Kiss – a banda que pode ‘durar’ a eternidade

Quero começar meu papo falando da íntima relação que atores-personagens constroem, tão íntimas que após um tempo, fica difícil não fazer mais associação entre o profissional que atua e o seu alter-ego emprestado. O ator Adam West, que ‘encarnou’ o Batman para série de TV que foi ao ar nos Estados Unidos entre os anos de 1966 e 1968, disse que após ter deixado a capa, máscara e seus bat-acessórios, teve dificuldade de conseguir papeis no cinema e na telinha, tendo lhe sido reservado, em algum período na carreira, trabalhar como homem-bomba, vestido de homem-morcego, em algum circo estadunidense, uma triste realidade para aqueles que se apegam ao papel de maneira quase indelével.

Hoje fica difícil, mantendo o cenário cinematográfico, ainda no mundo dos quadrinhos; pensar em outro Wolverine (personagem do super-grupo X-Men pertencente aos estúdios Marvel) que não seja o australiano Hugh Jackman, é uma furada de marketing e um recomeço quase desnecessário à biografia do heroi quadrinista. O mesmo vale para Robert Downey Jr e seu etílico Tony Stark em um dos mais carismáticos personagens do cinema contemporâneo, o Homem-de-Ferro, quase sempre quebrando recorde de bilheterias e vendendo produtos de todo tipo; lancheiras, bonés, camisas, máscaras… a lista é quase interminável.

Para não dizer que isso não ocorreu, Hulk, o monstro verde do dr. Bruce Banner, criado pelo genial Stan Lee, já foi interpretado por três atores diferentes do cinema (se excetuarmos os telefilmes em que Bill Bixby/Lou Ferrigno trabalharam): Eric Bana (2003), Edward Norton (2008) e Mark Rufallo (2012). Este último em participação no filme Vingadores, que arrecadou mundialmente mais de 1,5 bilhão de dólares, sendo o terceiro filme mais visto da história do cinema, perdendo apenas para Avatar (2009) e Titanic (1997), ambos do ‘terminator’ James Cameron.

Mesmo que de maneira acanhada, peculiaridade quase nunca acompanhada do nome Kiss, a banda nova-iorquina vem namorando com uma filosofia highlander faz algum tempo. Para aqueles que não acompanham o história do grupo que completou 40 anos de lançamento do seu primeiro disco homônimo, o grupo hoje formado por Gene Simmons, Paul Stanley, Eric Singer e Tommy Thayer, já vendeu milhões de discos ao redor do mundo, sendo 20 álbuns e quase todos eles com enorme êxito comercial. Recentemente recebeu as honrarias do Rock Roll Hall of Fame, um reconhecimento pela obra iniciada em 1974, mas que gerou tanto burburinho desde a sua indução (o termo indução se aplica por conta da banda – ou parte dela – poder ou não aceitar a indicação), que ficou um mancha negra na biografia do grupo, especialmente pelas discussões infrutíferas em torno das atividades ‘extra-campo’ dos seus integrantes, especialmente Peter Criss e Ace Frehley.

Em 2012, Paul Stanley disse que a banda poderia ser representada por outros integrantes, desde que estes tivessem “boas mentes com visual semelhante e talento para dar continuidade ao Kiss”. Veja a declaração dada ao San Diego Union – Tribune e reproduzida pelo site Whiplash:

Sobre continuar a banda com outros integrantes no futuro, sem ele e Gene Simmons.

Paul Stanley: “A banda é maior que seus integrantes. Só precisa, nesse caso, de quatro boas mentes com visual semelhante e talento para dar continuidade ao KISS. Faz sentido para mim. Pode não fazer sentido para outras bandas, mas não somos como as outras bandas. Não vivemos essas regras. Nunca tivemos”.

Em algum momento, de semelhante infortúnio, Gene já havia ventilado esta mesma possibilidade: transformar o Kiss em uma banda em que qualquer músico (desde que preencha os requisitos ditos por Mr. Stanley) possa dar continuidade à carreira vitoriosa da banda. E eu completo que, conforme diria um jornalista carioca, que isso é patético.

Do ponto de vista de marketing talvez seja fabuloso saber que um grupo de rock pode ultrapassar facilmente os 50/60 anos de existência. Vira slogan de tour, prefácio de livro, chamariz de ações na bolsa de valores de Nova Iorque e cabeçalho de caixa de brinquedo. A banda, desde sua origem, quando alugava limousines para chegar aos shows, para fingir que já era bem sucedida, tenta lidar com sua imagem de maneira que ela seja lucrativa, a despeito que isso não impeça que ela continue sendo criticada, 40 anos depois, por suas limitações técnicas ou preguiça autoral de tentar algo que fuja de “carne com batatas”, expressão utilizada por Gene para representar esteticamente os últimos discos da banda.

Com 20 bolachas no bojo discográfico, podemos excetuar cinco grandes discos, aqueles que são “diferentes” e que podem entrar em várias listas de influentes/melhores/memoráveis discos de rock de todos os tempos. Visite a elaborada discografia do Kiss transformada em texto por Alexandre BSide e Flavio Remote aqui no Minuto HM e conheça várias curiosidades que envolveram tais lançamentos. Os outros 15 – por assim dizer – eram apenas continuação de fases ou emulações de uma época vencedora criativamente para banda.

A grande questão é que não estamos falando de cinema e muito menos de histórias em quadrinhos. Lá, até mesmo os herois morrem, outros assumem as responsabilidades e poderes, são vistos por nós com mais ou menos simpatia, de acordo com suas histórias de vida. No entanto, quando falamos de uma banda de rock que não faz canções inesquecíveis desde 1981 mas quer se tornar indelével da história, não dá para não chamar isso de uma pequena piada de mal gosto.

Sinceramente acho que vários imbróglios jurídicos (e daqui alguns anos, familiares) impedirão que Gene e Paul avancem com esta ideia de “Kiss eterno” mesmo que eu imagine que esta história começou quando eles assumiram os direitos das maquiagens de Peter e Ace. Em uma patética aceitação de Eric e Tommy, que deixaram de assumir suas características como músicos (especialmente Thayer) para serem cópias meia-tijela de músicos que já tiveram sua história na banca e pelos testemunhos, não souberam aproveitar.

É uma pena que a lição que a música compartilhada ensinou à indústria – ela aos poucos se reinventa – não tenha sido suficiente para sufocar a onda de marketing que tomou o rock, especialmente ao hard rock americano. Se não forem os planos marqueteiros e situações que atraem fãs do mundo inteiro, o estilo (vigoroso) já teria entrado em extinção. Sorte deles e nossa.

Torço para que Gene e Paul quebrem a cara e desistam de fazerem do Kiss ‘apenas’ uma empresa. Seria magnífico se a banda quisesse se eternizar pela sua música e não pela maneira como lida com ela.



Categories: Curiosidades, Kiss, Rumores

20 replies

  1. Olá Daniel. Muito bom esse texto.
    Voltar a usar maquiagem foi uma grande sacada para o Kiss. Para ao fans já não posso dizer o mesmo.
    Com a mascara foi possível fazer o transformismo de Aca e Peter.
    Se por um lado com a volta das máscaras pude ver a banda com formação original em 1999, por outro constatei a confirmação de que não haveria mais nada de diferente. Antes a banda seguisse o caminho do Led Zeppelin e acabasse na morte do Eric.
    A única produção que ousou a se diferenciar dos demais trabalhos “Carnival of Souls” quase nem foi lançado como podemos ver os detalhes na fabulosa resenha da discografia. Pra mim o melhor álbum desde o “Creatures of the Night”.
    Mas o negócio é faturar. E alto. Ao ponto de se basearem em álbuns antigos de sucesso para repetir a fórmula.
    Agora querer “eternizar” o Kiss, “forçou a amizade!”
    Não falta muito para idealizarem uma franquia.
    Isso aí.

    Like

    • Oi Cláudio!!!

      Bom vê-lo mais uma vez por aqui. Sim é por aí. E concordo contigo a respeito do ‘Carnival of Souls’: há grandes canções desperdiçadas ali, justamente quando o quarteto nova-iorquino nunca soou tão diferente (excetuado a experiência no Music From The Elder) e tão excelente…

      Infelizmente não fez publicidade de uma mudança estética musical interessante e preferiu se coverizar. Mesmo assim, não consigo ficar dias sem escutá-los.

      Um grande abraço e contamos com você no podcast daqui a pouco.

      Graça e Paz,

      Daniel Jr

      Like

  2. Daniel, excelente o texto e principalmente a reflexão sobre a música x o negócio . Se realmente esta história vingar, será mais um dos capítulos questionáveis ( e lamentáveis, no meu ponto de vista ) que a banda vem escolhendo ultimamente.
    Na verdade talvez seja o maior deles. Ou seja, eles estão tentando ainda mais se superar em escolhas que buscam apenas o business e deixam a música cada vez mais de lado.
    Eu também espero que isso seja mais um blá-blá-blá para chamar a atenção do que propriamente algo que se pense em levar adiante. Aliás, eu já ouvi essa história antes , mas continuo a ficar triste em sequer pensar que a coisa pode seguir neste caminho.

    Ah…o Carnival of Souls…É excelente mesmo…

    Alexandre

    Like

  3. Olá Bside,

    sim. Eu espero que seja mais uma falácia.

    Não aguento mais as notícias em torno do Kiss que não são relacionados à música.

    Tomara que sejam demovidos desta torpe ideia de se eternizarem através de personagens.

    Um grande abraço,

    Daniel Junior

    Like

  4. Concordo em absoluto, mas eu acho que não só vai rolar, como deve estar rolando. Eles devem fazer mais umas 4 ou 6 turnês e passar a bola. Inclusive já devem estar treinando os sucessores que vão fazer os shows enquanto eles enchem o traseiro de dinheiro com a “marca”.

    Like

    • Olá Thais!

      Que bom que visitou o MHM. Aqui será sempre bem-vinda!

      Será que já tá rolando ? Bem, se tratando de KISS a gente nunca pode duvidar, não é mesmo?

      Afinal de contas quantos malabarismos eles não fizeram nos últimos 20 anos para se manterem midiáticos ?

      Minha torcida ainda é que a MÚSICA prevaleça e os fãs que curtem o som da banda ainda possam se manter privilegiados nos (poucos) próximos 5 anos.

      Um abraço,

      Daniel Junior

      Like

    • Thais, apenas para reforçar as boas-vindas ao Minuto HM.

      Continue articipando por aqui e se curtir bastante Kiss, não deixe de conferir a discografia completa da banda aqui mesmo no blog.

      [ ] ‘ s,

      Eduardo.

      Like

  5. Daniel, valeu por trazer a reflexão por aqui. Realmente o assunto não é novo e frequentemente volta à tona…

    Acho que tudo que tinha que ser falado já foi dito no próprio post e nos comentários que seguiram, mas vou trazer minha opinião e fazer uma analogia maluca.

    – sob o ponto de vista da música / fãs: a ideia é um absurdo sem tamanho, como já disseram aí. Pior é ter a impressão que é tremendamente possível de acontecer…

    – sob o ponto de vista estritamente financeiro – pode fazer sentido para eles. Pensando APENAS em dinheiro, e o Kiss é o maior campeão neste aspecto muitas vezes, a marca é de um poder sem tamanho hoje. Mas diferente de outras bandas, o Kiss em especial possui o maior catálogo de produtos de uma banda ainda ativa – talvez rivalizando com os Beatles, apenas…

    Muitas bandas possuem muitos produtos, mas não são tantos que envolvam diversas outras empresas. No caso do Kiss, há diversos “fornecedores” na jogada de produtos.

    E aí vem a analogia meio doida, e é com a Apple. Ao lançar o iPod mas principalmente o iPhone, a Apple criou novos mercados de desenvolvedores de software e de acessórios de todos os tipos para seus produtos. São ZILHARES de produtos de todos os tipos para estes dispositivos, inclusive de marcas famosas de roupas, bolsas, materiais esportivos, enfim, está todo mundo envolvido.

    Pensando no catálogo do Kiss, claro que em proporção diferente, até por ser um negócio diferente, tem muita gente envolvida. Gene Simmons deve enxergar então um potencial disso continuar sendo rentável, mesmo com a banda não sendo mais a mesma. É insano, mas qual o risco financeiro para eles caso não dê certo? Baixo, pois bastaria fazer contratos customizados e o prejuízo aos envolvidos seria pequeno.

    Bom, eu disse que seria algo meio maluco… e eu nem gosto de pensar nisso…

    De bom mesmo, a introdução e reflexão do post mesmo, pois o resto é lamentável…

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

  6. Isso eu passo, solenemente…Vamos falar de música, por favor….

    Alexandre

    Like

  7. Olhem que legal o que acontece no primeiro mundo (Helsinki) para recepcionar a banda… trata-se de um marco, simplesmente a estação central de trens…

    http://www.kissonline.com/news?n_id=125730

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: