Kiss discografia [Apêndice H] – Capítulo 2 – Bruce Kulick – A carreira solo e os outros projetos musicais depois do Union

A guitarist performing on stage, wearing a black leather jacket and a bandana, passionately playing a black electric guitar, with colorful lighting effects in the background.

Na teórica parte final desta discografia KISS que trata do que Bruce Kulick fez fora do KISS, avançando pelos anos 2000 e traçando um panorama que traz em mais detalhes seus álbuns solos, antes vamos pincelar algumas das diversas outras participações do sempre requisitado e bem quisto guitarrista teve. Inicialmente vale citar algumas das diversas participações de Kulick ainda nos anos 1990, uma autêntica prova da versatilidade do guitarrista. Bruce é creditado desde álbuns de artistas menos conhecidos como Shameles, Skull, Blackthorne, Mark Mangold e Boot Camp até outros mais conhecidos como o ex- Rainbow Graham Bonnet.

A partir dos anos 2000, Bruce se divide entre a sua carreira solo, participações em álbuns de artistas como  Bret Michaels (vocalista do Poison), Todd Rundgren, Lordi, Lita Ford e Avantasia, vários vídeos instrucionais de guitarra, participação em tributos a artistas como Queen, Randy Rhoads, Van Halen, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Metallica, Pink Floyd, Led Zeppelin e até Michael Jackson, além de, obviamente, ter participado não só de tributos ao KISS, mas também estar presente nas aventuras fora do KISS de Eric Carr ,Gene Simmons, Paul Stanley, Ace Frehley e no projeto ESP, de Eric Singer, que será melhor detalhado no próximo capítulo em formato apêndice desta discografia. E como se não bastasse, ainda gravou junto do irmão Bob o DVD KISS Forever, detalhando várias das gravações de guitarra que ambos fizeram no KISS. A partir de 2002 Bruce voltou também a participar como integrante de um grupo, entrando no lugar de Mark Farner no Grand Funk Railroad, sendo figura constante nos shows desta banda até sua saída em janeiro de 2024, quando alegou querer reduzir sua agenda na estrada.

A group of five men posing together, wearing stylish outfits and smiling, with a colorful backdrop.

Não há nenhum registro fonográfico de canções inéditas no Grand Funk Railroad no período em que Kulick lá esteve. O que há de mais consistente em lançamentos por Kulick são exatamente seus álbuns solo, a partir de 2001, quando o Union se preparava para anunciar o seu encerramento de atividades. Para o lançamento de seu primeiro álbum solo, Bruce contou com a parceria nas composições e produção de Curt Cuomo, com quem havia trabalhado no KISS e no Union.

A musician wearing a black bandana and sunglasses, playing an electric guitar.

Brent Fitz, o baterista do Union, também esteve presente em quase todas faixas, exceto por “Dogs of Morrison” e “Skydome”, que fecham o álbum com a bateria de Kenny Aronoff.  O nome do cd foi escolhido pela presença do cachorro de Bruce estar sempre presente no estúdio caseiro onde o álbum foi gravado. Em 2012 Bruce relançou o álbum em tiragem limitada, e incluiu duas faixas, “495” e “Bruce Sings To Joe”. Joe era o nome do cachorro de Bruce e havia falecido na ocasião.

ÁLBUM: AUDIODOG – 2001

Album cover featuring a stylized illustration of a man's face with long hair adorned with various music symbols and instruments, including electric guitars, alongside the text 'Bruce Kulick' and 'Audiodog'.

01. Pair Of Dice (3:23)
02. Strange To Me (4:37)
03. Change Is Coming (4:57)
04. Need Me (3:25)
05. I Don’t Mind (4:14)
06. Monster Island (3:47)
07. Please Don’t Wait (3:31)
08. Liar (4:16)
09. I Can’t Take It (3:14)
10. Dogs Of Morrison (3:46)
11. Skydome (5:18)

Lançado em: 23/10/2001

Produzido por: Bruce Kulick e Curt Cuomo

Cerca de três anos depois de “Audiodog”, Bruce lançou o seu segundo álbum solo, intitulado “Transformer”. Novamente Bruce contou com Curt Cuomo e o baterista Brent Fitz para auxiliá-lo. Em apenas uma faixa ele também contou com Tim Cashion nos teclados. Tim tocava com Kulick no Grand Funk Railroad. Bruce, assim como no seu primeiro álbum solo, toca todas as guitarras e baixo, além de quase todos os vocais, se arriscando também no Dulcimer (espécie de violão folk) e do Bandolim. John Corabi faz uma participação pra lá de especial em uma canção, “Its Just My Life”.

ÁLBUM: TRANSFORMER (2004)

Album cover featuring Bruce Kulick performing with a guitar, set against a dramatic backdrop of lightning and power lines, with the text 'BRUCE KULICK TRANSFORMER' prominently displayed.

01 Jump The Shark – (2:51)
02 I Can’t Breathe -(4:10)
03 If Love’s The Answer -(4:17)
04 Crazy – (3:23)
05 All That I Need – (3:24)
06 Don’t Tell Me Something -(4:38)
07 Inn Of The Mountain Gods -(5:33)
08 It’s Just My Life – (4:49)
09 Do It Right- (4:50)
10 Beautiful To Me – (4:26)
11 Truth Or Dare – (5:32)
12 Against The Grain – (3:28)

Lançado em: 20/07/2004

Produzido por: Bruce Kulick, Curt Cuomo e Stephan Hanuman

Por fim, até o momento em que este post está sendo escrito, em 2010, ou seja, mais de 5 anos após “Transformer”, Bruce lançou o seu derradeiro álbum solo, simplesmente chamado de BK3 (obviamente, uma abreviação para Bruce Kulick 3). Desta vez, Kulick resolveu mudar bastante o formato das composições, buscando mais intensamente participações de nomes como Gene Simmons e seu filho Nick, além de Kevin Churko, John Corabi, Dan Lavery e Tobias Sammet. Além disso, estão presentes como convidados vários vocalistas que se revezam em várias faixas, normalmente contribuindo nas faixas que foram também coautores. Gene Simmons, Nick Simmons, John Corabi, Tobias Sammet e Doug Fieger (que também toca percussão) estão cada um contribuindo em uma das faixas, tirando boa parte do papel de Bruce nos vocais. Kulick se concentra em todas as guitarras, canta em 5 das faixas, toca baixo em apenas 4 das 12 canções, além de produzir um arranjo de cordas na faixa “Ain’t Gonna Die” e alguns backings.

Para BK3 o produtor Jeremy Rubolino ajuda no baixo das outras músicas, além de backings, teclados, piano, arranjo de cordas e até um violão na faixa “No Friend of Mine”. O terceiro álbum de Kulick ainda conta com a presença de Steve Lukather do Toto em uma das guitarras, o amigo do tempo do Blackjack Jimmy Haslip em um dos baixos do álbum e mais dois bateristas, além do sempre presente Brent Fitz. Kenny Aronoff repete a participação em uma faixa e o amigo de KISS Eric Singer participa em “I’m The Animal”.

ÁLBUM: BK3 – (2010)

Album cover featuring Bruce Kulick holding an electric guitar, wearing sunglasses and a red jacket, with an artistic, textured background.

01.Fate (3:31)

02.Ain’t Gonna Die (4:11)

03. No Friend Of Mine (4:08)

04. Hand of the King (4:55)

05. I’ll Survive (4:47)

06. Dirty Girl (3:59)

07. Final Mile (4:13)

08. I’m The Animal (4:42)

09. And I Know (3:16)

10. Between The Lines (3:54)

11. Life (4:32) 

Faixas bônus: Skydome/ Love and Desire/ Ain’t Gonna Die (mixagem alternativa)

Lançado em 02/02/2010

Produzido por Bruce Kulick e Jeremy Rubolino

E como se virou Bruce em seus trabalhos solos? Bem, a começar pelo seu primeiro álbum, Kulick resolveu fazer uma mistura de cerca de 1/3 de álbum com faixas de “approach” instrumental com 2/3 de músicas cantadas. Nenhum dos três trabalhos solos de Bruce Kulick obteve qualquer repercussão comercial significativa, ressaltemos, muito provavelmente eles foram adquiridos por uma maioria de fãs do KISS, mas Bruce saiu-se melhor comercialmente no seu último álbum. Para “Audiodog”, Bruce ainda resolveu testar o mercado, lançando um hoje raro Ep com apenas três das faixas, ainda em 2001, em versão limitada.

Cartoon illustration of a dog with glasses and a red guitar, posing rockstar-style, featuring the text 'BRUCE KULICK' and 'AUDIODOG'.

Avaliando o primeiro álbum na íntegra, ele abre com uma das instrumentais, “Pair of Dice”, que inevitavelmente lembra as faixas instrumentais de Joe Satriani, sem a novidade que esse virtuoso guitarrista trouxe nos anos 80 e 90. Na sequência, porém, há um bom punhado de boas composições com tom mais sombrio com Kulick nos vocais. Ainda que o músico tenha uma certa limitação perceptível em seus vocais, neste primeiro álbum a sua dedicação em buscar boas melodias dentro do encaixe da sua voz traz um bom resultado. Entre a 2ª faixa (“Strange To Me”) e a 5ª (uma balada mais pesada chamada “I Don’t Mind”), Bruce até surpreende no resultado final. A partir de “Please Don’t Wait” que aposta em uma pegada mais ensolarada, acessível, o trabalho perde um pouco da força. Outra faixa que não acrescenta, por exemplo, é “I Can’t Take”, apostando também em um cunho mais pop rock. O refrão ainda se salva, mas as estrofes não ajudam. Há, além de mediana faixa de abertura, outras 3 canções instrumentais. Entre elas a climática “Liar” se destaca, com bons solos por cima de uma harmonia bem densas, mas também “Skydome” até traz seus bons momentos. A faixa bônus “495” foi injustamente relegada a este posto, pois deveria estar no repertório principal do álbum. Trata-se de outra faixa instrumental, bem acelerada e com qualidade para substituir, por exemplo, a mais óbvia “Monster Island”, ainda que esta tem bons solos e um competente Brent Fitz carregando peso nos pratos e toms. O álbum tem um resultado bastante aceitável em seu todo, com Kulick lidando muito bem com as suas limitações vocais e buscando entregar boas composições, mas não pode ser considerado algo além de uma interessante experiência sonora, que está em alguns degraus abaixo, por exemplo, do seu trabalho junto ao grupo Union.

O segundo álbum de Bruce também aposta em faixas cantadas, e igualmente tem 4 músicas instrumentais, entre elas a abertura com “Jump The Shark” e também “Inn of the Mountain Gods,”. Ambas também seguem a linha alegre que me lembra imediatamente “Summer Song” de Joe Satriani. As outras 2 faixas instrumentais até sobressaem pelo uso de instrumentos que a levam para um approach próximo ao country (Dulcimer/Bandolim). “Do It Right” e principalmente “Against The Grain”, mais acústica, até funcionam, embora muito mais pela diversidade dentro do álbum do que propriamente pela qualidade em si das canções. E definitivamente, o “calo” deste álbum são os vocais. O álbum carece de mais expressão vocal. Ainda que Kulick não comprometa nos vocais, percebe-se claramente que ele não está tão à vontade assim no papel neste segundo álbum. Outro fato bem curioso é que suas composições neste álbum solo não trazem um fator mais sombrio que foi desenvolvido por exemplo, no álbum “Carnival Of Souls”, no qual ele teve um papel preponderante como coautor da grande maioria das faixas. Das faixas cantadas, “If Love’s The Answer” e “Crazy” se destacam. O destaque principal é “Its Just My Life”, talvez a única faixa mais agressiva do álbum e que traz os soberbos vocais de John Corabi. O álbum tem alguns pontos bem descartáveis, como a pouca inspirada “All That I Need” e peca também pela quantidade de faixas que não saem de um ponto mediano, o que acarreta em certo cansaço. Definitivamente poderia ser muito menor, cerca de metade do álbum sobressai em relação à igual quantidade de faixas sem brilho e está abaixo do álbum de estreia de Kulick.

Já em BK3, o que chama de imediato à atenção de todos é a participação bem generosa de vários artistas, certamente uma necessidade de Kulick em rechear seu álbum de forma a despertar uma maior repercussão para si. Bruce repetiu a estratégia feita em “Audiodog”, ao lançar uma versão limitada com apenas três faixas de forma antecipada, em 2009 em formato de Ep e com capa alternativa.

Logo of Bruce Kulick featuring the text 'BK3' and a red star on a black and red background.

Avaliando o álbum na íntegra, há uma mudança no conceito de composições, pois desta vez Bruce, ao contar com a presença maior de participações (em especial nos vocais), quase não deixou espaço para as canções instrumentais. Em BK3 há apenas uma faixa sem voz, “Between The Lines”, música na qual Kulick divide os solos e linhas melódicas tocadas nas guitarras com Steve Lukater, do Toto. É uma faixa apenas interessante, nada demais. Já nas demais faixas, comercialmente “Dirty Girl” sobressaiu-se ao ser eleita a 29º lugar entre as melhores canções do ano de 2010, mas tal fato pode ter ocorrido por a mesma ter sido cantada pelo vocalista do The Knack Doug Fielder, que infelizmente faleceu ainda em 2010. Doug e sua banda ficaram muito conhecidos pela música “My Sharona” de 1979, e a faixa que está presente neste “BK3” segue a linha acessível e pop rock do que Fielder fez em sua carreira. Uma boa música no álbum, sem dúvida. As demais participações vocais carregam também uma marca de cada um deles, e assim o álbum acaba ficando mais diversificado. Gene Simmons canta “Ain’t Gonna Die”, que lembra um pouco o estilo de “Within”, faixa pesada do “Psycho Circus”. Nesta se destaca o fim mais viajante e a ótima linha de bateria de Brent Fitz.  Já em “No Friend Of Mine” John Corabi contrasta boas estrofes calmas com um refrão crescente, mas um tanto óbvio. A faixa não compromete, mas não empolga também. Novamente temos uma faixa pesada e também cadenciada na participação do fiho do linguarudo do KISS. Nick Simmons traz uma voz bem parecida com o pai, mas a faixa em questão, “Hand of the King” é outra não tão inspirada, embora a presença do baixo protagonizando as estrofes se destaque junto ao peso da música.  Bruce até se sai bem cantando faixas mais lentas, como a balada viajante “I’ll Survive” ou a outra boa canção lenta que fecha o álbum, “Life”.  O álbum perde um pouco o ritmo do meio para o fim, antes desta última música o que corrobora o fato de que uma das faixas bônus, “Love and Desire” deveria estar no repertório principal. A música tem uma influência inegável de Beatles na fase psicodélica, com uso de efeito rotary speaker nas guitarras e uma ótima orquestração, talvez seja a melhor faixa de todas. Em resumo, acredito que Bruce tenha acertado mais do que errado em “BK3” e o resultado final é pelo menos uma considerável melhoria em relação a “Transformer”.  

A musician wearing a black leather jacket and a bandana, playing an electric guitar on stage with a microphone in front of him. Amplifiers are visible in the background, and stage lights are illuminating the scene.

Em 2008, entre os seus vários projetos solos e shows, Bruce deu forma a uma das suas primeiras aventuras, em um projeto totalmente saudosista. Ele havia participado de vários grupos durante seu aprendizado como guitarrista e um deles foi originado nas influências que compartilhou com uma dupla de amadores como ele. O trio tinha em comum o gosto por bandas e artistas como Cream, Jimi Hendrix, The Beatles, Led Zeppelin, Yes, The Who.

Era o início da década de 70, e, em um local chamado Jackson Heights, na área de Queens, Nova York, Kulick conheceu Mike Katz, um baixista que era um grande fã de Jack Bruce e que já tinha algum material original em desenvolvimento. Katz era um baixista era bastante criativo e até tinha também uma vertente mais progressiva, na verdade. Ao conhecerem o baterista Guy Bois, acabaram por formar um power trio que pretendia ser uma espécie mistura de Cream e Yes. O trio nunca teve um nome oficial, mas acabou gravando algumas músicas no Sudden Rush, em Nova York, em 13 de setembro de 1974.

Eles concentraram-se em tocar aquelas músicas, já redesenhadas com as ideias de Kulick e Bois, mas aquele grupo nunca chegou a fazer shows, embora tivessem ensaiado bastante. Em 2008, Bruce, mexendo em suas coisas, acabou ouvindo uma fita com essas gravações do trio, feita em um estúdio local chamado Sudden Rush. Bruce avisou Katz e Bois e transferiu a fita para um formato digital. Após uma limpeza das faixas, lançou o CD “KBB – 1974” ainda naquele ano, em formato limitado, tendo esgotado rapidamente.

ÁLBUM – KKB 1974 – KKB -2008

Album cover for KKB featuring a circular emblem with intricately designed motifs and the text 'KKB' at the top.


01  I’ll Never Take You Back – (4:00)
02  My Baby – (4:31)
03  You’ve Got A Hold On Me – (4:04)
04  Tryin’ To Find A Way – (4:31)
05 Someday – (2:06)
06  You Won’t Be There – (5:44)
07  To Be Free – (3:00)
08  You Won’t Be There (take alternativo) – (8:11)

Em 2013 Mike encontrou as fitas originais da sessão e Bruce, usando estas ‘masters’, teve a oportunidade de remixar e remasterizar as canções mais uma vez, produzindo algo com ainda melhor qualidade. Além disso, a dupla resolveu criar uma nova música para o KKB, 40 anos após sua gênese.

O trio, portanto, acabou por compor e gravar uma nova música, “Got To Get Back”, que deu nome à nova reedição, com um retorno total ao seu som vintage. Cada membro da banda gravou suas partes em um estúdio local: Guy em Paris (Midilive Paris com o engenheiro de som Jerome Frulin), Mike em Nova York (no Muscle Money Music, com o engenheiro de som Edgar Moreno) e Bruce em Los Angeles, no Stage Street Studios, com o engenheiro de som Brian Virtue. O álbum foi produzido por Jeremy Rubolino, que também rearranjou a canção “Someday”, adicionando um quarteto de cordas. Apenas a última faixa do álbum de 2008 “To Be Free” e o take alternativo de “You Won’t Be There” não foram incluídos na versão mais recente do trabalho do trio.

ÁLBUM: GOT TO GET BACK – KKB – 2015

Album cover for KKB's 'Got to Get Back', featuring a vintage design with a warm, orange color scheme and images of musicians and recording equipment.


01  Got To Get Back (3:39)
02  I’ll Never Take You Back – (3:59)
03  My Baby – (4:31)
04  Someday – (2:06)
05 Tryin’ To Find A Way – (4:29)
06  You Won’t Be There – (5:41)
07  You’ve Got A Hold On Me – (4:04)

O material do KKB, no meu entendimento, traz um retrato de uma era carregada do ‘flower power’ e da psicodelia do fim dos anos 60, mas também aposta em uma liberdade instrumental baseada no entusiasmo do grupo. Comercialmente talvez estivesse um pouco atrasado no tempo, pois remete muito mais ao som dos anos 60 do que algum virtuosismo que nos remetesse ao progressivo dos anos 70. O material, porém, transborda em energia, com um belo vocal de Katz, calcado em cantores que trazem um vibrato clássico dos anos sessenta, como o de Rod Evans na primeira formação do Deep Purple ou mesmo de Tom Jones, com predominância dos tons mais graves e poderosos. Katz também é muito seguro no baixo, carregando a influência de mestres da época, além de Jack Bruce há uma perceptível influência de John Entwistle do The Who ou Chris Squire, do Yes, para citar alguns dos nomes da época.

O baterista Bois é muito competente em acompanhar os tempos intricados dos riffs desenvolvidos por Kulick e Katz. Algumas das canções buscam este desenvolvimento na livre escolha de criar harmonias em compassos inusitados, como 7/8 ou 5/4. O resultado final é mais baseado no som do Cream, com Kulick caprichando no wah-wah e riffs em uníssono com o baixo de Katz. Entre as canções, a balada “Someday” se destacou na versão com orquestração e “You Won’t Be There” pode ser considerada ligeiramente acima das demais, porém é importante ressaltar que a energia do trio faz com que todo o material seja interessante, desde que considerado o tipo de som que eles buscavam.

A nova canção da versão de 2015 do projeto, a boa “Got To Get Back”, tenta se encaixar com sucesso à sonoridade original, apenas se percebe um pouco mais de modulações nas guitarras de Bruce. O trabalho do KKB é bem legal de conhecer, não só por mostrar o início da construção musical do guitarrista do KISS, mas também por mostrar o seu reconhecimento e boa convivência com aqueles que o ajudaram a construir aquele seu momento mais embrionário.

Antes de fechar este capítulo, é preciso destacar que Bruce tem feito desde o fim do Union, em paralelo com o seu papel no Grand Funk Railroad, muitos shows trazendo um repertório baseado na fase dos anos 80 e 90 do KISS. Até o fim de 2016, Kulick já havia rodado o mundo tocando com bandas locais o repertório do KISS, muita das vezes executando as faixas clássicas dos anos 70. Ele esteve no Brasil para quase dez shows entre 2011 e 2016, inclusive o Minuto Hm esteve em um deles.

A partir do momento em que se viu participando mais intensamente de eventos como Kiss Kruises e também tocando com outros ex-membros do KISS, como Peter Criss, Ace Frehley e até Vinnie Vincent, Bruce montou uma senhora banda, com Todd Kerns nos vocais e guitarra base, Zach Throne no baixo e vocais e o sempre constante Brent Fitz na bateria. Tal projeto teria tomado forma a partir de 2017, com a participação junto do irmão Bob no KISS KRUISE 7. Nos shows junto ao KISS nos KRUISES, Bruce foi sempre convidado a participar de uma ou outra canção junto do grupo, mostrando que além da incrível versatilidade e competência, Kulick sempre manteve uma relação bastante saudável com todos que cercam o KISS.

Three musicians performing on stage, each playing electric guitars under vibrant stage lighting.

E desde 2018, com Zach Throne do lugar de Todd Kerns (que passou do baixo para a guitarra base), o que se percebe nos shows de Bruce são faixas de qualquer período, mas principalmente da fase sem máscara, e várias canções bem obscuras, em especial dos álbuns em que ele tocou, de “Asylum” até “Carnival Of Souls”. A banda, no entanto, é capaz de tocar com igual categoria faixas como “Exciter”, do álbum “Lick It Up” ou “The Oath”, do “Music From: The Elder”, por exemplo. Para o fã mais interessado em ouvir canções menos óbvias, nada melhor. Há shows na íntegra na internet, para quem quiser verificar. Eu aconselho, são ótimas pedidas, invariavelmente.  Outra dica muito legal é navegar no canal oficial de Bruce no YouTube. São vários vídeos muito interessantes, nos quais ele desvenda alguns dos momentos no KISS, em relação às músicas, instrumentos ou outras particularidades. Basta acessar o canal.

Infelizmente as últimas notícias de Bruce são mais preocupantes, pois o guitarrista recentemente fez uma operação ‘de peito aberto’ para tentar melhor sua condição cardíaca. Espera-se que Kulick tenha uma ótima recuperação e que esteja apto a voltar a fazer o que sempre fez de melhor e com tanto profissionalismo. Uma carreira incrível, voltada ao seu principal instrumento e sempre muito contribuidor nas composições, nos solos e no ótimo relacionamento com músicos e fãs.

No próximo apêndice desta discografia, vamos traçar um pouco de um outro muito reconhecido músico fez fora do KISS. Até qualquer hora!

Alexandre B-side



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