Discografia Iron Maiden – Episódio 09: 1990 – No Prayer For The Dying

Iron Maiden – Discografia Comentada

Episódio 09: No Prayer for the Dying

Santo Deus! Jogaram água na minha cerveja!

No capítulo anterior (que você poder ler aqui), vimos a Donzela lançar seu primeiro álbum conceitual, Seventh Son of a Seventh Son, culminando em uma turnê que originaria o VHS Maiden England. O ano era 1989 e muita coisa ainda aconteceria antes de um próximo álbum, que acabaria por ser gravado sem a clássica e áurea formação do Iron Maiden.

Bruce e seu primeiro álbum solo

A discografia é do Iron Maiden, mas entender o primeiro álbum solo de Bruce Dickinson é crucial para a história da Donzela.

Com o término da turnê Seventh Tour of a Seventh Tour, Steve Harris passou mais de seis meses fazendo todas as edições que culminariam no VHS Maiden England, e, após esse trabalho, um bom descanso era crucial para repor as energias para antes de um novo álbum. Steve se reclusou com a família em Portugal, abrindo espaço para que outros membros da banda pudessem trabalhar em projetos cuja sonoridade não fosse como a do Maiden. Isso aconteceu com Bruce Dickinson e Adrian Smith, ambos incentivados por Rod Smallwood.

No caso de Bruce, Rod estava auxiliando um pessoal de outra empresa que procurava por alguém com material disponível para servir como faixa da trilha sonora do filme A Hora do Pesadelo 5. Bruce, procurado, mentiu em ter esse material, como uma forma de fazê-lo colocar em prática várias de suas ideias que eram barradas por Steve.

Bruce uniu o útil ao agradável, pois ele enxergou também uma oportunidade de ajudar um amigo dos tempos de Samson, Janick Robert Gers, que se encontrava desempregado e quase largando de vez a ideia de trabalhar profissionalmente com música.

Até aquele momento, Janick Gers tinha vários trabalhos fracos em sua carreira (o time do Minuto HM já sentiu na pele o que é ouvir o Gog Magog, por exemplo, que foi tão ruim que nem lembramos de colocar no post do Podcast – ficou registrado só na lição de casa anterior), sendo a passagem pela banda da Ian Gillan seu maior trunfo. Com o lendário vocalista do Deep Purple se juntando ao Black Sabbath, a banda onde Janick estava foi encerrada e, sem conseguir outras oportunidades, o guitarrista deixou seu instrumento de lado para terminar seu curso em uma faculdade de Humanas. Bruce Dickinson sempre achou Janick um bom compositor e guitarrista, e chamou o amigo para trabalhar com ele no projeto de A Hora do Pesadelo 5.

Bruce já tinha a música pronta. Janick mexeu aqui e ali, deu uma polida e, ao final, sem nenhuma pretensão, mas levando em conta que a canção era trilha sonora de um filme de terror, o frontman da Donzela de Ferro veio com o título: Bring Your Daughter To The Slaughter. A versão não é exatamente idêntica àquela usada pelo Maiden – confere aí:

Bruce foi questionado se ele possuía outros materiais similares. Não para trilhas sonoras, mas para um álbum solo. E foi aí que surgiu Tattoed Millionaire, composto e gravado em duas semanas junto de Janick Gers (guitarra), Andy Carr (baixo) e Fabio del Rio (bateria). Durante uma mini-turnê para divulgação do álbum, Bruce não tocou Iron Maiden em nenhum momento, sempre fazendo o bis com covers de Deep Purple e AC/DC.

E o porquê de Bruce não ter colocado Bring Your Daughter To The Slaughter em seu álbum solo? Porque Steve ouviu a canção antes que isso acontecesse e implorou ao vocalista para que ela fizesse parte do novo álbum do Iron Maiden. Bruce, que sofrera por diversas vezes com suas ideias musicais em outros momentos com Steve (principalmente na idealização de Somewhere in Time), ficou muito entusiasmado e motivado, após esse acontecimento, para prosseguir com um novo álbum na Donzela.

Dois pontos que eu gostaria de deixar de curiosidade aqui, referentes, no caso, ao próprio Bruce. Antes de voltar a gravar com o Maiden, o frontman deu uma de ator! Existe um seriado britânico de nome The Paradise Club, que a produtora de Tattoed Millionaire usou como vinculação do álbum. Bruce faz o rockstar contrariado (a banda toda aparece no episódio, inclusive). Deixo o link abaixo e você pode conferir mais do seriado aqui mesmo no Minuto HM. Veja somente pela diversão (o seriado em si eu acho um saco):

O outro ponto curioso foi que Bruce Dickinson se junto a diversos outros artistas consagrados para gravar um vídeo-clipe de Smoke On The Water, com o intuito de ajudar a Armênia, que sofrera com um terremoto em 1989, no projeto Rock Aid Armenia:

A saída de Adrian Smith

No caso de Adrian Smith, durante a pausa pós Maiden England, foi o próprio Rod Smallwood que conseguiu dinheiro com a EMI para projetar uma carreira mais mainstream ao guitarrista. Rod já vinha de tempos ouvindo sons que Adrian produzia, mas que não tinham adequação com canções do Maiden. O estopim foi quando duas dessas canções – Reach Out e Juanita – entraram em singles da Donzela.

Com isso, Adrian juntou seu time do Entire Population of Hackney e gravou um álbum intitulado Silver And Gold, de seu projeto solo conhecido como ASAP – Adrian Smith And Project, uma brincadeira pouco criativa para uma expressão inglesa de mesma sigla, As Soon As Possible.

Com um som bem hard rock e com o guitarrista cantando todas as músicas, o ASAP chegou a ter uma pequena turnê para divulgação (álbum e turnê tiveram Nicko McBrain substituído por Zak Starkley, filho de Ringo Starr, na bateria). Apesar de ser um bom álbum de hard rock, o projeto não decolou por motivos que até hoje não foram claramente identificados. Nem tudo é talento no mundo da música. Não que Adrian cante eximiamente bem, mas infelizmente existem muitos outros fatores.

Com o projeto ASAP com seu primeiro álbum, Adrian se juntou aos seus companheiros de Maiden para o novo álbum. Em parceria com Bruce Dickinson, inclusive, Hooks in You foi composta. Entretanto, as discussões começaram entre Adrian e Steve no que o novo álbum deveria ser: o guitarrista queria fazer algo que seguisse a linha dos últimos trabalhos do Maiden, enquanto o baixista (e líder) queria um som mais voltado para as origens da banda. Adrian tinha passado por uma fase muito criativa com a composição de Silver and Gold e ele queria trabalhar mais as canções, o que foi negado. Adicionalmente, sempre que Steve questionava Adrian se ele gostaria de continuar na banda, a resposta não era concreta, o que deixou o baixista muito insatisfeito, pois não queria alguém lá dentro por obrigação ou simplesmente sem estar dedicado 100% em mais uma longa turnê.

As experiências de Steve com pessoas insatisfeitas em turnê já tinham ensinado uma poderosa lição ao líder do Iron Maiden e, em uma reunião com todo o time convocado, Adrian falou e desabafou por muito tempo, onde ele realmente confirmou estar triste e insatisfeito com as ideias do novo álbum e também muito insatisfeito por ter contribuído muito aquém daquilo que ele gostaria. Em momento algum Adrian pediu para sair, mas a conclusão dos fatos fez com que a linha dura de Steve falasse mais alto, demitindo o guitarrista.

Com o processo de composição do álbum já em andamento, a escolha de um substituto deveria ser rápida para não gerar stress com a EMI e desencadear uma crise. E mais uma vez Bruce Dickinson meteu o dedo no bolo, indicando Janick Gers para a substituição. Os testes foram feitos no celeiro da fazenda de Steve.

Quando eu era adolescente e não tinha a tal da Internet, muito do que eu lia sobre a banda eram nas revistas que chegavam até a cidadezinha onde eu morava. Eu li, não me lembro onde, que o teste final de Janick Gers para entrar no Maiden foi virar algumas latas de cerveja e ter 5 minutos para revisar Wrathchild e The Trooper, antes de tocá-las com a banda. Me lembro muito bem de ter lido isso, mas agora com a tal da Internet, não encontrei essa informação em lugar nenhum – não sei se era um rumor da revista que li na época, mas vale aqui o registro. Na biografia oficial, claro, isso não é mencionado, sendo somente um teste comum com algumas canções do Maiden.

Dorsal

Analisando a espinha dorsal do Iron Maiden: Sai Adrian Smith, entra Janick Gers.

Singles de No Prayer for the Dying

Holy Smoke

Lançado em 10 de Setembro de 1990, continha três faixas:

  1. Holy Smoke: mesma versão que está em No Prayer for the Dying.
  2. All In Your Mind: cover dos britânicos do Stray, banda setentista que teve em seu baixista Gary Giles, uma grande influência para Steve Harris. A canção original você pode encontrar no debut do Stray, cujo álbum é homônimo.
  3. Kill Me Ce Soir: cover da banda Golden Earring, que também é muito querida por Steve Harris. Apesar de ter uma sonoridade bem diferente do Maiden, esse é um dos meus singles preferidos.
Single 1

O single e a localização do símbolo de Derek Riggs (confie em mim, ele está ali)

A capa do single é uma crítica bem direta ao fato de igrejas lucrarem com a venda de religião (independente de qual seja ela). Eddie queima uma pilha de televisões onde podemos ver pastores segurando pilhas de notas de dinheiro e uma das TVs com o logo “You are watching PAY TO PRAY T.V.”. Essa capa de single é disparada a mais difícil de achar o símbolo de Derek Riggs. Quando tive acesso ao single em mãos (em CD), me lembro de ter passado semanas procurando – com direito à lupa – e nada! Para dificultar ainda mais, o símbolo está em uma cor branca bem fraca e a imagem que eu consegui coletar não era das melhores resoluções (se você tiver o LP, vai encontrar o símbolo abaixo dsas TVs, à direita, no meio do fogo).

Bring Your Daughter To The Slaughter

Lançado em 24 de Dezembro de 1990, após o lançamento de No Prayer For The Dying, contém três faixas:

  1. Bring Your Daughter To The Slaughter: mesma versão que está em No Prayer for the Dying.
  2. I’m A Mover: cover da banda de Blues Free, do álbum Tons of Sobs, de 1968. Dave Murray é muito fã do guitarrista Paul Kossof e, inclusive, ele tem uma guitarra de Paul, que comprara após ler um anúncio de jornal.
  3. Communication Breakdown: cover do Led Zeppellin, do debut de 1969. E que cover! “Ahh mas o Bruce canta muito abaixo do que o Robert canta e bla bla bla …”. É um senhor cover e ponto final!
Single 2

O single e a localização do símbolo de Derek Riggs

No Prayer For The Dying (1990)

Coisas que ninguém presta atenção Ficha Técnica:

  • Produtor: Martin Birch
  • Engenheiro de som: Martin Birch
  • Engenheiros auxiliares: Mick McKenna, Les Kingham e Chris Marshall
  • Capa: Derek Riggs
  • Gravado no celeiro da fazenda do Steve Harris, com estúdio móvel
  • Mixado no Battery Studios, Inglaterra
  • Fotos para o álbum: Ross Halfin

Lançado em 01 de Outubro de 1990, No Prayer For The Dying se resume à volta da banda para um som mais rock’n’roll e bem mais cru, com músicas curtas e sem exageros em melodias. O álbum tem uma sonoridade única até o momento na discografia da Donzela, pois apesar do som cru, não existe uma referência ao Punk Rock do início dos anos 80. Os sintetizadores não foram abandonados, ao contrário do que muita gente pensa – eles ainda estão lá, em algumas faixas, mas não são protagonistas. O poderio criativo nas composições, entretanto, deixa a desejar.

O som desse álbum é totalmente influenciado pela ideia mais que infeliz do Steve Harris de gravá-lo com estúdio móvel, dentro da sua fazenda. Dando uma exagerada (mas nem tanto assim), o álbum soa uma demo bem gravada. Deve ter existido alguma razão para o Martin Birth ter autorizado isso…

Grupo

O lineup de No Prayer For The Dying – Esq. para dir.: Nicko McBrain (bateria), Steve Harris (baixo), Bruce Dickinson (vocal), Janick Gers (guitarra) e Dave Murray (guitarra)

A capa de No Prayer For The Dying não tem pé nem cabeça. Acho a capa mais sem sal da toda a discografia da Donzela (até o Virtual XI ganha, porque tem contexto), apresentando um Eddie que surpreende um homem, com cara de Tiozão de Churrasco, que sabe-se lá o que fazia andando pelo cemitério onde Eddie estava (e só é possível discernir ser um cemitério devido à placa metálica da tumba quebrada, pois senão você poderia achar que era a entrada de um esgoto, já que tem um líquido gosmento junto ao Eddie). O cara segura uma lanterna, então pode ser um segurança noturno ou o coveiro do cemitério, mas é tudo achismo.

Capa

A capa de No Prayer For The Dying e o símbolo de Derek Riggs, que é o pingo do “i”

Tracklist

  1. Tailgunner (Harris / Dickinson) – 4:15
  2. Holy Smoke (Harris / Dickinson) – 3:48
  3. No Prayer For The Dying (Harris) – 4:23
  4. Public Enema Number One (Murray / Dickinson) – 4:13
  5. Fates Warning (Murray / Harris) – 4:12
  6. The Assassin (Harris) – 4:37
  7. Run Silent Run Deep (Harris / Dickinson) – 4:34
  8. Hooks In You (Dickinson / Smith) – 4:08
  9. Bring Your Daughter… …To The Slaughter (Dickinson) – 4:45
  10. Mother Russia (Harris) – 5:31

Faixa a faixa

Sinto muito, mas é hora de dar um adeus definitivo ao brilho dos anos 80 na estrutura musical do grupo. E aqui não quero criar apologia aos anos 90, com as injustiças que vieram com as bandas oitentistas, o aparecimento do grunge, a influência da MTV e tudo mais. O que realmente aconteceu é que a saída de Adrian causou impacto no poderio de composição da banda, aliado às ideias de Steve que não eram, nem podieram ser contrariadas.

Eu tenho a mais plena convicção que foi com No Prayer For The Dying que surgiu uma vozinha na cabeça do Steve que dizia: “Acabe com a palhetada cavalgada! Vai lá, deixa soar o acorde com quinta … vai ficar legal…”. Antes de vir me criticar ouça o refrão de Holy Smoke … a semente foi plantada ali!

Outro ponto que muda muito é a sonoridade que Janick Gers traz às guitarras – é simplesmente ruim, destoando muito do som que o Maiden criou por mais de uma década inteira. Não há limpeza nos solos. Inclusive Janick já deu diversas entrevistas dizendo que “o importante é o sentimento que se passa e não executar todas as notas perfeitamente”.

Você pode considerar um álbum bem produzido, mas não há como não negar a torcida de nariz que os fãs deram na época. Inclusive, esse é o álbum menos vendido da banda com Bruce nos vocais. Enfim né, vamos lá…

Mesmo com as críticas acima, até esse momento não há como negar uma coisa: os caras acertam a mão na faixa de abertura. Tailgunner é uma das melhores composições do álbum, principalmente porque passeia sobre um terreno que o pessoal tem muita facilidade: guerras e aviões, assuntos que sempre deram certo em canções do Maiden. Mais especificamente, a faixa inicial nos remete à Segunda Guerra Mundial, no bombardeio à cidade de Dresden, em Fevereiro de 1945, considerado um dos maiores bombardeios da história.

O título da canção veio de um filme pornô que Bruce assistiu. Não estou brincando. Bruce teve a ideia de escrever sobre os soldados conhecidos por tailgunners porque não poderia escrever uma letra sobre pornografia. Com uma letra recheada de mais bordões da aviação, segue um pequeno guia dos pontos que podem te confundir na letra até hoje:

  • Tailgunner: esse é o nome dado ao soldado que ficava na calda do avião, totalmente exposto ao frio intenso dos céus, armado para acertar quem tenta abater o avião por detrás. Esse posto na aeronáutica não existe mais – hoje tudo é tecnológico.
  • Tail end Charlie in the boiling sky: referência a Charles Cooper, primeiro soldado da Força Aérea Real Britânica que foi considerado um Tailgunner. Ele foi apelidado de “Tail-end Charlie” pelos colegas de equipe (o “Charlie que fica na calda do avião”, sacaram?!).
  • The Enola Gay was my last try: se você faz alguma referência ao homossexualismo aqui, começou errado. Enola Gay é nome do avião que dispensou a bomba atômica em Hiroshima. A referência é feita por Bruce na letra porque os bombardeios no Japão e em Dresden são os maiores que já ocorreram na história e até hoje não se chegou a um acordo de qual foi o maior. Hiroshima foi o bombardeio mais recente que tivemos de alcances catastróficos, por isso ele ser “a última execução” do tailgunner.
Dresden, zerstörtes Stadtzentrum

Foto oficial da cidade de Dresden após o bombardeio aéreo, tema de Tailgunner. Junto com Hisoshima, são os maiores desastres desse tipo de ataque.

Seguindo para a próxima faixa temos Holy Smoke, grande aposta da banda, já que virou single. Aposta infeliz na minha opinião, pois o solo de Dave Murray é uma das poucas coisas que salvam aqui. A canção é uma crítica às religiões que pregam o dinheiro acima da fé. Óbvio que essa crítica vem em tom de deboche, com uma harmonia feliz e com uma letra bem direta (inclusive, contendo palavrão). O título é uma brincadeira com a expressão “Santo Deus!”, que é a tradução de “Holy Smoke!” para português, sendo que Holy é uma palavra para designar coisas sacras / santas, sacou?!

“Jimmy Reptile”, mencionado na letra, é uma referência a Jimmy Swaggart, um evangelista mundialmente conhecido que foi pego em um motel com algumas prostitutas. Inclusive, a canção “Miracle Man” do Ozzy Osbourne também é sobre Jimmy, que usou várias vezes o Madman como referência aos jovens para o caminho do satanismo.

Outro fato legal é que, no primeiro verso, Bruce interpreta Jesus (Believe in me, sendo no money / I died on a cross and that ain’t funny). O vocalista chegou a ganhar uma Bíblia de um outro evangelista, para que ele também não ficasse ironizando a palavra divina por cantar Holy Smoke.

E o vídeo-clipe gravado na fazenda do Steve hein?! Ou melhor, pérola vídeoclíptica! Impossível não lembrar do programa Piores Clipes do Mundo da MTV, comandado à época pelo Marcos Mion. E pudera: Martin Birch com peruca e roupa de couro, inclusive mostrando as nádegas; Janick solando no violão de brinquedo; Dave dentro de um lamaçal com botas de cano longo; Bruce com uma dança sem possibilidade de adjetivação seguida de “morte”. Salvam no vídeo a filhinha do Steve Harris, Michael Kenney consertando o baixo do Steve e o Nicko com uma camiseta escrita “Drummers do it with rhythm”.

No Prayer For the Dying, levando o nome do álbum, vem na terceira posição. Com uma letra bem introspectiva e uma harmonia sombria, a canção dosa bem os momentos calmos e rápidos. De longe minha preferida. Nessa faixa, não vou me aventurar na interpretação, porque o leque de opções é muito grande, principalmente porque o termo “Dying” aqui pode não só se referir a alguém que tenha alguma doença ou sofra de depressão, mas a qualquer um de nós, seres humanos, que sofremos pelas incertezas e dores da vida.

Public Enema Number One tem uma levada muito legal. Com Enemy escrito de maneira informal, a letra trata de dissertar um mundo onde temos um “inimigo público número um” que cria um caos em uma cidade metafórica e foge, deixando uma guerra interna na cidade, com crianças chorando, políticos mentindo, a mídia com seus bodes expiatórios; enfim, uma metáfora para o mundo em que vivemos, onde esse personagem fantasioso já fugiu da cidade. Essa canção trata de uma crítica a todos nós, que estamos diariamente vendo as coisas erradas acontecerem (os fatos descritos na letra) e ninguém faz absolutamente nada. É uma crítica muito inteligente e uma das melhores que o Maiden já fez (considerando o fato da banda não ter esse viés de crítica popular, religiosa e política).

Na quinta posição, Fates Warning tem uma estrutura de enjoar, com o refrão sendo repetido a cada estrofe cantada. A música é uma reflexão sobre nosso poder em relação ao destino – o fato de não o controlarmos e não sabemos os porquês das coisas acontecerem sem motivo aparente, trazendo sorte para uns e morte para outros. Uma das canções mais fracas do álbum.

E como a ideia era voltar às raízes, quem já criou Killers, cria The Assassin, que está na sexta posição. Com um tom sombrio e levadas de suspense, Bruce narra a visão de um assassino de aluguel (Now the contracts out / They’ve put the word about / I’m coming after you) e o que passa por sua cabeça antes de que o ato final da execução seja feito, visto que mesmo sendo pago, ele não está matando pelo dinheiro, mas por ser algo prazeroso. Acho o início dessa música muito criativo e fora da caixa.

E aí chega a melhor do álbum: Run Silent Run Deep. Tem peso, tem cavalgada e fala daquilo que o Maiden entende bem: histórias de guerra. Nesse caso, inspirada pelo filme de mesmo nome (e que veio de um romance homônimo), estrelado por Clarke Gable, que conta a história de uma tripulação de um submarino na Segunda Guerra Mundial. A letra da música é infestada de vocabulário próprio para batalha naútica, como é o caso de Lethal Silver para “torpedo” e a expressão One way down to Davy Jones, que é como é chamado o fundo do oceano (pesquise por Dave Jones’s Locker). E se engana se você acha que Bruce Dickinson escreveu essa letra animado pelo seu álbum solo, que também tinha uma canção sobre submarinos (Dive!Dive!Dive!). Na verdade, Bruce escreveu Run Silent Run Deep para o Somewhere in Time, mas nunca chegou a mostrá-la para Steve, por não achar um som adequado para a letra.

run-silent

Cartaz do filme que influenciou Run Silent Run Deep

Oitava posição, Hooks in You, uma canção com pegada e ao mesmo tempo divertida. Se chegarem para você e falarem que ela é uma sequência de Charlotte The Harlot, mande catar coquinho sem dó. Não tem nada a ver. Tudo bem que Adrian Smith participou de sua criação e que a letra possui o número 22, o que seria uma ligação explícita com 22 Acacia Avenue, mas na verdade é só uma brincadeira de bom gosto que Bruce fez na letra, cuja inspiração veio quando ele e sua mulher, Paddy, estavam procurando uma casa e foram ver uma que lhes agradou, mas que o corretor informara que os últimos moradores eram uma turma de homossexuais. Em um dos quartos haviam ganchos pendurados no lustre e, digamos, “artigos em couro”. Bruce não comprou a casa, mas ficou imaginando se algum casal que a comprasse usaria os artigos do quarto. E eis a letra!

E na penúltima posição, temos single: Bring Your Daughter To The Slaughter, que você conferiu a história no início do post. A canção que está no álbum tem alguns incrementos musicais, mas nada que altere a composição original em caráter significativo. A música teve videoclipe, que mistura imagens ao vivo da banda com excertos do filme “A Cidade dos Mortos”, de 1960:

E para fechar o álbum, Mother Russia. Sério, não poderiam colocar outra música para fechar o álbum ou então deixar sem isso aí? A canção é uma homenagem e um tributo à Rússia, com letra inspirada na época das reformas políticas que Gorbachov aplicou no país. Apesar de ser algo bonito de ser fazer, e um tipo de canção que é harmonicamente a cara do Steve, a música em si não empolga, sendo muito fraca para fechar um álbum.

E se por acaso você nuuunca ouviu No Prayer For The Dying, nunca é tarde:

A versão da edição remasterizada trouxe uma capa refeita, com um Eddie mais revigorado, tentando pegar o fã que segura o disco. Sou bem mais essa capa, que teve a frase “After the Daylight / The Night of Pain / That is not Dead / Which Can Rise Again” colocada na lápide da tumba.

Capa Remaster

Bem melhor essa aqui hein?!!

Entre Outubro de 1990 e Abril de 1991 houve a turnê No Prayer on the Road, turnê que mudou o visual da banda depois de muito tempo, substituindo àquelas peças de lycra pelo bom e velho jeans. O visual do palco também ficou bem roots, com um pano atrás da bateria de Nicko e só. A ideia de Steve era tentar ambientar os pubs antigos que a banda tocava para pequenas plateias nas origens da banda, só que adaptado para multidões.

Eddie

No Prayer on the Road Tour: 190 concertos em 331 dias de turnê. E até o Eddie de jeans! Já aquele Eddie que aparece durante a canção “Iron Maiden” era feio de doer.

Iron Maiden & Wolfsbane

Foram três bandas que abriram para o Maiden durante a turnê No Prayer on the Road. Uma delas era uma tal de Wolfsbane. Olha quem está lá entre o Dave e o Janick?!!

Em 1991, Steve e Nicko também fizeram parte de um projeto para arrecadar fundos para a Armênia, na mesma toada que Bruce fez no ano anterior. O grupo foi entitulado “McEnroe And Cash With The Full Metal Rackets”, contando com a participação de dois tenistas nas guitarras: John MnEnroe e Pat Cash, além de Roger Daltrey, do The Who, nos vocais e Andy Barnett, amigo de Nicko nos tempos do The Entire Population of Hackney, tocando guitarra de verdade. Os caras mandaram um cover do Led Zeppelin e gravaram um videoclipe:

Full Metal Rackets

The Full Metal Rackets

The First Ten Years

Em Novembro de 1990 tivemos mais um lançamento em VHS, contendo todos os dezesseis vídeos oficiais da Donzela entre os anos 80 e 90, intitulado The First Ten Years. Hoje em dia esse tipo de mídia é algo “descartável” para quem não é fã da banda, até porque quem conhece só os hits vai em qualquer serviço de streaming e assiste ao vídeo que quiser. O legal desse vídeo é que os clipes estão em ordem de lançamento, o que leva o telespectador a presenciar uma evolução do que a banda conquistou em seus dez últimos anos dentro de pouco mais de uma hora de música – eu comprei esse VHS quando moleque e me lembro de ter visto pela primeira vez o clipe de Women in Uniform, que foi gravado ainda com Dennis Stratton, e eu me perguntava “Nossa, mas quem é esse cara?”.

Iron Maiden - The First Ten Years

O VHS The First Ten Years – não houve relançamento em DVD/Blue Ray por razões óbvias

Setlist tocado na No Prayer On The Road

  1. 633 Squadrow Movie Theme (Entrance)
  2. Tailgunner
  3. Public Enema Number One
  4. Wrathchild
  5. Die With Your Boots On
  6. Hallowed Be Thy Name
  7. 22 Acacia Avenue
  8. Holy Smoke
  9. The Assassin
  10. No Prayer For The Dying
  11. Hooks In You
  12. The Clairvoyant
  13. 2 Minutes To Midnight
  14. The Trooper
  15. Heaven Can Wait
  16. Iron Maiden
  17. The Number Of The Beast
  18. Bring Your Daughter … To The Slaughter
  19. Run To The Hills
  20. Sanctuary

No próximo capítulo, apaguem as luzes! Quem tem medo do escuro?

Até mais! Beijo nas crianças!

Kelsei Biral



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12 respostas

  1. Li o post na chegada do aeroporto. Muita coisa que eu nem sequer imaginava. Eu aqui começo uma fase que me distanciei da banda. Não me agradava a ideia da falta da produção. Parecia que a banda iria acabar.

    Kelsei, impressionante a sua série aqui. Muita coisa. Muita informação pra quem é fã.

    MinutoHM segue em
    Frente

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  2. Excelente, mais um post da discografia do Maiden, ou seja, mais momentos prazerosos de entretenimento!!! E de bônus, um novo motivo para voltarmos a escutar o velho No Prayer For The Dying.
    Bom, me lembro de ter comprado uma Rock Brigade na época que tinha o Bruce Dickinson na capa e na entrevista com o vocalista ele contava tudo que estava acontecendo com a banda, algo com: “eu não vou sair do Maiden, apenas gravei um álbum solo… quem saiu foi o Adrian…”.
    Algum tempo mais tarde adquiri o primeiro álbum solo dele e simplesmente achei fantástico!!! O Janick já tinha ouvido no Magic do Gillan e na época não me chamou a atenção, era um guitarrista bem comum, assim como foi Bernie Tormé, seu antecessor na banda do Ian Gillan, mas que não comprometiam em nada.
    Inicialmente, como havia gostado demais do Tattooed Millionaire, achei que foi uma escolha acertada a sua entrada no Maiden. Naquela ocasião, como todo jovem fanático por Iron Maiden e seu novo disco, ouvi à exaustão e tudo estava bom demais!!! Só depois de algum tempo começamos a achar os defeitos e sentir que aquele era um trabalho muito abaixo do que, até então, tínhamos nos acostumados a ouvir do grupo.
    Falando em Wolfsbane, me lembro de ler varias resenhas de shows da banda abrindo para o Maiden e todas, absolutamente todas, rasgavam elogios, inclusive para o vocalista. Vai entender… Quem poderia adivinhar o que viria pela frente?
    — Ps. Estou ouvindo agora o velho No Prayer… enquanto escrevo e estou, mais uma vez, adorando!!! Talvez seja saudosismo, ou quem sabe seja mesmo muito bom ouvir esse disco sem a espectativa que ele seja um clássico da banda.
    Mas voltando a falar sobre o guitarrista novato, realmente o EP do GogMagod é horrível, tenho que concordar, porem gosto bastante dos seus outros trabalhos anteriores ao Maiden, o primeiro disco da sua primeira banda, o Whie Spirit, os seus registros com o Gillan e Fish são muito bons!
    É bastante curioso, mesmo partilhando do mesmo gosto e admiração sobre o Maiden, particularmente, pelo menos neste disco, algumas das músicas que mais aprecio são bem diferentes das que o Kelsei citou como destaque, por exemplo, não gosto de The Assassin e Run Silent Run Deep e por outro lado gosto bastante de Fates Warning e Mother Russia, ah, eu ainda prefiro a capa original. Mas é mesmo só uma questão de gosto pessoal, penso que está aí uma das vantagens do Minuto HM, essa diferença de opiniões e ao mesmo tempo o respeito mútuo entre todos nós.
    Bom, para terminar gostaria mais uma vez de agradecer ao Kelsei pelos agradáveis momentos de distração e por todas as informações que só ele poderia nos proporcionar, o cara certo no lugar certo. Mais um brilhante post!!! Que venha o próximo…
    Um abraço a todos.

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    • JP, você é a primeira pessoa que conheço que coloca Mother Russia como destaque.

      Se eu tivesse que fazer uma lista com as 10 piores canções do Maiden (e que ninguém se atreva a colocar isso para um podcast!!!!) eu com certeza colocaria ela. Mother Russia tem todas as fórmulas musicais para dar certo, mas quando você começa a cantar e vem aquele cunho político, parece que a coisa degringola.

      Talvez seja por isso que eu não goste de bandas que sempre cantam sobre temas como política, como é o caso do Rage Against The Machine. Para mim não é empolgante – não dá aquele tesão em cartar a música, saca?!

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  3. Muito bom teus comentários ! Eu n curto esse álbum , p mim foi o início da decadência da banda ! Sou fã desde 81 ! Abraço !

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  4. Bem , depois de um certo hiato ( justificável, afinal a tarefa aqui é árdua e bota em cheque a motivação) , cá estamos de volta a essa maravilhosa discografia. O tema deste capítulo não é que não é lá essas maravilhas, mas fazer o quê…..
    Então vamos pra guerra, quer dizer, vamos para apreciação conjunta capítulo/cd tocando.
    Há séculos não ouvia esse álbum, e até que a qualidade da gravação está legal, tinha uma referência diferente…… Tailgunner abre muito bem o álbum, mas é a melhor pra mim, e longe. Aí está o problema. Sei que isso é óbvio, mas é a pura verdade. O que se segue se alterna entre até boas canções que estão muito longe da qualidade de tudo que o Iron havia feito até então e músicas realmente fracas.
    Isso posto, entendo que cada um entende determinada música como boa ou fraca. Excelente ou mesmo muito boa eu não consigo destacar nenhuma outra além da que abre o disco. Talvez Assassin possa ser considerada próxima ao muito bom. O restante é discutível dentro de um patamar abaixo da maestria dos álbuns anteriores, então seguem minhas impressões:
    -Holy Smoke é um single bem abaixo dos anteriores , mas traz um muito bom solo de Dave Murray
    -A faixa título não me agrada pelo vocal mais rasgado e pelo solo horroroso de Gers, uma constante no álbum e daqui em diante. Acho muito pouco para uma faixa título. Posso considerá-la no máximo mediana.
    -Public Enema Number One alterna bons momentos no refrão ( uma boa segunda voz) e trechos rasgados nas estrofes que eu passo. O solo de Murray é que salva a música e a coloca também num nível médio. O timbre de Dave está mais agudo do que ouvia pelo menos até o Somewhere in Time . Gosto mais do som anterior.
    -Fates Warning novamente destaca Murray com uma bela introdução. Há um bom trecho dobrado de guitarras no meio da canção que não me agrada nem em estrofe nem em refrão , mas depois desse trecho dobrado vem um solo irritante do Gers e um trecho que flerta com o hard rock. Fraca, dividindo o ponto baixo do lado com Holy Smoke.
    – The Assassin é um ponto mais favorável, como já havia citado, mas o solo do Gers não ajuda de novo. A melodia é bem agradável e o instrumental bem desenvolvido. Dentro do nível do álbum sobra.
    – Run Silent Run Deep tem um refrão mediano , estrofes novamente trazendo um vocal mais rasgado de Bruce que situam-se perto do mediano, isso com boa vontade. Pelo menos dá pra ouvir o baixo , em especial no pré primeiro solo, que é horrível ( de novo o Gers). O solo de Murray não é dos mais inspirados, a linha dobrada a seguir ajuda, mas a música acabou não engatando. Eu voto não….
    -Hooks in You é a pior faixa do disco, tudo aqui é muito fraco. Interminável refrão , interminável canção.
    -Bring you Daughter é o Dickinson tentando salvar o disco, até convence como single e se situa entre as melhores faixas do cd. O solo de Gers tem até seus momentos, pois encaixa no estilo mais hard da canção. Gosto do volume da guitarra depois do solo e do corinho que faz a canção crescer para o final. As guitarras dobradas são simples, mas funcionam. É pra mim a terceira melhor música do álbum, fácil.
    -Mother Russia é um saco, uma fórmula que segue as canções menos inspiradas que a banda viria a fazer dali pra frente. O refrão que abre a parte vocal é constrangedor.Divide com Hooks in You entre as piores faixas, ainda acho aquela um pouco pior, por aqui o instrumental é pelo menos trabalhado e tem alguns momentos de harmonia que até salvam. A parte cantada é a pior do álbum , longe.

    Individualmente, destaco Murray como o melhor do álbum, e longe. Steve está abaixo do que pode fazer, e infelizmente aqui é um turning point negativo para ele. Nicko está sem inspiração e a bateria tem o som sem aquele brilho de álbuns como Piece of Mind ou Powerslave. Dickinson opta por cantar mais rasgado e eu prefiro o vocal clássico e operístico. Outro ponto pra fora. O pior é não ter o Adrian. Aliás, o pior é ter o Gers no seu lugar.

    Kelsei, o post é inversamente proporcional ao cd. Sobra em qualidade que vem se mantendo capítulo a capítulo.
    Aguardo a sequência com ansiedade.

    Parabéns, que discografia brilhante vem sendo construída!

    Alexandre

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