Discografia Iron Maiden – Episódio 03: 1981 – o ano de Killers

Iron Maiden – Discografia Comentada

Episódio 03: 1981 – O ano de Killers

“Ei, você sabia que a capa do Killers tem três gatos?!”

No capítulo anterior (que você poder ler aqui), acompanhamos a banda com seu primeiro álbum homônimo, Iron Maiden. Um segundo álbum era questão de tempo. Muitas outras músicas já tinham sido escritas por Steve Harris com o passar dos primeiros anos e, com as turnês ainda em alta no fim de 1980, o gás dos garotos continuava a todo vapor. O ano de 1981 não só aguardava por esse novo desafio como também colocaria a banda à prova de turbulências às críticas da mídia à época.

Martin Birch

Se havia uma coisa que Steve Harris não gostaria mais, era a de ter que trabalhar novamente com um engenheiro de som enquanto o produtor ficava com os pés para o alto em uma cadeira lendo uma revista de algum outro estilo musical. Will Malone, que produzira Iron Maiden, não agradara em nada com sua forma de trabalho e Steve estava decidido que o produtor do próximo álbum não viria de uma indicação, mas sim por uma escolha da própria Donzela – era preciso competência profissional por detrás da mesa de som.

Steve Harris tinha esse nome desde antes da produção de Iron Maiden, mas não chegou a dar sua opinião para a EMI, pois considerava Martin Birch um profissional muito acima para o era sua banda. Onde já se viu um bando de garotos trabalharem com o produtor de profissionais do porte de Jeff Beck, Deep Purple, Rainbow, Whitesnake e Black Sabbath?!

Foi no final de dezembro de 1980, após um show no Rainbow, que Martin foi apresentado a Steve Harris; que após muitas cervejas e bate-papo, descobriu que eles tinham muitos gostos musicais em comum. Pior! Steve descobrira que Martin já havia sido questionado por colegas de trabalho se ele não produziria o Iron Maiden e que a resposta seria “sim” – mas como ele nunca chegou a ser sondado, ficou na dele. Após aquela noite, o acordo estava fechado: Martin Birch produziria o próximo trabalho da banda (e muitos outros que se seguiriam pelos anos).

Martin Birch

Steve Harris e Martin Birch – outra parceria que duraria muito tempo no Iron Maiden

Foram cerca de 40 dias de trabalho para que Killers, segundo álbum do Iron Maiden, fosse lançado no início de fevereiro de 1981. Mesmo Steve Harris sendo o dono da banda, Martin estalava o chicote com o pessoal, exigindo muito foco e disciplina. Não haviam discussões, até porque as decisões de Steve e Martin batiam em quase 100% das vezes.

Após o sucesso com o Iron Maiden (que viria nos anos a seguir), Martin foi convidado para produzir álbuns de muitas bandas que queriam soar como a Donzela e também chegou a ser chamado para a produção do primeiro álbum do Metallica, mas todos os convites foram negados. De acordo com o próprio Martin, ele tinha se identificado muito com o som da Donzela e não conseguiria dar 100% de si se ficasse com focos paralelos. O universo do Heavy Metal deixa aqui um “obrigado” pela decisão.

Singles de Killers

Nota do autor: apesar de todos os singles do álbum Killers serem lançados após o lançamento oficial do próprio álbum, manterei a estrutura de apresentar os singles antes do álbum principal – e isso valerá para todos os posts futuros dessa discografia.

Twilight Zone

Lançado em 02 de março de 1981, a intenção do primeiro single era expor um dos carros-chefes do álbum, Wrathchild, mas acabou por evidenciar a faixa Twilight Zone, que também é excelente. Derek Riggs fez uma capa que resume muito bem a música, com os personagens principais sendo interpretados por Eddie e Charlotte the Harlot.

O single Twilight Zone e a localização do símbolo de Derek Riggs

A arte retrata o momento que o espírito está próximo de matar sua amada, tamanha a saudade de não poder mais viver sem ela. Na janela atrás da cortina, é possível ver o contorno da “Dona Morte”, que também está na carta de tarot que Charlotte segura. No retrato de Eddie sobre a mesa, o texto “Para Charlotte, com amor, Eddie” está escrito sobre a foto. Os mais xiitas vão dizer que o relógio à esquerda de Charlotte aponta para “dois minutos para a meia-noite”, mas eu truco que naquela época a intenção era essa.

E se você olhar com muito cuidado atrás do retrato de Eddie, bem do lado direito, você verá um Mickey Mouse. Derek Riggs é muito fã do ratinho e resolveu homenageá-lo na capa.

O single possui duas músicas:

  1. Twilight Zone: composta por Steve Harris e Dave Murray, foi gravada sem a presença de Martin Birch no estúdio. Fala sobre um espírito preso no purgatório, que vaga os últimos 3 anos pela espera de sua amada, considerando inclusive matá-la para que os dois fiquem juntos novamente. Defendo que essa foi a primeira música da banda a falar do tema “amor” (dentro de um leque minúsculo). Tudo bem que a situação é meio macabra, mas ainda assim, é uma música romântica.
  1. Wrathchild: mesma versão existente no álbum Killers.

Purgatory

Lançado em 15 de junho de 1981, Purgatory é um single de bela capa, mas bem sem graça em termos de conteúdo, pois não trazia nada de novo: ambas as faixas são retiradas do álbum KillersPurgatory e Genghis Khan.

O single Purgatory e a localização do símbolo de Derek Riggs

O interessante aqui é que a capa do álbum The Number of the Beast foi criada para esse single, mas a imagem ficou tão legal que resolveram guardá-la para ser usada no próximo álbum. Com isso, Derek foi acionado para criar uma nova arte.

Maiden Japan

Para efeito de promoção da turnê do Iron Maiden pelo Japão (realizada de 21 a 24 de maio de 1981, contando com 5 apresentações), um novo single foi lançado com músicas ao vivo do show da cidade de Nagoya. Esse single é uma salada, pois teve muitas versões. Vamos por partes …

Em termos de áudio, temos:

  1. A versão europeia com quatro músicas: Running Free, Remember Tomorrow, Killers e Innocent Exile.
  2. A versão americana que, além das quatro citadas acima, também conta com Wrathchild.
  3. Uma versão especial exclusiva para o Japão, com o show completo da cidade de Nagoya. Essa versão especial levou o nome de Maiden Japan Volume 2.

“Versões especiais” teremos aos montes, mas essa eu precisei mencionar só para expor nossos queridos músicos nas fotos lutando karatê para a promoção do disco.

Maiden Japan – Vol 2: a simulação de luta entre Adrian e Steve poderia ter batizado a expressão “vergonha alheia”

Antes do Volume 2 só para o Japão, a versão europeia do single também foi comercializada na terra do sol nascente. O problema era conseguir traduzir “Maiden Japan” para japonês. Não sei de quem foi essa ideia, mas o single, com isso, teve alteração de nome no Japão: foi vendido como Heavy Metal Army.

A capa de Maiden Japan teve mais uma edição especial, que saiu só na Venezuela (e não venha me perguntar o porquê de sair só lá). Essa capa mostrava a situação atual da banda, onde Eddie segura a cabeça de Paul Di’Anno, que estava também prestes a ser decapitado do posto de vocalista (mais abaixo você lê a história completa).

E com isso temos a segunda parte da salada: as capas.

Maiden Japan: Versão europeia, a tradução especial para o Japão e a edição Venezuelana

Sign_art_maiden_japan_1 Sign_art_maiden_japan_2

Onde está o Wally: a localização do símbolo de Derek Riggs nas capas do Maiden Japan

“Killers” (1981)

Coisas que ninguém presta atenção Ficha Técnica:

  • Produtor: Martin Birch
  • Engenheiro de som: Martin Birch e Nigel Hewitt
  • Remasterização: Martin Birch e Simon Hayworth
  • Capa: Derek Riggs
  • Gravado e mixado nos estúdios Battery, em Londres
Paul last photo with band

O lineup de Killers, sendo essa a última foto oficial com Paul Di’Anno – esq. para dir.: Paul Di’Anno (vocal), Clive Burr (bateria), Steve Harris (baixo), Dave Murray (guitarra) e Adrian Smith (guitarra)

Killers foi lançado na Inglaterra em 02 de fevereiro de 1981, contendo dez faixas. Todas as análises aqui feitas seguirão a versão original do álbum. Isso porque o álbum foi lançado nos Estados Unidos contendo onze faixas (o single Twilight Zone – só lançado na Inglaterra – foi incorporado à versão americana).

A maioria das músicas foi criada ao longo dos primeiros anos da banda, com Steve à frente de todas as composições. Killers pode ser interpretado como “as músicas que não foram colocadas no primeiro álbum”. Para alguns, elas até poderiam virar lados B, mas havia tantas músicas prontas que um novo álbum que essa era a melhor opção (até porque deixar canções com o porte de Wrathchild e Killers como lado B é heresia).

A capa de Killers mostra o Eddie como assassino, referenciando o título do álbum, e uma ilustração rica ambientando o bairro de Manor Park, região barra-pesada de East End, onde os integrantes do Maiden viviam no início da carreira. Ao fundo é possível ver o pub Ruskin Arms, onde a banda costumava tocar, e alguns moradores da vizinhança: acima do pub temos uma luz vermelha e uma mulher com pouca roupa (Charlotte?), uma pessoa vendo Eddie em ação (atrás da cortina verde) e um casal se preocupando com coisa melhor (atrás da cortina azul).

Ahhh… e também tem 3 gatos na capa. Até coloquei essa “piada” como frase introdutória do episódio. Vocês provavelmente devem ter passado por essa situação: as discussões dos detalhes das capas com seus amigos e, para o caso desse álbum, sempre vinha um e falava “… e você sabia que tem 3 gatos nessa capa?”, e você olhava com cara de mané e geralmente mandava seu amigo catar coquinho.

Os gatos aqui ficaram famosos, porque Derek Riggs começou a fazer uma brincadeira de gato e rato nas capas da banda – hora o Mickey Mouse e hora um gatinho, geralmente com uma aureola. Com o término da discografia eu vou criar alguns apêndices, e um deles vai ser especialmente sobre isso (vish, será que até lá já teremos devolvido o 7 x 1?).

A capa e contra capa de Killers e a localização do símbolo de Derek Riggs (ao lado de um dos gatos)

Tracklist

  1. The Ides of March (Harris) – 1:46
  2. Wrathchild (Harris) – 2:54
  3. Murders in the Rue Morgue (Harris) – 4:18
  4. Another Life (Harris) – 3:23
  5. Genghis Khan (Harris) – 3:07
  6. Innocent Exile (Harris) – 3:52
  7. Killers (Harris / Di’Anno) – 5:01
  8. Prodigal Son (Harris) – 6:11
  9. Purgatory (Harris) – 3:20
  10. Drifter (Harris) – 4:49

Faixa a faixa

Apesar de Killers ter uma música com o mesmo título do álbum, as referências a assassinos / assassinatos vão muito além da faixa homônima (e da capa do álbum). Existem muitas faixas que circundam com o tema em questão, que, durante os comentários faixa a faixa, você perceberá as correlações claramente.

A abertura do álbum é com a instrumental “The Ides of March”. Eu sou do tempo que quando não sabia uma palavra em inglês, eu tinha que olhar em um dicionário de papel. E eu me perguntava: “O que raios é “idos”?” – pois essa era a única coisa que o bendito livro mostrava. Mas aí veio a Internet e eis que tudo ficou mais fácil. Na teoria é isso aqui: o calendário Romano tem uma subdivisão que é conhecida como “ido”, respectivo ao dia 15 para os meses de março, maio, julho e outubro e ao dia 13 para os demais meses. Portanto, idos de março é referente ao dia 15 de março.

Agora, há um ano que essa data em particular é muito especial para os romanos: 44 A.C. Nesse ano, nos idos de março, o imperador Júlio César foi traído e morto por conspiradores em Roma. Assim, considere a primeira faixa como a trilha sonora para a traição e assassinato do Imperador Júlio César.

Com um poderoso riff de baixo, Wrathchild vem na sequência. Essa música, cujo nome não existe oficialmente na língua inglesa – ela é uma junção das palavras Wrath e Child – fala de um cara que é filho de mãe solteira (tem gente que fala em ‘prostituta’, mas não existe uma referência clara desse ponto), pois o maridão se mandou e a criança nunca teve o pai por perto. O discurso descrito em letra é de muita raiva com relação ao abandono sofrido e a busca pelo desconhecido pai é claramente voltada para o lado da vingança do que para o lado afetivo.

A terceira faixa, com início lento e novamente com grande frase de baixo, é inspirada em um conto de Edgar Allan Poe. Murders in the Rue Morgue (em português, Os assassinatos na Rua Morgue) narra a visão de um rapaz que estava andando pelas ruas de Paris e, ao ouvir por um berro, corre em direção ao que encontra por ser duas mulheres totalmente mutiladas. Esse rapaz é visto na cena do crime e acusado de assassino; com isso, ele foge para salvar sua vida. Se você já leu o conto verá que a letra da música não tem quase nenhuma relação direta com a história de Poe, salvo as duas vítimas dilaceradas na rua, que é como o conto se inicia, e o próprio título (mas a história em si não tem relação nenhuma com alguém visto na cena do crime que é acusado injustamente e que tenta fugir).

A quarta faixa fica por conta de Another Life, que tem uma letra minúscula. Simplesmente relaciona um cara que ouve vozes em seu quarto e que, ao invés de fugir, prefere ficar para conhecer o que são tais vozes e correr o risco de até morrer, partindo para outra vida. Apesar do bom instrumental, sempre achei essa uma das músicas mais fracas do álbum. Veja abaixo Another Life tocada antes da produção de Killers, com Dennis Stratton ainda na formação:

Na sequência, temos Genghis Khan, que foi criada na correria. O Maiden precisava de uma música adicional para fechar o tracklist do novo álbum e foi daí que eles vieram com esse instrumental. Segundo Steve, a música tem a intenção de demonstrar o exército de Genghis Khan durante uma batalha, mas segundo os relatos de Listening with Nicko – Part III, ela inicialmente se chamava “Jenkin’s Barn” (tudo a ver, né?!), só que o Steve mudou o nome depois. Essa é mais uma daquelas entrelinhas que nunca saberemos a verdade…

Listening with Nicko – Part III: Genghis Khan x Jenkin’s Barn, você ouve em 3:05

Innocent Exile, sexta faixa do álbum, foi a primeira composição de Steve Harris, que ele insistia para tocar com seus colegas de Smiler, sempre tendo resistência devido às complexidades no andamento da canção. Com bom instrumental e letra simples, descreve uma pessoa que é acusada injustamente de ter cometido assassinato e que agora se vê isolada e confusa.

Com letras de Paul Di’Anno, a sétima faixa, Killers, passeia pela mente doentia de um assassino. Disparada a faixa mais bem trabalhada de todo o álbum, é aqui que dá aquele gostinho de pensar como teria ficado o álbum Iron Maiden com Martin Birch fazendo o trabalho de mesa.

Em seguida, com direito a violão de fundo e um ritmo bem diferente da cavalgada característica da banda, Prodigal Son, aparece como a faixa mais acústica do álbum, com a narrativa de um homem arrependido (uma referência a um assassino) que se confessa e pede ajuda para uma mulher (ou uma coisa qualquer) que atende pelo nome de Lamia (excertos da letra: Listen to me Lamia, listen to what I have to say … e Oh Lamia please try to help me, the devil’s got a hold on my soul and he won’t let me be).

Se você já ouviu falar que essa canção tem a ver com a passagem bíblica do Retorno do Filho Pródigo (Lucas 15:11), ignore isso, pois ela não tem nada a ver com a canção (com exceção do título). Se você tentar entender o significado de Lamia, então a situação piora. De acordo com a mitologia Greco-Romana, Lamia era uma mulher que foi transformada em demônio (metade mulher, metade serpente) que comia crianças, após seus próprios filhos serem assassinados por um Deus (o nome aqui não importa). Qualquer outra referência remete a um genérico para “bruxa”, que também não trás significado para a canção.

Para mim, foi o seguinte: a banda Genesis, a qual Steve sempre foi fã, tem uma música chamada The Lamia, do álbum The Lamb Lies Down on Broadway. O Steve foi influenciado por essa música na hora de escrever a letra. Durante a composição, ele colocou “Lamia” lá no meio, deu certo e assim ficou. Se você tiver algo diferente, compartilhe conosco nos comentários!

Outra música dos anos 1976/1977, originalmente intitula “Floating” (excerto da letra: … when you see me, floating up beside you…), Purgatory é a penúltima faixa do álbum, que descreve as sensações de uma pessoa no purgatório, local onde as almas carregadas de pecados são levadas até que se arrependam de seus erros para que, enfim, possam ir ao paraíso (ou não).

Fechando Killers, temos Drifter, canção com a aura mais alegre de todo o álbum, também de letra simples, que descreve uma mensagem de que sempre há um novo dia para se seguir em frente (talvez uma redenção para quem, um dia, já tenha cometido assassinato e precisa seguir adiante?).

A capa da edição remasterizada em 1998, que continha Twilight Zone no tracklist

E se por acaso você nuuunca tenha ouvido Killers, nunca é tarde:

O primeiro show oficial em vídeo

Lançado em maio de 1981, com 30 minutos de duração, o Iron Maiden colocou em vídeo partes do show feito no Rainbow Theatre, gravado em 21 de dezembro de 1980. Apenas intitulado como Iron Maiden (só que muito mais conhecido como Live at the Rainbow), o vídeo contém 7 músicas da Donzela:

  1. The Ides of March
  2. Wrathchild
  3. Killers
  4. Remember Tomorrow
  5. Transylvania
  6. Phantom of the Opera
  7. Iron Maiden
Live at the Rainbow.jpg

A capa do VHS do primeiro vídeo oficial do Iron Maiden

Em 2004, esse vídeo foi incorporado ao DVD Iron Maiden History – The Early Days. Existe um bootleg, chamado Before the Exile, que contém o áudio de todo o show daquela noite. Você pode ouvi-lo abaixo:

Novas turbulências – as críticas ao Killers e a saída de Paul Di’Anno

Que a produção do segundo álbum era extremamente melhor que o primeiro, não se duvida, mas após o lançamento de Killers, a crítica não foi tão amigável quanto era de se esperar. Apenas uma fonte especializada na época (a revista Record Mirror) deu uma resenha positiva ao álbum.

Não é possível distinguir até onde Killers era realmente algo a ser mal apreciado, até onde o Iron Maiden era mirado por ter conseguido muita coisa em muito pouco tempo ou se a mídia estava saturada desse lance de NWoBHM (no mesmo ano, lançamentos de Saxon e Def Leppard também foram detonados). Mas há uma história engraçada (pelo menos hoje se ri dela) que ocorreu na revista Sounds.

A revista que contribuiu para a explosão do Iron Maiden e da NWoBHM pontuou Killers com “uma estrela” – a pior nota possível. A crítica era de Robbi Millar, que estava saindo na época com Paul Di’Anno, mas que tinha sido dispensada pelo vocalista um pouco antes do lançamento do álbum. Steve até deu uma bronca em Paul com o discurso do tipo “por que você não esperou para dar um pé na bund* nela depois de sair a resenha?!”.

Mesmo com uma chuva de críticas, Steve e sua turma não deram as atenções devidas (ou não tiveram tempo), visto que a turnê de Killers já estava programa para passar por 15 países em mais de 120 apresentações onde o Iron Maiden seria a atração principal (com exceção dos Estados Unidos, onde pisariam pela primeira vez). O último show da primeira etapa da turnê trazia como abertura uma banda francesa, chamada Trust, cujo baterista era Nicko McBrain, mas deixemos isso para outro momento.

Durante a segunda parte da turnê, velhos problemas retornaram envolvendo Paul Di’Anno. Não era novidade para a banda que seu vocalista vez ou outra agisse de maneira estranha ou chamasse atenção – o exagero mais trivial de Paul era desmaiar no camarim após os shows (ou até mesmo durante a pausa dos famosos encores). Suas reclamações de que sua voz era sacrificada eram muitas vezes recorrentes.

Durante a turnê de Killers, inclusive, uma série de apresentações na Alemanha tiveram que ser canceladas devido Paul não apresentar condições de canto. Os shows foram repostos alguns meses depois, mas aquela foi a gota d’água para Steve Harris, que tinha que fazer algo, mas que não poderia cancelar a turnê.

Existem versões que contam que a saída de Paul Di’Anno foi devido a problemas com drogas. Apesar de fumar que nem uma chaminé e usar anfetamina e cocaína, Steve não encrencava com o uso de drogas em si, mas sim o fato de que Paul não se cuidava e colocava em risco as apresentações da banda (como fora o episódio dos cancelamentos na Alemanha).

Trocar de vocalista sempre é arriscado para qualquer banda, mas a decisão estava tomada. O último show de Paul com a banda foi em 10 de setembro de 1981, em Copenhagen. A saída foi amigável e foi anunciada por Rod Smallwood. No final das contas, o desligamento tirou o peso das costas de Paul Di’Anno em ser um frontman famoso, que não era o que ele queria.

A caçada por um novo vocalista que impulsionasse o Iron Maiden tinha dado início. A chance de isso dar certo era pequena. Entre 1 e 1.000.000, como veremos no próximo episódio, provou resultar em 666.

Setlist tocado na turnê Killers

  1. The Ides of March
  2. Wrathchild
  3. Purgatory
  4. Sanctuary
  5. Remember Tomorrow
  6. Another Life
  7. Genghis Khan
  8. Killers
  9. Innocent Exile
  10. Murders in the Rue Morgue
  11. Twilight Zone
  12. Phanton of the Opera
  13. Iron Maiden
  14. Running Free
  15. Transylvania
  16. Drifter
  17. Prowler
  18. Strange World
  19. I’ve got the Fire (Montrose Cover)
  20. 22 Acacia Avenue
  21. Children of the Damned
  22. The Prisoner
  23. Run to the Hills

Esse final que você vê acima, depois do cover do Montrose, não era tocado com o Paul Di’Anno, mas sim após a entrada de Bruce Dickinson na banda ainda em 1981 (que iremos cobrir no próximo post). Steve teve a ideia de colocar material do álbum que ainda seria produzido já na voz do novo vocalista.

Existe um compilado não oficial conhecido como Echos from the Lost World contendo uma série de raridades do Iron Maiden no que compete 1978 até 1982, incluindo os áudios oficiais de teste de Bruce Dickinson para a entrada na banda. Minha intenção era colocá-lo no próximo post, mas como há muito mais material cobrindo a fase com Paul Di’Anno, deixamos aqui um bom compilado dessa época, além de um aquecimento para o próximo episódio.

Até mais! Beijo nas crianças!

Kelsei.

Revisou: Eduardo.



Categories: Bootlegs, Covers / Tributos, Curiosidades, Discografias, Iron Maiden, Letras, Músicas, Resenhas

8 replies

  1. Como eu disse em outra oportunidade, não curto o Iron Maiden antes de Bruce Dickinson, mas respeito os fãs que curtem a fase Paul Di’Anno. Se bem que em Killers, a banda conseguiu dar uma melhorada no seu som com a entrada do guitarrista Adrian Smith (substituindo Dennis Stratton) e do produtor Martin Birch, o que foi uma escolha acertada por Steve Harris, para compensar o que foi feito no primeiro bolachão do Maiden sob a produção suja de Will Malone, o único ponto negativo do debut de 1980. Se fosse produzido por Martin Birch, aí sim o debut do Maiden faria pra mim um sentido mais completo. Só agora que caiu a ficha para o Sr. Harris….

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  2. Belo trabalho. Ansioso pela próxima parte.

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  3. Fonte de conhecimento inesgotável aqui
    Ainda lendo

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  4. Sensacional!!! Killers é um dos meus álbuns preferidos!
    Maiden Japan foi minha porta de entrada para conhecer o Iron. Isso lá nos idos de 1984. Junto com o Killers foi um dos álbuns mais pesados que tinha ouvido até então.
    E depois de ler toda essa história torna tudo mais especial.
    Valeu Kelsei!!!!

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  5. Bem, eu achei esse capítulo ainda mais espetacular do que os anteriores. E aprendi um bocado também. Pra começar , essa história de três gatos. Pra quem não tinha visto sequer um, isso é uma bíblia infinita de conhecimento. E vou concordar com a foto constrangedora de Steve e Adrian usando kimonos. É lamentável, pra dizer um mínimo.
    E em relação ao material do álbum em si, também houve muito aprendizado com as origens das canções, além disso eu não sabia que Gengis Khan tinha sido composta às pressas.
    As minhas memórias iniciais do álbum eram de um álbum abaixo dos demais , talvez hoje ainda o considere ligeiramente inferior a tudo que o Iron lançou pelo menos até o Somewhere in Time. Além disso, eu meio que perdia um certo interesse pelo seu conteúdo depois de Murders in Rue Morgue, só separando Prodigal Son das demais dali em diante como música que sempre gostei ( e que tem solos lindos, by the way).
    Bem, isso é passado hoje, gosto demais de todas as faixas, inclusive a Another Life que você considera a mais fraca do álbum. Killers é um álbum que traz inegáveis vantagens em relação ao primeiro, bem melhor produzido e com um guitarrista muito superior ao do line up inicial. Há certamente uma maturidade na banda, ajudada sem dúvida por Martin Birch. Mas é comparar o olimpo das composições entre os primeiros álbuns (até o Seventh SOn) e ainda coloco esse segundo álbum competindo apenas com o próprio Seventh Son entre os menos estrondosamente fantásticos dessa fase.
    O que o desabona de jeito nenhum. Killers é um álbum espetacular, assim como esse post .
    Mal posso esperar pela chance 666 que deu certo a partir do próximo episódio da donzela.
    Kelsei, a discografia não poderia estar em melhores mãos. Parabéns !!!

    Alexandre

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  6. Mais um texto fantástico!!! Sempre que terminamos de ler os posts da discografia feita pelo Kelsei já ficamos ansiosos pela próxima parte, e’ como ler aquele livro que em determinado ponto prende tanto a nossa atenção que não conseguimos parar a leitura. Isso e’ um sinal de que tudo esta fluindo perfeitamente.
    Uma coisa no texto que me fez refletir e também foi comentado pelo Igor… “e se o primeiro disco também fosse produzido Martin Birch?” Eu nunca tinha pensado nisso, afinal de contas, para mim o debut do grupo era tão clássico que não poderia ser mudado. Mas pensando friamente depois de todos esses anos, realmente e’ um pecado Martin Birch não tê-lo produzido também.
    Particularmente, Killers foi um disco meio “esquecido” e pouco apreciado nos anos 80. O primeiro disco do Maiden que adquiri foi justamente o autointitulado LP de estreia e depois de algum tempo o The Number, o Powerslave, só depois vieram juntos o Piece e o Killers, então com uma trinca dessa ficava difícil prestar muita atenção em Killers. Hoje, penso que esse disco foi ate certo ponto injustiçado, pra mim ele esta no top 5 da banda.
    Quanto ao Maiden Japan/Heavy Metal Army, isso e’ uma duvida que tenho ate hoje! Fiz varias pesquisas durante esses anos, mas não encontrei nada que realmente fosse substancial sobre o uso dos dois nomes. Também li versões sobre o problema da tradução, porem em minha opinião, acho que não seja exatamente isso. Penso que o nome Maiden Japan seja um trocadilho com o Made In Japan do Deep Purple, um dos mais famosos Lives de todos os tempos! Em relação em não concordar com a tese da difícil tradução: Em todas as versões de capas há a tradução em japonês, abaixo o nome do álbum existem 3 ideogramas japoneses (Kanji), o primeiro de cima para baixo 女 (onna) que significa mulher e 日本 (nihon) que e’ o nome do Pais (Japão,)para os japoneses Nihon, então há uma tradução bastante simples para o japonês. E no “Obi” como chamamos aqui no Brasil, aquele papel que vem no lado esquerdo da capa dos LPs e CDs japoneses, este escrito em caracteres japoneses exatamente como na capa do disco, “Heavy Metal Army” em vermelho com fundo preto e “Maiden Japan Live” em branco com fundo vermelho.
    Em relação aos nomes, penso que talvez a gravadora tenha tentado fazer alguma coisa nos moldes do Unleashed In The East (Live In Japan) do Judas Priest. Bom, e’ apenas uma opinião, nada oficial.
    Pra terminar, gostaria e parabenizar o Kelsei pelo excelente trabalho, me desculpar por discordar sobre o Maiden Japan e principalmente agradecer-lhe pelos momentos de distração que seus posts sempre nos proporcionam. Concordo com o Alexandre, “a discografia não poderia estar em melhores mãos”!!!

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    • JP, pedir desculpa coisa nenhuma! São nas diferenças que aprendemos e você não tem o título de ENCICLOPEDIA por acaso. O que eu escrevo não é nota oficial 🙂 …..

      E digo mais: Você sabe Japonês?!? Você apelou! Eu nem português falo direito rs… o podcast tá vindo ai e você explica isso pra gente!

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  7. Fico lendo aqui e aprendendo

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