Maurílio Meirelles – o “cara“ da Sub Som Discos (In Memoriam)

É com extremo arrependimento que eu venho nesta data para traçar algumas linhas sobre o Maurílio, o dono da extinta loja Sub Som Discos. O arrependimento se dá pelo simples, mas muito importante fato de que eu deveria ter feito isso antes do falecimento do Maurílio, que nos deixou ontem, dia 10/junho/2021. Homenagens como essa devem ser feitas quando o próprio poderia ter a possibilidade de lê-la. Enfim, essa terrível doença nos deixa desde ontem órfãos deste que foi um verdadeiro guru na década de 1980 no âmbito musical. Sua atuação profissional como o “cara“ da Sub Som Discos ajudou a moldar a personalidade de muitos de nós, e aqui eu me incluo sem pestanejar.

Para tentar traçar um pouco da inestimável importância do Maurílio, conheci a Sub Som ali no início dos anos 1980. Boa parte da minha geração passou horas na galeria carioca vendo os discos no local. A loja se situava no subsolo bem em frente à descida das escadas rolantes de acesso. O Maurílio colocava os lançamentos de frente a estas escadas rolantes, expostos no vidro em destaque, assim todos nós quando chegávamos ao subsolo, já ao ir descendo os degraus nos inclinávamos para ver quais álbuns estavam chegando, era sempre um alvoroço em pleno boom da chegada dos álbuns internacionais na fase situada à beira do primeiro Rock in Rio. Em 1983, já me considerava um assíduo frequentador da loja. Ainda não havia lojas como o Fonit ou Heavy, essas surgiram depois na mesma galeria, mas em outro andar. E ao contrário das lojas citadas, a Sub Som não era uma loja de hard e heavy metal apenas. Dentro da loja, outros subgêneros do rock e outros estilos dividiam o espaço com nossa maior predileção. Além disso, a loja não fazia concorrência de preço com as demais lojas. O preço era o justo, às vezes até um pouco maior do que as outras lojas. E por que eu sempre tive a preferência pela Sub Som? Uma boa parte se dá pelo atendimento do Maurílio.

Preciso citar algumas histórias do atendimento do Maurílio, afinal, ele não apenas vendedor e o dono da loja, como se isso fosse pouca coisa no início da década de 1980. O Maurílio ia além, a loja era um bem notadamente para ele muito precioso. Ele gostava de grande parte do material que vendia, e quando perguntado não se furtava a dar uma consultoria em relação a um ou outro determinado álbum. Em 1987, por exemplo, o Whitesnake lançava o Serpens Albuns (ou Whitesnake 87) e nem é preciso dizer que ninguém ouvia ou via nada antecipado, no máximo um single ou videoclipe pelas poucas rádios e raros programas de vídeo clip que existiam no Rio de Janeiro. Lembro-me de ter ido à loja, já fã do Whitesnake e ter perguntado a ele se valia à pena comprar o álbum. É preciso ressaltar que o estilo de predileção musical do Maurílio sempre foi mais amplo, ou seja, o conselho precisava ir além de “gostei ou não gostei”. A resposta foi simples, mais muito assertiva. Eu me lembro dele colocar que era um álbum muito diferente, longe da proposta mais blues rock do restante da carreira, voltado ao mercado americano de hard da época, mas sem dúvida era um álbum muito bom pra quem não fizesse questão de se manter dentro do estilo inicial da banda de Coverdale. O resultado dessa conversa pode ser visto aí abaixo…

Outro momento que ficou na minha memória foi de ficar esperando o lançamento do Animalize, do Kiss, do lado de fora da loja. De alguma forma ele me avisou que o disco chegaria num sábado e naquele dia lá fui eu para galeria, sentar nos banquinhos que ficavam nos corredores do andar, aguardar a chegada do álbum. Já conhecia o clipe de Heaven’s on Fire e algumas fotos da banda com o então recém-chegado integrante Mark St John, mas o resto ficava só na imaginação. O Maurílio me falou para acalmar a ansiedade, que o álbum ia chegar próximo ao fim do expediente da loja, provavelmente não daria tempo de colocar à venda naquele dia, mas que ele separaria um para mim. Realmente já avançava bastante na tarde daquele sábado quando chegaram caixas com vários álbuns, e ele foi lá, abriu o Animalize, botou o selinho da Sub Som (que infelizmente não está mais no lugar, tantos anos depois) e me chamou para levar o álbum para casa.

Naquela época, muitas das vezes nós voltávamos à pé pra casa, já que o dinheirinho contado para comprar os discos não sobrava para pegar o ônibus, e aí era aqueles cerca de 20 a 30 minutos de ansiedade até colocar o álbum pra tocar. Em plena ebulição pós Rock in Rio, os banquinhos do lado de fora da Sub Som (e também no andar da Fonit ou Heavy) ficavam cheio de gente conversando sobre álbuns e bandas, foram muitos lançamentos motivados pelo sucesso internacional em nossas terras do rock de 1985 ou antes.

Vou trazer mais uma história, certamente há várias outras que a memória não ajuda tanto assim. Em 1985, o Iron Maiden lançou o Live After Death, que também era esperado com grande ansiedade no Rio de Janeiro. A donzela vivia um dos seus grandes momentos de admiração no Brasil, e muitos de nós esperávamos o disco duplo com expectativa. A versão nacional não trazia encarte com as letras, coisa comum pela avareza das gravadoras nas versões tupiniquins. A grande e simples sacada do Maurílio, tamanha a repercussão antecipada que o álbum já trazia, foi obter um encarte de versão importada e reproduzir cópias (em preto e branco e trazendo o logo da loja em local estratégico). Assim, o comprador do disco na Sub Som, além do famoso selinho da loja, receberia o encarte com as letras.

Uma menção especial eu preciso fazer aqui para o selinho da loja e também para o saco plástico branco onde ele colocava cada álbum vendido. Mais do que o material ter o cunho publicitário, para muitos de nós ele representava uma espécie de grife.

Pode parecer uma insanidade, mas para mim, o disco comprado na Sub Som tinha esse atestado de qualidade que nenhuma outra loja possuía. O selinho poderia ser facilmente retirado, não marcava os álbuns, mas só se soltaram dos vários discos que compramos lá apenas pela ação do tempo. Boa parte deles permanece até hoje…

 

Foram muitos e muito álbuns, e os comprados em outras lojas, se viessem com algum adesivo, eram meticulosamente retirados – coisa que nunca fizemos com os álbuns comprados na Sub Som.

Durante o avanço da tecnologia, durante os anos que se seguiram, a loja foi perdendo espaço e inicialmente precisou mudar de local, o que certamente atrapalhou as vendas, até pela tradição que era ter a Sub Som no subsolo da Rua Conde de Bonfim, 346. Nessa época eu perdi contato não só com a loja, mas também com o Maurílio. Hoje, lendo alguns relatos pela internet, soube que ele precisou mudar de atividades e passou por alguns problemas de saúde. Mas isso em verdade agora pouco vai fazer diferença. Afinal, o tempo passa, assim como as oportunidades de fazer algo diferente. Olho pra trás com saudade daquele tempo, mas a vida de todos foi mudando, as responsabilidades nos deixaram com menos tempo ou até preguiçosos para manter aquela rotina que tanto nos agradava. Confesso que há sim uma ponta de arrependimento, afinal, ainda com dificuldade, há ainda na mesma galeria algumas poucas lojas como a Schererazade ou a Headbanger. E ainda assim, mesmo antes da pandemia, eu me arrependo de não frequentar tanto essas lojas como eu gostaria. Melhor ainda seria ter o Maurílio por lá…

Acordei nesta manhã com essa notícia triste, vinda do meu brother Rolf. Senti-me compelido a pesquisar na internet alguma mensagem, algum texto, algo que me confortasse de alguma forma. Vi algumas mensagens carinhosas, inclusive de músicos como o Ivo do Água Brava e do Ed Motta. Por fim achei esse texto publicado em 1995 no jornal O Globo. Achei importante deixar registrado conosco também.

Eu queria fechar esse post agradecendo o Maurílio, onde quer que ele esteja. Sua importância para mim e vários de nós não cabe nessas rasuras que acabei de escrever. Descanse em paz, saiba que sua jornada junto a nós foi brilhante e vai deixar muitas saudades.

Saudações a todos,

Alexandre B-side.

Colaborou de forma inestimável com as fotos dos álbuns: Flávio Remote.



Categorias:Artistas, DIO, Discografias, Iron Maiden, Kiss, Led Zeppelin, MetallicA, Off-topic / Misc, Rainbow, Whitesnake, Yngwie Malmsteen

12 respostas

  1. Realmente uma lastimável perda. Difícil quem curtisse Rock and Roll na zona norte do Rio nos anos 80 e não conhecesse a Sub-son. Eu era moleque (12/13/14 anos de idade) quando entrava lá, antes ou depois das aulas, meio tímido e quase não falava com ninguém. Minha coleção de vinis também tinha grande parte das aquisições feitas por lá. Nas oportunidades que tenho de ir ao Rio passamos pela galeria e visitamos o ponto. Os bancos ainda estão lá.
    Mas tudo se movimenta. Não cheguei a conhecer a outra loja. Muito boas lembranças daquela época de ouro.
    Obrigado Maurilio por nos proporcionar tão agradáveis memórias.

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    • Cláudio, obrigado por contribuir aqui. Eu mesmo também demorei bastante a conversar mais com o Maurílio, mas esse papo um pouco maior foi surgindo conforme a coleção de álbuns comprados lá foi aumentando. Não digo pela questão comercial, mas até pela maneira que ele talvez começasse a nos entender musicalmente. Independente dessa ” evolução”, o Maurilio pra mim era a figura ponderada e profunda conhecedora de tudo que tinha na sua loja. Uma espécie de sábio, sabe ? A mudança para o outro local ( Tijuca Off Shopping) alterou a característica da loja e entendo que diminuiu a tradição e força da marca. Talvez tenha sido a melhor cartada do ponto de vista comercial, talvez inevitável naquele momento para o ramo, mas o fato é que mesmo eu não posso trazer mais impressões, face ao fato de que aos poucos também fui ” sumindo” de lá.
      Então vamos guardar com carinho as lembranças de ouro e prestar sempre uma homenagem a essa incrível pessoa que foi o Maurilio.

      Saudações,

      Alexandre

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  2. Alexandre B Side Excelente seu post. Está tudo aí E ainda os discos de vocês com os selos. Nossa que homenagem Muito obrigado

    >

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    • Obrigado, Rolf. Que bom que gostou..

      Agradeço também ao Flávio por cuidar dos discos com tanto carinho, não poderiam estar em melhores mãos. A homenagem, mais do que necessária, era obrigatória para nossa geração. Espero ter realmente feito jus e retribuído um pouco da importância que Maurilio sempre foi para todos nós.

      Alexandre

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  3. Eu sempre o achei gente finíssima, de ótimo papo e muita educação e cordialidade! Era um adolescente duro, mas ele nunca se importou de eu ficar na loja, zumbizando e lambendo os discos com a testa. Tenho algumas lembranças da Sub-Som e dele: (1) De certa vez gastei toda a minha mesada com um pirata do Iron Maiden (“British Thunder”, que tenho até hoje!). (2) De outra, comprei lá o Maiden Japan e a ansiedade de chegar em casa e por pra tocar superou o fato de que meu avô materno falecera naquele mesmo dia! Como meus pais tinham ido para São Paulo para seu sepultamento, a casa estava vazia e fiz as paredes tremerem… (3) Comprei esse famigerado encarte do “Live After Death”. Foi mesmo uma sacada de mestre! e (4) uma vez fiquei lá, batendo papo com ele e com o falecido Jacaré da Água Brava, sobre o compacto que tinham acabado de lançar. Eu, durango-kid (como diria Raul) não comprei. E nunca mais vi…
    Depois que ele saiu do Vitrine da Tijuca foi para o Off Shopping, também no subsolo, como só poderia ser… Até cheguei a ir na loja nova mas o achei meio caído e desmotivado. Logo depois a loja encerrou as atividades.
    Pra finalizar, como eu era um purista idiota, retirava todos os selinhos assim que chegava em casa. Assim, não tenho nenhum de recordação…
    Bom, que ele descanse em Paz!

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  4. Sendo paulistano e mais novo de idade e, consequentemente, de época, mas conhecendo agora após tantos anos os gêmeos e o Claudio, através do Rolf, ao ler isso, só posso minimamente atestar a paixão de todos pela época, lembranças, e dizer que realmente a loja e tudo que tinha em volta fez parte fundamental da formação de todos que menciono aqui – e, claro, de muitos outros.

    Leio o post e me transporte junto de todos a um pouquinho da vida deles, já que as histórias já haviam sido contadas e repetidas, dada tal importância, e são excelentes.

    E também me recordo de ter passado pela “Galeria” do Rio, no Shopping Tijuca (é isso, pessoal?), então fazer parte desta história para mim, ainda que de maneira tão leviana, é muito legal.

    Alexandre, linda homenagem por aqui.

    Que o Maurílio descanse em paz.

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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    • Sim, são lembranças inesquecíveis, aquela galera junta no auge o HM no Brasil. A loja e a Galeria eram ponto de encontro para aquele bate papo e aquisições, trocas.
      o nome da pequena galeria chamada de shopping é Shopping Vitrine da Tijuca e ainda temos lojas de “discos” lá que são verdadeiras heróis da resistência.
      Os adesivos estão durando também o possível, mas realmente nada é para sempre…. Verifiquei no post do Animalize que estava lá ainda (2009) e agora já se foi, vejam: https://minutohm.com/2009/10/19/kiss-discografia-20a-parte-album-animalize/
      Sobre o Maurílio, tinha uma postura sóbria e era (como todos falaram aqui) um grande conhecedor de rock em geral e um pioneiro, pois a loja foi a primeira do local (depois vieram as outras). Aquela loja trazia um respeito para mim único, era realmente a maior referência em tudo relacionado com rock e musica em geral, era um local sagrado. Os adesivos da Subsom eram mantidos nos discos, como selo de qualidade. Se eu pudesse, colocaria em todos os vinis que tenho.
      E no fim concordo com o Alexandre, que fez um resgate muito pertinente e como sempre no alvo: devemos tentar homenagear nossas referencias ainda em vida, era uma divida, que infelizmente só pode ser retirada depois do triste falecimento do Maurílio.
      Que descanse em paz, ou melhor, que descanse curtindo o nosso velho Rock n Roll
      Flávio

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    • Eduardo, obrigado pelas palavras. Fazer o post era uma obrigação, uma quase retribuição mínima àquele que tanto nos ajudou a conhecer a grande maioria dos ídolos e obras que ficaram na memória viva até hoje.

      Alexandre

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