ‘entrar’ na discografia da banda?”, sei lá, sugerindo de 3 a 5 músicas?

    Parabéns pela iniciativa e vamos em frente.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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    • Oi Eduardo, obrigado.

      Há muito queria escrever alguma coisa que apontasse justamente “pra frente”. Eu tentei isso algumas vezes durante o ano (os rascunhos estão até lá no admin do WordPress) mas acho este formato o ideal.

      Em princípio a ideia era só dar uma pincelada na história da banda e fazer com o que o público buscasse mais informações do grupo através do próprio post e também de outras fontes. Eu tive um contato superficial com o Moonspell em 2004/2005 apresentado pelo disco “The Butterfly Effect” e curti essa onda gothic metal. Aliás conheço uma dezena de bandas do estilo, mas pra gente tornar a série mais diversificada, pode deixar que vou por outros mares.

      Excelentes sugestões. Eu vou agregar parágrafos (tópicos) e trazer um padrão para o episódio 2 em diante que espero não demore para sair. Vamos falar de uma banda de um guitarrista bastante conhecido da galera e que tem um trabalho honesto e de pouco reconhecimento. E aí, já descobriu?

      … Em princípio, o “TLoU” da banda portuguesa nada tem relação com o jogo do PS3/PS4, embora a música fale de sobrevivência e direção, de repente foi a inspiração ideológica!

      Abraço,

      Daniel

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  2. Bem, antes de tudo o post tem a qualidade ” minutohm ” que estamos acostumados. Muito bem escrito pelo Daniel ( pleonasmo isso, na verdade…..) e com um tema muito relevante.
    Essa é a segunda sacada deste post, tentar nos atualizar, pois vários dos ” habitantes” daqui estão sofrendo de ” nostalgia metálica” , entre os quais me incluo, como sendo um dos mais fortes representantes.
    É muito cedo para traçar algum comentário sobre a banda , já que o material não é de meu conhecimento e tive o primeiro contato com a banda através deste primeiro link acima. Mas, infelizmente, nessa minha primeira avaliação , não rolou…. A música é até legal, mas não gerou aquele sentimento de buscar algo mais. Traz essa mistura de teclados e guitarras mais em voga desde o início deste século e uma ausência sentida ( pra mim ) de busca por um trabalho mais apurado. Em especial eu sinto falta dos solos, sou um ” vintage ” assumido, quando vamos por essa área. Ainda assim, teimoso que sou, fui ver mais alguma coisa na internet e trago dois shows completos , um no Rock in Rio de 2004 e um mais recente, de menor qualidade, de 2014.

    Vi um pouco destes aí acima, e confesso, a coisa acabou por piorar ainda mais, pois o vocal busca mais os timbres guturais, e aí, como diria o nosso amigo Rolf, ” peneirou”…

    O estilo, pelo pouco que percebi, vai na linha do gothic metal, e nesta linha o que me chama um pouco mais a atenção são bandas com vocal feminino, seja o mais conhecido Nightwish ( que aporta no Rio no festival do Sr. Medina no fim do ano) ou o Lacuna Coil ( que tenho um pouco mais de simpatia). Mas em ambos,o que sobra em harmonia nos vocais femininos falta nas bases monocórdicas, recheadas de graves pelo uso de afinações baixas, e sem quase solos de guitarra.

    Vi o Lacuna Coil no Rio de Janeiro sem baixista nenhum e não pareceu fazer qualquer falta. Aí que peneirou mesmo….Desculpe a sinceridade… pelo jeito tô ficando velho mesmo.

    Mas faz um favor pra mim, Daniel:

    Não desiste não , eu incentivo mesmo, ainda que eu tenha apresentado essa ranzizice que você deve ter percebido no texto. Você está de parabéns mesmo pela iniciativa, sem ironia nenhuma.Precisamos disso.

    E quanto ao meu gosto, eu espero ansioso pelo segundo capítulo.

    Alexandre

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    • Poxa Bside, nem precisa se preocupar com sua ranzizice. Estamos aí pra isso mesmo;)

      Você e Eduardo entenderam a proposta: apresentar o novo!

      Se vai agradar, bem aí é com cada um. A ideia é a gente tirar um tempo pra dar uma escutada em algumas coisas desconhecidas e mergulhar em um universo interessante.

      Existe algo no gothic metal que pode ter te desagradado e foi um dos motivos que eu relutei em curtir uma banda ou outra: depois da terceira faixa, parece que todas as músicas são iguais.

      E isso é ‘culpa’ dos caras que optam por tons vizinhos (trabalham muito com E e depois com Eb ou vice-versa) e que acaba saturando o ouvido de quem tá tentando apreciar. Quando se estuda harmonia escolástica – que aquela ciência atribuída à música onde você tenta fazer um som onde “um passarinho chora no inverno” – os mestres sugerem modulações e mudanças de clima (e neste caso tom) para quem a “alma de quem ouve não se chateie”. Eles pecam muito neste aspecto.

      … Mas dá para tirar uma coisa ou outra.

      Com relação ao seu comentário aos solos de guitarra, ah, ele é muito pertinente. Voltando a questão da harmonia, os europeus dão extrema importância aos arranjos de poucas notas e nem tanto aos floreios. Basta ver que eles trabalham com notas de “cabeça de acorde” quase o tempo inteiro. É impressionante como no metal em geral, pouca gente trabalha de maneira sofisticada essa questão da base (vide Metallica, Megadeth, Scorpions e Iron Maiden). Eu sou daqueles que invejo um arranjo de base preciso do que um fritado e trastejado solo de guitarra. Ainda falando do velho Mundo, ainda bem que vou parar no gótico do Moonspell, pois quase todas as bandas não trabalham dentro destas características.

      Por último obrigado pelos elogios, incentivo e como não vou falar mais do estilo propriamente dito, trago outra banda aqui nos comments (sempre tão agregadores no MHM) que talvez você curta buscar mais alguma coisa. O Therion é um dos maiores representantes e talvez um dos mais tradicionais. Se a música não agradar, quem sabe o clipe… 😉

      Initials BB

      Abraço, Mestre.

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  3. Um bom review do ótimo Blabbermouth do último álbum da banda portuguesa:

    http://www.blabbermouth.net/cdreviews/extinct/

    Daniel

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  4. + uma vez este blogueiro foi + ou – profético, segundo o site oficial do RiR 2015, a banda portuguesa estará no palco Sunset. Quem gostaria de conhecer de perto terá a oportunidade:

    http://rockinrio.com/rio/line-up/

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