Subdivisions e alguns dos vários aspectos de sua genialidade

Escrever sobre o Rush neste blog é cada vez mais difícil. Tendo uma discografia genial em andamento (que, esperamos, retorne o quanto antes), é complicado escrever algo que não passe por trivial a respeito do trio canadense. Já me arrisquei a escrever sobre Xanadu, hoje me arrisco a escrever sobre a faixa Subdivisions, do álbum Signals, mas desta vez sob um outro prisma, mantendo como foco a questão genialidade que a minha faixa favorita do álbum A Farewell to Kings também traz.

Rush_Subdivisions

Subdivisions entra no rol das faixas que são acessíveis e nada perdem em maestria, desde o arranjo usando a experimentação, caminho que o grupo sempre percorreu, com Geddy Lee se subdividindo (!) entre teclados, contemporâneos à época, linha de baixo fantástica e vocais. Em 1982 ,as guitarras de Alex estão mais sutis, mas também há a sutileza de seu backing vocal trazendo o título da canção, além de um belo e discreto solo quase ao fim da música. E Neil Peart entrega uma perfomance de bateria que rivaliza com a impressionante qualidade da letra e de seu tema.

O tema lírico da canção, parágrafo à parte, traz a observação e reflexão de Neil acerca das relações entre os diversos padrões de comportamento da sociedade, onde estar fora do esperado por um determinado grupo e seu padrão de atitudes significaria ser posto à margem do convívio com este séquito em si. Além disso, pontua sobre como os jovens se subdividem nas escolas, em especial ensino médio, trazendo já em 1982 aquilo que hoje é conhecido como “bullying”, em especial na frase: “conform or be cast out”, algo como “adapte-se (ao padrão esperado) ou seja posto de lado”. A letra também traz outras realidades de comportamentos padronizados e projetados, como o desenvolvimento imobiliário de condomínios e bairros inteiros, nos subúrbios, naquele momento, no Canadá e Estados Unidos mais especificamente.

E como estou aqui a escrever sobre genialidade, como já não fosse bastante todo estes vários aspectos fantásticos na canção que o trio canadense tão bem nos entregou em 1982, publico abaixo a verdadeira inspiração para este post, onde um único músico se atreveu a entregar uma rendição da canção, no estilo “on the roof”, tendo como pano de fundo e de forma provavelmente intencional um típico bairro padronizado tão bem descrito por Neil na letra de Subdivisions.

Divido com todos aqui a minha apreciação ao Sr. Jacob Moon e suas diversas subdivisões musicais em subdivisions. Para mim, não menos que genial!

Alexandre Bside



Categories: Curiosidades, Letras, Músicas, Resenhas, Rush

14 replies

  1. Belíssimo post, BSide, para um grande Lado A do Rush.

    Assim, eu tenho minhas concepções musicais e posso até ser tomado como rigoroso por conta disso. Não importa. O que me deixa feliz é que podemos encontrar pessoas que acreditem que a música vai além do som e “Subdivisions” é um exemplo perfeito para um desses conceitos.

    Quem conhece algumas cidades americanas e canadenses sabe da assepsia arquitetônica, somente quebrada pelos “downtowns” das cidades. Essa visão profética e quase contestadora de inadequação aos modelos, sejam comportamentais ou urbanos, passa pela visão filosófica do grande Neil Peart, que além de ser um dos maiores bateristas de todos os tempos, fez letras profundas como a apresentada.

    Com relação ao arranjo há uma série de gentilezas. E Lifeson percebeu que a canção merecia um ar de “sci-fi” (ao menos assim me parece) e sua intervenção é dentro das notas do tema proposto por Lee. Tudo muito bem observado por você. É uma bela melodia. Aparentemente em F# (no violão o Jacob opta por isso) e é a primeira nota “ferida” por Lee na mão esquerda. Vejo com ótimos olhos a capacidade de tornar em notas agradáveis um texto tão pesado e difícil, sem muita ‘musicalidade’. Perfeito.

    Nem gosto muito do Signals, mas pertence a ele este clássico. Aguardo também a continuidade do excelente review iniciado pelo AA!

    Quanto ao Moon, que belíssimo trabalho, hein?! Ele é canadense, da província dos caras e sabe muito bem sobre que seus conterrâneos estão falando.

    E por fim, quem poderia falar melhor sobre um tema (“inadequação”) tão pertinente aos nerds?

    Daniel

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    • Daniel, é difícil separar e avaliar o que é mais genial, mas a idéia inicial era escrever sobre a versão on the roof e as manobras do sr Moon pra entregar sozinho uma bela rendição da música.
      Acontece que o post traz Subdivisions, que por si só já mereceria comentários acerca da suas sutilezas, gentilezas, conforme você tão bem descreveu.
      Confesso, ao ver pela primeira vez a cover, me emocionei. Ao me transportar e entender as soluções propostas por Jacob, vi novamente e revigorada , a genialidade da primeira e original versão do trio canadense. Coisas boas que o youtube nos ajuda a difundir.
      Obrigado pelas palavras

      Alexandre

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  2. Concordo. Nao menos que genial, B side
    Excelente você mencionar que “correu riscos”
    Você conhece muito de metal e música em geral. Você sempre acrescentará muitas coisas e continuaremos aprendendo

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  3. Bside,

    Quando conheci o Rush lá por 84/85, o “Signals” era o último LP lançado pela banda disponível em Curitiba, e esta faixa de abertura muito me impressionava pela modernidade dos timbres, e mal eu sabia na época que tudo aquilo era tocado ao vivo perfeitamente apenas pelos três membros da banda sem o apoio de outros músicos.

    Como já falei em algum outro post aqui no blog, a “Subdivisions” também é muito especial para mim, pois me identificava muito com a letra na minha juventude “nerd”.

    Eu já havia ouvido esta versão do Jacob Moon, neste vídeo de sua apresentação na conferência dos fãs do Rush, a “Rushcon”, em que o mesmo conta que teve a oportunidade de encontrar o Rush e tocar para os mesmos sua versão, pedindo para que Neil gravasse a fala “subdivisions” para que ele pudesse usar nas suas performances, e fiquei realmente impressionado com a qualidade de seus vocais (alguém cantado Rush sem querer imitar a voz de Geddy Lee) e sua criatividade para fazer tudo sozinho apenas com um violão e usando um pedal de loop. E o solo de guitarra também ficou fantástico!

    Quanto à discografia, após quase 2 anos (!) devendo um post novo, já tenho uma boa parte da continuação pronta…

    keep subdividin’

    Abilio Abreu

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    • Abílio, eu já tinha visto essa outra versão, não sabia que era da Rushcon, mas sempre tem um Abílio no blog pra me ensinar mais essa, valeu.
      Muito legal quando ele fala do contato com Neil, que quis conversar com ele e da gravação da fala do mesmo com o título da música. Sugiro quem não viu esse vídeo, que veja pelo menos o seu início.
      Muito legal também seu primeiro contato com a banda é das referências que a música lhe trouxe e traz até hoje.
      Quanto a versão, concordo, vocal diferente e muito bom, solo excelente e mais ainda, tudo feito por um cara e seus gadgets.
      Por fim, aguardamos ansiosos a continuação da discografia, estou sempre feliz com a possibilidade.

      Alexandre

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  4. Aqui a genialidade volta a tomar conta de tudo. B-Side “ataca” novamente com um post mais que especial e fantástico.

    A primeira coisa que fiz ao terminar a leitura e ver os vídeos foi deixar um comentário no vídeo do canal de Jacob Moon no YouTube, um “tributo ao tributo”, com o link para este post: https://www.youtube.com/watch?v=W4vd9OVLO7Q&lc=z13axhgyekmqjbs0w22phjwizoakhn1a104

    Em um segundo momento, foi ler os comentários igualmente sensacionais já deixados acima.

    Legal ainda contextualizar isso, já que trata-se do início da década de 1980, mas um tema que não era novidade à época quanto a sua existência (a famosa “zueira”, os isolados, os nerds, os “diferentes”, os “bichos-grilo”), hoje chamamos pela expressão americana “bullying” para mim sem qualquer necessidade, apenas por mais uma moda que o próprio sistema nos colocou e muitos “compraram”.

    A música e o vídeo são para lá de claros quanto ao cerne da questão. Com o passar dos anos, só vemos os itens materiais mudando: se antes a molecada queria logo tirar a carta (carteira) de motorista, hoje muitos nem carro querem ter. Hoje, o “isolado” é o que não tem um celular atualizado – e muitos tem por terem, mal precisam de um hardware e software poderosos, já que só usam aplicações do inútil Facebook, como o próprio, do besta Instagram e o saturado WhatsApp. Mas a essência do tema, que é o “isolamente social”, aquele que “ou está dentro, ou não é gente”, esse sempre esteve aí e o Rush / Peart retrata-o com a maestria que só ele poderia fazer.

    Olhem esta curiosidade que vi sem querer em um link no YouTube: “Subdivisions was one of five Rush songs inducted into the Canadian Songwriters Hall of Fame on March 28, 2010. The band asked Jacob Moon to perform his version of the song at the gala in their absence” (https://en.wikipedia.org/wiki/Subdivisions_(song))

    Versão do ensaio desta oportunidade:

    Comparando com a situação atual da Internet, o Minuto HM entende bem as “subdivisions”, não?

    De resto, é novamente agradecer ao B-Side pelo post sensacional… e aguardar o retorno da igualmente incrível discografia, brindada pela (outra) autoridade em Rush, o grande Abílio.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  5. Eduardo, que bom que gostou da idéia de postar sobre a cover do Jacob aqui. Tudo é muito genial, do tema tão bem explorado em seu comentário às versões, não somente a do trio fantástico como a de Moon, endossado pela banda, como você coloca , acrescentando essa importante informação no seu comentário.
    Que possamos cada vez mais usar dos canais da Internet para ver e apreciar belos exemplos como esta Subdivisions , on the roof, e não as baboseira que infelizmente são cada vez maiores no ambiente virtual.

    Alexandre

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  6. Muito legal o texto e a sua percepção expressa nele. O Rush foi uma das bandas que me foram apresentadas por vocês lá por 86/87 com o …Exit . Mas só em 89 pude dar os créditos merecidos a banda. Os créditos e as minhas mesadas. Fora o ep Jump in the fire. Por esse recebi na troca numa loja o Hold your fire, Permanent waves, Moving Pictures e Signals. Subdivisions foi muito marcante na época. Na sequência veio A show of Hands com a versão ao vivo muito legal.
    Obrigado por me mostrarem o caminho do Rush.

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    • Cláudio, são ótimas as lembranças! Lembro-me quando comprei o duplo ao vivo da segunda fase da banda. Foi admiração imediata!
      O disco ( sim, o vinil), furou de tanto tocar. Até hoje, é um dos meus tops entre discos ao vivo.
      Valeu o depoimento!

      Alexandre

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  7. Simplesmente sensacional. O post, os cometários e o cover.
    Quanto a letra, vou confessar que nunca havia parado pra analisá-la. A questão de se sentir desajustados nas subdivisões oferecidas no tempo de escola e mesmo até hoje é um tema muito próximo a mim e creio que a muitos de nós que gostamos de rock pesado.
    Olhando em retrospecto, sinto que foi até bom, pois forjou minha personalidade numa posição mais independente, não necessitando da constante aprovação daqueles ao meu redor. Mas foi duro e ainda é, até certo ponto ser um “cast out”

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    • Legal o comentário , Schmitt.

      A letra de Subdivisions é a cereja do bolo. Na minha opinião, uma das melhores letras de Neil, é dificil escolher a melhor, mas esta concorre, sem dúvida.
      A cover sintetiza a perspectiva de um músico em se virar em seus gadgets e entregar sozinho tamanha homenagem, que é reconhecida pelos próprios caras do Rush.

      Legal aqui neste comentário foi você também traçar um paralelo com seu crescimento pessoal.

      Valeu!

      Alexandre

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  8. Minuteiros,

    A título de complementação, informo que o Jacob Moon tocou sua versão de “Subdivisions” no sábado dia 17.09.2016 (dia do meu aniversário, por sinal) na abertura do ‘Lee Lifeson Art Park’ em Toronto, na presença dos três magos, que receberão a chave de YYZ (Toronto) do prefeito da cidade; mais detalhes em http://www.billboard.com/articles/columns/rock/7511239/rush-geddy-lee-alex-lifeson-toronto-art-park-opening

    keep subdividin’

    Abilio Abreu

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