The Man Who Would Be King – Meu agradecimento ao André

Quando eu vi o André Matos pela primeira vez, meu corpo teve exatamente a mesma reação de quando encontrei pela primeira vez com o Bruce Dickinson: a perna não existia – pesava, imóvel – e a boca não conseguia proferir uma única palavra, mesmo com o cérebro dando as ordens. Estava com amigos de Lençóis Paulista no Hotel Transamérica, em São Paulo (nessa época, não morava na cidade cinza). Tínhamos um Avantasia Cover (eu era o fotógrafo) e toda a crew do Avantasia oficial estava hospedada para uma apresentação que aconteceria no Credicard Hall naquele dia.

Nós tínhamos um bandeirão, desses que preenchiam o fundo do barzinho que tocávamos, seja lá qual era. Nossa missão era coletar assinaturas dos integrantes da banda. Eu estava fazendo vídeos de cada membro do Avantasia e, quando o André apareceu, o vídeo não saiu – a minha mão não apertou o botão da câmera (naquela época elas não eram integradas aos celulares), mesmo eu achando que tinha apertado. Depois dessa burrada, com voz trêmula, eu pedi ao André que falasse um pouco do nosso cover (ele já até tinha presenciado a gente no Manifesto – a casa de Heavy Metal mais importante de São Paulo). E ele falou por longos minutos, sem pedir nada em troca, sem fazer propaganda.

Pior! Quando o show estava acabando e o André voltou para o BIS da última música junto de Tobias Sammet, ele agradeceu ao nosso Avantasia Cover – “uma banda que faz um trabalho muito legal”. Não tínhamos nem nome para o Cover (que mais tarde foi chamado de Scarecrow). Eu não lembro qual foi a última canção desse show, porque estava pulando junto dos meus amigos pelo fato do André ter mencionado a gente. No outro dia contei para todo mundo que eu conhecia, mas todos perdiam o interesse quando eu falava a palavra “Avantasia”, por não saber o que era. Ainda tem esse vídeo ativo:

Quem nasceu na década de 1980 e teve contato com o Angra quando jovem tem uma intimidade nata de fã para chamar o André Matos só de André. Era o André, o Kiko, o Rafa, o Luis e o Ricardo – como se fossem amigos nossos que se juntavam no final de semana para tomar cerveja barata e ouvir heavy metal.

Ainda estou sentindo o soco no estômago…

Não foi que nem o Dio, que já lutava contra um câncer. Não foi que nem o Lemmy, que já estava velho e debilitado pelos costumeiros abusos de um rockstar. Foi do nada! Foi em um sábado com sol. Foi com um ataque cardíaco. Eu estava lavando louça naquele dia 8, me borrando de medo do avião que teria que pegar à noite (tenho pânico em voar de avião). Minha mulher conhecia o André desde adolescente, quando ele tinha o Viper. Foi ela que me deu a noticia: “O André morreu” – gritando na sala.

Na hora me perguntei, “como assim, que André?”. Eu realmente pensei que era outra pessoa, pois conheço outros Andrés. Mas era o Matos. Era o cara que tinha cantado a poucos metros de casa seis dias atrás. Minutos depois o Shaman soltou a nota oficial. Eu achava que era uma piada de mal gosto, até ler a notícia no UOL. A dor que prosseguiu ao longo do dia não foi mais meu medo de avião.

Não quero aqui repassar a biografia dele nos detalhes.

Ele participou da fundação do Viper. E o Viper seguiu sem ele.

Ele participou da fundação do Angra. E o Angra seguiu sem ele.

Ele participou da fundação do Shaman. E o Shaman seguiu sem ele, até a reaproximação com a “formação original” que eu saí rouco em 2018.

Ele seguiu carreira solo, mas a canseira de ostentar a bandeira do metal no Brasil foi mais forte.

Ele participou do Symfonia, com ex-integrantes do Stratovarius, Sonata Arctica e Helloween. Um discaço! E a banda durou só um semestre.

Foi-se o homem que criou tudo e não ficou com nada. O rei que não tinha ainda encontrado seu reinado (quem era próximo dele, sabia que ele sempre se queixava disso). O cara que ouvia a plateia (qualquer plateia) ostentar o mesmo coro de “Carry On / Carry On / Carry On” em todo santo show!

Foi-se a melhor voz que o Brasil já teve no cenário do Metal! Foi-se o exímio maestro! O fantástico pianista! Sente o baque a nação metaleira brasileira, alemã, grega e japonesa – os pilares que vão sustentar sua obra por muitos e muitos anos que virão.

Esse soco no estômago vai demorar para passar…

Muito obrigado André!



Categorias:Artistas, Helloween, Off-topic / Misc, Stratovarius

14 respostas

  1. Partiu o cara que era dono de tudo!
    Obrigada André, hj temos orgulho de dizer que se há ainda um legadinho de música boa, foi pq ele eternalizou!
    P mim é mais que um soco no estômago!
    E uma dor paralisante!

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  2. Um texto lindo em um momento tão difícil a todos que curtem have metal, mas especialmente aos fãs como você, Kelsei, e sei também do amigo Caio.

    Obrigado por nos brindar com o privilégio de suas palavras em um momento tão inesperado… e que, nesta viagem, as naturais reflexões que estão seguindo ajudem a nos tornarmos cada vez seres humanos melhores.

    E pensar aqui hoje no tamanho dele… que poderia ter ido até para o Iron Maiden, dado o talento. Esse era o tamanho dele, que só se mostrou ainda maior com o passar dos anos…

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  3. Alguns outros registros:

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  4. Tweet do Caio:

    E na Internet:

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Curtir

  5. E Kelsei… não tinha visto o vídeo. Acabei de ver. Agora fiquei ainda mais estupefato com tudo…

    Permita-me usar suas palavras de 10 anos atrás, que encontrei nos comentários do próprio vídeo:

    Kelsei Biral
    10 years ago
    Quem sou eu pra dizer o quanto tá todo mundo de Parabéns!
    Vida longa ao único cover do Avantasia! E OFICIALIZADO!!
    Abraços,
    Kelsei Biral

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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  6. Kelsei obrigado pelo texto
    Você sempre foi um legítimo e fiel seguidor do trabalho das bandas aí qual ele fez
    Muito obrigado pela homenagem

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  7. Bem, aqui temos dois assuntos : Relativo ao encontro de Avantasia e Avantasia cover, o vídeo é daqueles de um sonho que nunca se espera ser realizado. Cabe ressaltar toda a disposição e simpatia de diversos músicos do original. Para os fãs/banda cover, imagino ter sido um momento de quase impossível se igualar nas diversas oportunidades que poderiam sugir nesse especto musical.
    E o assunto principal, que foi essa tragédia ainda difícil de acreditar. André era um representante do metal nacional, um profissional como quase nenhum, uma voz e instrumentista também como pouquíssimos e me passava ser a antítese do que infelizmente se ouve nesse país como cultura musical. Estamos acéfalos musicalmente em boa parte do que se veicula, mas isso é outro assunto.
    Se foi o grande músico e vocalista, fica a lenda.
    Obrigado Kelsei

    Alexandre

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