Redescobrindo o Deep Purple

Aproveitando o espírito do Natal, dessa vez foi o Deep Purple quem me inspirou a escrever algumas linhas despretensiosas sobre a minha descoberta pessoal. Digo espírito de Natal, pois passei boa parte do dia 25/12 em audições e leituras sobre a banda. Muitos sentimentos, muitas lembranças e reflexões.

Minha porta de entrada para este ícone da música foi um EP ao vivo intitulado “Live in London” da fase 3 (Coverdale/Hughes). Isso aconteceu em 1984 quando um amigo emprestou a bolacha onde pude apreciar impressionantes duetos vocais acompanhados pela maestria dos demais integrantes que dispensam apresentações.

live_in_london_deep_purple_album

Nesse momento eu já me achava no direito de encher o peito e dizer que conhecia Deep Purple. Com a falta de recursos para ampliar as adições, o jeito era emprestar, mas de quem? Foi então que em 1985 conheci os gêmeos e sim eles também já conheciam a banda e pude ampliar os horizontes com a coletânea “Deepest Purple”. Nada melhor do que uma coletânea para começar. Porém essa discografia contem basicamente a fase 2 e 3.

deepest-purple-the-very-vest-of-deep-purple

Daí para frente foram grandes descobertas álbum a álbum com direito a acompanhar o retorno triunfal da banda com “Perfect Strangers”. Os bate papos com os amigos e donos de lojas especializadas no Rio de Janeiro iam formando minhas impressões pessoais e a certa altura eu já tinha sorvido o que havia de melhor na época, tanto da fase 2 (In Rock, Fireball e Machine Head) quanto da fase 3 (Burn e Stormbringer), além do recém lançado Perfect Strangers. Infelizmente, por diversas razões a fase 1 ficou para trás. Uns diziam que os álbuns desta fase não valiam a pena, que eram muito obscuros e não ainda não tinham o verdadeiro DNA do Purple formado. Outro dogma da época dizia respeito ao álbum “Who do You Think We Are”.

deep-purple-who-do-you-think-we-are

Comentava-se que nesse álbum apenas Woman From Tokyo era boa, logo não era digno de ser apreciado, era perda de tempo. Juntando a essas balelas o fato de que outras bandas também estavam sendo desbravadas, muita coisa boa ficou para trás.

Trinta anos depois, sem o peso dos dogmas e de mente aberta me deparo com essas pérolas do rock. Ao me aprofundar um pouco na história da banda pude entender o contexto conturbado da banda na época do lançamento de Who Do You Think You Are em que a relação de Gillan e Blackmore já era insuportável, aliado ao cansaço e desgaste da banda com as turnês dos 3 álbuns. Soma-se a toda essa atmosfera a expectativa da crítica e dos fãs de mais uma obra ainda melhor que as 3 anteriores. Realmente fica difícil. Mas o fato é que o álbum é muito bom, com direito aos rifs marcantes como o que se pode perceber em Rat Bat Blue que poderia figurar facilmente em meio aos clássicos anteriores. Place in Line é um blues maravilhoso que não se vê em outros álbuns com direito a solo de teclado e guitarra. Não consigo dizer que haja uma música ruim. Acredito que o momento em que o álbum foi lançado não foi mesmo o ideal, fato que não é exclusividade do Purple.

Nesse clima de descoberta fui de 1973 para 1968 com o primeiro álbum da banda – Shades of Deep Purple.

deep-purple-shades-of-deep-purple

Minha percepção desse álbum não muda muito da de outras bandas em seus lançamentos. Um álbum rústico mas com todos os elementos que fariam a banda decolar poucos anos depois. Percebi a mesma vitalidade musical dos jovens Blackmore, Paice e Lord no álbum de estreia porém num estilo anos 1960. O álbum é divido entre covers e autorais. Destaque para Hush e And the Address. Mandrake Root também é muito boa e me lembrou muito o som Jimi Hendrix. Para finalizar o LP, Hey Joe ganha uma introdução bem acoplada e arranjos e solos bem diferentes da sua interpretação mais famosa com Hendrix.

deep-purple-the-book-of-taliesyn

The Book of Taliesyn foi lançado poucos meses depois de seu antecessor com a mesma fórmula de covers e autorais, sendo um total de 7 faixas originalmente contando com 4 compostas pela banda. Esse álbum soa mais experimental, com ares progressivos em alguns momentos. Destaque para a instrumental Wring That Neck que é música que mais se assemelha ao estilo futuro do Purple com solos de teclado e guitarra muito bons. A quarta faixa (a) Exposition também vem com ares púrpuros. Dessa vez a cover dos The Beatles We Can Work it Out me agradou mais com os arranjos diferenciados do que a versão lenta de Help! do álbum anterior.

Minha impressão de dois álbuns lançados com metade de covers conhecidas foi de um manager buscando chamar a atenção comercialmente e para uma divulgação da banda, pois aparentemente já havia material para um álbum sem covers.

deep-purple-1969

A fase 1 termina com o lançamento de Deep Purple em 1969 já em clima de divórcio. O álbum é mais conciso, uniforme e conta apenas com um cover Lalena que na minha opinião seria dispensável. Destaque para The Painter que vem com um longo instrumental entre solo de guitarra e teclado muito bem executado. Why Didn’t Rosemary é uma daquelas músicas do álbum perfeitas para o Gillan interpreter. Novamente os solos não deixam nada a desejar.

A última faixa April  tem duração de 12:10 e tem 3 momentos bem distintos. No meio da música rola um clima totalmente clássico. Ao final dos seus minutos Blackmore detona.

Rod Evans foi um bom vocalista, mas o estilo que a banda (Blackmore e Lord) ia tomando pedia um vocal com estilo mais forte e impactante.

Espero que os leitores possam engrossar esse caldo. Acredito que sejam os álbuns menos conhecidos da carreira do Deep Purple para a maioria dos apreciadores do Rock and Roll menos afixionados.

Claudio.



Categories: Covers / Tributos, Curiosidades, Deep Purple, Discografias, Jimi Hendrix, Músicas, Resenhas, The Beatles

7 replies

  1. Esse post que pelo jeito vai encerrar os posts de 2016 o faz com muita propriedade. A história envolvendo o Deepest Purple me trouxe muita nostalgia do tempo de adolescência e me lembro também de ir conhecendo pouco a pouco os demais discos das 2 fases mais conhecidas da banda e também aquele álbum com o Tommy Bolin ( Come and Taste the Band), que considero no patamar dos bons álbuns da banda. Também passei a acompanhar a banda quando do lançamento do ótimo Perfect Strangers , sendo que acho que preciso melhorar meu conhecimento acerca da fase mais recente, primeiro com a entrada de Morse, depois pela necessidade da substituição do saudoso Lord pelo excelente Don Airey.
    A primeira fase, confesso, é de total desconhecimento meu, exceto pelos covers e pela boa faixa Hush, a qual eu prefiro regravada em estudio pra completar o duplo ao vivo Nobody’s Perfect. Além dos álbuns citados pelo Cláudio, ainda há o concert for a group and orchestra, outro totalmente desconhecido meu.
    Parabéns ao Cláudio por refletir sobre a banda, buscar a informação e nos deixar com vontade de aprimorar o conhecimento dos momentos da banda onde pouco se sabe. Pelo menos eu pouco sei… Quem sabe em 2017?
    Quem sabe outro dos especialistas aqui nos traz mais impressões sobre essa fase menos cultuada da banda ?

    Alexandre

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  2. Claudio, apareça sempre aqui
    Que belo post pra início de fechamento de 2016
    Começando a er mas já vi que é preciso ter calma aqui. coisa muito boa e que requer uma análise

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  3. Valeu meus amigos!!
    A intenção além de compartilhar esse abrupto interessante por esta fase é despertar a curiosidade mesmo! Sei que o Abilio curte bastante o DP…
    É isso aí!

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  4. Um excelente post de fechamento do ano (aliás, o Claudio abriu e fechou o ano aqui no blog, a propósito).

    Bom, tudo que vi acima mostrou como sou ignorante nesta fase de uma das bandas que faz o trio-de-ferro setentista com o Sabbath e Zeppelin. E isso é um absurdo.

    Claudio, por favor, continue nos brindando com posts como estes. A provocação é mais que bem aceita a todos no sentido de (re)descobrir as coisas.

    E uma sugestão: que tal no próximo podcast você sugerir um throwdown desta fase, ou seja, 2 álbuns da mesma fase, que automaticamente vai nos fazer (re)descobri-los?

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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    • Obrigado Eduardo.
      Vou tentar ser mais presente esse ano. Quanto ao throwdown poderia propor a audição dos 3, até porque a metade dos 2 primeiros é de cover.
      Porém o “Who do we think we are” é um discasso! Recomendo!!!
      Valeu!

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  5. Claudio, primeiramente gostaria de agradecer-lhe pela inspiração. Explico melhor, posts como esse acabam por nos provocar e nos faz tirar a poeira dos nossos velhos discos esquecidos na prateleira. Eduardo, o Minuto HM tem realmente esse poder!!
    Quando o Abílio começou a serie de discografia do Rush, resolvi fazer a minha própria “Rushlogia”, ou seja, escutei toda a discografia em sequencia (não de uma só vez, e’ claro) do primeiro ao ultimo. E por incrível que pareça mesmo depois de todos esses anos, isso sempre traz novas experiências.
    Pois bem, comecei a fazer a mesma coisa com o Deep Purple. E’ inevitável à quantidade absurda de lembranças… O Live in London foi um dos primeiros Lps que possui, e assim como o Claudio, foi a primeira coisa que ouvi do Purple. Olhando meu velho vinil, descubro dentro da capa uma etiqueta igualmente velha, logo que comecei a adquirir discos costumava improvisar etiquetas, batidas a maquina, que eram coladas na parte inferior das capas, contendo meu nome, data da compra, local, etc. Então, vejo agora na referida etiqueta a data de 30/11/1983 e penso que realmente estamos ficando velhos mesmo!!!
    Apenas uma única ressalva ao excelente texto do Claudio, pelo menos a copia que tenho aqui em casa, e’ um LP e não o EP, apesar de conter apenas 6 musicas, na capa do lado direito na parte superior há uma espécie de selo dizendo o seguinte: “Over 57 minutes of Heavy Rockin’ Music”. O que era um tempo bastante considerável na época para um disco. Poucos LPs simples da época possuem duração semelhante, pelo menos que conheço.
    Quanto ao Mark I. Após sair do Purple, Rod Evans gravou dois discos do Captain Beyond, não conheço o segundo intitulado Sufficiently Breathless, porem possuo o primeiro LP homônimo de 72 e posso dizer que e’ um ótimo trabalho! Li uma vez, não sei onde, que se Rod Evans tivesse cantado no Deep Purple como cantou no Captain Beyond, talvez o mundo não tivesse conhecido Ian Gillan… Particularmente não sei se e’ pra tanto, mas que Evans foi outro vocalista no Captain Beyond, isso e’ fato! Vale ser conferido.
    Para terminar gostaria de enaltecer a grande aula que o Claudio nos proporcionou, que venham muitas mais. Um abraço a todos!

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    • Isso aí João Pedro… o tempo vai passando e alguns marcos em nossas vidas nos faz lembrar disso.
      DP tem peculiaridades que vamos descobrindo com o tempo. A primeira fase era tão obscura para mim que a primeira surpresa foi descobrir que foram gravados 3 álbuns e eu achava que eram 2. Rod Evans eu nem fazia ideia quem fosse.
      Eu já esperava que o estilo fosse realmente diferente da fase 2, mas nunca poderia imaginar que haviam tantos covers, ainda mais 2 dos The Beatles.
      O vocal do Rod Evans estava muito bom mesmo. Vou conferir o Captain Beyond. Particularmente penso que a mudança a fórceps ocorreu mesmo pela divergência de estilo. Enquanto Evans pretendia manter sua influência no estilo mais calcado para o Pop, Mr. Blackmore e Cia queriam algo mais pesado.
      Valeu!!!

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