Discografia Iron Maiden – Episódio 15: A Matter Of Life And Death

Agora é guerra!

No capítulo anterior (que você poder ler aqui), vimos a horrorosa capa de Dance Of Death junto com um álbum que atingiu muito mais a novos fãs do que seus antigos fãs, com músicas seguindo uma fórmula convencional e, em muitos casos, previsível. A banda precisava de um novo lançamento que agitasse o esqueleto de seus antigos seguidores e provasse que ainda era capaz de ter um álbum tão brilhante como as memoráveis obras oitentistas. Ou não.

Turnê Eddie Ripps Up The World e o “incidente” no Ozzyfest

Era para isso estar no episódio anterior. Mas está nesse aqui, por uma razão. Após a turnê Death On the Road, o Maiden saiu em uma nova turnê conhecida como Eddie Ripps Up The World, que não veio para a América Latina. Era uma comemoração aos primeiros quatro álbuns do grupo, que durou de Maio até Setembro de 2005.

O “incidente” aconteceu em San Bernadino, no dia 20 de Agosto de 2005. Na época, o Ozzy Osbourne, um dos fundadores do Heavy Metal (você já sabe disso) tinha um programa na MTV, como se fosse um reality show, intitulado The Osbournes. O festival que o Iron Maiden participaria, o Ozzyfest, é um festival estadunidense que leva o nome do madman. A Donzela abriria para a atração final, o Black Sabbath – a tal banda que o madman ajudou a inventar o tal estilo.

Eu sei que lá que raio de entrevista que o Bruce Dickinson estava dando, mas ele criticou o show da família dos donos do evento, do jeito bem ácido e direto que Bruce sabe fazer. A mulher de Ozzy, sua empresária e uma tremenda de uma idiota Sharon Osbourne, começou uma guerra, montando vários esquemas para sabotar Bruce Dickinson durante a apresentação do Iron Maiden. E uma guerra pessoal acabou por estragar o show de uma banda que envolve mais gente. Jogaram ovos e copos, desligaram os PAs em várias músicas, entraram com bandeira dos Estados Unidos no palco, ficaram com um microfone gritando “Ozzy” durante as execuções das músicas do Maiden. Ao final, a própria Sharon entrou no palco para xingar Bruce (e antes disso ela elogia o Iron Maiden, enquanto grupo) e foi extremamente vaiada. Lembro de ver um vídeo (que retiraram da internet), que pegaram vários materiais do Ozzy que foram vendidos no festival (bandeiras e camisetas em sua maioria) e meteram fogo, fazendo uma fogueira no meio da plateia. Metade do público foi embora antes do Sabbath entrar.

O Steve Harris, que não deve nada para ninguém, foi pedir desculpas ao Ozzy em seu camarim (!!!!!), que claramente ficou sem entender nada, pois não sabia o que estava acontecendo. E pouco depois, o próprio Ozzy deu um discurso (junto da Sharon), totalmente ensaiado, criticando e xingando o Bruce. Que o vocalista do Maiden não é santo, isso é óbvio, mas com certeza ele deve ter falado A e aumentaram para A, B, C e D. A Sharon é filha de um magnata do entretenimento na Inglaterra, Don Arden, que tinha rixa com o Rod Smallwood desde o início da década de 80. O “episódio das ovaradas” saiu pela culatra. Nunca vi uma banda mostrar tanto profissionalismo no palco, mesmo tocando um setlist encurtado frente ao set da turnê. Dave Murray rindo, calmo como sempre, quando cortaram o som em Phantom Of The Opera, é impagável! Foram poucas as fotos tiradas desse evento:

Ovos e copos fizeram parte do espetáculo

Na época tinham bem mais vídeos sobre o assunto e a maioria foi apagada. Eu resgatei alguns que ainda estão presentes (por enquanto):

 

 

Transcrevo (ou não) o que Bruce diz à plateia após ser notificado por Nicko que a bateria estava sendo limpa de ovos recém jogados: you may have managed a few wise asses, decided that they would go down the supermarket and buy a few fucking eggs and start throwing at us down at the front … I guess they thought it will be fun <não entendo essa parte>. This is an English fucking flag and these colours do not fucking run from you asswise! Because we know, we know that there is whole bunch of Iron Maiden fans out there that <galera grita, impossível ouvir> so let me suggest, is that if you see someone throwing some shit on this band, which incidently Nicko is cleaning up all his drum kit at the moment so that we can continue the concert … if you see somebody throwing some shit on this band, and they raise their arm, make sure that when it goes down, is it in two fucking pieces from you.

O Eddie da turnê Rips UP The World

Singles de A Matter Of Life And Death

The Reincarnation Of Benjamin Breeg

Lançado em 14 de Agosto de 2006, vinha com versões em CD e vinil. A versão em CD contém essas faixas:

  1. The Reincarnation Of Benjamin Breeg: mesma versão que está em A Matter Of Life And Death.
  2. Hallowed Be Thy Name: versão da Radio One Legends Session, uma gravação ao vivo de um programa da rádio BBC. Bruce canta uma barbaridade, mas não ouça – Gers acaba com o solo. Porque deixaram o Gers solar essa aqui?!

Já a versão em vinil vinha com o conteúdo do CD e duas faixas adicionais:

  1. The Reincarnation Of Benjamin Breeg: mesma versão que está em A Matter Of Life And Death.
  2. Hallowed Be Thy Name: versão da Radio One Legends Session.
  3. The Trooper: versão da Radio One Legends Session.
  4. Run To The Hiils: versão da Radio One Legends Session.

A capa foi desenha por Melvyn Grant, que fez a arte de Fear Of The Dark. Nem precisa dizer que esse Eddie é melhor do que o que aparece na capa do álbum aqui em questão. Nela, Eddie está desenterrando Benjamin Breeg. Em sua lápide está escrito: “BENJAMIN BREEG – ?-1978 – AICI ZACE UN OM DESPRE CARE NU SE STIE PREA MULT”. Essa frase está escrita em um dialeto de Roma antiga, que significa algo como “Aqui reside um homem que não conhecemos muito a respeito”.

A capa do single

Different World

Lançado em 14 de Novembro 2006, tinha versões diferentes para os Estados Unidos e para a Europa, inclusive tinha uma versão digital. A versão em CD para os Estados Unidos vinha com as faixas:

  1. Different World: mesma versão que está em A Matter Of Life And Death.
  2. Hallowed Be Thy Name: versão da Radio One Legends Session. Sim, a mesma versão do outro single.
  3. The Trooper: versão da Radio One Legends Session. Sim, a mesma versão do outro single.

A versão em CD para a Europa contém essas faixas:

  1. Different World: mesma versão que está em A Matter Of Life And Death.
  2. Iron Maiden: versão ao vivo gravada em Copenhague, Dinamarca, em 2006.

A versão em DVD  contém essas faixas:

  1. Different World – The Video: mais um horroso vídeo-clipe à sua disposição.
  2. The Reincarnation Of Benjamin Breeg: versão ao vivo gravada em Copenhague, Dinamarca, em 2006. Por ser um DVD, uma série de fotos da turnê de A Matter Of Life And Death passa ao decorrer da canção.
  3. Hocus Pocus: cover da banda Focus, que está originalmente no álbum Moving Waves (ou Focus II, como também é conhecido) de 1971. Essa versão é tão engraçada quanto à original, que tem uma veia mais progressiva do que o som feito pelo Maiden. As partes “vocais” da música original foram substituídas por partes divertidas “cantadas” por Nicko Mcbrain, gravadas ao vivo enquanto os músicos tocam.

A versão digital você comprava pelo site oficial da banda, válido até 26 de Dezembro de 2006. Você recebia dois arquivos digitais, com:

  1. Different World: versão ao vivo gravada em Aalborg, Dinamarca, em 2006.
  2. Entrevista exclusiva de Steve Harris para a edição digital, com cerca de 10 minutos de duração.

Aqui no Brasil você conseguia a versão CD/DVD com um calendário.

As diferentes capas do single

A Matter Of Life And Death (2006)

Coisas que ninguém presta atenção Ficha Técnica:

  • Produtor e Mixagem: Kevin Shirley
  • Engenheiro de som: Drew Griffiths
  • Engenheiro auxiliar: Alex Mackenzie
  • Gravado e Mixado no Sarm West Studios, em Londres
  • Fotos: Simon Fowler e John McMurtrie

Apesar do trauma gerado com a capa de Dance Of Death, quando você segura a capa de A Matter Of Life And Death, você tem um alívio e, ao mesmo tempo, um desconforto. A arte é inegavelmente melhor que sua antecessora, mas Tim Bradstreet, o escolhido dessa vez, é desenhista de quadrinhos, muito conhecido em artes envolvendo o Punisher (Justiceiro, em português), por exemplo. Isso explica os traços, as cores, e o próprio Eddie terem um pé de revista em quadrinhos. A capa, apesar de muito bem desenhada, tem foco em um tanque de guerra, ao invés do Eddie, que é um dos soldados na capa (os outros, caveiras). Ficou um Eddie sem sal, tanto que o símbolo pintado no tanque ficou sendo a referência desse álbum.

A capa de A Matter Of Life And Death e o “Eddie” que ficou famoso

Tracklist

  1. Different World (Smith / Harris) – 04:17
  2. These Colours Don’t Run (Smith / Harris / Dickinson) – 06:52
  3. Brighter Than A Thousand Suns (Smith / Harris / Dickinson) – 08:22
  4. The Pilgrim (Gers / Harris) – 05:07
  5. The Longest Day (Smith / Harris / Dickinson) – 07:48
  6. Out Of The Shadows (Dickinson / Harris) – 05:36
  7. The Reincarnation Of Benjamin Breeg (Murray / Harris) – 07:21
  8. For The Greater Good Of God (Harris) – 09:24
  9. Lord Of Light (Smith / Harris / Dickinson) – 07:23
  10. The Legacy (Gers / Harris) – 09:20

Esse é um disco controverso. Talvez o mais controverso de toca a carreira da banda. Se por acaso você ouviu esse álbum na época de seu lançamento e depois o deixou de lado, peço um favor: volte e escute-o sem ler o que se segue, sem ser influenciado pelo post e opiniões próprias que sempre coloco. Tenha um novo momento de intimidade e ouça-o sem distrações. São quase 15 anos desde seu lançamento e posso garantir (posso?) que seu ouvido não é mais o mesmo musicalmente e você pode ter uma outra opinião (mesmo que seja pior do que a original). Pare aqui e volte depois.

A Matter Of Life And Death, muito conhecido entre fãs pela sigla AMOLAD (mais uma forma de encurtar o longo título do que uma sigla em si), tem uma proposta bem diferente do que a banda vinha fazendo em seus últimos dois lançamentos enquanto sexteto, e uma proposta ainda mais fora da curva se compararmos com o resto da discografia. Sim, as repetições exageradas continuam aqui, como nos álbuns antecessores, mas existem alguns “pontos adicionais” nesse álbum que o colocam em xeque.

Em termos de produção, a coisa melhorou, e muito! O trabalho de mesa feito por Kevin Shirley foi o melhor, até o momento. Um som bem mais encorpado, bem mais pesado e muito denso. Sempre que tento adjetivar AMOLAD, a palavra “denso” é a primeira que me vem na cabeça. Mesmo não sendo um álbum conceitual, a ideia de guerra cerca a atmosfera do som na grande maioria das faixas. E junto dessa cortina negra sonora, temos andamentos mais trabalhados, com tempos que a banda não costuma tocar. E isso fez um monte de gente querer rotular o álbum como progressivo. Besteira! Sim, as músicas têm um andamento progressivo trabalhado de forma mais intensa, com dedilhados insistentes de baixo em introduções longas (sete das dez canções possuem introduções lentas e demoradas, fazendo parecer que a carreata não anda), mas daí para dizer que temos um álbum de “rock progressivo” é destoar demais a ótica da proposta.

As letras das músicas também são um ponto alto, com um patamar de composição que mais uma vez se sobressaiu. Os músicos aqui também tiveram um papel destoante. Bruce está cantando muito alto. Em determinadas canções a energia na sua voz rouba o instrumental, carimbando mais uma vez o eterno apelido de air raid siren. A cozinha tem andamentos um pouco diferentes, com muito dedilhado de baixo, mas com viradas do Nicko já características. Steve Harris, ouvindo orações, deixou de tocar teclado – o instrumento é novamente conduzido por Michael Kenney. Mas agora vem o trio das cordas e é aqui que o bicho pega. As guitarras, se de um lado ganharam muito peso, perderam em solos e frases. Se eu tivesse que apontar um defeito em AMOLAD, ele estaria aqui: os solos não são memoráveis e os fraseados entre versos, quando não sumiram, não surtem efeito, dando a impressão de que falta poder nas melodias. As famosas frases em intervalos de terça, uma marca registrada da banda, foram quase que deixadas de lado e, quando inseridas, tem mais um papel de “encher linguiça” do que realmente trazer algo às canções. Quando o álbum termina, esse vazio fica; e é por isso que AMOLAD toma tempo para acostumar aos ouvidos: o regaste do peso setentista foi tão focado que dá a impressão que a banda quis mudar a sua assinatura. Teve gente que gostou, teve gente que achou, digamos, enfadonho. Entretanto, rótulos por rótulos, acho errado dizer que esse álbum é “chato”. A Matter Of Life And Death é melhor que seu antecessor, sem esforço.

Da esq. para dir – Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra), Steve Harris (baixo), Bruce Dickinson (vocal), Nicko McBrain (bateria) e Dave Murray (guitarra)

Faixa a faixa

É bem provável que você torça o nariz para a estrutura das introduções e dedilhados incessantes. Não tem como não concordar: há sim um exagero. Mas nossos heróis já estavam chegando na casa dos cinquenta e chega um momento na carreira de um músico que aquela mosca fica zanzando na orelha para que algo diferente seja criado. Você tem o direito de não gostar. Mas também tem a obrigação de reconhecer que arriscar é importante e isso deve ser respeitado.

A primeira faixa diz muito, mas muito mais do que ela simplesmente parece. E não é por causa do Nicko roubando a cena no início do play e fazendo você sorrir instantaneamente com aquela sua voz característica. Quais os temas que a banda compõe? Literatura, história, grandes guerras e batalhas?! Alguma coisa de crítica social e politicagem?! E o que Different World fala a respeito!? Sobre o nosso viver. Sim! Temos seis caras chegando na casa dos 50 anos de idade dizendo ao mundo inteiro para viver a vida nos pequenos detalhes, vivendo um dia de cada vez e que nunca é tarde para aprender. Nossos guerreiros estavam ficando velhos e não estavam com medo de mostrar as lições e as incertezas da idade. A faixa mais curta do álbum é direta e talvez seja a canção mais previsível que a banda entregaria, enganando o ouvinte sobre o que estava por vir. Novamente com um pé no hard rock, os caras se redimiram de seu álbum anterior, entregando uma enérgica faixa de abertura, com potência e um bom solo. O video clipe é tão ruim que eu esqueci de colocá-lo quando publiquei o post. Acertando agora:

A segunda faixa é toda uma metáfora. Quem quiser, que me prove o contrário. Disfarçada sobre o pano de fundo da guerra, ela é uma “resposta oficial” da banda sobre os acontecimentos no Ozzyfest em 2005, nos Estados Unidos. A revolta foi grande e uma canção sobre o tema foi uma resposta à altura, como uma forma até de incluir as pessoas que trabalham nos bastidores da Donzela (e é claro que se você perguntar aos compositores, eles vão falar que a música trata de “guerra” – e vai me dizer que o que aconteceu no Ozzyfest não foi?). Nicko saiu para avisar Bruce que sua bateria estava em processo de limpeza dos ovos jogados enquanto o frontman estava com o conhecido uniforme de soldado de The Trooper (far away from the land o four birth, we fly a flag in some foreign land). Foi quando o baixinho iniciou um pequeno discurso com diversas ofensas ácidas às tentativas de sabotagem, mostrando a bandeira da Inglaterra e criando, até mesmo, o título da canção nesse momento (excluídos os devidos palavrões). A faixa peca na composição instrumental, com o “tecladinho do Steve” formando até fraseado. Mas lembrar do episódio com aquela megera da Sharon Osbourne e cantar o refrão traz alívio e uma sensação de vingança que não tem preço…

O que é mais brilhante que mil sóis? Uma explosão nuclear. A terceira faixa, Brighter Than A Thousand Suns discursa sobre fatos ocorridos entre 1942 e 1947, quando houve a criação do Projeto Manhattan, um programa de pesquisa liderado por americanos em conjunto com mentes brilhantes de outras nacionalidades (incluindo britânicos) para o desenvolvimento de armas nucleares. Foi esse programa que criou as primeiras bombas atômicas. A letra é recheada de referências, que daria até um post a parte, mas vamos às principais:

  • No refrão, temos o termo a strange love is born, uma referência ao filme Dr. Strangelove, dirigido e produzido por Stanley Kubrick, que trata o amor dos homens pela bomba atômica de uma forma bem sátira:
  • No refrão, na sequência, temos unholy union / trinity reformed, como uma referência a uma reestruturação da tríade Pai, Filho e Espírito Santo para a nova Trindade, nuclear, atômica e radioativa (Trinity, inclusive, foi o nome dado a primeira bomba atômica, detonada no Novo México, na sede do Projeto Manhattan):
  • What ever would Robert have said to his God é uma referência ao físico Julius Robert Oppenheimer, uma das principais lideranças do Projeto Manhattan. Um pouco depois, no mesmo verso, temos a famosa equação de Albert Einstein que foi crucial para os feitos atômicos – E=mc squared, you can relate how we made God with our hands. Einstein também foi parte do projeto.

Einstein e Oppenheimer

Vale lembrar que o mesmo programa nuclear desenvolveu as bombas que acabariam com as cidades de Nagazaki e Hiroshima, ambas bombardeadas com o avião Enola Gay, tema que aparece em Tailgunner. É sempre bom cantar a ignorância humana – uma hora aprendemos. Holy Father, we have sinned.

The Pilgrim é nossa quarta faixa e a segunda canção mais curta do álbum. A introdução só com a bateria sempre me lembra The Prisoner. Inclusive, Nicko faz um belo trabalho nessa faixa. Ela é baseada no navio Mayflower, que em 1620 transportou várias famílias inglesas para o chamado Novo Mundo (local hoje situado pelos Estados Unidos). Essas famílias ficaram conhecidas como Peregrinos (pilgrims) e são parte importante da história da colonização da América, pois eles eram os considerados puros que iriam trazer pagãos para uma nova vida (Pilgrim Sunsire, Pagan Sunset) – coisa bem característica de discurso de colonização. Se uma coisa deve ser destacada nessa faixa é a energia do grupo, com um refrão cantado muito alto.

06 de Junho de 1944. Nessa data, durante a segunda guerra mundial, os Estados Unidos planejaram uma invasão à Normandia, na França, através do codinome de batalha “Operação Overlord”. Essa invasão ficou conhecida como o Dia D, por se tratar da maior invasão via mar da história, culminando com a retomada do território do oeste-europeu pelos Aliados. Mais tarde, essa batalha foi retratada em livro (e posteriormente em filme), com o título de The Longest Day, que leva o nome da quinta posição. Apesar de ser grande destaque para muitos fãs, para mim essa faixa é uma tentativa de criar uma nova Paschandale, mas que não deu certo. A progressão crescente em um tema de guerra com o mesmo timbre de guitarras (em certos momentos) me soou muito uma cópia descarada, como se alguém os tivesse convencido que aquilo era uma boa ideia. Apesar do belo e dinâmico vocal de Bruce, que consegue interpretar verso a verso o que se passava no momento da invasão, os sete minutos são esquecidos até que bem rápido.

O livro The Longest Day

E tem balada com refrão chiclete? Por que não?! Muita gente compara a sexta faixa, Out Of The Shadows, com Wasting Love. Muita coisa está lá: o uso de violão, dedilhado limpo acompanhando os versos, uma guitarra solo com o mesmo timbre acompanhando os gritos de Bruce com fraseados (principalmente depois do solo). Apesar de nunca ter feito tal comparação, eu acho essa aqui bem melhor (acabei de fazer). A canção fala sobre o nascer, o início da vida, que se dá com o sair das sombras. A vida, de qualquer ser humano, é sempre uma benção (a king for the day), que além de alegrias, também terá dores, mas que é fundamental para a perpetuação da nossa espécie (oh there is beauty and surely there is pain / but we must endure it, to live again) e que, acima de tudo, ainda não encontramos uma explicação do porquê estarmos aqui (What purpose to it all?).

Escolhida como o primeiro single do álbum (decisão acertada), e com uma limpa e lindíssima introdução de guitarra, The Reincarnation Of Benjamin Breeg encabeça a sétima posição. Você e a torcida do Corinthians já devem ter se perguntado quem foi Benjamin Breeg e, apesar de todas as teorias envolvidas, ele é um personagem fictício. Nicko disse uma vez, em entrevista, que Steve tinha criado um pseudônimo para um personagem que viria a ser Eddie, mas o próprio baixista deu entrevista dizendo que é um personagem fictício. Musicalmente ela não faz feio e tem um bom andamento entre peso e melodias, com um solo do Dave bem arroz com feijão.

Oitava posição, uma das minhas preferidas – For The Greater Good Of God. A letra é uma dura crítica à intolerância religiosa, que, por muitas épocas, mata em nome de um Deus, qualquer que seja ele. A abertura com o questionamento Are you a man of piece of man of holy war me arrepia até hoje – uma frase fortíssima e intensa. Esse tema inclusive é sempre um prato cheio para músicas, de diversas bandas; mas do ponto de vista lírico, acho que nenhuma ganha dessa aqui. Bruce é outro destaque, com uma interpretação impecável – em certos momentos você sente a indignação que ele transmite.

Lord of Light está na “injusta” nona posição. Acho que essa faixa faria bonito em outras posições que estrategicamente são colocadas como destaques. Sim, a introdução é um pé, mas a mesma frase da introdução, cadenciada no meio da música foi muito bem colocada. Além de que deve ser a única faixa, se não me engano, que tem galope nas guitarras. E quem é o Senhor da Luz? Lucifer, o anjo que foi expulso do paraíso.

The Legacy é a faixa de encerramento mais complexa que a banda já produziu, com certas passagens intragáveis, até hoje, para mim. A intenção da letra é certeira, pois O Legado resume bem o que é um legado de guerra, independente de qual seja a batalha: homens que vão à guerra e que, quando voltam, não são os mesmos, muitas vezes psicologicamente atormentados e vítimas de promessas e “falsas verdades”, mas que acabam dando à sua próxima geração uma chance de que vivam em paz, mesmo que de forma temporária. Musicalmente, dois pontos positivos. O primeiro é um riff por volta dos 05:30 minutos que foi guardado na gaveta, lapidado a posteriori e usado em uma faixa chamada Empire Of The Clouds, de um capítulo que ainda chegaremos. O segundo é um fraseado com as três guitarras por volta dos 07:20 minutos, que finalmente mostrou algum respiro criativo no uso de três guitarras em uma banda. Comece a ouvir essa música lá pelo terceiro minuto, porque nem Tonico e Tinoco aprovariam a tentativa de “guitarra caipira” inserida no pós-introdução.

E se por acaso você nuuunca ouviu A Matter Of Life And Death, nunca é tarde:

Entre Outubro de 2006 até Junho de 2007, a banda iniciou a turnê A Matter Of Touring. Não só o nome da turnê foi excelente, mas o set tocado foi louvável: o novo álbum na íntegra. Estava mais do que na hora de uma atitude dessas, frente aos sempre mesmos clássicos tocados todo santo show (após a execução do novo trabalho, óbvio que chatices como Fear Of The Dark não eram deixadas de lado). Essa turnê foi dividida em duas metades, sendo que A Matter Of Life And Death foi tocado na íntegra só na primeira metade.

Os adereços de palco da turnê, que incluiam um Eddie Soldado e um tanque de guerra, com Eddie olhando a plateia de binóculos

Óbvio que um álbum novo na íntegra gerou revoltas entre os fãs, muitos pediam a volta dos clássicos. Mais louvável ainda foi uma das respostas que Bruce deu a um(a) fã com um cartaz que dizia “Play Classics” durante essa turnê:

Existe uma versão limitada de A Matter Of Life And Death que junto do CD, vem um DVD, com um documentário da produção do álbum. Como o youtube nos proporciona certos luxos (ainda), segue aí:

Somewhere Back In Time (The Best of 1980-1989)

Em Maio de 2008, um ano após o término da turnê A Matter of Touring, a coletânea Somewhere Back In Time foi lançada. Um apanhado de 15 músicas com mais do mesmo, mas que vinha com dois “extras” muito significativos: a volta de Derek Riggs e uma desculpa para uma nova turnê mundial, baseada na famosa turnê que culminou no Life After Death. A capa é uma mistura da capa de Powerslave com a do Somewhere in Time, já que a intenção da coletânea era um resgate da década de 80, justamente para forçar os novos fãs a entrarem na melhor fase da banda, muito desconhecida pelos mesmos. Vale destacar que as canções da era com Paul Di’Anno foram todas colocadas propositalmente em versões ao vivo, com Bruce nos vocais.

A capa de Somewhere Back In Time e a localização do single de Derek Riggs

A turnê mundial Somewhere Back In Time acendeu os ânimos de todos os fãs. Finalmente uma turnê com “velharias que não eram tocadas”, que começou um pouco antes do lançamento da coletânea, em Fevereiro de 2008 (e que foi até abril de 2009). Foram dois sets tocados (um melhor que o outro), que foram tocados na “perna de 2008” e na “perna de 2009”, respectivamente. Aqui no Brasil, a turnê passou pelas duas pernas, inclusive batendo recorde de público da banda na apresentação de 2009, no autódromo de Interlagos, em São Paulo.

Essa turnê também contou com um novo lançamento: o avião Ed Force One. Um Boeing usado pela banda (e pilotado por Bruce Dickinson) que veio para ficar em todas as demais turnês que se seguiram (quero fazer um apêndice só sobre o avião, então aqui deixo só o básico).

Flight 666 – The Film

Como produto final da turnê Somewhere Back In Time temos esse belíssimo documentário, que tem na produção o Sam Dunn, conhecido no meio musical por excelentes documentários sobre o heavy metal. Com músicas gravadas em 16 cidades diferentes durante a primeira perna de 2008, temos entrevistas e particularidades dos fãs em cada um dos países retratados no vídeo. Óbvio que além do DVD a banda lançou um CD duplo com as músicas compiladas do documentário. Item obrigatório!

Setlist tocado na A Matter Of Touring – Parte 1 (ano de 2006)

    1. Mars, Bringer of War (Gustav Holst)
    2. Different World
    3. These Colours Don’t Run
    4. Brighter Than A Thousand Suns
    5. The Pilgrim
    6. The Longest Day
    7. Out Of The Shadows
    8. The Reincarnation Of Benjamin Breeg
    9. For The Greater Good Of God
    10. Lord Of Light
    11. The Legacy
    12. Fear Of The Dark
    13. Iron Maiden
    14. 2 Minutes To Midnight
    15. The Evil That Men Do
    16. Hallowed Be Thy Name

Setlist tocado na A Matter Of Touring – Parte 2 (ano de 2007)

    1. Mars, Bringer of War (Gustav Holst)
    2. Different World
    3. These Colours Don’t Run
    4. Brighter Than A Thousand Suns
    5. Wrathchild
    6. The Trooper
    7. The Reincarnation Of Benjamin Breeg
    8. For The Greater Good Of God
    9. The Number Of The Beast
    10. Fear Of The Dark
    11. Run To The Hills
    12. Iron Maiden
    13. 2 Minutes To Midnight
    14. The Evil That Men Do
    15. Hallowed Be Thy Name

No próximo capítulo, a banda criará um material de outro mundo!

Nota: caros amigos, o editor do WordPress realmente está uma porcaria e, mais uma vez, perdi a batalha contras as estruturas de texto. Ao invés de ficar mais uns dois meses brigando com o HTML, postei assim mesmo. Acho que isso será uma realidade para os demais posts…

Até mais! Beijo nas crianças!

Kelsei Biral



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3 respostas

  1. Muito bom o texto, Kelsei. Ouso dizer que está cada vez melhor . Em relação ao álbum, considero que há prós e contras talvez em iguais proporções. Eu precisarei , no entanto, voltar aqui ouvindo o disco todo , como fiz com todos os outros. Adianto a minha faixa preferida: Brighter than a Thousand suns.
    E prometo tentar uma volta breve para uma análise final.

    Beijos nas crianças e fui

    Alexandre

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  2. Bem , depois de mais um espetacular capítulo, volto aqui, como prometido, para trazer as minhas impressões sobre o assim conhecido AMOLAD :
    Novamente acho que o álbum abre mal, uma faixa morna e previsível , e novamente a menor faixa do álbum , potencialmente um single que não me diz nada. Exceto pelo bom solo de Adrian, não gosto de mais nada em Different World. A coisa não melhora em These Colours Don’t Run, que tem estrofes e refrãos muito óbvios e repetitivos. Vem a parte do meio, onde o teclado até é razoável mas o restante também é bastante comum na carreira da donzela e dali surgem os solos, o primeiro do Dave não é memorável, o de Adrian, sem ser uma maravilha, é melhor. E aí vem o oh,oh, oh, uma desgraceira só. A ponte da estrofe pro refrão é o melhor da canção, mas ainda não me agrada a ponto de considerar a música sequer boa.
    A coisa muda muito de figura quando entra a minha favorita , Brighter Than a Thousand Suns, um andamento diferente no refrão, com a linha vocal bastante inspirada. O refrão também é muito bom, assim como a ponte. A parte dedilhada com strings também me agrada demais. Um ótimo solo de Adrian, usando um Whammy Bar Pedal, algo também inédito na carreira do músico na banda. O único ponto dispensável é o solo de Gers. Não compromete o resultado final, a música é ótima.Aqui o Iron acertou em cheio.
    The Pilgrim é outra faixa que não avança, uma monotonia sob forma de composição da dupla Gers /Harris. O solo, por incrível que pareça, até passa, exceto um trechinho ali no meio. Mas a música não convence pra mim. The Longest Day é a segunda melhor faixa do disco, gosto dos acentos da bateria de Nicko no início e todas as partes ( estrofe, ponte e refrão) são bem legais. Bem, o refrão poderia repetir um pouco menos, mas aí estaríamos falando de outra banda …. A parte pré solo traz as harmonias dobradas que quase não estão presentes no álbum e um solo bem melódico de Dave. Ótima canção , no meu entender.
    Out of the Shadows saiu da carreira solo do Dickinson ? Senão,parece demais.A impressão que me passa é que do início até o penúltimo refrão tudo foi feito pelo Dickinson e o restante até a ” volta ” é a parte que Harris contribui. Eu gosto bastante da balada, me lembra os bons tempos do Accident of Birth, em especial. Solo impecável de Adrian, um grande de exemplo de como se construir um solo sem tocar 7 mil notas por segundo. O restante da canção é pontuada por intervenções de Dave, sempre acertando. Só acho que nada tem a ver com o resto do álbum. O que não importa em nada, aliás.
    O single inicial é mediano,pra mim. Achei estranho, em verdade, a tal ” Benjamim Breeg” se tornar a primeira aposta comercial da banda. Mas eu gosto da faixa, sem morrer de amores. O solo de Dave é correto, bem cristalino, ainda que longe de seus melhores momentos no Maiden. For the Greater Good of God, perdoe-me Kelsei, é muito chata e interminável. Ninguém consegue contar quantas vezes Dickinson repete seu título sem se perder no meio da contagem, valha-me senhor……Não consigo entender a inclusão dela na última tour que passou no Rock in Rio de 2019. A ” ponte ” ainda vai, mas o restante não desce de jeito nenhum. Novamente um bom solo de Smith , um solo mediano com ótimo timbre de Dave e um horroroso de Gers.
    Lord of the Light é outro ponto favorável para mim, embora tenha aquela fórmula dedilhado inicial pra crescer em sequência. Poderia ser um pouco menor na introdução, mas eu gosto bastante da música,que cresce bastante perto do solo de Adrian, novamente usando o Whammy Bar Pedal, aqui ainda mais proeminente. Já o de Dave é mais burocrático, mas não compromete. The Legacy é a pior faixa do disco disparada. Não dá pra salvar algo que precisamos pular os três minutos iniciais para tentar ouví-la. A parte em que o baixo fica sozinho com teclado,ali pelos 4 minutos é o que salva. O solo de Gers também se salva, algo raro, aliás… E o que é aquele riff em 05:30 min? Chega a ser constrangedor, parece que foi feito por um guitarrista com poucos dias de prática.
    Minha análise final do álbum vai de encontro ao que o Iron já fazia, com uma capa muito melhor que o álbum anterior, mas o conteúdo musical, ainda que mais sombrio, se mantém na fórmula Maiden pós 2000. E novamente há faixas boas e outras nem tanto. Novamente Adrian se destaca, mas acho que Dave deu uma ligeira melhorada do Dance of Death para cá.Gers é aquilo de sempre, até acerta se não resolver usar mais velocidade, mas há aqueles momentos completamente dispensáveis durante boa parte do disco. A cozinha tem poucos momentos de brilho e Bruce continua sobrando.
    Kelsei, mais uma vez obrigado pela “aula grátis “, em especial pelos aspectos líricos. Só aprendo aqui. Vamos à fronteira que não foi a final.

    Saudações,

    Alexandre

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    • Eu só posso rebater esse comentário do B-Side com uma frase: “quero ver o JP fazer melhor” hahahaha

      Com relação à For The Greater Good Of God estar na turnê The Legacy Of The Beast, tem relação com o jogo da banda para celular – a trilha sonora foi baseada no jogo, inclusive o cenário espelhado que aparece no meio do show (e na bateria de Nicko) e parte da arte do jogo. Agora, sobre o jogo em si, prefiro ouvir os solos do Gers…

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