Discografia Iron Maiden – [Apêndice D]: O Velho Marinheiro

O velho marinheiro é mais sábio que você!

Se você é um fã sem noção de Iron Maiden, como eu, esse post não é para você! Nada de novo será aprendido aqui. Esse apêndice é dedicado para aqueles que nunca leram o poema de Samuel Taylor Coleridge e buscaram saber sobre o quê ele trata. Portanto, já deixo aqui a dica: se você quer fazer direito, sai já daqui e leia o poema (em inglês, sem preguiça) e depois faça as devidas comparações com a letra que Steve Harris escreveu. Agora, se você realmente não vai ler o poema, talvez você aprenda algo aqui.

O tal do Samuel

Aqui nas terras tupiniquins, conhecemos Samuel Taylor Coleridge somente por causa de Steve Harris, salvo a ressalva se você estuda Literatura Inglesa. Agora, lá na Inglaterra, muito adolescente já teve (e ainda tem) que lê-lo, pois o escritor é considerado um dos criadores do período Romântico da literatura inglesa (aqui a gente lê José de Alencar e Castro Alves, que não fazem feio a ninguém – se nunca leu, tem que ler!). O poema do velhor marinheiro, cantado hoje ao redor do mundo, faz parte da primeira obra que inaugurou esse período, Baladas Líricas, de 1798, que contém uma série de poemas que balizaram o estilo romântico inglês.

Samuel Coleridge nasceu em 1772 e morreu em 1834. Muitos dos “fatos” existentes no poema vem da própria história que fora escrita por quem teve o privilégio de saber ler e escrever naquela época; então é normal aceitar, assim como muita coisa que se aprende em história, que tudo pode ter mais que uma versão. Nada aqui pode ser encarado como um fato, apesar de hoje termos muita literatura que estudou tanto a vida de Coleridge quanto os acontencimentos do poema do velho marinheiro.

O tal do Albatroz

O buraco é muito mais embaixo do que você imagina. As histórias envolvendo o mar e um albatroz são muito, mas muito mais antigas que Coleridge. Existe uma lenda por trás desse pássaro que ele era um bom presságio aos navegantes antigos, mesmo existindo a real possibilidade do albatroz só acompanhar as antigas embarcações por haver comida nos navios (e eles não precisavam roubar nada, já que as tripulações alimentavam-nos justamente por acreditarem nessas histórias). Lendas à parte, o albatroz nunca pousava nas terras costeiras, o que significa que se ele voasse para longe do navio, então a embarcação estaria próxima de terra firme.

Esse pássaro, querendo ou não, virou um grande símbolo para os ingleses. Na cidade portuária de Watchet existe um monumento, erguido em 2003, especialmente para homenagear Coleridge e sua obra. A foto abaixo virou até atração turística:

Saiba também que existe uma expressão na língua inglesa que é “to have an albatross around someone’s neck”, que foi criada devido ao poema que aqui discorremos. Ela signifca “carregar um fardo”, seja lá qual for. Inclusive, ela é usada até os dias atuais. Veja as tirinhas abaixo, envolvendo os últimos presidentes americanos (apesar da gíria ser da Inglaterra, preferi as anedotas relacionadas às pessoas mais conhecidas mundialmente):

O tal do poema

The Rime Of The Ancient Mariner pode ser lido em um único dia. É um poema curto, mas que conta uma única história com divisão de capítulos, só que em estrofes e versos. Logo, comparando com as obras que lemos no Brasil quando estudamos literatura, ler o Velho Marinheiro está mais para Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões, do que algum poema de Castro Alves, dada as devidas limitações de tamanho. Os Lusíadas é um “tijolo”, nem tem como comparar a imensidão de versos, mas o fato é que existe uma história sendo contada pelos versos e não simplesmente uma demonstração de uma emoção pontual demonstrada dentro de algumas linhas, como é com Castro Alves.

Samuel usou uma métrica para os versos que, quando há uma tradução para uma outra língua, complica a vida do tradutor. Por isso, você vai encontrar mais de um tipo de tradução de The Rime Of The Ancient Mariner. Algumas adaptações são fieis à métrica do poema original, enquanto outras adaptações abrem um pouco à rigidez poética para suavizar a leitura e a interpretação. Esse é mais um motivo para você ler o poema em inglês. E sim, é óbvio que o inglês dos anos 1800 não é igual ao inglês que nos rodeia hoje, mas muitas nuances da língua você vai conseguir entender, se tiver um conhecimento de moderado à avançado (quando adolescente, eu me aventurei nesse poema e, depois de algumas tentativas, preferi dar prioridades às linhas de Dave Murray do que às linhas escritas).

O poema é dividido em sete partes:

  • Parte I: 20 versos, da festa de casamento ao tiro no albatroz;
  • Parte II: 14 versos, dos problemas na embarcação até o pássaro ser pendurado no pescoço do marinheiro.
  • Parte III: 17 versos, da chegada da Morte ao falecimento da tripulação;
  • Parte IV: 15 versos, da solidão do marinheiro à sua redenção;
  • Parte V: 26 versos, do começo da chuva à chegada dos bons espíritos;
  • Parte VI: 25 versos, da conversa dos espíritos à chegada do Hermitão;
  • Parte VII: 25 versos, do salvamento do marinheiro à conclusão da história.

E agora a parte mais interessante: o velho marinheiro foi baseado em um marujo de verdade, conhecido como Simon Hatley, que realmente matou um albatroz durante uma expedição do navio Speedwell ao extremo sul da América do Sul, em 1719.

A tal da música daquela banda inglesa

Agora, falando da música do Iron Maiden, o que Steve Harris criou foi um resumão da história contada no poema: um resumo que não inventa nada e obedece à ordem cronológica dos acontecimentos dentro da obra literária. Mesmo utilizando da estrutura de versos, Coleridge tenta ambientalizar momentos dos acontecimentos com a poesia, o que não traz fatos novos à história. Isso abriu caminho para Steve Harris conseguir traçar uma espinha dorsal da história na letra de sua canção. E melhor que muito resumo de livro por aí…

E o baixista estava treinando faz muito tempo para conseguir criar uma obra-prima dessas. Não dá para continuar sem antes darmos uma menção honrosa às faixas Phantom Of The Opera (Iron Maiden) e To Tame A Land (Piece Of Mind) – sim, eu sei que existem muitos outros exemplos, mas acredito que essas duas sejam os alicerces. Steve queria criar uma música de impacto baseada em uma grande obra, um épico musical. Na primeira tentativa, ele se baseou em um personagem (que ele voltou a repetir no álbum Killers, com Gengis Khan, mas não na forma de épico). Já na segunda, um romance muito conhecido e um dos mais vendidos (em Killers isso também existiu, com Murders In The Rue Morgue, do Edgar Allan Poe – o ponto maior é que no segundo álbum da banda as músicas eram curtas e ficaram mais como uma referência temática do que uma obra épica).

A faixa que encerra o Piece Of Mind tem a mesma estrutura musical de The Rime Of The Ancient Mariner: uma introdução, o contar da história, um momento de clímax (dentro da história) e o desfecho. Tirando de lado o duelo que temos no blog entre Poweslave e Piece Of Mind, existem alguns fatores que Steve Harris pôs em prática em To Tame A Land, mas que ele lapidou na faixa que encerra Poweslave. É como se no primeiro épico ele marcasse um gol e no segundo, um gol no ângulo. Mas, sem clubimos, vamos a esses fatores:

1. A relevância literária: Dune, que inspirou To Tame A Land, é o romance americano de ficção científica mais vendido de todos os tempos (até hoje), mas dentro da Inglaterra o poema de Coleridge tem mais relevância para a população. O Iron Maiden, em 1983, já tinha um nome consolidado no cenário, mas o heavy metal ainda não estava popularizado mundialmente e não havia ainda a catarse de hoje em torno da banda. Nos tempos de hoje, e com o mundo integrado digitalmente, com certeza esse item seria descartado.

2. A escolha da história: me desculpem os adoradores de ficção científica, mas Dune tem um vocabulário que espanta quem não é do meio: Muad’Dib, Kwizatz Haderach, Gom Jabbar, só para citar alguns termos. Cantá-los, então, piora a situação. Com o poema de Coleridge, mesmo sendo um poema (que também espanta muita gente), o vocabulário é mais simples, assim como a estrutra da história é menos complexa (ler um poema é menos trabalhoso, nesse caso em particular).

3. O desenrolar da música pós-climax: ambas as canções tem pontos muito similares aqui. Quase que dá para encaixar os versos “The Time Will Come For Him / To Lay Claim His Crown” com “Then The Spell Starts To Break / The Albatroz Falls From His Neck“. Os solos de guitarra entram em sequência. O que vem depois é o fator que quero demonstrar: Steve termina To Tame a Land enquanto que ele volta a desenvolver a música em Rime Of The Ancient Mariner, com a base dos versos iniciais. O fator progressivo da faixa que encerra Piece Of Mind é maior nesse ponto, mas o fechamento do círculo musical que cerca a história do Marinheiro fez com que mais gente se aproximasse da banda.

4. O tempo total da faixa: aqui vem a minha crítica que sempre faço em adaptações literárias (principalmente para cinema). Qualquer adaptação sempre fica pior que a obra original, por isso que sempre prefiro o livro. No caso de música, e não cinema, vale o mesmo. Contar uma história em quase 14 minutos e mais fácil que contar uma história em quase metade desse tempo. Você vai discordar de mim e fazer eu morder minha língua quando a banda compôs Alexander The Great, só que nesse caso não temos uma história literária, mas um resumo da vida de um personagem marcante, então não é a mesma comparação.

Musicalmente, também não dá para continuar sem bater palmas a um dos hinos do Heavy Metal, Hallowed Be Thy Name, pois ele possui a cerne do riff de The Rime Of The Ancient Mariner, que está na tonalidade de Em (Mi menor). Na faixa que encerra o espetacular The Number Of The Beast, Steve retirou as notas inicias Si e Dó do riff de guitarra que se destaca no minuto 01:45, dando uma pequena alteração de ritmo no resto da frase e alongando a base feita no acorde de Mi Menor (trazendo a ideia do movimento contínuo do navio em mar aberto). Esse Mi Menor permeia na maior parte da música, trazendo o ouvinte para dentro do vai-e-vem do navio. Escrever o que seria bem mais fácil tocar, principalmente para quem não tem base musical, é muito difícil, mas não há um vídeo que mostre isso. As outras frases de guitarra inseridas (os riffs que complementam a base, assim como as dobras de terça no decorrer da canção) simbolizam acontecimentos dentro da viagem, que, uma vez resolvidos (e que não nos interessa saber quais são), dão espaço novamente ao mar para nos levar viagem afora.

Toda a análise abaixo foi feita a partir da letra da música; e não do poema! Entretanto, para refinar ainda mais a interpretação, resolvi equiparar os excertos da canção com os versos referentes àquele excerto, assim você conseguirá perceber os versos originais de onde Steve Harris criou a letra.

Importante que eu não estou colocando todos os versos do poema. O que eu fiz foi um resumo e um “catadão” dos versos que melhores fazem referência à letra escrita por Steve. Apesar dos excertos do poema estarem em ordem cronológica, eu omito alguns versos para não “chover no molhado”, até porque o intuito aqui não é escrever o poema na íntegra.

Junto da letra e do excerto do poema referente eu adiciono uma ilustração feita por Gustavo Doré, para facilitar ainda mais o entendimento do momento que a história se encontra. Aqui vale a mesma coisa: existem bem mais imagens criadas pelo artista, mas eu coloquei a que melhor expressa o momento da letra do Iron Maiden.

Gustavo Doré, vale lembrar, foi um dos maiores pintores do século 19. O cara não só ilustrou esse poema, mas também obras do cacife de Miguel de Cervantes, Victor Hugo, Lord Byron, Dante Alighieri e até a Bíblia. O livro com as ilustrações do poema de Coleridge foi publicado em 1877, na Alemanha, oitenta anos depois que o poema surgiu. Abaixo a capa original:

Bora para a música? Aperta o play!


Nota: as sessões abaixo não são bem vistas com celular. A divisão entre a letra da música e os versos do poema não aparecem (nos modulos Apple e Samsung que eu acessei). Recomenda-se o bom e velho computador.

A história começa em uma festa de casamento, onde os protagonistas do matrimônio são meros coadjuvantes frente ao nosso real protagonista: um velho marinheiro, que não tem nome declarado. E que decide parar um convidado da festa para lhe contar sobre algo que ocorrera em sua vida.

Hear the rime of the ancient mariner
See his eyes as he stops one of three
Mesmerizes of one of the wedding guests
Stay here and listen to the nightmares of the sea!

It is an ancient Mariner,
And he stoppeth one of three.
‘By thy long grey beard and glittering eye,
Now wherefore stopp’st thou me?


He holds him with his glittering eye
The Wedding-Guest stood still,
And listens like a three years’ child:
The Mariner hath his will.

The Wedding-Guest sat on a stone:
He cannot choose but hear;
And thus spake on that ancient man,
The bright-eyed Mariner.

A história que se inicia é mais importante que o evento do casamento. O velho marinheiro não hesita em interrompê-lo, mesmo a noiva, a figura mais importante e aguardada do casamento, entrando à cena.

And the music plays on, as the bride passes by
Caught by his spell, and the mariner tells his tale

The bride hath paced into the hall,
Red as a rose is she;
Nodding their heads before her goes
The merry minstrelsy.

The Wedding-Guest he beat his breast,
Yet he cannot choose but hear;
And thus spake on that ancient man,
The bright-eyed Mariner.

Damos inicio à aventura. O navio tinha partido para uma viagem inédita, para um local nunca outrora visitado. Junto da embarcação, uma ave, um albatroz, símbolo de sorte e bons presságios, acompanhava a viagem. Mesmo com neblina e muito gelo, a ave não deixa de seguir o navio.

Driven south to the land of the snow and ice
To a place where nobody’s been
Through the snow fog flies on the albatross
Hailed in God’s name, hoping good luck it brings


And the ship sails on, back to the north
Through the fog and ice and the albatross follows on

And now the storm-blast came, and he
Was tyrannous and strong:
He struck with his o’ertaking wings,
And chased us south along.

At length did cross an Albatross,
Thorough the fog it came;
As if it had been a Christian soul,
We hailed it in God’s name.

And a good south wind sprung up behind;
The Albatross did follow,
And every day, for food or play,
Came to the mariner’s hollo!

Aqui temos a virada da parte I para a parte II do poema. No último verso da primeira parte temos o tiro de flecha no pássaro. Após a morte do albatroz, a tripulação, que culpava o marinheiro, agora adere que ele estava certo. A tristeza e a culpa são tão grandes que o silêncio do oceano os encobre.

The mariner kills the bird of good omen
His shipmates cry against what he’s done
But when the fog clears, they justify him
And make themselves a part of the crime

Sailing on and on and north across the sea
Sailing on and on and north ‘til all is calm

‘God save thee, ancient Mariner!
From the fiends, that plague thee thus!
Why look’st thou so?’—With my cross-bow
I shot the albatross.

And I had done a hellish thing,
And it would work ‘em woe:
For all averred, I had killed the bird
That made the breeze to blow.
Ah wretch! said they, the bird to slay,
That made the breeze to blow!

Nor dim nor red, like God’s own head,
The glorious Sun uprist:
Then all averred, I had killed the bird
That brought the fog and mist.
‘Twas right, said they, such birds to slay,
That bring the fog and mist.

E aqui começa a reviravolta. A morte do pássaro inicia um período de seca. A palavra “vingança”, colocada por Steve na canção, em nenhum momento é mencionada no poema. Nessa parte do romance não é possível identificar que a seca está relacionada à morte do pássaro (o que será possível de entender mais à frente, nas partes finais). Steve traz um “spoiler” que, liricamente, dá um tom ideal à trama narrada na música.

The albatross begins with its vengeance
A terrible curse, a thirst has begun
His shipmates blame bad luck on the mariner
About his neck, the dead bird is hung

And the curse goes on and on and on at sea
And the thirst goes on and on for them and me

And every tongue, through utter drought,
Was withered at the root;
We could not speak, no more than if
We had been choked with soot.


Ah! well a-day! what evil looks
Had I from old and young!
Instead of the cross, the Albatross
About my neck was hung.

Para melhorar ainda mais a parte lírica, Steve traz dois versos do poema à letra da música: números 8 e 9 da parte II, que se referem ao início do período de seca. Os versos já cantados por Bruce (no parágrafo anterior) estão à frente na história (o albatroz é pendurado no pescoço do marinheiro somente no verso 14, que encerra a parte II). Steve fez essa escolha devido à métrica e rimas mais simples desses dois versos, que eram mais ideias para um encaixe na parte cantada.

Day after day, day after day
We stuck nor breath nor motion
As idle as a painted ship

Upon a painted ocean

Water, water, everywhere

and all the boards did shrink
Water, water, everywhere
,
not any drop to drink!

A parte III do poema se inicia. Toda a tripulação está a sofrer quando o marinheiro vê, ainda muito ao longe, algo que, ao se aproximar, se apresenta como uma embarcação, com uma tripulação deveras pequena: um casal – uma mulher (uma “morta viva” ou zumbi) e a própria morte.

There!, calls the mariner
There comes a ship over the line
But how can she sail with no
Wind in her sails and no tide?
See, onward she comes
Onward she nears, out of the sun
See, she has no crew She has no life; wait, but there’s two!

A speck, a mist, a shape, I wist!
And still it neared and neared:
As if it dodged a water-sprite,
It plunged and tacked and veered.

With throats unslaked, with black lips baked,
We could nor laugh nor wail;
Through utter drought all dumb we stood!
I bit my arm, I sucked the blood,
And cried, A sail! a sail!


Are those her ribs through which the Sun
Did peer, as through a grate?
And is that Woman all her crew?
Is that a DEATH? and are there two?
Is DEATH that woman’s mate?

Her lips were red, her looks were free,
Her locks were yellow as gold:
Her skin was as white as leprosy,
The Night-mare LIFE-IN-DEATH was she,
Who thicks man’s blood with cold.

A embarcação estava comprometida. Mesmo assim, a morte e sua parceira decidem na jogatina quem deve ganhar quem. Elas jogam dados e decidem na sorte o destino dos marinheiros.

Death, and she life in death
They throw their dice for the crew
She wins the mariner

And he belongs to her now

The naked hulk alongside came,
And the twain were casting dice;
‘The game is done! I’ve won! I’ve won!’
Quoth she, and whistles thrice.

A morte ganha a tripulação, com exceção do velho marinheiro, que pertence à morta-viva, que decide deixá-lo vivo. Era o início do sofrimento do velho marinheiro, que viria a sentir o que sentiu o albatroz, quando fora alvejado: cada uma das duzentas almas sendo levadas pela Morte passa por dentro do marinheiro, para que ele sentisse o que sentiu o pássaro. Esse “detalhe” não está na letra de Steve, mas deixei o verso abaixo à direita pois acredito que esse é o único detalhe do sofrimento do velho marinheiro não exposto na letra da Donzela.

Then, crew one by one
They drop down dead, two hundred men
She, she, life in death

She lets him live, her chosen one

The souls did from their bodies fly,
They fled to bliss or woe!
And every soul, it passed me by,
Like the whizz of my cross-bow!

A descrição da morte de toda a tripulação é a segunda parte da canção que é descrita por Steve pelos próprios versos do poema (números 16 e 17 da parte III). Esse também é o momento que a música sofre uma reviravolta na harmonia e Bruce declama o excerto abaixo interpretando o próprio velho marinheiro em seu conto.

One after one, by the star dogged moon
Too quick for groan or sigh
Each turned his face, with a ghastly pang
And cursed me with his eye

Four times fifty living men
And I heard nor sigh nor groan
With heavy thump, a lifeless lump
They dropped down, one by one

É o fim da parte III do poema. Toda a tristeza e abandono sentidos pelo velho marinheiro podem ser sentidos junto à melodia da guitarra de Adrian Smith e ao galope do baixo, que soa uma angústia interminável! Uma frase densa que se repete entre os minutos 05:00 e 07:35, com poucas modificações de nota, que convida o ouvinte a sofrer e a sentir o vazio que estava dentro do marinheiro, antes, durante e depois da morte de todos os duzentos tripulantes. É no meio dessa angústia que existe uma reviravolta: um lapso de consciência atinge o marinheiro, que percebe o mal feito ao albatroz. Esse é o momento que entra um dos mais espetaculares dedilhados de baixo que Steve compôs em toda sua carreira. Timbre, tempo, melodia e cadência dão as mãos e, em protagonismo, estendem o tapete vermelho para Bruce entrar no verso a seguir:

The curse, it lives on in their eyes
The mariner, he wished he’d die
Along with the sea creatures
But they lived on, so did he

And by the light of the moon
He prays for their beauty, not doom
With heart he blesses them
God’s creatures, all of them too

Alone, alone, all, all alone,
Alone on a wide wide sea!
And never a saint took pity on
My soul in agony.


I looked to heaven, and tried to pray;
But or ever a prayer had gusht,
A wicked whisper came, and made
My heart as dry as dust.


O happy living things! no tongue
Their beauty might declare:
A spring of love gushed from my heart,
And I blessed them unaware:
Sure my kind saint took pity on me,
And I blessed them unaware.

A parte IV do poema acaba com a redenção máxima do velho marinheiro: o feitiço se rompe e o albatroz, que estava ainda pendurado em seu pescoço, cai e afunda como chumbo mar adentro. Começa a chover! O período de seca termina. Nesse trecho da música você começa a percebe que ela sai do ambiente de angústia e fica mais “feliz”. As linhas de cordas acompanham o sentimento de velho marinheiro por todo esse período. Os solos de guitarra de Adrian e Dave simbolizam o alívio e regozijo do nosso personagem, contemplando todas as boas emoções que ele sentira (existem versos do poema na parte IV que descrevem essa sensação do marinheiro, mas são os solos que os transcrevem).

Then, the spell starts to break
The albatross falls from his neck
Sinks down like lead, into the sea
Then down in falls, comes the rain!

The self-same moment I could pray;
And from my neck so free
The Albatross fell off, and sank
Like lead into the sea.

Após a chuva dar vida ao marinheiro e ele se sentir vivo novamente, um vento toma o navio e faz com que a tripulação morta volte à vida. O marinheiro entende que ele estaria amaldiçoado novamente e uma nova série de problemas iniciaria.

Hear the groans of the long dead seamen
See them stir and they start to rise
Bodies lifted by good spirits
None of them speak, and they’re lifeless in their eyes

And revenge is still sought, penance starts again
Cast into a trance and the nightmare carries on

The loud wind never reached the ship,
Yet now the ship moved on!
Beneath the lightning and the Moon
The dead men gave a groan.

They groaned, they stirred, they all uprose,
Nor spake, nor moved their eyes;
It had been strange, even in a dream,
To have seen those dead men rise.

Os corpos da tripulação não são uma nova maldição. Eles auxiliam o marinheiro para içar as velas do navio e seguir viagem. Com a tarefa concluída, as almas dos marujos mortos sobem aos céus e uma tranquilidade chega à embarcação. O marinheiro sente que a maldição não está mais lá, não voltará e o navio segue viagem.

Now the curse is finally lifted
And the mariner sights his home
Spirits go from the long dead bodies
Form their own light and the mariner’s left alone

For when it dawned—they dropped their arms,
And clustered round the mast;
Sweet sounds rose slowly through their mouths,
And from their bodies passed.


And now ‘twas like all instruments,
Now like a lonely flute;
And now it is an angel’s song,
That makes the heavens be mute.

It ceased; yet still the sails made on
A pleasant noise till noon,
A noise like of a hidden brook
In the leafy month of June,
That to the sleeping woods all night
Singeth a quiet tune.

O fim da parte V e o início da VI discorrem sobre dois espíritos que aparecem e questionam os atos do marinheiro. E o veredito é que ele matou o albatroz e deve pagar em vida! Os espíritos impulsionam o barco para em direção de uma costa (e até esse momento esse pontos não são colocados na canção do Maiden), onde um barco avista o solitário marinheiro, que é salvo enquanto o navio afunda em um redemoinho (e aqui já estamos na parte VII).

And then a boat came sailing towards him
It was a joy, he could not believe
The pilots boat, his son and the hermit
Penance of life will fall onto him

And the ship, it sinks, like lead, into the sea
And the hermit shrieves the mariner of his sins

Oh! dream of joy! is this indeed
The light-house top I see?
Is this the hill? is this the kirk?
Is this mine own countree?


A little distance from the prow
Those crimson shadows were:
I turned my eyes upon the deck
Oh, Christ! what saw I there!


But soon I heard the dash of oars,
I heard the Pilot’s cheer;
My head was turned perforce away
And I saw a boat appear.


The Pilot and the Pilot’s boy,
I heard them coming fast:
Dear Lord in Heaven! it was a joy
The dead men could not blast.


Stunned by that loud and dreadful sound,
Which sky and ocean smote,
Like one that hath been seven days drowned
My body lay afloat;
But swift as dreams, myself I found
Within the Pilot’s boat.

O trabalho no casamento está feito. O velho marinheiro cumpriu mais uma vez o seu dever se contar as lições que aprendeu por onde passara. E agora ele continuará a andar e, enquanto seu coração bater, ele estará fadado a contar sua história.

The mariner’s bound to tell of his story
To tell his tale wherever he goes
To teach God’s word by his own example
That we must love all things that God made


And the wedding guest’s a sad and wiser man
And the tale goes on and on and on

I pass, like night, from land to land;
I have strange power of speech;
That moment that his face I see,
I know the man that must hear me:
To him my tale I teach.


Farewell, farewell! but this I tell
To thee, thou Wedding-Guest!
He prayeth well, who loveth well
Both man and bird and beast.


The Mariner, whose eye is bright,
Whose beard with age is hoar,
Is gone: and now the Wedding-Guest
Turned from the bridegroom’s door.

He went like one that hath been stunned,
And is of sense forlorn:
A sadder and a wiser man,
He rose the morrow morn.


Para finalizar, gostaria de dizer que o poema, em si, é muito atemporal e até os dias de hoje temos uma mensagem de quase duzentos anos que ainda é ensinada por diversos canais: que precisamos proteger a natureza e as regras que estão muito acima das ações humanas. É incrível a capacidade que temos em não aprender as coisas, porque acredito que essa mensagem ainda permanecerá entre nós por muitos anos a frente.

Um beijo nas crianças!
Kelsei



Categorias:Discografias, Iron Maiden

2 respostas

  1. Cace** mermao! Impressionante isso aqui!

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  2. Que viagem! Agora sim, a minha canção favorita da donzela de ferro finalmente sendo destrinchada por aqui!

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