Carta Aberta para Paul Daniel Frehley

Rio de Janeiro, 03 de outubro de 2016.

“Em alguma noite de 1979, eu estava no meio da madrugada deitado no sofá (não me lembro o porquê, pois eu tinha quarto) ouvindo meus pais discutirem por conta dos ciúmes da minha mãe. Então com 5 anos, eu já tinha minha própria noção sobre a expressão “noites que não acabam”, mesmo que eu não soubesse com exatidão o que aquelas noites significavam.

No outro dia pela manhã, rosto marcado pelas lágrimas, minha mãe tentava agir como se nada tivesse acontecido. O rosto do meu pai eu via menos, condição que se acentuou com o passar dos anos. Ele fazia questão de esconder indo para o trabalho. Já naquela época ele se dividia entre os dobrados (é um sub-gênero musical dentro da música marcial) e as músicas nas boates onde tocava sax alto. Essa jornada dupla causava os problemas que todo o casal pode enfrentar: a divisão do corpo, da alma e da vida.

Esse jeito perigoso de viver causou a primeira separação em 1980, fazendo com que minha mãe carregasse os três filhos pela serra de Petrópolis para ter uma vida cigana e quase igual a do beija-flor: de pétala em pétala, mendigando da misericórdia de alguém que se dispusesse a aceitar uma mulher ainda jovem mais três crianças em início de formação.

Do início da década até 1984 formei toda a minha predileção cultural: TV, cinema e música, sem ordem hierárquica. Sem privilégio do dinheiro ou de qualquer condição satisfatória, era entre estes ingredientes que ficou mais fácil esquecer o momento da vida. Se olhasse muito doía, se escutasse o som, escondia, se fingisse ser guitarrista, permitia sonhar com dias melhores.

E eles vieram…

“Times have changed and times are strange / Here I come, but I ain’t the same”

Em setembro de 1984, numa tentativa de reconciliação, meu pai propôs retomar o casamento, em outra cidade (Brasília) e em uma nova condição. Fomos. Agora mendigando a esperança de que o errado virasse certo em pouco tempo e que a substituição do cenário resolvesse os problemas mais íntimos do nosso ser.

Funcionou por 5 anos. Em 1989, já morando em João Pessoa (PB), após uma ótima passagem pelo Distrito Federal, estávamos em uma condição financeira ainda melhor e eu já moleque comecei a estudar programação. Parcamente comparando era como se eu estivesse vivendo uma vanguarda que não me pertencia. Parecia que de tanta felicidade tinha alguma coisa de errado. Foram 5 anos insuficientes para segurar a onda de uma vida. Meu pai saiu de casa de novo.

Voltamos ao Rio, nossa terra natal.

E a primeira fase se repetiu: filhos mais velhos, mãe não tão jovem, mas forte e aguerrida para prosseguir na tentativa de lutar contra a perspectiva mais pessimista. Quase em pré-adolescência, fui obrigado a trabalhar naquele mesmo ano, o que me conferiu grandes experiências que moldaram meu caráter até os dias de hoje.

Foram anos difíceis. A reconstrução da auto-estima da minha mãe desenvolvia-se na velocidade do meu ciúme, dávamos trabalho e o dinheiro era um artigo de luxo tão literal que vim conhecer alguns privilégios da vida, como escolher um bom lugar para comer ou viajar, somente na vida adulta. Era a necessidade suprida sob o preço da precisão. Nada faltava, nada sobrava.

Em 1995, o roteiro se repete. A proposta era a mesma, mas a cidade era outra: Vila Velha, no Espírito Santo. Sob o pretexto de querer retomar uma vida familiar, meu pai colocou na mesa mais um convite para reconciliação. E minha mãe, entre apostas e derrotas, entre o fetiche de felicidade misturado a um passado recente de inimaginável apego a um manual de sobrevivência, disse sim.

Durou pouco, menos de 2 anos. Nada deu certo e dizer que deu errado é quase culpar o acaso pelo resultado das escolhas equivocadas que todos fizemos. Já em 1997, eu achei quem me amasse além do seio materno e minha vida se escreve em outro dialeto.

acefrehley

Por isso, eu digo, com propriedade: Ace Frehley, fique onde você está.

Você já fez sua vida, já contou suas histórias, já elencou seus culpados e vilões em um filme de tantas emoções. Não caia na burrada de usar a frase que você se apropriou naquele porta-aviões em 1996: “a mágica voltou”.

A gente sabe que a mágica a qual você se referia era mais a ilusão de achar que ali estavam os músicos que você conhecera naquele teste que você passou com os pés nas costas. Naquela sala, naquele dia, segundo Gene, ninguém foi melhor que você.

Fique com as lembranças de quando vocês um dia eram uma família que se respeitava (e se amava) e reverenciava o que faziam. Veja: você ainda lança discos inéditos! E, dizem, está sóbrio há 10 anos. Já pensou o quanto alguns milhares de dólares podem destruir esse estado sereno de vida que quase te levou à autodestruição?

Vamos lá: você acha que dá para subir no palco e sentir o cheirinho de 1977? Tem certeza que seria uma boa se submeter à diferença salarial, entre luvas e direitos autorais de algo que você ajudou a construir? Não, Bill Ward, esta carta não é pra você…

“Let my heart go /  Let your son grow / Mama, let my heart go  / Or let this heart be still”

Eu sei que você já retomou conversas que não tinha desde 2002. Recuperou a vontade de papear, trocar ideia, compor e cantar junto, mas não está bom assim? Quem é que garante que vocês podem fazer algo que um dia já fizeram? E vou dizer uma coisa pra você em especial: nem seus amigos são mais capazes de emocionarem como um dia já fizeram. Pule fora dessa, cara!

Olha, Ace, muitas vezes eu achei que o retorno do meu pai fosse a solução para muitos dos nossos problemas, mas a saída dele pela porta de trás, fechava as janelas da casa, mas deixava a porta da frente escancarada. Algumas vezes a gente tinha medo de passar por ela sem saber o que tinha lá fora, mas depois que a gente ultrapassou o capacho, ficou mais fácil se acostumar até que ela – a dor – não existisse mais. Não daquele jeito.

Então, por favor, deixe as coisas como estão: há um lugar para você reservado no coração de todos nós e sabemos que dinheiro nenhum é capaz de retribuir o amor de um exército. Tenha dignidade e fique onde está!”

Depois de alguns anos, já prestes a completar 20 anos de casado, vi que a vida que me fez chorar em um sofá em 1979, ainda seria capaz de me fazer sofrer mais algumas vezes, mas encontrei outros que ligaram a pick-up e que deram uma rasteira no destino. Hoje eu sei que todo mundo estava naquela sala. Até vocês.



Categories: Entrevistas, Kiss, Off-topic / Misc, Rumores

11 replies

  1. Concordo com o seu manifesto, Daniel. Depois de ler a biografia do Paul Stanley, pensar em algum retorno pra banda só complicaria a vida de todos.
    Obrigado por compartilhar sua vida dessa forma

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    • Fala, Rolf.

      Ficou um texto um pouco dramático, mas esses lances de “fica-volta” são tão recorrentes na minha vida em quase todos os sentidos, que achei importante fazer essa mistura da minha biografia com as decisões que envolvem minha banda preferida.

      Valeu pelo comentário,

      Daniel

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  2. Cara, vc está coberto de razão… assustei, tomara que sejam rumores mesmo…
    []´s

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  3. Daniel, muito corajoso o seu texto, e além disso, de um talento ímpar por surpreender em “linkar” ( é assim que escrevemos isso hoje?) momentos pessoais duros e até dolorosos de sua vida com o assunto do mundo “KISS” atual: A provável volta do intempestivo guitarrista original.

    Eu vou concordar que a busca por mais grana ( pela banda e pelo guitarrista espacial) deverá ser mais um capítulo melancólico de um fim que um dia vai chegar não só pra esta, mas para as demais bandas que tanto nós gostamos. Não há outra forma de entender que o motivo é este, financeiro.

    Mas se isso for novamente uma forma de Ace se ocupar dos demais excessos que as desgastantes turnês podem lhe trazer, vou mais uma vez entender que você está certo, que é melhor que ele não volte. A idade está chegando para todos, é melhor ele não se arriscar em jogar 10 anos de sobriedade fora.

    E além disso os últimos álbuns da banda, mesmo que não tão emocionantes, mostram uma banda que ainda apresenta algum vigor no lançamento de músicas inéditas. O problema está nos shows, cada vez mais burocráticos e distantes da boa forma que a banda já mostrou.

    Ace não viria pra melhorar este cenário. Certamente, e ainda se estiver no fino de sua capacidade física e mental, vai ser mais um para mostrar que a banda precisa parar. E não deve ter motivação (que sempre foi algo necessário em seus anos mais prolíferos no KISS) para contribuir com algo que sequer chegue próximo aos competentes álbuns mais recentes da banda ( Monster(principalmente) e Sonic Boom).

    Você também está correto que naquela audição inicial ninguém deve ter sido melhor que ele. Nem Bob Kulick, que foi quem chegou mais perto. Por isso, volto a dizer que a motivação o fez ser o guitarrista que nós tanto gostamos nos três primeiros álbuns, mais ainda no Alive! , e também no Dynasty, depois do catalisador que foi o álbum solo dele em 78.Isso já faz quase 40 anos ( o Dynasty). Acho que já deu mesmo.

    Volto a ler o seu texto, e me emociono com o final, pura poesia. Tô ficando velho também, meu amigo.Mas te agradeço por me dar o privilégio de ler algo que não se encontra por aí na internet.Esse blog é único mesmo,cada vez mais me convenço disso.

    Eu te saúdo por isso.

    Alexandre

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    • Oi Alex (deixa eu te chamar diferente hoje),

      cara, assim que eu soube deste quase factóide (a volta dele pra banda), eu fiz uma relação meio sombria com minhas próprias experiências, vez por outra escolho esse blog para exorcizá-las já que esse meu livro eu nunca termino.

      Então, dizer para vocês o que eu ainda não havia dito para qualquer pessoa, se não faz deste texto especial, torna, com certeza, o MHM um local bastante peculiar para mim.

      Quando estudava inglês em Calgary há um ano, meu professor disse que minha escrita era boa “mas poética demais”, que eu deveria ser mais objetivo quando quisesse dizer alguma coisa.

      A subjetividade da minha escrita está nestes engasgos da alma, nestes nacos de pão que ficam na garganta e que a gente encontra uma pausa na pauta pra poder meter o dedo e cutucar.

      Obrigado por fazer parte disso.

      Com relação à banda eu tô muito triste, porque assim como outros herois que eu elegi, os caras estão envelhecendo e nem sempre mostram alguma dignidade nas suas decisões, ao menos do meu ponto de vista e aí a melancolia é quem toma conta da gente, ao lembrar que há alguns anos, tentando dormir na casa de um amigo, eu não consiga fechar os olhos porque havia um pôster da banda, numa foto promocional da turnê mundial do Creatures of The Night. Perdi o medo e também o encanto.

      Um grande abraço,

      Daniel

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  4. Sensacional Daniel, o lindo texto, os momentos que guardamos e aqui eternizados.
    Quanto ao Ace, concordo com tudo – o que foi, nunca será mais como antes…

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  5. Daniel, o blog hoje em dia atingiu um nivel de texto tão bacana que as vezes confundimos este espaço com “outras coisas”, mas não esqueçamos: é um BLOG! E em um blog, textos como estes são mais que bem-vindos, ainda mais tão sinceros e honestos. Como disseram acima, obrigado por compartilhar tudo isso neste espaço.

    As analogias as vezes podem não ser compreendidas por quem não nos conhece, mas são perfeitamente compreensíveis para quem se coloca no lugar do outro ou entende o real motivo de você ter usado este “recurso” com uma mescla de “desabafo” do passado, presente e preocupação com futuro.

    Sobre Ace, não é de hoje que vem este rumor. Ele mesmo já comentou, ainda que as vezes não diretamente, que fica incomodado ao ver um clone “em seu lugar”. Agora, vem a questão do dinheiro na “máquina Kiss”, e aí quem sou eu aqui para falar mais do que já foi falado por você e pelo B-Side?

    Retornos são complicados e neste caso, a chance de dar errado é enorme, convenhamos. Nos resta acompanhar e ver, independente do que acontecer, e torcer que as coisas caminhem da melhor forma para todos. A banda vem apresentando discos “regulares” em termos de tempo de lançamento e qualidade, e digo isso no bom sentido, com são discos de boa qualidade, ainda que não sejam discos marcantes como foram (mas até aí, quem está efetivamente fazendo isso?).

    Veremos.

    By the way: o que será também que faria o Tommy da vida? Saída total da mídia? Retorno para gravar escondido na banda novamente ? 🙂

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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    • Opa, Edu.

      Agradecer você (mais uma vez) pelo espaço e dizer que fiz o que fiz porque me sinto à vontade para escrever um texto passional sobre o Kiss a partir do meu coração mesmo. Muito obrigado, de verdade.

      Acho que todos já contribuíram nos comentários com suas expectativas e eu com o texto e conforme ratificamos: as chances de dar errado são grandes. Espero que ele leia o meu clamor com o google translate (exceto nas canções de Ozzy/MetallicA).

      O Tommy vai voltar a fazer o que fazia antes da saída do Ace: ser o guitarrista que fica atrás do palco tocando o que o Paul Daniel “mascar”.

      Abraço,

      Daniel

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  6. Dia vai, dia vem, e por enquanto Ace continuará sem retornar ao Kiss, de acordo com essa última entrevista com Stanley: http://www.blabbermouth.net/news/paul-stanley-once-again-rules-out-ace-frehleys-return-to-kiss/

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

    Like

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