Cobertura Minuto HM – Black Sabbath – The End of the End – Documentário – 28/set/2017 – São Paulo

Para o incauto leitor que agora passa as vistas nas parcas linhas desse que vos escreve, saiba que o Minuto HM esteve na sessão única nos cinemas do documentário Black Sabbath – The End of the End realizada nesta última quinta-feira, dia 28 de setembro de 2017, que pretende, entre outros objetivos, mostrar o fim daquela que foi a banda seminal, mais influente, mais original e reconhecido do heavy metal no mundo, e, também, como foi a experiência do último show da banda nessa turnê que fechou em Birmigham criando aquela ideia de término onde tudo começou.

O documentário soou ambíguo para mim. Se por um lado é sempre muito bom – mas muito bom – poder assistir a depoimentos de certos aspectos e histórias da banda pelos próprios integrantes – mesmo que para isso fosse necessário ignorar a não participação de Bill Ward por questões financeiras (urgh!) – por um outro lado, dado o aspecto comercial que a banda entrou após a divisão do nome da banda com a máquina Sharon Osbourne, o “approach” que eles aplicam na forma como conduzem o roteiro é sempre a partir de uma premissa que ao longo dos 50 anos de existência da banda, só o que o prevaleceu foi a era “Ozzy”, o que me incomoda muito. A coisa soa sempre para que nos depoimentos do filme, fique claro que a era seminal da banda seja aquela que exista. Isso é muito ruim.

O documentário iniciou as 20h00 na rede Cinemark em São Paulo e, logo no início da sessão, uma mensagem avisa que aquele conteúdo inicial de entrevistas em que Buttler, Iommi e Ozzy iniciam o documentário falando do seu início em Birmigham, são de conteúdo exclusivo para o cinema e, em seguida, adentram a sala o que pareciam ser claramente dois gerentes da franquia Cinemark – com suas devidas gravatas e cordões vermelho da rede pendurando crachás – olhando para os expectadores para garantir que aquele conteúdo exclusivo, permaneça exclusivo, imagino eu. Não há nada demais. Somente histórias do início difícil da banda em 1968 e 1969 em que o Flower Power não se aplicava para aquele universo triste, distante e sombria da realidade operária de Birmigham, mas, conteúdo exclusivo é exclusivo, né? Vamos entender por esse lado.

O documentário traz as imagens do show na cidade natal da banda mas não emplaca em uma suposta emoção de Buttler e Iommi em demonstrar ali uma emoção nesse fim. Para quem já leu um pouco sobre Iommi, sabe da inquietude que o “bombeiro gasista” tem em compor e se renovar com material inédito. Ainda mais se olharmos o quanto os músicos precisaram, digamos assim, se “adaptar “ aos problemas de Ozzy em se manter no tempo e nas métricas das músicas – todas com andamentos muito mais lentos e “desmontados” de qualquer complexidade.

O filme mostra o repertório do show em que estivemos aqui no Brasil e, ao longo delas, ou, durante as músicas, eles contam histórias sobre ocultismo, sucesso, a reconhecida influência, o papel de terem criado o gênero, forma de compor, os excessos, a duríssima relação com a imprensa, a saudade de Bill Ward, as intempéres de estar na estrada e, resumindo, não há nada de ineditismo nas histórias que já não estivessem mencionadas no livro de Iommi, na box deluxe lançada na turnê “13” e no documentário “The Last Supper”, de 1999. Não fosse o episódio recente do linfoma de Iommi, que realmente foi um grande golpe de sorte da vida tê-lo hoje curado e caminhando em frente, não haveria maiores surpresas nos depoimentos. As sessões de meeting & greeting são mostradas e o desconforto de Geezy é muito aparente com o “circo” na estrada e o grande esquema que a banda entrou no seu retorno sendo geridos pela máquina Ozzy de show business.

Spoiler

Na projeção há uma mega “pegadinha” – odeio esse nome – mas ele é a melhor metáfora que achei: após apresentar Paranoid como última música do último show, com toda a chuva de papel picado e balões brilhantes pretos e a despedida dos palcos, que é o fio condutor do filme, os caracteres sobem e passam-se todos os nomes de todos aqueles que fizeram parte da produção… do show. Nesse momento, estimo que uns 30% da sala se levantou e foi embora. Para quem tem filhos pequenos, sabe que os filmes da Disney possuem esse recurso, ou seja, parece que o filme acaba – e ele realmente acaba – mas rola aquele “easter egg” de uma cena “escondida” no final que antes pouco influenciava em algo nas histórias, mas que agora se tornaram obrigatórias serem assistidas pois trazem um teaser das continuações. Só que nesse caso, o que rolou foi mais uma hora de filme com direito a Changes, N.I.B., Children of The Grave, Dirty Women e Behind the Wall of Sleep com mais entrevistas, imagens e depoimentos. Fiquei embasbacado.

Outro detalhe interessante foi a existência da terceira tomada do documentário passado em um estúdio nos arredores de Oxford. Um lugar lindíssimo e aparentemente isolado em que, sob uma prerrogativa de que eles “queriam se encontrar após a turnê”, a banda se reúne nesse estúdio pequeno – pequeno mesmo – com duas ou três tomadas de câmera em que em um único plano de câmera os quatro são filmados de tão próximos em que estão uns dos outros. “Eles”, nesse caso leia-se que Clufetos é filmado só de costas, com um kit pequeno de bateria e atrás dele a câmera pega os demais tocando músicas como The Wizard, Changes e Into the Void. Baterista numa banda de metal? Para que isso? Zero de importância! Tudo para justificar a ausência de Ward e fazer esse “re-take”. Confesso que não entendi. Me incomodou. Com tanto overdubs disponíveis, confesso que não entendi o por que desse terceiro take em estúdio.

Ao final todos se despedem com seu jeito blaze britânico sem demonstrar nenhuma emoção, como visto em outras diversas vezes e com aquele approach assombroso de abordar a banda como se estivesse congelada em um pedestal ao longo de 50 anos, chegando em 2017 somente carregando a “era Ozzy”. Isso soa muito ruim pra mim. O roteiro insiste em buscar soar que a banda existiu em 1969 e depois voltou e agora terminou. Só! Absurdo isso. Absurda essa forçada de barra. Leviana, desrespeitosa e sem sentido para qualquer fã da banda. Por isso insisto em dizer que esse não é um documentário sobre a banda, e sim sobre uma das eras que obviamente teve uma importância absurda na história do metal mas que insiste nessa tecla de tudo se resumiu naquilo.

Para não fechar com algo negativo o post, eu cito agora a minha completa aversão a frequentar salas de cinema no Brasil. Ultimamente – inferindo que os problemas relatados a seguir não se resumem a São Paulo e Rio de Janeiro onde estive, a convivência com os demais expectadores tem sido muito dolorosa para mim. Muito mesmo. Eu que fui educado a respeitar o direito do próximo, definitivamente, não dá. A coisa realmente saiu do controle. A falta de educação de certas pessoas beira um completo constrangimento. Cito: pessoas falando alto, umas mandando as outras calarem a boca, usando celular, ligando lanterna na cara dos outros, atendendo telefone no meio da sessão, cantando alto, comentando as coisas sem sequer respeitar o direito do próximo de estar ali e de ter um mínimo de um silêncio respeitado que espera-se em uma sessão pública de qualquer coisa. Não! A coisa está feia demais. Isso porque só tinha coroa como eu ali.

Exatamente uma semana depois que eu fechei a defesa do meu mestrado eu tenho outro grande evento como esse. O que o meu mestrado tem a ver com Black Sabbath? – tudo!!!! Qual dissertação no Brasil aparecem duas menções ao Black Sabbath nos agradecimentos? Sem falar, é óbvio, de mencionar essa galera aqui.

Trecho abaixo retirado dos agradecimentos da dissertação de mestrado:

“Ao Márcio Villas pelo grande papel de coaching e mentoring ao longo de todo o processo que percorri e por sua senioridade em apoio na minha jornada. Muito Obrigado por tudo!

Aos colegas que em parceria me apoiaram no mestrado: Flávio Pontes, Alexandre Pontes, Eduardo Rolim, Lucio Perini, Danilo Ferreira, Marcelo Caruso, Evandro Panza, Igor Mendes, Eduardo Araújo, Eduardo Guedes e todos do Minuto HM.

A Ronnie James Dio por toda a inspiração em todo o processo e toda a sua inspiradora obra de referência ao qual fui influenciado por toda a vida.

Rise up to the shining

Live long live now

Rise up to the shining

Don’t be blind by fools again

Fools again

(Tony Iommi / Tony Martin / Geeze Butler)”

No mais, valeu muito a pena assistir ao documentário. Eu não ouço essa era “Ozzy-1970” da banda regularmente e para mim é sempre uma oportunidade excelente de poder estar em contato com esse repertório, com som e imagens perfeitas.

Que o nome Black Sabbath descanse em paz na história do metal do mundo. Obrigado por tudo!

The End of the End

Rolf “Dio” Henrique

Revisou: e Eduardo [dutecnic] “Presidente” Rolim



Categories: Black Sabbath, Cada show é um show..., Curiosidades, Entrevistas, Músicas, Off-topic / Misc, Resenhas, Setlists, Trilhas Sonoras, Uncategorized

4 replies

  1. Rolf, excelente resenha do show, e vai aqui um necessário agradecimento por você citar o meu nome e de outros amigos no seu trabalho acadêmico. Me sinto honrado, de verdade.
    Em relação ao conteúdo do The End of the End, o que chama a atenção inicialmente é o tal easter-egg de mais de uma hora. Cabe uma reflexão, entendo ser necessária: se fosse eu um dos consumidores teoricamente enganados, ficaria indignado. Uma coisa é perder um vídeo de uma canção, outra coisa é perder quase uma hora de extra. Fica aqui minha desaprovação
    Desaprovação idem é em relação a questão dos outros (excelentes) anos da banda sem o Sr.madman. Compreensível até é, mas também desaprovo. Faltou elegância, pra dizer o mínimo.
    Em relação ao comportamento do público, é o reflexo dessa falta de educação e da inexistência de bons exemplos de nossos líderes. Devemos fazer nossas partes e acho louvável sempre que sejam mencionados os porquês de nossas considerações negativas em relação a comportamentos que gostaríamos que fossem evitados. Pior é achar tudo normal e se acomodar.

    Um grande abraço, mais uma vez muito obrigado pela honra de ter sido lembrado

    Alexandre

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  2. Bom, o que dizer disso aqui? Que honra. Que privilégio. Obrigado, Rolf, pela lembrança e pela “formalização” disso em um momento tão importante da sua vida. Celebrar e agradecer pelas amizades nunca é demais, não precisa estar “formal”, ainda mais no caso dessas pessoas citadas, mas a honra é enorme mesmo. Muito obrigado. E parabéns pelo restante das citações e colocar seus ídolos ali. Eu faria o mesmo – Senna, McCartney, Iron Maiden, MetallicA, enfim…

    O cinema é uma sacada legal que as bandas e o mundo do entretenimento vem adotando cada vez mais. Eu sou favorável a estes eventos no cinema – documentários, shows, jogos de futebol ou qualquer esporte. Se tivéssemos um “Senna” da vida, imagine que legal ver uma corrida decisiva no Japão em uma madrugada? Enfim, sou favorável, ainda mais quando olho o catálogo de filmes atual, que raramente motiva uma saída de casa.

    Já o show é um registro que deve estar mesmo imortalizado. Ver essa linha de frente junta, ainda que não seja exatamente a nossa favorita na posição “central”, é (foi?) um privilégio. Fico pensando se ainda se juntarão. Meu palpite é que sim, vai acontecer. E isso deve ser sempre celebrado. Os grandes estão parando e cada reunião deve ser agora aproveitada.

    O tal “caça-níqueis”, em determinados casos, vão existir mas isso não é algo que devamos agora nos preocupar – agora é hora de celebrar legados insubstituíveis, enquanto há tempo.

    De resto, é agradecer pelo relato do show / documentário, ficou em mãos mais que competentes.

    Termino com mais uma passagem que marca um pouco isso tudo – de quem tanto gostamos, de quem aprendi a gostar graças a você:

    “If your circle stays unbroken, then you’re a lucky man…
    ‘Cause it never never never has for me…”

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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