Kiss discografia [Apêndice I] – Capítulo 1 – Eric Singer – Das principais participações na função exclusiva de baterista ao seu único projeto como protagonista, o ESP

Avançando em direção ao final deste grande número de apêndices à discografia principal do KISS, chegamos ao capítulo dedicado ao último baterista da banda, Eric Singer. Neste capítulo abordaremos de forma bastante concisa as diversas participações de Singer como baterista de vários grupos e artistas, já que o foco principal será dedicado ao seu único projeto, chamado ESP, ou melhor, Eric Singer Project.

Antes de mais nada é importante deixar claro que Eric Singer entrou na banda em 1991 por ocasião do falecimento de Eric Carr e já desde aquele momento era bastante conhecido por várias participações em diversos grupos de renome, entre eles o Black Sabbath, em especial. A entrada de Eric Singer em um Black Sabbath que, na ocasião, resumia-se a Tony Iommi, cercado de vários outros músicos para manter a banda viva, deu-se em 1985, após ter excursionado a partir de 1984 com Lita Ford. Lita, na ocasião, vivia um caso amoroso com Iommi. O primeiro álbum em que é possível ouvir o indiscutível talento de Singer é o álbum “Seventh Star”, de 1986, que inicialmente seria um álbum solo de Tony Iommi, mas que por critérios comerciais e estratégicos junto à gravadora do Sabbath, precisou ter a estampa mais conhecida e seminal da icônica banda inglesa. Assim, o álbum saiu com o nome “Black Sabatth featuring Tony Iommi”.  Contando com Glenn Hughes nos vocais, o trabalho é excelente e vale uma conferida, mesmo que por vários momentos ele se distancie da pegada mais heavy metal do Sabbath.

Eric se manteve na banda durante a tour subsequente, quando Glenn Hughes foi substituído por Ray Gillen (em função de Glenn encontrar-se às voltas com um vício incontrolável por drogas) e gravou o álbum seguinte, o também muito bom “The Eternal Idol” de 1987, mas resolve seguir com Ray para um projeto junto a Jake E. Lee, recém “saído” da banda de Ozzy Osbourne. Singer pôde ser visto também em 1987 acompanhando Gary Moore ao vivo. Já junto a Jake e Gillen, Eric lança o ótimo debut da banda Badlands, um autointitulado álbum em 1989.  Antes, em 1988 participou como convidado de outra banda iniciante, o Drive, que durou apenas durante este álbum debut.  A participação de Eric Singer no Badlands, vista com entusiasmo, afinal eram três soberbos músicos juntando forças, durou pouco, pois o baterista foi demitido pouco depois da turnê que acompanhou o lançamento do álbum de estreia. Eric havia tocado antes, ainda em 1989, na tour solo de Paul Stanley que durou até abril daquele ano, o que o fez entrar no KISS em dezembro de 1991 e ali ficou até o retorno da formação original, em 1996. Após uma breve passagem em 2001, por entreveros da banda com Peter Criss, em um controverso capítulo no qual Eric Singer começava a usar a maquiagem de Peter, Singer ficou mais algum tempo fora da banda para voltar em definitivo em 2004, ficando até o teórico fim das atividades da banda.

Neste período de idas e vindas no KISS, Eric não parou, tendo sido visto prioritariamente com Alice Cooper no álbum “Brutal Planet” (2000), mas também participando de outros álbuns durante os anos 2000:  “The Eyes of Alice Cooper” (2003) e “Along Came a Spider” (2008).  Outro trabalho digno de menção de Singer é sua contribuição na banda-projeto de Tobias Sammet, o Avantasia. Neste projeto, Eric pode ser conferido em 5 álbuns, entre 2007 e 2010: “Lost in Space (Part 1)”, “Lost in Space (Part 2)”, “The Scarecrow (2008)”, “The Wicked Symphony (2010)” e “Angel of Babylon”). Eric também acompanhou Paul Stanley em seu projeto soul “Now & Then”, que você pode conferir em maiores detalhes aqui, e também gravou com o veterano Ronnie Montrose em 2017, no álbum “10×10”, entre outras diversas aparições.

Em todas essas participações, Eric contribui majoritariamente como baterista associado, mas nunca como o principal protagonista de qualquer dos álbuns. O protagonismo de Eric está apenas em seus trabalhos no ESP (Eric Singer Project), que são basicamente composto de covers de canções clássicas dos gêneros hard e metal. Ele esteve sempre acompanhado de Bruce Kulick e John Corabi, durante as pausas destes dois no Union, entre 1998 e 1999. O outro músico que compõe o projeto, na época, é Karl Cochran.

Karl, John e Bruce se dividem no baixo das gravações neste projeto principal do grupo e apenas Kulick não assumiu os vocais principais. Eric Singer faz alguns dos vocais em “Teenage Nervous Breakdown”, “Goin Blind” e “Twenty Flight Rock” e protagoniza os vocais de “Set Me Free”.  John Corabi canta “Four Day Creep”, “Never Before”, “Free Ride”, “S.O.S (Too Bad)”, “Foxy Lady” e “Won’t Get Fooled Again”. Já Karl Cochran divide os vocais com Corabi em “Goin’ Blind” e “Four Day Creep” e canta “Still Alive & Well” e “Changes”.  No baixo, Karl Cochran está em “Teenage Nervous Breakdown”, já Corabi toca em “Four Day Creep”, “Free Ride”, “Never Before”, “Set Me Free”,“SOS (Too Bad)” e “Foxy Lady”. Bruce Kulick assume a posição nas demais faixas. O álbum conta uma cantora fazendo backings em algumas canções (Roberta Freeman) e a participação de Ace Frehley nos solos de “Foxy Lady”. O piano de “Twenty Flight Rock” foi feito por John Corabi, mas há um tecladista convidado também. As guitarras bases foram essencialmente gravados por todos, exceto Singer, é claro, que obviamente faz todas as linhas de bateria.

E assim a primeira edição em cd do grupo, com as canções acima e mais duas versões em formato “demo”, foi chamada “Lost and Spaced” e foi lançada em 1998:

ÁLBUM: LOST IN SPACED – 1998

  1. “Set Me Free” – 3:57 (Sweet)
  2. “Four Day Creep” – 3:09 (Humble Pie)
  3. “Free Ride” – 3:37 (Edgar Winter Group)
  4. “Still Alive & Well” – 3:32 (Johnny Winter)
  5. “Never Before” – 3:57 (Deep Purple)
  6. “Goin’ Blind” – 3:37 (KISS)
  7. “Teenage Nervous Breakdown” – 4:06 (Little Feat)
  8. “Changes” – 3:35 (The Jimi Hendrix Experience)
  9. “S.O.S. (Too Bad)” – 2:46 (Aerosmith)
  10. “Foxy Lady” – 4:28 (The Jimi Hendrix Experience)
  11. “Twenty Flight Rock” – 2:47 (Eddie Cochran)
  12. “Won’t Get Fooled Again” -6:47 (The Who)
  13. “Snortin’ Whiskey” – 3:31 (versão demo) (Pat Travers)
  14. “We’re An American Band” – 3:30(versão demo) (Grand Funk Railroad)

Lançamento: 1998

Produzido por: Eric Singer Project

O álbum não obteve nenhuma repercussão comercial significativa, aliás, como todos os outros projetos do ESP citados aqui.

Algumas versões de “Lost and Spaced” lançadas em diversas partes do mundo traziam apenas as dez primeiras músicas ou mesmo uma versão sem as últimas canções, que são demo, ou seja, com 12 faixas. O mesmo trabalho foi relançado em 1999 apenas com o nome ESP e com um track list mais enxuto:

ALBUM: ESP – 1999

  1. “Teenage Nervous Breakdown” – 4:06 (Little Feat)
  2. “Four Day Creep” – 3:09 (Humble Pie)
  3. “Free Ride” – 3:37 (Edgar Winter Group)
  4. “Still Alive & Well” – 3:32 (Johnny Winter)
  5. “Never Before” – 3:57 (Deep Purple)
  6. “Goin’ Blind” – 3:37 (KISS)
  7. “Set Me Free” – 3:57 (Sweet)
  8. “Changes” – 3:35 (The Jimi Hendrix Experience)
  9. “Foxy Lady” – 4:28 (The Jimi Hendrix Experience)
  10. “Twenty Flight Rock” – 2:47 (Eddie Cochran)
  11. “Won’t Get Fooled Again” -6:47 (The Who)

Entre 2006 e 2007 o grupo se reuniu novamente, para gravar um álbum e DVD ao vivo, desta trazendo Chuck Garlic no baixo, mas mantendo Kulick na guitarra solo, Eric na bateria e Corabi na maioria dos vocais e guitarra base. Desta vez, o foco das versões voltou-se para músicas do KISS, Mötley Crue, Union e Alice Cooper, mas há espaço para algumas covers dos anos 60 e 70 e uma música da carreira solo de Kulick, “Jump the Shark”. O álbum, intitulado “Live in Japan” foi gravado com as seguintes faixas ao vivo:

ÁLBUM: LIVE IN JAPAN – 2006

  1. “Watchin’ You” – 4:42 (KISS)
  2. “Love (I Don’t Need It Anymore)” – 3:51 (Union)
  3. “Unholy” – 3:33 (KISS)
  4. “Do Your Own Thing” -3:59 (Union)
  5. “Domino” 4:00 (KISS)
  6. “Black Diamond” – 5:24(KISS)
  7. “Oh! Darling” – 4:50 (The Beatles)
  8. “War Machine” – 4:14 (KISS)
  9. “School’s Out” – 4:58 (Alice Cooper)
  10. “I Love It Loud” – 3:32 (KISS)
  11. “Power To The Music” – 5:49 (Mötley Crüe)

Já o DVD foi gravado em Sidney, Austrália, no clube Marquee, com um track list mais extenso, incorporando canções gravadas no cd de 1998 à músicas, por exemplo, do Motörhead:

DVD:  Live at the Marquee – 2006

  1. “Do Your Own Thing” (Union)
  2. “Watchin’ You” (KISS)
  3. “Unholy”  (KISS)
  4. “Love (I Don’t Need It Anymore)” (Union)
  5. “Four Day Creep” (Humble Pie)
  6. “Jungle” (KISS)
  7. “Nothing to Lose” (KISS)
  8. “War Machine” (KISS)
  9. “Jump the Shark” (Bruce Kulick)
  10. “Born to Raise Hell” (Motörhead)
  11. “Free Ride” (Edgar Winter Group)
  12. “Power To The Music” (Mötley Crüe)
  13. “Black Diamond” (KISS)
  14. “We’re an American Band” (Grand Funk Railroad)
  15. “I Love It Loud” (KISS)

Faixas Bônus:  “Domino” (KISS) / ”Smoking in the Boys Room” (Brownsville Station) 

O projeto de Singer, em minha opinião, voltado exclusivamente à covers, acabou se tornando um tanto esgotado, tanto foram os músicos que se enveredaram por este caminho a partir do fim da década de 1990, mas ao mesmo é uma carta certeira, dada a extrema qualidade dos músicos e o criterioso bom gosto na escolha de tantas canções icônicas. O mesmo pode se dizer do DVD ao vivo, que você pode checar abaixo:

Assim, no meu entendimento, o projeto contemplado em “Lost And Spaced”, mesmo com tantos concorrente pela “hype” gerada por projetos covers, é inegavelmente muito bom. São canções espetaculares e muito bem homenageadas por uma banda incrível. Eric Singer se sai muito bem nos vocais de “Set Me Free” e na boa participação dividida com Corabi em “Goin’ Blind”, por exemplo. Na bateria, é o Eric Singer que nos acostumamos a conhecer nos primeiros anos de KISS, um espetáculo à parte, não tenho como não destacar de novo “Set Me Free”.  Bruce está muito bem na desenvoltura por vários solos de timbragem bem distintas destas canções dos anos 70, seja no papel de Ritchie Blackmore em “Never Before” ou mesmo trazendo ótimos adendos em “Free Ride”, por exemplo. A verdade é que Kulick é um instrumentista incrivelmente versátil e se encaixa em qualquer papel.

Já Corabi é quem assume a maioria do vocal, e seu timbre rouco é e sempre será algo infelizmente muito subestimado. Seu talento nunca teve o reconhecimento merecido. Todas as canções são muito bem cantadas, mas posso destacar “Won’t Get Fooled Again”, até com certa dificuldade nesta escolha. A cereja do bolo é o vocal poderoso e carregado de soul de Karl Cochran em músicas como “Changes”. O saudoso músico orbitava o ‘ambiente KISS’ desde que excursionou com Ace Frehley no fim da década de 90 e é ele que divide com Ace a composição de “Into The Void”, do álbum “Psycho Circus”. Karl infelizmente faleceu no ano passado em acidente automobilístico.

O trabalho também conta com a presença valiosa da ótima cantora com acento soul Roberta Freeman, que dá ainda mais brilho em “Free Ride” e Changes”. Apenas em “Never Before” o toque soul modificou a canção ligeiramente, e no meu entendimento não ficou tão bom.  Além dos mais discretos teclados de Nicky Lemmons, responsável, por exemplo, pelo solo em “Never Before”, temos a ilustre presença do eterno Ace Frehley fazendo bonito e deixando a sua marca nos solos de “Foxy Lady”.

O álbum definitivamente vale uma checada, eu destaco “Set Me Free”, que também está em um álbum especial pra mim do Saxon (Crusader) e “Free Ride”, que aparece também na trilha sonora do filme “Dazed And Confused” de 1993 (aqui conhecido como “Jovens, Loucos e Rebeldes”). Aliás, quem não assistiu este despretensioso filme até hoje, não sabe o que está perdendo, pelo menos do ponto de vista musical. Mas eu vou além, o filme é um retrato do universo adolescente americano no meio da década de 70, fugindo dos clichês de uma comédia pastelão ou um romance açucarado juvenil e vale uma conferida. Há apenas uma faixa que honestamente eu não incluiria neste projeto: “Teenage Breakdown” é uma música muito repetitiva.

Já quando o grupo se mostra ao vivo, tanto no cd gravado no Japão, quanto no DVD gravado na Austrália, no clube Marquee (não confundir com o local histórico de Londres), não há qualquer decréscimo na já excelente qualidade mostrada em estúdio. Todos os músicos estão soberbos ao vivo, apenas o foco do material, como já citei, se concentra se reveza em canções dos anos 70, 80 e 90, com destaque para as boas versões de músicas como “Watchin’ You” e “Power To The Music”, ambas volta e meia esquecidas nas discografias de suas bandas originais. É esse material misturado entre as diversas décadas que serviu para os mais de 50 shows que o projeto ESP com Chuck fez durante o fim dos anos 90 e durante a década seguinte, e até 2011. Os shows concentraram-se basicamente na Europa, com passagens no Japão, Austrália e EUA, mas com muito menos datas.

Há, como já citei, um generoso espaço para canções do KISS, entre elas uma versão bem cantada por Eric Singer em “Black Diamond”. Corabi ainda encontra espaço para se arriscar nos difíceis vocais de “Oh! Darling”, dos Beatles, no cd gravado no Japão. Particularmente é nesta faixa que eu considero os solos de Kulick aquém do ele normalmente costuma fazer. E evidentemente Bruce se baseia no seu trabalho ao vivo no KISS para novamente se arriscar em solos originalmente gravados pelos outros que estiveram na banda, seja em “War Machine”, seja em “Black Diamond”, ou em todas as outras. O cd “Live In Japan” até funciona como uma espécie de aperitivo para o DVD “Live At Marquee”, por ser menor, os quase 50 minutos das ótimas 11 faixas selecionadas passam voando. E não há como não destacar a espetacular versão de “Power To The Music”, do subestimado álbum homônimo do Mötley Crue, que fecha o cd.

O DVD “Live At Marquee” mostra o grupo em ação em um local mais intimista e é um desfilar de categoria, em especial nos ótimos solos de Kulick e nas espetaculares linhas de Eric Singer, por exemplo em “Love (I Don’t Need it Anymore) e “Four Day Creep”, que soa espetacular ao vivo, mesmo com as dificuldades de Bruce com a guitarra que falha logo depois do solo. Aliás, os erros e pequenas falhas provavelmente não foram editados, há claramente algumas dificuldades em alguns pontos de vocal não ajustados e um erro de Chuck Garlic quase ao fim de “Black Diamond”, momento no qual Eric ri bastante e se diverte com Garlic. Chuck (conhecido de Eric Singer desde os tempos na banda de Alice Cooper) e Corabi se encarregam da maioria dos vocais, já Eric contribui vez ou outra, por exemplo em “Nothing To Lose”, mas invertendo os papéis originais de vocal, já que os contrapontos de acento soul são feitos pela voz rouca de John Corabi. O trabalho de Singer na música é simplesmente uma aula de bateria, complementada por um pequeno solo ao fim. É uma pena que no DVD não há “I Walk Alone”, do “Carnival Of Souls”, para trazer os vocais de Kulick. No lugar desta, o grupo preferiu tocar, do mesmo o álbum, “Jungle”, com um extenso solo de Bruce no fim, mais uma inequívoca demonstração de inegável categoria do músico. Entendo apenas que o DVD perde um pouco de fôlego entre “Jump The Shark”, música instrumental do segundo álbum solo de Kulick, “Tranformer” e o cover do Motörhead “Born to Raise Hell”.

Dos trabalhos nos quais Eric esteve compondo as fileiras estritamente como baterista, vou destacar o óbvio. É em “Seventh Star” ou “Eternal Idol” e no primeiro álbum do Badlands que eu apostaria minhas fichas iniciais. Álbuns de muita qualidade, assim como é a impecável qualidade como baterista de Singer. É isso, folks. No capítulo acima demos um pequeno apanhado do que Eric Singer fez e vem fazendo fora do KISS. Eric é sempre muito reconhecido pelo seu talento ímpar e tornou-se como percebemos, um músico muito requisitado no meio de sonoridade mais pesada. O músico, incansável, ainda encontrou versatilidade para participar de projetos como o Soul Station de Paul Stanley e uniu-se ao parceiro Bruce para dar vez ao seu projeto que trouxe ótimas versões de clássicos e músicas até esquecidas de vários momentos da sua carreira, mas também do Union junto a John Corabi. No próximo capítulo em formato de apêndice, traremos um pouco do que Tommy Thayer fez fora do KISS.

Até breve!

Alexandre B-side



Categorias:Black Sabbath, Covers / Tributos, Curiosidades, Discografias, Kiss, Mötley Crüe, Resenhas, Saxon, The Beatles

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Minuto HM

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo