
Dando sequência aos apêndices da discografia KISS que estão mostrando o que os membros e ex-membros do conjunto fizeram fora da banda, neste único provável capítulo do apêndice G traremos alguns poucos trabalhos que Mark St John, talvez o mais exímio músico que tenha passado no KISS, fez. Antes do KISS, Mark era um bem considerado professor de guitarra no sudoeste da Califórnia e suas habilidades chamaram a atenção de Grover Jackson, um luthier que na ocasião já era o dono das marcas de guitarras Jackson e Charvel. A Jackson tinha entre seus endorsers nomes como Randy Rhoads, VInnie Vincent, Jake E. Lee, Warren DeMartini, entre muitos outros. Foi assim que Mark fez a audição para substituir Vincent no KISS, em 1984. A breve passagem na banda, que durou menos de 1 ano, fez com que o nome de Mark St John estivesse nos holofotes, afinal seus solos foram muito elogiados e o álbum “Animalize” atingiu vendas de platina para o KISS. Aproveitando o momento, Mark se junta a David Donato que havia testado para o Black Sabbath após a saída de Ian Gillan em 1983. Pouco se sabe da passagem de David como vocalista do Sabbath, apenas circulou uma demo com ensaios entre ele e os três membros originais do grupo, produzido por Bob Ezrin.
O grupo White Tiger surgiu, portanto, em 1985 e tinha além de Mark e David, Michael Norton, irmão de St John, no baixo e o baterista Brian James Fox. O conjunto buscava a sonoridade de sucesso da época, o hard carregado de influência californiana, o conhecido ‘hair-metal’ e lança seu único álbum oficial em 1986, de título homônimo, após assinar com o selo E.M.C Records.
ÁLBUM: WHITE TIGER

Lado A
- “Rock Warriors” – 5:28
- “Love/Hate” – 5:51
- “Bad Time Coming” – 6:01
- “Runaway” – 5:00
Lado B
- “Still Standing Strong” – 5:26
- “Live To Rock” – 4:09
- “Northern Wind” – 5:13
- “Stand And Deliver” – 4:38
- “White Hot Desire” – 4:36
Lançado em 1986
Produção executiva: Eddie Coralnick e Gordon Davis.
Engenheiro de som: Lester Claypool
O álbum não teve muita repercussão, pois o fato de Mark e Donato estarem em uma gravadora menor atrapalhou bastante qualquer tentativa de atingir o sucesso, mas o grupo o divulgou excursionando muito pouco e basicamente na costa oeste americana até 1987, quando tentou de forma infrutífera preparar um segundo álbum, na época chamado ”On The Prowl“, para qual sete canções já haviam sido finalizadas. Alem do único álbum lançado oficialmente, quase mais nada se encontra da banda, mesmo de forma rudimentar, na internet. Com alguma pesquisa, é possível encontrar materiais muito incipientes de ensaios ou mesmo de shows, em áudio ou vídeo, mas é isso.

O álbum foi relançado em cd, 1999, acrescido de uma nova remixagem para “Rock Warriors” no seu fim. Há também uma versão não oficial russa de 2023 que incluiu 5 faixas de um material demo de 1988, portanto do segundo álbum que acabou não acontecendo.
Dentro deste único álbum do “White Tiger” a faixa de abertura, a já citada “Rock Warriors”, se destaca, pois tem estrofes e um refrão bem fortes. Não é um primor de criatividade, mas cumpre seu papel. “Runaway” tem um bom trabalho de guitarra base calcado nas palhetadas desenvolvidas nos anos 80. A música tem um bom trabalho de bateria, uma mudança na dinâmica no meio da canção e talvez o melhor solo do álbum, pois está bem captado e transparente. Os demais solos do álbum, infelizmente, mostram um Mark St John muito mais preocupado em soar rápido, abrindo mão de uma melhor definição nas notas. E as canções seguem o padrão californiano, sem muita inovação, mas talvez se um single emplacasse, a história poderia ser outra.
Há uma considerável diferença entre o que Mark nos deixou no “Animalize” e o que está no “White Tiger”, pois os solos no álbum do KISS, sem deixar o virtuosismo de lado, tem construções melhores, início, meio, fim bem desenvolvidos, certamente por ter um apoio da produção que olhou para esta importante nuance. Os solos neste debut do White Tiger parecem perdidos no meio da mixagem, todos apostam em tappings e rapidez nas escalas, acabaram se parecendo muito um com os outros. O álbum é um reflexo da época, algumas ideias até interessantes, dentro de uma necessidade clara de mostrar a habilidade e virtuosismo de Mark St John. A produção executiva não ajuda, não bastou ter o engenheiro Lester Claypool, baixista do Primus, na mixagem. Na verdade, se a banda tivesse um melhor vocalista, eu acredito que o disco teria maior chance, ainda que eu venha a entender que o gerenciamento de carreira de Mark St John sempre foi um dos seus piores calos.
Após o fracasso do White Tiger, em meados de 1990 Mark St John acaba por se associar de maneira bastante surpreendente a Peter Criss, talvez em uma estratégia de juntarem seus nomes para um novo projeto musical. Ambos, juntos de Michael McDonald (que algumas fontes citam ser David Donato utilizando um pseudônimo), do guitarista Kevin Russel e do baixista Joey Mudarri fundam o grupo Keep. Após duas trocas de baixista e a manutenção apenas de Mark St John nas guitarras, o Keep acaba se tornando uma espécie de White Tiger com Peter Criss na bateria, uma vez que o irmão de Mark, Michael retorna para o baixo. O projeto pouco dura, pois não encontra um selo para viabilizá-lo. Novamente, o que se sabe da improvável junção de dois dos menos funcionais membros do KISS fica restrito à um material de pouca qualidade na internet, e que Mark e Peter só estiveram juntos no palco para uma clínica de bateria, tocando apenas uma canção instrumental, com Michael Norton no baixo. Há alguma controvérsia sobre o vocalista do projeto ser realmente David Donato, pois algumas demos encontradas na internet mostram alguém com mais extensão e um timbre até bem interessante.
De qualquer maneira, Peter Criss resolveu partir para outro projeto, a banda disfarçada de carreira solo chamada CRISS, cujos detalhes já trouxemos nesta discografia, que contém a participação do vocalista chamado Phil Naro em duas canções. Phil havia participado do projeto que uniu Mark St John a Peter Criss por indicação de Eddie Kramer, e acaba participando do segundo projeto de St John, como veremos a seguir.Antes disso, porém, Mark St. John participou, fora do White Tiger, de outros trabalhos, como por exemplo ser o session player de álbuns de Stevie Wonder e David Hasselhoff, cujo videoclipe de Is Everybody Happy de 1989, traz Mark nas filmagens.
Em 1998, St. John tentou reformar o White Tiger, sem sucesso. Em seguida Mark resolveu embarcar em um projeto solo, fazendo inicialmente um EP chamado Mark St John Project, contando com Stan Miczek no baixo, Roger Banks na bateria e Phil Naro nos vocais, além dos teclados de Chris Sevdalis em uma das faixas. Com 5 faixas, este Ep sai em 1999.
EP MARK ST JOHN PROJECT

Lançado em 1999
Produzido por: Mark St John e Phil Naro
1 – AWOL – 4:40
2 – Between The Lines – 4:30
3 – Love For Sale – 3:50
4 – No I’m Not Afraid – 4:20
5 – Baghdad – 3:30
O Ep de Mark em 1999 é sem dúvida o seu melhor trabalho, até por que, por ser curto, não tem tempo para alguma enrolação, mas ele seria muito melhor se apostasse apenas em faixas cantadas pelo bom vocalista Phil Naro. Infelizmente, “Mark St John Project” resolve apostar na mescla de três boas canções oriundas de seu período pós White Tiger com duas faixas instrumentais. “Between The Lines” e “Love For Sale” foram escritas com Peter Criss e “No, I’m Not Afraid” tem, além de Peter, a coautoria de Phil Naro, muito melhor vocalista que David Donato. Além de cantar melhor, Phil ajuda Mark na produção, e, ambos, mais experientes, trazem uma sonoridade com mais dinâmica e com ótimos solos que não são apenas uma demonstração de quão rápido St John pode ser. Qualquer uma dessas três canções teria potencial nas rádios. “Between The Lines” é uma canção mid-tempo com início lento. “Love For Sale” aposta nos refrões fortes. “No, I’m Not Afraid” é uma balada bem composta com violões e piano. As instrumentais que abrem e fecham o álbum, embora competentes e bem diferentes entre si, estão completamente deslocadas das faixas cantadas e cairiam muito bem em um álbum de Greg Howe ou Vinnie Moore. É preciso entender que a época dos representantes do movimento “shred guitar” lançarem álbuns instrumentais tinha passado do tempo há mais de 10 anos, em 1999 não fazia qualquer sentido apostar no formato.
O EP não decola, na sequência St John resolve fazer um álbum totalmente instrumental chamado “Magic Bullet Theory” (2003), repetindo 3 das faixas que haviam sido lançadas no EP, entre elas “Between The Lines” em versão instrumental, além de mais 7 novas faixas. E nessa época que ele também fez aparição em convenções de fãs do Kiss.
ÁLBUM: – MAGIC BULLET THEORY

Lançado em 2003
Produtor: Mark St John
1-AWOL – 4:40
2-Magic Bullet Theory – 4:38
3-Bourbon Street – 2:01
4-Slave Driver – 3:31
5- Utopian Trip – 4:45
6- Communicator – 4:02
7- Baghdad – 3:35
8- Wait No More – 4:35
9-Between The Lines – 4:27
10-The Lone Gunman – 6:13
Para o seu último trabalho conhecido, Mark traz o irmão Michael Norton para o baixo e conta apenas com um outro músico, Dave Goode, na bateria. Mark se encarrega dos violões, guitarras, bandolins e banjos que estão no trabalho. Se a inclusão de 2 faixas voltadas aos apreciadores do virtuosismo extremo das guitarras no Ep talvez tenha se provado uma decisão já não muito acertada, o que dizer de um álbum ainda mais deslocado no tempo e muito dedicado ao shred guitar, em pleno 2003? “Magic Bullet Theory” repete os erros de mixagem e exageros guitarrísticos do álbum do White Tiger, 17 anos depois. Em 2025, foi lançada uma versão extraoficial do álbum, contendo mais uma canção (“Waiting For a Call”, com pouco mais de 1 minutos de exibição de Mark ao violão) e as canções do Ep de 1999 no fim dele.
O único ponto favorável de “Magic Bullet Theory” é que, mesmo instrumental, ele procura mesclar os momentos de pura debulhação guitarrística com faixas também trabalhadas em outros instrumentos, como a inserção de violões em “Utopian Trip” e a já conhecida “Baghdad”. E nesta variação, “Bourbon Street” é a melhor surpresa do álbum, um tema jazzístico de raiz muito bem tocado por Mark, seu irmão Michael e o baterista Dave. Ainda assim, em geral este último projeto de Mark é um disco muito calcado na velocidade extrema das guitarras, no qual destaco a abertura conhecida em “AWOL” e a faixa mais técnica, “Wait No More“, com tempos intricados. E cerca de metade do álbum não se livra do mais datado e óbvio do estilo shred, como em “Communicator”, na faixa-título ou na última faixa, “The Lone Gunman”, que além de não trazer nenhuma novidade, ainda é maior do trabalho, cansando ainda mais qualquer ouvinte. Antes dessa, ainda há o que eu considero uma versão equivocada de “Between The Lines”, uma sombra daquela cantada que saiu no Ep de 1999, embora eu reconheça que é nessa que encontramos talvez o melhor solo do álbum, incluído no final dela. A triste conclusão deste álbum é que ele é um claro exemplo que nem sempre um inegável e absurdo talento vem acompanhado das melhores decisões.
Durante os últimos anos da vida, voltou a lecionar guitarra em Los Angeles, EUA. Em 2006, foi preso por posse de drogas não especificadas. O guitarrista resistiu à prisão e negou as acusações, declarando ser uma armação devido a uma denúncia realizada a um traficante. Mesmo assim, ficou detido durante vários dias no condado de Orange, na Califórnia, EUA. De acordo com o relatório médico, Mark St. John morreu aos 51 anos no dia 14 de abril de 2007 por hemorragia cerebral, provocada por overdose de metanfetaminas. Contudo, a namorada do guitarrista na época, que afirmou estar com ele na noite anterior ao seu falecimento, negou o consumo de drogas. Para ela, um espancamento enquanto Mark esteve na prisão por cerca de 20 presos foi a causa da morte. St. John sobreviveu ao espancamento, mas saiu da prisão irreconhecível e com a saúde em péssimas condições, com fortes dores de cabeça e no corpo, ocasionadas pelas agressões e nunca se recuperou até o seu último dia de vida.

Mark demonstrou, infelizmente, que o seu inegável talento talvez precisasse ser acompanhado por melhores decisões. Os envolvimentos com drogas, o tempo desperdiçado em projetos que não tinham como decolar e mesmo a escolha de músicos que não iriam lhe acrescentar não o fizeram mostrar sequer uma mínima parte do que poderíamos conhecer. Uma pena mesmo. Melhor é, portanto, guardar as boas memórias dos ótimos solos no álbum “Animalize” e algumas faixas posteriores, em especial as boas faixas cantadas do Ep de 1999. Os apêndices desta discografia devem seguir em outra guinada, desta vez contando o caminho de músicos que atuaram de maneira exemplar como hired guns no KISS. Basta aguardar.

Até qualquer momento!
Alexandre B-side
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