Discografia Iron Maiden – Episódio 18: Senjutsu

Nem toda lâmina corta…

No capítulo anterior (que você pode ler aqui), vimos o Iron Maiden lançar seu primeiro álbum duplo, sua canção mais longa e, para mim, o melhor álbum desde Seventh Son of a Seventh Son. Havia rumores que The Book of Souls seria o último álbum de estúdio da Donzela. E então, diante de toda e qualquer expectativa possível por parte de qualquer ser humano na Terra, aconteceu o que ninguém jamais poderia imaginar: o mundo parou.

O estrago aconteceria no decorrer de 2020, mas tudo começou no dia 31 de Dezembro de 2019, véspera de ano novo! Nesse dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada para casos graves de pneumonia identificados na cidade de Wuhan, na China. Poucos dias depois, no início de Janeiro, as autoridades de saúde chinesas reconheciam a existência de um novo tipo de coronavírus, que em Fevereiro teria sua décima nona mutação catalogada, a qual viríamos a chamar carinhosamente de COVID-19.

Em março do mesmo ano, a OMS declara pandemia, palavra que nos assombraria por muito tempo, mesmo o termo sendo enraizado na distribuição geográfica de um vírus, e não devido ao seu potencial de males à saúde. O que achávamos que seria um problema do oriente, se tornou europeu, depois americano, depois mundial. Me recordo que o primeiro show cancelado que me afetou diretamente foi o do Sammy Hagar.

Foram dois anos que, se você sobreviveu, você mesmo é capaz de contar a sua versão da história. Ainda hoje, nesse momento que escrevo esse post, não usei meu ingresso do show do Sonata Arctica, que seria da turnê do Talviyö, que pretendo usar em Março / 2023.

Voltando um pouco para 2019, nossa banda predileta estava na turnê Legacy of the Beast, que passou por São Paulo em Outubro, na época resgatando o Piece of Mind, com um setlist do ursinho. Pouco antes de vir ao Brasil, a Donzela passou pelo nosso amado México, gravando os shows em sua capital, a Cidade do México. Esse material consolidou o novo caça-níqueis álbum ao vivo, intitulado Nights of the Dead, que foi lançado em 20 de Novembro de 2020.

A pandemia ainda não tinha acabado e todos já estávamos (estávamos?) acostumados a acompanhar nossos artistas pela Internet. Os canais digitais tinham se transformado não só em um dos canais de comunicação de uma banda, mas o meio mais importante de sobrevivência para muitos artistas.

Foi em meados de Julho de 2021 que o mundo digital do Iron Maiden começou a borbulhar, com suas mídias oficiais lançando alguns teasers relacionados ao Belshazzar’s Feast e o termo Writing On The Wall. Como todos estávamos (estávamos?) trancados em casa, trabalhando remotos, não foi difícil acompanhar as notícias, mesmo para as pessoas não tão acostumadas com mídias sociais. Foi aí que em 19 de Julho de 2021, enquanto eu tomava um café quente sem açúcar e rolava o polegar direito sob o touch do meu celular para ver o Facebook, que eu paralisei na postagem mais recente do Iron Maiden: teríamos novo álbum de estúdio.

A notícia do lançamento por si só de um novo álbum de uma banda do cacife do Iron Maiden já é um evento mundial consolidado. No meu caso, palavras como catarse e ansiedade resumiam bem o meu estado de espírito. O refresh no facebook oficial da banda era algo mais que constante todos os dias. Espertos como sempre foram, o Maiden soube utilizar do Marketing digital para a promoção de seu novo lançamento e os singles, pela primeira vez na história da banda, foram lançados somente em formato digital.

Singles de Senjutsu

The Writing On The Wall

Lançado em 15 de Julho de 2021, foi a primeira vez que um single foi lançado via streaming, com transmissão ao vivo pelo Youtube. Quatro dias depois a banda anunciaria o lançamento de seu décimo sétimo álbum de estúdio. Houve uma “capa digital” para o single, visto que ele também seria lançado nas plataformas de streaming. Sua capa é parte da arte realizada no video do single, mostrando um motoqueiro misterioso (até aquele momento, ninguém tinha a mais senhora ideia do que se trataria essa canção).

Stratego

Lançada em 19 de Agosto de 2021, foi mais um single lançado via streaming. Me recordo de ficar acompanhando o horário de Londres para ouvir a estreia pelo Spotify. Infelizmente, o streaming não nos dá a oportunidade de termos faixas bônus, nem aquela memorabilia que move pessoas como eu. Outro ponto é que o streaming também não possui uma qualidade descente de áudio, havendo muita compactação, o que para pessoas como eu e você (sim, se você está nesse blog, música importa para você), é algo muito ruim e nada prazeroso. Esse single também possui “capa digital”:

Senjutsu (2021)

Coisas que ninguém presta atenção Ficha Técnica:

  • Produção e Mixagem: Kevin Shirley
  • Co-Produção: Steve Harris
  • Masterização: Ade Emsley
  • Gravado no estúdio Guillaume Tell, na França

O álbum foi forçado a ser lançado em 03 de Setembro de 2021, mas o décimo sétimo álbum da banda estava pronto antes da pandemia, ainda em 2019. Também gravado nos estúdio Guillaume Tell, na França, onde fora gravado The Book Of Souls, a banda esperou o momento que achou ideal para informar sobre o lançamento. Sua temática era japonesa, mais voltada à cultura japonesa antiga, da época dos samurais. Para vender o álbum, várias opções de mídia foram disponibilizadas para as pessoas, tendo como o principal carro chefe um box super-deluxe-premium-gold-plus-plus, que custava (ainda custa) um rim e vinha com um blu-ray especialmente falando do conceito por detrás da criação do vídeo de The Writing On The Wall. Aqui está o unbox do nosso presidente:

Senjutsu foi o lançamento de estúdio do Maiden que teve o debate de internet e redes sociais com o maior ápice, pois apesar de outros lançamentos já estarem no “modo digital” do planeta, dessa vez todas as sociedades estavam trancafiadas em casa devido à pandemia do COVID-19, o que criou um boom de pessoas totalmente conectadas em seus dispositivos o tempo todo. A partir do anúncio do álbum, que foi feito através das mídias digitais da banda, e dos lançamentos dos singles, que foram feitos em canais de streaming e Youtube, o debate digital tomou uma proporção gigantesca. Houve momentos que parecia um debate político digital: pessoas de idades díspares se ofendendo porque “tal coisa é legal” e “tal coisa é muito ruim” e “você não entende nada de Iron Maiden” e “você é um ‘truezão’ que vai morrer ouvindo velharias” e daí para muito pior.

E então, poucos dias depois do lançamento do álbum, vieram me perguntar: “Kelsei, o que você achou do Senjutsu?”. E a minha resposta sempre era “acho que a poeira precisa abaixar para formar uma opinião”. Esse é um problema do mundo digital: tudo é para o agora. Tudo é lançado e já precisa de rótulo, de nota, de avaliação. MÚSICA NÃO É ASSIM! Tenho álbuns que ouço há mais de vinte anos e me surpreendo com certos detalhes até os dias de hoje. Tenho certeza que, dentro do mundo digital, se você resgatar várias resenhas que foram feitas à época do lançamento, você vai ter uma opinião diferente hoje, porque as emoções carregadas frente à pressão digital de se posicionar acabam por não trazer qualidade ao que se escreve.

E agora, passada toda a euforia do lançamento, já ouvido o álbum várias vezes, já visto a banda tocando músicas de Senjutsu ao vivo, já discutido o álbum com diversas pessoas, já estudadas as músicas (será?!), agora sim me senti confortável em escrever esse post. Vamos começar pela capa?

Não é uma Brastemp, mas é uma belíssima capa, novamente desenhada por Mark Wilkinson! Repetindo a ideia de fundo preto do álbum antecessor, Eddie agora é um Samurai, muito bem caracterizado e com detalhes na arte que impressionam, ainda mais se compararmos com os últimos trabalhos. Adicionalmente, o logo da banda leva a fonte original, algo que, para mim, nunca deveria ter mudado. A temática samurai é presente em todos os materiais lançados – do simples encarte até a caixa especial. Eu importei a versão hard cover e posso dizer que o encarte é belíssimo. A versão em LP é tripla, cujo unbox também foi feito pelo nosso presidente e que você confere abaixo.

Uma edição em LP com três discos significa um álbum muito longo (mesmo visivelmente havendo espaço de sobra nos discos, o que é o caso). Isso, para mim, de longe nunca foi um problema, mas é preciso debater um pouco o porquê dessa longevidade, até porque esse é o segundo álbum duplo de estúdio seguido da banda.

Muitas músicas do Iron Maiden hoje são hinos. Nem todo hino é tocado nos shows, mas a canção é desenvolvida de uma tal maneira que ela se torna épica. Os exemplos eu não preciso mencionar, você os conhece muito bem, mas, por causa do sucesso desse tipo de característica musical, algo ficou preso na cabeça de Steve Harris que ele se obriga a compor épicos. Não basta mais ter uma letra simples e um riff com aquele power chord cru, é preciso que as composições levem a estrutura de um épico e tem hora que isso simplesmente não funciona. Existe uma diferença brutal quando uma melodia é vastamente trabalhada e quando umas duas frases curtas são repetidas por mais de três minutos constantemente. E isso é algo notório nesse álbum: as composições não possuem criatividade para caberem na estrutura que foram impostas.

Somado ao fato acima vem, agora, a questão do produtor. Esse é o cara que precisa virar para a banda e mostrar que muitos trechos vão do nada ao lugar nenhum e que isso precisaria de simplificação (ou seja, cortar ideias e trechos musicais para fazer com que a execução da música flua melhor aos ouvidos). Você aí, lendo isso: se você não toca e nunca teve uma banda, você não tem ideia do stress que isso causa. É uma briga dos infernos! Quando uma gravadora nas décadas de setenta e oitenta precisava fazer com que as músicas coubessem em um único disco para poder vendê-los, o stress de produção de um álbum beirava o absurdo. Hoje isso ainda existe, é claro – muitas bandas não têm dinheiro e precisam criar músicas que chamem público. Mas o mundo digital tirou essa restrição de que tudo precisa caber em um único LP (o famoso ‘disco’ hoje é coisa de colecionador, junto com outras mídias que se seguiram e já não são mais margem de medição de mercado). Esse ponto meio que tirou poder do produtor, ainda mais em uma banda que só tinha um cara de produção que o Steve Harris ouvia: Martin Birch.

Se o álbum soaria diferente com Martin na mesa de som, isso não cabe aqui (se Senjutsu fosse concebido na década de oitenta, a resposta seria “sim”, mas não passados mais de vinte anos no novo século). Agora, Kevin Shirley, o produtor de todos os álbuns do Iron Maiden sexteto, é uma pessoa muito mais burocrática. Ele não está lá para bater boca com o baixista que construiu um império. Ele está lá para apertar o botão e gravar tecnicamente o material que aquele cara gostou e ponto. O resultado é que as ideias que todos trazem vão sendo somadas se agradarem ao Steve e muitas músicas são longas demais sem que houvesse a necessidade (clássicos como The Rime Of The Ancient Mariner e To Tame a Land, assim como canções do sexteto, como Paschandale e Empire Of The Clouds precisam ser longas, e se você parar friamente para analisar faixas longas de Senjutsu, verá que algumas podas seriam necessárias).

Agora vamos descer um pouco no que tange alguns aspectos gerais nas execuções das faixas. Primeiro ponto: o teclado com timbre de pernilongo na orelha. Olha, nunca duvide que algo possa piorar! Eu achei que o Virtual XI seria o ápice no que tange timbre de teclado horroroso (que até então eu chamei nos posts dessa discografia de “tecladinho do Steve”), mas, com todo o perdão aos meus pecados, volta o tecladinho do Steve! Senjutsu tem o pior timbre de teclado da história da banda! Eu sou do grupo que, no caso do Iron Maiden, voto contra o uso do instrumento de teclas, mas, se é para ter, que no mínimo o instrumento tenha o som característico e não o cover de um pernilongo que fica zunindo na orelha. Eu não sou daqueles que ficam reclamando em rede social, mas esse ponto em específico eu fui reclamar no Facebook oficial do Maiden. Em uma postagem onde eles anunciavam uma nova trooper para tomar junto de Senjutsu eu deixei algo como “só bebendo mesmo para ouvir esse teclado em todas as faixas”! A cerveja em questão era a Sun And Steel:

Segundo ponto: o uso das três guitarras. Que o Iron Maiden nunca soube usar três guitarras ao seu favor, isso não deve ser surpresa para ninguém. Agora, usar uma das guitarras para ficar acompanhando a linha melódica vocal é um claro sinal de falta de criatividade e um desrespeito com o ouvinte. Se usasse em uma faixa, vai lá; agora, essa “guitarra de karaokê”, como foi apelidada, está uma constante no álbum!

Mas nem tudo é ruim no álbum. Certos pontos positivos precisam ser ditos e, mais uma vez, aplaudidos. Primeiro de tudo, o senhor Paul, que se mostrou curado de um câncer na garganta e, mais uma vez, provou o que não precisa ser provado para ninguém. Bruce canta com uma interpretação fora do comum e passeia por várias nuances vocais ao decorrer das faixas. Ao vivo, mesmo com a idade batendo à porta, o vocalista do Iron Maiden é de longe uma das melhores vozes da atualidade e claramente ele se encontra dentro de um rol muito seleto de vozes.

Outro destaque, mais uma vez salvando as cordas, para variar, Adrian Smith continua criativo e versátil. Onde esse cara põe a mão, fica bom! Inclusive, algumas músicas possuem uma base setentista que eu achei um resgate muito interessante. Aquele violão na base de The Writing On The Wall ou no refrão de Time Machine são Uriah Heep puro!

Tracklist

  1. Senjutsu (Smith / Harris) – 08:20
  2. Stratego (Gers / Harris) – 05:00
  3. The Writing On The Wall (Smith / Dickinson) – 06:14
  4. Lost In A Lost World (Harris) – 09:32
  5. Days Of Future Past (Smith / Dickinson) – 04:04
  6. The Time Machine (Gers / Harris) – 07:09
  7. Darkest Hour (Smith / Dickinson) – 07:20
  8. Death Of The Celts (Harris) – 10:20
  9. The Parchment (Harris) – 12:39
  10. Hell On Earth (Harris) – 11:19

Todas as músicas tiveram suas traduções para o japonês e constam no encarte oficial do álbum, com tradução de Moe Iwata, contratado pela banda e que eu não encontrei histórico de quem é esse cara. Mas quem precisa de Moe quando temos José Paulo? Como temos uma enciclopédia musical aqui no blog que ainda por cima fala japonês, é óbvio que eu pedi uma ajuda ao JP, que me ajudou nas traduções e nas pronúncias em japonês do que está no encarte. A imagem está abaixo (até porque eu é que não seria louco de tentar escrever isso). A arte imita uma caligrafia manuscrita, o que dificultou consideravelmente a vida do JP no trabalho das traduções.

A primeira coisa que você (e eu também) precisa aprender é que cada letra japonesa dessa se chama “kanji”, um alfabeto formado de ideogramas. Portanto, não há traduções alguma vezes, já que o ideograma pode simbolizar uma ideia. Esse vocabulário é muito complexo e não é porque a pessoa é japonesa (mesmo que ela saiba falar japonês) que ela saiba ler e escrever em Kanji. Para quem conhece o JP, sabe que ele se desculpou infinitas vezes por qualquer erro que possamos apresentar aqui e que as traduções dele são “amadoras”. Ahããã…

Eu tomei a liberdade de colocar um espaço entre cada kanji, para facilitar a nossa leitura, já que somos mortais do ocidente e não temos domínio nenhum a língua.

Faixa 1: 戦 術

Apesar do dicionário apresentar os termos “estratégia” e “tática” como traduções para Senjutsu, os dois kanjis estão mais para “tática do que para outro significado. Aqui vale uma comparação com a Faixa 2, pois um dos Kanjis se repetem.

Faixa 2: 戦 略 家

O primeiro kanji é igual ao da primeira faixa, porém o próximo kanji se altera. Em japonês essa seria a diferença do significado de “tática” para “estratégia” na forma escrita. Portanto, aqui sim os dois primeiros kanjis significam “estratégia”. O terceiro kanji significa casa / moradia”, (em japonês a pronuncia é “iê”), o que soaria, portanto, como “lar da estratégia”.

Em cima dos kanjis existem outras letras, que são usadas apenas no Japão para escrever palavras estrangeiras ou nomes “inventados”, que não são oriundos do vocabulário japonês. Essas letras são chamados de katakana. No caso, “Stratego” é um nome inventado, não existindo na língua japonesa: ストラテゴ , em japonês se pronuncia “sutoratêgo”. Outro exemplo é o meu nome, Kelsei: ケルセイ que se pronuncia “kerusei”.

Faixa 3: 不 吉 な 予 言 

A tradução seria algo como “a profecia do mau augúrio”. O kanji que significa “muro/parede” (em japonês, “kabê”, 壁) não consta na frase. A leitura é: “fukitsu na yoguen”.

Faixa 4: 失 わ れ た 世 界 で さまよう

A tradução é muito parecida com o título da canção: “vagando em um mundo perdido”. Em japonês a pronúncia seria: “ushinawaretasekai de samayo”.

Faixa 5: 過 ぎ 去つ た 未 来 の日々

A pronúncia em japonês seria: “kagui satsuta mirai no ribi”. Em uma tradução livre seria o título em inglês mesmo.

Faixa 6:タイムマシ-ン

Aqui temos uma frase somente em katakana. Como a palavra “máquina do tempo” não existia na época da Distania Han, quando surgiu o Kanji, ela é escrita em katakana. Nesse caso em específico, temos o termo “máquina do tempo”. Faltou o “The”, que em japonês é ザ. Além disso, aquele tracinho (penúltimo caractere, que parece um hífen) não se aplica. O certo seria assim: ザ タイムマシン

Faixa 7: 漆 黒 の 時

Essa também segue a tradução do inglês. Em japonês pronuncia-se “shikkoku no toki”.

Faixa 8:ケルト人の死

Essa também segue a tradução ao pé da letra. Em japonês: keruto (celta), hito (pessoa) no shi (Morte).

Faixa 9: 羊 皮 紙

Nesse caso como a palavra (Yohishi) “pergaminho” existe no idioma japonês, não é necessário escrevê-la em katakana, porém, ao contrário do que mencionamos na faixa 5, não se usa o “ザ” (the).

Faixa 10:この世 の 地 獄

Também segue a mesma linha de tradução: この, Kono (esse), 世, Sekai (mundo) e 地 獄, Jigoku (inferno).

Da esq. para dir.: Janick Gers (guitarra), Steve Harris (baixo), Bruce Dickinson (vocal), Adrian Smith (guitarra), Dave Murray (guitarra) e Nicko McBrain (bateria).

Faixa a Faixa

Senjutsu é uma montanha russa que você nunca andou, mas que te falaram que é legal. Você vai de tanto que te insistem. Afivele-se, o carrinho vai subir!

O álbum abre com faixa homônima, fortemente calcado na temática japonesa proposta. Antes de qualquer instrumento, ouvimos tambores japoneses conhecidos como “taiko” (que, em tradução literal, é “tambor” em japonês mesmo), amplamente usados na cultura nipônica no que tange comportamentos culturais, teatrais, cerimônias religiosas e, mais voltado para civilizações antigas, ações militares. Senjutsu narra uma população antiga localizada ao Sul sendo atacada por uma população localizada ao Norte. Entre elas, uma muralha. Muito provavelmente a muralha que protege a vida da população sulista. O próprio Bruce questionou Steve, enquanto lia a letra pela primeira vez, se o baixista se referiria a alguma batalha antiga ocorrida na Muralha da China, pois é a “parede” mais conhecida no mundo, sendo que a resposta é um simples “não, é só uma muralha comum mesmo”. Musicalmente, é uma canção bem crescente, que adquire força à medida que avança – isso inclusive é proposital, pois demonstra que no início o exército do norte é um alerta longínquo que cresce à medida que se aproxima da muralha. Essa tensão de batalha também é refletida no avanço dos instrumentos – os solos passam essa ansiedade e o solo final, de Adrian, dá um certo desespero, como se a notas estivessem gritando – até que no final ouvimos chamas, provavelmente do vilarejo sulista, já que é lá que a canção se passa. Não dá para saber quem ganha. A voz de Bruce é claramente o ponto forte da música, mas aqui há também de se destacar a atmosfera criada por todos os instrumentos. De longe, é uma das faixas que mais me agrada.

Na segunda posição, Stratego se aproveita do clima criado em sua antecessora para abrir de maneira mais enérgica e com uma batida de pisada de bumbo muito característica de Nicko. Assinada por Janick Gers, devo dizer que foi uma das melhores composições que o guitarrista trouxe à banda. Se Adrian tivesse solado ela então, sobraria no disco, mas aí é cutucar vespeiro e teorizar. Uma das coisas que mais gosto nessa faixa é que ela tem baixo e ele está em ritmo cavalgado. Já os ecos na voz de Bruce são desnecessários. A letra é narrada por um suposto aluno de arte marcial (ou talvez um aspirante à samurai) que busca aprimorar suas táticas de guerra, aprender a ler seu oponente e se tornar um guerreiro poderoso. O título da canção não é mencionado na letra, mas tem relação direta com uma estratégia para vencer seu inimigo em uma batalha. O nome “stratego” é um jogo, que você muito provavelmente jogou se nasceu da década de 80, como eu aqui, mesmo que em uma versão genérica. É um jogo muito antigo, que vem do século XIX, originário no militarismo japonês (nos dias atuais, Stratego; no início do século XX, L’Attaque (francês) e no século XIX, Shogi (japonês) – deixei abaixo os três jogos, você facilmente notará semelhanças).

Como foi o segundo single de Senjutsu, Stratego tem um belíssimo videoclipe desenhinho:

Começando com um violão com o mizão dropado em Ré, coisa raríssima na banda, The Writing On The Wall, eleito o primeiro single do álbum, é nossa terceira posição. Carregado de influências setentistas na base, tem um belíssimo solo de Adrian Smith que eu mesmo demorei a apreciar. A letra é bem conivente com a história criada para o desenhinho vídeo da faixa, que teve estreia universal no Youtube:

The Writing On The Wall tem seu título retirado de uma passagem bíblica do banquete de Belsazar, o último rei da Babilônia, que descreve uma mensagem escrita na parede que ninguém consegue decifrar e que, na noite de sua solução, Belsazar é assassinado. A passagem bíblica você pode ler aqui.

Entretanto, em inglês, o termo usado no título da canção tem tradução relacionada com “algo que está para acontecer”; e isso é crucial para entender a letra e o vídeo: uma festa restrita para poderosos que matam aqueles proibidos de entrarem, até que chegam os motoqueiros (os diversos Eddies) para acabarem com a festa. A real mensagem da canção é: o sistema corrupto que coloca os ricos no poder e mata os pobres é algo que não se sustentará (a tide of change is coming and that is what you fear / The earthquake is a-coming, but you don’t want to hear, you are just to blind to see). Inclusive os motoqueiros são representações dos quatro cavaleiros do apocalipse (The Four Horsemen – deixei de propósito para o presidente criar um link com o capítulo do Kill’em All), citados no livro das Revelações: “morte” é o Eddie do Killers, “guerra” é o Eddie do Somewhere In Time, “fome” é o Eddie do Powerslave e “peste” é o Eddie do Book Of Souls. Tem um quinto Eddie, o Samurai de Senjutsu, que representa “conquista”, que foi um nome inserido no Novo Testamento e deixou em aberto a interpretação se os quatro cavaleiros do apocalipse não seriam cinco. No blu-ray que acompanha a edição da caixa metálica, tem um vídeo exclusivo do processo de criação da história:

Quarta faixa, Lost In A Lost World realmente te deixa perdidinho. Uma faixa sensacional para estar no Virtual XI. Dois minutos de introdução com violão enquanto Bruce canta com efeito de delay, seis minutos de uma repetição interminável de três frases e um minuto e meio de uma finalização calma (e realmente muito bonita!), único local onde eu aprovei o uso da guitarra seguindo a melodia vocal em todo o álbum. O segundo solo é muito bom e é o que realmente salva (adivinha de quem? Adrian!), mas é pouco para uma canção de quase dez minutos. A letra é uma reflexão da raça humana, que mesmo em gerações passadas, não aceita diferenças entre culturas e acaba por entrar em conflito, chegando a matar-se. Ela é narrada na visão de um povo antigo que vê a terra como um local sagrado, mas que acabará por ser exterminada. O “mundo perdido” é realmente o nosso planeta e a desorientação do narrador é uma auto-reflexão frente ao que sempre aconteceu, agora e em momentos passados, entre guerras, ódio e desrespeito humano.

Days Of Future Past tem uma boa jogada e o chute bate da trave, provocando uma emoção de quase-gol. A canção mais curta do álbum tem um riff que lembra Total Eclipse (mas mais acelerado – Adrian entretanto disse que o criou baseado em um ritmo de Bossa Nova que ele adaptou para um Marshall) e uma energia cativante, além de um excelente solo (adivinha de quem? Do Adriano, claro!). Aí o solo acaba e a música se perde, entrando um clima sombrio e, junto dele, o tal teclado. Se esse interlúdio fosse trabalhado com algum fraseado de guitarra dobrado em terça, mantendo o clima de energia que a canção trazia, seria um golaço! A letra é baseada no personagem de quadrinhos John Constantine (que você conhece de um uma adaptação cinematográfica, com interpretação de Keanu Reeves).

The Time Machine talvez seja a faixa mais previsível do álbum, pois é a única que segue em risca a cartilha do sexteto que você ouve a mesma estrutura musical presente em massa em outros álbuns. Instrumentalmente, ela tem uma sonoridade bem voltada ao Final Frontier. A letra é narrada por uma pessoa velha (notamos isso pelo vocabulário, que possui palavras do inglês arcaico, como “wrought” em wrought with no anger, wrought with no fear, que é o passado antigo do verbo “to work”), que supostamente viajou no tempo e possui histórias para contar, muitas delas perigosas e atormentadas (eerie collection, darkness is there / wedded to danger, betrothed to despair). Entretanto, as histórias são frutos da imaginação do narrador (does it really matter, it’s all in my mind). Inclusive, durante toda a canção, nenhuma história é revelada, ficando o narrador apenas chamando o ouvinte para ouvir algo incrível que não é apresentado. Tem uma frase safada de guitarra iniciando em 03:08 que é exatamente a mesma frase executada na faixa The Book Of Souls em 02:17, só que mais acelerada. Eu já coloquei no post anterior que essa frase nasceu lá em Afraid To Shoot Strangers. É coisa do Gers isso de pegar uma mesma melodia e ficar adaptando-a em diferentes canções

Sétima faixa, Darkest Hour reina soberana como a melhor música de Senjutsu. Um instrumental robusto, excelentes solos (primeira faixa que escrevo isso no plural!) e uma interpretação vocal de arrepiar! A canção fala sobre Winston Churchill, o homem que comandou o Reino Unido em tempos de segunda guerra mundial. Darkest Hour é o nome do filme que narra o início da carreira de primeiro-ministro Churchill (em português, O Destino De Uma Nação). A letra tem alguns versos baseados em versículos da Bíblia e outros termos relacionados à Churchill. Nos versos pré-refrão, por exemplo, “black dog” é como Churchill chamava seu estado de depressão, “six long years” foi a duração da segunda-guerra mundial, se considerarmos 1939 quando Hitler invadiu a Polônia (…and my black dog has its day / for six long years, you shall not pass…) e “Albion” é um termo para se referir à ilha do Reino Unido (you sons of Albion, defend this sacred land), criado por Willian Blake, escritor inglês que Bruce Dickinson bebeu da fonte para escrever hinos tanto no Maiden quanto em carreira solo.

Death of the Celts (em inglês, não pronuncie “celt”; o certo é “kelt”), oitava faixa, talvez tenha a linha de baixo mais expressiva do álbum, com um dedilhado bem progressivo na teimosia do chefe Steve em fazer épicos. Até hoje acho essa faixa uma cópia de The Clansman, pois segue as mesmas ideias (baixo em destaque, guitarrinha com dedilhado bonitinho a la Gers, tecladinho de orquestração de festa infantil, vocal baixo com dez versos – dez! – de letras que não dizem nada – nada! – para acompanhar a melodia e criar aquele clima … ouve lá e me fala). De longe é a faixa mais decepcionante do álbum. Fala sobre a extinção do povo celta, mas com uma letra para lá de insossa.

Penúltima faixa, The Parchment usa das três guitarras! Não precisava de algo com doze minutos para dar espaço aos três guitarristas, mas enfim tivemos Dave, Janick e Adrian protagonizando. Muitas frases intermediárias trazem aquela areia do deserto e lembram muito faixas como The Nomad. Se fossem mais rápidas e enérgicas cairia mais ao meu gosto, mas a ideia aqui era realmente soar meio arábico, pois um Parchment é como se fosse um manuscrito ou pergaminho e logo nas primeiras frases temos “until we read the Parthian skin”, que se refere, portanto, a um documento do império Parta, uma das potências iranianas da Pérsia Antiga (o mapa abaixo mostra onde se localizavam e seu tamanho comparado ao Império Romano). A letra é uma referência a esse povo e eu não parei para estudá-la e relacionar as estrofes com curiosidades da história (e acredito que nem vou fazê-lo tão cedo).

Para fechar o álbum, uma das queridinhas das redes sociais, Hell On Earth, talvez por causa do clima mais feliz que a música leva. Acho ela muito parecida com When The Wild Wind Blows, devido às frases de guitarra que são mais intimistas, estão dentro da mesma escala e usando o mesmo timbre clean. Creio que essa música acaba sendo um destaque porque boa parte das músicas de Senjutsu são muito densas. Gostando ou não, Hell On Earth ganhou uma marca: desbancou Empire Of The Clouds como sendo a faixa do Iron Maiden com a maior introdução instrumental até a entrada vocal (óbvio que aqui não estou considerando as músicas instrumentais) – são 3 minutos e 31 segundos até Bruce entrar. A letra fala sobre como tudo nesse planeta é um inferno e que se pudéssemos ter a oportunidade de voltar após nossa morte para esse mundo, precisaríamos ser melhores e, caso isso não seja possível, nos vemos em um lugar bem melhor do que aqui.

A montanha russa chega ao seu final. Quando a corrida acaba, você solta um “ah, legal, mas já andei em montanhas muito melhores”. Eu tinha já o meu veredito e criei um throw-down com o pessoal do blog para confirmar minha tese, que se mostrou correta: no que tange os álbuns de estúdio do sexteto, Senjutsu é o pior. Acho que o B-Side foi quem melhor se aproximou em conceituá-lo em poucas palavras: um álbum com boas ideias e execuções ruins.

E se você nuuuuuuuuuuunca ouviu Senjustsu, nunca é tarde (isso é, se o Youtube deixar, porque eles estão adorando bloquear os áudios que coloco aqui):

Senjutsu não teve uma turnê específica (não ainda até a publicação desse post). O que a banda fez em 2021 / 2022 foi incorporar as três primeiras faixas do álbum ao set da turnê Legacy Of The Beast, que passou pelo Brasil e lá estávamos nós, pegando até avião! Como você, fã, já sabe, tivemos um cenário de abertura com a temática japonesa para a execução das três primeiras faixas e dois Eddies no palco: um Samurai e um Trooper. Ao vivo, as faixas soaram muito melhores que em estúdio (notei isso nas três apresentações que vi no Brasil – Ribeirão, Rio e Sampa); nelas não foi possível ouvir teclado e os efeitos de voz em Bruce não são tão escancarados quanto o que se ouve no álbum.

A turnê em 2023 já foi anunciada e promete novamente dois Eddies no palco. Agora, Senjutsu dará às mãos ao Somewhere In Time e, novamente, acende a chama da esperança nos fãs para ouvir músicas pouco (ou nada) executadas pela banda, como Sea of Madness e Alexander The Great. Mesmo sabendo que isso não vai acontecer, fica aqui a minha torcida para eles tirarem os mesmo clássicos de sempre, como Fear Of The Dark, do set.

Que os deuses do destino nos permitam um episódio 19!

Beijo nas crianças!

Kelsei Biral



Categorias:Discografias, Iron Maiden

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4 respostas

  1. ALEXANDEEEERRRR THE GREAAAAATTT – vídeo excelente:

    [ ] ‘ s,

    Eduardo.

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