Consultoria do Rock – “Melhores de Todos os Tempos: 2003″, com participação do Minuto HM

Pessoal,

vamos a mais um ano lá na Consultoria do Rock com a série “Melhores de Todos os Tempos“, que chegou em 2003 e, seguindo a participação alternada dos gêmeos, temos Alexandre B-Side como nosso representante.

Boa aula a todos – apesar de eu provavelmente ser um dos alunos rebeldes que trará em um futuro comentário algumas indagações e indignações :-).

[ ] ‘ s,

Eduardo.

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Opeth-01

OPETH EM 2003: MARTIN MENDEZ, MARTIN LOPEZ, PETER LINDGREN E MIKAEL ÅKERFELDT

Por Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, Alissön Caetano Neves, André Kaminski, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, João Renato Alves, Leonardo Castro, Mairon Machado e Ulisses Macedo

Participação especial de Giovanni Cabral, colaborador do site Music on the Run e autor do blog Trajeto Alternativo

Em mais uma edição sem muitas pontuações expressivas, com listas individuais muito diferentes entre si, quem se deu melhor foi o sueco Opeth. Damnation, disco que colocou em prática uma ruptura bastante evidente, foi o que mais conquistou os ouvidos dos colaboradores desta vez. Além do Opeth, alguns estreantes surpreenderam, gerando comentários antagônicos. Lembrando sempre que o critério para a formação de nosso top 10 segue o sistema de pontuação do campeonato mundial de Fórmula 1, convido-lhes a apreciar todo o conteúdo da publicação e a deixar seus comentários, não importando o teor.


 

01-Damnation

Opeth – Damnation (76 pontos)

Alexandre: Uma incrível guinada na proposta do Opeth, que até então não me agradava em função do vocal gutural dos álbuns anteriores. Era notório o talento do grupo, não havia dúvidas. Bastou Mikael Åkerfeldt começar a cantar para que eu ficasse estupefato com a qualidade final do trabalho. A mudança de proposta deste Damnation, é claro, não é apenas no quesito vocal. Eles foram buscar elementos das grandes bandas progressivas, em especial Yes, Pink Floyd e King Crimson, para entregar um disco quase totalmente clean. Nesta lista final rivaliza, no meu entender, apenas com os também ótimos álbuns de Anthrax e Dream Theater. Entre as faixas, destaco já de cara “Windowpane” e “In My Time of Need”, pelo lindo uso de teclados emulando os sons do mellotron usados em álbuns como In the Court of the Crimson King (King Crimson, 1969). Algumas das linhas de guitarras oitavadas de “Death Whispered a Lullaby” me lembram do extraordinário Steve Howe (Yes). Há claramente uma importante contribuição do produtor Steven Wilson, que se encarrega dos teclados. Tentando não me estender tanto, preciso destacar “To Rid the Disease” e novamente o mellotron de seu refrão e da parte final, que agrega também um belo solo de guitarra. Um correto primeiro lugar.

Alissön: Desde já, aplaudo de pé aos envolvidos na escolha de Damnation como detentor do posto de melhor disco do ano. Justíssimo, apesar de sequer ter entrado na minha lista – a disputa era ferrenha demais. A evolução estilística promovida por Michael Åkerfeldt é notável e louvável de ser acompanhada. Em Damnation, o Opeth pariu sua obra mais ambiciosa, levando o rock progressivo a níveis de excelência dificilmente vistos antes. A escolha da banda por abandonar por completo o metal e os vocais guturais foi uma decisão sábia. Não sacrificaram nada, o que está gravado em Damnation é Opeth, sem sombra de dúvidas. Quer provas? O clima sombrio, as melodias onipresentes, a excelência nas execuções e, um pouco mais difícil de se perceber, a “alma” ainda estava presente. Em cada uma das oito músicas, o disco esbanja exuberância a partir de suas influências de jazz e do rock progressivo clássico, sem soar em momento algum como um produto reciclado. É na verdade a partir daqui que a musicalidade dos suecos começou a tomar contornos interessantes, e não seria nenhum exagero ver qualquer de seus álbuns futuros aqui presente.

André: Nunca consegui enxergar a genialidade que muito dizem essa banda possuir. E olha que já ouvi essa banda muito mais do que deveria se levar em conta meu gosto pessoal. Diferente do Pain of Salvation que é outra banda muito cultuada (porém, essa ainda compreendo mais, porque de fato acho bem diferenciada), sempre considerei o Opeth, no máximo, uma banda média, com alguns trabalhos bons. Gosto de Blackwater Park (2001), por exemplo. Aqui a banda se foca mais no rock progressivo deixando de lado o death metal de antigamente. “To Rid the Disease” é a faixa da qual mais gostei, mas, no geral, é um trabalho mediano com bons momentos.

Bernardo: Sem vocal gutural, sem blast beat, sem distorção na guitarra, o Opeth fez o seu primeiro álbum puramente de rock progressivo. Uma iniciativa radical, mas que não é particularmente do meu gosto. Nem um gênero, nem outro.

Christiano: O disco mais Porcupine Tree do Opeth. Resultado da parceria com Steven Wilson, Damnation foi uma grande surpresa para os fãs, que estavam acostumados com o death metal praticado pela banda até então. Aqui não existem vocais guturais, nem uso de bumbos duplos, nem riffs rápidos e distorcidos de guitarra. É um disco quase acústico, contemplativo e, acima de tudo, com belas melodias. Foi a grande quebra de paradigma promovida pelo Opeth, que ganharia destaque entre as milhares de bandas de sua geração, provando que ousadia e criatividade ainda são valores possíveis em tempos de “peso pelo peso” e velocidade competitiva. Sem dúvida, é justíssimo que esteja em primeiro lugar nesta lista.

Davi: Trabalho calmo, tenso e sombrio. Depois do pesado Deliverance (2002), o Opeth veio com um álbum trilhando exatamente o clima oposto. Bateria e baixo são simples, porém bem trabalhados. O grande destaque do disco, contudo, são os trabalhos vocais bem harmoniosos. Registro bonito, bacana de escutar, mas não o elegeria como álbum do ano.

Diogo: Tanto falam do foco excessivo no heavy metal nesta série, mas o Opeth precisou lançar um álbum despido de vocais guturais e guitarras distorcidas para finalmente dar as caras por aqui, e olha que eu cheguei a citá-los anteriormente. Creio que a união de suas ambições progressivas, do clima soturno e dos elementos mais extremos era justamente o diferencial do Opeth em relação a outras formações, mas não posso negar que, acima de tudo, Deliverance é um disco muito bom, apesar de ter se despido do extremismo que tanto me agradava. Em verdade, fico até imaginando momentos em que o grupo poderia ter pesado mais a mão sem comprometer a qualidade das composições. Felizmente, o álbum funciona bem de qualquer jeito, com composições coesas, melódicas e nada enfadonhas. O uso do mellotron é motivo de comemoração, pois complementa as canções de forma muito sadia e ajuda a criar o clima soturno previamente citado. Minha provável favorita é “In My Time of Need”, que mostra que não é necessário tentar ser grudento e repetitivo para que um refrão fique na mente do ouvinte (ao menos na minha ficou por muito tempo e de vez em quando ainda reaparece).

Fernando: Já escrevi aqui na Consultoria o que eu acho de Damnation. Foi o álbum do grupo que me fez ouvi-los. Engraçado que, na época desse texto, eu ainda tinha problemas com os guturais, e de uns meses para cá quase só ouço isso todos os dias. O estreitamento das relações com o produtor Steven Wilson mudou a cara da banda e adicionou um senso de melodia ímpar hoje em dia. E essa parceria deu certo, pois até hoje eles estão trabalhando juntos. Em um ano, ao meu ver, fraco de lançamentos mais expressivos, achei válida a posição.

Giovanni: O Opeth é uma das minhas bandas favoritas há alguns anos e, sem dúvida, me ajudou muito a começar a olhar a música sob outra perspectiva. Apesar disso e de possuir uma beleza única, Damnation não está no topo dos meus álbuns prediletos dos suecos, mas ele é indiscutivelmente o disco que mais agrada os não fãs do Opeth. Ainda com a parceria de Steven Wilson na produção, a banda explorou aqui a faceta mais calma e sombria do idolatrado Blackwater Park, enquanto gravava simultaneamente um de seus discos mais brutais (Deliverance). Aliás, a contribuição de Wilson como músico é nítida, mas Mikael Åkerfeldt é quem brilha. Sua voz limpa resplandece melancolia (ouça “Hope Leaves”, “Im My Time of Need” e “Windowpane” para comprovar) em sons predominantemente acústicos.

João Renato: Foi só de um tempo para cá que passei a prestar mais atenção no Opeth. Até por conta disso, não tive o ranço que os fãs antigos da banda tiveram com as mudanças de estilo. Damnation é um trabalho consistente, maduro e emocionante. Daqueles que você consegue tanto ouvir prestando atenção nos detalhes como colocar para acompanhar o dia, sem maiores preocupações. Sempre desagradará alguém, mas o fato é que Mikael Åkerfeldt deu um tiro certeiro. Sobre a “traição ao movimento”, é o que sempre digo: hoje, o Led Zeppelin seria escurraçado.

Leonardo: Inicialmente uma banda de death metal melódico/progressivo, o Opeth foi dando cada vez mais ênfase a seu lado prog ao longo de sua discografia. Contudo, o grupo nunca abandonou por completo suas raízes extremas, mantendo os vocais guturais e riffs mais pesados e ríspidos em seus álbuns. Até o lançamento deste Damnation. Abandonando totalmente o extremismo, o grupo sueco apostou de vez no rock progressivo extremamente atmosférico, com um resultado bem acima da média. O disco é repleto de melodias suaves, e tudo é executado com maestria. Altamente recomendado, até para quem não é tão chegado ao lado mais progressivo do rock, como eu.

Mairon: Quando eu vi a definição da banda como death metal progressivo me assustei, daí fui conferir este “primeiro lugar” e não achei nada de death, nada de metal e pinceladas de progressivo, seja pelo dedilhado de violão em “Windowpane” e na levada de “Closure”, com a utilização de instrumentos árabes, ou o mellotron que está na maioria das faixas, dando um clima crimsoniano para as músicas. Gostei de “Death Whispered a Lullaby” e “Ending Credits”, e acredito que o trabalho de produção de Steven Wilson seja o responsável pela banda ter uma cara de Porcupine Tree. Dizem que os outros discos são bem diferentes, mas a tiragem deste álbum já me faz pensar que grande porcaria não devem ser os anteriores. Disco interessante, mas jamais o melhor de 2003. Prefiro um Anekdoten então, mas não isso.

Ulisses: Não sabia que o pessoal gostava tanto de Opeth. Ou será que é porque Damnation é o disco totalmente prog e “limpo” da banda, daí a subida para o primeiro lugar? Seja como for, apesar de não ser fã do grupo liderado por Mikael Åkerfeldt, reconheço a beleza do álbum e ouço sem sofrimento. Ele traz melodias lentas, melancólicas, serenas até, mas sempre envoltas por uma atmosfera obscura. A parte do meio do tracklist, com “Closure”, “Hope Leaves” e “To Rid the Disease”, é a melhor.


 

02-Train-of-Thought

Dream Theater – Train of Thought (68 pontos)

Alexandre: Desde Images and Words (1992), por cerca de dez anos e até então, o grupo vinha emplacando trabalhos diferentes entre si e que não por acaso foram quase todos mencionados aqui, exceto por Falling Into Infinity (1997), que divide opiniões, sem dúvida. Portanto ver o Dream Theater aqui pela quinta vez em um período de seis álbuns de estúdio é a prova de que, apesar de alguma má vontade de críticos e apreciadores musicais, não há como negar a importância do grupo para o seu gênero. Ao meu ver, este é o último grande disco da banda, um trabalho absurdamente pesado que só tem comparação talvez com algumas faixas de Awake (1994). O destaque absoluto é a faixa “As I Am”, com um solo simplesmente fantástico de Petrucci e que tinha potencial para se tornar o grande clássico da banda. Até hoje não sei por que não teve tanta repercussão quanto seu único grande single (“Pull Me Under”). O álbum é praticamente perfeito, exceto pela melosa “Vacant”, desnecessária. “This Dying Soul” continua a “saga da cachaça” no nível de “The Glass Prison” (do álbum anterior), “Endless Sacrifice” e “Honor Thy Father” mantêm a qualidade e as duas canções finais fecham Train of Thought com chave de ouro: “Stream of Consciouness” é uma senhora faixa instrumental e “In the Name of God”, além de épica, traz o outro grande solo de guitarra de John Petrucci.

Alissön: Gerou polêmicas por não ser conceitual ou não apresentar o eruditismo herdado do progressivo clássico dos anos 1970. Em seu lugar, a banda foi fundo em compassos mais complexos e nas distorções de guitarra, resultando em um som mais denso, encorpado e melhor definido. É mais agradável de acompanhar do que os discos anteriores, até porque as músicas funcionam de forma isolada e não possuem aquela pretensão de querer mudar o mundo. Mesmo assim, não passa com louvores pelo teste do tempo. É fácil de ouvir uma vez, mas dificilmente ele o deixará instigado a ouvi-lo novamente.

André: O primeiro disco que ouvi do Dream Theater na casa de um amigo. E um de meus favoritos deles até hoje. Pela influência de Portnoy, a banda decidiu aqui soar mais pesada e menos progressiva, obrigando John Petrucci a descer a mão nos riffs que permeiam este trabalho. “As I Am” e “Stream of Consciousness” estão gravados em minha mente desde aqueles tempos de adolescente. Eu definitivamente adoro essa fase pesada da banda, encerrada depois da saída turbulenta do baterista alguns anos depois.

Bernardo: O álbum mais pesado do Dream Theater, carregado de riffs. Mas não necessariamente interessante.

Christiano: Se no disco anterior já mostravam algumas influências de bandas mais pesadas, como Metallica, aqui isso ficou escancarado. Train of Thought é o álbum menos prog do Dream Theater, com músicas baseadas em riffs de guitarra e arranjos mais enxutos. A banda deu claros sinais de desgaste criativo, e isso pode ser notado nas composições presentes neste disco, muitas vezes sem inspiração e um pouco maçantes. Não é um trabalho ruim, nem o pior da carreira do Dream Theater, mas é uma sequência da queda criativa que teve início no álbum anterior, Six Degrees of Inner Turbulence (2002).

Davi: O Dream Theater resolveu surpreender todo mundo e fez um disco mais pesado, com arranjos menos intrincados. As que mais se aproximam de seus álbuns anteriores são as duas últimas faixas: “Stream of Consciousness” e “In the Name of God”. As faixas continuam longas, conforme esperado. O nível de excelência dos músicos é mantido. O CD conta com várias músicas bem legais, como “As I Am”, “This Dying Soul” e a já citada “In the Name of God”, e é um dos melhores desta lista.

Diogo: Afirmei na edição passada, comentando Six Degrees of Inner Turbulence, que o Dream Theater ensaiou uma recuperação em Train of Thought. É uma pena que essa recuperação tenha sido apenas momentânea, pois se o grupo se focasse mais em canções individuais e menos em conceitos intrincados, talvez obtivesse resultados musicais bem mais interessantes, como ocorre neste disco. A escolha consciente de colocar em prática um trabalho mais pesado acabou contribuindo para que Train of Thought tenha bem mais objetividade, fator que muitas vezes falta ao grupo e faz com que apreciadores em potencial tenham tantas restrições, como é meu caso. “As I Am” é o exemplo perfeito de como o quinteto pode funcionar muito bem quando tem foco, condensa sua musicalidade e apara arestas: uma canção marcante, muito melhor que outras faixas tidas como clássicas incontestáveis pelos fãs, levada por riffs de guitarra contagiantes e uma postura bem mais roqueira. Até os vocais de James LaBrie, que não são muito do meu agrado, acabam soando melhores. “This Dying Soul” e “Honor Thy Father” também são duas pancadas de respeito que elevam este álbum no meu conceito. Só que depois dele degringolou de vez e meu interesse pela banda se esvaiu.

Fernando: Quando penso em tirar Train of Thought da prateleira o faço apenas por um único motivo: “As I Am”. Como pode uma música tão legal estar em um disco tão fraco? Eles fizeram aquilo que o mercado financeiro sempre diz que não é correto fazer: colocar todos os ovos em apenas uma cesta. Perto dessa faixa as outras músicas ficam chatas. Isso acabou se tornando um hábito no Dream Theater nos álbuns subsequentes. Poucas músicas realmente boas no meio de álbuns medianos.

Giovanni: Muito dinamismo, muita complexidade (nem sempre de forma objetiva) e o álbum é o mais “pesado” que eu ouvi deles. Bom, isso não quer dizer muita coisa… o estilo técnico e progressivo do Dream Theater nunca me fisgou, nem mesmo nos discos clássicos.

João Renato: Mais peso que os antecessores diretos. Mas, ainda assim, é complicado para mim. Chega na metade da música, já não lembro como começou. Muita “aula”, nem tanto sentimento.

Leonardo: Na minha opinião, o último bom disco do Dream Theater. Não chega nem perto de seus melhores trabalhos, mas é pesado e divertido o suficiente. A longa duração das faixas o deixa cansativo, mas os bons riffs e o peso geral do trabalho compensam um pouco.

Mairon: Com certeza este é o mais pesado dos discos do Dream Theater, com a pancadaria comendo solta, principalmente em “This Dying Soul”. Entre tanto peso, acho a leveza de “Endless Sacrifice” o melhor momento do álbum, ao lado da dupla “Vacant”/”Stream of Consciousness”. A primeira possui um belo violoncelo, e a segunda, intrincadíssima peça instrumental, tornou-se obrigatória nos shows a partir de então. No geral, Train of Thought traz John Petrucci e Jordan Rudess cada vez mais monstros, John Myung não se destacando dessa feita e Portnoy e LaBrie apenas fazendo a encheção de linguiça de sempre, sendo que as distorções na voz do LaBrie em “Honor Thy Father” são um saco. Mediano, mas para esta lista está em boa conta.

Ulisses: Quando o Dream Theater decidiu soar o mais pesado que podia, surgiu Train of Thought. Apesar dos caras terem esticado bastante as faixas (mais de uma hora em apenas sete composições), tiveram o cuidado de manter interessantes os intermináveis solos, pontes e passagens instrumentais. A instrumental “Stream of Consciousness”, por exemplo, não deixa a peteca cair em momento algum, enquanto a finaleira “In the Name of God” deixa o ouvinte embasbacado com suas influências orientais e refrão cativante; o baixo de Myung, junto com a bateria de Portnoy, dando a base para o shredding de Petrucci a partir dos 8:40, seguindo logo depois em uma espiral maluca, é provavelmente meu momento preferido do CD. A guitarra de Petrucci está uma delícia de ouvir, aliás, algo percebido já ao ouvir pela primeira vez o riff de “As I Am”. Apesar das críticas de muitos fãs por conta do peso excessivo (e acusações de que haviam se vendido ao nu metal), Train of Thought figura como um dos melhores registros do quinteto.


 

03-Deloused-in-the-Comatorium

The Mars Volta – De-Loused in the Comatorium (64 pontos)

Alexandre: Um belo álbum, misturando elementos de progressivo, alternativo e até um pouco de jazz e sons latinos à la Santana para o pano de fundo que é a história conceitual proposta. Acho que tenho de dar um pouco mais de crédito e conhecer a banda com mais profundidade para tecer uma análise mais gabaritada, mas gostei bastante do que ouvi, podendo destacar as faixas “Roulette Dares” e, principalmente, “Drunkship of Lanterns”, com umas pitadas de Yes lá pelo meio da canção. O CD é bem coeso, com vocais bem encaixados dentro de um estilo mais difícil, mas sem dúvida o grande destaque é o baterista Jon Theodore, que faz um excepcional trabalho de condução rítmica, muito bem assessorado pelo convidado de luxo Flea, enquanto as texturas das guitarras de Omar Rodríguez-López se encarregam de dar o tom do trabalho, utilizando com muito bom gosto de efeitos como vibratos e delays curtos, principalmente. O único ponto fraco para mim é a faixa “Televators”, meio perdida no meio dos efeitos sonoros. Muito boa esta escolha dos consultores.

Alissön: Vamos por partes. Em se tratando de Omar Rodríguez-López, sempre preferi suas composições frente ao At the Drive-In – no espetacular Relationship of Command (2000) –, então não sei se tenho créditos suficientes para falar algo concreto sobre este disco. O que posso dizer sem medo de falar nenhuma bobeira: quando De-Loused in the Comatorium foi lançado, causou um verdadeiro estardalhaço pelas composições intrincadas e pela grande capacidade de López em misturar um monte de estilos. Tinha emo, post-hardcore, metalcore, muito rock progressivo e pitadas de metal para complementar. Apesar de parecer uma grande salada, o disco tem uma unidade para se apoiar, e a audição percorre diversos trajetos sem ser torturante, muito pelo contrário. Bela presença e certamente um dos discos mais relevantes dos anos 2000.

André: Das bandas que a grande mídia costuma louvar nestes últimos 15 anos, esta é uma das poucas que concordo com a saraivada de elogios e pela qual tenho também grande apreço. O The Mars Volta consegue amarrar bem as diversas influências que aparecem em sua sonoridade produzindo algo interessante e complexo sem soar presunçoso. De-Loused in the Comatorium é uma ótima surpresa surgida nesses anos 2000 e uma banda que vai servir de influência (espero que boa) para muitas outras no futuro. Uma pena que encerraram suas atividades não faz muito tempo.

Bernardo: Sublime a estreia do The Mars Volta, surgido das cinzas da banda de post-hardcore At the Drive-In, com a qual já haviam lançado a obra-prima Relationship of Command. Agora como Mars Volta, caíram de cabeça no experimentalismo, indo do punk e do hard rock até o jazz fusion e a música latina, tudo carregado por uma boa dose de psicodelia. Aqui foi onde muitos tiveram contato pela primeira vez com a dupla Cedric Bixler-Zavala e seus vocais intensos, viscerais e dramáticos de tenor alto e Omar Rodríguez-López e sua guitarra camaleão, que vai da sofisticação ao peso de maneira orgânica. Para mim, De-Loused in the Comatorium e Frances the Mute (2005), o disco que o sucedeu, foram paradigmas da música contemporânea, feitos de um grupo que não se vê todo dia. Obrigado aos texanos de El Paso por oferecerem um universo tão grande a ser explorado.

Christiano: Este disco foi muito bem recebido na época do lançamento. Difícil de ser enquadrado dentro de um único estilo, com traços de psicodelia, guitarras hard rock, muitas variações rítmicas, algumas influências de indie rock, som bastante elaborado e constantes quebras de expectativa. Enfim, um álbum muito interessante e que traz uma proposta inovadora para a sua geração. Você pode não gostar, mas é impossível não reconhecer a inventividade da banda.

Davi: Já conhecia. Tenho em casa. Trabalho de estreia bem bacana. Os músicos mandam bem. As canções são longas, repletas de experimentalismo, mas não é chato. Misturam no rock ‘n’ roll elementos de jazz e até de música latina. Disco para fechar os olhos e deixar a música te levar. Pena que nem todos os álbuns deles tenham esse nível de excelência. A discografia é de altos e baixos. Faixas preferidas: “Inertiatic ESP”, “Drunkship of Lanterns” e “This Apparatus Must Be Unearthed”.

Diogo: “The Mars Volta é aquela banda cujos integrantes se parecem com ex-colegas seus de Jornalismo, mas é legal.” Essa é uma recente definição que dei para o grupo texano, autor do melhor disco a aparecer nesta edição da série, de longe. Nem digo isso pela fato de apenas duas indicações minhas estarem nesta lista, mas porque se trata de uma obra verdadeiramente diferenciada. Inclusive, tenho pirado tanto neste álbum que já estou meio arrependido de não tê-lo colocado em uma posição mais elevada, abaixo apenas do insuperável Change, provável melhor disco de Richie Kotzen. Que me desculpem os amigos que, em listas passadas, ajudaram a emplacar coisas como Transatlantic e Spock’s Beard, mas ninguém fez rock progressivo na década passada tão bem quanto o The Mars Volta em seus primeiros discos. À primeira ouvida, as faixas podem soar meio esquizofrênicas, e os gêneros misturados de maneira indigesta, mas uma vez que elas te pegam de vez, já era, você quer devorá-las com mais e mais voracidade. Omar Rodríguez-López tem um domínio invejável de sua guitarra, passeando por diferentes estilos com muita habilidade. Jon Theodore toca com toda a classe e a gana que uma formação como o The Mars Volta pede, enquanto Flea também executa um bom trabalho como convidado. Cedric Bixler-Zavala é um vocalista especialmente único e ajuda a emprestar uma personalidade ainda mais peculiar ao grupo. Todas as faixas compõem bem demais um conjunto coeso e viciante, mas não nego que “Inertiac ESP”, “Roulette Dares (The Haunt of)” e “Eriatarka” têm soado especialmente intensas ultimamente. Não sei se Frances the Mute vai dar as caras por aqui na edição dedicada a 2005, mas merecimento há, e muito.

Fernando: Já escrevi um artigo para a Consultoria sobre o The Mars Volta, mas acredito que ele é mais um daqueles textos que perdemos por conta do “bom trabalho” do UOL Host. O disco escolhido para a minha resenha, porém, tinha sido Frances the Mute, o meu preferido. Acho que o grupo poderia ter sido mais bem sucedido, já que não havia ninguém fazendo o som que eles faziam e até hoje são algo único. A mistura de diversos estilos musicais podia parecer confuso em uma primeira audição, mas fazia todo sentido depois de um tempo. É uma pena não estarem mais por aí.

Giovanni: Uma intensa força percussiva, um tecladista com um gigantesco leque de possibilidades, um guitarrista que cria sons pesados e cheios de feeling, além de um vocalista incrível. Tratando-se de “rock”, acredito que nada supera a estreia do Mars Volta em 2003. As letras são uma grande viagem paranóica, e as músicas se encaixam nisto. Em alguns momentos soa mais feroz (“Inertiatic ESP” e “Drunkship of Lanterns”), e em outros soa mais ameno e exótico (“Tira Me a las Arañas” e “Televators”); provando que Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodríguez-López podiam seguir caminhos bem mais complexos que o At the Drive-In.

João Renato: Ainda meu disco preferido do grupo. Tema envolvente, atmosferas e alternâncias rítmicas que prendem a atenção e qualidade superior. Não é o tipo de som que escuto toda hora, mas me agrada em determinados momentos.

Leonardo: Rock progressivo pode ser muito legal, como o disco do Opeth que encabeça esta lista. Mas também pode ser muito chato. Infelizmente, esse é o caso aqui. Tudo soa meio desconexo e sem pé nem cabeça, uma confusão de estilos e efeitos que não vão a lugar nenhum. Difícil ouvir até o fim.

Mairon: Lembro que este disco foi aclamadíssimo quando de seu lançamento, mas eu não dei bola para o que estava na mídia. Eis que pinta entre os dez mais, então vamos ouvir a inovadora The Mars Volta. Achei o som bem estranho, com momentos interessantes nas passagens amenas de “Roulette Dares (The Haunt Of)” ou a insanidade de “Cicatriz ESP”, mas confesso que não pirei no som dos norte-americanos. Esperava outra coisa, confesso que pior. A percussão santaniana de “Drunkship of Lanterns” com certeza é o melhor momento do disco, que é bom, mas nada de mais.

Ulisses: Achei interessante a proposta sonora dos caras; uma mistura de rock noventista, jazz e prog, variando entre momentos ora explosivos, ora exóticos e lisérgicos. O baterista foi quem mais me chamou atenção, pois mantém a peteca no ar e insere elementos latinos na salada musical do grupo. Entretanto, após um tempo o disco começa a soar um pouco repetitivo e sem direção, especialmente nos momentos acelerados. Ainda assim, é uma boa recomendação.


 

04-Elephant

The White Stripes – Elephant (50 pontos)

Alexandre: Toda a catarse e reconhecimento deste álbum no mainstream, em especial pela super badalada “Seven Nation Army”, nunca se justificaram para mim. Não há como questionar que Jack White é um bom compositor (ainda que ele tenha chupado a introdução de “Wild Thing”, de Chip Taylor, no riff inicial da faixa “The Air Near My Fingers”), mas para mim é isso e só. Suas habilidades como guitarrista ou vocalista não me motivam. Reconheço apenas que, quando as linhas de blues da guitarra se sobressaem em uma base de piano, por exemplo na faixa “In the Cold, Cold Night”, o resultado é agradável. A versão de “I Just Don’t Know What to Do With Myself” é realmente de doer… a coisa piora quando tento avaliar a outra parte do conjunto, a baterista Meg, aliás, isso é algo que nunca me convenceu também, porque na verdade o White Stripes me parece um projeto solo de Jack disfarçado de pseudo grupo ou duo. Ela só não é pior como baterista do que quando se propõe cantar. Na verdade não tenho tanta certeza disso… a justificativa por trás de uma busca tida como “minimalista” do instrumento é para mim uma forma de enganar uma evidente falta de talento. Passo longe disto.

Alissön: Deixem um pouco de lado o megahit “Seven Nation Army”, o disco é muito mais do que isso. Esqueçam essa besteira de que a Meg White é má baterista. Esqueçam também essa lorota de que White Stripes é uma banda indie. A menos que você seja surdo, Elephant é um disco de blues do início ao fim. E que disco de blues… sujo, distorcido, com feeling e esbanjando excelentes composições, praticamente reacendeu o interesse da nova geração para um estilo considerado por muitos como ultrapassado ou arcaico. Revitalizado por uma interpretação jovem e cheia de energia punk, o blues apresentado aqui é histérico, quase punk, mas sem deixar o lado catchy se perder em pura distorção. Há momentos para agitar, como há momentos de puro relaxamento e outros tantos em que o lado sôfrego das letras do estilo fala mais alto, ou seja: tem para todos os gostos.

André: Dentre todos os diversos projetos que Jack White fez, considero o White Stripes o menos interessante de todos. O The Raconteurs e seus próprios discos solo são melhores, embora eu não possa dizer que eu tenha lá grande estima pelo guitarrista e vocalista pálido. Não vou dizer que este disco seja ruim, mas sua produção muito crua, parecendo uma demo de garagem, e um jeitão muito de banda amadora (que creio ser proposital para dar um ar de blues rock antigo) não me empolgam. É aquela coisa de que é muito bom analisando apenas como proposta, só não foi feito pensando em gente como eu.

Bernardo: Lá pela década de 2000, não tinha banda mais legal que o White Stripes. Eles surgiram naquela onda do rock alternativo encabeçada por Strokes, Hives e Vines, entre outros grupos, que traziam influências de um rock mais simples, garageiro e sujo. O White Stripes ia um pouco além, por ser uma banda inovadora em matéria de concepção visual (pescando referências de Mondrian, De Stijl e os neoplasticistas) em capas, shows e videoclipes, se apresentarem como um duo e tocarem aquele blues quase punk praticado pelas bandas de rock do início dos anos 1960. Elephant é a obra-prima desse grupo que ninguém em seus anos de atividade soube definir direito. E foi justamente essa indefinição fascinante que deu origem a casos como o neoclássico rockeiro “Seven Nation Army” e sua linha de baixo inesquecível e refrão que explode em guitarras; que fez o frontman Jack White verter “I Just Don’t Know What to Do Myself”, de Burt Bacharach e já gravado por Dusty Springfield e Dionne Warwick, em um sensual quase-blues, rústico e excitado e apresentando um momento de doçura cândida e minimalista na voz de Meg White em “In the Cold, Cold Night”. Em minha adolescência, muitos mais velhos torciam o nariz para esse novo indie rock, dizendo sentir falta do rock de antes. Hoje sinto falta do White Stripes e entendo os resmungos deles: cada década tem sua música “que não se faz mais hoje em dia”. Espero que lá para 2020 também dê para falar isso! Enquanto isso, é dar play neste disco aqui e conhecer o quão criativamente pulsante, com cheiro de novidade e mofo ao mesmo tempo, que foi esse rock “zeroísta” (da década de 2000).

Christiano: Nesse disco, o White Stripes conseguiu uma coisa cada vez mais rara, que é emplacar um grande hit que extrapolou as fronteiras do “rock”. “Seven Nation Army” arrebentou de tocar para tudo que é lado, com um riff simples e pegajoso, em pleno 2003. Elephant tem outros bons momentos, como “There’s No Home for You Here”, “I Just Don’t Know What to Do With Myself”, “I Want to Be the Boy…”, só pra citar algumas. É um ótimo disco de rock, enérgico, um pouco sujo e, ao mesmo tempo, muito bem feito. Influências de blues e hard rock setentista são mescladas a um rock alternativo garageiro, resultando em uma combinação que conseguiu ser ao mesmo tempo familiar e inovadora. Tudo isso feito por uma banda que é um duo, constituído por um guitarrista genial e uma baterista limitada. Com certeza, um dos melhores desse ano.

Davi: Todos os discos do White Stripes me passam o mesmo sentimento. Têm algumas ideias bacanas, mas o som que eles fazem, sem baixo, me dá a impressão de demo inacabada em vários momentos. E a bateria de Meg White me ajuda a reforçar esse sentimento, infelizmente. De todo modo, reconheço que há alguns ótimos momentos, como o single “Seven Nation Army”. Reconheço também que Jack White já demonstrava ser um guitarrista interessante. Mas é só! Prefiro sua carreira solo ou até mesmo o Raconteurs. Disco apenas razoável.

Diogo: Na época em que saiu, enxerguei-o como mais um lançamento do dispensável rock alternativo – que cada vez menos era “alternativo” –, apesar de já percebê-lo como superior ao que se fazia na época. Hoje, enxergando-o mais como uma atualização do blues e do rock feito em décadas passadas e contando com ouvidos bem mais treinados, além do conhecimento da carreira solo de Jack White, posso apreciá-lo com muito mais sapiência e perceber nuances diferentes. Jack White é um cara inteligente e consegue extrair muita música diferente de pouco material, além de viajar por décadas diferentes mantendo a coesão do disco. “I Want to Be the Boy to Warm Your Mother’s Heart”, por exemplo, é uma viagem à segunda metade dos anos 1960 (cheguei a lembrar do Small Faces), enquanto “Seven Nation Army” é rock doismilense com honra. “Little Acorns” me lembra The Smashing Pumpkins, enquanto “Hypnotize” é uma viagem à Detroit pré-crise. Em sua maioria, as músicas são boas , mas cito ainda como destaques “You Got Her in Your Pocket” e “Girl, You Have No Faith in Medicine”, com seu jeito debochado. Aguardo agora comentários de leitores afirmando que Elephant é o único a se salvar nesta lista e coisas do tipo.

Fernando: O White Stripes nunca foi só “Seven Nation Army”. Encontramos muitas músicas legais em seus discos, como “The Hardest Button to Button” no próprio Elephant, mas não tem jeito, eles vão ficar eternamente relacionados apenas a ela. Seu riff já foi considerado o mais importante dos últimos sei lá quantos anos por Jimmy Page e é entoado em quase todos os estádios de futebol por centenas de torcidas pelo mundo todo. Uma banda com apenas dois músicos fazer tanto sucesso tendo uma garota que mal sabia tocar na bateria mostra que Jack White é realmente um cara diferenciado.

Giovanni: Sim, o The White Stripes foi um grande sucesso nos anos 2000 e, de “Seven Nation Army” a “Well It’s True We Love One Another”, o álbum todo é feito de hits. Basicamente eles são o oposto do Dream Theater (sem um pingo de complexidade e sem a pretensão de explorar qualquer técnica), com riffs simples e grudentos e refrãos bacanas, mas nada que merecesse o hype que um dia teve. Talvez o sucesso comercial que o consagrou faça com que mereça uma vaga entre os dez dessa lista.

João Renato: Jack White é sensacional. De todas essas bandas minimalistas, o White Stripes é a que mais me agrada – recentemente surgiu o Royal Blood, mas ainda preciso de mais tempo para absorver. Elephant é um dos discos que mais me agrada. E ainda tem aquele cover de torcidas de futebol (como diria Homer Simpson, eu estou sendo irônico, só para avisar). Não é meu preferido, White Blood Cells (2001) ocupa esse posto. Mas tem grande qualidade.

Leonardo: “Seven Nation Army” é sensacional. O resto do disco não. Na verdade, o resto chega a ser constrangedor. Uma mistura de blues com rock alternativo que não chega a lugar nenhum. E foram apontados como a salvação do rock…

Mairon: Uma luz no fim do túnel. Entre tantos absurdos, Elephant salva esta lista. A faixa de abertura, “Seven Nation Army”, é um dos grandes clássicos dos anos 2000, mas o disco é um exemplo de como o White Stripes conseguiu fazer sonzeira setentista com toques modernos, seja no piano Beatle de “I Want to Be the Boy to Warm Your Mother’s Heart” (que belo slide), no dedilhado T. Rex com vocais bowieanos de “The Hardest Button to Button”, na ferocidade zeppeliana de “The Air Near My Fingers” ou nos momentos The Who de “There’s No Home for You Here”. Várias são as faixas de destaque, como o andamento bluesy de “In the Cold, Cold Night”, “Well It’s True that We Love One Another” (fantástica com sua mistura de vozes e o andamento do violão e percussão) e “Ball and Biscuit”, a pancadaria de “Black Math”, que me lembra um pouco MC5, as inspirações de Yardbirds em “Girl, You Have No Faith in Medicine”, o ritmo folk de “You’ve Got Her in Your Pocket” e o punk simples mas empolgante de “Hypnotize”. Até o cover de “I Just Don’t Know What to Do with Myself” (Burt Bacharach) ficou legal. Único deslize vai para as experimentações de “Little Acorns”, que, nos momentos instrumentais, é uma baita paulada. Melhor disco desta lista, disparado.

Ulisses: Sim, “Seven Nation Army” é uma put* música legal, além de icônica. Mas o que o casal White nos oferece além disso em Elephant? Mistura de rock de garagem, blues e punk que soa autêntico, porém não deixa de ser superestimado; só presta em doses homeopáticas. Destaco a fofa “In the Cold, Cold Night”, o piano de “I Want to Be the Boy to Warm Your Mother’s Heart” e a boogie “Girl, You Have No Faith in Medicine”.


 

05-Weve-Come-for-You-All

Anthrax – We’ve Come for You All (48 pontos)

Alexandre: Um grande álbum do Anthrax, cuja pouca repercussão comercial acabou por ajudar a terminar a era John Bush na banda. Bush foi um dos raros exemplos dentro do mundo musical de um vocalista não original que conseguiu manter a qualidade, sem ter de soar como o seu antecessor. Ou seja, não deixa de ser uma pena, pois junto com Sound of White Noise, de 1993, este We’ve Come for You All mostra que o grupo pode fazer bonito mesmo sem ter os vocais mais clássicos de Joey Belladona. A banda vinha de um período meio estremecido, sem guitarrista solo no line-up nos dois álbuns anteriores. Com a entrada do competente Rob Caggiano, ainda com uma participação discreta, a coisa voltou a andar nos trilhos. Destaco individualmente o batera Charlie Benante, responsável por grande parte da agressividade do álbum. We’ve Come for You All é um trabalho bastante consistente, com praticamente todas as faixas fortes, mas posso mencionar de forma mais favorável as canções iniciais “What Doesn’t Die”, “Superhero” e “Refused to be Denied” e as participações luxuosas do saudoso Dimebag Darell em duas canções (com um ótimo solo em “Cadillac Rock Box”) e de Roger Daltrey na ótima “Taking the Music Back”. Um disco de destaque em 2003.

Alissön: A cara do Anthrax é Joey Beladonna, não tem jeito. John Bush tem seus momentos bacanas, “Only” é um deles. Mas Anthrax com John Bush é outra banda. Banda essa da qual não guardo muito carinho. Pelo contrário, acho até enfadonho em muitos momentos.

André: Eu tenho este álbum. Não entrou na minha lista final por muito pouco. Tenho considerado este como o melhor trabalho de John Bush nos vocais do Anthrax. Às vezes vejo este disco tentando soar como o “Black Album” deles. Independente disso, é sempre um prazer escutar os riffs de Scott Ian e a bateria de Charlie Benante em músicas como “Superhero” e “Safe Home”. Lembro que, acompanhando as letras aqui, a tonalidade delas é bem mais leve para o que se espera de uma banda thrash. Um álbum diferente do Anthrax e muito bom.

Bernardo: Um dos grandes álbuns da carreira do Anthrax. “What Doesn’t Die” é uma pancada, mas nada supera a beleza de “Safe Home”.

Christiano: Talvez o segundo melhor disco da fase John Bush, uma vez que não supera Sound of White Noise. Tem a participação de Dimebag Darrell, do Pantera, em duas faixas, e traz uma banda dando mais atenção para solos de guitarra, coisa que vinha perdendo espaço desde a saída do guitarrista Dan Spitz. O Anthrax conseguiu se adaptar aos novos tempos, sem soar datado e preso ao tradicional thrash metal oitentista. O álbum peca um pouco pela falta de maiores variações entre as músicas, que possuem arranjos às vezes repetitivos. Fora isso, é um bom disco.

Davi: Discaço! Depois de Sound of White Noise, este é, de longe, o melhor trabalho com John Bush nos vocais. A fórmula é mais ou menos a mesma. Som pesado, tendo o vocal à frente em diversos momentos. Influência de hard rock em alta. Refrãos radiofônicos (perceptível em faixas como “Safe Home” e “Strap It On”). Não é um álbum típico de thrash metal. O que acalmou, um pouco, o ânimo de seus velhos detratores é que conseguiram uma sonoridade um pouco mais agressiva. Charlie Benante está destruidor, como é possível notar já de cara em “What Doesn’t Die” e também em “Nobody Knows Anything”. John Bush sempre dividiu opiniões, mas sempre gostei muito do seu trabalho vocal. Está mandando bem. E, o principal, as composições são ótimas. O trabalho é bem sólido. Se você é fã de heavy metal, não apenas de thrash, é totalmente recomendável. Belíssimo disco!

Diogo: Lembro que a imprensa especializada fez um pequeno rebuliço quando este disco saiu. Passou um tempo, fui ouvir e fiquei me perguntando o que haviam escutado de tão bom assim. Ok, é bem superior aos dois anteriores, mas, convenhamos, isso não é lá grande coisa. No geral, o disco tem uma pegada mais rock ‘n’ roll e menos thrash metal, o que não é necessariamente ruim (e já vinha de tempos) e combina com a voz de John Bush, um ótimo vocalista que às vezes fica sem material digno de seu talento para cantar. “What Doesn’t Die” é o destaque do lado mais thrash do disco, mas não chega aos pés das grandes canções presentes em discos como Spreading the Disease (1985), Among the Living (1987) e State of Euphoria (1988). Da mesma maneira, “Safe Home”, apontada majoritariamente como a melhor faixa de We’ve Come for You All, não faz cócegas em “Only”, de Sound of White Noise. No geral, as músicas alternam entre o mediano e o bom; não há nada verdadeiramente ruim. Minha crítica vem mais no sentido de colocar o álbum em seu devido lugar: de um trabalho que cumpriu tabela e merece ser lembrado, mas sem exageros e sem a mínima comparação com aquilo que o Anthrax fez em seus melhores momentos. No mais, méritos para Charlie Benante, o grande cara por trás da banda (apesar de Scott Ian aparecer muito mais na imprensa) e um baterista sempre desempenhando bem sua função.

Fernando: Eu sempre fui um grande fã de Sound of White Noise. Mas com o lançamento dos discos seguintes bem abaixo do esperado, eu os deixei de lado. Fui conhecer We’ve Come for You All muito tempo depois e foi uma ótima surpresa. Se ele não é tão bom quanto Sound of White Noise é pelo menos bem melhor que os anteriores.

Giovanni: Sempre achei a discografia do Anthrax bem inconsistente. Este disco, no caso, veio depois de uma fase bem nebulosa dos novaiorquinos, e finalmente conseguindo firmar um guitarrista (Rob Caggiano). As presenças de Dimebag Darell e Roger Daltrey são detalhes que abrilhantam o resultado, mas John Bush é o grande destaque – tecnicamente muito à frente de Belladonna – em faixas como “Refuse to Be Denied”.

João Renato: Apesar de ter gostado de Worship Music (2011), é uma pena que o Anthrax tenha se separado de John Bush após este álbum. Mas entendo, pois música é negócio, como qualquer outro. We’ve Come for You All é um dos meus discos preferidos do grupo. Mistura diferentes influências e acerta todos os tiros. Gostoso de ouvir do início ao fim. E “Safe Home” é uma obra-prima, especialmente na letra, uma das mais bonitas já feitas por uma banda do gênero.

Leonardo: Depois de comer o pão que o diabo amassou, com trocas de integrantes, falência de gravadora e dois discos bem abaixo da média, o Anthrax juntou seus cacos, efetivou Rob Caggiano na guitarra solo e lançou seu disco mais variado até então. We’ve Come for You All tem músicas rápidas e pesadas, como a faixa de abertura, “What Doesn’t Die”; outras com uma pegada mais hard rock moderno, como o single “Safe Home”; algumas mais próximas ao classic rock, como “Cadillac Rock Box”; e outras mais extremas, como “Nobody Knows Anything”. No geral, o disco é bastante irregular, e nem todas as músicas funcionam bem. Mas as citadas se destacam, e a performance do vocalista John Bush e do baterista Charlie Benante são dignas de nota.

Mairon: Apesar de muitos babarem ovo para este disco, acho a despedida de John Bush o mais fraquinho dos norte-americanos. A bateria de Benante em “What Doesn’t Die” e “Nobody Knows Anything” é um dos principais destaques positivos, ao lado da tímida participação de Roger Daltrey nos backing vocals de “Taking the Music Back”, assim como a modernidade de “Safe Home” (cuja versão acústica é melhor que a original). “Strap It On” foge bastante do que estamos acostumados a ouvir nos trabalhos do grupo, sendo o único ponto negativo. O álbum parece ser uma realidade das dificuldades que o Anthrax passava no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, e não me fez empolgar em audições com o passar dos anos. Dei mais uma tentativa desta feita, e é um disco comum, sem sal, no qual a viajante “Think About an End” é disparado a melhor faixa, ao lado da bônus “We’re a Happy Family”, fantástico cover para a pérola do Ramones. Sua presença aqui justifica-se apenas pela acefalia metálica dos consultores que participam desta série, que nas últimas edições está tão sem graça quanto este disco.

Ulisses: Quaaase entrou na minha lista; ficou ali na 11ª ou na 12ª posição. A excelente “What Doesn’t Die” é um dos maiores petardos que a banda já compôs, e “Nobody Knows Anything” é praticamente uma aula de bateria. Já na radiofônica “Safe Home” vemos um lado mais suave dos caras, que funcionou muito bem. A pesadíssima “Black Dahlia” e a sólida “Think About an End” também são muito boas. Entretanto, o disco tem suas escorregadas, como as fraquíssimas “Strap It On” (Dimebag Darrell salvou “Cadillac Rock Box”, mas essa aqui nem Jesus salva) e a faixa-título, além das desnecessárias – ainda que curtas – “Contact” e “Crash”. Porém, fazendo o balanço geral, o resultado é positivo.


 

06-Epica

Kamelot – Epica (46 pontos)

Alexandre: A banda fez de Epica um álbum em uma progressão natural ao que haviam feito em Karma (2001). Mesmo line-up, mesmos produtores e a capacidade de trazer um trabalho tão bom quanto seu antecessor. Novamente, como em 2001, aproveito o espaço para reclamar do conjunto não ter um tecladista fixo em sua formação, já que o uso do instrumento é fator chave de sua sonoridade. Novamente enalteço o vocal de Roy Khan pelas excelentes escolhas de suas linhas vocais, harmoniosas e sem abusar dos agudos. A diferença principal é que desta vez a ideia desenvolvida é mais ambiciosa, já que estamos ouvindo um álbum inteiramente conceitual, em que há espaço até para um trecho de tango (em “Lost and Damned”). Posso destacar também que gosto mais do trabalho de Thomas Youngblood neste álbum, tanto nas bases quantos nos solos, ainda que talvez o solo mais desafiador do trabalho seja executado por um músico convidado (Luca Turilli, do Rhapsody of Fire, em “Descent of the Archangel”). Destaco as faixas “Center of the Universe” e “Wander”. Boa escolha para 2003.

Alissön: Em 2005 a gente conversa.

André: Essa década de 2000 foi a fase de ouro para o Kamelot. Um disco melhor que o outro. Não só o vocal facilmente reconhecível de Roy Khan mas também as guitarras de Thomas Youngblood e toda essa atmosfera “épica” fazem dos norte-americanos do Kamelot uma das bandas mais diferenciadas da cena. Este disco já é muito bom, e conseguiram gravar outros dois ainda melhores que, se depender de mim, estarão nas próximas listas. Esqueci totalmente de Epica, ou estaria facilmente na minha lista.

Bernardo: Disco conceitual baseado em “Fausto”, de Goethe. Como grande parte do power metal, até interessante de ler as letras, mas bastante cansativo de ouvir.

Christiano: Sabe aquele estereótipo associado às bandas de metal melódico? Então, temos aqui um ótimo representante. Teclados pasteurizados, bumbos duplos como uma constante em quase todas as músicas, arranjos que pretendem ser grandiosos, mas que só conseguem soar forçados. Uma pena que um vocalista tão bom quanto Roy Khan tenha desperdiçado seu talento em uma banda tão genérica. Juro que escutei o disco sem preconceitos, mas não tem como gostar de uma coisa dessas.

Davi: Em sua ópera rock Epica, os músicos deram um passo adiante. A qualidade de gravação está bem melhor que o anterior e as composições mais fortes. Roy Khan continua dosando sua voz incrivelmente bem. A influência do power metal prevalece. Apesar de contar com 16 faixas, o trabalho não é tão longo, já que conta com vários interlúdios. Misturam aqui canções velozes como “Center of the Universe”, com sua pegada à la Stratovarius, com canções mais cadenciadas como “The Edge of Paradise” e “The Mourning After”. Excelente álbum! Boa lembrança.

Diogo: Como é bom uma banda ter um vocalista que a diferencie em meio a um mar de mesmice no qual um gênero musical pode se transformar. Esse é o caso de Roy Khan no Kamelot, um cara que ocupou o posto certo e ajudou a elevar a carreira desses norte-americanos. Ok, estou sendo injusto com os músicos: se eles não colaborassem e fizessem algo minimamente palatável, de nada isso adiantaria. Vejam bem: não votei em Karma na edição dedicada a 2001, mas o elogiei, assim como não votei em Epica desta vez. Acho até que Karma tem destaques individuais mais evidentes – “Center of the Universe”, “Wander” e “Lost and Damned” são as melhores de Epica –, mas o fato é que, mais uma vez, o Kamelot foi competente em fazer aquilo que se presta a fazer, destacando-se da concorrência. Da mesma maneira, não vou chiar se The Black Halo der as caras por aqui na edição dedicada a 2005 – e olha que se trata de um ano recheado de ótimos discos –, pois se trata de uma obra maiúscula, madura e inteligente, que muitos inclusive não vão ouvir por birra. Fico no aguardo.

Fernando: Foi em Epica que ouvi pela primeira vez o Kamelot, mas nessa época eu já estava saturado de metal melódico e nunca mais escutei mais nada. Acho este disco o mais voltado para os padrões clássicos do estilo, mas ao meu ver o melhor deles é quando eles praticam algo na linha de The Black Halo e Poetry for the Poisoned (2010).

Giovanni: Gosto de The Black Halo (álbum sucessor deste) e é uma das poucas coisas que eu ouviria tranquilamente dentro do power metal hoje em dia, graças à voz de Roy Khan, que não me incomoda como a maioria dos vocalistas das bandas do estilo. No geral, este aqui é instrumentalmente bom e divertido, mas nada de tão espetacular que me faça ouvi-lo novamente.

João Renato: Em uma época na qual o power metal já estava indo pras cucuias, o Kamelot conseguiu se sobressair, contando a história de “Fausto” (olôco, meu). Roy Khan se sobressai perante todos os vocalistas do estilo e o instrumental é de primeiríssima linha. A coisa ficaria ainda melhor no trabalho posterior, mas aqui já dava para notar que a banda era diferente dos vários clones de Helloween e Stratovarius que surgiam diariamente no estilo.

Leonardo: Uma das poucas bandas de power metal melódico com personalidade suficiente para não soarem como um clone ruim do Helloween. E se desde a entrada do vocalista Roy Khan, em 1998, a banda vinha melhorando a cada lançamento, em Epica o salto de qualidade foi visível, com uma sonoridade mais densa e épica. Escute a espetacular “Center of the Universe” e confira.

Mairon: E o Kamelot apareceu novamente, e desta feita poupei meus ouvidos. Metal espadinha com bateria na velocidade da luz não é para mim.

Ulisses: Como se já não bastasse ter criado alguns ótimos registros de power metal com The Fourth Legacy (1999) e Karma (2001), o Kamelot avançou para a soberania do estilo ao gravar Epica, sexto disco de estúdio, inspirado pelo clássico alemão “Fausto”. Elementos sinfônicos, refrãos cativantes, interlúdios e composições bem arranjadas, além de participações do naipe de Miro, Sascha Paeth, Luca Turilli e Mari Youngblood, se unem para contar a trágica jornada de Ariel, Mephisto e Helena. A interpretação impecável do maravilhoso Roy Khan encontra um lirismo brilhante, como o ouvinte pode notar, verso a verso, em todas as faixas, com destaque para “Center of the Universe” e “Descent of the Archangel”. Para além da velocidade comum ao estilo, o lado mais sublime do registro é representado pela ótima balada “Wander” e pela singela “On the Coldest Winter Night”, que dão ao ouvinte um momentâneo oásis de calmaria antes de surpresas como “Lost & Damned” (na qual os caras inserem tango!) e a intrincada “III Ways to Epica”. Para mim, é o melhor disco do ano com bastante folga, sendo quase impossível acreditar que o registro seguinte conseguiria, de alguma forma, ser ainda melhor!


 

07-Masterplan

Masterplan – Masterplan (44 pontos)

Alexandre: Os demitidos do Helloween (Roland Grapow e Uli Kusch) em um projeto de competente instrumental e, no meu entender, bem mais interessante que o próprio Helloween naquele instante. Isso principalmente pela associação ao ótimo Jørn Lande. Ainda que o projeto seja nos moldes do tal “metal espadinha” tão propalado e por vezes criticado por aqui, só os vocais de Jørn já constituem um diferencial que elevam seu nível sobremaneira. Um dos meus cinco citados que chegou à lista final, de forma merecida. Destaco a faixa de abertura, “Spirit Never Die”, o single “Enlighten Me” e a épica “Bleeding Eyes”. Quando a coisa vai mais pro “metal espadinha de raiz”, como em Crystal Night, eu tendo a não me entusiasmar tanto. A exceção é a faixa “Heroes”, que tem a participação de Michael Kiske, em um ótimo duelo de grandes vocalistas. Para fechar, “When Love Comes Close”, uma faixa que entraria facilmente em um álbum mais recente do Whitesnake, na qual, para mim Jørn tem sua melhor desenvoltura vocal, em tons mais graves. Só acho que poderíamos ficar sem o “copy and paste” de algumas das letras da banda de David Coverdale, em especial “Soulburn” e a frase “sailing ships will always pass you by”.

Alissön: Provavelmente uma das últimas coisas realmente relevantes na trajetória decadente do power metal. Engraçado notar que o Masterplan nasceu de dois outros elementos que ilustram muito bem o declínio e desgaste criativo do gênero, no caso o Helloween – que vez ou outra apresentou algo digno de atenção, mas nada extraordinário – e Jørn Lande, talvez dono do vocal mais característico do estilo. Em termos musicais, Masterplan não possui absolutamente nada de novo. Unicamente ele possui: boas composições e bom senso dos músicos ao não tentar emular nenhum de seus projetos mais famosos. Pesa também a acentuada influência de progressivo e metal tradicional nas músicas, que dão uma diminuída no tom épico piegas tão notável no estilo. Em resumo, Masterplan é um bom disco, provavelmente o último suspiro criativo de um gênero baqueado pelo tempo.

André: Depois que Roland Grapow e Uli Kusch caíram fora do Helloween, o Masterplan foi formado, mas sem a aura “happy happy” de sua banda anterior. A ideia do Masterplan sempre foi falar de letras com temática um tanto mais mística e sonhadora, algo mais próximo do Angra que do Gamma Ray (o maior dos muitos filhotes que o Helloween teve, talvez a banda que mais gerou após vários de seus membros saírem). O disco é um ótimo power metal, com mais um grande trabalho de Jørn Lande (ele canta melhor aqui do que no Ark) e composições empolgantes. “Kind Hearted Light” é destaque junto a “Heroes”, com participação de Michael Kiske. Por sinal, sei que Uli Kusch gravou dois discos com o Masterplan, fracassou com o Symfonia e depois sumiu. Por onde será que ele anda?

Bernardo: Para lá de genérico. Cataram todos os clichês de power metal e hard rock e fizeram um disco.

Christiano: Após deixarem o Helloween, Roland Grapow e Uli Kusch formaram o Masterplan com Jørn Lande, que já era bastante conhecido por ter participado de bandas como Ark, Beyond Twilight e The Snakes, sendo este último um projeto com os antigos guitarristas do Whitesnake Bernie Marsden e Micky Moody. Aliás, não são raras as comparações entre os vocais de Jørn Lande e David Coverdale, que são realmente muito parecidos. Bom, as expectativas em relação ao Masterplan eram as melhores: Roland Grapow e Uli Kusch eram peças fundamentais para o Helloween da era Andi Deris, tendo crescente participação nos últimos – e ótimos – discos da banda, Jørn Lande, além de ser um ótimo vocalista, tinha um background calcado no hard rock. Essa união poderia, sem dúvidas, gerar bons frutos. Infelizmente, o resultado obtido neste primeiro disco não correspondeu à expectativa. Gravaram um bom disco de power metal com algumas pitadas de hard rock, mas que peca pela previsibilidade e falta de inspiração. Alguns bons momentos, como “Crystal Night”, “Soulburn” e “Bleedind Eyes”, não são suficientes para dar destaque ao álbum, que acabou sendo apenas mais um entre as centenas de lançamentos do ano.

Davi: Supergrupo formado pelos ex-Helloween Uli Kusch e Roland Grapow, além do renomado Jørn Lande. O álbum de estreia dos garotos é bem variado em termos de arranjo, mas é um belo disco. Em algumas músicas, o instrumental remete ao Helloween. Caso de “Kind Hearted Light”. A banda, contudo, não chega a soar uma cópia. Até por conta do vocal. Jørn Lande tem um estilo totalmente diferente de qualquer cantor que tenha passado pelo Helloween. Canta com voz mais rasgada, com uma pegada mais Dio, mais Coverdale (o trabalho vocal de “When Love Comes Close” é Whitesnake total). Ainda que mantenham elementos do power metal, soam menos alegres. Também há uma forte influência de hard rock no trabalho. “Enlighten Me” sempre foi uma das minhas preferidas, junto com “Sail On”. O cover de “Black Dog” (Led Zeppelin), que entrou em algumas versões, é simplesmente mortal. Também vale destacar a participação de Michael Kiske em “Heroes”. Belíssimo disco.

Diogo: O Masterplan surgiu rodeado por uma grande expectativa, uma vez que Roland Grapow e Uli Kusch vinham executando um bom trabalho no Helloween (especialmente Uli, um baterista excepcional) e Jørn Lande destacava-se cada vez mais como uma revelação. Considerando o que eu esperava na época, o grupo se saiu bem, inclusive melhor que o Helloween, que lançou Rabbit Don’t Come Easy (2003) cinco meses depois. A característica mais óbvia do disco é o equilíbrio entre o power metal melódico que Roland e Uli vinham praticando com algo mais hard rock, ora em canções diferentes, ora na mesma faixa. Em sua maioria, as músicas são boas, com boas melodias e execução satisfatória, mesmo quando os teclados tomam conta um pouco mais do que seria o ideal para mim. Mesmo “Heroes”, a mais calcada em Helloween entre todas, soa mais como um reconhecimento do que como uma imitação; a participação de Michael Kiske ajuda a tornar tudo ainda mais brega, mas de um jeito divertido. Pensando bem, “Kind Hearted Light” é ainda mais próxima do Helloween, uma vez que lembra muito “I Want Out”, mas considerando que “I Want Out” é a cara de “Out in the Fields”, de Gary Moore, fica tudo em casa. O grupo ainda faria outro bom disco, com um direcionamento apontando mais para o hard rock e para o AOR, antes que Uli e Jørn seguissem outros caminhos. Desde então, Jørn gasta seus parcos dotes como compositor em discos solo e se torna cada vez mais um cantor cover, e Uli Kusch desperdiça seu enorme talento em projetos de menor expressão. Quanto ao Masterplan, me desinteressei. Quem sabe uma hora dessas eu dou uma conferida em seus álbuns mais recentes.

Fernando: Só fui criar coragem de ouvir o Masterplan muitos anos depois do seu lançamento. Como já disse diversas vezes, nessa época estava fascinado com o rock progressivo e outros estilos mal passavam pelos meus ouvidos, então uma reunião de diversos músicos de um monte de banda de melódico não me animou. Hoje gosto do álbum, mas não o considero essencial.

Giovanni: Acredito que as pessoas que levam o Helloween em sua memória afetiva devem gostar bastante da estreia do Masterplan. Como não é o meu caso, deixo os comentários para quem curta isso.

João Renato: Único disco que realmente gosto do Masterplan. Mas gosto MUITO. Hard rock com passagens heavy empolgantes. Época em que Jørn Lande ainda era o Cover Dele, lembrando muito o registro do líder do Whitesnake. E o principal, as composições são ótimas. Pena que nunca mais chegaram nem perto em termos de qualidade.

Leonardo: Recém saídos do Helloween, o guitarrista Roland Grapow e o baterista Uli Kusch recrutaram uma das melhores vozes do cenário heavy metal da época, o norueguês Jørn Lande, e mais um punhado de músicos talentosos e lançaram um dos melhores discos do ano. O instrumental denso e pesado, mas extremamente emotivo e marcante, casava perfeitamente com a voz de Jørn, que soa como um misto dos melhores momentos de David Coverdale e Ronnie James Dio. Apesar de apresentar ótimas melodias de guitarra e teclado, o disco tem um clima mais denso e pesado do que o Helloween, como o primeiro single, “Enlighten Me”, deixa claro. Outras faixas de destaque são as pesadas “Spirit Never Die” e “Crawling From Hell”, e a melódica “Heroes”, com participação de Michael Kiske. Um dos melhores discos de metal da primeira década do novo milênio.

Mairon: Mais metal espadinha. Ouvi para formar uma opinião, e a opinião é: insosso. Passo longe da próxima vez.

Ulisses: Da série “eu deveria gostar, mas não consigo!”. Ainda que apostando em um power metal com toques de hard rock e heavy tradicional, o grupo dos ex-Helloween Roland Grapow e Uli Kusch, que contava ainda com o ótimo Jørn Lande e Janne Wirman, não consegue cativar, entregando um disco mediano. Das 11 composições, somente a abertura “Spirit Never Die” e a ótima “Soulburn” conseguem manter a cabeça acima da superfície, mas não o suficiente para justificar a presença do álbum aqui na lista.


 

08-Soundchaser1

Rage – Soundchaser (37 pontos)

Alexandre: Inegável o talento da banda, músicos exímios nos seus instrumentos, mas quando avalio apenas as canções, e evidente que isso é bem pessoal, o produto final não chega a me encantar. O ponto mais fraco é sem dúvida o vocal do dono da banda, Peavy Wagner. Não atrapalha, mas toma uma goleada das outras funções. Dentro do estilo musical principal que é desenvolvido, gosto bem mais de bandas em que o cantor é um destaque. Outro senão é considerar o conceito do álbum, pois não dá para levar a sério uma história sobre um mascote biônico (o próprio Soundchaser) que se transforma em uma ameaça a tudo que emite um som (?!?!?!?). Voltando à questão puramente musical, um destaque merecido vai para a exuberância técnica de Victor Smoslki no trecho do meio de “Secrets in a Weird World”, que acaba sendo a música que destaco também. O resultado final do álbum é bom, mas não o suficiente para estar na lista final, no meu entender.

Alissön: Sei lá, qualquer coisa.

André: Deve fazer uns oito anos que não ouvia este disco. E não me lembrava o quanto era bom, melhor inclusive que o anterior, Unity (2002). O disco está mais veloz e com canções bem acima da média de outras contemporâneas do estilo. “War of Worlds”, “Great Old Ones” e “Human Metal” são típicas faixas que adoraria ouvir em um show, botando esses meus cabelos compridos para chicotear.

Bernardo: Gente, as capas desses sujeitos são muito ruins. Parabéns por quem consegue passar da fase de abrir o disco e botar para reproduzir sem virar a cara. Ah, e o disco é ruim. Ruim pelo lado de ser chato, repetitivo e desinteressante.

Christiano: Junte todos os clichês do que costumamos chamar de power metal. Seja derivativo. Execute as músicas como uma máquina, totalmente desprovida de qualquer vestígio de expressão humana. Depois disso, grave o disco alguns anos após o auge do estilo. Para confirmar suas intenções, se é que máquinas podem ter intenções, embale seu produto em uma capa feita por computador. Resultado? Rage – Soundchaser.

Davi: Seguiram a mesma fórmula de Unity. Linhas vocais bem trabalhadas, com bastante harmonia, guitarra pesadinha com riffs bem eficientes e bateria veloz. O disco é bom, bem gravado, bacana de escutar, mas sinto falta de uma faixa que grude na sua cabeça, como acontece no trabalho anterior, em canções como “All I Want”, por exemplo. Banda bacana, disco bom, mas não o elegeria entre os dez mais.

Diogo: Ouvir este disco foi uma experiência parecida com a de escutar Unity, que deu as caras na edição passada: até começou dando uma empolgada (“War of Worlds” é uma música legal), mas depois os pontos negativos se sobrepuseram aos positivos, a começar pelos vocais de Peavy Wagner, que não me agradam de jeito nenhum. Até são certinhos, bem encaixados, mas o timbre não ajuda. Além disso, a tentativa de fazer alguns refrãos mais bombásticos geralmente falha, e parece que o Rage realmente tenta algo nesse sentido. Dizer que Victor Smolski e Mike Terrana são instrumentistas fantásticos é pregar para convertido: esses caras poderiam ser contratados por bandas de primeiro escalão e sobrariam na execução de suas tarefas. Estou para dizer que se eles (incluindo Peavy) se dedicassem a colocar em prática um projeto instrumental na linha mais técnica, como Spastic Ink e Blotted Science, poderiam se sair muito bem. Quem sabe uma guitarra a mais e a voz de Peavy a menos…

Fernando: Surpreendentemente o Rage é citado novamente aqui na nossa série. Melhor que o que entrou na lista anterior, Soundchaser é possivelmente o melhor disco do Rage. Acho que o rótulo de power metal para os alemães é muito pouco. Eles são heavy, são thrash e até prog em alguns momentos. Peavy Wagner deve ser um cara chato de se trabalhar, basta ver a quantidade de músicos que já passaram pelo Rage desde 1984.

Giovanni: Nunca havia ouvido falar dessa banda. Bom, nem sei muito o que comentar sobre isto… não é horrível, mas é um metal melódico tão padrão que, sinceramente, não despertou qualquer coisa em mim. Imaginei que Dance of Death, do Iron Maiden, entraria nessa lista, e é uma coisa melhor que isto aqui.

João Renato: Com sua formação mais técnica, o trio comandado por Peavy deu um passo adiante nas composições e superou o anterior e excelente Unity. Apesar de ser basicamente um álbum de power metal, as melodias são bem mais acessíveis e palatáveis em comparação à maioria das bandas do gênero. Pena que o choque de egos foi inevitável e o grupo logo tretou. Ao menos deixou boas obras para a posteridade.

Leonardo: Grata surpresa para os fãs de metal a inclusão de mais um disco do Rage na série. Não que o grupo não merecesse. Assim como seus dois trabalhos anteriores,Soundchaser mostra o ótimo momento que o grupo vivia, com a formação Peavy/Smolski/Terrana estabilizada. Sem muitas mudanças em relação ao disco anterior, a banda continuava investindo no heavy metal puro, direto e enérgico, beirando o thrash em alguns momentos, com refrãos fortes e marcantes. O álbum é uma avalanche de riffs, como pode se ouvir em “War of Worlds” e na faixa-título, e os solos de Smolski beiram a perfeição. Quem não gosta do estilo vai continuar sem gostar. Mas quem gosta tem muitos motivos para ouvir este disco.

Mairon: Victor Smolski e Mike Terrana estraçalhando. Gosto do Rage porque é um metal mais rocker, principalmente pela pegada de Smolski, um baita guitarrista que quase não encontro nas listas de melhores do estilo, como podemos ouvir nos riffs da faixa-título e de “Secrets in a Weird World”, as melhores do CD. Apenas acho que os vocais de Peavy são ruinzinhos perto da sonoridade geral do grupo, assim como às vezes eles exageram na modernidade, principalmente na chatinha “Human Metal” e na primeira parte de “Falling from Grace”. É um bom disco, mas nada de mais (em 2006 a coisa seria bem diferente).

Ulisses: Incrível como conseguem tocar tanto e não dizer nada.


 

09-Australasia2

Pelican – Australasia (36 pontos)

Alexandre: Um pouco menos monocórdico do que o álbum do Sleep, mas ainda com não tanta variedade no desenrolar das faixas e entre elas em si. Não posso considerar este álbum como um merecedor de estar entre os finalistas de 2003. Pelo menos não há um cantor a estragar o instrumental, que tem lá sua competência. Não é um álbum que me motivou a conhecer mais da banda e na verdade me soou cansativo em boa parte, mas as duas últimas faixas (“Untitled” e a própria “Australasia”), com o uso de instrumentos acústicos, se destacam das demais.

Alissön: Tenho quase certeza de que os únicos que colaboraram para esta belezinha entrar aqui foram eu e o Giovanni – somos os poucos aqui que ligamos para as bandas alternativas do metal 1990’s –, mas não importa. Nos anos que se seguiram à pavimentação do post-rock e sua versão mais “metal”, indo de seu auge ao seu declínio, poucos discos podem se dizer vitoriosos no que diz respeito a ainda se manterem agradáveis de se ouvir anos após seu lançamento. É um pouco vago falar sobre as sensações e mensagens passadas por um álbum instrumental, pois é algo muito subjetivo. A mim, o disco sempre passou impressões reflexivas, mesmo com suas linhas de guitarras pesadas e clima denso. Seja como for, é uma das audições mais peculiares que ainda faço, pois sempre extraio algo diferente toda vez que o escuto.

André: Primeira vez que ouço essa banda. Tem um estilo meio sludge/meio doom. Unem riffs pesados do metal com algumas notas de guitarra típicas do rock alternativo. Também é todo instrumental. Não vou dizer que me impressionou pacas, mas gostei do que ouvi. Os melhores riffs estão na faixa “Drought”, logo no início da canção. Valeu a pena conhecer.

Bernardo: Quase inteiramente instrumental, para lá de atmosférico, o Pelican pratica um metal solto, experimental, reunindo elementos familiares com texturas diversas. Interessante.

Christiano: É um disco muito elogiado pela crítica. Uma espécie de stoner meio psicodélico, meio “prog”, totalmente instrumental e com faixas grandes e com muitas variações de andamentos. Infelizmente, é um álbum bastante cansativo para ser escutado de ponta a ponta, pois se na primeira faixa a proposta parece interessante, ao final do disco temos a impressão de que escutamos uma única longa música, com apenas algumas variações sobre um mesmo tema central. No fim das contas, o som meio arrastado, com climas densos e um certo desleixe calculado, acabam tornando a audição um duro exercício de paciência.

Davi: Disco pesado, arrastado e chato!!!! Há boas ideias de riffs, mas as músicas me soam inacabadas. Como se não bastasse, a bateria é mal gravada, com pratos extremamente estridentes e bumbo sem definição. A maior parte das músicas são longas e sempre sem razão de ser. Falta um bom produtor e um bom compositor. Enfim… decepcionante!

Diogo: Como hoje em dia não me importa muito o rótulo, mas as sensações que a música é capaz de transmitir, achei o Pelican uma boa surpresa. O som é arrastado, mas não é monótono nem repetitivo, e constrói atmosferas densas em meio a caminhos sinuosos, com cara de jams estendidas, mas que não transparecem desleixo, como tantas formações que já ouvi por aí. As camadas de guitarras são bem construídas e alternam momentos com mais ênfase em riffs (como em “Drought”) e outros mais viajantes (“NightEndDay”). A ausência de vocais é favorável ao grupo, uma vez que as melodias não parecem ser exatamente o foco em Australasia, e ter alguém possivelmente estragando o bom trabalho instrumental soa como uma péssima ideia. A faixa-título é outro petardo de respeito, mas evidencia uma falha que preciso apontar: os pratos da bateria poderiam ser menos sibilantes. A partir do momento em que o ouvinte percebe esse problema, fica difícil desconcentrar-se disso.

Fernando: Discos instrumentais têm alguns aspectos que, se você não focar na música, logo logo estará viajando e nem lembrará do que ouviu. Na primeira audição de Australasia ele foi legal, o Pelican não deixa a peteca cair no seu som arrastado, variando bastante os riffs e as levadas de bateria. Porém, da segunda vez que o ouvi, já não foi a mesma coisa. Toda hora eu acabava perdendo a concentração. Na terceira tentativa, no momento em que escrevo essas linhas, ele está me agradando novamente.

Giovanni: Riffs torrenciais, explosões de bateria esparsas, sintetizadores melancólicos e evolução sonora gradual; esta é a fórmula base das construções (ou desconstruções) atmosféricas que envolvem o post-metal. Formado em 2001, o Pelican é um dos pilares (ao lado de Isis e Neurosis) desse gênero, graças principalmente a Australasia. E aquilo que os diferencia é a não utilização de vocais em suas músicas. Uma das coisas que eu aprecio em canções instrumentais é como elas dão ao ouvinte a liberdade de aplicar as suas próprias interpretações para a música no lugar de letras, e Australasia sem dúvida é um calmante para dias intranquilos.

João Renato: Disco instrumental. Agradável de escutar, difícil de lembrar. Valor inegável, com músicos realmente criativos. Só não consigo entender essa rotulação post-metal. O guitarrista Trevor De Brauw também discorda, então talvez joguemos no mesmo time nesse sentido.

Leonardo: Não conhecia a banda, e fiquei impressionado com o doom atmosférico instrumental que o grupo executa. Soou interessante e original em um primeiro momento, mas aos poucos se tornou cansativo. Mas certamente vou ouvir mais vezes.

Mairon: Nunca havia ouvido falar dessa banda, assim como da definição de post-metal. Gostei do peso das guitarras em “NightEndDay”, ótima faixa instrumental que começa muito bem o disco, e aí me deparo com um álbum totalmente instrumental. Foi uma alegre experiência ter tido a audição de Australasia, um dos poucos trabalhos que se escapam nesta lista medíocre, e do qual ainda destaco “Untitled”, construída sobre uma bonita camada de violões, também presente na faixa-título. Vou buscar os demais discos da banda.

Ulisses: Não sei como tem gente que aguenta ficar quase uma hora sendo triturado por esse som massivo. Não gostei do disco na primeira vez que ouvi, porém tentei mais algumas vezes e a coisa foi melhorando um pouco, embora eu ainda prefira manter distância dessa sonoridade. O legal do álbum – todo instrumental – é que, apesar do peso, os caras inserem momentos mais calmos, bem exemplificados na acústica “Untitled” e no final da faixa-título. Gostei bastante, também, das mudanças de andamento de “Angel Tears”. Mesmo assim, julgo exagerada a entrada de Australasia aqui.


 

10-Dopesmoker

Sleep – Dopesmoker (30 pontos)

Alexandre: Bem, são coisas que só aqui na Consultoria do Rock mesmo para conhecer. Nunca havia ouvido falar. Aí vi: o disco tem uma faixa. Ok, Thick As a Brick (1972), do Jethro Tull, também, isso não é um problema. Então, beleza, vamos lá… olhei aquilo, pus para tocar e, depois de passados sete minutos iniciais de uma sequência monótona de acordes, avaliei que ainda teria de que encarar quase uma hora a mais. O inevitável pensamento me surge: “ô dureza…”. A dureza aumentou logo depois, quando lá próximo ao décimo minuto o cara começa a cantar. Se o instrumental já não era inspirador, o que dizer das linhas “harmoniosas” do cantor? Os pouquíssimos momentos que se salvam ocorrem quando o guitarrista resolve incorporar o Tony Iommi, sem um décimo de seu talento. Indubitavelmente, uma das horas mais intermináveis da minha vida.

Alissön: Disco de parto difícil, mas para o bem de todo um estilo, viu a luz do dia. O álbum na verdade já havia sido lançado, mas com uma mixagem levemente diferente e com um nome diferente – Jerusalem, de 1999, e que citei em minha lista naquele ano. O som apresentado pelo trio Al Cisneros (baixo e vocais), Matt Pike (guitarras) e Chris Hakius (bateria) era tão fora dos padrões e diferente de tudo feito até o momento que fora considerado um projeto sem viabilidade comercial, sendo tirado dos planos da London Records, gravadora que mantinha contrato com o trio. O disco acabou sendo lançando posteriormente em várias versões distintas por vários selos, tendo ganho a sua versão considerada “definitiva” em 2003, sob o nome Dopesmoker. Mesmo com um potencial evidente no absurdamente clássico Sleep’s Holy Mountain (1992), aquele material não dava nenhum indício sequer do que fariam na sequência. Uma única peça musical totalizando quase 64 minutos de duração, carregadíssima em fuzz, muito peso, andamentos morosos, temática canabística complementada com vocais cantados em tom de mantra dão o caráter de uma obra que explodiu a cabeça de praticamente todo mundo que curtia stoner rock na época. Nada era tão transgressor e desafiante como aquilo. Não à toa, foi aclamado por crítica e elevado ao posto de obra máxima de todo o stoner, com devidos méritos, diga-se de passagem. Sei que você estão preparando reclamações como “é longo demais! Fica repetindo o mesmo riff toda hora!”, mas peço que tenham paciência, ou que pelo menos compreendam a importância desse disco para todo o gênero stoner.

André: Outra que não conhecia. Ambas bandas que foram novidades nesta lista são parecidas, mas esta tem mais influência do stoner. Diferente do Pelican, esse Sleep já não me pareceu grande coisa com este disco contendo duas faixas (e uma com mais de uma hora). Esse estilo já não é de fácil digestão e deixar mais que uma hora inteira sem dar tempo de respirarmos já não soa legal, mas sim cansativo. Além disso, os riffs são graves, mas a produção ruim os deixa sem aquela sensação bacana quando se ouve uma guitarra pesada, fazendo meu subwoofer aqui mais assobiar do que espalhar os graves. Al Cisneros canta fazendo urros, apenas me lembrando como seria se Max Cavalera gravasse algo nesse estilo. Resumindo, um disco facilmente esquecível.

Bernardo: Sombrio como todo doom metal e chapado como todo stoner. Com duas músicas, a primeira delas com uma hora de duração, é um dos auges da piração desses dois gêneros.

Christiano: Não conhecia a banda nem o disco. É uma demo do Forest of Equilibrium(1991), do Cathedral, antes de terminarem de compor as músicas? Extremamente arrastado e repetitivo. Um péssimo vocal com uma produção quase amadora. Em uma palavra: chato.

Davi: Rááá! Ié-Iééééé. Ah, salci-fufu. Pegadinha do Mallaaandro. É pegadii-iiinha!!! É pegadiiii-iiiinha!!!

Diogo: Muitas vezes já vi pessoas afirmando ser necessário estar sob o efeito de alguma droga para apreciar devidamente o trabalho de algumas bandas de rock progressivo, e até de algumas mais populares, nem tão coladas assim ao gênero, como o Pink Floyd. Sempre considerei essa conversa de uma estupidez tremenda, pois a musicalidade grandiosa dos artistas geralmente citados revela-se melhor justamente para os ouvidos mais atentos, concentrados na própria música. Só que em se tratando do Sleep, olha, até que eu aceito um argumento desse tipo, pois o som arrastado do grupo, de evolução demasiadamente lenta, mais parece uma jam levada a cabo por um bando de sujeitos cujo principal foco não é extrair algo minimamente coeso. Vá lá, o disco não chega a ser ruim, mas há coisa melhor sendo feita em uma linha minimamente parecida, como é o próprio Pelican, que dá as caras nesta edição. Quem elegeu este disco deve ao menos convir: complicado avaliar um álbum como este estando escutando-o pela primeira vez.

Fernando: É sério isso aqui? Mais de oito minutos de acordes aleatórios para aí entrar uma voz arrastada e sem nenhum atrativo?! A primeira pequena variação se deu lá pelos 15 minutos, em um solo risível. Parece que pegamos um disco de rotação 78 rpm e tocamos em 33.1/3 rpm. Nunca um nome de banda foi tão preciso. Peço ao Deus Metal que não me deixe nunca mais passar por tal provação. Deveria ter tacado o Iron Maiden em primeiro mesmo para ficarmos livres disso.

Giovanni: Dopesmoker é a pura essência do que é o termo “stoner rock” – não essa coisa depreciativa e pasteurizada que as bandas colocadas nesse gênero representam hoje. Al Cisneros , Matt Pike e Chris Hakius criaram um dos mais surreais espaços de interação humana já feitos dentro de um álbum de metal. A versão mais audaciosa de Jerusalem, tendo enfim uma loucura transcendental de metal arrastado e psicodélico em uma faixa de uma hora de duração.

João Renato: Sempre que vou conferir algum disco que não conheço, procuro ler sobre ele antes. Portanto, não é de se admirar que tenha levado um susto ao saber que este aqui era composto por uma grande faixa e dava prosseguimento a seu trabalho antecessor. De qualquer modo, segui em frente. Mas achei genérico demais. Nada que me motivou a passar dos 20 e poucos minutos.

Leonardo: O stoner metal/sludge é um estilo perigoso. Com a afinação baixa e os andamentos lentos, há um risco grande das músicas todas ficarem muito parecidas entre si, e a audição de um disco inteiro uma tarefa árdua. Infelizmente, é o que acontece aqui. Muita saturação, pouca variedade, fica até difícil saber onde começa uma música e começa outra. Passo.

Mairon: Confesso que os 12 primeiros minutos foram de muito tédio, com o riff sendo repetido à exaustão. A partir do 13º minuto, começou uma sequência de solos de guitarra, e daí a coisa mudou de figura, em uma jam session setentista que justificaria e muito a presença deste disco por aqui, mas que durou apenas três míseros minutos. Daí vieram mais dez minutos, mais 15 minutos, mais 20 minutos… Passou-se uma hora e nada. Sono profundo. A música, única que faz parte do álbum, dura 63 minutos, e não se desenvolve. É sempre o mesmo acorde martelando na sua cabeça, em uma hipnose sonolenta da qual eu não gostei, e ainda não parava de olhar para ver quanto faltava para terminar. Sério que elogiaram isso e chamaram de genial? Nunca vi um nome tão apropriado para uma banda.

Ulisses: Como se já não bastasse um, entraram DOIS álbuns de stoner/sludge/sei-lá-o-quê. Este Dopesmoker me pareceu o pior dos dois, de longe, pois consiste em uma única composição que passa a maior parte do tempo naqueles riffs drone super monótomos, que vez ou outra são brevemente quebrados por pontes ou solos – aliás, admito que o solo a partir dos 39 minutos é bem interessante, remetendo a um aspecto meio etéreo e meio desolador. Não tem baseado no mundo que torne agradáveis os 60 minutos de Dopesmoker.


Listas individuais

Alexandre Teixeira Pontes

  1. Dream Theater – Train of Thought11 Faceless

  2. Anthrax – We’ve Come for You All

  3. Godsmack – Faceless

  4. Michael Schenker Group – Aracnophobiac

  5. Opeth – Damnation

  6. Masterplan – Masterplan

  7. Kamelot – Epica

  8. Iron Maiden – Dance of Death

  9. Evanescence – Fallen

  10. Muse – Absolution

Alissön Caetano Neves

  1. The White Stripes – Elephant12 The Magnolia Electric Co
  2. Pelican – Australasia
  3. Sleep – Dopesmoker
  4. Songs: Ohia – The Magnolia Electric Co.
  5. Edge of Sanity – Crimson II
  6. Boris – -Feedbacker-
  7. The Black Keys – Thickfreakness
  8. Enslaved – Below the Lights
  9. Reverend Bizarre – Harbinger of Metal
  10. Radiohead – Hail to the Thief

André Kaminski

  1. Dream Theater – Train of Thought13 Tears of Mortal Solitude
  2. Forest Stream – Tears of Mortal Solitude
  3. La Maschera di Cera – Il Grande Labirinto
  4. The Old Dead Tree – The Nameless Disease
  5. Epica – The Phantom Agony
  6. Saturnia – Hydrophonic Garden
  7. Iron Maiden – Dance of Death
  8. Apocalyptica – Reflections
  9. Dark Sanctuary – L’être Las – L’envers du Miroir
  10. Lynch/Pilson – Wicked Underground

Bernardo Brum

  1. The White Stripes – Elephant14 Nocturama
  2. Nick Cave and the Bad Seeds – Nocturama
  3. The Mars Volta – De-Loused in the Comatorium
  4. Outkast – Speakerboxx/The Love Below
  5. Cat Power – You Are Free
  6. The Rapture – Echoes
  7. Jay-Z – The Black Album
  8. Sufjan Stevens – Michigan
  9. Explosions in the Sky – The Earth Is Not a Cold Dead Place
  10. Peaches – Fatherfucker

Christiano Almeida

  1. Opeth – Damnation15 Souvenirs
  2. The Gathering – Souvenirs
  3. Anathema – A Natural Disaster
  4. Green Carnation – A Blessing in Disguise
  5. Anekdoten – Gravity
  6. Richard Hawley – Lowedges
  7. The Yardbirds – Birdland
  8. Bigelf – Hex
  9. The Dears – No Cities Left
  10. RPWL – Stock

Davi Pascale

  1. Maria Rita – Maria Rita16 Maria Rita
  2. Jet – Get Born
  3. The Darkness – Permission to Land
  4. Evanescence – Fallen
  5. Anthrax – We’ve Come for You All
  6. Skank – Cosmotron
  7. Black Label Society – The Blessed Hellride
  8. Muse – Absolution
  9. Kings of Leon – Youth and Manhood
  10. Deep Purple – Bananas

Diogo Bizotto

  1. Richie Kotzen – Change17 Change
  2. Glenn Hughes – Songs in the Key of Rock
  3. Pride of Lions – Pride of Lions
  4. The Mars Volta – De-Loused in the Comatorium
  5. Gotthard – Human Zoo
  6. Harem Scarem – Higher
  7. The Darkness – Permission to Land
  8. Opeth – Damnation
  9. Machine Head – Through the Ashes of Empires
  10. Krisiun – Works of Carnage

Fernando Bueno

  1. Opeth – Damnation18 Dance of Death
  2. Iron Maiden – Dance of Death
  3. Muse – Absolution
  4. The Mars Volta – De-Loused in the Comatorium
  5. Anthrax – We’ve Come for You All
  6. King Diamond – The Puppet Master
  7. Black Label Society – The Blessed Hellride
  8. Neal Morse – Testimony
  9. Anathema – A Natural Disaster
  10. A.C.T. – Last Epic

Giovanni Cabral

  1. The Mars Volta – De-Loused in the Comatorium19 The Unknown Masada
  2. Pelican – Australasia
  3. Sleep – Dopesmoker
  4. Opeth – Damnation
  5. John Zorn – Masada Anniversary Edition Vol. 3: The Unknown Masada
  6. Blut Aus Nord – The Work Which Transforms God
  7. Leonid Fedorov – Purple Day
  8. Portal – Seepia
  9. Gojira – The Link
  10. King Crimson – The Power to Believe

João Renato Alves

  1. Rage – Soundchaser20 Figure Number Five
  2. Masterplan – Masterplan
  3. Kamelot – Epica
  4. Soilwork – Figure Number Five
  5. Anthrax – We’ve Come for You All
  6. Alice Cooper – The Eyes of Alice Cooper
  7. The Darkness – Permission to Land
  8. Evergrey – Recreation Day
  9. Arch Enemy – Anthems of Rebellion
  10. Shakra – Rising

Leonardo Castro

  1. Children of Bodom – Hate Crew Deathroll21 Hate Crew Deathroll
  2. Masterplan – Masterplan
  3. Overkill – Killbox 13
  4. Rage – Soundchaser
  5. Twisted Tower Dire – Crest of Martyrs
  6. Brainstorm – Soul Temptation
  7. King Diamond – The Puppet Master
  8. Lost Horizon – A Flame to the Ground Beneath
  9. Amon Amarth – Versus the World
  10. Grand Magus – Monument

Mairon Machado

  1. Los Hermanos – Ventura22 Ventura
  2. Styx – Ciclorama
  3. Beardfish – Från en plats du ej kan se…
  4. Amy Winehouse – Frank
  5. The Yardbirds – Birdland
  6. Glenn Hughes – Songs in the Key of Rock
  7. Savoy Brown – Strange Dreams
  8. Maria Rita – Maria Rita
  9. Colosseum – Tomorrow’s Blues
  10. Hughes Turner Project – HTP 2

Ulisses Macedo

  1. Kamelot – Epica